EDITORIAL

EDITORIAL

As modificações em curso no processo produtivo, a globalização econômica e a hegemonia política do neoliberalismo têm sido analisadas e estudadas no que diz respeito às suas conseqüências para a organização dos processos de trabalho, particularmente no que se refere à precarização crescente da força de trabalho. Quanto a seus efeitos para a educação, Educação & Sociedade dedicou dois números especiais ao tema. Um deles, ao balanço dos oito anos de Governo FHC, período em que mais radicalmente se manifestaram seus impactos entre nós (n. 80), e o segundo sobre o crescente processo de mercantilização da educação (n. 84). Entretanto, são escassas as publicações que se dedicam a analisar as implicações desse processo mais geral para o trabalho docente e a organização da escola e dos sistemas de ensino como locais de trabalho.

As explicações disso podem estar relacionadas a dois fatores a serem considerados. Em escala mundial, a penetração de novas tecnologias poupadoras de mão-de-obra na escola ainda é relativamente pequena e, em certo sentido, complementar às formas mais tradicionais de trabalho. O que se tem observado é um certo crescimento da educação a distância e de algumas experiências de trabalho presencial, complementadas por atividades que se utilizam de tecnologias, como tutoriais em rede, fóruns e chats on-line etc. Em contrapartida, há obstáculos objetivos a serem superados para que tal aconteça de maneira mais aprofundada, pois a relação ensino-aprendizagem está, pelo menos de acordo com boa parte das concepções educacionais correntes, impregnada por relações afetivas que pressupõem atividades presenciais de trabalho.

Para discutir as possíveis modificações, a partir de alguns fenômenos já observáveis, é que Educação & Sociedade organizou para o presente ano dois dossiês sobre globalização e suas implicações para o trabalho docente. O primeiro vem a público nesta edição e o segundo será publicado em nossa edição de número 89. O objetivo dessas publicações é refletir sobre duas gamas de questões. De um lado, analisar as modificações nos processos de trabalho como decorrência de alterações mais amplas em curso, tanto no que diz respeito ao trabalho em geral quanto ao trabalho docente em particular. Neste tópico estão presentes tanto análises de experiências nacionais e estrangeiras de introdução de novas tecnologias nos processos de trabalho docente quanto sua articulação com os processos de sobremercantilização da educação, tomando-se particular atenção na análise da precarização do trabalho docente. Neste aspecto, ressalte-se o crescimento do trabalho parcial e por prazo determinado no ensino superior, os processos de subcontratação e terceirização já observados no ensino básico em diversos países, inclusive o Brasil, e a generalização em alguns estados (Ceará e Maranhão, por exemplo) de telessalas e a substituição de professores por monitores, menos qualificados, como estratégia capaz de viabilizar a expansão do ensino médio. De outro, busca-se analisar os limites de uma possível ampliação da introdução de novas tecnologias no ambiente escolar, tanto no que diz respeito à sua gestão como às práticas especificamente educativas, sobretudo tendo em consideração as possibilidades contraditórias de essas mesmas tecnologias poderem agravar ou atenuar as desigualdades educacionais.

Neste número publicamos o primeiro dossiê, composto por um conjunto de artigos que procura fazer um apanhado sobre facetas da globalização e suas implicações para a educação. Inicia-se com o artigo "Globalização e políticas públicas: vida, paixão e morte do Estado nacional?", de Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes, que confronta "argumentos apresentados em literatura selecionada, propiciando uma visão sintética de constituição do 'capitalismo organizado' (1870-1970), de sua crise de identidade (na década de 1970) e da emergência do capitalismo re-organizado pelo processo que se tem chamado de globalização". A seguir quatro artigos refletem acerca das transformações no mundo do trabalho e suas implicações para a noção de qualificação. O de Ricardo Antunes, "As mutações no mundo do trabalho na era da mundialização do capital", que "explora alguns dos significados e das dimensões das mudanças que vêm ocorrendo no mundo do trabalho", o de Gisela Lobo Baptista Pereira Tartuce, "Algumas reflexões sobre a qualificação do trabalho a partir da sociologia francesa do pós-guerra", em que a autora "procura refletir sobre a pertinência histórica e analítica do conceito de 'qualificação do trabalho', em um contexto social que tem demandado a sua substituição pela noção de 'competência'", e o de Marcio Pochmann, "Educação e trabalho: como desenvolver uma relação virtuosa?", em que o autor retoma a discussão acerca da relação entre educação e trabalho, e, finalmente, o texto de Celso João Ferretti, "Considerações sobre a apropriação das noções de qualificação profissional pelos estudos a respeito das relações entre trabalho e educação", no qual o autor examina "como os estudos referentes às relações entre trabalho e educação têm se valido da noção de 'qualificação profissional' para abordar a formação geral e específica oferecida aos jovens brasileiros". E, para finalizar, o trabalho de Roger Dale, "Globalização e educação: demonstrando a existência de uma 'Cultura Educacional Mundial Comum' ou localizando uma 'Agenda Globalmente Estruturada para a Educação'?", em que o autor polemiza acerca dos modelos teóricos utilizados correntemente para compreender as implicações da globalização para a educação.

Educação & Sociedade espera que com estes aportes teóricos possa subsidiar uma reflexão mais acurada sobre as transformações em curso no trabalho docente.

Elizabeth de Almeida Silvares Pompêo de Camargo

Ivany Pino

Luis Carlos de Freitas

Patrizia Piozzi

Pedro Goergen

Romualdo Portela de Oliveira

Valdemar Sguissardi

(Organizadores)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Set 2004
  • Data do Fascículo
    Ago 2004
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