Inovação tecnológica, qualificação e competência profissional

Sílvia Maria Manfredi

Editorial - Revista Especial

Inovação tecnológica, qualificação e competência profissional

É de se notar, o uso cada vez mais freqüente das noções de qualificação e competência nos discursos sociais e científicos. Quase sempre associados a conotações do tipo - capacitação, preparo, aptidão para exercer determinadas ações de âmbito escolar, profissional etc. as noções de qualificação e competência não são novas e, historicamente, pertencem a discursos produzidos em esferas distintas. O termo qualificação sempre foi mais usado por economistas e sociólogos, ao passo que, a expressão competência sempre fez parte do vocabulário de psicólogos, lingüistas e educadores. Tais expressões parecem estar sofrendo uma certa contaminação semântica, embora usadas em contextos e situações sociais diferentes: a de competência (expressa atualmente no plural) tende a substituir noções que prevaleciam anteriormente como as de saberes e conhecimentos, na esfera educativa, e a de qualificação na esfera do trabalho. Estas últimas não desaparecem, mas perdem sua posição central e, associadas ao termo competências, surgem outras conotações. Porque a noção de qualificação, mais afeita aos estudos que se ocupam da esfera do trabalho, passa a ser substituída, suplantada e/ou mesmo englobada pelo de competência(s) noção afeita às ciências que se preocupam com as esferas do ensino-aprendizagem, da cognição e da linguagem humana? Atentos para o fato de que noções e palavras se constituem e são constituintes de práticas e relações sociais, indaga-se em que medida estamos diante de novas configurações ou se as configurações anteriores se apresentam com uma nova roupagem. Em outras palavras, como e por que tais expressões estão sendo ressignificadas? Quais os sentidos e interesses que estas ressignificações revelam? Parecem ser significativo apreender os lugares e os protagonistas sociais construtores de novos significados (ou ressignificações) e, como estão sendo tecidas as representações sociais legitimadoras das transformações produtivas e organizacionais, que estão ocorrendo no plano material. Trata-se pois de resgatar, no plano representações e significados os usos e os interesses sociais diferenciados que estão sendo social e historicamente elaborados.

Com o objetivo de problematizar e discutir as noções de qualificação e competência organizou-se este número especial da revista Educação e Sociedade, reunindo autores que tratam deste tema e, de outros afins, relacionados com questão da formação dos trabalhadores e da negociação da educação profissional.

Os quatro primeiros artigos, o nosso, o de Ives Schwartz, Saul meghnagi e Claude dubar, abordam de maneira diferenciada questões relativas aos significados e conteúdos que têm sido atribuídos ás noções de qualificação e competência no campo da filosofia, economia, sociologia, psicologia e educação. Embora discutam o tema sob diferentes prismas e enfoques teóricos, os quatro artigos explicitam uma postura comum, qual seja, de uma perspectiva analítica crítica, humanizadora e emancipatória.

Os artigos de Maria Inês Rosa e Werner Market centram sua atenção obre as atuais mudanças da divisão e organização do trabalho capitalista, enfocando de modo diverso a questão do processo de formação e aquisição de saberes e conhecimentos. O artigo de Rosa busca compreender como tais mudanças estão reestruturando uma nova modalidade de governo dos homens enquanto trabalhadores, entendendo-o a partir da instrumentalização da política pelo poder que interdita a possível experiência da democracia, tal qual ocorreu com o governo do trabalho taylorista. Relaciona este governo com a concepção do trabalho como uso de si por outrem e com o acesso aos conhecimentos formais pelos trabalhadores, que, enquanto agentes, o vivenciam como profissionalização e qualificação, porém estando presente sua condição de sujeitos neste processo, colocando-se o uso de si por si mesmo e a possibilidade de realização da política como expressão de experiências singulares e de construção do bem comum, da democracia. O de Market apresenta os resultados de uma pesquisa empírica realizada em pequenas e médias empresas (exemplares), na Alemanha que iniciaram o processo de implantação de ilhas de produção e, por conseguinte, a adoção de diferentes modelos de trabalho em grupo. Do estudo das diferentes experiências observadas, o autor aponta alguns parâmetros para a definição de um modelo bem sucedido de trabalho em grupo e da formulação de uma concepção de formação profissional.

No último artigo, Clemente Ganz Lúcio e Suzanna Sochaczewski relatam a experiência de elaboração e construção de um projetos inovador no campo da educação profissional, desenvolvido em São Paulo, pela Secretaria de Empregos e Relações de Trabalho (SERT). Tal projeto elaborado de forma multipartite, introduziu novas formas coletivas para a definição de propostas e elaboração de estratégias de formação profissional, envolvendo vários protagonistas sociais - professores universitários, especialistas de educação, empresários, governo e trabalhadores.

Sílvia Maria Manfredi

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Maio 1999
  • Data do Fascículo
    Set 1998
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