Equiscala: versão brasileira e estudo de confiabilidade e validade da Equiscale

Brazilian version, reliability and validity study of the Equiscale

Sara Regina Meira Almeida Anderson Barbosa Loureiro Tiaki Maki Sobre os autores

Resumos

Este estudo consistiu na tradução para o português e na verificação da confiabilidade e validade do teste original de equilíbrio Equiscale. A versão brasileira foi testada em 11 indivíduos com esclerose múltipla selecionados aleatoriamente, que foram inicialmente avaliados pela Escala de Equilíbrio de Berg (EEB), Medida de Independência Funcional e pela Escala do Estado de Deficiência Expandida (EDSS). Foram feitas duas avaliações usando a Equiscala (teste-reteste) por três fisioterapeutas, para verificar a confiabilidade interexaminador. A confiabilidade teste-reteste e interexaminador foi verificada pelo coeficiente de correlação intra-classe (CCI); e a relação entre a Equiscala e as demais escalas, pelo coeficiente de correlação de Spearman. Foi demonstrada adequada confiabilidade teste-reteste (CCI=0,882; 0,906) e interexaminador(CCI=0,947; 0,933; 0,962). Também foi encontrada boa correlação da Equiscala com a Escala de Equilíbrio de Berg (rs=0,8940; p=0,0002) e a EDSS (rs=-0,7139; p=0,0136). Os resultados indicam que a Equiscala apresenta adequada confiabilidade e validade, podendo ser aplicada na avaliação do equilíbrio em pacientes com esclerose múltipla.

Avaliação; Equilíbrio musculoesquelético; Esclerose múltipla; Estudos de validação


This articles presents the Brazilian-Portuguese version of the Equiscale, and assesses its reliability and validity. The translation was tested on 11 randomly-selected patients with multiple sclerosis, who were also assessed by the Berg Balance Scale (BBS), Functional Independence Measure (FIM), and Expanded Disability Status Scale (EDSS). The Equiscale was applied twice (test-retest) by three physical therapists. Test-retest reliability was verified by the intra-class correlation coefficient (ICC), and comparison between Equiscale and the other scales was made using Spearman correlation coefficient. Test-retest reliability was shown to be adequate (ICC=0.882; 0.906), as well as inter-examiner's (ICC=0.947; 0.933; 0.962). Good correlations were also found between Equiscale and BBS (rs=0.8940; p=0.0002), and EDSS (rs=-0.7139; p=0.0136). Results thus show that the Equiscale Brazilian version presents adequate reliability and validity, proving a useful instrument to assess balance in multiple sclerosis patients.

Evaluation; Multiple sclerosis; Musculoskeletal equilibrium; Validation studies


PESQUISA ORIGINAL ORIGINAL RESEARCH

Equiscala: versão brasileira e estudo de confiabilidade e validade da Equiscale

Brazilian version, reliability and validity study of the Equiscale

Sara Regina Meira AlmeidaI; Anderson Barbosa LoureiroII; Tiaki MakiII

IFisioterapeuta, mestranda em Ciências Médicas na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp

IIFisioterapeutas Ms.

Endereço para correspondência

RESUMO

Este estudo consistiu na tradução para o português e na verificação da confiabilidade e validade do teste original de equilíbrio Equiscale. A versão brasileira foi testada em 11 indivíduos com esclerose múltipla selecionados aleatoriamente, que foram inicialmente avaliados pela Escala de Equilíbrio de Berg (EEB), Medida de Independência Funcional e pela Escala do Estado de Deficiência Expandida (EDSS). Foram feitas duas avaliações usando a Equiscala (teste-reteste) por três fisioterapeutas, para verificar a confiabilidade interexaminador. A confiabilidade teste-reteste e interexaminador foi verificada pelo coeficiente de correlação intra-classe (CCI); e a relação entre a Equiscala e as demais escalas, pelo coeficiente de correlação de Spearman. Foi demonstrada adequada confiabilidade teste-reteste (CCI=0,882; 0,906) e interexaminador(CCI=0,947; 0,933; 0,962). Também foi encontrada boa correlação da Equiscala com a Escala de Equilíbrio de Berg (rs=0,8940; p=0,0002) e a EDSS (rs=-0,7139; p=0,0136). Os resultados indicam que a Equiscala apresenta adequada confiabilidade e validade, podendo ser aplicada na avaliação do equilíbrio em pacientes com esclerose múltipla.

Descritores: Avaliação; Equilíbrio musculoesquelético; Esclerose múltipla; Estudos de validação

ABSTRACT

This articles presents the Brazilian-Portuguese version of the Equiscale, and assesses its reliability and validity. The translation was tested on 11 randomly-selected patients with multiple sclerosis, who were also assessed by the Berg Balance Scale (BBS), Functional Independence Measure (FIM), and Expanded Disability Status Scale (EDSS). The Equiscale was applied twice (test-retest) by three physical therapists. Test-retest reliability was verified by the intra-class correlation coefficient (ICC), and comparison between Equiscale and the other scales was made using Spearman correlation coefficient. Test-retest reliability was shown to be adequate (ICC=0.882; 0.906), as well as inter-examiner's (ICC=0.947; 0.933; 0.962). Good correlations were also found between Equiscale and BBS (rs=0.8940; p=0.0002), and EDSS (rs=-0.7139; p=0.0136). Results thus show that the Equiscale Brazilian version presents adequate reliability and validity, proving a useful instrument to assess balance in multiple sclerosis patients.

Key words: Evaluation; Multiple sclerosis; Musculoskeletal equilibrium; Validation studies

INTRODUÇÃO

A esclerose múltipla (EM) é uma doença crônica, debilitante causada pela desmielinização do sistema nervoso central (SNC) e deterioração axonal1,2. Devido à presença da mielina em todo o SNC, os indivíduos com EM podem apresentar fraqueza muscular2,3, espasticidade4,5, desordens da marcha e do equilíbrio, défices sensitivos e de coordenação6, fadiga7 e piora da qualidade de vida8. A dificuldade na manutenção do equilíbrio está geralmente associada com a perda de mobilidade, sustentação da postura bípede e realização de atividade funcionais, além de predispor a quedas9-11.

Na década passada, a atenção era direcionada à reabilitação do equilíbrio em pessoas jovens. Recentemente, a avaliação e o tratamento do equilíbrio e da marcha nos indivíduos com EM tem atraído grande interesse da comunidade científica2,12-14. Embora sejam consideráveis as pesquisas clínicas dedicadas à restituição e manutenção do equilíbrio e prevenção de quedas15-17 em indivíduos com EM, poucos são os instrumentos clínicos para avaliar o equilíbrio. A escolha dos instrumentos de avaliação deve ser adequada, por parte dos profissionais que lidam com esses pacientes, buscando medidas confiáveis, válidas, sensíveis e de fácil aplicabilidade18. Além disso, a utilização de testes clínicos confiáveis contribui para a documentação objetiva do progresso de um paciente, antes e após uma intervenção, bem como para a troca de informações entre profissionais.

Nos últimos 40 anos, vários instrumentos de medida vêem sendo criados e utilizados na esclerose múltipla. A Escala do Estado de Deficiência Expandida (EDSS) é a mais conhecida e largamente utilizada para avaliar o comprometimento e a incapacidade funcional19, porém não avalia a reação postural. Os instrumentos clínicos utilizados na avaliação do equilíbrio em indivíduos com EM são: Escala de Equilíbrio de Berg (EEB)20, teste clinico de equilíbrio em pé21, Dynamic Gait Index22 e a Equiscale23. A avaliação do equilíbrio deve averiguar a habilidade dos indivíduos de manter-se em pé em diferentes condições de apoio, bem como permanecer estável durante e após perturbações internas e externas24.

De todos esses instrumentos, a Equiscale é o único elaborado especialmente para indivíduos com EM, com base em outras duas escalas (Tinetti Gait e EEB). Além de avaliar o equilíbrio estático e antecipatório dos indivíduos durante a realização de tarefas preestabelecidas, mensura o equilíbrio reativo frente a uma perturbação externa23.

Tesio e colaboradores criaram em 1997 a Equiscale alegando que os testes posturais e de posturografia dinâmica não exploravam o equilíbrio durante os movimentos usuais em situações do dia-a-dia, quando é muito comum a ocorrência de quedas23. O teste vem sendo utilizado para avaliar resultados terapêuticos nos indivíduos com EM15.

A exigência de abordagens terapêuticas baseadas em evidências25 faz crescer o interesse em avaliações objetivas e específicas que reflitam a efetividade das técnicas terapêuticas empregadas nos pacientes com lesões do SNC18. Dessa forma, este estudo tem o objetivo de traduzir e verificar a validade e a confiabilidade da versão brasileira do teste original Equiscala.

METODOLOGIA

A pesquisa foi um estudo prospectivo, em corte longitudinal, para verificar a confiabilidade e validade da escala Equiscale. A amostra foi composta por pacientes portadores de EM atendidos no Ambulatório de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas. De 11 pacientes selecionados, 7 eram do sexo feminino e 4 do masculino. A média de idade foi de 38 anos. Na avaliação inicial, foram aplicados os instrumentos EEB, MIF - Medida de Independência Funcional e EDSS. Os pacientes apresentaram uma média de 38,5 na EEB, 121 na MIF e 3,9 na EDSS (Tabela 1). Foram incluídos pacientes portadores de EM na fase surto-remissiva, faixa etária de 20 a 60 anos, em ortostase, que não apresentassem outras patologias associadas, obtendo pela escala de EDSS19 pontuação até 6,5.

Todos os sujeitos incluídos no estudo foram informados quanto aos procedimentos e assinaram o termo de consentimento de forma livre e esclarecida; o estudo foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da instituição.

Instrumentos

A Equiscale23 avalia o equilíbrio em oito itens, sendo os itens 2, 3 e 8 referentes à posição estática, o item 6 referente à resistência a perturbações externas e os itens 1, 4, 5 e 7, à resistência à própria perturbação, com escores variando entre zero (não realiza a atividade), um (realiza parcialmente) e dois (realiza normalmente). A pontuação máxima, de 16 pontos, indica um excelente equilíbrio (Quadro 1).

A Escala de Equilíbrio de Berg (EEB) avalia o desempenho do equilíbrio funcional em 14 itens comuns à vida diária com valor máximo de 56 pontos, tendo cada item cinco alternativas, que variam de zero a quatro pontos20. Quanto maior a pontuação, melhor o resultado obtido.

A Medida de Independência Funcional (MIF) verifica o desempenho do indivíduo para a realização de um conjunto de 18 tarefas, referentes às subescalas de autocuidado, controle esfincteriano, transferências, locomoção, comunicação e cognitivo-social. Cada item pode ser classificado em uma escala de graus de independência de sete níveis, sendo o zero correspondente à dependência total e o sete correspondente à realização de tarefas de forma independente. Sua pontuação varia de 18 (totalmente dependente) a 126 (totalmente independente) pontos - quanto maior a pontuação, melhor o resultado26.

A Escala do Estado de Deficiência Expandida (Expanded Disability Status Scale - EDSS), de 10 pontos, visa medir a função máxima e as limitações resultantes dos défices neurológicos juntamente com a de oito sistemas funcionais (piramidal, cerebelar, de tronco cerebral, sensorial, bexiga e intestino, visual, cerebral e funções variadas), que constituem as alterações neurológicas que podem ser atribuídas às lesões19. A pontuação vai de zero (exame neurológico normal) a 10 (morte devido a esclerose múltipla). Quanto maior a pontuação, pior o prognóstico. O escore menor que 4 indica pouca incapacidade e de 4 a 10 é fortemente dependente nas incapacidades e, principalmente, na locomoção27.

Procedimentos

Primeiramente foi realizada a tradução para o português da Equiscale, com base em sua versão original de 199723. A tradução foi feita por dois profissionais qualificados e experientes, tendo um deles o inglês como língua materna. Posteriormente, foi vertida para o inglês por um terceiro tradutor, chegando-se a um texto final de consenso, que foi mantido (Quadro 1).

Participaram do treinamento de avaliação três fisioterapeutas experientes, treinados por um examinador familiarizado com a escala. O treinamento consistiu na exposição teórica e prática da Equiscala. No treinamento prático, os fisioterapeutas assistiram a um videoteipe do examinador experiente realizando os testes, pontuando e mostrando os resultados. Em seguida, assistiram o videoteipe de outros pacientes e atribuíram eles próprios as pontuações, comparando-as às do examinador do videoteipe.

A Equiscala foi aplicada de forma seqüencial pelos três fisioterapeutas: um conduziu e pontuou as avaliações, enquanto os outros dois observavam e pontuavam ao mesmo tempo, porém sem comunicação entre si. Os mesmos fisioterapeutas avaliaram os pacientes na primeira e segunda visita, após um tempo médio de 48 horas, para permitir verificar a confiabilidade teste-reteste. Na primeira avaliação, concomitantemente a essa escala, foram aplicadas a MIF, a EEB e a EDSS

Análise estatística

A confiabilidade da Equiscala foi testada de duas maneiras: pela correlação com as demais escalas; e pela avaliação da confiabilidade teste-reteste e interexaminador, para mensurar a replicabilidade dos escores. A correlação entre os instrumentos de medida foi calculada pelo coeficiente de correlação de Spearman (r) para testar a validade concorrente. A confiabilidade teste-reteste e interexaminador foi verificada em sua pontuação total pelo coeficiente de correlação intraclasse (CCI). Foi adotada a seguinte classificação do CCI: CCI<0,40 - concordância fraca; CCI<0,75 - concordância moderada; e CCI>0,75 concordância adequada28. O nível de significância adotado para as análises foi de 5% (p<0,05).

RESULTADOS

O CCI demonstrou uma adequada concordância intra-examinadores na primeira (0,882) e na segunda avaliação (0,906) (Tabela 2), assim como uma adequada concordância interexaminadores (variando de 0,933 a 0,962, Tabela 3).

Na correlação entre as demais escalas, foi encontrada uma significante correlação positiva da Equiscala com a EEB (rs=0,894, p=0,0002). Isto é, na correlação positiva, o aumento ou diminuição na pontuação de um dos instrumentos é acompanhado pelo outro. Já na correlação significante negativa, observada entre a Equiscala e a EDSS (rs=-0,713; p=0,0136), o aumento na pontuação em um dos instrumentos é acompanhado pela diminuição no outro, ou vice-versa. Na correlação entre a Equiscala e a MIF não foi observada significância (rs=0,501; p=0,1158).

DISCUSSÃO

O comprometimento do funcionamento neural na EM conduz à disfunção sensorial e motora, contribuindo assim para os problemas de equilíbrio, coordenação, controle postural e dos mecanismos da marcha21. Por esses comprometimentos e pela perda de força muscular nos membros inferiores, a prevalência de quedas é elevada11,29.

Como o desequilíbrio é um dos sintomas mais comuns e de maior incapacidade nos pacientes com EM11, torna-se necessário avaliar o equilíbrio e analisar o impacto que esse sintoma tem nas atividades de vida diária, além de ajudar na elaboração de um tratamento fisioterapêutico adequado.

Um dos objetivos do estudo foi traduzir a Equiscala, respeitando aspectos da equivalência experimental ou cultural vivida pela população à qual se destina. Para sua reprodução na língua portuguesa foram preservadas todas as tarefas propostas na versão original em inglês, sem necessidade de alteração de qualquer natureza. Após a tradução da Equiscala, foi possível perceber sua adequação quanto à reprodução e quanto à aplicação nos pacientes avaliados.

Quando se observa a relação da Equiscala com as demais medidas que avaliam a EM, encontramos uma boa correlação com a EEB. Isso é importante, pois a EEB é um instrumento amplamente utilizado na avaliação de equilíbrio, com confiabilidade e validade estabelecidas para a EM30, 31.

A boa validade concorrente da Equiscala e EEB pode ser decorrente da presença de itens que se repetem nos dois instrumentos, como mover-se da posição sentada para de pé, inclinar-se à frente para pegar um objeto e girar em torno do próprio eixo. Mas também demonstra a capacidade da Equiscala de avaliar o equilíbrio nesse grupo de indivíduos. Além disso, soma-se a presença do item 6 (resistir a empurrões dado pelo terapeuta) da Equiscala, que avalia o controle postural reativo, para a melhor descrição do equilíbrio desses pacientes.

A Equiscala também demonstrou boa correlação com a EDSS, que é a escala mais utilizada para medir o impacto da EM no indivíduo, apesar de alguns autores relatarem que a EDSS não analisa todo o comprometimento da mobilidade32. A coerência entre as duas escalas mostra a efetividade de utilizar a Equiscala nas avaliações práticas, já que a EDSS auxilia na caracterização da disfunção neurológica e na correlação com outros parâmetros, como disfunção psicológica, duração e forma clínica da doença33.

Entre a Equiscala e a MIF não foi encontrada relação significante, contradizendo estudos anteriores, que apontam a MIF como o melhor instrumento para predizer as necessidades de assistência física ao paciente com EM34. Na avaliação de alguns itens motores (mobilidade - transferência e locomoção) da MIF, é observado um conjunto de ações motoras que demandam a integridade de todos os sistemas envolvidos com o controle postural - mas não se observam algumas estratégias motoras compensatórias, que podem ser utilizadas no ajustamento postural desses pacientes. Aliado a isso, muitos dos itens motores e cognitivos da MIF podem ser realizados na ausência de controle postural apurado, sugerindo a necessidade de instrumentos específicos para o equilíbrio nos pacientes com EM.

Dificilmente, um único teste clínico é capaz avaliar todos os sistemas envolvidos no complexo mecanismo de controle do equilíbrio35. Além disso, a avaliação do equilíbrio deve incorporar protocolos que testam a habilidade de uma pessoa manter o equilíbrio na postura sentada e bípede sobre diferentes condições, permanecendo estável durante e após perturbações internas e externas24. Para esse fim, buscamos um instrumento capaz de mensurar a eficácia de estratégias terapêuticas aplicadas e testadas nos pacientes com EM.

A confiabilidade teste-reteste e interexaminador mostrou-se adequada no presente estudo; a Equiscala apresentou-se como uma escala de fácil aplicabilidade, podendo ser utilizada na prática clínica dos pacientes com EM.

Um outro ponto levantado foi o tempo gasto com a aplicação da Equiscala, que não foi superior a 10 minutos. Tesio et al.23, ao criarem a Equiscala, alegaram a necessidade de um instrumento de curta aplicação, para evitar fadiga dos pacientes. Segundo esses autores, os indivíduos com EM são propensos a mudanças em seus desempenhos em testes muito longos e demorados - embora, três anos mais tarde, Frzovic et al.21 tenham relatado que a fadiga parece não comprometer o desempenho de pacientes com EM em testes de equilíbrio.

Justamente, uma das vantagens da Equiscala é sua estrutura, que verifica aspectos importantes em poucos itens. Mensura o controle postural estático, avaliado pela manutenção da postura no apoio uni ou bipodal contra a ação da gravidade; e avalia a manutenção do equilíbrio frente a perturbações geradas interna e externamente. As perturbações geradas internamente são avaliadas em tarefas que solicitam o planejamento antecipatório, como o teste de alcance funcional. Este teste sozinho é capaz de discriminar os défices de equilíbrio entre indivíduos normais daqueles com desordens do movimento, além de refletir a habilidade em realizar tarefas que incorporam o alcance e preensão de objetos posicionados a uma distância maior que o comprimento do braço21. O equilíbrio reativo é avaliado na Equiscala pelos "empurrões" produzidos pelo examinador. As três principais estratégias de movimento (tornozelo, quadril e passo) que podem ser utilizadas para retornar ao equilíbrio na posição em pé só são realizadas adequadamente se todos os componentes do controle postural estiverem íntegros, incluindo as regiões corticais responsáveis pelo processamento e integração sensório-motora - as quais freqüentemente apresentam, em pacientes com EM, placas escleróticas que podem levar a falhas na seleção e modulação das respostas35. Além disso, Cattaneo et al.11 demonstraram que a Equiscala permitiu distinguir de forma significativa o grupo de indivíduos que apresentava quedas daquele que não apresentava.

CONCLUSÃO

Os resultados indicam que a Equiscala apresenta adequada confiabilidade teste-reteste e interexaminador, e validade concorrente com a EDSS e EEB, não apresentando boa correlação com a MIF. Este estudo permitiu verificar que a Equiscala, versão brasileira do Equiscale, tendo preenchido os critérios de reprodutibilidade, é fidedigna e apta a ser utilizada nas avaliações de deficit de equilíbrio em indivíduos com esclerose múltipla.

Apresentação: dez. 2007

Aceito para publicação: set. 2008

Estudo desenvolvido no Serviço de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Hospital de Clinicas da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil

  • 1 Chandran S, Hunt D, Joannides A, Zhao C, Compston A, Franklin RJM. Myelin repair: the role of stem and precursor cells in multiple sclerosis. Philos Trans R Soc London B Biol Sci. 2008;363(1489):171-83.
  • 2 Paul L, Rafferty D, Young S, Miller L, Mattison P, McFadyen. The effect of functional electrical stimulation on the physiological cost of gait in people with multiple sclerose. Mult Scler. 2008;14:954-61.
  • 3 Carrol CC, Gallagher PM, Seidle ME, Trappe SW. Skeletal muscle characteristics of people with multiple sclerosis. Arch Phys Med Rehabil. 2005;86:224-9.
  • 4 Miller L, Mattison P, Paul L, Wood L. The effects of transcutaneos electric nerve stimulation (TENS) on spasticity in multiple sclerosis. Mult Scler. 2007;13:527-33.
  • 5 Rizzo MA, Hadjimichael OC, Preiningerova J, Vollmer TL. Prevalence and treatment of spasticity reported by multiple sclerosis patients. Mult Scler. 2004;10:690-704.
  • 6 Casadio M, Sanguineti V, Morasso P, Solaro C. Abnormal sensoriomotor control, but intact force field adaptation, in multiple sclerosis subjects with no clinical disability. Mult Scler. 2008;14:330-42.
  • 7 Surakka J, Romberg A, Ruutianen J, Aunola S, Virtanen A, Karppi SL, et al. Effects of aerobic and strength exercise on motor fatigue in men and women with multiple sclerosis: a randomized controlled trial. Clin Rehabil. 2004;18:737-46.
  • 8 Romberg A, Virtanen A, Ruutiainen J. Long-term exercise improves functional impairment but not quality of life in multiple sclerosis. J Neurol. 2005;252:839-45.
  • 9 Soyuer F, Mirza M, Erkarkmaz U. Balance performance in three forms of multiple sclerosis. Neuro Res. 2006;28:555-62.
  • 10 Gutierrez GM, Chow JW, Tillman MD, McCoy SC, Castellano V, White LJ. Resistance training improves gait kinematics in persons with multiple sclerosis. Arch Phys Med Rehabil. 2005; 86:1824-9.
  • 11 Cattaneo D, De Nuzzo C, Fascia T, Macalli M, Pisoni I, Cardini R. Risks of falls in subjects with multiple sclerosis. Arch Phys Med Rehabil. 2002;83:864-7.
  • 12 Cattaneo D, Jonsdottir J, Zocchi M e Regola A. Effects of balance exercises on people with multiple sclerosis: a pilot study. Clin Rehabil. 2007;21:771-81.
  • 13 Giesser B, Beres-Jones J, Budovitch A, Herlihy E, Harkema S. Locomotor training using body weight support on a treadmill improves mobility in persons with multiple sclerosis: a pilot study. Mult Scler. 2007;13:224-31.
  • 14 Martin CL, Phillips BA, Kilpatrick TJ, Butzkueven H, Tubridy N, McDonald, et al. Gait and balance impairment in early multiple sclerosis in the absence of clinical disability. Mult Scler. 2006;12:620-8.
  • 15 Almeida SRM, Bensuaski K, Cacho EWA, Oberg T. Eficiência do treino de equilíbrio na esclerose múltipla. Fisioter Mov. 2007;20(2):41-8.
  • 16 Cattaneo D, Ferrarin M, Frasson W, Casiraghi A. Head control: volitional aspects of rehabilitation training in patients with multiple sclerosis compared with healhy subjects. Arch Phys Med Rehabil. 2005;86:1381-8.
  • 17 DeBolt LS, McCubbin JA. The effects of home-based resistence exercise on balance, power, and mobility in adulty with multiple scleroise. Arch Phys Med Rehabil. 2004;85:290-5.
  • 18 Gadotti IC, Vieira ER, Magee DJ. Importance and clarification of measurement properties in rehabilitation. Rev Bras Fisioter. 2006;10(2):137-46.
  • 19 Kurtzke JF. Rating neurological impairment in multiple sclerosis: an expanded disability status scale (EDSS). Neurology. 1983;33:1444-52.
  • 20 Miyamoto ST, Lombardi Jr I, Berg KO, Ramos LR, Natour J. Brazilian version of the Berg balance scale. Braz J Med Biol Res. 2004;37(9):1411-21.
  • 21 Frzovic D, Morris ME, Wowels L. Clinical tests of standing balance: performance of persons with multiple sclerosis. Arch Phys Med Rehabil. 2000;81:215-21.
  • 22 McConvey J, Bennett SE. Reliability of the Dynamic Gait Index in individuals with multiple sclerosis. Arch Phys Med Rehabil. 2005;86:130-3.
  • 23 Tesio L, Perucca L, Franchiglion PF, Battaglia MA. A short measure of balance in multiple sclerosis: validation through Rasch analysis. Funct Neurol. 1997;12(5):255-65.
  • 24 Stevenson TJ, Garland J. Standing balance during internally produced perturbations in subjects with hemiplegia: validation of the balance scale. Arch Phys Med Rehabil. 1996;77:656-62.
  • 25 Marques AP, Peccin MS. Pesquisa em fisioterapia: a prática baseada em evidências e modelos de estudo. Fisioter Pesq. 2005;11(1):43-8.
  • 26 Riberto M, Miyazaki MH, Jucá SSH, Sakamoto H, Pinto PPN, Batistella LR. Validação da versão brasileira da medida de independência funcional. Acta Fisiatr. 2004;2:72-6.
  • 27 Patti F, Ciancio MR, Cacopardo M, Reggio E, Fiorilla T, Palermo F, et al. Effects of a short outpatient rehabilitation treatment on disability of multiple sclerosis patients: a randomized controlled trial. J Neurol. 2003;250:861-6.
  • 28 Ware J, Brook R, Davies-Avery A, Williams K, Rogers W. Model of health and methodology: conceptualization and measurement of health for adults in the health insurance study; vol I. Santa Monica, CA: Rand; 1980.
  • 29 Thoumie P, Lamotte D, Cantalloube S, Faucher M, Amarenco G. Motor determinants of gait in 100 ambulatory patients with multiple sclerosis. Mult Scler. 2005;11:485-91.
  • 30 Cattaneo D, Jonsdottir J, Repetti S. Reliability of four scales on balance disorders in persons with multiple sclerosis. Disabil Rehabil. 2007;29(24):1920-5.
  • 31 Cattaneo D, Regola A, Meotti M. Validity of six balance disorders scales in persons with multiple sclerosis. Disabil Rehabil. 2006;28(12):789-95.
  • 32 McMillan L, Moor KA. The development and validation of the Impact of Multiple Sclerosis Scale and the Symptoms of Multiple Sclerosis Scale. Arch Phys Med Rehabil. 2006;87:832-41.
  • 33 Lopez LG, Tello CR. Communication of the diagnosis of multiple sclerosis: the patient's opinion. Neurologia (Barcelona, Spain). 2008;23(6):367-72.
  • 34 Granger CV, Cotter AC, Hamilton BB, Fiedler RC. Functional assessment scales: a study of persons with multiple sclerosis. Arch Phys Med Rehabil. 1990;71:870-5.
  • 35 Horak FB. Postural orientation and equilibrium: what do we need to know about neural control of balance to prevent falls? Age Ageing. 2006;35:7-11.

  • Endereço para correspondência:
    Sara Regina M. Almeida
    Av. Papa Pio XII 163 ap.12 Jardim Chapadão
    13070-091 Campinas SP
    e-mail:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Abr 2012
  • Data do Fascículo
    Set 2008

Histórico

  • Aceito
    Set 2008
  • Recebido
    Dez 2007
Universidade de São Paulo Rua Ovídio Pires de Campos, 225 2° andar. , 05403-010 São Paulo SP / Brasil, Tel: 55 11 2661-7703, Fax 55 11 3743-7462 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revfisio@usp.br