Do governo dos homens: "Novas responsabilidades" do trabalhador e acesso aos conhecimentos

On men government: The workers "new responsibilities" and access to knowledge

Resumos

As atuais mudanças na divisão e organização do trabalho capitalista colocam, como uma das exigências ao trabalhador, o acesso a novos conhecimentos. Buscamos compreender o que é o novo nestas mudanças, e o fazemos através de duas hipóteses. A primeira concerne à mudança de governo do trabalho, ou seja, dos homens como trabalhadores. Este governo não mais se escora na forma taylorista, porém repropõe seu ideal político. A segunda refere-se à vivência pelo trabalhador do acesso aos conhecimentos enquanto profissionalização e/ou qualificação de sua força de trabalho. Desenvolvemos nossas reflexões tanto em nível teórico quanto empírico. Em nível teórico discutimos a política reduzida à instrumentalização, no exercício do governo dos homens, na situação de trabalho. Relacionamos este governo com a concepção do trabalho como uso de si, do homem, como trabalhador. Esta concepção colocou como necessário ouvir os trabalhadores sobre suas atividades de trabalho através de entrevistas. Articulamos este nível empírico e o teórico com as questões do sujeito e do agente social presentes nessas hipóteses.

Subjetividade; política; trabalho como uso de si; (re)qualificação do ser trabalhador; "novas responsabilidades"; profissionalização


The changes on the division and organisation of capitalistic labour demand that workers have access to new knowledge. We try in this article to understand such changes and what is new about them. We do it through the examination of two hypothesis. The first concerns the change on the government of work, that is, the government of men as workers. This new government does not assume a tayloristic form anymore, but it reproposes its political-ideal. The second one refers to the worker's experience regarding the access to knowledge considered a crucial part of his qualification. Our study has been developed both on the theoretical and on the empirical levels. Theoreticaly we discuss politics in it's reducionistic connotation, that is, as an expression of the government of some men over others in the work situation. We related this government to the conception of work in which men as whole being, are used by others as workers. This conception made it necessary to hear workers about their work activities through enterviews. We articulated both the theoretical and the empirical level of the study through the categories of subject and of social agent, which are part of our hypothesis.


Do governo dos homens: "Novas responsabilidades" do trabalhador e acesso aos conhecimentos** O presente artigo é reelaboração do trabalho "Do governo dos homens: `Novas responsabilidades'do trabalhador", apresentado no O presente artigo é reelaboração do trabalho "Do governo dos homens: `Novas responsabilidades'do trabalhador", apresentado no IIèmes Rencontres APST/APRIT (Analyse Pluridisciplinaire des Situations de Travail/Association pour la Promotion des Recherches Interdisciplinaires sur le Travail): Travail et politique: quelles rencontres pour quels savoirs?, Université de Provence, França, de 19-21/7/97 (Auxílio Faep-Unicamp). Esse trabalho foi organizado com base em nossos 1º e 2º relatórios da pesquisa "A (re)qualificação do ser trabalhador: Educação e reeducação moral" (Pós-doutorado-Grupo de Sociologie Politique et Morale-EHESS, Paris, de 9/94 a 2/96: Bolsas Fapesp e CNPq). Nessa versão, foi apresentado no 24º Encontro Nacional de Estudos Rurais e Urbanos (Ceru), FFLCH-USP,em 21/5/97.

Maria Inês Rosa*** O presente artigo é reelaboração do trabalho "Do governo dos homens: `Novas responsabilidades'do trabalhador", apresentado no O presente artigo é reelaboração do trabalho "Do governo dos homens: `Novas responsabilidades'do trabalhador", apresentado no IIèmes Rencontres APST/APRIT (Analyse Pluridisciplinaire des Situations de Travail/Association pour la Promotion des Recherches Interdisciplinaires sur le Travail): Travail et politique: quelles rencontres pour quels savoirs?, Université de Provence, França, de 19-21/7/97 (Auxílio Faep-Unicamp). Esse trabalho foi organizado com base em nossos 1º e 2º relatórios da pesquisa "A (re)qualificação do ser trabalhador: Educação e reeducação moral" (Pós-doutorado-Grupo de Sociologie Politique et Morale-EHESS, Paris, de 9/94 a 2/96: Bolsas Fapesp e CNPq). Nessa versão, foi apresentado no 24º Encontro Nacional de Estudos Rurais e Urbanos (Ceru), FFLCH-USP,em 21/5/97.

RESUMO: As atuais mudanças na divisão e organização do trabalho capitalista colocam, como uma das exigências ao trabalhador, o acesso a novos conhecimentos. Buscamos compreender o que é o novo nestas mudanças, e o fazemos através de duas hipóteses. A primeira concerne à mudança de governo do trabalho, ou seja, dos homens como trabalhadores. Este governo não mais se escora na forma taylorista, porém repropõe seu ideal político. A segunda refere-se à vivência pelo trabalhador do acesso aos conhecimentos enquanto profissionalização e/ou qualificação de sua força de trabalho. Desenvolvemos nossas reflexões tanto em nível teórico quanto empírico. Em nível teórico discutimos a política reduzida à instrumentalização, no exercício do governo dos homens, na situação de trabalho. Relacionamos este governo com a concepção do trabalho como uso de si, do homem, como trabalhador. Esta concepção colocou como necessário ouvir os trabalhadores sobre suas atividades de trabalho através de entrevistas. Articulamos este nível empírico e o teórico com as questões do sujeito e do agente social presentes nessas hipóteses.

Palavras-chave: Subjetividade, política, trabalho como uso de si, (re)qualificação do ser trabalhador, "novas responsabilidades", profissionalização,

Introdução

Estamos considerando duas hipóteses de trabalho para pensarmos as novas divisão e organização de trabalho e as exigências que colocam o trabalhador de acesso a novos conhecimentos.

A primeira hipótese concerne à mudança no governo do trabalho, isto é, no governo dos homens na condição de trabalhador, na situação de trabalho, que, a nosso ver, repropõe o ideal político taylorista. A segunda hipótese diz respeito à vivência pelo trabalhador - operário não-qualificado - do acesso aos novos conhecimentos como profissionalização, ou seja, como qualificação de sua força de trabalho1 1 . Estudos atuais, no Brasil, debruçam-se sobre a questão qualificação e profissionalização da força de trabalho, considerando-a em relação ou não com o ensino, ministrado seja pelo sistema de ensino regular, seja pela empresa. Neste sentido, dentre outros autores, consulte-se: Vários autores: revista Educação e Sociedade, Campinas, Cedes-Papirus, nº 45, ano XIV, agosto de 1993; Hirata, Helena. "Da polarização das qualificações ao modelo da competência". Ferretti, C.; Zibas, D.; Madeira, F.R. e Franco, M.L. (orgs.). Novas tecnologias, trabalho e educação. Um debate multidisciplinar. Petrópolis, Vozes, 1994, pp. 124-184; Leite, Elenice. "Trabalho e qualificação: A classe operária vai à escola". Reestruturación productiva, trabajo y educación in America Latina, Campinas, 1991; Leite, Márcia. "A qualificação reestruturada e os desafios da formação profissional". Novos estudos Cebrap, nº 45, julho-1996, pp. 79-96. . Esta vivência revela o trabalhador como agente, realizando a ação do mencionado governo. A explicitação destas hipóteses se faz pela articulação entre o teórico e o empírico.

Quanto ao nível teórico nos escoramos nos autores H. Arendt, Emmanuel Lévinas, Yves Schwartz e J.J. Courtine e C.Haroche. Já em nível empírico, trazemos duas entrevistas - a de um operário não-qualificado e a do gerente de produção - que foram escolhidas num universo de 25 entrevistas efetuadas com trabalhadores. Destes, 16 são operários distribuídos nas categorias qualificados, semi e não-qualificados, tendo de 1 a mais de 10 anos de trabalho na empresa; 2 são gerentes do setor de Relações Humanas e Treinamento; 1 é gerente de 2 unidades do setor de produção; 1 é supervisor da área de produção; 3 são técnicos cujos trabalhos são diretamente ou não ligados à produção. Estes trabalhadores, alguns já dispensados, desenvolvem suas atividades de trabalho em uma empresa de grande porte do ramo metal mecânico, representativa das novas divisão e organização de trabalho, em curso na indústria brasileira2 2. O universo empírico refere-se à nossa pesquisa de pós-doutorado anteriormente mencionada, a qual desdobrou-se em um outro projeto sob o título "Trajetórias de trabalho: A descartabilidade do trabalhador no desemprego"; nele privilegiaremos a figura do "velho" trabalhador profissional. . Destacamos essas duas entrevistas, realizadas entre o período de 1993-1994, desse universo empírico por considerá-las representativas para o entendimento da problemática presente nas hipóteses mencionadas. Elas, como explicitação de discursos singulares, revelam a construção de um dever ser do homem como trabalhador, ou seja, de um ideal de trabalhador requerido pela nova organização de trabalho, que se estrutura em torno de representações. Estas têm sua eficácia e validade para além do momento social que as constituem em virtude de, dentre outros aspectos, se fundarem em sentidos (valores) que orientam as ações humanas. Guardam, pois, os depoimentos obtidos pelas entrevistas a sua atualidade como material empírico analítico da nova organização do trabalho e das exigências que colocam para os trabalhadores de acesso a novos conhecimentos.

Governo dos homens e trabalho como uso de si

Antes de apresentarmos a articulação entre o nível teórico e o empírico, esclarecemos sobre o primeiro nível o que entendemos por governo dos homens e sua articulação com a questão do sujeito e a do agente e a diferenciação entre ambas as questões. Relacionamos este entendimento com a conceituação do trabalho como uso de si (l'usage de soi) e não execução.

O termo governo dos homens é "velho" conhecido no interior da filosofia política e na área das ciências sociais, particularmente no campo de conhecimento da teoria política. Entretanto, o trazemos aqui a partir do campo de conhecimento da filosofia política, através das reflexões efetuadas por H. Arendt. Para esta autora, falar em governo dos homens remete a "um conceito de governo, isto é, à noção de que os homens só podem viver juntos, de maneira legítima e política, quando alguns têm o direito de comandar e os demais são forçados a obedecer" (1981, p. 234). Isto porque se escora em uma tradição da filosofia política, já com Platão, que reduziu a política à instrumentalização, ao dissociar a ação do pensar, ou seja, ação e discurso. E o fez em face da própria especificidade da política, a qual é ação realizada no e pelo convívio humano - na pluralidade e nas diferenças singulares de cada sujeito. Como tal, iniciada a ação não se tem como controlar seus efeitos; não se tem como desfazer o que ela começou, colocando permanentemente os imponderáveis e os acasos, ou seja, o desconhecido e, por isso mesmo, incita a capacidade dos homens a reiniciarem sempre a ação e, portanto, o novo, ou seja, a liberdade dos homens na construção do bem comum. Está-se, pois, no âmago de uma expressão da política que é realização, que se dá pela não separação da ação e do pensar, revelando o novo e não visando um fim. A tradição da filosofia política, com aquele autor, substitui esta especificidade da política, dela fazendo um meio para dado fim, qual seja, capturar, controlar, dirigir, antecipar o novo, cujos efeitos são o interdito à liberdade humana, isto é, ao convívio dos homens pela pluralidade e suas singularidades, realização mesma da democracia. Assim, esta realização como experiência possível é substituída, segundo a autora, pelo ato de fabricação que se coloca sempre um determinado fim a ser alcançado. Fazendo-se da ação ou da política ato de fabricação, instaura-se a separação do agir e pensar e, com ela, os termos governantes e governados, ou seja, a prática do conceito do governo dos homens, que, conforme salientado, confere o direito de alguns poucos homens agir e pensar no lugar de muitos - de comandá-los -, forçando-os à obediência e à submissão (Arendt 1981, pp. 232-242). Evita-se a política e no seu lugar tem-se a administração, a gestão ou o governo dos homens.

J-J. Courtine e C. Haroche, com base na concepção de poder foucauldiano e apoiando-se na noção de civilidade de N. Elias, apontam ser o governo dos homens a produção de novas regras e usos de organização dos comportamentos dos homens no sentido de direcioná-los a assumirem para si mesmo a obediência e submissão. Sob este aspecto, eles praticam estas regras e usos, expressando-os em suas ações cotidianas, como governo de si. Em uma palavra, os homens agem segundo os ditames do governo dos homens. Desse modo, o termo governo de si equivale à noção e prática deste governo como constituição da subjetividade ou de dada civilidade em uma configuração histórica específica.

Saliente-se que, para estes autores, a centralidade deste governo está no poder, enquanto que para Arendt está na redução da política à instrumentalidade, que inibe e interdita o poder. Esta autora considera o poder como a própria liberdade humana de reiniciar a ação e, portanto, realizar a pluralidade e as singularidades dos homens no convívio entre si, na esfera pública, revelando-se o sujeito, quem ele é, que designa, ao mesmo tempo, o que ele é. Quem ele é exprime o sujeito, enquanto o que ele é concerne à expressão do agente (p. 194-200). Ora, a política reduzida à instrumentalidade e sendo nela central o poder produtor de novas regras e usos da organização dos comportamentos dos homens, tenta capturar o sujeito - sua subjetividade - nesta dupla revelação. Busca (re)qualificar seu dever ser, no caso do homem na condição de trabalhador. Isto é, produzir um ideal de trabalhador requerido pela Nova Organização do Trabalho (NOT).

Acreditamos que se pode apreender esta prática instrumental, positiva na linguagem foucaultiana, do poder através das "novas responsabilidades" que a NOT coloca ao trabalhador, as quais exprimem uma nova forma de governo dos homens nas situações de trabalho. Nesse contexto, o trabalho é uso de si, "isto quer dizer que ele é o lugar de um problema, de uma tensão problemática, de um espaço de possíveis a negociar: não há execução, mas uso, e isto supõe um espectro contínuo de modalidades. É o indivíduo em seu ser que é convocado (...) mesmo se este apelo pode ser globalmente esterilizante em relação aos virtuais individuais. Há uma demanda especificada e incontornável feita a uma entidade da qual se supõe de alguma maneira uma livre disposição de um capital pessoal. Tal é a justificação da palavra "uso" e tal é aqui a forma indiscutível da manifestação de um "sujeito". Esta manifestação, a nosso ver, escapa aos enquadramentos desse governo pois que é também o uso de si por si mesmo, o qual como destaca este autor, "traz a marca do que é para o homem a herança da vida nele". (Schwartz 1992, p. 53 e 57, grifos e tradução da autora)

O trabalho como uso de si aponta para a prática instrumentalizada da política. E aqui o trabalhador revela-se como o agente mediante, o que é dele esperado. Assim, ele exprime as novas obrigações requeridas pela NOT como "novas responsabilidades". Porém, também quem ele é se revela no uso de si por si mesmo, abrindo para uma outra prática de política que comporta o desconhecido, os imponderáveis e acasos, incitando-o ao novo. E isto, acreditamos, "é para o homem a herança da vida nele", constitutiva de sua subjetividade, que não é capturável por nenhuma forma de governo e, portanto, a política reduzida à instrumentalização, ou seja, ao poder em sua positividade.3 2. O universo empírico refere-se à nossa pesquisa de pós-doutorado anteriormente mencionada, a qual desdobrou-se em um outro projeto sob o título "Trajetórias de trabalho: A descartabilidade do trabalhador no desemprego"; nele privilegiaremos a figura do "velho" trabalhador profissional. Esta impossibilidade de capturar o sujeito expressa os limites mesmo ao poder na produção de novas regras e usos de organização dos comportamentos dos homens visando sua sujeição.4 4. Michel Foucault, em seus estudos sobre o poder e o sujeito, apresenta o poder tendo duplo caráter e/ou racionalidade: a negativa e a positiva. A primeira, seu exercício dá-se pela repressão, os interditos, sendo da ordem da lei. Já a segunda, sua prática se dá pela tomada do corpo (do homem) como objeto de conhecimento, onde saber e poder se fazem um pelo outro e, por isso mesmo, não (re)conhece limites. Assumimos estas interpretações do poder em nossa pesquisa de doutorado, citada na nota 13. Porém, estamos reconsiderando-a conforme estamos assinalando no presente artigo, graças, sobretudo, às leituras de Emmanuel Lévinas, particularmente de seu belo livro Totalité et Infini, Paris, Martinus Nijhoff/La Haye, 1961, onde o autor tem como um dos referentes a crítica à filosofia ocidental que, já com Platão, centra -se no eu nele fundindo e subordinando outrem, desconsiderando que este último o transcende. Permanece sempre em aberto a realização da liberdade, no sentido arendtiano, sendo possível somente pela pluralidade e pelas diferenças singulares de cada sujeito. Sua realização é, também, a própria impossibilidade de o sujeito centrar-se em si mesmo, como se dele tudo emanasse e a ele retornasse. Esta impossibilidade apresenta-se como uma espécie de ordenamento ético ao sujeito e exprime "o fato que ninguém pode responder em seu lugar" (Levinas 1994, p. 67, tradução da autora), malgrado o governo dos homens na busca de comandá-los e dirigi-los, colocando-se em seus lugares e, portanto, designando-se como o sujeito, aqueles que o praticam na qualidade de governantes.

Governo dos homens como trabalhadores: Nova organização do trabalho e reproposição do ideal político taylorista

F.W. Taylor constatara a necessidade, segundo suas próprias palavras, de "completa revolução na atitude mental e nos hábitos de todos os comportamentos da direção como também dos operários" para o governo dos homens como trabalhadores, expresso no que nomeou de gerência "científica". Mudar os comportamentos dos homens como trabalhadores, eis o ideal político taylorista. Mediante este ideal buscou-se a produção de novas regras e usos de organização dos comportamentos dos homens, direcionando-os para assumirem como próprias a obediência e a sujeição, finalidades específicas deste governo, na situação de trabalho, para a consecução da racionalidade econômica capitalista.5 5. Cf. M.I. Rosa. Op.cit., pp. 156-158, onde apresentamos a mudança do modo de trabalhar do operário Schmidt enquanto produção de seu dever ser moral pelas relações de trabalho como relações de poder, em seu caráter positivo. Evidencia-se o caráter instrumental da política, cujos resultados visados se constituiriam na prática de um governo que os trabalhadores efetuariam sobre si mesmos, fundante nestas finalidades.

A forma de governo proposta por Taylor, a partir deste ideal político, depreende-se pelos métodos de trabalho e de sua organização. Ela se exprime, de modo lapidar, na situação de trabalho de carregamento do ferro. O operário Schmidt mudara a quantidade/dia de carregamento de ferro gusa (aumentar a de 12,5 para 47 toneladas) porque praticara o governo de si mesmo pelo cumprimento das novas regras e usos de seu comportamento. Em outras palavras, colocava em prática "novas exigências" internas aos novos métodos de organização e divisão de "seu" trabalho e o uso de si na condição de trabalhador.

Neste uso é o ser do trabalhador que é convocado (Schwartz 1992) a todo momento por estas "exigências" tidas como obrigações, visto ser um dever de cada trabalhador cumpri-las, tanto como regras antecipadoras de seu desempenho quanto de seu comportamento. Regras estas, portanto, organizando um dever ser do homem como trabalhador, cujas representações se constituíam em um ideal de ser que deveria agir (executar), não pensar, simplesmente obedecer.

Hoje, a nosso ver, está em curso uma nova forma de governo dos homens, nas situações de trabalho, pelo sistema de trabalho integrado ou flexível, que repropõe o ideal político taylorista. Tenta-se novamente (re)qualificar o ser trabalhador, ou seja, produzir um ideal ou um dever ser, porém, em oposição ao anterior. Pressupõe-se que aquela representação do homem na condição de trabalhador submetido às regras antecipadoras, de fato, realizou-se pelo governo do trabalho taylorista. (Schwartz 1981 e 1997) Em outras palavras, como se o homem, na condição de trabalhador, tivesse sua subjetividade esmiuçada, esquadrinhada, dirigida, controlada, em suma, capturada, sob este governo, e realizado o ideal de ser que somente executa e outros pensam por ele. Isto implica que, sob a NOT, não mais haveria este ideal como dever ser do trabalhador, mas sim o de um ser que une a ação e o pensar, em nome de "saber ser responsável". Isto pode ser depreendido na ênfase dada pelo gerente geral de duas unidades produtivas da fábrica para a aprendizagem do trabalhador semi ou não-qualificado, exigida pelo sistema de trabalho integrado ou flexível da NOT:

Dentro de uma célula poder operar todas as máquinas daquela célula, ser responsável pela qualidade do seu produto, inspecionando o produto e, ao mesmo tempo, já começando a fazer as primeiras atuações em termos de manutenção, pequenas manutenções: troca de óleo, limpeza da máquina, verificar se não tem nenhuma vibração (as máquinas); se as correias estão apertadas, se os parafusos principais estão apertados. Esse tipo de coisa a gente chama hoje de manutenção produtiva. (Gerente geral; grifos nossos.)

"Ser responsável" em nome da obtenção da qualidade do que se produz é a realização nos atos de trabalho de novas obrigações, expressas como responsabilidades, que devem ser cumpridas pelos trabalhadores, no caso os do setor de produção da seção de usinagem. Cada trabalhador, no cumprimento das obrigações, vai aprendendo a ser multifuncional ou flexível ou polivalente, executando múltiplos trabalhos: os de inspeção e os da manutenção produtiva. Pretende-se, que, no futuro, e próximo, novas obrigações sejam cumpridas concernentes às da desmontagem da máquina, efetuando, desse modo, o trabalhador a manutenção preventiva total (TPM). Assim, amplia-se o campo de trabalho do trabalhador em nome do "ser responsável" e/ou "saber ser responsável", ou seja, "é o indivíduo em seu ser que é convocado", no uso de si na nova forma de governo do trabalho.

Acompanhemos esta convocação através das palavras do gerente geral:

Envolver as pessoas, não manipulá-las (...) de tal modo que a pessoa possa chegar aonde você quer (...). A primeira coisa para você envolver os seus trabalhadores é começar a escutá-los ou ouvi-los (...) entender que a pessoa que está lá oito horas por dia fazendo aquele serviço entende melhor do que qualquer engenheiro, qualquer diretor, qualquer gerente (...). O envolvimento começaria exatamente aí: a gente escutar os operadores, funcionários mais baixos. E, exatamente, buscar idéias, reconhecer essas idéias, aplicar essas idéias (...) porque hoje, você num ambiente competitivo como nós estamos onde você tem que falar em competitividade em termos de preços e, portanto, implica em reduções de custos, as idéias de redução de custos tem que vir dessas pessoas que... que executam a tarefa todo dia. Ela, melhor do que ninguém, sabe aonde a gente pode modificar, transformar custos em benefícios. Então, eu acho que o envolvimento exatamente é isso. É você conseguir que as pessoas dêem sugestões e façam melhorias sem ter nenhum benefício em termos monetários, mas simplesmente tendo um reconhecimento e dando feedback ou então pondo em execução aquilo que o operador sugeriu. E essa mudança (...) tem que modificar toda a cabeça das pessoas (...) e ninguém espera prêmio monetário, simplesmente é o reconhecimento e o poder de participar e de alterar alguma coisa dentro da empresa, quer dizer a valorização da pessoa. (Gerente geral; grifos nossos.)

Chama-nos atenção a reiteração do termo pessoa pelo gerente geral ao se referir à mudança de mentalidade do trabalhador: "Tem que modificar toda a cabeça das pessoas". E isto porque são as convocações em qualquer governo dos homens, e aqui como trabalhadores, dirigidas, como salientado, ao "indivíduo em seu ser", ao existente6 5. Cf. M.I. Rosa. Op.cit., pp. 156-158, onde apresentamos a mudança do modo de trabalhar do operário Schmidt enquanto produção de seu dever ser moral pelas relações de trabalho como relações de poder, em seu caráter positivo. , à "herança da vida" que nele existe, tentando capturá-lo pelos novos métodos de trabalho. Esta tentativa se exprime no trabalho como uso de si, do homem como trabalhador, por meio do qual se busca interditar os possíveis usos que ele, em sua singularidade, possa fazer de si mesmo. Mediante este interdito se intenta que o trabalhador objetive este governo como seu próprio governo, isto é, como o governo de si. Desse modo, por meio destas convocações efetivam-se o reconhecimento das capacidades intelectuais e o conhecimento de cada trabalhador nas atividades de trabalho que realiza. Daí a ênfase, pelo gerente geral, de que ele "entende melhor do que qualquer engenheiro" ou ainda "as idéias de redução de custos têm que vir dessas pessoas que... executam a tarefa todo dia", o que conduziria o trabalhador a envolver-se e a participar no que faz, segundo os ditames requeridos pelo sistema de trabalho flexível ou integrado.

Destaque-se que esta nova direção do governo dos homens como trabalhadores, diferentemente da forma taylorista, faz virem à luz, para melhor direcioná-la e controlá-la, as capacidades de intervenção, as microescolhas, a solidariedade - política e moral - entre os trabalhadores e as regras que criam, a partir das já existentes, as prescritivas de suas atividades.7 7. Schwartz, Y. Op. cit., pp. 757ss. Em sua visita como professor-visitante ao Brasil, sob nossa coordenação (auxílio CNPq), nas conferências proferidas, o autor trouxe também a distinção entre normas antecipadoras (Pólo I) e as não-antecipadoras (Pólo II), estas últimas criadas pelo trabalhador a partir das primeiras e de sua experiência. Esta distinção remete também à clássica questão teoria e prática. Destacamos a conferência "Ensino e Trabalho", proferida na Faculdade de Educação, Unicamp, em 24/4/1997. Por isso, busca-se, segundo depreende-se das palavras do gerente geral, (re)conhecer o entendimento que tem o trabalhador de suas atividades. Circula, então, um ideal ou dever ser trabalhador como aquele que pensa e age em oposição àquele que teria existido sob o taylorismo, que deveria ser executante, cumpridor das regras e dos métodos de trabalho. Entretanto, quer sob a modalidade de governo taylorista, quer sob a atual, visa-se capturar o que é da ordem da subjetividade do homem como trabalhador, ou seja, estas capacidades e criação - sinergias, tanto individuais quanto coletivas. Elas produzem e reproduzem, dia-a-dia na situação de trabalho, uma outra eficiência produtiva em relação à prescrita pela direção da empresa. (Schwartz 1981 e 1997) Desse modo, no regime de trabalho capitalista, quer em suas formas de governo já existentes quer na atual, visa-se apreender e aprisionar estas sinergias pela normatização das atividades de trabalho concretas - o trabalho real -, através de regras antecipadoras e prescritivas. Em outras palavras, as convocações ao "indivíduo em seu ser", ao existente, se fazem tentando capturar o elemento moral e político, o elemento não-técnico, interno aos conhecimentos e experiências dos trabalhadores no uso de si por si mesmo: uma cooperação não prescrita, materializada em alianças no interior da equipe de trabalho (Schwartz 1992, pp. 49-50), expressão da ação e discurso dos trabalhadores. Pode-se dizer, que é a liberdade, isto é, a política de realização do poder de cada homem - do sujeito - em reiniciar o novo e convencionar forma de convívio que contemple a pluralidade e as singularidades, que se intenta controlar e sempre re-direcionar. Visam-se assim que não se realizem a autonomia individual e sinergias que dela decorre neste convívio. Então, mais uma vez, é a democracia, como experiência possível, que está sendo interditada como o foi na forma de governo do trabalho taylorista. Busca-se, pois, a permanência da herança da filosofia política que separa a ação e o discurso.

"Mudar a mentalidade" ou "tem que modificar toda a cabeça das pessoas" são palavras do gerente geral que exprimem o mesmo sentido das de F.W. Taylor, quando este afirma a necessidade da "completa revolução na atitude mental e nos hábitos de todos os comportamentos da direção como também dos operários"; significam o exercício de interdito à autonomia e à realização da experiência da democracia. Esta interdição se constituiu no ideal político da forma de governo do trabalho taylorista, sendo hoje reproposto pelo novo governo dos homens na condição de trabalhador. Contudo, saliente-se ser o exercício desta interdição impossível pois, como já reiterado, a ele escapa o uso de si por si mesmo que se faz cada homem, na situação de trabalho. Além disso, este uso comporta tanto os acasos, os imponderáveis, o desconhecido, as variabilidades da ação, quanto a presença destes aspectos nos atos das atividades industriosas do trabalho. (Schwartz 1981, pp. 777-779)

Vivência das novas obrigações como profissionalização: Do agente social

A gente está trabalhando nessa primeira máquina aqui, talvez por ela ser muito veloz ela deixa uma quantidade de estoque aqui, você está entendendo? Aí não tem operador, a gente pega e deixa essa primeira máquina, vai trabalhar nessa outra aqui. E assim a produção sai a mesma coisa e com pouco mão-de-obra. Já fala célula que é pra reduzir bastante a mão-de-obra. (Operador de célula de manufatura)

Este trabalhador refere-se à reorganização do trabalho sob o sistema de célula. Anteriormente, o trabalho se organizava pelo sistema de linha e haviam, no setor de produção, 25 trabalhadores por turno. Após esta reorganização existem 8 para cada um dos dois turnos. Isto é possível graças ao uso de si do trabalhador de célula de manufatura de modo multifuncional, conduzindo-o a exercer sem interrupção os atos de trabalhos de uma máquina para outra, de modo diverso e integrado. Realiza o trabalhador a versatilidade do trabalho, assinalada por K. Marx (1971, pp. 47-48), operando ora uma, ora outra máquina. Intenta-se que ele aja como se em relação de fusão com o instrumento de trabalho, operado também de modo flexível. Além disso, este sistema de trabalho, escorado na "equipe", convoca e incita cada trabalhador ao cumprimento das novas obrigações, as quais são internas a este sistema. Deste modo,

hoje com este sistema o próprio operador chega e pega as ferramentas (no almoxarifado mediante o plano de trabalho apresentado ao processista e por este revisado). Pega o ferramental da máquina certa que tem que ser mudada. É uma rapidez bem precisa. Sempre é eu que separa os ferramental porque a hora que o operador está trabalhando na máquina ele está terminando o x (nomeia a peça). Então, na hora da troca, eutenho que estar com o ferramental pronto pra ele já ir desmontando e trocando. A gente sempre trabalha assim (...) se eu faltar o outro está preparado para fazer esse serviço (separação e auxílio de troca de ferramental), qualquer operador que trabalhe lá dentro (...) tem que operar toda a célula; tem que estar ...precisa... tem que estar habilitado pra trabalhar a célula inteira, operador e preparador ao mesmo tempo. É isso que todos nós fazemos. Só que não estamos habilitados ainda pra fazer esse tipo de serviço, estão aprendendo (Operador de célula de man.) (Grifos nossos).

As palavras destacadas assinalam as novas obrigações ou as novas regras e os nossos usos dos comportamentos dos homens - de seu governo - como trabalhadores. E quando o trabalhador diz "só que não estamos habilitados ainda pra fazer esse tipo de serviço, estão aprendendo", ele exprime as convocações a si - a seu ser - para a realização destas novas obrigações enquanto novas responsabilidades mediante este governo.

Estas convocações se concretizam em "estão aprendendo" a operar as máquinas multifuncionais, a executar a inspeção e a manutenção preventiva, a trabalhar em "equipe", de modo multifuncional (flexível) e integrado e a limpar a máquina bem como fazer a faxina geral da célula. Elas também se concretizam, segundo dados coletados pelas entrevistas, na aprendizagem de cursos de Metrologia I e II, Desenho I e II, Matemática I e II, no Centro Operacional da empresa. Em geral, estes cursos são ministrados por operários selecionados pela chefia, nomeados de instrutores. Além destes cursos, o trabalhador efetua o supletivo, as três últimas séries do 1º grau e o 2º grau em uma escola particular a qual a empresa mantém convênio. Esta escola organiza o horário do curso de acordo com o horário de turnos da empresa. Tanto este curso como os demais são ministrados após a jornada de trabalho.

Acesso aos conhecimentos: Sujeito e agente social

Chama-nos atenção a ênfase dada pelo trabalhador ao aprender, acedendo, assim, novos conhecimentos. Por isso, diz "só que não estamos habilitados ainda pra fazer esse tipo de serviço, estão aprendendo". Acompanhemos este acesso:

O próprio operador ele se acha assim melhor, mesmo sendo assim pressionado, a trabalhar nesse sistema (de trabalho integrado ou flexível). Ele acha melhor porque o campo de trabalho dele lá fora vai aumentar muito e lá dentro também. Quer dizer (...) tudo vai ser melhor porque ele vai estar habilitado a trabalhar em tudo; trabalhar em outra máquina, qualquer máquina em outra fábrica, sem dúvida. Em função disso não há reclamação porque tem vantagem pra gente isso daí. Mesmo trabalhando mais, tem mais vantagem do que o sistema antigo (o sistema de trabalho em linha) (...) é que a gente está aprendendo cada vez mais... na parte de estudo também melhorou muito lá na "X". Porque a "X", em si, se você pegar um grupo de funcionários lá dentro, de estudo o nível é muito baixo na parte de operador. Muitos que tem lá tem o primário, e o sistema de trabalho exige estudo lá dentro. (...) essa mudança trouxe vantagem muito pra gente porque a gente tanto subiu lá dentro assim em termo de trabalho, de habilitação do trabalho como também na parte teórica subiu bastante o nível das pessoas. (Operador de célula de man.) (Grifos nossos.)

O trabalhador reitera, expressando de maneiras diferentes, o que vimos destacando, isto é, seu acesso a novos conhecimentos. Por isso, afirma que "tudo vai ser melhor porque ele vai estar habilitado"; "a gente está aprendendo"; "e o sistema de trabalho exige estudo"; "lá dentro, assim em termos (...) de habilitação do trabalho como também na parte teórica subiu bastante o nível". Esta vivência não é somente dele, mas de todos os trabalhadores, daí estender além de si ambos os acessos quando a exprime pelos termos "ele", "a gente", "as pessoas". É também por meio do acesso aos conhecimentos, até então por ele não apropriados, que o trabalhador situa as "novas responsabilidades" - obrigações - num plano hierárquico superior em relação às anteriores do antigo sistema de trabalho de linha, quando diz "essa mudança trouxe vantagem muito pra gente".

Todavia, neste acesso e nesta vivência que o convoca em seu ser, o trabalhador cumpre as obrigações ou exigências do novo governo de si como profissionalização. Por isso, diz que "o próprio operador ele se acha assim melhor, mesmo sendo assim pressionado, a trabalhar nesse sistema" (de trabalho integrado ou flexível) ou ainda quando se refere que "em função disso não há reclamação porque tem vantagem pra gente isso daí". Nesse cumprimento, o trabalhador exprime o que é dele esperado: é o agente social portador dos efeitos políticos em si - em seu ser - deste novo governo. Enquanto tal pratica as novas regras de organização e uso de seu comportamento pelo sistema de trabalho integrado. Porém, também é o sujeito e, por isso mesmo, objeto deste governo, sendo por ele constantemente convocado. Desse modo, é em sua existência de sujeito se fazendo como agente social que o trabalhador vivencia o aprender, o estudar - o acesso a novos conhecimentos - como profissionalização. Por isso afirma:

Porque esse sistema antigo (de linha) a gente não tinha muito chance de aprender lá dentro porque existia o preparador, o chefe, o líder; se você trabalhasse numa máquina só era aquela máquina que podia trabalhar (...) só apertava os botão da máquina, quem fazia a troca tudo (preparação da máquina e troca de ferramental) era o preparador, em outra então era o chefe. Então você não tinha noção de nada, nada, nada. (Grifos nossos.)

Buscar aprender, em sua trajetória de trabalhador-assalariado8 8. Confrontar nota 2 que se refere ao universo empírico de nossa pesquisa. Durante o transcurso das entrevistas exploramos as trajetórias de trabalho, e quando o entrevistado era migrante, fizemos a entrevista com base nesta condição. , é diversas vezes reiterado pelo operário mesmo quando ele reconhece a ampliação e a intensificação do uso de si pelo novo governo, no sistema de trabalho de célula: "mesmo trabalhando mais, tem mais vantagem do que o sistema antigo (de linha) (...) a gente está aprendendo lá cada vez mais... na parte de estudo também melhorou muito lá na "X" (...) a gente tanto subiu lá dentro assim em termos (...) de habilitação do trabalho como também na parte teórica (...)".

Esta busca em aprender pelo trabalhador se aponta à sua condição de agente; assinala também que o trabalhador persegue um outro conhecimento/experiência, o dos elementos não-técnicos - o elemento moral e político - não-capturáveis e não-formalizáveis virtualmente presentes no acesso aos conhecimentos por meio dos quais acede à profissionalização. É o uso de si por si - seu autogoverno - que se faz presente nesta busca, apesar de submetido ao trabalho como uso de si.

Este desdobramento interno do acesso ao conhecimento assinala a permanente tensão e luta, na situação de trabalho, em se buscar controlar, dirigir, organizar, coordenar, supervisionar os elementos morais e político sob forma de códigos, regras, leis, normas, antecipadores e prescrivitivos das atividades. Contudo, felizmente esta busca é vã porque ela se situa em um campo híbrido (Schwartz 1991), entre experiência e conhecimento, onde a formalização das atividades industriosas do homem através da linguagem é expressão da própria impossibilidade de enquadrar, regular, dirigir os legados individuais e coletivos. E estes elementos morais e político compreendem estes legados, enquanto patrimônio cultural acumulado. E o ideal-político taylorista exprime a onipotência e, portanto, a impotência buscando realizar esta impossibilidade. E, hoje, o novo governo dos homens como trabalhadores mediante a NOT tenta repropor este ideal e, portanto, tenta o exercício desta onipotência/impotência.

Permenece, assim, sempre em aberto o uso que poderá vir a fazer o trabalhador, e não somente o operário entrevistado, do acesso tanto às atividades de trabalho industriosas do homem, quanto às atividades de trabalho prescritas pelo novo governo de si, na situação de trabalho. Isto significa que se é o trabalhador o agente social explicitando sua sujeição no governo de si pela profissionalização, ao cumprir as novas obrigações como "novas responsabilidades", este existir9 9. Inspiro-me aqui em E. Lévinas, obras citadas. não é unívoco. Pois também revela quem ele é pelo uso de si por si mesmo, que é da ordem da subjetividade que "traz a marca do que é para o homem a herança da vida nele" (confrontar Schwartz 1992 e Lévinas 1994). E, como já salientado, a subjetividade não é capturável por nenhuma forma de governo por mais que nela seja recorrente o recurso à instrumentalização da política. Desse modo, é recorrente também que toda e qualquer situação de trabalho é o "lugar de um problema, de uma tensão problemática, de um espaço de possíveis sempre a negociar" (confrontar Schwartz 1992), convocando intermitantemente o "indivíduo em seu ser", a subjetividade.

Neste lugar são trazidas e se desenrolam histórias singulares, como a do operário que nos trouxe alguns de seus aspectos em seu depoimento. No depoimento dele há a aspiração (Schwartz 1981, pp. 834-837) de acesso ao saber formalizável e não-formalizável, ou seja, ao conhecimento e à experiência que ultrapassam os da situação imediata de trabalho, por isso diz: "é então você não tinha noção de nada, nada, nada"; "na parte teórica subiu bastante o nível". Está sempre presente a experiência possível que o trabalhador possa vir a realizar deste acesso bem como se ele entreterá um outro governo de si pelo uso de si por si mesmo. Está-se, pois, no âmago da ação e do discurso, da política e da subjetividade, que como sabemos são da ordem do imponderável, do desconhecido, da liberdade de (re)iniciar, realizando o novo. Este contexto se enuncia quando o trabalhador diz: "Jamais um operário permanece diante de sua máquina pensando: eu faço o que me dizem".10 9. Inspiro-me aqui em E. Lévinas, obras citadas.

Acreditamos poder afirmar que é sempre provisória a (re)qualificação do ser trabalhador - a expressão da subjetividade do homem como trabalhador, malgrado a política, reduzida à instrumentalização, tentar constantemente capturá-la pelo governo dos homens, na sociedade moderna. Pois, como salientado, o homem, na condição ou não de trabalhador, é construído pelas relações sociais, revelando quem ele é e não somente o que é dele esperado como o agente que porta os atributos do dever ser. E nesta revelação ele realiza a ação e o discurso - a política -, buscando criar uma nova forma de sociabilidade que não a instrumental pelo uso de si.

Notas

3. Referimo-nos ao referencial foucaultiano do poder, desenvolvido em nossa pesquisa de doutorado, publicada sob o título "Trabalho, Subjetividade e Poder". São Paulo, Edusp-Letras & Letras, 1994 (particularmente capítulos 2 e 4).

6. Lévinas, E. De L'existence à l'existant. Paris, J-Vrin, 1993. Aqui o autor tece a diferença entre existência e existente, que, a nosso ver, remete à questão do sujeito.

10. Schwartz, Y. Idem, ibidem. Fala trazida por G. Canguilhem, na apresentação deste livro, na página 21.

On men government: The workers "new responsibilities" and access to knowledge

ABSTRACT: The changes on the division and organisation of capitalistic labour demand that workers have access to new knowledge. We try in this article to understand such changes and what is new about them. We do it through the examination of two hypothesis. The first concerns the change on the government of work, that is, the government of men as workers. This new government does not assume a tayloristic form anymore, but it reproposes its political-ideal. The second one refers to the worker's experience regarding the access to knowledge considered a crucial part of his qualification. Our study has been developed both on the theoretical and on the empirical levels. Theoreticaly we discuss politics in it's reducionistic connotation, that is, as an expression of the government of some men over others in the work situation. We related this government to the conception of work in which men as whole being, are used by others as workers. This conception made it necessary to hear workers about their work activities through enterviews. We articulated both the theoretical and the empirical level of the study through the categories of subject and of social agent, which are part of our hypothesis.

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Educação & Sociedade, ano XIX, nº 64, setembro/98

** Professora-FE-UNICAMP. Grupo de Estudo Multidisciplinar, Trabalho, Cultura, Educação, Grupo Entre-linhas. Estudos de História Oral.

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  • Travail et philosophie. Convocations mutuelles. Toulouse, Octares, 1992; (org.). Reconnaissances du travail. Pour une approche ergologique. Paris, PUF, 1997.

  • 1
    . Estudos atuais, no Brasil, debruçam-se sobre a questão qualificação e profissionalização da força de trabalho, considerando-a em relação ou não com o ensino, ministrado seja pelo sistema de ensino regular, seja pela empresa. Neste sentido, dentre outros autores, consulte-se: Vários autores: revista
    Educação e Sociedade, Campinas, Cedes-Papirus, nº 45, ano XIV, agosto de 1993; Hirata, Helena. "Da polarização das qualificações ao modelo da competência". Ferretti, C.; Zibas, D.; Madeira, F.R. e Franco, M.L. (orgs.).
    Novas
    tecnologias, trabalho e educação. Um debate multidisciplinar. Petrópolis, Vozes, 1994, pp. 124-184; Leite, Elenice. "Trabalho e qualificação: A classe operária vai à escola".
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  • 2.
    O universo empírico refere-se à nossa pesquisa de pós-doutorado anteriormente mencionada, a qual desdobrou-se em um outro projeto sob o título "Trajetórias de trabalho: A descartabilidade do trabalhador no desemprego"; nele privilegiaremos a figura do "velho" trabalhador profissional.
  • 4.
    Michel Foucault, em seus estudos sobre o poder e o sujeito, apresenta o poder tendo duplo caráter e/ou racionalidade: a negativa e a positiva. A primeira, seu exercício dá-se pela repressão, os interditos, sendo da ordem da lei. Já a segunda, sua prática se dá pela tomada do corpo (do homem) como objeto de conhecimento, onde saber e poder se fazem um pelo outro e, por isso mesmo, não (re)conhece limites. Assumimos estas interpretações do poder em nossa pesquisa de doutorado, citada na nota 13. Porém, estamos reconsiderando-a conforme estamos assinalando no presente artigo, graças, sobretudo, às leituras de Emmanuel Lévinas, particularmente de seu belo livro
    Totalité et Infini, Paris, Martinus Nijhoff/La Haye, 1961, onde o autor tem como um dos referentes a crítica à filosofia ocidental que, já com Platão, centra -se no
    eu nele fundindo e subordinando
    outrem, desconsiderando que este último o transcende.
  • 5.
    Cf. M.I. Rosa.
    Op.cit., pp. 156-158, onde apresentamos a mudança do modo de trabalhar do operário Schmidt enquanto produção de seu
    dever ser moral pelas relações de trabalho como relações de poder, em seu caráter positivo.
  • 7.
    Schwartz, Y.
    Op. cit., pp. 757ss. Em sua visita como professor-visitante ao Brasil, sob nossa coordenação (auxílio CNPq), nas conferências proferidas, o autor trouxe também a distinção entre normas antecipadoras (Pólo I) e as não-antecipadoras (Pólo II), estas últimas criadas pelo trabalhador a partir das primeiras e de sua experiência. Esta distinção remete também à clássica questão teoria e prática. Destacamos a conferência "Ensino e Trabalho", proferida na Faculdade de Educação, Unicamp, em 24/4/1997.
  • 8.
    Confrontar nota 2 que se refere ao universo empírico de nossa pesquisa. Durante o transcurso das entrevistas exploramos as trajetórias de trabalho, e quando o entrevistado era migrante, fizemos a entrevista com base nesta condição.
  • 9.
    Inspiro-me aqui em E. Lévinas, obras citadas.
  • * O presente artigo é reelaboração do trabalho "Do governo dos homens: `Novas responsabilidades'do trabalhador", apresentado no
    O presente artigo é reelaboração do trabalho "Do governo dos homens: `Novas responsabilidades'do trabalhador", apresentado no IIèmes Rencontres APST/APRIT (Analyse Pluridisciplinaire des Situations de Travail/Association pour la Promotion des Recherches Interdisciplinaires sur le Travail): Travail et politique: quelles rencontres pour quels savoirs?, Université de Provence, França, de 19-21/7/97 (Auxílio Faep-Unicamp). Esse trabalho foi organizado com base em nossos 1º e 2º relatórios da pesquisa "A (re)qualificação do ser trabalhador: Educação e reeducação moral" (Pós-doutorado-Grupo de Sociologie Politique et Morale-EHESS, Paris, de 9/94 a 2/96: Bolsas Fapesp e CNPq). Nessa versão, foi apresentado no 24º Encontro Nacional de Estudos Rurais e Urbanos (Ceru), FFLCH-USP,em 21/5/97.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Maio 1999
  • Data do Fascículo
    Set 1998
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