Resumo
Este artigo apresenta uma pesquisa de mestrado realizada com mulheres adultas em situação de rua, a partir de histórias-guias vivenciadas, escutadas e lembradas no processo de cartografia-rio que a desenvolve. Narrativas direcionam o curso dessas águas, com acontecimentos que abrem visibilidade, desnaturalizam, tensionam e suscitam analisadores. Dimensões macro e micropolíticas são problematizadas, com olhar atento a resistências, a políticas de cuidado, ao SUS, à RAPS, ao SUAS, à pandemia de Covid-19, a questões de interseccionalidade - gênero, raça, classe, sexualidade - e ainda à lógica colonial-capitalista produtora de realidades, de misérias, de desigualdades, de violências. A cartografia como metodologia de pesquisa-intervenção desenha este estudo, que busca acompanhar a população em situação de rua em territórios da cidade de Santos/SP, com registros de experiências em Diário de Campo, com suas escritas intensivas, em cultivo processual de dados e análises. As potencialidades de reflorestamentos subjetivos, de transvalorações, de aquilombamentos na fabulação de cuidados nômades, são pensadas como bússolas Cruzeiro do Sul, contracoloniais. Uma perspectiva de criação de resistências, de reencantamento de discursos, práticas, saberes, de produção de conhecimentos implicados ética e esteticamente com a potência da vida, de rios, de mundos outros.
Palavras-chave:
mulheres em situação de rua; políticas de cuidado; resistência; narrativas; interseccionalidade
Abstract
This article presents a master’s degree research carried out with adult women living on the streets, based on guide stories experienced, heard and remembered in the river-cartography process that develops it. Narratives direct the course of these waters, with events that open visibility, denaturalize, tension and convoke analyzers. Macro and micropolitical dimensions are problematized, with a close look at resistance, care policies, SUS, RAPS, SUAS, the Covid-19 pandemic, questions of intersectionality - gender, race, class, sexuality - and also the colonial-capitalist logic that produces realities, misery, inequalities, violence. Cartography as a research-intervention methodology designs this study, which seeks to accompany the homeless population in territories in the city of Santos/SP, with records of experiences in Field Diaries, with their intensive writing, in procedural data cultivation and analyses. The potential of subjective reforestation, of transvaluations, of aquilombamento in the fabulation of nomadic care, are thought of as Cruzeiro do Sul compasses, counter-colonial. A perspective of creating resistance, of reenchanting discourses, practices, of producing knowledge ethically and aesthetically involved with the power of life, of rivers, of other worlds.
Keywords:
homeless women; care policies; resistance; narratives; intersectionality
Resumen
Este artículo presenta una investigación de maestría realizada con mujeres sin hogar adultas, a partir de historias orientadoras vividas, escuchadas y recordadas en el proceso de cartografía-río que la desarrolla. Las narrativas dirigen el curso de estas aguas, con acontecimientos que abren visibilidad, desnaturalizan, tensionan y convocan a analizadores. Se problematizan las dimensiones macro y micropolíticas, con la mirada puesta en las resistencias, las políticas de cuidados, SUS, RAPS, SUAS, la pandemia de Covid-19, las cuestiones de interseccionalidad - género, raza, clase, sexualidad - y también a la lógica colonial-capitalista que produce realidades, miserias, desigualdades, violencias. La cartografía como metodología de investigación-intervención diseña este estudio, que busca acompañar a la población en situación de calle en territorios de la ciudad de Santos/SP, con registros de experiencias en Diarios de Campo, con su escritura intensiva, en el cultivo procedimental de datos y análisis. El potencial de la reforestación subjetiva, de las transvaloraciones, de lo aquilombamento en la fabulación de cuidados nómadas, son pensados como brújulas Cruzeiro do Sul, contracoloniales. Una perspectiva de crear resistencias, de reencantar discursos, prácticas, de producir conocimientos ética y estéticamente involucrados con la potencia de la vida, de los ríos, de otros mundos.
Palabras clave:
mujeres sin hogar; políticas de cuidado; resistencia; narrativas; interseccionalidad
Introdução: a pesquisa-rio
A história que queremos contar aqui é a de um rio. Um rio que passou por muitas vidas. Um rio que é cheio de vida. E que se inventou como pesquisa. Uma pesquisa-rio. Uma cartografia que pintou mapas de uma bacia hidrográfica e se encantou com suas paisagens multiespécies. Em meio ao rio que sou, “nessa água que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio” (Rosa, 1994). As trilhas desta pesquisa de mestrado, que agora escrevem este artigo, se abrem em meio à pandemia de Covid-19. Mata fechada. Buscamos uma bússola Cruzeiro do Sul, um direcionamento ético contracolonial.
Percursos de intensidades percebidos como rios no interior da Bahia, perto de onde nasceu minha avó. Ela conta que nadava nua no rio em sua infância, talvez uma experimentação de liberdade que jamais voltou a ter. Um corpo-criança-rio. Os rios eram sobrevivência, os períodos de seca ameaçavam com sua escassez. Quando precisava, ela andava horas, com ou sem sapatos, até a cidadezinha mais próxima. Ela carregava latas de água na cabeça, como tantas Marias, para ter alguma chance de existir. O que ela precisou defender foi a vida.
Escolhemos, nesse trabalho cartográfico, contar algumas histórias, lidas, vividas, ouvidas. Histórias de políticas de saúde, de saúde mental, de assistência social, de população em situação de rua, de um país construtor de ruínas - nas palavras de Eliane Brum (2021). Histórias de Marias. Passamos por afluentes, cabeças d’água e correntezas no caminho: o Sistema Único de Saúde (SUS), a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a Redução de Danos, a pandemia de Covid-19. Habitamos problematizações em discursos e práticas de saúde, de cuidados, de políticas públicas, de atuação profissional; em atravessamentos de relações raciais, de gênero e socioeconômicas; em lógicas coloniais-capitalistas e suas políticas de desejo e de subjetivação hegemônicas; em dimensões macro e micropolíticas. Convidamos Maria do Coco e outras Marias para nos guiarem nessas imersões, mulheres que estão ou que estiveram em situação de rua, a partir de vivências e narrativas. Este texto busca trazer algumas destas linhas, de percursos criados nesta pesquisa, entre cursos de tantas águas.
A pesquisa-intervenção que mergulha na cartografia se compõe com o caminho, com o plano da experiência, com ferramentas conceituais, com a emergência conjunta de teoria e prática (Passos; Kastrup; Escóssia, 2015), com as flutuações, os afetos, os ritmos, com os efeitos do processo, com o novo que é continuamente germinado, com o que pede existência. Forças gravitacionais de memórias, acontecimentos, implicações, ruas, urbanidades. Como fazer-se cartógrafa-rio-fluxo?
A cartografia de paisagens psicossociais se faz ao mesmo tempo em que se formam outros mundos e outros sentidos (Rolnik, 1989). Um processo não generalizante, com dimensão coletiva, que inclui contradições e conflitos, que não intenciona conclusões homogêneas, que abre linhas de continuidade, que expande o campo também em suas inconclusões (Kastrup; Barros, 2015). A análise nestes deslocamentos cartográficos se movimenta com os cursos dos rios, seus afluentes, desvios e voos, se orientando por problematizações, visibilidades, desnaturalizações. Esta cartografia hídrica se desenha com as águas, os ares, as incertezas desses tempos. Com cultivo de rigor ético, político e estético.
O Diário de Campo se tornou uma espécie companheira ao longo do processo, com análises de implicações e com a política da narratividade que nos acompanha. As narrativas enunciam acontecimentos e encontros da pesquisa, em produção processual de dados, colhidos em andanças cotidianas enquanto me invento cartógrafa (Liberman; Lima, 2015) na cidade de Santos/SP, e ainda nas aproximações que faço com coletivos de lutas sociais, o que se soma às minhas lembranças e desassossegos de outros tempos de trabalho como psicóloga com população em situação de rua e com políticas públicas. Os analisadores que emergem nos convocam ao pensamento. As histórias dizem de modos de funcionamento social, visibilizam violências e resistências, afrontam, questionam, desnaturalizam. Seguimos também pistas em composição com alianças teóricas, conceituais e do campo da literatura.
Nesses caminhos cartográficos, sigo narrando e fabulando, em composição com os ventos, as memórias, os (des)encontros, os desejos de errâncias, as intensidades, os pés molhados no leito-chão. Apresentamos e analisamos neste artigo alguns aspectos de recortes destas histórias, retiradas do Diário de Campo da pesquisadora. “Não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira. Material poroso, um dia viverei aqui a vida de uma molécula com seu estrondo possível de átomos” (Lispector, 1998, p. 13).
Histórias de Marias-pássaros, 1 correntezas e territórios
A primeira história, vinda de espaços-tempos outros, mas ainda presente, é a da Maria do Coco. Uma mulher que atravessou o país, que deixou marcas de vida e de morte. Uma mulher que escancara problemáticas sociais e interseccionais, que viveu e sobreviveu o tanto que pôde. Uma mulher contadora de histórias que nos instiga a narrar suas histórias. Maria dançante de Coco de Roda, toda colorida em suas saias longas e seus sorrisos. Mulher de cantorias, de contações infinitas de lembranças nas belezas e pobrezas do mundo. Seria essa uma maneira de se reinventar?
Maria tinha uma relação curiosa com a rua. Não cabia entre paredes. Circulou por casas onde trabalhou, serviços de acolhimento institucional, várias vivências em situação de rua, atravessou o país. Carregou com ela o Maranhão, o Coco, a roupa do corpo, a vontade de viver. Maria não tinha cabimento. Não cabia na vida-maria, na vida-miséria que lhe era constantemente empurrada. Maria sustentava avalanches de caos, e só às vezes se cansava, precisava gritar suas dores. Quem poderia escutar? (Augusto, 2023, p. 34).
No ritmo das andanças e dos encontros com diferentes Marias, novas narrativas. Em territórios e fronteiras litorâneas, visíveis e invisíveis, são convocados pensamentos sobre desigualdades, racismos, patriarcado, questões de gênero e sexualidade, feminismos, políticas de cuidado, coletividades, desejos de asas. Histórias-correntezas de Marias-pássaros, que intervêm no mundo, que provocam metamorfoses, que redesenham paisagens.
Passo também pela região do Mercado Municipal de Santos, esse não-lugar desconhecido por turistas e malvisto por moradores da cidade. Percebo meu olhar estrangeiro, situado, parcial, que tanto deixa escapar, mas que algo do invisibilizado consegue ver. Um território marcado por discursos de periculosidade, de mistérios, de distâncias. Muitas pessoas em situação de rua ali habitam, inventam cotidianos e sobrevivências, trabalham, compõem seus cantos, parcerias, parentescos. Rios de desigualdades, de sobrevidas. Um espaço estético-político. Urbanidades contemporâneas, em que as cidades “seriam também um modo de operar e dar sentido à existência. Muros, pavimentos, espaços vazios, grades, calçadas e a paisagem construída [...] enunciam memórias, medos, passagens [...]. Os projetos e as utopias urbanas são destituídos de qualquer inocência ou neutralidade” (Baptista, 2010, p. 213-214).
Em meio às hostilidades urbanas e às inventividades nos modos de viver e fazer mundos, seguimos em busca de artes da existência, da resistência, de insurgências, de histórias. Algumas das Marias habitam os mesmos espaços que eu, cruzamos nossos caminhos rotineiros, as mesmas ruas, praias, calçadas, mas vivemos mundos tão diferentes, tão distantes em privilégios, territórios existenciais tão distintos, ainda que pisando o mesmo chão.
Margens do rio: desigualdades, racismos, feminismos, gêneros, sexualidades
“Foi o meu aniversário! Dia 24 de abril!” Maria-Sabiá, que tinha poesia no nome, passou e parou para me contar, em frente ao carrinho de pastel da praia. Não sei se ela pôde perceber minha surpresa e minha alegria pela consideração. Ela havia se lembrado de mim. [...] Meses antes, na segunda vez que a tinha visto, na expectativa de mapear um pouco de seu território, fui logo perguntando se ela ficava sempre por ali. “Ah, sempre não, né? Fico por aqui, por ali, por lá... Só às vezes tô aqui!” Parece que essas lógicas de enquadramentos do espaço e do tempo não cabiam por lá... [...] (Diário de Campo, ago./2021).
Maria-Sabiá, mulher negra de meia-idade, muito gentil em suas abordagens e discretíssima em falar sobre si, se apresenta com seu nome artístico, que ela mesma criou. Incita a lembrança de um conto de Conceição Evaristo: “O tabelião, não crendo, tentou argumentar que aquele nome [...] era meio esquisito também. Por que Natalina Soledad? Por quê? Natalina Soledad - nome, o qual me chamo - repetiu a mulher que escolhera o seu próprio nome” (Evaristo, 2016, p. 25). Em meio a causos e acasos, cruzei com Maria-Curió.
Ainda deitada no chão, ela continua a me olhar. Conta que já teve cabelos longos, mais longos que os meus, que usava uma trança até a cintura, e entre lágrimas brotando, pede para seu companheiro confirmar. Ele me explica que é verdade, mas ela teve um marido muito violento, que a maltratava muito. Percebo que na cabeça dela, em meio ao coque frouxo que prendia seus fios grisalhos, era possível ver falhas em seu couro cabeludo. Ela chora. [...] Foi assim que conheci Maria-Curió. Mulher negra, emagrecida, de olhos sedentos. Eu voltava da padaria, já de noite, e ela estava caída na esquina de uma calçada, convulsionando. Seu companheiro estava com ela, agachado, esperando a crise passar. Dizia estar acostumado, que já sabia como agir. Estavam em situação de rua há muito tempo. Juntos há 13 anos. Ele conta que em uma noite roubaram o cachorro deles, por isso ela ficava assim, por isso ela andava bebendo, por isso ela tanto chorava. [...] Me contam que plantaram um pé de mamão num canteiro ali perto da outra padaria, e está lindo! [...] Seguem andando. Ela continua em meu olhar. (Diário de Campo, set./2021).
Maria-Curió passou como uma corredeira, me arrastou rio abaixo. Seus cabelos contavam sobre marcas deixadas em seu corpo e em suas memórias. Uma vida saqueada por violências de gênero, patriarcal e doméstica, impulsionadas por dimensões de raça e classe, por misérias, por ausências de proteção social. Preciado (2018) demonstra que a produção de uma relação assimétrica de poder entre os gêneros é uma tecnologia biopolítica, que sustenta explorações, que regula papéis e modos sociais de funcionamento. As durezas coloniais-capitalistas-racistas-sexistas doem também no corpo. Mulheres-bruxas, que insistem em viver, apesar das novas fogueiras que as perseguem.
Outras Marias, inundadas por racismos cotidianos, que incendeiam o mito da democracia racial e evidenciam dimensões de interseccionalidade, trazem problematizações ainda sobre branquitude, processos violentos de racialização, colonialidade e invenção de “humanidades subalternas” (Mbembe, 2018).
“Dia 13 de maio, meu aniversário!” Maria-Canário, uma senhora baixa, negra, olhava através de seus óculos uma das imagens expostas no varal de poesias. [...] Era Carolina Maria de Jesus, com um texto de seu livro “Quarto de Despejo”, datado em 13 de maio. Maria-Canário, idosa, conta que é neta de pessoas que foram escravizadas. Que seu pai era branco, e engravidou sua mãe aos 12 anos de idade. Sua mãe tinha conseguido fugir, e ela foi criada pela avó [...]. “Naquele tempo era assim, os homens faziam isso e ficava por isso mesmo, não dava nada.” Um passado mais que presente. [...] Histórias tão coletivas, de opressão racial, de processos sociais e também singulares. “Não gosto de branco!” Virou e seguiu sua caminhada. (Diário de Campo, mar./2022).
Maria-Canário, com sua história-combate, nos lançou em “ficar com o problema” (Haraway, 2019). Lidar com isso, agir, inventar possíveis. Em meio a abismos, séculos de violências e opressões. A fabricação de divisões raciais e a escravização de pessoas viabilizou a expansão da colonização europeia. Lélia Gonzalez (2020) visibiliza as condições de subordinação de negros e indígenas mantidas pelo racismo e pelo mito da superioridade branca, e a discriminação amplificada na interseccionalidade de gênero, raça e classe. “13 de Maio. [...] Dia que comemoramos a libertação dos escravos. [...] E eu tenho só feijão e sal. [...] A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual - a fome!” (Jesus, 2014, p. 30-32).
Os processos de escravização e racialização compõem uma história coletiva, em que determinadas vozes foram silenciadas e racismos cotidianos foram naturalizados (Kilomba, 2019). O termo negro foi forjado para significar degradação, abominação, e a lógica neoliberal vem promover uma generalização de precarização da vida, marcada pela violência do capital (Mbembe, 2018). “Miúda e o povo daqui não diziam que eram pretos. Pretos não eram bem-vistos, tinham que deixar a terra. Então dizia que era índia. [...] Índio era tolerado, ninguém gostava, mas as leis protegiam, era o que pensavam. [...] começava a contar que foi pego a dente de cachorro [...]” (Vieira Júnior, 2019, p. 223).
A centralidade da construção da noção de raça está no branco. A branquitude se caracteriza por um processo sócio-histórico de produção de ideias de superioridade racial e de organização social estruturada no racismo, em que os brancos são permeados por privilégios simbólicos e materiais: “A branquitude começa a ser construída como um constructo ideológico de poder, em que os brancos tomam sua identidade racial como norma e padrão, e dessa forma outros grupos aparecem ora como margem, ora como desviantes, ora como inferiores” (Schucman, 2012, p. 19). As marcas da colonialidade escravista fabricam realidades, violências, subjetividades. O antirracismo como urgência cotidiana.
Chegam também as Marias mulheres trans, subjetividades em revolta, corpos revolucionários, poéticas políticas no existir. Um chamamento a uma política crítica transfeminista. “Qual é a forma do mundo que se dá a ver no corpo do próprio vivente?” (Coccia, 2018, p. 11).
De ponta cabeça, o mundo girava. Ele ainda girava. Ele girava também nos avessos da vida, no não-lugar das velocidades e das passagens, nas beiras de lugar nenhum, nas rodovias, nos caminhões, no tesão por aquilo que é proibido, que é abominado, que é desprezado, e que é tão desejado. Tão poucos anos tinha a menina. Quem se importaria? Tantas vidas em tão pequeno tempo. O pai a tinha colocado para fora de casa. Como ela ousava recusar ser o macho que ele pariu? Ele pariu? As inúmeras mãos sobre o corpo da menina não tinham freios nas estradas que giravam ainda mais rápido que os seus mundos. [...] Para ela, era sobrevivência. [...] A menina saiu dos destroços, carregando seus restos, e elevou o tom da voz para impor que nunca mais ele fizesse isso com ela. Ainda havia vida ali. [...] Mãos que precisavam de freios. Corpos que precisavam de freios. Ruínas patriarcais, sexistas, transfóbicas, que precisavam desabar. Escombros de uma noite sem fim. E a menina sobreviveu a isso também. Uma menina-corpo-em-combate. Menina-freio-de-mão. (Diário de Campo, jul./2022).
Maria-Bem-te-vi, a sobrevivente menina-freio-de-mão, está à frente de diversas lutas. Um foco de resistência. Conta suas histórias a partir de um outro lugar, em seus novos mundos. “O que eles sabem das horas perdidas tentando dominar a difícil arte da transparência e do deslumbramento? ‘Somos como um entardecer sem óculos de sol’, dizia Tia Encarna. ‘Nosso fulgor cega, ofusca aqueles que olham pra nós e os assusta.’ [...] Nosso corpo é nossa pátria.” (Villada, 2021, p. 137).
As políticas feministas precisam de uma radicalidade nos enfrentamentos ao sexismo, ao sistema do patriarcado e à supremacia branca, em ações cotidianas, contínuas, diferenciadas, precisando o feminismo ser fundamentalmente antirracista (Hooks, 2019). Uma descolonização do feminismo branco, que conteste a normal heterossexual e a naturalização e universalização da condição feminina, e questione os processos tecnocientíficos de produção de corpos e representações (Preciado, 2018).
A era de repressão sexual de mulheres dos séculos XVI e XVII, na ordem disciplinar capitalista, veio transformar a sexualidade feminina em trabalho, procriação e periculosidade - um serviço e uma ameaça aos homens, o que embasou violências, perseguições e fogueiras (Federici, 2017). De diferentes maneiras e por variados caminhos, esses processos persistiram ao longo do tempo, com atualizações em suas formas, conforme mudanças em configurações sociais e interesses hegemônicos. Surgiram e insurgiram também movimentos de resistências, macro e micropolíticas - de relações de gêneros, sexualidades, raciais - transmutando vidas, coletivos, modos de existência e políticas de subjetivação (Rolnik, 2019).
Outras margens: sobre-vivências, renda, políticas e lutas
Há ainda as histórias de Marias que convocam o analisador dinheiro e suas misérias, os programas de transferência de renda e os moralismos e microfascismos que atravessam as atuações profissionais, as amargas tiranias cotidianas. Como já alertava Foucault (1993) sobre a produção de gosto e desejo pelo poder, que inscreve formas de fascismo em todos, presentes em discursos, práticas, relações. E ainda lógicas de mercado e de consumo mediando as interações pessoais. As tensões nas políticas de cuidado, as lógicas manicomiais que ainda insistem.
[...] Maria-Pintassilgo se aproximou, curiosa, comunicativa. [...] Estava em situação de rua, esperava conseguir seu documento pessoal para sacar o dinheiro de seu benefício, acreditava que teria uns 400 reais para receber. Contou admirada com o valor, e me perguntou o que eu faria com esse dinheiro todo. Perguntei o que ela gostaria de fazer. Ela viajaria, queria conhecer o Rio de Janeiro, mas tinha um certo medo, por achar um lugar perigoso. Perguntou para onde eu iria. [...] Fiquei pensando nas minhas limitações e amarras. Tão cautelosa, tão preocupada com as finanças, com o depois. No meu mundo, o que seriam 400 reais? No dela, um valor que dificilmente tinha, no qual via uma possibilidade de viajar, de conhecer um lugar diferente. [...] O que deveria fazer? [...] E eu? Chegaria em algum lugar? (Diário de Campo, abr./2022).
Presenciei discussões no SUAS sobre vigilância no uso da renda de beneficiárias da assistência social. Pairavam discursos de controle que especulavam sobre um uso “adequado” do dinheiro que as pessoas recebiam. Um julgamento inclusive sobre possibilidades de acesso a bens materiais ou outros recursos e vontades. Lazer e cultura por vezes eram inferidos como banalidades, menos relevantes, desperdício. O que restava era uma conformidade com o “[...] presente eterno que lhes oferta somente a sobrevivência” (Baptista, 2008, p. 175).
A proteção social prevista pela Política Nacional de Assistência Social se direciona à garantia de direitos (historicamente violados), ao desenvolvimento social, ao combate à pobreza. Em um país de séculos de produções de desigualdades, explorações, misérias. Um país que precisa lidar com suas histórias. Os programas de transferência de renda são direitos conquistados e devidos, não caridades. Possuem objetivos, critérios restritos, contrapartidas estratégicas. O SUAS abrange políticas públicas planejadas, articuladas, em constante aperfeiçoamento, com necessária participação social. Quem poderia decidir o que fazer com a renda recebida, além de sua própria beneficiária?
“A sobrevida é a vida humana reduzida ao seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao mero fato da vida, à vida nua” (Pelbart, 2016, p. 27). Nossas atuações profissionais são muitas vezes permeadas por valores sociais banhados em preconceitos, por visões de mundo restritas a uma história única: “Como elas [histórias] são contadas, quem as conta, quando são contadas e quantas são contadas depende muito de poder. O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva” (Adichie, 2019, p. 23). O poder dos discursos dos pretensos saberes, de quem está validado para falar e ser escutado, e para ouvir ou silenciar outras vozes.
A execução de políticas públicas, destacadas aqui as de saúde e de assistência social, passa pelo trabalho vivo cotidiano, que também estrutura e viabiliza ou inviabiliza potencialidades do SUAS, do SUS, da RAPS. O modo de funcionamento instituído em serviços e seus protocolos fixos podem não se alinhar com as necessidades singulares das diferentes vidas que passam por eles. Estamos abertos a escutar demandas diferentes do esperado ou do supostamente adequado? Estamos dispostos a nos afetar e nos deslocar com aquilo que diverge, que nos questiona, que nos furta certezas? Que lentes atravessam nossos olhares? Nossas visões de mundo produzem efeitos nas relações e nas práticas profissionais, com equipes, com gestão, com usuários dos serviços, com instituições.
Há um fundamental compromisso ético de pessoas trabalhadoras da saúde com a vida. Um rompimento de circuitos de velhos discursos, com uma escuta e uma clínica abertas à alteridade, à diferença, ao inesperado. Um necessário enfrentamento político também de uma lógica manicomial que paira e assombra serviços substitutivos de saúde mental em meio aberto. Uma revolução estética que possibilite outros modos de existência, outros cuidados em seus cultivos.
Como promover rupturas em modos de vida e de funcionamento social fabricados, idealizados, vendidos, inferidos como norma e padrão? “Pois é fácil constatar o predomínio do modelo da classe média, propagado como um imperativo político, econômico, cultural, subjetivo, e a miséria gritante que o caracteriza, misto de gregariedade, blindagem sensorial, rebaixamento intensivo, depauperação vital” (Pelbart, 2016, p. 403). Como subverter uma lógica em que tudo e todos podem ser transformados em mercadoria, em produto, em descarte, em lixo?
As relações com o consumo, com o dinheiro, com o poder, produzem subjetividades, capturas em processos desejantes. Como abrir espaços ético-políticos para outras histórias, para diferenças, para inusitados, para novas intervenções, para outras possibilidades de existir? Beiradeiros do Xingu, que foram violentamente empobrecidos por um Estado construtor de ruínas, dizem que “ser pobre é não ter escolha”, e ainda que “ser rico é não precisar de dinheiro” (Brum, 2021). Viver sem precisar de dinheiro. É possível escutar isso? É possível entender isso?
Escuto atento a história do mestre [Nêgo Bispo]: seu moço, eu fui muito no rio tomar lições de pescaria com os mais velhos. [...] Mãe Joana, que foi minha mestra, espiava e quando apanhávamos o suficiente para comer ela mandava parar. [...] eu argumentei: mãe Joana, deixa eu continuar com a pescaria, assim eu pego mais peixe, a gente bota para secar e guardar para quando precisar comer. Mãe Joana me olhou e disse: meu filho, o melhor lugar para guardar peixe é dentro do rio (Rufino, 2022, p. 75).
Na sequência, Marias cheias de asas convidam olhares para coletivos, lutas e participação social. Os movimentos sociais da população em situação de rua, seus encontros, inclusive nacionais, visibilizam o tamanho da insurgência e da potência de mobilização que possuem. A força coletiva de remexer desejos, subjetividades, políticas, redes intersetoriais, instigar questionamentos, reposicionamentos, reconexões.
O SUS e o SUAS possuem em suas redes equipes de referência para o atendimento da pop rua, com perspectiva de ampliação e garantia de acesso a direitos e necessidades, inclusive na articulação com outros serviços de diferentes complexidades, na efetivação de princípios de integralidade e equidade. Não são incomuns nesses espaços as discriminações e os moralismos com pessoas que estão em situação de rua.
O vínculo nos cuidados em saúde, a valorização de diversos saberes e modos de vida, as parcerias, as corresponsabilizações, a lógica da Redução de Danos, ampliam potenciais de ação e de desenvolvimento conjunto de estratégias. No enfrentamento à pandemia, equipes de Consultório na Rua, RAPS, Abordagem Social, Centro Pop, Serviços de Acolhimento Institucional, foram fundamentais na gestão de redes e cuidados, de forma singular e coletiva. Os movimentos sociais da pop rua insurgem e suscitam intervenções macro e micropolíticas. Movimentos de rua, de voos, de rios. Rios que convocam a pensar as pandemias e os Brasis. A pandemia e os marcadores sociais: raça, gênero, sexualidade, condições socioeconômicas, sociossanitárias, territoriais, culturais, ambientais. E, ainda, as resistências. As fabulações políticas coletivas e seus desejos revolucionários, antifascismo, antirracismo, antipatriarcado, um devir-quilombista (Vasconcellos, 2020).
Crises e caos também produzem histórias, correntezas, subjetividades, políticas, Brasis. Nessas águas todas, seguimos inventando e recriando apostas incertas, lutando por um SUS e um SUAS que resistem como rios, como florestas, como Marias. “E ainda assim, diante da opressão, do saqueio e do abandono, nossa resposta é a vida” (Márquez, 2014, p. 11).
Movimentos de conclusões: costuras de águas e cuidados nômades
A visão de mundo Tupi Guarani nos ensina a ir com o caminho, com um conhecimento que só se acessa migrando. E que aprendemos a costurar com as aranhas. Ir com o rio. Ser rio. Ser teia. Como compor com a força gravitacional da memória? Como as histórias tantas nos convocam a pensar? Como criar bússolas Cruzeiro do Sul? Contar histórias outras, que instigam, que podem produzir efeitos, deslocar olhares. Gingar com palavras povoadas, palavras vento, palavras fantasmas. A literatura é outra aliada nessas intenções. Fazer teias, costuras, inventar cuidados nômades.
Como as políticas públicas atravessam as vidas? Como inventar políticas de cuidados nômades? Essa saúde tem muito a migrar, compor com os nomadismos, aprender com o caminho, com sabedorias outras. Fabulações de cuidados singulares, múltiplos, sensíveis. O campo da saúde está em constante disputa, de discursos, teorias, interesses financeiros, poderes, ideais. As burocracias e protocolos muitas vezes enquadram as práticas instituídas. A micropolítica do trabalho vivo em saúde pode colocar em análise processos de trabalho, deslocar relações de saber-poder e naturalizações (Merhy et al., 2016). Movimentações em redes, histórias, atuações. Produção conjunta de conhecimentos. A criação da vida em jogo.
“Trata-se sempre de liberar a vida lá onde ela é prisioneira, ou de tentar fazê-lo num combate incerto” (Deleuze; Guattari, 1992, p. 222). A potência da esfera micropolítica ativa se evidencia em resistências, em transformações em políticas de subjetivação e de desejo, em reapropriação da força vital, em processos contínuos de descolonização do inconsciente (Rolnik, 2019). Transvalorações em coletividades marcadas por opressões, explorações, desigualdades, racializações, colonizações, normatizações de gênero e sexualidade, competitividades, individualismos, consumismos.
O quanto isso interfere na produção de conhecimentos e de cuidados em saúde? Como as dimensões de gênero, raça, classe, etnia, sexualidade, atravessam cada vida? Nossas intervenções, nossas atuações profissionais produzem efeitos, realidades, mundos. O que queremos produzir? O que intencionamos com nossos discursos e nossas práticas? Problematizar a interseccionalidade e a branquitude em nossas relações e ações cotidianas, os nossos privilégios, nossos lugares nas relações raciais, nossas visões de mundo. Precisamos nos colocar constantemente em análise se quisermos combater as entranhas do racismo que nos atravessam, estruturantes das nossas relações. O antirracismo como posicionamento imprescindível em defesa da vida. Uma aposta ética e política.
Na produção de movimentos, são essenciais os intercessores, que precisam ser fabricados (Deleuze, 1992), e podem ser coletivos, movimentos sociais, políticas, cuidados, intervenções, profissionais de saúde, Marias, rios. Uma posição intercessora pode promover aberturas a existências outras, a resistências, a expressões do singular, a diferenças, a processos de subjetivação, a devires, a criações de estéticas da existência, de artes de viver.
A potência política da vida em resistência ao poder sobre a vida, à captura do desejo e ao consumo de modos de vida e de subjetividades, na invenção de territórios existenciais alternativos (Pelbart, 2003). Uma arte de instaurar modos de existência e modos de resistência (Pelbart, 2016). A fabulação de cuidados nômades, refúgios, escutas ao inesperado, na busca por outras histórias, outros encontros, outras paisagens, outras realidades psicossociais, outras políticas de cuidado.
Um pensar não pode ser separado de um fazer, não pode haver um discurso descolonizador sem uma prática descolonizadora (Cusicanqui, 2021). Uma Bússola Cruzeiro do Sul direciona para um contínuo reflorestamento de si, contracolonização de si, de processos de subjetivação e de desejo. Refazimentos, recomposições. Os rios voadores2 nos convidam a olhar os avessos e os invisíveis. Os povos originários, povos tradicionais, povos-floresta, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, impulsionam movimentos contracoloniais. Um amazonizar-se e um aquilombar-se. Uma ética e uma estética de existência.
Amazonizar-se como verbo, voltar a ser parte de um planeta vivo: “A amazonização do mundo é um movimento para derrubar a hegemonia do pensamento ocidental, patriarcal, branco, masculino e binário que vem dominando [...] e exterminando [...] todas as outras formas de se perceber no mundo, para o mundo e com o mundo” (Brum, 2021, p. 51). Aquilombar-se como força insubmissa das rebeldias: “Pensamos no aquilombamento enquanto criação de territórios existenciais, como reconstrução de sentidos” (Santos, 2022, p. 169). O Quilombo como vidas em compartilhamentos ancestrais e cosmológicos, em um existir que faz viver, que é árvore e raiz, que é construtor de liberdade, que ameaça a lógica do capital (Mumbuca, 2022). A amazonização e o aquilombamento provocam uma desterritorialização, novos olhares, modos de relações, novas perspectivas em saúde, em atuações profissionais. Rompimentos com pactos da branquitude e da colonialidade. Devir-floresta. Devir-quilombo.
As Marias se reflorestam a cada gesto subversivo, a cada inconformidade com o instituído, a cada resistência contra a desertificação de si. Marias-pássaros que inventam existências, que plantam em canteiros improváveis da vida, que sonham, rompem ciclos de violências, lutam contra racismos e desigualdades, narram suas histórias, colocam freios em mãos, desintegram normatividades de gênero e sexualidade, problematizam lógicas manicomiais, articulam redes, movimentam desejos e asas.
A finalização da escrita desta pesquisa-rio é também um início. Um fim que é começo, que é um fechar e abrir, que é apagar e acender, que é foz de rio, que é rio que voa, que é um sertão que vira mar, que é um encontro de águas. Um fim que é uma nova conversa com a Maria do Coco, com aquilo que eu gostaria de contar a ela, com os ares dos tempos, com os “relatos infindáveis que os mortos nos fazem criar” (Despret, 2021).
Maria do Coco, naquele momento de nossa despedida, tinha uma casa para morar. Mas as misérias coloniais-capitalistas-patriarcais-racistas continuaram a persegui-la. Delírios persecutórios? Eu soube pouco tempo depois. Faltou gás. Faltou dinheiro. Maria precisava cozinhar. Improvisou. Não parecia tão difícil, para quem a vida já tinha imposto tantos desafios de sobrevivência. Acidente? Necropolítica? Álcool, fogo. Fim do mundo. Nenhuma história a mais (Augusto, 2023, p. 35).
Um corpo em situação de rua, em meio aos concretos urbanos, já resiste a dores impensáveis. Maria do Coco morreu com queimaduras pelo corpo todo. Morreu porque não tinha gás para cozinhar. Morreu de pobreza, de descaso, de vida nua. Morreu de capitalismo, de colonialismo, de racismo, de sexismo. Morreu por ser preta, pobre, mulher. Corpos carregam gênero, raça, classe. Ana Mumbuca (2022, p. 17) diz que: “para os atacamentos tenho o aquilombamento”. E que a escrita contracolonialista é provocadora de movimentos.
O que defendemos, neste trabalho, é o SUS, mas não qualquer SUS; é a RAPS, mas não qualquer RAPS; é o SUAS, mas não qualquer SUAS. Defendemos políticas de cuidado, mas não qualquer política e não qualquer cuidado. Um cuidado ético-estético-político em defesa da vida, um cuidado nômade, um cuidado florestado. Um SUS e um SUAS aquilombado. Uma defesa de possibilidades de existência, de garantia de direitos, de transvalorações, de aberturas em visões de mundo, de rupturas em discriminações, de desnaturalização de violências. Uma defesa do combate ao racismo, ao patriarcado, à desigualdade social, à precarização dos modos de viver. Uma defesa da vida, mas não de uma vida nua. Uma defesa de políticas públicas, mas não de qualquer maneira. A defesa que fazemos aqui é como a lata d’água na cabeça que minha avó carregava, na perspectiva de uma resistência, um respiro, um gole de vida.
Esperamos que essa pesquisa-rio possa ser uma gota, um gole, uma água, um cuidado. E ainda, talvez pretensiosamente, que possa ser uma tromba d’água, uma força que desloque - ao menos um pouco - o instituído, as marcas da colonialidade que nos atravessam e que nos sufocam, as reproduções dessa lógica em nossos cotidianos. Há muitas formas de defender a vida. Tentamos, nesse trabalho, inventar algumas, somar ideias, movimentar pensamentos.
Que a população em situação de rua possa ser vista em suas potencialidades, em seus direitos de existir, de receber cuidados e respeito, como vidas que importam, sem olhares de pena, desprezo e indiferença, sem medo da banalização da vida e da morte. Que as Marias possam ser escutadas ao contar suas histórias, suas cotidianas resistências e criações, suas sabedorias tecidas nos nomadismos, nas experimentações, contra os perigos de uma história única. Que suas vozes possam ressoar nos horizontes, como tambores de maracatu.
Carolina Maria de Jesus, escritora e apaixonada por livros, dizia que: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia” (2014, p. 195). Entre a literatura e a fome, ao ver seu livro publicado, ela contou: “O que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor. E li meu nome na capa do livro. [...] Fiquei emocionada. É preciso gostar de livros para sentir o que eu senti” (2014, p. 195). Marias, vocês seguem vivas nessas linhas, estão aqui ensinando, registradas no papel.
E eu, agora outra, atravessada por tantos rios nesta pesquisa, olhando para seus - e meus - avessos, tentando me reflorestar. Eu sigo com essa lata d’água na cabeça, lá vai Maria... Águas de rios tantos, o que pude carregar e escrever, fazer virar palavras. Com a pesquisa que segue viva em mim, que me acompanha. Eu sigo aqui, aprendendo com Nêgo Bispo a pescar somente o necessário. Ele propõe processos de início, meio e início, e um movimento da escrita para a oralidade, já que aí é que as palavras têm vida. Sigo ainda em devir-Maria-contadora-de-histórias. Maria do Coco era pura oralidade, suas histórias tinham vida. Maria do Coco, a mulher do fim do mundo, que, como Elza Soares, cantou até o fim.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Repositório Institucional Unifesp e pode ser acessado em https://repositorio.unifesp.br/handle/11600/67586.
Referências
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Escolhemos nomear as protagonistas das histórias como Marias, diferenciando cada uma com um segundo nome de pássaro - que tem suas migrações, seus cantos, seus voos, seus pousos. A exceção é a Maria do Coco, assim chamada por ser dançante de Coco de Roda.
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Sobre os rios voadores, na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, que regula o clima no planeta: “Uma única árvore grande lança na atmosfera, pela transpiração, mais de mil litros de água por dia. A floresta inteira lança, a cada 24 horas, 20 trilhões de litros de água. Como comparação, vale lembrar que o rio Amazonas lança menos que isso no Oceano Atlântico” (Nobre apud Brum, 2021, p. 131).
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Como citar este artigo:
ABNT AUGUSTO, Fernanda Carla de Moraes; CALDAS, Flávia Liberman; CALIMAN, Luciana Vieira. Histórias-Marias: mulheres em situação de rua, políticas de cuidado, resistências. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 38, e62206, 2026. https://doi.org/10.22409/cbrqhf36 APA Augusto, F. C. M., Caldas, F. L., & Caliman, L. V. (2026). Histórias-Marias: mulheres em situação de rua, políticas de cuidado, resistências. Fractal, Rev. Psicol., 38, e62206. https://doi.org/10.22409/cbrqhf36
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Editora responsável pelo processo de avaliação:
Cláudia Castanheira de Figueiredo
