Educação patrimonial: relatos e experiências

IMAGENS & PALAVRAS

Educação patrimonial: relatos e experiências* * Resenha do livro organizado por André Luis Ramos Soares, Alexander da Silva Machado, Cynthia Gindri Haigert e Vanessa Rodrigues Possel (Santa Maria: Editora da UFSM, 2003. 120p.).

Francisco Silva Noelli

Professor do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). E-mail: ffnoelli@wnet.com.br

A educação patrimonial é um tema ausente ou pouco comum na atual agenda do ensino básico e médio brasileiro. Isso também é resultado de uma conjuntura que impõe dificuldades ao que, em última instância, chamamos de "cultura brasileira", incluindo aí a preservação de prédios e espaços históricos, objetos diversos, paisagens naturais e outros elementos. Não se trata apenas de legislação específica e verbas (ou da sua ausência!), mas da consciência histórica que permite valorizar/preservar a cultura material e a memória da nossa sociedade e de outras que nos precederam em nível local, regional ou nacional. Estudiosos de vários países e órgãos como a UNESCO já demonstraram com muita ênfase que a preservação do patrimônio cultural depende, principalmente, do conhecimento e de uma educação voltada à compreensão e valorização da diversidade.

Destaca-se aqui o caso do Patrimônio Arqueológico do Brasil, continuando a discussão sobre os problemas da temática indígena na escola, que tive a oportunidade de iniciar em números passados de Educação & Sociedade (v. 22, n. 77; v. 24, n. 82). A educação patrimonial voltada para a arqueologia dos povos indígenas é tão importante quanto a abordagem da temática indígena pela história, sociologia, artes ou língua portuguesa. Como um prédio histórico ou qualquer outro objeto, a preservação da cultura material e dos sítios arqueológicos é necessária em um país que teve seu território totalmente ocupado por povos indígenas. O processo histórico pode ter reduzido a população indígena a 0,3% da população atual, mas legou uma ascendência de tal sorte que aproximadamente 57 milhões dos brasileiros de hoje possuem um antepassado indígena! Diante da realidade de um país multicultural, a educação patrimonial precisa (e com urgência!) estar presente nas redes de ensino e deveria ser considerada um objeto relevante de reflexão por aqueles que pensam e articulam a educação brasileira.

O livro Educação patrimonial: relatos e experiências conta como um grupo de jovens pesquisadores empregou as abordagens da arqueologia para desenvolver um projeto de extensão na educação, com o objetivo de valorizar o patrimônio arqueológico de São Martinho da Serra, um pequeno município do Rio Grande do Sul. Integrando a vanguarda da educação patrimonial brasileira, expõe de maneira didática as etapas teórica e prática da experiência realizada entre 1998 e 2001, com professores das redes municipal e estadual e com estudantes da 5ª série. O projeto incluiu palestras à comunidade, exposições itinerantes, uma escavação arqueológica, realizada após um "longo período de preparação da comunidade, por meio da escola" (p. 64), e o exercício com técnicas de restauração de objetos. Após a realização dessas atividades, houve avaliações por meio de questionários e debates.

Além dos objetivos e da fundamentação teórica do projeto, os autores apresentam um capítulo interessante, resumindo o "estado da arte sobre educação patrimonial". Também discutem a "parceria entre cultura material, educação patrimonial e ensino de história" e a "construção da cidadania a partir da educação patrimonial". Mostram dois exemplos de como realizar ações didáticas, por meio do "projeto piloto" para exposições itinerantes e da "construção de material lúdico e paradidático para inclusão da educação patrimonial no ensino fundamental e médio". No final há um balanço do projeto, avaliando as atividades e apresentando uma reflexão sobre sua aplicação em nível local, pensando na realidade e nas experiências vivenciadas por comunidades específicas.

Finalmente, no momento em que ainda não existe um manual brasileiro sobre educação patrimonial, é necessário ressaltar que o livro serve como um interessante guia para quem começa, mostrando que é possível realizar projetos de custo baixo, fundamentados pelo que há de mais relevante em termos teóricos e metodológicos em disciplinas como arqueologia, museologia, história e a própria educação.

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    Resenha do livro organizado por André Luis Ramos Soares, Alexander da Silva Machado, Cynthia Gindri Haigert e Vanessa Rodrigues Possel (Santa Maria: Editora da UFSM, 2003. 120p.).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jan 2005
  • Data do Fascículo
    Dez 2004
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