Open-access Stress e o turbilhão da raiva

Stress and anger eddy

RESENHA

Stress e o turbilhão da raiva1

Stress and anger eddy

Ana Carolina de Queiroz Cabral

Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Centro de Ciências da Vida, Programa de Pós-graduação em Psicologia. Av. John Boyd Dunlop, s/n., Prédio Administrativo, Jardim Ipaussurama, 13060-904, Campinas, SP, Brasil

A presente publicação tem como objetivo propor um tratamento cognitivo para a raiva, baseado na abordagem cognitivo-comportamental. Essa obra surgiu a partir das pesquisas que sua autora, Marilda Emmanuel Novaes Lipp, vem desenvolvendo na área do stress, da raiva, da qualidade de vida, e no campo do tratamento não farmacológico da hipertensão, trabalho esse de grande reconhecimento.

A autora brinda o público com um texto inovador que reflete sua vasta experiência na área. Ela tem contribuído sistematicamente para enriquecer o conhecimento sobre o tema tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Acadêmica, orientou até o momento 56 dissertações e teses de mestrado e doutorado, escreveu 14 livros sobre o stress e dezenas de artigos sobre o tema, desenvolveu o Inventário de Sintomas de Stress para Adultos e é co-autora da Escala de Stress Infantil e da Escala de Stress para Adolescentes.

A obra é composta por uma breve introdução seguida de oito capítulos, além de referências e indicações bibliográficas selecionadas. No decorrer do livro a autora inseriu testes breves e objetivos que permitem o autoconhecimento do leitor, o que foi, certamente, um de seus objetivos.

Em "Por que nos preocupamos com a raiva?" a autora chama a atenção para os aspectos mais relevantes da raiva e sua influência na saúde física e mental, ressaltando ser um fator de risco para o desenvolvimento de doenças coronarianas, do aparelho digestivo, além da sua associação com quadros de depressão, obesidade, problemas de relacionamentos interpessoais, violência na família, divórcio, perda de emprego e suicídio.

Além de explicar a importância da expressão de raiva para a saúde emocional e orgânica, classifica a expressão de raiva em: raiva para dentro; raiva para fora; raiva acompanhada de cinismo. Tendo por suporte uma farta bibliografia, Lipp apresenta evidências das relações entre as expressões de raiva, stress e pressão arterial. Trata de relações muito presentes no cotidiano das pessoas na pós-modernidade.

No capítulo 2, a autora responde à pergunta de seu título, definindo a raiva como um sentimento decorrente de uma grande frustração, ou de uma oposição, e a diferencia da hostilidade quando explica que essa última pode ser concebida como uma característica de personalidade de avaliação das situações e das pessoas de forma negativa. Segundo ela, a hostilidade possui três componentes: cognitivo, ao realizar as avaliações; afetivo, por tratar-se também de um sentimento; e comportamental.

Levando em consideração a proposta de Spielberger, Lipp reforça o aspecto da raiva como mecanismo de proteção contra a perda de poder real ou imaginário. Em seguida, ela faz um histórico das manifestações de raiva desde os tempos bíblicos, preparando assim o leitor para entrar em contato com alguns dos aspectos positivos da raiva, e posteriormente inserir o mecanismo fisiológico desse sentimento.

Nesse mesmo capítulo os tipos de raiva são expostos após a discussão acerca dos hábitos de vida e sua forte influência no comportamento humano. Lipp explica que os hábitos são fortalecidos através da prática e que a reação raivosa pode se tornar um traço de raiva caso se transforme em uma tendência a reagir com raiva em conseqüência de uma interpretação disfuncional da realidade; ou um temperamento raivoso, caso torne-se uma propensão geral daquele indivíduo a vivenciar a raiva sem uma provocação específica anterior. Ressalta, ainda, as hipóteses cultural, familiar e do meio quanto à expressão de raiva. Por fim, defende a existência de vulnerabilidades psicológicas e físicas à raiva, bem como ao stress.

em seguida, ela aponta os vários aspectos do desenvolvimento da raiva: evento desencadeador e sua interpretação, stress emocional, reavaliação do evento sob a perspectiva da raiva, e escalonamento da raiva. Assim, à luz dos conceitos da abordagem cognitivo-comportamental, é postulado que são as interpretações não funcionais do evento que levam a conclusões equivocadas e, conseqüentemente, à raiva.

O stress é uma reação adaptativa do organismo para a manutenção do seu equilíbrio com o meio que o cerca, garantindo, assim, a homeostase. Tendo por base a produção científica na área, Lipp lembra que qualquer tensão aguda ou crônica que produza mudança no comportamento físico e no estado emocional do indivíduo, ocorrendo uma resposta de adaptação psicofisiológica, é considerada stress. No capítulo 3 a autora aborda a influência do stress na expressão de raiva, bem como ressalta o mecanismo cognitivo e fisiológico desse fenômeno, suas fases, fontes, e seus desdobramentos, como, por exemplo, o stress ocupacional, as possibilidades de ação, a doença da pressa, o padrão de comportamento tipo A e o stress infantil. No texto a autora reforça a importância da aquisição de repertório para enfrentamento de problemas.

Num capítulo específico, Lipp em "A raiva no trânsito" expõe os riscos que a raiva pode oferecer ao indivíduo, especialmente naqueles com nível de stress elevado. Ela explica que, quando da prevalência de stress elevado e raiva mal administrada, ocorre uma hipersensibilidade diante das situações, o que impulsiona a incidência de reações sem grande avaliação prévia, ou também chamadas as reações impulsivas.

Em "A raiva em crianças", a autora explica que a expressão intensa de raiva em crianças pode, assim como nos adultos, se relacionar a uma sensibilidade genética maior do sistema límbico, ou também pode ser o resultado delas terem sido vítimas diretas ou secundárias de violência doméstica ou abuso sexual. A autora expõe as implicações da raiva mal administrada durante a infância, e faz uma explicação do comportamento agressivo, bastante comum nessa fase da vida. É feita uma explanação dos aspectos positivos da raiva referentes à defesa do indivíduo e sua relevância no universo infantil. Além disso, a autora aponta que a maioria das pessoas cronicamente estressadas apresenta dificuldades em lidar com frustrações, respondendo hostilmente, e que um trabalho terapêutico de controle do stress se faz também necessário.

A autora ressalta que a família pode contribuir para a incidência do stress e da raiva. Tal contribuição pode ser caracterizada como múltipla, visto que abrange as áreas cognitiva, social e biológica, desde a estruturação dos esquemas e crenças, até a configuração biológica. Sabe-se que a reação de stress ou de raiva durante a gestação implica conseqüências significantes para o bebê. A autora destaca que o stress pré-natal não pode ser descartado. Baseada em literatura científica, enuncia quea perturbação emocional da gestante proporciona, como conseqüência das alterações bioquímicas sofridas, a liberação da catecolamina, neuro-hormônio liberado em níveis elevados pelo organismo materno em situação de stress e que provoca no feto um estado de perturbação semelhante ao de sua mãe. Como efeito dessa vivência a probabilidade de o futuro bebê apresentar alterações em seu desenvolvimento é alta, como comprovam os estudos realizados com animais cujas mães foram submetidas a fontes de stress durante a gestação. Assim, no 6º capítulo, o tema da raiva dentro da família é abordado e são feitas indicações para o controle emocional.

No capítulo 7, são expostos os objetivos do treino cognitivo da raiva: (1) apaziguar a excitabilidade orgânica gerada pela ação dos hormônios do stress; (2) reestruturar o pensamento préraiva; e (3) levar à tomada de ações responsáveis para substituição de reações com raiva por processos conscientes e racionais para o crescimento emocional. Em seguida, são revistos os conceitos e sugeridas técnicas de apoio para o gerenciamento da raiva no momento em que ela ocorre. Dentre essas técnicas, Lipp expõe: a) técnica da mochila para esquecer e reduzir a raiva, um relaxamento que aborda conflitos que, apesar de terem sido vivenciados no passado, têm influência significativa no presente, como, por exemplo, mágoas e ressentimentos; b) estratégia para reduzir a ansiedade, um procedimento de reestruturação cognitiva focado na ansiedade e seu controle; c) técnica do pinheiro, exercício direcionado para o controle da raiva; d) técnica do time out, ou também chamado de férias mentais, cuja proposta é retirar-se da situação que eliciou raiva; e) técnica da ação responsável, focada na solução do problema estruturada em termos cognitivos e emocionais; f) parada do pensamento, proposta para interromper o processo disfuncional do pensamento; g) respiração profunda, técnica básica de relaxamento; h) técnica do relaxamento, exercício físico e mental que propicia o autocontrole; e exercício físico, responsável pelo equilíbrio neuro-hormonal que é, conforme mencionado anteriormente, fundamental para o controle do stress.

Para finalizar, no capítulo "Especial para quem quiser saber mais sobre a Terapia Comportamental Cognitiva (TCC) recomendada no transtorno do stress e da raiva", foram feitos apanhados teóricos que situam o leitor nos termos utilizados por essa abordagem teórica da Psicologia. Primeiramente, a autora introduz a TCC através de um breve histórico, para então lançar mão dos pressupostos teóricos que fundamentam a abordagem. Dentre os pressupostos, mereceram destaque a relevância da interpretação (pensamento) dos eventos, e os procedimentos comportamentais e emocionais utilizados para a mudança dos comportamentos e reações emocionais disfuncionais. Em seguida, faz-se uma comparação entre as teorias cognitivas de Beck e de Albert Ellis, que posteriormente recebeu algum detalhamento. O encerramento da obra se dá através da exposição teórica da técnica angular da TCC: a reestruturação cognitiva.

O livro Stress e o Turbilhão da Raiva contribui para uma melhor compreensão dessa reação que tanta preocupação e problemas traz para a sociedade, no geral, e para o próprio individuo especificamente, não só enfocando o ponto de vista da vítima da raiva, mas também o referencial da pessoa que sente raiva com freqüência excessiva e não a sabe entender, controlar ou usar adequadamente.

Recebido em: 2/5/2006

Versão final reapresentada em: 26/7/2006

Aprovado em: 16/8/2006

  • 1
    Lipp, M.E.N. (2005).
    Stress e o turbilhão da raiva. São Paulo: Casa do Psicólogo.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      09 Nov 2007
    • Data do Fascículo
      Mar 2007
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    Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Pontifícia Universidade Católica de Campinas Editora Splendet, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campus I, Rua Prof. Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, 1516, Pq. Rural Fazenda Santa Cândida, Telefone: (55 19) 3343-7223. - Campinas - SP - Brazil
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