RESUMO:
Este estudo propõe-se a investigar as metáforas terminológicas presentes na linguagem da dor, em um contexto em que duas línguas, o português brasileiro e o espanhol, mais especificamente a variedade venezuelana, se encontram em situação de migração na qual migrantes venezuelanos são atendidos em serviços de saúde em Brasília/DF, Brasil. Explora-se a intersecção entre o léxico geral e o especializado, no qual se observa que pacientes, sobretudo o grupo de migrantes estudado, empregam frequentemente um léxico metafórico para descrever suas dores e sensações. A fundamentação teórica se alicerça na Teoria da Metáfora Conceptual (TMC), de George Lakoff e Mark Johnson (1980, 1999), para a análise da metáfora, e na Teoria Sociocognitiva da Terminologia (TSC), de Rita Temmerman (2000, 2004), para a análise terminológica. A coleta de dados realizou-se por meio de entrevista e questionário, aplicados a 13 migrantes venezuelanos. Os resultados revelaram uma incidência significativa de termos metafóricos, em especial adjetivos e substantivos usados para descrever a dor; são exemplos, “dolor como latidos” (espanhol) / “dor latejante” (português); “dolor como un latigazo” (espanhol) / “dor como chicotada” (português), demonstrando sua centralidade na forma como esses indivíduos, em seu dia a dia, verbalizam suas experiências de dor. A análise aponta para uma correlação direta com as Metáforas Ontológicas da TMC, as quais facilitam a representação de experiências corporais complexas por meio de referências a objetos e substâncias tangíveis, demonstrando a centralidade dessas construções na verbalização da dor na vida cotidiana.
Palavras-chave:
Expressões metafóricas; Teoria da Metáfora conceptual; Terminologia Sociocognitiva; Migrante; Linguagem da dor
ABSTRACT:
This study aims to investigate terminological metaphors present in the language of pain within a context where two languages-Brazilian Portuguese and Spanish (specifically the Venezuelan variety)-intersect in a migratory setting. This situation involves Venezuelan migrants receiving medical care at healthcare services in Brasília/DF, Brazil. The research explores the intersection between general and specialized lexicons, observing that patients-particularly the migrant group under study-frequently employ a metaphorical lexicon to describe their pain and physical sensations. The theoretical framework is grounded in Conceptual Metaphor Theory (CMT) by George Lakoff and Mark Johnson (1980, 1999) for metaphor analysis, and Sociocognitive Terminology Theory (STT) by Rita Temmerman (2000, 2004) for terminological analysis. Data collection was conducted through interviews and questionnaires administered to 13 Venezuelan migrants. The results revealed a significant incidence of metaphorical terms, especially adjectives and nouns used to describe pain. Examples include “dolor como latidos” (Spanish) / “dor latejante” (Portuguese) [throbbing pain] and “dolor como un latigazo” (Spanish) / “dor como chicotada” (Portuguese) [whiplash-like pain]. These findings demonstrate the centrality of such metaphors in how these individuals verbalize their experiences of pain in daily life. The analysis points to a direct correlation with the Ontological Metaphors of CMT, which facilitate the representation of complex bodily experiences through references to tangible objects and substances, demonstrating the centrality of these constructions in the verbalization of pain in everyday life.
Keywords:
Metaphorical expressions; Conceptual Metaphor Theory; Sociocognitive Terminology; Migrants; Language of pain
Introdução
Esta pesquisa1 concerne a área de especialidade da saúde e foi motivada pela busca de compreensão da metáfora em expressões terminológicas álgicas bilíngues, entre o espanhol venezuelano e o português brasileiro, usadas mais especificamente por pacientes hispânicos em atendimento pelo serviço público de saúde em Brasília-DF. Na tentativa de explicar sua dor, o paciente recorre ao uso de representações linguístico-metafóricas típicas de sua língua e culturalmente marcadas.
A inclusão do estudo das metáforas na linguagem de especialidade é relativamente recente no mundo acadêmico. Temmerman (2004) demonstra como a teoria das metáforas conceituais de Lakoff e Johnson (1980, 1999) pode ser aplicada ao campo das ciências, como a biologia. Ela argumenta que a linguagem científica, ao descrever conceitos complexos como a evolução e o DNA, frequentemente se vale de esquemas metafóricos para facilitar o entendimento do mundo.
Para identificar as expressões metafóricas em relação à temática da dor, esta pesquisa realizou estudos sobre as concepções da metáfora em pesquisas linguísticas, como Semino (2010) , Abreu (2015) , Neilson (2016) . Estes autores reforçam que a descrição da dor utiliza metáforas, visto que a dor resiste à linguagem denotativa. Segundo Le Breton (1999, p. 70), a expressão da dor “registra-se em um tecido de significados e atitudes que impregnam as maneiras de dizê-la, com interpretações que mobilizam um vocabulário, um discurso, gestos e expressões faciais”. Aprendemos a falar sobre a dor através do sensível, ou seja, por meio da nossa própria experiência; afinal, embora a dor seja um fenômeno universal, ela também é particular e individual, já que dificilmente reagimos a ela da mesma maneira, em especial em contexto de migração em que se tem o contato direto de duas línguas e culturas.
Com base nisso, o presente estudo se desenvolve da seguinte maneira: apresenta uma seção para discutir o conceito de metáfora na temática da dor; para a discussão da metáfora em expressões terminológicas, recorreu-se à teoria sociocognitiva da terminologia (TSC), com base em Temmerman (2000, 2004); em seguida, apresentamos a metodologia para a identificação dessas expressões. Na seção de resultados e discussão, é comentado e explicado um conjunto de expressões terminológicas metafóricas em espanhol e português. Por fim, apresentam-se as considerações finais.
Dor e metáfora
Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (2020, p. 1997), a dor é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial”; essa definição incorpora outros fatores relevantes, como cognição, comportamentos, fatores culturais e educacionais, registrados nas acepções da definição atualizada, além de reconhecer seu cunho pessoal.
A dor é um rico domínio para o estudo de metáforas conceptuais. Por meio da análise de suas expressões linguístico-terminológicas, é possível revelar as metáforas conceptuais que subjazem às suas diferentes formas linguísticas. Ela, que é uma experiência subjetiva e invisível, encontra na metáfora elementos que permitem que esta seja tratada como se fosse algo que pudéssemos ver, tocar ou manipular.
A experiência intensa da dor pode ser expressa linguisticamente por meio de imagens que evocam sensações físicas como queimar, perfurar, pisar, formigar, entre outras. Assim, as sensações ganham forma, adquirem significado e permitem a expressão e o compartilhamento da experiência álgica mediante metáforas linguísticas. De acordo com Lakoff e Johnson (1980) , a conceptualização de domínios abstratos, neste caso a dor, estrutura-se por metáforas conceptuais que operam na cognição e que correspondem a mapeamentos cognitivos entre domínios concretos, mais experienciáveis fisicamente, e domínios abstratos, mais subjetivos, observáveis nas metáforas linguísticas da dor como formigamento, dor como agulhada, por exemplo. É fundamental, todavia, distinguir a metáfora conceptual (MC), que ocorre no nível do pensamento, das expressões metafóricas, que são seus significantes linguísticos; assim, termos como “agulhada” ou “ferroada” não são a metáfora em si, e sim materializações linguísticas ancoradas em esquemas imagéticos de punção que operam na cognição do paciente.
Essa operação cognitiva de mapeamento é reforçada pela própria origem do termo: etimologicamente, o conceito metáfora vem do grego metaphorá, no sentido de “mudança, transposição”, por extensão na retórica “transposição do sentido próprio ao figurado, metáfora”, do v. metaphérō no sentido de “transportar” (Houaiss, 2009). Nesse sentido, metáfora é sinônimo de “transporte”, “mudança”, “transferência” e em sentido mais específico, “transporte de sentido próprio ao sentido figurado” (Dicionário de Termos Literários, 2010). Pode-se dizer que são utilizados diversos processos linguísticos por meio dos quais os traços ou qualidades de uma determinada entidade são transferidos para outra, permitindo que esta funcione de forma semelhante a primeira. Aristóteles (1994) , ao estudar a metáfora, divide seu uso entre a retórica e a poética. Na retórica, técnica de eloquência, a metáfora é utilizada como figura de persuasão e tem um caráter de transposição de sentido próprio da palavra por um sentido figurado; já na poética, arte de compor poemas, seu uso é o de adornar a poesia com imagens que certas palavras evocavam. Segundo Ricoeur (2015, p. 23), na teoria aristotélica, a metáfora cumpre essas duas funções, de persuasão e de estética; essa concepção da metáfora vai perdurar até fins do séc. XIX.
Nietzsche reflete sobre a linguagem de forma significativa e peculiar, e, por conseguinte, a metáfora vai fazer parte de suas elucubrações sobre a linguagem; afirma que a metáfora possibilita o homem construir todas as coisas que estão dentro da sociedade (arte, ciência, religião, etc.). Tudo que existe dentro da vida social é metáfora e, por conseguinte, interpretação. Em Além do bem e do mal, Nietzsche (1992, p. 21) afirma que até as leis construídas pelos físicos são interpretações; logo, também são metáforas. Ele é o primeiro a levar a metáfora para além da retórica e da poética; em sua visão, a metáfora é linguagem fundante, além de ser a maneira eficiente do ser humano expressar seu poder criador e, consequentemente, afirmar a vida. A semente que Nietzsche plantou sobre linguagem e metáfora irá influenciar importantes filósofos que também refletiram sobre a linguagem no século XX, como, por exemplo, Heidegger, Foucault e Merleau-Ponty (Abreu, 2015, p. 31).
Na virada do século XX, observamos a prevalência do paradigma lógico-positivista nas ciências em geral, havia um interesse pelas condições de verdade, falsidade e objetividade; a metáfora foi, portanto, deixada de lado pelos estudiosos da linguagem por não conter em si as condições de verdade e de objetividade. Com o questionamento do paradigma positivista em meados do séc. XX por alguns teóricos das ciências humanas, entre eles linguistas e filósofos, a metáfora volta ao círculo de estudos e reflexões, mas não mais como uma simples figura da linguagem, e sim como estruturadora do pensamento e, por conseguinte, da linguagem, segundo Richards (1936) , Black (1954) , Lakoff e Johnson (1980) e Searle (1993).
Lakoff e Johnson (1980, 1987) destacam-se nos estudos da metáfora por terem feito uma ampla análise de enunciados da linguagem e terem chegado à conclusão de que a nossa linguagem cotidiana revela um imenso sistema conceptual metafórico que rege nosso pensamento e ação. Os autores demonstraram, por meio de análises linguísticas, que: i) a sede da metáfora é o pensamento e não a linguagem; ii) ela é importante e indispensável na forma como o homem usualmente conceptualiza o mundo; e iii) o comportamento humano cotidiano reflete a compreensão metafórica de suas experiências.
Sobre a base da evidência linguística acima de tudo, constatamos que a maior parte de nosso sistema conceptual ordinário é de natureza metafórica e encontramos uma maneira de começar a identificar detalhadamente o que são exatamente as metáforas que estruturam a maneira como percebemos, pensamos e atuamos. (Lakoff; Johnson, 1980, p. 3).
Para exemplificar como os autores chegaram à conclusão de como um conceito pode ser metafórico e estruturar uma atividade cotidiana, aludimos ao conceito DISCUSSÃO, exemplificado pela metáfora conceptual: DISCUSSÃO É GUERRA. Lakoff e Johnson apresentam os seguintes exemplos:
Seus argumentos são indefensáveis. Ele atacou todos os pontos fracos de minha argumentação. Destruí sua argumentação. (Lakoff; Johnson, 1980, p. 4).
Segundo os autores, esses são exemplos de como um conceito metafórico estrutura, em parte, o que fazemos quando discutimos e como compreendemos o que fazemos. Apesar de DISCUSSÃO e GUERRA serem conceitos completamente diferentes - discurso verbal e conflito armado -, a discussão é levemente estruturada, compreendida, realizada e encarada em termos de guerra. Vivenciamos a discussão como uma batalha, a qual perdemos ou ganhamos, e vemos a pessoa com a qual discutimos como um adversário. Para os autores, “a essência da metáfora é entender e experienciar uma coisa em termos de outra” (Lakoff; Johnson, 1980, p. 5).
Estudos sobre a dor sob a perspectiva da metáfora, como os de Semino (2010) e Neilson (2016) , reforçam que a descrição da dor envolve metáforas baseadas em experiências corporificadas, pois, quando não temos palavras literais para a dor, recorremos a expressões metafóricas, pois elas ajudam a expressar a natureza da dor através de uma simulação física compartilhada, facilitando a visualização de um domínio-alvo (dor) a partir de um domínio-fonte familiar. A ligação metafórica que se estabelece entre dois domínios corresponde a um conjunto de semelhanças ontológicas e epistêmicas bem estruturadas entre os domínios em questão. É importante que os aspectos fundamentais sejam preservados “no processo de projeção entre domínios. A estrutura do domínio-fonte precisa ser preservada pela projeção, de modo consistente com o domínio-alvo” (Ferrari, 2011, p. 97).
A dor pode ser um sintoma comum a muitas doenças ou pode ser um sintoma que não leva a um diagnóstico; ademais, pode ter características bem definidas e delimitadas que auxiliam a identificar uma doença. Os termos da dor - advindos das entrevistas com os venezuelanos na cidade de Brasília - têm características delimitadas e próprias. Por isso, para categorizá-los, basear-nos-emos em Lakoff e Johnson (1980) e Lakoff (1987), por serem referências na temática da metáfora conceptual e sua categorização, recordando que os autores se baseiam na noção de categoria que Rosch desenvolve em suas pesquisas empíricas.
Segundo os estudos de Wittgenstein (1999) e Rosch (1978) sobre a categorização, compreende-se que os termos qualificativos da dor se vinculam por efeitos protótipos de seus elementos e por semelhanças de família entre os termos da categoria. Dessa forma, há termos do conceito DOR que partilham alguns atributos semânticos com seus membros, e, com outros membros, compartilham outros atributos; porém, todos os membros compartilham de semelhanças familiares. Por exemplo, termos como agulhada, ferroada e perfurante, pertencem à categoria PUNÇÃO, que se integra à categoria DOR, esta, por sua vez, subjaz à categoria SINTOMA, e, por fim, à categoria DOENÇA. Tal organização demonstra como o léxico da dor se estrutura hierarquicamente em redes de categorias semânticas. Essa estruturação de categorias, contudo, não é estática nem meramente linguística, ela reflete a experiência cognitiva e social do falante. Para compreender como esses conceitos se estabilizam e evoluem dentro de domínios especializados, é necessário recorrer a um modelo que considere a flexibilidade e o contexto do conhecimento técnico. Para tano, a seção a seguir apresenta os fundamentos da Teoria Sociocognitiva da Terminologia (TSC).
Teoria Sociocognitiva da Terminologia (TSC)
Proposta por Rita Temmerman (2000) , a TSC surge como uma crítica à visão tradicional da terminologia, defendendo que os termos não são etiquetas fixas, mas unidades de conhecimento dinâmicas. No caso da dor, a TSC permite observar como a metáfora atua como um mecanismo de categorização essencial no qual a linguagem denotativa falha. A compreensão dessa linguagem é estudada no âmbito da Terminologia, disciplina que estuda a organização e funcionamento das linguagens de especialidade. Temmerman (2000), na virada do século XXI, apresenta uma nova teoria da Terminologia, a Terminologia Sociocognitiva (TSC), que vem se somar às teorias que questionam a validade dos postulados de Wüster (1930) , representante da Teoria Geral da Terminologia (TGT), sobre a univocidade dos termos e a padronização como princípio norteador dos estudos terminológicos. A TSC questiona a univocidade absoluta dos termos, propondo que estes expõem relações polissêmicas e metafóricas. Temmerman (2000) defende que os termos são unidades de compreensão que funcionam em modelos cognitivos e culturais, estruturando-se por processos semelhantes aos da linguagem cotidiana. A autora, ademais, argumenta que os termos expõem relações de sinonímia, homonímia e polissemia; dessa maneira, apresenta e propõe uma teoria descritiva dos termos e seus significados baseada na teoria cognitiva, especificamente na Teoria Cognitiva da Metáfora Conceptual, proposta por Lakoff e Johnson (1980, 1987). Em suas investigações em um corpus de publicações científicas na área das ciências biológicas, Temmerman constata que as metáforas são constitutivas da linguagem de especialidade. Consoante a linguística cognitiva, a autora defende que os conceitos e os termos que os nomeiam não existem a priori; sua concepção emerge em função da realidade a ser categorizada dentro de um Modelo Cognitivo Idealizado (MCI).
Essa visão de categorização flexível e situada encontra respaldo nos pressupostos de Lakoff (1987) , que, ao discorrer sobre a natureza do conhecimento, ressalta a indissociabilidade entre corpo e mente na construção do saber. O autor argumenta que “as categorias clássicas e as taxonomias clássicas não estão incorporadas na natureza ou fazem parte de alguma racionalidade transcendental [...], são invenções da mente humana” (Lakoff, 1987, p. 287). Para ele, as categorias se constroem mediante a relação entre corpo, mente e objeto; ou seja, entendemos o mundo via sistemas ou modelos cognitivos (Fillmore, 1985; Lakoff, 1987), nos quais as unidades de interpretação, estruturadas de forma prototípica, encontram-se relacionadas. O conhecimento é, portanto, apreendido através de nossas percepções sensoriais, como resultado da interação entre a linguagem, a mente, o corpo humano e o mundo.
Na Terminologia, Temmerman (2004) entende que o conhecimento científico e tecnológico se fundamenta nessas mesmas bases, estruturando-se por meio de processos metafóricos e esquemas de imagem semelhantes aos da linguagem cotidiana. Ela também sustenta que a metáfora está presente na descrição de conceitos técnicos, sendo um importante meio para a conceptualização e criação de novos termos em várias áreas de especialidade, além de ser um dos mecanismos mais produtivos de extensão semântica; por exemplo, “DNA é mapa”.
A TSC entende o termo como uma criação mental que tem lugar no contexto da comunicação especializada; consequentemente, o termo não existe a priori denominando um conceito preexistente no mundo real, mas se constitui por meio de um processo de conceptualização e categorização sociocultural (Temmerman, 2004). Esse processo, que ocorre no âmbito da língua, é mediado por modelos cognitivos, muitas vezes metafóricos, que viabilizam a compreensão da realidade. Seu pressuposto basilar é o entendimento da união termo-conceito como uma unidade de compreensão de estrutura prototípica, observável no contexto da comunicação científica e técnica (Temmerman, 2004). Sob essa perspectiva, os termos são tratados como produtos da cognição humana orientados por diversos fatores, tais como a experiência de mundo, os modos de categorização e os processos metafóricos.
Para a autora, essas unidades de compreensão funcionam dentro de “modelos cognitivos e culturais” (Temmerman, 2004, p. 37). Ao conferir ao conceito o status de unidade interpretável, a TSC assume que ele é dependente do entendimento humano, encontrando-se em constante desenvolvimento. Nesse paradigma, os termos são dinâmicos e polissêmicos: modificam-se conforme as variáveis da língua, ao contexto e aos usuários, comportam a metaforização e constroem seus significados na interação, afastando-se de definições estáticas ou acabadas.
A dor, como experiência humana, é complexa, simbólica e cultural, encontrando na metáfora uma de suas principais formas de expressão. Embora tais construções pertençam à linguagem de especialidade - ou seja, à terminologia das ciências da saúde -, elas ainda são objeto de poucos estudos sistemáticos. Essa carência de investigações contrasta com o cenário observado em outros domínios, como o das ciências físicas; nesta área, a aquisição de temas abstratos por meio de metáforas é destacada como uma estratégia fundamental para a apreensão do conhecimento científico e tecnológico.
O uso de metáforas com valor pedagógico no campo da física promove um conhecimento significativo, pois facilita a visualização de um domínio científico específico (alvo) a partir de um domínio familiar (fonte), explorando as relações compartilhadas entre ambos (Bozelli; Nardi, 2005). Como asseveram Lakoff e Johnson (1980, p. 5), “a essência da metáfora é entender e experienciar uma coisa em termos de outra”. Essa estratégia não apenas favorece a comunicação de conteúdos, mas, segundo Bozelli e Nardi (2005, p. 1), encoraja a memória e gera um entendimento pessoal mais profundo. Tais metáforas não surgem de comparações arbitrárias; pelo contrário, refletem mapeamentos conceptuais que estruturam nosso pensamento e raciocínio.
Assim, depreende-se que a metáfora não é apenas um recurso didático das ciências exatas, mas um instrumento cognitivo essencial para a expressão de experiências complexas e abstratas, como é o caso da dor. Para investigar como esses mapeamentos ocorrem na prática linguística de sujeitos em situação de mobilidade, a seção seguinte detalha a metodologia utilizada para o levantamento dos termos álgicos junto a migrantes venezuelanos.
Metodologia
Passamos a detalhar os passos dados para realizar o levantamento das unidades terminológicas que os imigrantes hispânicos declararam utilizar ao narrar suas dolências aos profissionais de saúde brasileiros.2 A fim de apreender melhor o fenômeno - interação entre profissional da saúde brasileiro/paciente migrante -, optou-se por uma coleta de dados que incluiu duas técnicas qualitativas: entrevista semiestruturada e questionário, de modo a retratar de forma mais integral o fenômeno pesquisado. A abordagem qualitativa se apresentou propícia, visto o viés social da presente pesquisa, pois essa aproximação ao fenômeno “objetiva gerar conhecimentos para aplicação prática, dirigidos à solução de problemas específicos” (Braga, 1988, p. 35); em nosso caso, a aplicação prática era gerar um glossário bilíngue, espanhol/português, dirigido à solução das dificuldades linguísticas enfrentadas pelos migrantes em uma consulta médica ao ter que relatar as particularidades e nuances de seus sintomas e dores.
Dada sua relevância para o tema que nos concerne e por sua especificidade terminológica no campo semântico da dor, incluímos o Questionário de dor McGill como procedimento na coleta de dados. O referido questionário de termos da dor é um instrumento confiável e genuíno devido a sua ampla aplicação em investigações sobre a dor em diversos países. Desde a sua elaboração, há mais de 50 anos, “é o instrumento mais usado, até hoje, para avaliar outras características da dor, além da intensidade” (Pimenta; Teixeira, 1996, p. 474). A combinação de distintos procedimentos no estudo do mesmo fenômeno “tem por objetivo abranger a máxima amplitude na descrição, explicação e compreensão do objeto de estudo e de formular uma ideia mais ampla e inteligível da complexidade de um problema” (Goldenberg, 2004, p. 50, p. 61-62).
Com o intuito de que os entrevistados pudessem se expressar de forma espontânea e com mais propriedade, decidimos realizar a entrevista em espanhol, língua materna dos venezuelanos. Segundo Pimenta e Teixeira (1996, p. 474), o método de avaliação da dor baseado no autorrelato do paciente utiliza elementos linguísticos que ajudam na comunicação dos sintomas, uma vez que considera a natureza individual e subjetiva da experiência dolorosa. Dessa forma, esse procedimento permite uma compreensão mais precisa e eficaz dos sintomas relatados pelo paciente. O desenho da entrevista compreendeu nove (9) perguntas, divididas em três seções: (i) perfil do entrevistado, (ii) questões sobre as dificuldades enfrentadas na intercomunicação em consultas médicas, (iii) aplicação do questionário de termos álgicos e sugestões de termos que não constavam no questionário.
As entrevistas foram realizadas na ONG “Aldeias Infantis”3 que se dedica aos cuidados de crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade e situações de emergência. A crise humanitária que a Venezuela atravessa, advinda do bloqueio econômico imposto pelo governo do EUA, somada à Pandemia, ocasionou a migração de muitos venezuelanos. Esse fato fez com que instituições beneficentes passassem a receber migrantes venezuelanos, dentre elas “Aldeias Infantis”. As respostas das entrevistadas contribuíram com um rico conteúdo sobre a linguagem da dor e, também, deixou em evidência as dificuldades de interação desse coletivo junto aos profissionais de saúde brasileiros.
Para ilustrar, transcrevemos breves trechos das entrevistas, nos quais as migrantes narram suas experiências no SUS. Dulcinéa4 nos relatou que “Se você não fala português, as coisas ficam mais difíceis para tudo, desde conseguir um emprego até ser compreendido [...] é frustrante, é uma luta!”.5 Por outro lado, Carmencita declarou que estava há cinco meses em Brasília e havia utilizado bastante o serviço de saúde; segundo ela “Eu escuto e entendo muito bem quando falam comigo, mas tenho muita dificuldade em responder, em saber falar a língua [...] muitas vezes eles não entendiam o que me doía, e por isso, por não falarmos o mesmo idioma, tive bastante dificuldade”.6 Dentre os diversos desafios que os migrantes atravessam ao se encontrarem em território brasileiro, a língua é um dos desafios mais importantes a ser superado, pois é mediante ela que comunicarão suas alegrias, suas dores, suas queixas e agradecimentos.
Realizou-se uma escuta atenta das entrevistas e uma leitura minuciosa dos termos assinalados por eles, o que nos possibilitou desenvolver um sistema de categorias para classificar as unidades terminológicas e, dessa maneira, analisá-las de forma clara e precisa.
Resultados e Discussão
Dos treze (13) entrevistados na ONG Aldeias Infantis, todos possuíam ensino médio completo e dois deles com o ensino superior completo, sendo um desses com uma pós-graduação. Onze (11) eram do sexo feminino e dois (2) do sexo masculino. Esse resultado está em consonância com estudos científicos que indicam que as mulheres tendem a buscar mais atenção médica e a relatar com maior frequência a possibilidade de sentir dor e estar doentes. As idades dos entrevistados variaram majoritariamente entre 30 e 50 anos, o que comprova uma tendência de crescimento álgico nessa faixa etária. Esse aumento da dor pode, por sua vez, interferir na qualidade de vida e no desempenho laboral (Palmeira et al., 2011a, p. 305; 2011b, p. 31).
No que concerne ao léxico utilizado pelos migrantes para comunicar suas dores, os dados coletados foram organizados em duas grandes categorias: termos metafóricos e não metafóricos. Para fins deste artigo, delimitamos a análise à primeira categoria. Sob a ótica da Teoria dos Protótipos e das semelhanças de família (Wittgenstein, 1999; Rosch, 1978), observou-se que os qualificadores da dor não se agrupam por definições rígidas, mas por compartilhamento de atributos semânticos. Um exemplo representativo dessa organização nos dados coletados é o agrupamento de termos como “formigamento”, “moscas volantes” e “zumbido”. Tais unidades foram categorizadas como Sensação Zoomórfica, evidenciando como a experiência álgica é processada por meio de analogias com o mundo natural. Essa estrutura reflete a hierarquia semântica discutida anteriormente, na qual a percepção subjetiva do sintoma se conecta a categorias mais amplas de doença por meio de vínculos cognitivos e culturais.
Tendo em vista a relação que o advérbio “como” estabelece entre os domínios concreto e abstrato, agrupamos os termos introduzidos por essa partícula em diferentes categorias metafóricas; da mesma forma, os demais termos que compartilham parecenças de família foram organizados em cinco (5) categorias, conforme apresenta-se no Quadro 1:
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Aplicação de força física.
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Sensação zoomórfica.
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Sensação de calor.
-
Ritmo breve e repetitivo.
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Domínio visual.
Em todas as categorias, estabelece-se a projeção metafórica entre dois domínios: o primeiro, concreto, pertence ao mundo dos objetos físicos (domínio-fonte); o segundo, de ordem abstrata, é o domínio-alvo. O alvo é o que se deseja compreender, enquanto a fonte é o domínio a partir do qual se constrói esse entendimento; segundo Ferrari (2011, p. 62), é fundamental que a estrutura do primeiro se conserve na projeção do segundo de modo consistente. As construções terminológicas com o advérbio “como” revelam o caminho que perpassa a percepção, a cognição e a expressão linguística. Essa comparação estabelece uma relação entre o sintoma e a dor - experiências abstratas e complexas - e elementos tangíveis do mundo físico: dói assim, de maneira semelhante a... Além disso, essa é uma das estratégias pelas quais os interlocutores articulam o texto falado, “pois as relações de significado mediadas pela sintaxe refletem as intenções do falante na construção do seu discurso” (Stassi-Sé; Pezatti, 2017, p. 274). O falante em seu discurso lança mão da metáfora para significar a sua dor/sensação/sintoma, já que é no nível semântico que se estabelece a relação metafórica e é no nível sintático que essa relação de significado é construída. “A qualidade metafórica é [...] uma qualidade de transportar o significado de um contexto para outro contexto, caracterizando, portanto, um como se, mas de forma implícita” (Grandesso, 2000, p. 143, grifo nosso), e assim, possibilita a criação de uma nova unidade de sentido.
Para os fins deste artigo, apresentaremos a análise de três termos metafóricos em espanhol: [como] un hormigueo; [como] un latigazo; [como] una corriente e os termos metafóricos correspondentes em português, respectivamente, [como] um formigamento, [como] chicotada e [como] choque.
A) [como] un hormigueo; [como] um formigamento
Em espanhol, do substantivo hormiga, que nomeia a coisa no mundo, deriva-se o verbo hormiguear, carregado de sentido metafórico. O sufixo -ear forma verbos derivados de substantivos e adjetivos, dos quais derivam os nomes deverbais: hormigueo, com o sufixo -eo. Essas formações têm construção metafórica que denota ação e efeito, tendo como equivalente em português o nome deverbal formigamento.
A experiência corpórea de interagir com formigas - o pisar no formigueiro ou o sentir o caminhar dos insetos - é um mecanismo típico da metáfora conceptual (MC) retido na memória coletiva. A partir do domínio concreto (inseto), constrói-se a projeção para o domínio abstrato (sensação/dor). Nesse mapeamento, as categorias de nível básico do domínio-origem (insetos caminhando em conjunto) são projetadas sobre a estrutura do domínio-alvo (sensação cutânea de dor). Como define Silva (1997) , essa projeção envolve domínios cognitivos distintos. No caso analisado, a MC DOR É ATIVIDADE ANIMAL permite que a dor/sensação seja compreendida em termos de uma presença externa e em movimento. Lakoff e Johnson (1980) reiteram que essas analogias estruturais reorganizam fronteiras conceptuais, tornando o domínio abstrato (alvo) mais experienciável através do domínio concreto (fonte).
Na entrevista, a paciente Carmencita utiliza a metáfora linguística que reflete essa operação cognitiva: “sinto dores nas pernas e às vezes tenho a sensação de que formigas andam pelas minhas pernas essa sensação é bem chata, principalmente quando você acorda e ela está presente”.7 Segundo Nielsen (2016), o uso dessas imagens pelo paciente deve ser compreendido na clínica como uma tentativa de dar sentido ao sofrimento; a metáfora atua como uma ponte hermenêutica entre o corpo que sofre e o médico que escuta. Johnson (1987) explica que essas estruturas de compreensão são padrões pelos quais nos apropriamos do mundo, assim, a expressão hormigueo (formigamento) não é uma imprecisão, mas uma concretização da experiência álgica possibilitada pela projeção do domínio-fonte (insetos caminhando) sobre o domínio-alvo (sensação cutânea), permitindo que a subjetividade da dor seja expressa concretamente na metáfora linguística: dolor como hormigueo / sensación de hormigueo.
B) [como] latigazo; [como] chicotada
Este termo metafórico é utilizado quando a pessoa sente dores agudas na zona cervical, com irradiação para os ombros e a cabeça; em português o termo equivalente é “chicotada”. Se imaginarmos o movimento enérgico de um chicote, sua força repentina e a sacudida como reação de quem o recebe, percebe-se a metáfora estabelecida entre o domínio-fonte: chicote → instrumento resistente e flexível feito de tiras de couro ou de cordões firmemente entrançados e presos a um cabo que se empunha para golpear um animal, ou castigar uma pessoa (Houaiss, 2009), e o domínio-alvo: a dor súbita e dilacerante que atinge músculos e tendões como se o corpo recebesse um golpe físico. Nota-se, aqui, a expansão do significado motivado por projeções metafóricas, ou seja, projeções entre domínios que nos permitem compreender as relações possíveis de conexão entre distintos universos de experiências. Esse novo sentido
se produz com o rastreamento de habilidades e informações inatas e adquiridas a fim de que a pessoa as combine, as adapte a diferentes domínios cognitivos e as reconfigure para a resolução de novos problemas, num processo de crescente flexibilidade e manipulabilidade dos significados de qualquer natureza. (Gerhardt, 2003, p. 24).
Assim, a expressão “chicotada” (latigazo) conecta-se à MC DOR É UM ATAQUE FÍSICO, na qual o esquema imagético de um instrumento flexível golpeando o corpo é usado para descrever uma dor súbita e dilacerante.
Segundo Fauconnier (1997) , ao construirmos significado e interpretação, visualizamos apenas a “ponta do iceberg”, composta pela língua e pelas palavras que evocam o sentido; submersos, encontram-se os complexos recursos cognitivos necessários para elaborar o sentido e realizar a interpretação. Nesse prisma, a expressão linguística “como un latigazo” representa apenas a face visível de uma construção de significado enraizada em experiências corpóreas prévias. Ocorre, portanto, uma integração entre o domínio-fonte e o domínio-alvo, da qual emerge um conceito que condensa um novo sentido, balizando uma das múltiplas manifestações da dor expressada na subjetividade do paciente. Conforme aponta Semino (2010) , a metáfora na saúde não é apenas um adorno linguístico, mas um recurso cognitivo essencial para comunicar sensações que desafiam a descrição literal, permitindo que a subjetividade da dor seja “externalizada” por meio de experiências sensoriais compartilhadas.
C) [como] corriente; [como] choque
A metáfora expressa nos termos “choque” (português) e “corriente” (espanhol) estabelece uma comparação entre um fenômeno físico e a dor, que é uma experiência complexa e subjetiva. Por meio dessa projeção, cria-se um novo sentido que descreve um tipo específico de moléstia. Essa transposição entre o domínio A (fonte, mais concreto e estruturado) e o domínio B (alvo, mais abstrato e menos estruturado) é motivada por uma correlação estrutural que preserva a topologia do domínio fonte no domínio alvo; respeitando a Hipótese da Invariância “a estrutura do domínio-fonte precisa ser preservada pela projeção, de modo consistente com o domínio-alvo” (Ferrari, 2011, p. 63).
Nesse processo, o fenômeno físico do “choque” (corriente) é mapeado para o domínio da dor, um exemplo comum é a expressão metafórica “Estou com uma dor que parece um choque”. A expressão materializa a MC DOR É ELETRICIDADE. Trata-se de uma metáfora ontológica, na qual propriedades de um fenômeno físico intenso são projetadas para delimitar, categorizar e concretizar a experiência subjetiva e abstrata da dor.
Segundo Ferrari, esse transporte se sustenta quando o domínio-alvo é um estado e se estabelece uma relação estável e sistemática entre os dois domínios conceptuais. “A estrutura conceptual e a linguagem do domínio-fonte são usadas para retratar uma situação no domínio-alvo” (Ferrari, 2011, p. 97); assim, a linguagem da eletricidade é utilizada para retratar a situação sensorial: dor como um choque / dolor como una corriente. Essa operação resulta na compreensão da dor como algo súbito, intenso e com trajetória (ora localizada, ora irradiada). Ademais, a metáfora evoca a historicidade da experiência ocidental com a corrente elétrica, integrando o conhecimento técnico e cultural à percepção corporal. Este é um caso típico de metáfora ontológica, que “nos permite tratar experiências abstratas como entidades discretas e físicas, tornando-as mais compreensíveis e comunicáveis” (Lakoff; Johnson, 1980, p. 25; 1999, p. 45).
No caso específico de populações migrantes, o recurso a metáforas físicas e ontológicas revela-se uma ferramenta essencial para externalizar o sofrimento de forma estruturada perante o sistema de saúde do país de acolhida. Conforme propõem Declercq et al. (2023) , as descrições feitas por migrantes não são aleatórias, mas seguem padrões conceptuais estruturados. Quando uma paciente descreve a dor como um “latigazo”, por exemplo, ela opera sob a metáfora conceptual DOR É UM ATAQUE, ativando o que Semino (2010) define como simulação corporificada para tentar transpor a barreira do significante e comunicar a intensidade do seu sofrimento. De modo análogo, ao enunciar “tengo un dolor”, o falante trata a dor como uma entidade física passível de posse, corroborando a perspectiva clássica de Lakoff e Johnson (1980) . Depreende-se, portanto, que a análise dessas metáforas possui implicações éticas e práticas cruciais na assistência à saúde; por esse motivo, a seção seguinte aborda a relevância da mediação linguística em contextos de atenção à saúde do migrante.
A mediação linguística e a humanização da saúde
Em espaços de atenção à saúde, ocorre o encontro entre dois mundos: de um lado, os profissionais que, por meio de sua linguagem técnica, nomeiam as diferentes facetas da dor; de outro, o paciente, que as descreve por meio do uso da linguagem cotidiana. O paciente migrante, ao encontrar-se em uma nova língua-cultura, convive com dois ou mais códigos em contato - sistemas simbólicos de formalização e apreensão da realidade que dialogam entre si, gerando novos elementos, vieses e contextos. Com base nesse reconhecimento, questiona-se: como se dá a transição terminológica entre o leigo e o especialista?
A assimetria desse diálogo clínico, embora marcada por códigos distintos, é potencialmente rica, pois estabelece uma ponte entre o especialista nativo e o paciente migrante. Se ambos se dispuserem a atravessar essa ponte, o quase indizível que a dor representa será dito por um e compreendido pelo outro, tornando a mediação linguística o motor da humanização na saúde. Nessa perspectiva, a mediação em ambientes hospitalares configura-se como o que Ricoeur denomina hospitalidade linguística. Ricoeur define a hospitalidade linguística como o ato de “habitar a língua do outro e receber o outro em sua própria língua” (Ricoeur, 2011, p. 20). Ao acolher a linguagem metafórica da dor do migrante venezuelano, o profissional de saúde brasileiro abre mão do termo técnico para acessar a subjetividade do outro, transformando o ato clínico em um encontro ético.
Observa-se que as migrantes venezuelanas utilizam metáforas conceptuais muito semelhantes às usadas por falantes de português (como a dor comparada ao fogo ou picadas). Essa similaridade sugere que a metáfora conceptual, sendo um fenômeno de natureza cognitiva muitas vezes fundamentada em experiências corporais universais, não é o fator primário de incompreensão; portanto, falta de entendimento no contexto clínico deve ser analisada sob dois prismas:
1. A opacidade da metáfora no léxico popular: uma barreira que afeta igualmente pacientes brasileiros e migrantes, onde o uso de termos leigos para descrever sintomas exige uma “tradução” para o código técnico pelo profissional.
2. A barreira do significante: no caso das migrantes, a dificuldade reside na divergência dos significantes. Embora o conceito de pulsação seja compartilhado, o termo latidos (espanhol) sua forma gráfica pode não ser reconhecida por um médico brasileiro como equivalente a “latejante”. Assim, a dificuldade decorre do código linguístico e não de uma lógica de pensamento distinta. A hospitalidade linguística (Ricoeur, 2011) é, portanto, essencial para que o especialista identifique a experiência álgica comum sob significantes distintos.
Apesar de ambas as comunidades linguísticas compartilharem metáforas conceptuais semelhantes às do português brasileiro (como comparar a dor ao ritmo ou à atividade animal), o entrave comunicativo muitas vezes reside na variação dos significantes. Termos como latidos (espanhol), embora compartilhem a base conceptual de pulsação, possuem formas fonológicas e gráficas distintas de latejante. Portanto, a dificuldade de entendimento decorre tanto do uso do espanhol quanto da assimetria entre a linguagem popular e a técnica. Nesse sentido, a hospitalidade linguística proposta por Ricoeur (2011) é o que permite ao profissional de saúde atravessar essa ponte e traduzir a expressão popular para o conceito clínico.
Consideramos que os termos da dor (como “dor nociceptiva” versus “dor latejante”) integram um continuum em que ambas as variantes pertencem à área da saúde, embora circulem em espaços distintos: a primeira entre especialistas e a segunda no relato dos pacientes. O reconhecimento dessas variantes populares pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é fundamental para evitar erros diagnósticos e garantir uma atenção humanitária e ética. Portanto, a escolha de termos metafóricos pelo migrante não deve ser lida como uma imprecisão linguística, mas como uma resposta cognitiva e cultural ao trauma do deslocamento. Ao descrever a dor por meio de metáforas linguísticas, o migrante busca tornar compartilhável uma experiência que, de outro modo, seria isoladora. Nesse sentido, a mediação linguística aqui proposta transcende a técnica de tradução: ela atua como um instrumento de resistência ao silenciamento do sujeito e como pilar da preservação de sua dignidade. Ao validar o continuum terminológico e reconhecer a fala do outro como fonte diagnóstica legítima, a prática clínica despoja-se de seu caráter excludente para dar lugar a uma verdadeira hospitalidade linguística. Diante do exposto, depreende-se que a humanização da saúde na fronteira entre línguas exige mais do que a simples compreensão de palavras; exige a sensibilidade para habitar o espaço entre o saber técnico e a sabedoria cotidiana.
Considerações finais
Este estudo se propôs a analisar as representações linguístico-metafóricas da dor utilizadas por migrantes venezuelanos em Brasília-DF. Ao longo desta pesquisa, identificamos e exploramos distintos padrões metafóricos como a dor percebida como objeto pontudo, chicotada ou formigamento, os quais não apenas descrevem sensações físicas, mas também refletem profundos valores culturais e a complexidade da vivência individual. As análises apresentadas reforçam a hipótese de que a dor, embora biológica, é amplamente construída e compreendida por meio de sistemas cognitivos e culturais, nos quais a metáfora desempenha um papel central na sua conceptualização e comunicação.
Durante o percurso da pesquisa, constatamos que a metáfora não é apenas uma figura de linguagem; ela estrutura a cognição humana e auxilia na categorização das experiências, tanto concretas quanto abstratas. A abordagem da Metáfora Conceptual foi fundamental para compreender a conceptualização metafórica da dor e nos mostrou que os diferentes conceitos de dor engendram diferentes expressões metafóricas; isso ocorre porque tendemos a entender conceitos complexos e abstratos, como a dor, associando-os às nossas experiências corporais com objetos e substâncias. Essas experiências dão sustentação à elaboração de conceitos mais abstratos, como demonstrado nas análises das metáforas terminológicas da linguagem da dor.
Constatou-se que a dor é compreendida por meio de sistemas cognitivos nos quais a metáfora conceptual desempenha papel central. As expressões metafóricas analisadas são ancoradas em experiências corporais básicas, categorizadas como metáforas ontológicas em que EXPERIÊNCIAS ABSTRATAS SÃO ENTIDADES FÍSICAS (Lakoff; Johnson, 1980, p. 25; 1999, p. 45). Essa é a matriz da categoria de metáforas conceptuais que os autores denominam ontológica, as quais emergem de nossas primeiras experiências com elementos concretos, assim, elas nos balizam na conceptualização de ideias, emoções e sensações como entidades físicas. Espera-se que os aportes teóricos e as análises aqui apresentadas contribuam para o desenvolvimento de futuras pesquisas terminológicas fundamentadas em metáforas, tanto na linguagem técnica da saúde quanto em outras áreas de especialidade. Em última análise, a validação dessas variantes no atendimento clínico é um passo fundamental não apenas para evitar erros diagnósticos, mas para assegurar a dignidade e o acolhimento ético do paciente migrante.
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Pesquisa apresentada para obter o título de doutora em Linguística, no departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas - LIP, no Programa de Pós-Graduação em Linguística - PPGL - da Universidade de Brasília: As metáforas na linguagem de especialidade da dor: glossário bilíngue - espanhol - português.
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O projeto que deu origem a este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Brasília, sob o número do CAAE: 44159121.0.0000.5540. Parecer nº 4.627.031.
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Os nomes exibidos são pseudônimos, utilizados para proteger a identidade das participantes, conforme as diretrizes éticas da pesquisa.
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“si no hablas portugués las cosas se hacen más difíciles para todo, para conseguir empleo para que te entiendan […] es una frustración, es una lucha!” (tradução nossa).
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6
“escucho y entiendo muy bien cuando me hablan, pero me dificulta responderle, saber hablar el idioma […] muchas veces no me entendían que era lo que me dolía, y por eso, por no hablar el mismo idioma se me dificultó bastante” (tradução nossa).
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7
“siento dolores en las piernas y a veces siento como si me caminaran hormigas por las piernas, esa sensación es muy molesta, y más aún cuando te despiertas y la tienes ahí”.
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Disponibilidade de dados e material:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
