Editorial

Editorial

Ao longo dos últimos anos Educação & Sociedade tem publicado, de modo sistemático, artigos sobre as complexas relações entre práticas e políticas educacionais, por um lado, e as gigantescas mutações socio-econômicas que transtornam o mundo neste fim de milênio. Nossos volumes têm sido quase que obsessivamente freqüentados por temas como analfabetismo funcional, qualificação, relações entre educação e transformações no mundo produtivo.

Também nessa mesma direção, nosso leitor pode verificar que, desde seu número 56 (dezembro de 1996), E&S presta contas das atividades de pesquisa do CEDES, centradas exatamente no projeto "Ciência e Tecnologia, Qualificação e Produção".

Neste número, dando continuidade a essa linha editorial, publicamos artigos que voltam a focalizar essa problemática. Entre os artigos, Elba Barreto aponta virtudes e limites do programa de capacitação à distância para docentes do ensino fundamental, coordenado pelo Ministério da Educação e Cultura do Brasil (MEC). Em detalhado e polêmico artigo, Celso Ferreti focaliza a formação profissional e a reforma do ensino técnico, analisando criticamente, em particular, as proposições recentes de órgãos governamentais (Ministério da Educação e Ministério do Trabalho), apresentadas sobretudo no documento Reforma do Ensino Técnico.

O exame de Ferretti – centrado nas relações entre formação geral e formação específica e nas mudanças no ensino médio – parte de duas advertências iniciais. Em primeiro lugar, apela ao cuidado para com leituras apressadas das transformações em curso (notadamente a propalada substituição de paradigmas no mundo produtivo) – chamando atenção para as pesadas conseqüências políticas derivadas dessa pressa. Em segundo lugar, afirma a necessidade de relativizar as ligações entre tecnologia e qualificação, ponderando os limites das relações causais, diretas e lineares, entre progresso técnico, inovações tecnológicas, mudança nos conteúdos e processos de trabalho e qualificação profissional. Também o estabelecimento acrítico de tais relações tem conseqüências práticas bastante graves e altamente questionáveis.

Chamamos ainda atenção para outro aspecto destacado explicitamente por esse polêmico artigo: o papel central atribuído aos recursos humanos no processo de adoção e implantação dos paradigmas que se assentam sobre o binômio flexibilidade e integração.

Curiosamente, lembra Ferreti, a importância atribuída à educação é com freqüência reafirmada pelo negativo: os diagnósticos sobre a baixa qualidade da educação básica. A educação é, muitas vezes, apontada, em estudos acadêmicos ecoados na mídia, como culpada pelo atraso, pela pobreza e pela "baixa competitividade". Simetricamente, é apontada como a virtual responsável pela promoção do desenvolvimento econômico, a distribuição de renda e a elevação dos padrões de qualidade de vida. Não nos parece abuso lembrar que há milhares de anos somos chamados a comprar essas duas mercadorias casadas: sentimento de culpa e promessas de redenção.

Não se trata de negar a desejabilidade da universalização do ensino, nem a melhoria de seu nível, mas de questionar a expectativa que se associa a tal política: a "falsa expectativa de que à maior escolaridade e à maior capacitação profissional correspondem, necessariamente, maiores e melhores oportunidades no mercado de trabalho". São indevidamente conferidos ao sistema educacional poderes que dependem, em ampla e decisiva medida, de aspectos estruturais do mercado. Talvez ainda mais grave ainda é o efeito da tentadora e ambígua noção de "empregabilidade", que implica transferir ao trabalhador a responsabilidade pela não-contratação, isto é, em última análise, pela não existência do posto de trabalho... um horror ideológico que um livro recente, de Viviane Forrester, identificou com cores tão fortes no Horror econômico de nossos dias.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Jun 2001
  • Data do Fascículo
    Ago 1997
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