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Afinidades eletivas ou crítica a uma história da geografia sem classe(s)

Afinidades electivas o crítica a una historia de la geografía sin clase(s)

Manoel Fernandes de Sousa NetoSobre o autor

Resumo

O ensaio aborda questões de método relativas à historiografia da história da geografia no Brasil propondo uma crítica a certas abordagens historiográficas a partir do conceito de afinidades eletivas.

Palavras-chave:
História da Geografia; Afinidades eletivas; Abordagem contextual

Resumen

El artículo aborda cuestiones de método relacionadas con la historiografía de la historia de la geografía en Brasil, proponiendo una crítica de ciertos enfoques historiográficos a partir del concepto de afinidades electivas.

Palabras clave:
Historia de la Geografía; Afinidades electivas; Enfoque contextual

Abstract

This essay raises questions of method on the history of geography’s academic literature in Brazil, by proposing a critique of certain historiographical approaches through the concept of elective affinities.

Keywords:
History of Geography; Elective affinities; Contextual Approach

Introdução

O texto que segue busca deslindar certas opções, tomadas por aquelas e aqueles que trabalham com a história da geografia no Brasil e estão, de algum modo, atadas a uma peremptória negação de abordagens marxistas, nomeadamente aquelas que estão vinculadas a teorias da história nesse campo da produção intelectual e que conta com importantes contribuições como aquelas de Walter Benjamin e Michel Löwy.

Ademais, o que se busca é demonstrar certos limites da abordagem contextual e apontar perspectivas que rompam com certas noções de neutralidade, pluralidade ou relativismo historiográfico quando se trata de compreender como as geografias produzidas como práticas sociais, estiveram vinculadas aos processos de desenvolvimento da sociedade capitalista em países de passado colonial como o Brasil.

Afinidades eletivas

A primeira vez que tivemos contato com a expressão afinidades eletivas ocorreu quando lemos uma obra de Michel Löwy sobre a sociologia do conhecimento e que tem um título ao mesmo tempo poético e jocoso As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen (Löwy, 1987LÖWY, M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. São Paulo: Buscavida, 1987. ).

Ali vemos além de imagens surreais como aquela em que o Barão de Münchhausen arranca da areia movediça, puxando pelos próprios cabelos, a si e ao cavalo em que está montado, uma bela exposição sobre as muitas formas de construir a história do conhecimento e apreendemos o fato de que o historicismo pode tanto beber nas águas do positivismo quanto navegar pelas sendas de uma dialética marxista em que o método não pode abrir mão da história.

As afinidades eletivas apresentadas no livro de Michel Löwy têm sua origem no âmbito da sociologia, não da sociologia de Karl Marx, mas daquela proposta por Max Weber. E aqui começa outra vinculação que passava ao largo das nossas apreensões de método e diz respeito às muitas aproximações possíveis entre Weber e Marx.

O fato é que a noção de afinidades eletivas trabalhada de maneira muito imprecisa por Em diversas de suas obras, mas nomeadamente em A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber (2004WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.) ressalta aspectos impressionantes de como o universo da cultura na esfera religiosa pode estar sutil e intimamente vinculada ao ethos burguês, proporcionando a essas ligações perigosas uma espécie de síntese da práxis em que não se dissociam as práticas espirituais puritanas do ato econômico de poupar.

O fato de Max Weber ser um crítico do capitalismo sem nunca o colocar sob a crítica radical de construção de sua superação aponta de maneira delicada uma outra e fundamental questão de método na perspectiva weberiana. Qual? Aquela em que podemos ser confortavelmente críticos às evidências mais funestas do capitalismo, sem no entanto propor que a origem daquilo que é objeto de crítica tenha de ser objeto de efetiva transformação.

Outra contradição em Weber diz respeito à própria noção de juízo de valor no processo de construção do conhecimento, com sua derivação à neutralidade e ao fato de, nessa empreitada, o surgimento das afinidade eletivas significar uma tentativa de fugir do conceito de ideologia e, pari passu, negativamente explicar, além das relações causais, essa incestuosidade entre a esfera religiosa e as formas materiais de reprodução da existência.

Nossa falta de percepção à belíssima dica de Michel Löwy daquele Barão de Münchhausen só se desfez quando, de maneira luminosa, Alexandrina Luz, numa conversa quase casual, me contestou respeitosamente sobre o fato de estarmos a usar tantas vezes das propostas de método de Vincent Berdoulay (2017BERDOULAY, V. A escola francesa de geografia: uma abordagem contextual. São Paulo, Perspectiva, 2017. ) e seus círculos de afinidades. Lembrou bem que talvez nos coubesse tratar melhor das afinidades como eleições subjetivas, que fazemos a partir das determinações do ser no sentido rigorosamente lucaskiano.

As questões de método, simplificadamente e em último caso, são exatamente isso, questões de escolha.

A lembrança dessa terminologia das Afinidades Eletivas usada por Max Weber e relembrada naquela ocasião por Alexandrina Luz, calaram fundo e, por longo tempo, apenas fizeram parte do nosso repertório de incômodos para com as nossas escolhas historiográficas na Geografia.

E o que tanto nos incomodou por tão considerável tempo e ainda não está de todo resolvido?

É possível elencar muitos mal-estares e todos parecem caminhar conosco ao longo do processo de consolidação profissional desse campo de pesquisa em Geografia no Brasil.

Entre críticas e autocríticas

A primeira crítica que buscamos realizar foi a de que, embora mais que válida, a realização de uma história do pensamento geográfico no Brasil, era necessário entender que o uso atribuído à história do pensamento geográfico realizava um processo de desistorização do que concebemos como história social da ciência em países de passado colonial como o Brasil e que, o uso largo dessa terminologia implicava não considerar que havia formas e lugares outros de fazer ciência - também universais - e, logo, que nos possibilitavam contar a história da ciência e das disciplinas científicas para além dos cânones historiográficos eurocêntricos (Sousa Neto, 2001SOUSA NETO, M. F. Geografia nos Trópicos: memória dos náufragos de uma jangada de pedras?. Revista Terra Livre, São Paulo: AGB, n. 17, p. 119-138, 2001.).

O problema desse deslocamento de incômodo é de que acabávamos por criar um outro, qual? O de que ao dizer que há muito fazíamos ciência geográfica no Brasil, significava apenas trocar uma espécie de seis por meia dúzia. E por que? Porque não bastava que denunciássemos esse lugar da ciência de passado colonial, era necessário avançar no sentido de dizer que, diferentemente do lugar de onde se conta a história da disciplina científica geografia, da ciência geográfica nos trópicos, era necessário entender que precisávamos buscar elementos que não estivessem presos apenas a sua institucionalização, profissionalização ou discurso.

O negativo aí aparece exatamente como essa positivação que por vezes nos engana de maneira abissal. Um desse enganos radicais diz respeito a algo que adquirimos e no qual temos nos formado vagarosa e qualificadamente aqui no Brasil, que é a capacidade de darmos conta dos documentos diante da nossa crítica inicial ao ensaísmo de muitos daqueles que nos antecederam.

Hoje, muitos dentre nós sabem manejar os arquivos como não sabíamos há cerca de uma década. Em muitos casos, já se constituem repositórios muito consistentes de investigação, e estamos, coletivamente, organizando e seriando essa documentação. O problema no entanto é que, em muitos casos, os documentos passaram a falar por nós e, em algumas situações, passaram não só a adquirir um valor de culto no sentido proposto por Walter Benjamin (1987BENJAMIN, W. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987. v. 1.), como a nos conduzir de mãos atadas a uma ventriloquia empirista que, ao fim e ao cabo, representam um historicismo positivista de sofisticada aparência.

Em alguma medida, a consolidação do campo em história da geografia no Brasil passou por um processo de institucionalização que acaba por constituir arautos do passado disciplinar, cânones da memória científica e guardiões da historiografia que vai se tornando meio que a oficial. Claro e inteligível está que institucionalizar o pensamento implica, não raro, correr o risco de se tornar parte da própria empresa e sucumbir a ela.

O fenômeno tem gerado aquela especialização que é própria da divisão do trabalho e relativa a uma certa apropriação do campo em que, ao lidar com os documentos e realizar a partir deles o culto de exposição, se incorra em uma delimitação que freia o aparecimento das teorias radicais nesse mesmo campo, já que o horizonte de expectativa se torna o próprio passado que a massa documental representa como fonte. Em outras palavras, a partir de um certo momento, ninguém pode mais se sentar à mesa de mãos vazias.

Esta questão com os documentos, entretanto, é para nós um incomodo menor, até porque compreendemos a importância de que tudo possa ser visto e tocado em termos de documentação e, ai, para nós o problema diz respeito não aos documentos em si, mas a força historiográfica que assumem na construção das narrativas de uma dada disciplina científica, acadêmica ou de um saber como a geografia. Até porque os documentos só ganham existência a partir das leituras que fazemos deles. Por isso o incômodo maior é com a maneira como os documentos são tratados entre nós ao longo dos últimos anos.

O fato é que a Geografia não precisa nem de defesa, nem de desagravo como ciência, no sentido de que estamos permanentemente tentando saber o que ela é e, contraditoriamente, defendendo sua indispensabilidade. Um culto a qualquer disciplina científica, seja ela qual for, é uma redução crítica ao pensamento que quase não encontra melhor expressão na geografia que aquela cunhada por Antonio Carlos Robert Moraes, de que estamos a defender uma certa soberba geográfica que, vejam bem, é muito bem usada para contribuir com o propalado fim da história.

Aqui é possível dizer da recente preocupação dos mais jovens com os clássicos. Uma preocupação tão válida e legítima quanto preocupante, já que em muitos casos tendemos a jogar os clássicos pelas janelas, e eles voltam a entrar por nossas portas. O fato é, no entanto, que os clássicos estão sendo relidos numa certa lógica do culto ao eurocentrismo, que conta uma história da geografia no Brasil que só existe a partir de uma certa intervenção emancipadora do nosso atraso nesse ramo dos saberes, métodos e leituras geográficas do mundo. Vivemos, em nossa historiografia, o que ocorre um pouco e com raras exceções a quase toda geografia que se faz hoje no Brasil, uma espécie de bendita recolonização que nos torna tão mais epistemicamente globalizados quanto teoricamente a-críticos.

E, fique claro, não estamos aqui a propor que não leiam em todas as línguas a quaisquer dos clássicos ou referentes, mas que sejamos capazes de lê-los sem achar que nos tornamos seus garotos e garotas propaganda. Até porque não defendemos que os clássicos sejam banidos da história, mas apenas que sejam colocados no seu devido e manifesto lugar, ao invés de passarem a falar por nós.

Aqui o incômodo se constitui na perda que estamos tendo de criar - mesmo que às vezes a partir de metáforas tomadas de empréstimo dos outros - nosso próprio olhar crítico, e isso se deve, pasmem, ao próprio processo de profissionalização da história da geografia no Brasil.

A profissionalização, se nos permitem dizer, nos leva de volta às afinidades eletivas em que as escolhas por determinados problemas investigativos são cada vez mais reféns dos jogos de interesses institucionais, sejam eles vinculados aos processos de financiamento das pesquisas, ingresso na carreira, circulação pelas redes transnacionais de investigação. E aqui fique claro, não estamos fazendo nenhuma leitura de valor moral, apenas estamos propondo que a história da geografia feita no Brasil adentrou, com algumas exceções, no negócio pós- moderno, neoliberal e globalizado de fazer ciência, embora o destino próximo das ciências humanas e das pesquisas nesse campo não serem lá negócios muito promissores.

A profissionalização da geografia no Brasil, a nosso ver, pode inclusive ser uma importante chave, a partir da noção de afinidades eletivas para compreender como certos trânsitos institucionais e adesões teóricas e de método acabaram por se realizar. O marxismo que para alguns foi a grande chaga que desgeograficizou a geografia feita no Brasil dos anos 1980-90, foi rapidamente substituído por adesões deleuzianas, foucaultianas e boaventuristas - com leituras estoico-acontecimentais, funerais a céu aberto dos sujeitos e o alvorecer das epistemologias do sul.

Considerações finais

As afinidades eletivas, nos contam Michel Löwy (2014LÖWY, M. A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. São Paulo: Boitempo, 2014. ) e Hermano Thiry-Cherques (2004THIRY-CHERQUES, H. R. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004. ), nasceram como preocupação de alquímicos interessados em compreender como diferentes substâncias podiam fazer interações complexas e sofrer mutações em suas sínteses, ao ponto de nessa relação íntima certos singulares só se realizarem em outras substâncias e determinadas por condições de sua própria integração e mudança. Algo similar ao que teria feito Hegel em sua Ciência da lógica para propor que as notas músicas só se podem compor por sua diferença, o conjunto, a partir das múltiplas afinidades entre diferentes sons (Thiry-Cherques, 2004THIRY-CHERQUES, H. R. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004. , p. 66-67).

Para nós, em termos de método, as afinidades eletivas estão em associar a história da geografia com uma geografia histórica do capitalismo. Fazer dialogarem e interagirem as diversas formas culturais e discursivas da geografia com suas práticas de expansão da forma mercadoria no âmbito da vida cotidiana. A tarefa é entender como se criaram nessa relação, suas relações íntimas, as diversas formações territoriais capitalistas imbricadas às subjetivações espaciais do valor. Uma ética geográfica para um ethos da geografia nesse Weber de que nos apropriamos a partir de Marx.

Ainda sobre afinidades eletivas, podemos nos lembrar do romance homônimo de Goethe (Benjamin, 2016BENJAMIN, W. As afinidades eletivas, de Goethe. In: Ensaios sobre literatura. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016. p. 38-138.) e que, se no amor há química, na poesia também a há. O fato é que Max Weber, o homem do rigor metodológico na ciência, foi buscar fora dela essa preciosa metáfora. Metáfora tão preciosa quanto a de René Magritte (Arbex, 2007ARBEX, M. As metáforas picturais de René Magritte. Letras - Literaturas, Outras Artes e Culturas das Mídias, Santa Maria, RS: UFSM, n. 34, p. 147-161, 2007. doi: https://doi.org/10.5902/2176148511945.
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), também denominada afinidades eletivas, ali onde um ovo ocupa toda a gaiola e que, se pudermos saltar sobre todas as análises já feitas desse óleo do grande pintor belga, o que podemos dizer é simplesmente ilustrativo da nossa preocupação de método em dois aspectos. O primeiro é que o ovo da geografia que era crítica infelizmente parece ter eclodido como pássaro no interior da gaiola dessa ciência de mercado cheia de interesses que se pratica hoje. O segundo, que o mundo que nasce enjaulado sob a força do aço é esse mundo capitalista que surge após o aparecimento da quarta parte, ainda talvez à espera de que a história, por suas afinidades eletivas com a revolução, faça a geografia ser um pássaro que habita os ares de uma sociabilidade não capitalista.

A questão para nós é clara: uma história neutra da geografia não nos tirará da gaiola e, nesse sentido, imaginamos ser necessário que adotemos alguma classe.

Referências

  • ARBEX, M. As metáforas picturais de René Magritte. Letras - Literaturas, Outras Artes e Culturas das Mídias, Santa Maria, RS: UFSM, n. 34, p. 147-161, 2007. doi: https://doi.org/10.5902/2176148511945
    » https://doi.org/10.5902/2176148511945
  • BENJAMIN, W. As afinidades eletivas, de Goethe. In: Ensaios sobre literatura. Lisboa: Assírio & Alvim, 2016. p. 38-138.
  • BENJAMIN, W. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987. v. 1.
  • BERDOULAY, V. A escola francesa de geografia: uma abordagem contextual. São Paulo, Perspectiva, 2017.
  • LÖWY, M. A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano. São Paulo: Boitempo, 2014.
  • LÖWY, M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. São Paulo: Buscavida, 1987.
  • SOUSA NETO, M. F. Geografia nos Trópicos: memória dos náufragos de uma jangada de pedras?. Revista Terra Livre, São Paulo: AGB, n. 17, p. 119-138, 2001.
  • THIRY-CHERQUES, H. R. Sobreviver ao trabalho. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004.
  • WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Maio 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    31 Ago 2020
  • Aceito
    01 Mar 2021
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