Educação, literatura e cultura da infância: compreendendo o folclore infantil em Florestan Fernandes

Education, literature and the culture of childhood: understanding children's folklore in Florestan Fernandes

Éducation, littérature et culture de l'enfance: la comprehension du folklore infantile chez Florestan Fernandes

Resumos

A proposta deste artigo nasce da busca por uma postura pedagógica que propicie a inclusão efetiva do folclore nas escolas, bem como a consequente pluralidade de saberes que daí advém como processo de significação do passado no presente. Propomos assim uma poética da linguagem que enfatize a relação entre o folclore e a literatura na cultura da infância. Tomamos como suporte teórico as reflexões do sociólogo e educador Florestan Fernandes, que tratou o folclore como primeiro tema de pesquisa na sua trajetória discente e docente na Faculdade de Filosofia em São Paulo.

Folclore; Literatura; Cultura infantil


This article's proposal originates from the search for a pedagogical path which could not only foster the effective inclusion of folklore in schools but also the consequent plurality of knowledge stemming from the process of signification of the past in the present. We thus propose a poetics of the language that emphasizes the relation between folklore and literature in the culture of childhood. The theoretical support for the proposal is based on the reflections of the sociologist and educator Florestan Fernandes who dealt with folklore as his first research topic in his learning and teaching trajectory in the Faculty of Philosophy in São Paulo.

Folklore; Literature; Culture of childhood


La proposition de cet article vient de la quête d'une position pédagogique qui rend possible l'inclusion effective du folklore dans les écoles, aussi bien que la pluralité de savoirs qui y apparaît comme procédure de signification du passé dans le présent. Nous proposons ainsi une poétique du langage qui souligne la relation entre le folklore et la littérature dans la culture de l'enfance. Nous prenons comme support théorique les réflexions du sociologue et éducateur Florestan Fernandes, qui a abordé le folklore comme son premier sujet de recherche dans sa trajectoire comme enseignant dans la Faculté de Philosophie à São Paulo.

Folklore; Littérature; Culture infantile


ARTIGOS

Éducation, littérature et culture de l'enfance: la comprehension du folklore infantile chez Florestan Fernandes

Patrícia de Cassia Pereira Porto

Departamento de Tecnologias e Linguagens da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Seropédica (RJ) - Brasil. Contato com a autora: <patriciadecassiaporto@gmail.com>

RESUMO

A proposta deste artigo nasce da busca por uma postura pedagógica que propicie a inclusão efetiva do folclore nas escolas, bem como a consequente pluralidade de saberes que daí advém como processo de significação do passado no presente. Propomos assim uma poética da linguagem que enfatize a relação entre o folclore e a literatura na cultura da infância. Tomamos como suporte teórico as reflexões do sociólogo e educador Florestan Fernandes, que tratou o folclore como primeiro tema de pesquisa na sua trajetória discente e docente na Faculdade de Filosofia em São Paulo.

Palavras-chave: Folclore. Literatura. Cultura infantil.

ABSTRACT

This article's proposal originates from the search for a pedagogical path which could not only foster the effective inclusion of folklore in schools but also the consequent plurality of knowledge stemming from the process of signification of the past in the present. We thus propose a poetics of the language that emphasizes the relation between folklore and literature in the culture of childhood. The theoretical support for the proposal is based on the reflections of the sociologist and educator Florestan Fernandes who dealt with folklore as his first research topic in his learning and teaching trajectory in the Faculty of Philosophy in São Paulo.

Key words: Folklore. Literature. Culture of childhood.

RÉSUMÉ

La proposition de cet article vient de la quête d'une position pédagogique qui rend possible l'inclusion effective du folklore dans les écoles, aussi bien que la pluralité de savoirs qui y apparaît comme procédure de signification du passé dans le présent. Nous proposons ainsi une poétique du langage qui souligne la relation entre le folklore et la littérature dans la culture de l'enfance. Nous prenons comme support théorique les réflexions du sociologue et éducateur Florestan Fernandes, qui a abordé le folklore comme son premier sujet de recherche dans sa trajectoire comme enseignant dans la Faculté de Philosophie à São Paulo.

Mots-clés: Folklore. Littérature. Culture infantile.

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de

nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. [...]

Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

(Mário de Andrade)

Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre

fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a

autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa,

com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como

narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas

a pais e netos. O que foi feito de tudo isso?

(Walter Benjamin)

Introdução

As sociedades antigas, durante séculos, criaram mitos diversos em busca de explicações para as perguntas, para as tantas curiosidades que iam surgindo na mente dos homens, das mulheres e das crianças. Para a origem da vida na terra houve em línguas e povos distintos a invenção do mito da criação, e desta e de outras invenções foram surgindo histórias que povoam até hoje nosso imaginário. Essas histórias, antes do advento da escrita, eram contadas através da comunicação oral, através dos menestréis, dos contadores arcaicos e cantadores de versos, através dos mais velhos que traziam de uma sabedoria milenar os provérbios que aparecem como síntese da cultura oral do povo. A voz do povo também é a voz da identidade nacional. Há um universo de histórias individuais que se multiplicam e se cruzam na formação de um contexto memorialístico coletivo; na formação de uma cidade, um país. E de tempos em tempos reivindicamos os nossos mitos, as nossas narrativas coletivas.

Há um ponto de interseção ente literatura e folclore que é desvelado pela cultura oral popular. Esta que traz em seu cerne uma "cultura literária" própria, uma cultura de "povo", que se fazia e se faz pela "oralidade" através das adivinhas, dos adágios, das trocinhas, das parlendas, das ladainhas, da contação ou narração de histórias. O termo literatura "popular" se origina também do conceito de "cultura" que, etimologicamente, provém do latim colere e que serve para designar as duas ações do cultivo: cultivar e colher. Quando pensamos em cultura, cultivar já carrega na criação do ato o produto da própria criação em semente: cultivar e colher o fazer para criar o saber.

Foi na busca por uma compreensão que problematizasse uma possibilidade de entrecruzamento entre literatura e folclore, bem como suas relações com a língua e a linguagem, que me propus, mesmo que de forma introdutória, a uma possível aproximação dialógica com o pensamento do sociológico e educador Florestan Fernandes, aqui no que concerne ao estudo do folclore infantil, buscando sempre uma interface com a literatura, principalmente a literatura oral.

Dessa forma, dialogando com os escritos de Florestan, a primeira questão sobre a qual me debrucei dizia respeito ao lugar do folclore nas escolas, nas salas de aula e nos textos. O texto é pensado aqui para além do registro: "texto em sentido amplo, designando toda e qualquer manifestação da capacidade textual do ser humano" (FÁVERO; KOCK, 1983, p. 25).

Se nos perguntarmos por qual porta tem entrado o folclore nas escolas brasileiras, poderíamos ousar responder que até hoje, século XXI, certamente ainda não seria pela porta da frente. Talvez entre até pela fresta de uma janela, aqui e acolá nas subversões feitas às normas curriculares. O folclore como tema de relevância cultural e social é tratado ainda de forma insipiente nas reuniões e mesas de debates entre os educadores e, na mesma proporção ou desproporção, nas tentativas e possibilidades de problematização dos processos que o fundamentam e dos elementos que o constituem; o folclore que é hoje também parte da cultura contemporânea ou ainda fruto da cultura de todos os tempos. Como o significamos a partir de um mesmo solo já gasto, o folclore aparece como a manifestação ou expressão das tradições populares, passada de geração em geração; requentada, reduzida e às vezes pré-conceituosa definição presente nos livros didáticos. E parte dessa representação parece até ter saído da fonte das falas de Emília, quando, por exemplo, a boneca de pano de Monteiro Lobato (1957, p. 30) refere-se às histórias de Tia Nastácia:

Pois cá comigo - disse Emília - só aturo estas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras - coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto!1 1 . Difícil será em qualquer tempo polemizar com Monteiro Lobato. Contudo, acredito que pensar a "literatura infantil lobatiana" por essa postura crítica é uma forma também de homenageá-lo. É ser um pouco Emília.

Sabemos que, por sua especificidade social e cultural constitutiva, a temática do folclore mereceria, sem dúvida, maior atenção e envolvimento dos educadores com um fazer pesquisa na e com a escola que, unindo teoria e prática, desvelasse a multivalência desse tema para a compreensão daquilo que passou a se chamar comumente de "bagagem cultural" do aluno e, no caso específico deste texto, da criança.

Entretanto, mesmo com todo reconhecimento atual do folclore como temática de pesquisa de fundamental importância para compreensão do que é a cultura popular provinda da arte e do trabalho do povo, bastariam poucas incursões nas escolas para nos certificarmos de que a concepção de folclore, na maioria das vezes, ainda se restringe ao calendário das efemérides, visto como "obrigação curricular", o que se configurou e se estendeu, a partir do discurso retirado dos Parâmetros Curriculares Nacionais, onde o folclore aparece inserido no tema transversal "Pluralidade Cultural".

Dito isso, no que se refere ao âmbito escolar e à cultura infantil, poderíamos dimensionar o folclore a um campo de manifestações da "cultura de folk", a que se reinventa com matizes outras pelas novas práticas culturais. Criam-se assim questionamentos importantes, sem dúvida. E é preciso tomar distância para expressar o que fala próximo a uma cultura que ainda se faz presente em muitas das brincadeiras infantis? Ou o folclore se diluiu ou tomou pra si outros elementos culturais, sobretudo os urbanos, tornando-se assim não mais possível dissociar do diálogo o que é da cultura de massa e o que é da cultura tradicional?

O folclore pode até correr o risco de tornar-se um lugar distante, num passado longínquo, sem conexão com o presente e o brincar das crianças. Podemos compreender que o folclore não está somente na "busca por um tempo perdido". Ele, reinventado, está nas expressões culturais e nas representações sociais do nosso cotidiano presente. Está também nos cartazes criados pelas professoras e pelas crianças.

Ainda que nos centros urbanos e embora já se distanciando de seu caráter originalmente rural, o folclore faz parte das mudanças sociais quando surge ressignificado pelas novas manifestações culturais. Florestan Fernandes (1998, p. 56) nos diz que:

[...] as manifestações folclóricas podem ser sobrevivências de um passado mais ou menos remoto. Nem por isso elas devem ser concebidas como algo universalmente vazio de interesses ou de utilidades para os seres humanos. Reciprocamente, as manifestações folclóricas podem inserir-se entre os elementos mais persistentes e visíveis de certas formas de atuação social.

Dessa maneira, Florestan Fernandes acreditava na possibilidade de se pensar o folclore a partir de sua significância cultural, como parte viva da memória de uma comunidade, de uma cidade, de um país. É essa parte da tradição cultural que, séculos depois, diante da massificação de uma cultura agora civilizada, ainda sobrevive frente às tantas mudanças urbanas. E o que interessa na análise sociológica de Florestan Fernandes é que essa tradição não apenas sobrevive, mas ela também toma parte nessa mudança social. Ela também se transmuta. Segundo o sociólogo, não bastaria ao pesquisador do folclore apenas buscar fósseis de culturas já adormecidas e catalogá-las em coletâneas ou antologias. Mais que isso, precisaria ele estar atento às dinâmicas dos elementos culturais encontrados nos diferentes grupos sociais que vivenciam, reinventando e ressignificando o folclore a cada novo contexto.

As décadas de 1920 e 1930 foram de extrema importância no que concernia ao estudo e inserção de temas folclóricos na literatura brasileira. Muitos foram os que se aproximaram dessa temática, como Monteiro Lobato e os modernistas de 1922 e, entre eles, sem dúvida, com maior ênfase, o literato, musicista e folclorista Mário de Andrade. E tanto Monteiro Lobato quanto Mário de Andrade, salvaguardando as diferenças intelectuais, mantiveram intensa correspondência sobre a questão do folclore com o etnógrafo e o folclorista Luís da Câmara Cascudo, um dos grandes defensores do conceito de "literatura oral".

Entre os modernistas, vale ressaltar novamente a importância de Mário de Andrade ao propor essa confluência entre o popular e o erudito. O Macunaíma de Mário de Andrade é tão fortemente constituído por elementos folclóricos que, num dado momento, salta o herói do personagem literário, personificando-se na imagem carnavalizada e representativa de uma forma de "ser brasileiro" através de um "herói coletivo", um herói às avessas. "Macunaíma vira a Ursa Maior. Nesse sentido, sua conduta desconhece os padrões de comportamento habituais - por ser herói mítico, mas principalmente por ser brasileiro e culturalmente híbrido" (FERNANDES, 2003, p. 177). Nosso herói que, não tendo "nenhum caráter", desmistifica a identificação pela cultura elitizada dos heróis oficiais - para ser, num fato lúdico e transgressor, Macunaíma na vida. Florestan nos diz que:

Mário de Andrade vai compondo lentamente o seu herói e ao mesmo tempo um compêndio de folclore - Macunaíma é uma introdução ao folclore brasileiro, a mais agradável que se poderia imaginar. Nele pode-se estudar a contribuição folclórica do branco, do negro, do índio, a função modificadora e criadora dos mestiços e dos imigrantes, as lendas, os contos, a paremiologia, as pegas, os acalantos, a escatologia, as práticas mágicas - da magia branca e da magia negra - , todo o folclore brasileiro, enfim, num corte horizontal de mestre. É um mosaico, uma síntese viva e uma biografia humanizada do folclore de nossa terra. (Ibid., p. 178)

Para Florestan, atuante foi a presença de Mário de Andrade em relação às análises das questões históricas e sociais brasileiras, enfatizada sempre pela busca por dialogar com a temática da identidade nacional e da arte popular, arte que habita e hospeda formas de fazer literatura, de fazer cultura, de fazer música, de fazer história, entre outras. Pegando de empréstimo as palavras de Cecília Meireles (1983, p. 90-92):

Foi essa riqueza humana (essa capacidade de compreender e sentir) que fez de Mário um poeta, um músico, um folclorista. Esse desejo de participação, esse entusiasmo de viver não uma, não a sua, mas inúmeras vidas levaram-no até esse desdobramento do Macunaíma, tão misturadas ao Bem e ao Mal, tão entregues à experiência terrena e sem fim: "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta...". Basta ler os seus livros para se sentir o gosto com que ele os escrevia: gosto bem diferente do de um simples escritor; gosto do homem interessado pelo que viveu, ou sentiu em redor de si, e desejou fixar com palavras [...]. Na sua coleta de folclore, não é apenas um especialista que vemos prestar ouvido à melodia, captar a cantiga de texto ingênuo: é Mário mergulhando na música, impregnando-se de música, transformando-se em música e transmitindo-se com aquela voz, prisioneiro daquele encantamento de caçador deslumbrado que, por um momento esquecido de seu ofício, põe-se a correr também ao ritmo das vidas que palpitam na floresta, e ele mesmo é toda a floresta.

Então, é pela capacidade humana de pensar e sentir que a arte, a ciência, a cultura, a política, a linguagem, a literatura, enfim todo o conhecimento "controlado" e restrito à esfera da dominação deveria estar "de fato" ao alcance de todos. Pois os "grupos subalternos" podem transformar o que chamam de realidade através da prática e da reflexão de um conhecimento comunitário. E são esses saberes democratizados, que provêm de uma determinada concepção de mundo, que podem tirá-los do isolamento, podem mobilizá-los, uni-los e confortá-los nas angústias frente às incertezas e algures do mundo. Não seria, neste caso, a linguagem entrecruzada por outros tantos conhecimentos, como os da literatura e do folclore, fundamental via de acesso à produção do conhecimento crítico?

Creio que tanto Mário de Andrade quanto Florestan Fernandes buscaram compreender a arte folclórica como um elemento efetivo nos processos de mudança social na cidade de São Paulo e no Brasil. E isso aparece tanto nas análises sociológicas propostas por Florestan, quanto nas contribuições não apenas literárias, mas de caráter curioso, investigativo, desenvolvidas por Mário de Andrade em vários de seus estudos sobre a arte folclórica. E se pensarmos em paixão pelo saber e fazer, o folclore certamente esteve para Mario de Andrade assim como a sociologia esteve para Florestan Fernandes: "quase amor".2 2 . Assim Mário de Andrade chamava o que sentia pelo povo e o folclore brasileiro (FERNANDES, 2003, p. 169).

O folclore infantil em Florestan Fernandes

Afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei, pelas vias da experiência concreta, no conhecimento do que é a convivência humana e a sociedade. (FERNANDES, 1980, p. 142)

[...] para um recém-egresso dos quadros mentais da cultura de folk, aquela pesquisa era fascinante. Eu lancei-me a ela com um alvoroço de um primeiro amor. (Idem, 2003, p. 161)

Florestan Fernandes nasceu em São Paulo a 22 de julho de 1920. De origem muito humilde, filho de uma costureira do Brás, conheceu o mundo do trabalho ainda muito cedo, aos 6 anos de idade. E como ele próprio afirma, se deu na infância o seu primeiro contato com a dura realidade concreta "do que é a convivência humana e a sociedade", esta realidade marcada pela injustiça social e pela desigualdade entre os homens.

Para aqueles que descendem das classes mais baixas a infância será marcada pela expectativa de inúmeras superações, intempéries e todos os déficits de formação, decorrentes da distância abissal entre as camadas mais pobres e as mais privilegiadas deste país. Mas, ainda assim, não podemos, numa visão reducionista, deixar de considerar a capacidade de subversão do que pode parecer "destino definitivo", afinal é justamente na infância que mora a primeira possibilidade de transgressão de lugar, de superação e não aceitação do factum; o primeiro lugar de escolha e materialização da existência, do ser-no-mundo e do ser-com-o-mundo.

Tampouco podemos desconsiderar que a experiência concreta de uma dura realidade social vivida desde a infância não se torne ela própria também responsável por uma visão de mundo mais à derme dessa realidade e, consequentemente, mais sensível a essa realidade. Mas também é essa experiência que cria em nós o desejo, o projeto de transgressão do determinismo de origem. Foi o que Fernandes viveu - o pensamento sobre a sociedade brasileira, a princípio, à derme e à flor da sua infância; depois, à flor da execução de suas escolhas, de sua trajetória e existência. Como nas palavras de Antônio Cândido (2001, p. 65), que nos conta do caminho de vida aberto pelo sociólogo:

Falando de Florestan Fernandes, é preciso assinalar que, além da obra de sociólogo e da ação de intelectual empenhado nos problemas do tempo, além da atividade de professor, de formador de equipe, de criador de rumos na teoria e na investigação, ele realizou outra obra não menos admirável: a construção de si mesmo.

Quem leu as entrevistas em que conta a sua infância e a sua adolescência, as duras batalhas travadas para sair da mais extrema pobreza e alcançar posições elevadas, impondo-se à opinião culta do país e do estrangeiro; quem leu tais entrevistas sabe de que esferas partiu e a que esferas chegou. Mas talvez não avalie o trabalho consciente de aperfeiçoamento pessoal, sob todos os aspectos, que caracterizou a sua vida.

Com efeito, armado desde menino na campanha da sobrevivência difícil, ele manifestou frequentemente a sua energia por meio da combatividade e da intransigência dos lutadores íntegros, animados pelo "orgulho selvagem" - bela fórmula com que definiu a ele e a sua mãe, a indomável dona Maria Fernandes, sobreviverem e vencerem o mundo adverso.

Por isso, a trajetória humana e acadêmica do sociólogo Florestan Fernandes nos instiga a um "querer saber" que é ao mesmo tempo dinâmico e potencializador, "querer saber" que precisa se fazer ação criativa, poiesis e práxis, transformação na luta contra as artimanhas de um tipo de discurso estéril que esvazia de sentido qualquer possibilidade de reflexão; discurso que se dissemina, internalizado por muitos que deixam de acreditar numa educação com esperança e para as mudanças, de uma educação que conjuga fatos e emoções, objetividade e subjetividade.

O pensamento crítico e a ação mobilizadora são, de fato, possibilidades significativas e efetivas de intervenção na realidade social. É necessário, pois, que o discurso da mudança parta do pensamento e de um "sentimento" de mudança, de um desejo de mudança aliado à ação da mudança. Mas, como nos ensina Paulo Freire, não se faz isso sem assumir riscos, sem que nos arrisquemos, até mesmo perdendo parte daquela falsa segurança, daquele conhecido conformismo que nos protege da aventura e do sonho ou da dissipação "de tudo", que nos protege do compromisso, do engajamento na ação transformadora.

Por essa razão torna-se mesmo inegável a contribuição de Florestan Fernandes aos campos da sociologia e da educação no Brasil. E creio ser significativo notar que, mesmo mantendo a sociologia como base de sua fundamentação e sustentação teórica, o que se refletiu em toda sua contribuição acadêmica, Florestan Fernandes não se limitou a uma monocultura temática, não se restringiu a um único campo do conhecimento sociológico, o que, aliás, pode ser visto como qualidade inerente à sua notável inquietude e capacidade intelectual. E é nesse contexto e a partir de experiências diversas, datam de 1941 a 1962, que surge uma série de textos sobre o estudo sociológico do folclore, textos que foram reunidos e posteriormente publicados nos livros Folclore e mudança social na cidade de São Paulo (1979, 1ª ed.) e O folclore em questão (1977, 1ª ed.). Estes estudos fizeram parte principalmente de um período de formação em que o sociólogo paulistano ainda iniciava suas primeiras pesquisas nas ciências sociais, passando, nesse ínterim, de aluno de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em 1941, a segundo assistente na cadeira de Sociologia II na Universidade de São Paulo, em 1945.

Nesse primeiro período de estudo, Florestan Fernandes desenvolveu um intenso trabalho de pesquisa na cidade de São Paulo. E dessa fase vale ressaltar a importante contribuição empírica de um estudo sobre "a arte popular", principalmente no que diz respeito à criação de uma análise crítica que, debruçada sobre uma sociologia do folclore, se amplia e se potencializa no chamamento para uma teorização de caráter investigativo, esta centrada numa perspectiva prático-metodológica, ressaltando por sua vez "o folclore" como relevante campo de conhecimento e pesquisa sociológica. Nota-se, desde então, a objetividade e o rigor que Florestan Fernandes buscava empregar nesse fazer metodológico. É com ele que nasce então uma forma de reflexão metodológica que resulta num "fazer sociológico", este que, ao legitimar a pesquisa, é também legitimado por ela. Este movimento se amplia e se modifica nas décadas seguintes e pode ser compreendido como umas das singularidades de um intelectual que buscou respeitar, sobretudo, as suas próprias mudanças com seus movimentos internos.

A década de 1940, marcada pelo primeiro momento mais significativo de estudo e formação de Florestan Fernandes, pode ser descrita pela "construção do saber", mas penso que também possa imprimir à década "a construção de um fazer: um fazer sociologia", a construção que nas pesquisas e textos do sociólogo se evidencia num singular intercruzamento metodológico: de um lado, uma incontestável experiência empírica e, do outro, um enriquecedor universo de referências culturais da sociedade brasileira. Essa malha teórico-prática vai se refletir no olhar crítico e rigoroso do pesquisador para questões nodais da realidade social.

Contextualizando aquele momento de formação, é interessante ressaltar "a metodologia" adotada por Florestan Fernandes no trabalho realizado com pequenos grupos e comunidades. Sobre essa escolha, mais tarde ele próprio vai confirmar

[...] ser o melhor expediente para levar o aluno a refletir sociologicamente e aprender o respeito pelos dados de fato, a compreender e praticar a objetividade, a descobrir a utilidade dos conceitos e teorias sociológicas, a perceber o valor das hipóteses e dos critérios pelos quais elas podem ser submetidas à prova, a adquirir habilidades na identificação, classificação e tratamento analítico das evidências relevantes para a descrição e interpretação dos fenômenos considerados, a capacitar-se para lidar com a totalidade e a construir tipos etc. (FERNANDES, 1963, p. 70-71)

Nota-se a preocupação do pesquisador com uma possível contaminação de elementos não objetivos que pudessem enfim criar uma episteme difusa, desviando o foco sociológico. Contudo, no caminho da compreensão dessa metodologia, nos permitimos convergir em alguns pontos e divergir em outros, sem retirar, é claro, o homem do seu contexto. Até porque eram "outros tempos" e, partindo daquele contexto e daquela possibilidade de referencial metodológico, trabalhando com as comunidades paulistanas, Florestan Fernandes enfocou e "investigou" o folclore como parte significativa de formação cultural e também como elemento de mudança social. E é a aventura e o engajamento de Florestan nessa pesquisa com o folclore que a tornam ainda mais significativa que qualquer ruído de não identificação metodológica. Isso porque, qualquer que seja a nossa escolha, ela será sempre em si - includente e excludente.

Dessa fase de formação, talvez o texto mais exemplificativo seja As trocinhas do Bom Retiro (1979),3 3 . Com ele, participou do concurso "Temas Brasileiros", instituído pelo Departamento de Cultura do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. A primeira publicação é do ano de 1944. uma pesquisa da fase inicial da vida universitária de Florestan Fernandes. Para ele (1979, p. 161), "esse pequeno trabalho" representou uma passagem da iniciação didática para a iniciação científica e, nas suas palavras, ele lhe devia, em termos de aprendizagem, muito mais do que ficara devendo aos cursos frequentados anteriormente.

Como bem disse Roger Bastide (1979, p. 134), no prefácio que faz a este significativo texto para o estudo do folclore brasileiro, "não se pode compreender a cultura, separando-a do grupo social que ela exprime". Para Bastide, o folclore não era uma simples curiosidade ou um trabalho de erudição, mas sim ciência do homem, e sendo ciência do homem não poderia portanto esquecer o homem e, no caso da pesquisa com grupos infantis, não poderia esquecer "a criança que brinca" (idem, p. 154).

Na pesquisa com os grupos infantis, Florestan Fernandes elaborou uma metodologia de observação que não se esgota numa única "realidade vista", mas que se amplia quando na aproximação dessa realidade, abre um campo de distanciamento com o equilíbrio de quem tem o olhar do pesquisador e a lente da pesquisa. Despindo-se do excesso de expectativas lançadas a priori, desvela, de fato, o universo das brincadeiras infantis a partir do universo brincante das crianças, sem carregá-lo assim também de respostas prévias. Como pesquisador da cultura infantil, era importante para ele que, ao observar as brincadeiras das crianças, fossem levadas em conta as características próprias do mundo infantil. Afirmava, pois, existir uma cultura infantil constituída por elementos culturais quase que exclusivamente das crianças. Estes, caracterizados por uma natureza lúdica, seriam elementos folclóricos, passados aos grupos infantis muito remotamente (FERNANDES, op. cit., p. 171). Segundo ele, quase toda totalidade desses elementos provinham da cultura do adulto numa espécie mais de incorporação que de mimetismo, o que acabava por se constituir num processo de aceitação e continuidade no tempo. Mas Florestan ressaltou também que era possível encontrar "outros elementos" na cultura do grupo infantil, elementos provenientes da criação de um patrimônio cultural próprio.

Partindo dessa leitura de Florestan Fernandes, consigo acreditar ainda mais que as crianças tragam e guardem em si mesmas a herança de um velho mundo, um mistério lúdico qualquer que, ao ultrapassar a possibilidade do registro adulto, renasça somente nelas, feito semente do que houve de passado. Cada criança seria então "um patrimônio histórico e cultural da humanidade", precisando dessa forma cada uma receber o zelo necessário para com o seu presente e futuro.

Para Florestan era a partir da junção dos elementos culturais, os aceitos da cultura do adulto e também os elementos elaborados pela própria cultura infantil, que as crianças, na interação com os aspectos culturais do adulto, acrescentariam a essa interação, pensada aqui também como simulação do real, uma dinâmica muito singular, numa lógica pertencente apenas ao universo referencial do grupo infantil, que nas brincadeiras socializa brinquedos e experiências. Então haveria sempre algo de novo nas brincadeiras infantis, aquilo que se repete continuamente, mas de forma sempre diferente. Florestan diz que os folguedos, por exemplo, não seriam apenas a imitação do adulto por parte da criança, pois esta não estaria copiando quem quer que seja em seus folguedos, mesmo porque estes pertenceriam ao patrimônio cultural do grupo e já estariam suficientemente despersonalizados, pela duração no tempo e pelas transmissões sucessivas (FERNANDES, 1979).

Exemplo dado pelo pesquisador para confirmar a apropriação dos elementos da cultura do adulto, esta modificada pelos elementos referenciais da cultura infantil, poderia ser encontrado nos folguedos "Papai e Mamãe", no qual "[...] a criança não imita o pai ou a mãe, mas executa as funções que lhes são atribuídas por sua posição e pelos seus papéis sociais, segundo a padronização da cultura ambiente" (ibid., p. 175).

Essa socialização da infância se dava num processo de educação informal dentro dos próprios grupos infantis nas interações cotidianas. Tratava-se então de uma "educação das crianças, entre as crianças e pelas crianças" (p. 176). Assim, o pesquisador e sociólogo Florestan Fernandes nos ajuda a pensar que a criança é um sujeito de memória, criatividade e intuição, um ser cognoscente, capaz de interpretar e compreender o mundo a partir de elementos elaborados por ela própria, brincando e reinventando interações e linguagens. É um sujeito criativo que traz nas suas brincadeiras cotidianas elementos do mundo adulto, ressignificando-os a partir de uma cultura infantil. Por isso, se faz necessário valorizar a criança como sujeito criador de uma aprendizagem própria, capaz de discutir e construir novos "sentidos e significados" na sua constante relação com o mundo e com os outros.

Quanto ao folclore infantil, Florestan chama a atenção para o fato de esse ter sido pouco estudado, não sendo o processo de transmissão dos elementos da cultura infantil sequer analisado até aquele momento, década de 1940, mesmo pelos mais dedicados estudiosos dos fatos lúdicos. Isso porque, para Florestan, os fatos referentes ao folclore infantil consistiam, sobretudo, nos "fatos lúdicos", caracterizando-se por isso duplamente: sendo recreativos e geralmente se restringindo ao círculo das crianças (FERNANDES, 1979).

Como podemos notar, a pesquisa de Florestan Fernandes foi precursora em vários aspectos hoje amplamente difundidos e pesquisados sobre a infância, assim como o lúdico, as brincadeiras, o brinquedo. É esse princípio de reconhecimento de uma socialização da infância pela cultura infantil que também veio fortalecer as pesquisas que envolviam e hoje envolvem muitos processos e práticas educacionais relativas à infância, bem como veio também corroborar o respeito ampliado a essas questões e isso se deu pelo surgimento de novos olhares para as tantas peculiaridades do universo cultural infantil. A criança é, pois, um sujeito de cultura inserido num contexto social, assim como o adulto também o é. O encontro desses sujeitos no espaço físico e temporal da escola faz do lúdico, da brincadeira, do jogo, da linguagem e da cultura infantil possibilidades de acesso a uma educação democrática e emancipatória.

Notas

Recebido em 17 de novembro de 2011.

Aprovado em 26 de março de 2013.

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  • Educação, literatura e cultura da infância: compreendendo o folclore infantil em Florestan Fernandes
    Education, literature and the culture of childhood: understanding children's folklore in Florestan Fernandes
  • 1
    . Difícil será em qualquer tempo polemizar com Monteiro Lobato. Contudo, acredito que pensar a "literatura infantil lobatiana" por essa postura crítica é uma forma também de homenageá-lo. É ser um pouco Emília.
  • 2
    . Assim Mário de Andrade chamava o que sentia pelo povo e o folclore brasileiro (FERNANDES, 2003, p. 169).
  • 3
    . Com ele, participou do concurso "Temas Brasileiros", instituído pelo Departamento de Cultura do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. A primeira publicação é do ano de 1944.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Maio 2014
  • Data do Fascículo
    Mar 2014

Histórico

  • Recebido
    17 Nov 2011
  • Aceito
    26 Mar 2013
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