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Capacidade funcional de hemiparéticos crônicos submetidos a um programa de fisioterapia em grupo

Functional status of hemiparetic subjects submitted to group physical therapy

Resumos

Este estudo tem como objetivos analisar a eficácia da fisioterapia em grupo sobre a marcha, o equilíbrio corporal e o risco de queda, e verificar se há correlação entre a capacidade funcional da marcha e o equilíbrio em indivíduos com hemiparesia crônica. Participaram do estudo 21 adultos hemiparéticos, com idade média de 58,9±10,6 anos, com seqüela de no mínimo 1 ano após acidente vascular encefálico isquêmico ou hemorrágico. Os sujeitos foram submetidos a um programa de 1 hora de fisioterapia em grupo duas vezes por semana durante seis meses. Foram avaliados por meio da escala de equilíbrio de Berg (EEB) e do teste de levantar e caminhar cronometrado TLCC (TUG, na sigla em inglês de timed up & go) antes do programa, após 13 e ao fim de 26 semanas. Os resultados mostram uma redução progressiva, embora não-significativa, no tempo de execução do TLCC e aumento progressivo, também não-significativo, do escore na EEB. Foi observada forte correlação entre as duas escalas (r=0,7, p<0,05). Assim, a terapia não foi efetiva para produzir melhora nos escores dos testes, mas contribuiu para manter a mobilidade.

Acidente cerebral vascular; Equilíbrio; Marcha; Terapia por exercício


The purpose of this study was to assess the effectiveness of a group therapy program on gait, body balance and risk of falling, and to search for a correlation between functional gait and balance in subjects with chronic hemiparesis. A total of 21 hemiparetic adults, mean aged 58.9±10.6 years, with sequelae (at least 1 year after stroke) of ischemic or hemorrhagic stroke, underwent a program of one-hour group therapy twice a week, for six months. They were assessed using the Berg balance scale (BBS) and the timed up-and-go test (TUGT) at baseline, after 13 weeks, and at the end of six months. Results show a progressive, though non-significant, reduction in TUGT times, and an also non-significant increase in BBS scores. A strong correlation (r=0.7, p<0.05) was found between the two scales. The therapy was then not effective in providing improvement in subjects' gait or balance, but allowed for maintaining them.

Balance; Exercise therapy; Gait; Stroke


PESQUISA ORIGINAL ORIGINAL RESEARCH

Capacidade funcional de hemiparéticos crônicos submetidos a um programa de fisioterapia em grupo

Functional status of hemiparetic subjects submitted to group physical therapy

Caroline Háruka GirikoI; Raquel Aparecida Napolitano AzevedoII; Heloyse Uliam KurikiIII; Augusto Cesinando de CarvalhoIV

IFisioterapeuta especialista em Fisioterapia neurológica

IIMestranda no Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia da FCT/Unesp

IIIDoutoranda no Programa de Pós-Graduação Interunidades Bioengenharia, Universidade de São Paulo, São Carlos, SP

IVProf. Dr. assistente do Depto. de Fisioterapia da FCT/Unesp

Endereço para correspondência Endereço para correspondência: Caroline Háruka Giriko R. Primeiro de Maio 20 Monte Castelo 12215-230 São José dos Campos SP e-mail: carol_haru@yahoo.com.br

RESUMO

Este estudo tem como objetivos analisar a eficácia da fisioterapia em grupo sobre a marcha, o equilíbrio corporal e o risco de queda, e verificar se há correlação entre a capacidade funcional da marcha e o equilíbrio em indivíduos com hemiparesia crônica. Participaram do estudo 21 adultos hemiparéticos, com idade média de 58,9±10,6 anos, com seqüela de no mínimo 1 ano após acidente vascular encefálico isquêmico ou hemorrágico. Os sujeitos foram submetidos a um programa de 1 hora de fisioterapia em grupo duas vezes por semana durante seis meses. Foram avaliados por meio da escala de equilíbrio de Berg (EEB) e do teste de levantar e caminhar cronometrado TLCC (TUG, na sigla em inglês de timed up & go) antes do programa, após 13 e ao fim de 26 semanas. Os resultados mostram uma redução progressiva, embora não-significativa, no tempo de execução do TLCC e aumento progressivo, também não-significativo, do escore na EEB. Foi observada forte correlação entre as duas escalas (r=0,7, p<0,05). Assim, a terapia não foi efetiva para produzir melhora nos escores dos testes, mas contribuiu para manter a mobilidade.

Descritores: Acidente cerebral vascular; Equilíbrio; Marcha; Terapia por exercício

ABSTRACT

The purpose of this study was to assess the effectiveness of a group therapy program on gait, body balance and risk of falling, and to search for a correlation between functional gait and balance in subjects with chronic hemiparesis. A total of 21 hemiparetic adults, mean aged 58.9±10.6 years, with sequelae (at least 1 year after stroke) of ischemic or hemorrhagic stroke, underwent a program of one-hour group therapy twice a week, for six months. They were assessed using the Berg balance scale (BBS) and the timed up-and-go test (TUGT) at baseline, after 13 weeks, and at the end of six months. Results show a progressive, though non-significant, reduction in TUGT times, and an also non-significant increase in BBS scores. A strong correlation (r=0.7, p<0.05) was found between the two scales. The therapy was then not effective in providing improvement in subjects' gait or balance, but allowed for maintaining them.

Key words: Balance; Exercise therapy; Gait; Stroke

INTRODUÇÃO

O acidente vascular encefálico (AVE) é considerado a terceira maior causa de morte e o maior problema de saúde pública no mundo1-4; dentre as neuropatias, é a mais comum5. É causa líder de incapacidade em adultos, ocupando grande parte dos serviços de reabilitação3,6,7. Devido ao aperfeiçoamento do tratamento na fase aguda, a maioria dos pacientes sobrevive8; exibindo alterações na função motora como fraqueza muscular, tônus anormal, ajustes posturais anormais e falta de mobilidade3,5-10 associada a variados graus de distúrbio sensitivo e ou perceptual, que dificultam o movimento5,11. A hemiparesia, sinal mais evidente de um AVE, é uma condição de comprometimento motor de um hemicorpo e pode manifestar variados sinais neurológicos, correspondentes à área do cérebro afetada12.

Assim, essa população apresenta um equilíbrio deficiente e um risco aumentado para ocorrência de quedas1,9,13,14. Estudos relatam que a incidência de quedas varia de 20% a 50% em hemiparéticos crônicos1,9,13,14 (considerando"crônica" essa condição com mais de 6 meses após o AVE)15. Tal incidência é muito maior que a observada em pessoas idosas, que varia de 11% a 30%1,9,13,14. Uma das principais preocupações das quedas é que 26% das pessoas que sofreram uma queda começam a evitar situações que exijam melhor equilíbrio, levando a declínios adicionais nas capacidades de andar e de se equilibrar16,17.

Muitos são os fatores que levam à deficiência do equilíbrio nos indivíduos hemiparéticos. A diminuição da força muscular e da informação sensorial do hemicorpo afetado, associada aos movimentos compensatórios, gera um equilíbrio funcional deficiente. Por isso, indivíduos hemiparéticos apresentam uma instabilidade postural e grande parte desloca seu centro de gravidade para o lado sadio, assumindo uma postura assimétrica9,18-20.

Estudos mostram que as quedas na maioria das vezes ocorrem durante a marcha. Harris et al.13 relatam que mais da metade das quedas ocorrem durante alguma atividade associada ao andar, porém Belgen et al.1 relataram uma porcentagem ainda maior (90%). A marcha é a função mais afetada pelo AVE, sendo que 80% dos indivíduos inicialmente perdem essa habilidade21. Mesmo após a recuperação, a marcha é geralmente lenta, com equilíbrio e resistência deficitários, e alterações na capacidade de adaptação4,21-24.

Atualmente estão à disposição muitos instrumentos para avaliação do paciente hemiparético. Dentre estes, destaca-se o teste de levantar e caminhar cronometrado (TLCC - TUGT, na sigla em inglês, Timed up and go test) e a escala de equilíbrio de Berg (EEB). O TLCC e a EEB oferecem descrições quantitativas de mobilidade e equilíbrio, monitoramento do progresso do paciente e previsão da eficácia de intervenções aplicadas na prática clínica e em pesquisas16,18.

O TLCC é um teste quantitativo simples e rápido para avaliar a mobilidade, equilíbrio e a capacidade funcional durante a marcha4,16,25,26. Shumway-Cook et al.26 concluíram que é um teste fidedigno quando mensura a diferença entre indivíduos hemiparéticos e saudáveis, da mesma faixa etária: segundo eles, o tempo médio gasto pelos indivíduos com hemiparesia foi de 22,6±8,6 segundos e, pelos saudáveis, 9,1±1,6 segundos. Considera-se que pacientes que realizam a tarefa em menos de 20 segundos apresentam uma marcha suficiente para deambular na comunidade25-27.

A EEB é muito utilizada em avaliações clínicas para testar o equilíbrio em pacientes pós-AVE18; incluindo tarefas que exigem ajustes posturais durante posturas estáticas, transferências e descarga de peso entre os hemicorpos13,28. Além disso, é capaz de discriminar indivíduos propensos a quedas16,22.

As quedas são relatos freqüentes nos centros de reabilitação. Isso tem sido observado em pacientes encaminhados para o Projeto Hemiplegia da FCT/Unesp - Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista. A prevenção das quedas pode ser considerada um meio eficaz para evitar maiores perdas funcionais nesse grupo de pacientes que já apresentam limitações de mobilidade.

Este trabalho teve como objetivo principal analisar a eficácia da terapia em grupo realizada no âmbito do Projeto Hemiplegia sobre a marcha, o equilíbrio corporal e o risco de queda em indivíduos com hemiparesia crônica e, como objetivo secundário, verificar se há correlação entre a capacidade funcional da marcha e o equilíbrio.

METODOLOGIA

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da FCT. Participaram do estudo pacientes hemiparéticos crônicos que realizam fisioterapia em grupo no projeto de extensão universitária Projeto Hemiplegia realizado no Centro de Estudos e Atendimento em Fisioterapia e Reabilitação da FCT/Unesp. Todos eram capazes de deambular, com ou sem apoio de órtese, e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Foram incluídos 21 indivíduos portadores de hemiparesia direita ou esquerda, 6 mulheres e 15 homens, com idade média de 58,9±10,6 anos e tempo médio de lesão há 5,01±3,7 anos. Todos tinham feito fisioterapia individual por um ou mais anos e na época da pesquisa participavam do Projeto Hemiplegia. Foram excluídos pacientes com doenças cardiovasculares graves, ortopédicas ou com deficit cognitivo que impedisse o entendimento das atividades propostas.

Os indivíduos foram avaliados pelo TLCC e pela EEB em três momentos: primeira avaliação (1ªAv) no início da pesquisa, segunda avaliação (2ªAv) 13 semanas após a primeira, e terceira avaliação (3ªAv), 26 semanas após a primeira avaliação.

O TLCC inicia-se com o indivíduo sentado numa cadeira confortável, com apoio para as costas e braços, utilizando seus calçados usuais e seu dispositivo de auxílio à marcha. Solicita-se que se levante, ande 3 metros em linha reta, dê a volta em torno de um cone colocado a 3 metros da cadeira e retorne, sentando-se novamente4,21,27. O tempo requerido para completar a tarefa é mensurado em segundos por um cronômetro e anotado numa planilha. Os pacientes realizaram a tarefa três vezes a fim de obter um número amostral adequado, com intervalo de descanso de 3 minutos. Foi utilizado o escore limite de 20 segundos25-27 para discriminar indivíduos com marcha funcional daqueles que não a apresentam.

A EEB é composta de 14 itens que consistem na manutenção de posições ou realização de tarefas estáticas ou em movimento, incluindo tarefas com nível de dificuldade variável. Todos os itens são tarefas comuns da vida cotidiana. Os itens recebem uma pontuação de 0 a 4 com base na habilidade para atingir o tempo específico ou a distância requeridos: zero representa inabilidade para completar a tarefa e 4 corresponde à habilidade de completá-la independentemente. A pontuação total varia de 0 a 56 pontos. Foi utilizada a nota de corte de 52 seguindo Belgen et al.1; que estudaram indivíduos hemiparéticos crônicos para avaliar o risco de queda e concluíram que, abaixo desse limite, os indivíduos apresentam risco de queda.

Após a primeira avaliação e no intervalo entre a segunda e a última avaliação, os pacientes foram submetidos a atividades fisioterapêuticas em grupo no âmbito do Projeto Hemiplegia, duas vezes por semana, em sessões de 60 minutos. Cada sessão iniciava-se com uma série de exercícios na posição sentada, depois na posição ortostática e sentada novamente. Os exercícios consistiam em uma seqüência de alongamentos gerais de membros superiores e inferiores, de exercícios de movimentação ativa, auto-assistida ou ativo-assistida, finalizando-se com exercícios de relaxamento ou recreativos. Os alongamentos foram efetuados ativamente ou de forma auto-assistida (ex: flexo-extensão de pescoço, flexão de ombro, flexão de tronco e dorsiflexão e plantiflexão dos pés), acompanhados de exercícios respiratórios. Os exercícios de movimentação foram feitos tanto na posição sentada como em ortostatismo, enfatizando o equilíbrio, a coordenação, a simetria, a distribuição de peso e a marcha. Exercícios de sentar e levantar, agachamento, flexo-extensão de quadril e joelho, ante e retroversão da pelve, andar para frente e na lateral são alguns dos exercícios propostos. As sessões eram supervisionadas por fisioterapeutas e graduandos em Fisioterapia, que auxiliavam os pacientes apenas quando necessário.

Com o intuito de verificar a existência de diferença significativa entre os períodos de coleta, foi aplicado o teste de Kruskal-Wallis; para verificar a presença de correlações entre as avaliações, foi utilizado o teste de correlação de Spearman.

RESULTADOS

A capacidade funcional da marcha, quantificada pelo TLCC, sofreu uma redução progressiva do tempo médio requerido para completar a tarefa ao longo do tempo, como se pode ver na Tabela 1 e Gráfico 1. As diferenças de escore entre as avaliações não foram estatisticamente significativas (p=0,546).


Dos 21 pacientes avaliados, 11 obtiveram pontuações médias abaixo de 20 segundos, ou seja, 52,4% dos indivíduos estudados apresentaram uma marcha com velocidade suficiente para deambular na comunidade.

Quanto aos resultados de EEB, foi observado um aumento na média da pontuação entre cada avaliação, passando de 42,52 pontos na 1ªAv a 45,19 na 3ªAv (Tabela 1 e Gráfico 2). Novamente, as diferenças encontradas não foram estatisticamente significativas (p=0,728). Considerando o ponto de corte de 52 para a EEB, na 1ªAv apenas cinco (23,8%) indivíduos pontuaram acima; e, na 2ª e 3ª, seis (28,6%) indivíduos não apresentaram risco de queda.


A correlação encontrada entre os escores nos dois testes foi considerada forte29 e significativa (p<0,05): r= -0,762 na 1ªAv, r= -0,801 na 2ª e r= -0,764 na 3ª.

DISCUSSÃO

O tratamento proposto no Projeto Hemiplegia objetivou melhorar a capacidade funcional da marcha, a coordenação motora e o equilíbrio, para que as atividades de vida diária (AVD) possam ser realizadas da forma mais independente possível. Diversos estudos utilizam seis a oito semanas de exercícios em hemiparéticos agudos3,8,21,30,31. É conhecido que os exercícios terapêuticos são benéficos em qualquer fase da hemiparesia, entretanto pouco se sabe se os benefícios são sustentados após o final do tratamento7. Neste estudo foram avaliadas as alterações ocorridas após 48 sessões de fisioterapia em um período de 26 semanas.

Observa-se que a melhora dos escores no TLCC e na EEB, com a intervenção, não foi considerada significante. Estudos que utilizaram terapia baseada em exercícios funcionais associados a fortalecimento de músculos específicos encontraram melhores resultados1,3,8,9. Belgen et al.1 sugerem que as reações de equilíbrio requerem força muscular dos membros inferiores, importantes na prevenção das quedas. A força contribui positivamente para a capacidade de equilibrar, a mobilidade funcional e a prevenção das quedas, sugerindo que o fortalecimento seja um aspecto importante para a fisioterapia de hemiparéticos crônicos. Segundo o estudo de Leroux et al.9; quando se observa melhora no desempenho no TLCC pode-se inferir que o paciente adquiriu uma habilidade contrátil mais eficiente e um aumento na força muscular da perna parética, sugerindo que os resultados variam com o nível de fraqueza muscular e espasticidade. A fraqueza muscular e a espasticidade dificultam o recrutamento coordenado de fibras e a força suficiente para a execução de uma tarefa funcional, o que explicaria o tempo mais longo requerido para o TLCC em pacientes pós AVE4.

Estudos25,26,28 com o TLCC revelam que indivíduos que levam menos de 10 segundos para realizar a tarefa são capazes e independentes na realização das AVD. Nenhum indivíduo avaliado neste estudo realizou o TLCC em menos de 10 segundos; porém, dos 21 participantes, 11 (52,4%) obtiveram pontuações médias abaixo de 20 segundos, o que, para outros autores, significa que são relativamente capazes de realizar tarefas de transferência nas AVD e deambulam numa velocidade condizente com as necessidades da vida em comunidade25,26,28,32. Os que levam mais de 30 segundos são considerados dependentes na maioria das AVD e na capacidade de mobilidade4,21,26,28; na amostra estudada, este foi o caso de apenas quatro indivíduos (19%). Escores no TLCC abaixo de 30 segundos expressam a capacidade dos pacientes de se apresentarem ao tratamento sem acompanhante e se dirigirem ao setor desacompanhados de terapeuta; dos quatro que tiveram escores acima de 30 segundos, três necessitavam de acompanhante para ir à terapia e auxílio dos terapeutas. Estudos futuros poderiam avaliar a independência nas AVD desses pacientes e compará-la com os escores obtidos no TLCC.

Quanto ao risco de queda apontado pela EEB, na atual literatura são utilizados vários pontos de corte, variando de 36 a 52 pontos1,13,14,33. Essas variadas pontuações refletem os diferentes subgrupos testados e levantam a questão de que apenas um limite de pontuação não é adequado para se caracterizar grupos com características diversas1. Segundo Belgen et al.1; para melhor discriminar pacientes com queixa de múltiplas quedas e apontar risco para quedas em uma população de hemiparéticos crônicos, o ponto de corte de 52 é o mais adequado. Neste estudo, na 1ªAv apenas 5 (23,8%) indivíduos pontuaram acima de 52 e, na 2ª e 3ªAv, 6 (28,6%) indivíduos não apresentam risco de queda. Apesar de os resultados de TLCC sugerirem que os indivíduos avaliados são eficientes na marcha, os resultados de EEB não descartam o risco de queda para a maioria deles.

A forte correlação obtida no presente estudo entre os escores obtidos nos dois testes (de -0,762, -0,801 e -0,764 nas três avaliações) concorda com os valores encontrados por outros estudos. Os pesquisadores que desenvolveram o TLCC relatam uma correlação alta com a EEB (r=-0,81)27; Thorbahn e Newton15 encontraram uma correlação de -0,76; e Shumway-Cook et al.16; de -0,72. Pode-se pois inferir que quando há melhora no equilíbrio do indivíduo, ele necessita de menos tempo para se ajustar, sendo capaz de realizar a marcha e atividades de mobilidade em menos tempo1,4,8.

O Projeto Hemiplegia utiliza exercícios funcionais sem focalizar a força muscular, o que poderia justificar a falta de melhora no desempenho funcional. Kim et al.34 concluíram que a marcha depende do treinamento da musculatura adequada, mas a ênfase apenas no fortalecimento não foi suficiente para melhorar a função dos hemiparéticos, pois não se observaram diferenças na velocidade da marcha entre grupo experimental e grupo controle. Portanto, uma proposta de tratamento que utilize a funcionalidade associada ao fortalecimento muscular deve ser mais eficaz para melhorar a capacidade funcional da marcha e o equilíbrio dos pacientes8,34.

O programa de exercícios do Projeto Hemiplegia pode não ter sido suficiente para aumentar a mobilidade funcional e o equilíbrio, mas foi capaz de mantê-los. A amostra do presente estudo incluiu pacientes crônicos, todos com um tempo de AVE superior a um ano, diferentemente de estudos anteriores, que utilizaram grupos de pessoas com um tempo de AVE menor que um ano. Tais estudos relatam tratamentos na fase aguda do hemiparético e por um curto período de tempo, interrompendo o tratamento após observar algum ganho funcional3,9,21,30,31; não se mencionando a atuação no paciente crônico. Esse programa cumpre a função de promover uma oportunidade ao paciente crônico, que já apresenta limitações em suas capacidades funcionais devido à doença, e passa pelo processo natural do envelhecimento, de manter sua função, evitar o sedentarismo e suas complicações. Além disso, o Projeto Hemiplegia provê um espaço de vínculo social e acompanhamento especializado.

As limitações do estudo referem-se ao tamanho e à heterogeneidade da amostra. O número limitado da amostra dificulta o ajuste estatístico. Os pacientes do Projeto Hemiplegia apresentam grande diversidade de idade, tempo de lesão, comprometimento motor e grau de independência, o que pode ter implicações em seus ganhos motores. Estudos posteriores devem atentar para isso, estabelecendo critérios de seleção de modo a obter amostras mais homogêneas e poder comparar indivíduos de mesmo grau de lesão ou capacidade funcional, podendo obter resultados mais consistentes.

CONCLUSÃO

O programa de exercícios proposto neste estudo não se mostrou efetivo, uma vez que não houve melhora nos escores do TLCC e EEB ao fim de seis meses de seguimento. Uma terapia baseada em exercícios funcionais associados ao fortalecimento de músculos específicos poderia apresentar melhores resultados. Embora a marcha apresentada pelos pacientes seja suficiente para atender às necessidades do dia-a-dia, isso não os exclui de apresentarem risco para quedas. A forte correlação encontrada entre os resultados na EEB e no TLCC pode sugerir que, quando um indivíduo apresenta bom equilíbrio, requer menos tempo para ajustar-se, sendo capaz de mover-se mais rapidamente.

Apresentação: jul. 2010

Aceito para publicação: maio 2010

Estudo desenvolvido no Centro de Estudos e Atendimento em Fisioterapia e Reabilitação do Depto. de Fisioterapia da FCT/Unesp - Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista, campus de Presidente Prudente, SP, Brasil

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  • Endereço para correspondência:
    Caroline Háruka Giriko
    R. Primeiro de Maio 20 Monte Castelo
    12215-230 São José dos Campos SP
    e-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      05 Abr 2012
    • Data do Fascículo
      Set 2010

    Histórico

    • Aceito
      Maio 2010
    • Recebido
      Jul 2010
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