Editorial

Patrizia Piozzi

Editorial

Neste número, Educação e Sociedade abre-se com um dossiê sobre as novas tendências emergentes na universidade "pós-moderna", com artigos dos professores Pedro Goergen, Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes e Roberto Romano.

O ensaio de Goergen, centrado na análise das relações entre sociedade, ciência e universidade, discute a gênese histórica e filosófica do processo de quantificação e mercantilização do saber, que parece atingir o apogeu na era neoliberal. Destruidor da autonomia espiritual e biológica do homem e da riqueza de suas dimensões culturais, tal processo se expressa, nos institutos superiores de ensino e pesquisa, pela hipertrofia de suas funções profissionalizantes e pragmáticas às custas de seu papel "crítico-cultural". Submetendo seus projetos e ritmos às exigências da economia globalizada, transformam-se em máquinas fornecedoras de quadros imediatamente absorvíveis pelo sistema produtivo. Estimulando a competição e a deglutição rápida de conhecimentos especializados, agem como trágicos "ilusionistas", jogando num mercado saturado um grande número de profissionais fadados a se tornarem "seres errantes e supérfluos à margem do sistema".

Ao constatar que "...a cultura do homem que na história apresenta seu esforço de libertação por sua autonomia biológica e espiritual é hoje um instrumento de submissão, adestramento e embotamento...", Goergen alerta para a necessidade de recuperar a vocação humanista e social da "Universitas". A inserção de conteúdos de arte e filosofia nos currícula constitui mero paliativo, se não for acompanhada por uma recusa da lógica exclusiva do lucro, pelo empenho em desenvolver outras dimensões do humano, além da "econômica", e pelo esforço em reencontrar suas próprias raízes culturais, sua história particular, contrariando a tendência a padronizar e uniformizar o pensamento.

Partindo de diagnósticos similares, os artigos de Reginaldo Moraes e Roberto Romano examinam os efeitos devastadores da política do atual governo para a educação pública universitária. Moraes, após mostrar como o privilegiamento dos aspectos profissionalizantes e do conhecimento específico embotam a criatividade e a reflexão inibindo, num parente paradoxo, a capacidade de flexibilização e adaptação, procede a uma radiografia do progressivo enraizamento da cultura mercantil no meio acadêmico, responsável por desfigurar o perfil de seus docentes. Até pouco tempo voltados integralmente para a pesquisa e o ensino, estes são, hoje, cada vez mais aprisionados na rede de projetos, convênios, consultorias, pesquisas aplicadas, por encomenda de agências e empresas externas à instituição.

Este movimento de privatização e expropriação da função pública da universidade é examinado, por Roberto Romano, pelo enfoque ao programa governamental de corte de bolsas à pós-graduação. Destruindo a comunidade científica, única força intelectual viva capaz de criar ciência e tecnologia em interação com o saber produzido no exterior, tais diretrizes condenam o povo brasileiro a só consumir os "resultados técnicos de outros seres coletivos", golpeando mortalmente sua autonomia e individualidade nacional. O texto conclui-se com um vibrante apelo para que a comunidade acadêmica abandone "as questiúnculas de poder e barganha" e os "debates burocráticos sem alma científica ou acadêmica" em que se encolheram as congregações, para se unir contra esta política genocida, pela denúncia incessante e pela produção autônoma do saber científico, única forma, na atual conjuntura, de "ficarmos de pé".

Educação e Sociedade, ao publicar esse dossiê, espera estar trazendo uma contribuição teórica e política à resistência contra um projeto que "seqüestra a vida de milhões de seres humanos" e, pela mesma lógica, confisca a seu povo a capacidade de produzir técnicas e saberes. O empenho para "ficar de pé" tem se intensificado ao longo deste ano, como atestam desde as lutas elementares pela sobrevivência no Nordeste, até a longa greve dos professores das federais em defesa de um salário digno e, sobretudo, de uma universidade pública voltada para a produção independente de ciência e tecnologia básicas. Tais manifestações, tratadas ora como questão de polícia, ora como um trampolim eleitoral, num movimento pendular entre os lados "racional" e "candomblé" da equipe governamental, constituem formas de resgate da condição humana e da cidadania ameaçadas. Mostram que "ainda é tempo de incluir estas vidas, nossas vidas, no sentido próprio, no seu sentido verdadeiro: o sentido, muito simples, da vida, da sua dignidade, de seus direitos. Ainda dá tempo de subtraí-los ao bel-prazer daqueles que os ridicularizam" (Viviane Forrester).

Patrizia Piozzi

Comitê de redação

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Abr 1999
  • Data do Fascículo
    Ago 1998
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