Open-access Tradução da metáfora conceptual e variação conceptual interlinguística

Conceptual Metaphor Translation and Interlinguistic Conceptual Variation

RESUMO:

Este artigo examina a tradução da metáfora conceptual no quadro das interfaces entre Estudos da Tradução e Linguística Cognitiva, entendendo a tradução como contexto privilegiado para observar processos de conceptualização e inferência em atividade bilíngue situada (Schäffner, 2004; Halverson, 2003, 2010). Partindo da concepção da metáfora como mecanismo cognitivo central de organização do significado (Lakoff; Johnson, 1980; Kövecses, 2010), o trabalho argumenta que a variação conceptual interlinguística constitui uma dimensão regular do funcionamento metafórico, com efeitos diretos sobre o potencial inferencial e a função discursiva no texto de chegada. Com base em noções como esquemas imagéticos (Johnson, 1987), domínios e frames (Fillmore, 1985; Croft; Cruse, 2004), bem como na noção de cenário metafórico (Musolff, 2004, 2016), discute-se como bases experienciais partilhadas podem dar origem a realizações conceptual e discursivamente diferenciadas. A articulação entre as condições de mapeamento propostas por Mandelblit (1995) e a perspectiva multinível da metáfora (Kövecses, 2020) permite reinterpretar a não-congruência conceptual como resultado previsível de alinhamentos parciais entre níveis de conceptualização. Por fim, propõe-se um conjunto de parâmetros analíticos - compatibilidade conceptual, potencial inferencial e função discursiva - para descrever decisões tradutórias em contextos de divergência conceptual.

Palavras-chave:
Metáfora conceptual; Tradução; Variação conceptual interlinguística

ABSTRACT:

This article examines conceptual metaphor translation within the interface between Translation Studies and Cognitive Linguistics, treating translation as a privileged context for observing processes of conceptualisation and inference in situated bilingual activity (Schäffner, 2004; Halverson, 2003, 2010). Building on the view of metaphor as a central cognitive mechanism for meaning organisation (Lakoff, Johnson, 1980; Kövecses, 2010), the paper argues that interlinguistic conceptual variation constitutes a regular dimension of metaphor use, with direct effects on inferential potential and discourse function in the target text. Drawing on notions such as image schemas (Johnson, 1987), domains and frames (Fillmore, 1985; Croft, Cruse, 2004), as well as the concept of metaphorical scenarios (Musolff, 2004, 2016), it discusses how shared experiential bases may give rise to conceptually and discursively differentiated realisations. By articulating Mandelblit’s mapping conditions (1995) with a multilevel view of metaphor (Kövecses, 2020), the paper reinterprets conceptual non-congruence as a predictable outcome of partial alignments across levels of conceptualisation. Finally, it proposes a set of analytical parameters - conceptual compatibility, inferential potential, and discourse function - to describe translation decisions in contexts of conceptual divergence.

Keywords:
Conceptual metaphor; Translation; Interlinguistic conceptual variation

Introdução: Tradução da metáfora conceptual como problema cognitivo-linguístico

Nas últimas décadas, um conjunto consistente de estudos tem mostrado a produtividade do diálogo entre os Estudos da Tradução e a Linguística Cognitiva (LC), marcando uma mudança de paradigma que destaca a tradução como contexto privilegiado para investigar processos de conceptualização e inferência em atividade bilíngue situada (Schäffner, 2004; Halverson, 2003, 2007, 2010, 2019; Muñoz Martín, 2014; Degli Atti, 2025a). Nesse enquadramento, a tradução desloca o foco de uma lógica de equivalência estrita para a descrição de operações cognitivas e discursivas que sustentam escolhas em atividade de adaptação interlinguística, permitindo tratar produtos tradutórios como evidência de decisões de conceptualização sob restrições específicas (Degli Atti, 2025a, 2025b).

Um dos domínios em que essa convergência se mostra particularmente fecunda é o da metáfora conceptual. A tradução da metáfora foi frequentemente descrita como problema de equivalência ou adequação expressiva, muitas vezes circunscrita a dificuldades locais de ordem lexical ou estilística. Esse recorte se demonstra insuficiente à luz dos pressupostos da LC, que expõem o estatuto da metáfora conceptual como mecanismo central de organização do significado e da inferência no discurso (Lakoff; Johnson, 1980; Kövecses, 2010). Como defendido em trabalhos anteriores (Degli Atti, 2025a, 2025b), a metáfora participa de processos de conceptualização que estruturam modos de compreender, inferir e orientar a construção do significado.

O presente trabalho insere-se no âmbito dos estudos que exploram as interfaces entre Linguística Cognitiva e tradução, com o objetivo de contribuir para a reflexão teórica sobre a metáfora conceptual, em particular quando mapeamentos conceptuais divergentes entre línguas e culturas entram em jogo. Nesses casos, a tradução exige a negociação dos efeitos inferenciais e discursivos associados às conceptualizações mobilizadas (Schäffner, 2004; Degli Atti, 2025b). A tradução emerge, assim, como um espaço privilegiado para observar a variação conceptual interlinguística, ao tornar explícitas escolhas de conceptualização que, em contextos monolíngues, tendem a permanecer naturalizadas por convenções partilhadas.

Conceptualização, metáfora e experiência: bases cognitivas da organização do significado

Durante grande parte do século XX, as abordagens dominantes da tradução assentaram em modelos de base estrutural e comunicacional, nos quais o significado era tratado como conteúdo relativamente estável, passível de codificação e reexpressão entre sistemas linguísticos (Catford, 1965; Nida; Taber, 1969; Newmark, 1988). A consolidação de perspectivas cognitivas veio, porém, deslocar esse enquadramento, ao enfatizar o caráter dinâmico, situado e perspectivado da construção do sentido (Halverson, 2003, 2007, 2010; Rojo; Ibarretxe-Antuñano, 2013). A LC aplicada à tradução propõe compreender o significado como resultado de processos de conceptualização ancorados na experiência, organizados por mecanismos cognitivos recorrentes que estruturam domínios abstratos e orientam a construção do sentido em contextos de uso.

O contexto teórico acima exposto reserva uma posição central à metáfora conceptual, concebida como um mecanismo cognitivo fundamental para a organização do significado, na medida em que estrutura domínios abstratos a partir de domínios ancorados em padrões recorrentes de experiência (Lakoff; Johnson, 1980). Essa concepção desloca a análise da metáfora de uma leitura exclusivamente estilística para uma abordagem orientada à conceptualização, na medida em que os mapeamentos metafóricos contribuem para organizar interpretações e cadeias inferenciais no discurso (Kövecses, 2010).

A noção de base experiencial constitui o fundamento que condiciona as possibilidades de conceptualização. Johnson (1987) contribui de modo decisivo para essa discussão ao formular a teoria dos esquemas imagéticos, definidos como padrões recorrentes da experiência corporificada que organizam relações estruturais básicas e expectativas cognitivas, oferecendo um nível pré-conceptual suscetível de sustentar múltiplas elaborações conceptuais e linguísticas. Entre os esquemas mais recorrentes incluem-se CAMINHO/TRAJETÓRIA, FORÇA, CONTÊINER, PARTE/TODO, EQUILÍBRIO, ESCALA, entre outros.

Esses esquemas funcionam como recursos estruturais altamente esquematizados, que orientam projeções conceptuais e contribuem para a estabilização de certos padrões de sentido. A partir de bases experienciais largamente partilhadas (Johnson, 1987), línguas e culturas podem, contudo, desenvolver realizações metafóricas diferenciadas, em função de processos de convencionalização, saliência cultural e enquadramento discursivo (Kövecses, 2005). Nesse sentido, Kövecses enfatiza que a variação da metáfora não contradiz a ancoragem experiencial da metáfora, mas decorre da interação entre experiência corporal comum e fatores culturais, sociais e contextuais que modulam a seleção e a elaboração dos mapeamentos.

Em trabalhos posteriores, o mesmo autor aprofunda essa perspectiva ao salientar que os mapeamentos metafóricos convencionais se associam a conjuntos relativamente estáveis de inferências (metaphorical entailments), que orientam a interpretação em usos concretos (Kövecses, 2010). Essas inferências não são automáticas nem universais, mas sensíveis ao contexto discursivo, podendo ser reforçadas, atenuadas ou reconfiguradas em função de fatores pragmáticos, culturais e comunicativos.

A conceptualização não opera num único nível, mas desenvolve-se por meio de graus progressivos de abstração, que permitem à cognição estruturar a experiência desde padrões perceptivos básicos até representações conceptuais altamente complexas (Kövecses, 2020).

A conceptualização avança para níveis intermédios, como domínios conceptuais e frames, os quais integram informação enciclopédica, relações semânticas e expectativas culturalmente estabilizadas (Fillmore, 1985; Croft; Cruse, 2004). Enquanto os esquemas imagéticos operam como matrizes estruturais altamente esquematizadas, os frames permitem organizar eventos, papéis e relações em arranjos conceptuais mais ricos, sensíveis ao contexto discursivo e cultural. Essa progressão explica como diferentes línguas podem partilhar bases experienciais semelhantes e, ainda assim, desenvolver sistemas conceptuais e realizações linguísticas distintas, resultado de processos de seleção, saliência e convencionalização ao longo desses níveis de abstração.

É importante sublinhar que a metáfora conceptual opera de forma relativamente autônoma em relação à realização linguística superficial. Evidência disso é o fato de efeitos metafóricos poderem ser ativados mesmo na ausência de linguagem figurada explícita ou de marcas linguísticas convencionais de metaforicidade, uma vez que a metáfora atua primariamente no plano da conceptualização (Gibbs, 2017). Nessa perspectiva, a construção do sentido não depende exclusivamente de expressões metafóricas lexicalizadas, mas de estruturas conceptuais subjacentes que podem ser mobilizadas em diferentes configurações discursivas.

A conceptualização em âmbito de metáfora é, além disso, sensível às dinâmicas do discurso. Musolff (2004, 2016) contribui para esse debate ao introduzir a noção de cenário metafórico, entendida como um conjunto relativamente estável de pressupostos semânticos, papéis e relações inferenciais que se desenvolvem ao longo do discurso e orientam a interpretação. Diferentemente de mapeamentos metafóricos isolados, os cenários metafóricos permitem captar a continuidade e a coerência das metáforas em uso, bem como a sua capacidade de estruturar sequências argumentativas e enquadrar posicionamentos discursivos. Essa abordagem evidencia o caráter pervasivo da metáfora no discurso, ao mostrar como determinadas conceptualizações se consolidam e se tornam cognitivamente salientes por meio de padrões inferenciais recorrentes, ativados e modulados em contextos comunicativos específicos.

A possibilidade de orientar e guiar a construção do significado constitui um pressuposto central da Gramática Cognitiva desenvolvida por Langacker. Nessa perspectiva, o significado linguístico não resulta de uma correspondência direta com estados de coisas do mundo, mas de operações de construal que determinam como uma cena é conceptualizada, isto é, como determinados aspetos são selecionados, destacados e organizados no espaço conceptual (Langacker, 1987, 1991). Mecanismos como profiling (perfilamento), perspectivação, foco atencional e saliência explicam de que maneira alterações na composição da cena podem evocar representações conceptuais distintas a partir de uma mesma base experiencial.

As línguas, contudo, não oferecem repertórios idênticos para a realização dessas operações. Mesmo quando partilham potencialmente modos semelhantes de estruturar uma cena, podem emergir preferências sistemáticas quanto ao que é perfilado, ao grau de especificidade ou ao ponto de vista adotado. Essas preferências refletem convenções linguísticas e discursivas estabilizadas, bem como padrões culturais de conceptualização. Consequentemente, alterações aparentemente discretas na forma linguística - como a escolha de um participante como figura ou fundo, o grau de agentividade ou o nível de detalhamento - podem produzir deslocamentos semânticos relevantes, ao modificar o modo como a experiência é enquadrada cognitivamente.

Ao colocar em relação o potencial linguístico e cultural de duas comunidades linguísticas, a tradução adquire relevância teórica particular, sobretudo no caso da tradução de metáforas. Traduzir metáforas implica lidar não apenas com diferenças lexicais ou formais, mas com a necessidade de negociar conceptualizações que se realizam em sistemas linguístico-discursivos distintos. O processo tradutório envolve avaliar até que ponto os mapeamentos subjacentes, as saliências conceptuais e os efeitos discursivos associados são partilhados, compatíveis ou reconstruíveis na língua de chegada.

Nessa perspectiva, a tradução da metáfora se apresenta como um processo de mediação conceptual, no qual o tradutor toma decisões que incidem diretamente sobre o potencial interpretativo e inferencial ativado pelo texto de partida. Como discutido em Degli Atti (2025b), essas decisões tornam-se particularmente sensíveis quando domínios-fonte não se alinham plenamente entre línguas e culturas, quando diferentes parâmetros de saliência entram em jogo ou quando os efeitos discursivos da metáfora desempenham um papel estruturante no texto. Nessas situações, a tradução deixa de ser uma operação de correspondência e passa a configurar-se como um espaço de negociação entre modelos conceptuais, valores culturais e expectativas discursivas.

Universalidade e variação na metáfora conceptual

A questão da universalidade e da variação na metáfora conceptual desloca a discussão da alternativa binária universal vs. relativo para uma abordagem em que a metáfora é entendida como sistemática e motivada, mas sensível à diversidade de perfis, saliências e convenções discursivas em diferentes comunidades linguísticas.

Um ponto de referência decisivo nesse debate é a proposta de Kövecses (2005), que enquadra a universalidade como a recorrência de certos esquemas de conceptualização motivados por experiências humanas comuns. A variação emerge, por sua vez, nos modos específicos como essas bases são exploradas, selecionadas e combinadas em sistemas linguísticos e discursivos distintos, incluindo diferenças de saliência no domínio-fonte e de convencionalização interlinguística.

A proposta de Grady (1997) contribui para esclarecer a articulação entre regularidades experienciais e diversidade metafórica ao introduzir a noção de metáforas primárias, entendidas como correlações experienciais elementares, adquiridas precocemente e amplamente partilhadas. Essa hipótese não substitui as formulações fundadoras da LC sobre metáfora conceptual, mas explicita um nível de descrição em que associações recorrentes entre experiência sensório-motora e avaliação subjetiva podem funcionar como unidades relativamente simples, a partir das quais se estabilizam metáforas mais complexas. Nesse sentido, a teoria das metáforas primárias foi posteriormente integrada e discutida no desenvolvimento da tradição da metáfora conceptual.

Em trabalhos recentes, Kövecses (2020) desloca progressivamente a atenção para a natureza multinível dessa variação, ao propor que a variação possa incidir sobre diferentes níveis de esquematicidade e de especificação - desde estruturas muito gerais até escolhas mais localizadas, dependentes de enquadramentos culturais e do contexto comunicativo - e que esses níveis interagem dinamicamente na produção e interpretação de metáforas. Nesse quadro, o contexto é entendido de forma ampla, incluindo dimensões como o ambiente físico, o contexto social e a situação comunicativa, que condicionam a ativação e a saliência de determinadas conceptualizações.

A coexistência de bases experienciais partilhadas e de realizações conceptuais variáveis constitui, assim, um pressuposto previsto pela própria arquitetura da metáfora conceptual. Em termos tradutórios, isso implica que a variação conceptual interlinguística deve ser tratada como resultado esperado da interação entre níveis de conceptualização e condições contextuais de uso. Nessa direção, a tradução torna particularmente visíveis essas tensões ao pôr em contacto sistemas linguísticos e discursivos que mobilizam de modo distinto recursos conceptuais parcialmente comuns, tornando necessário explicitar compatibilidades, desalinhamentos e efeitos discursivos associados.

Ao reconhecer a variação conceptual como dimensão estruturante da metáfora, os problemas colocados pela tradução podem ser descritos como articulações necessárias entre universalidade e variação em situações concretas de uso interlinguístico. Essa compreensão fornece a base teórica para analisar a variação dos domínios-fonte e para delimitar as condições em que mapeamentos metafóricos se revelam mais ou menos compatíveis entre línguas.

Domínios-fonte e variação interlinguística - Seleção, saliência e estrutura inferencial

Partindo do enquadramento apresentado anteriormente, a análise da variação interlinguística na metáfora conceptual exige deslocar o foco da existência dos mapeamentos para os critérios de seleção e saliência dos domínios-fonte. Embora determinadas áreas de experiência sejam amplamente partilhadas, línguas diferentes não recorrem necessariamente aos mesmos domínios-fonte, nem os mobilizam com o mesmo grau de convencionalização ou relevância discursiva. A seleção do domínio-fonte revela-se, assim, sensível a convenções linguísticas, a modelos culturais e a padrões de saliência estabilizados em comunidades específicas, o que explica divergências conceptuais mesmo em áreas de experiência aparentemente comuns (Kövecses, 2005; Sharifian, 2011; Musolff, 2016).

Nesse contexto, torna-se pertinente introduzir a noção de padrões default na língua de chegada, entendidos como preferências prototípicas e não marcadas que orientam tanto a saliência quanto a seleção de alternativas expressivas em tradução. Em consonância com a abordagem de Halverson (2007, 2010, 2019), mecanismos de default e marcação influenciam não apenas escolhas linguísticas, mas também escolhas conceptuais, ao favorecerem soluções interpretadas como mais naturais e menos marcadas no sistema linguístico-discursivo de chegada. Nessa perspectiva, a adaptação a padrões default pode incidir sobre o perfilamento, a distribuição figura-fundo e outros parâmetros de construal, contribuindo para explicar por que certas soluções emergem como mais salientes ou apropriadas em contextos específicos.

A variação interlinguística em contexto de metáfora conceptual não se limita à escolha de imagens ou analogias distintas, mas envolve diferenças na estrutura inferencial associada às conceptualizações ativadas. Domínios-fonte diferentes mobilizam conjuntos inferenciais específicos, com efeitos sobre avaliações, expectativas e desenvolvimentos discursivos. É essa dimensão inferencial da seleção do domínio-fonte que torna a metáfora um ponto crítico de divergência entre línguas e que fundamenta a relevância da tradução como espaço privilegiado de observação e negociação da variação conceptual.

Kövecses (2005, 2010, 2015, 2020) argumenta que, embora certos domínios-fonte sejam amplamente recorrentes em diferentes línguas, a sua saliência relativa pode variar de forma sistemática em função de fatores culturais e discursivos. Em desenvolvimentos posteriores, o autor precisa que a variação metafórica não incide apenas sobre a seleção do domínio-fonte, mas também sobre os modos de exploração interna desse domínio, isto é, sobre os elementos que tendem a ser perfilados e sobre os padrões inferenciais que se tornam mais facilmente disponíveis em contextos de uso. Desse modo, a variação interlinguística dos domínios-fonte pode ser descrita como resultado de processos combinados de seleção conceptual e de saliência, com consequências diretas para o potencial inferencial das metáforas e para a orientação interpretativa do discurso.

Avançando nessa direção, a noção de modelos culturais, tal como desenvolvida por Sharifian (2011), contribui para explicar por que determinadas comunidades linguísticas tendem a estabilizar configurações conceptuais preferenciais. Esses modelos organizam expectativas partilhadas e orientam a ativação de domínios, relações e valores associados, favorecendo algumas conceptualizações em detrimento de outras. Nesse quadro, a variação interlinguística dos domínios-fonte pode ser entendida como o resultado da articulação entre motivação experiencial, estabilizações culturais e convenções discursivas.

No que diz respeito à dimensão inferencial, importa distinguir entre diferentes níveis de funcionamento. Como sublinha Kövecses (2010), os mapeamentos metafóricos convencionais associam-se a padrões inferenciais relativamente estabilizados, que orientam a interpretação em usos recorrentes. Musolff (2004, 2016), por sua vez, mostra que essas inferências podem ser ampliadas ou reconfiguradas em discurso por meio de cenários metafóricos, que estruturam sequências argumentativas e posicionamentos avaliativos. Complementarmente, estudos evidenciam que tais efeitos inferenciais podem ser ativados mesmo na ausência de linguagem figurada explícita, corroborando o caráter conceptual da metáfora (Gibbs, 2017). No âmbito tradutório, divergências na seleção ou na saliência de domínios-fonte tornam-se particularmente relevantes, uma vez que podem produzir discrepâncias significativas no potencial inferencial das metáforas e na sua função discursiva no texto de chegada (Degli Atti, 2025b).

Condições de mapeamento e não-congruência conceptual na tradução da metáfora

Na tradução de metáforas, o processo tradutório envolve necessariamente a articulação entre mapeamentos conceptuais pertencentes a línguas e sistemas culturais distintos, cuja maior ou menor convergência pode afetar as estratégias mobilizadas e o esforço cognitivo requerido. Para descrever o grau de alinhamento entre os mapeamentos conceptuais mobilizados por línguas distintas, Mandelblit (1995) propõe a Cognitive Translation Hypothesis, frequentemente retomada na literatura através da distinção entre Condições de Mapeamento Semelhantes (Similar Mapping Conditions, SMC) e Condições de Mapeamento Distintas (Different Mapping Conditions, DMC). Essa distinção visa explicar diferenças no esforço cognitivo envolvido na tradução de metáforas, associando-as às relações entre os sistemas conceptuais das línguas em contacto (Mandelblit, 1995).

As Condições de Mapeamento Semelhantes (SMC) correspondem a situações em que a língua de partida e a língua de chegada recorrem a mapeamentos conceptuais equivalentes para estruturar uma mesma experiência. Nesses casos, não se observa deslocamento conceptual relevante entre as metáforas envolvidas, o que tende a reduzir o custo cognitivo da tradução (Mandelblit, 1995).

Em contraste, as Condições de Mapeamento Distintas (DMC) caracterizam-se pela divergência entre os mapeamentos conceptuais preferenciais das duas línguas. A mesma experiência é enquadrada por metáforas conceptuais diferentes, o que implica um deslocamento conceptual na tradução e, consequentemente, um aumento do esforço cognitivo exigido ao tradutor (Mandelblit, 1995). Nesses casos, a tradução deixa de poder apoiar-se em correspondências metafóricas convencionalizadas e passa a exigir reconfiguração conceptual, de modo a assegurar coerência interpretativa e adequação discursiva no texto de chegada.

Ao retomar criticamente essa proposta, Al-Hasnawi (2007) introduz um terceiro esquema analítico, que descreve como Condições de Mapeamento Semelhantes com realização lexical diferente. Esse esquema diz respeito a situações em que o enquadramento conceptual subjacente é partilhado pelas duas línguas, mas em que a metaforização se concretiza por meio de escolhas lexicais ou construções distintas (Al-Hasnawi, 2007, p. 234).

Esse enquadramento adquire maior densidade quando articulado à abordagem proposta por Schäffner (2004), que desloca a análise da metáfora em tradução do nível da equivalência formal para o exame dos efeitos discursivos das escolhas tradutórias. Ao analisar a tradução de metáforas conceptuais em gêneros discursivos específicos, a autora evidencia que alterações nos mapeamentos metafóricos - incluindo a ativação, a atenuação ou a reconfiguração de determinadas inferências - podem influenciar a orientação interpretativa do texto de chegada e a sua inserção em cadeias discursivas mais amplas. Assim, a divergência entre texto de partida e texto de chegada é entendida como um fenômeno com implicações discursivas e pragmáticas, diretamente relacionadas com os valores ideológicos, argumentativos e comunicativos veiculados pela metáfora em contexto tradutório.

A contribuição de Zoltán Kövecses amplia significativamente o alcance do debate ao propor uma abordagem da metáfora conceptual explicitamente sensível à variação e à organização multinível da conceptualização metafórica. Em particular, no âmbito da Extended Conceptual Metaphor Theory (2020), o autor formula de modo programático uma multilevel view of metaphor, segundo a qual as metáforas conceptuais operam simultaneamente nos diferentes níveis de esquematicidade (imagem, domínios conceptuais, frames) e podem apresentar variação em qualquer um desses níveis em função do contexto.

À luz desse quadro teórico, a não-congruência conceptual deixa de ser interpretada como resultado de condições excepcionais ou de falhas de correspondência entre sistemas linguísticos, podendo ser entendida como uma consequência previsível de alinhamentos parciais entre níveis de conceptualização. Em contextos de tradução, os processos decisórios passam, assim, a ser concebidos como operações que lidam com diferentes configurações de mapeamento e com formas diferenciadas de alinhamento conceptual.

Repertórios descritivos de resultados na tradução da metáfora

Considerando o dispositivo teórico ilustrado, torna-se produtivo reexaminar categorias clássicas oriundas dos Estudos Descritivos da Tradução, em particular as tipologias de soluções tradutórias da metáfora desenvolvidas por van den Broeck e posteriormente ampliadas por Toury, tal como retomadas e discutidas por Schäffner (2004, 2016).

No âmbito dos Estudos Descritivos da Tradução, diversos autores propuseram categorias destinadas a descrever padrões recorrentes de resultado tradutório na tradução de metáforas. Entre as propostas mais influentes encontram-se as categorias formuladas por van den Broeck (1981) e posteriormente retomadas e discutidas por Schäffner (2004, 2016), bem como a ampliação introduzida por Toury (1995). Essas categorias foram concebidas com uma orientação claramente descritiva e orientada ao produto, visando sistematizar regularidades observáveis em corpora tradutórios, sem pretensão de explicar diretamente os processos cognitivos ou decisórios envolvidos.

No modelo de van den Broeck, como reformulado por Schäffner (2004), distinguem-se os seguintes tipos de resultado tradutório da metáfora:

  • metaphor into same metaphor (metáfora para metáfora equivalente): manutenção de uma expressão metafórica no texto de chegada, baseada num enquadramento metafórico considerado equivalente ao do texto de partida;

  • metaphor into different metaphor (metáfora para metáfora diferente): substituição da metáfora de partida por outra metáfora no texto de chegada, não coincidente no nível da imagem ou do domínio metafórico;

  • metaphor into non-metaphor (metáfora para expressão não metafórica): substituição da metáfora por uma formulação literal ou parafrástica.

Esse inventário foi ampliado por Toury (1995), ao considerar também situações em que a metáfora surge ou desaparece no texto de chegada independentemente de uma correspondência direta no texto de partida, propondo a inclusão das seguintes categorias:

  • zero into metaphor (zero para metáfora): introdução de uma metáfora no texto de chegada sem correspondente metafórico no texto de partida;

  • non-metaphor into metaphor (não metáfora para metáfora): transformação de uma expressão literal do texto de partida numa metáfora no texto de chegada;

  • metaphor into zero (metáfora em zero): supressão de uma metáfora sem compensação metafórica no texto de chegada.

A incorporação dessas propostas na discussão em torno do enquadramento teórico adotado impõe-se pela função que desempenham na descrição sistemática dos resultados tradutórios da metáfora. Elas permitem identificar regularidades empiricamente observáveis e estabelecer uma ponte analítica entre os dados textuais e modelos teóricos voltados para a explicação da conceptualização metafórica e da sua variação em contexto interlinguístico. Nesse sentido, a sua compatibilidade com abordagens cognitivas reside na possibilidade de serem reinterpretadas, em momentos posteriores da análise, como indícios de diferentes configurações de alinhamento conceptual, de reconfiguração de cenários metafóricos e de gestão do potencial inferencial no texto de chegada. Essas propostas são aqui mobilizadas como um repertório analítico de evidências recorrentes, integrado no quadro analítico adotado, ficando para a discussão subsequente a explicitação das suas implicações conceptuais e discursivas.

Tradução da metáfora como processo decisório em contexto interlinguístico

Na atividade tradutória, os processos de avaliação e seleção constituem dimensões estruturais. Mesmo em situações de elevada compatibilidade entre línguas, o tradutor confronta alternativas de formulação que implicam escolhas quanto à perspectiva adotada, ao foco atencional e aos parâmetros de saliência mobilizados. Essas escolhas nem sempre se manifestam como decisões plenamente conscientes ou deliberadas, podendo ocorrer de forma rápida e parcialmente automatizada. O tradutor é reposicionado como agente cognitivo situado, cuja atividade se desenvolve em contextos bilíngues e discursivamente condicionados. Traduzir implica, nesse sentido, reconstruir conceptualizações, negociar frames culturais e reajustar esquemas de saliência em função das possibilidades e restrições oferecidas pela língua de chegada (Degli Atti, 2025a). Quando o processo tradutório envolve metáforas conceptuais, essa dimensão avaliativa adquire particular relevância, uma vez que pequenas variações na seleção ou no perfilamento de estruturas conceptuais podem produzir efeitos interpretativos e inferenciais significativamente distintos.

De fato, a não-congruência conceptual entre domínios-fonte pode acentuar o nível de complexidade decisória no processo tradutório. Quando línguas recorrem a domínios distintos ou a explorações inferenciais não coincidentes para conceptualizar experiências semelhantes, o tradutor é confrontado com alternativas conceptuais mais afastadas entre si, cuja avaliação exige considerar efeitos interpretativos divergentes. Nessas situações, a decisão tradutória não se limita à seleção de uma expressão lexicalmente adequada, mas envolve a ponderação de diferentes configurações conceptuais e das inferências que cada uma tende a ativar no contexto de chegada.

A decisão, nessas condições, consiste em avaliar que configuração conceptual - ou que reconfiguração do domínio-fonte - é capaz de produzir, na língua de chegada, um potencial inferencial e um efeito discursivo compatíveis com o funcionamento textual pretendido (Schäffner, 2004; Degli Atti, 2025b). Em termos analíticos, isso implica reconhecer que um mesmo conteúdo temático pode ser expresso por metáforas conceptuais distintas, como resultado de processos de acomodação interlinguística de mapeamentos e de ajustamento do seu potencial inferencial.

É também por esse motivo que a tradução se distingue de contextos monolíngues de ativação da metáfora. Em usos estabilizados, convenções partilhadas tendem a manter implícitas escolhas relativas aos domínios-fonte mobilizados e às inferências associadas, uma vez que essas escolhas se encontram naturalizadas no interior de uma mesma comunidade linguística. Já em contextos interlinguísticos, a necessidade de produzir um texto em outra língua faz com que tais escolhas deixem de ser pressupostas e passem a exigir resolução ativa, dado que domínios, parâmetros de saliência e estruturas inferenciais não se alinham automaticamente entre sistemas linguístico-discursivos distintos.

Nessas condições, o tradutor opera negociando a compatibilidade entre sistemas de conceptualização distintos, ajustando domínios-fonte, parâmetros de saliência e potenciais inferenciais sob restrições interlinguísticas. Essa atividade configura um processo cognitivo bilíngue, distribuído e situado (Degli Atti, 2025a), no qual a produção do texto de chegada resulta da interação entre recursos linguísticos, estruturas conceptuais e condições contextuais específicas.

A leitura processual da tradução, desenvolvida no âmbito dos Estudos em Tradução Cognitiva (Cognitive Translation Studies, CTS), tem contribuído para deslocar o foco da análise de produtos estabilizados para a dinâmica das decisões tradutórias em contexto. Ao recorrer a diferentes metodologias - como protocolos verbais, registros de escrita, análise de revisões e técnicas de rastreamento do olhar -, os CTS procuram identificar indicadores indiretos de esforço e de complexidade decisória, formulando hipóteses sobre a relação entre congruência conceptual, exigências cognitivas e comportamento tradutório (Alves et al., 2014; Muñoz Martín, 2014; Liu et al., 2025).

Essas contribuições revelam-se particularmente pertinentes para a análise da tradução de metáforas, uma vez que permitem observar como situações de menor alinhamento conceptual entre línguas tendem a associar-se a padrões de reformulação, hesitação ou reconfiguração textual mais intensos, ainda que tais correlações devam ser interpretadas com cautela. Como sublinham Halverson (2003, 2010) e Muñoz Martín (2014), os dados processuais não oferecem acesso direto às operações cognitivas subjacentes, mas constituem indícios interpretáveis de fenômenos, como aumento da complexidade decisória ou maior exigência de coordenação conceptual.

Ao mesmo tempo, a literatura tem reiterado a necessidade de evitar generalizações excessivas a partir de dados processuais ou de produtos tradutórios isolados. A tradução é uma atividade essencialmente situada, influenciada por múltiplos fatores - perfis de tradutores, gêneros discursivos, condições de trabalho e mediações tecnológicas - que condicionam as decisões tomadas em cada evento tradutório específico (Shuttleworth, 2014; Samaniego Fernández, 2011; Massey, 2016). Nesse sentido, tanto os dados processuais quanto os textos de chegada devem ser entendidos como manifestações contextualmente ancoradas da atividade tradutória, e não como reflexos diretos de normas linguísticas ou culturais estáveis.

Parâmetros cognitivos na decisão tradutória

A partir das fricções conceptuais descritas nas seções anteriores, torna-se possível propor uma sistematização de dimensões analíticas que intervêm nos processos decisórios envolvidos na tradução da metáfora conceptual. O objetivo é oferecer um conjunto de instrumentos descritivos que permita caracterizar os fatores que orientam a tomada de decisão tradutória em contextos de não-congruência conceptual, isto é, quando os mapeamentos entre língua de partida e língua de chegada não se alinham de forma plena. Essas dimensões são concebidas como parâmetros recorrentes e interdependentes, capazes de organizar a observação do fenômeno e de explicitar regularidades no funcionamento da tradução da metáfora em contexto interlinguístico.

Os parâmetros propostos apresentam uma valência múltipla. Por um lado, intervêm de modo nem sempre consciente no próprio processo tradutório, orientando as escolhas do tradutor em situações de maior complexidade conceptual. Por outro, constituem uma proposta de sistematização teórica, destinada a contribuir para descrever e articular dimensões que influenciam a tradução da metáfora para além do nível estritamente lexical ou formal. Finalmente, essas dimensões podem ser mobilizadas como instrumentos de análise e de reflexão metatradutória, favorecendo a explicitação dos critérios subjacentes às decisões tomadas e contribuindo para uma maior consciência do funcionamento conceptual e inferencial envolvido na tradução da metáfora.

(1) Grau de compatibilidade conceptual dos mapeamentos:

A primeira dimensão analítica diz respeito ao grau de compatibilidade conceptual entre os mapeamentos metafóricos mobilizados no texto de partida e as possibilidades de reconstrução disponíveis no texto de chegada. A compatibilidade conceptual é entendida aqui não como uma propriedade binária, mas como uma dimensão gradual, que descreve até que ponto os mapeamentos relevantes podem ser mantidos, aproximados ou reconfigurados em tradução sem alterar de forma substancial o âmbito de conceptualização envolvido. Nessa perspectiva, a tradução da metáfora situa-se ao longo de um continuum de divergência conceptual, no qual diferentes configurações de correspondência são possíveis.

O alinhamento entre domínios, relações e explorações inferenciais não se reduz a uma oposição categorial entre equivalência e divergência, apresentando antes graus diferenciados de configurações. Essa leitura é compatível com a distinção proposta por Mandelblit (1995) entre SMC e DMC, desde que (a) SMC seja interpretado como um dos pólos extremos (congruência) e (b) DMC como o conjunto de múltiplas configurações intermédias de divergência, distribuídas em um espaço contínuo de possibilidades tradutórias caracterizadas por diferentes níveis de não-congruência conceptual.

Quanto menor o grau de compatibilidade conceptual, maior tende a ser a necessidade de reconfiguração dos mapeamentos e, consequentemente, mais amplo o leque de alternativas conceptuais disponíveis para o tradutor, tornando o processo mais complexo. Em contrapartida, níveis elevados de compatibilidade conceptual tendem a restringir a variabilidade das soluções possíveis, favorecendo reconstruções mais diretas dos mapeamentos e reduzindo a necessidade de ajustamentos inferenciais extensivos.

A compatibilidade conceptual constitui apenas uma entre várias dimensões que intervêm no processo decisório da tradução da metáfora, interagindo com os outros parâmetros.

(2) Potencial inferencial

Define-se aqui o potencial inferencial como a capacidade de uma configuração metafórica - resultante da seleção do domínio-fonte e das projeções conceptuais relevantes - de ativar, sustentar e orientar inferências discursivamente plausíveis no contexto em que a metáfora é mobilizada. Trata-se, portanto, de uma dimensão que não se confunde com o mapeamento conceptual em si, mas que diz respeito ao conjunto de desenvolvimentos interpretativos que esse mapeamento torna disponíveis e funcionalmente pertinentes no discurso.

A literatura em LC tem mostrado que a metáfora conceptual estrutura redes inferenciais relativamente estáveis (Lakoff; Johnson, 1980; Kövecses, 2010). Esses desenvolvimentos inferenciais não são automáticos nem exaustivos, mas dependem do contexto discursivo, de expectativas culturalmente partilhadas e de padrões de saliência que condicionam quais inferências são efetivamente mobilizadas. Estudos em processamento metafórico indicam, além disso, que tais inferências podem ser ativadas mesmo na ausência de linguagem figurada explícita, confirmando o caráter conceptual da metáfora (Gibbs, 2017).

No plano tradutório, a avaliação do potencial inferencial assume um papel central, uma vez que mapeamentos distintos disponibilizam trajetórias interpretativas distintas, e, mesmo quando há elevada congruência conceptual, os potenciais inferenciais ativados podem não ser sobreponíveis entre línguas. O grau de congruência conceptual entre domínios não coincide, portanto, com o grau de compatibilidade inferencial relevante para o funcionamento do texto. Um domínio-fonte mobilizado na língua de chegada pode ativar inferências ausentes ou não salientes na língua de partida, levando o tradutor a afastar-se de soluções linguisticamente mais próximas em favor da preservação de linhas inferenciais decisivas para a coerência discursiva.

Essa distinção permite reinterpretar, em termos inferenciais, categorias descritivas clássicas da tradução da metáfora. Em casos de Similar Mapping Conditions com realização lexical distinta (Al-Hasnawi, 2007), por exemplo, o mapeamento conceptual mantém-se, mas o potencial inferencial exige ajustamentos devido a preferências culturais, expectativas discursivas ou padrões default da língua de chegada (Kövecses, 2010; Sharifian, 2011; Halverson, 2010). Do mesmo modo, opções como non-metaphor into metaphor ou zero into metaphor (Toury, 1995; Schäffner, 2004) podem ser compreendidas como respostas a situações em que a metáfora opera no nível conceptual ou discursivo, mesmo sem realização metafórica explícita no texto de partida, seja porque inferências metafóricas são cognitivamente ativas (Gibbs, 2017) - no caso de non-metaphor into metaphor -, seja porque o discurso se organiza em torno de cenários conceptuais inferencialmente estruturados (Musolff, 2004, 2016) - no caso de zero into metaphor.

Do ponto de vista analítico, importa distinguir entre inferências primárias, diretamente mobilizadas pelo discurso e funcionalmente centrais para a construção do significado no contexto situado, e inferências secundárias, que pertencem ao potencial conceptual mais amplo do domínio, mas não são exploradas no evento discursivo específico. Em tradução, as inferências primárias desempenham um papel determinante no processo decisório, dado que a sua preservação, modulação ou reconfiguração afeta diretamente a compatibilidade interpretativa na língua de chegada. Também nesse caso, o potencial inferencial configura-se como uma dimensão gradual, cuja interação com outros parâmetros - como a compatibilidade conceptual e as condições contextuais de uso - será considerada adiante.

(3) Função discursiva

A função discursiva constitui o terceiro parâmetro analítico considerado e refere-se ao papel que a metáfora desempenha na organização e no desenvolvimento do texto. Essa função pode manifestar-se, entre outros aspetos, na progressão temática, na estruturação argumentativa, na orientação avaliativa e na gestão de posicionamentos discursivos, contribuindo para a coerência global e para os efeitos interpretativos produzidos junto do leitor. Nessa perspectiva, a metáfora não atua apenas como mecanismo de conceptualização, mas como recurso discursivo integrado, cuja relevância depende do modo como se articula com o encadeamento textual e com os objetivos comunicativos do discurso (Semino, 2008; Charteris-Black, 2004, 2014).

Em situações de não-congruência conceptual, essa dimensão torna-se particularmente sensível, uma vez que a reconfiguração de uma metáfora pode ser motivada pela necessidade de preservar funções discursivas específicas no contexto de chegada.

Como mostra Musolff (2004, 2016), as metáforas desempenham uma função discursiva estruturante, ao orientar cadeias inferenciais, enquadrar posições argumentativas e ativar avaliações implícitas, não se reduzindo ao seu conteúdo conceptual, mas contribuindo para a construção progressiva de sentidos e para a orientação interpretativa do leitor.

Na atividade tradutória, a consideração da função discursiva permite explicar por que soluções conceptual e inferencialmente compatíveis podem ser apreciadas de modo distinto quando produzem efeitos divergentes no plano argumentativo ou avaliativo. Assim, esse parâmetro explicita que a adequação tradutória de uma metáfora depende não apenas do alinhamento entre mapeamentos e inferências, mas também da sua capacidade de manter, adaptar ou reconfigurar o papel discursivo desempenhado no texto de partida, em interação com os restantes parâmetros analíticos.

Tomados em conjunto, esses três parâmetros permitem descrever com maior precisão por que as decisões tradutórias se organizam em torno de dimensões conceptuais e discursivas, e não apenas em função de correspondências formais. Os parâmetros interagem de modo dinâmico e não linear, permanecendo simultaneamente ativos ao longo de todo o processo tradutório e influenciando-se reciprocamente: baixos níveis de compatibilidade conceptual podem exigir maior reconfiguração dos mapeamentos; reconfigurações conceptuais podem modificar o potencial inferencial mobilizado; e alterações inferenciais podem, por sua vez, deslocar a função discursiva da metáfora no contexto de chegada.

Do ponto de vista analítico, o processo tradutório parte da superfície linguística do texto de partida, e avalia, num primeiro momento, o grau de alinhamento entre os mapeamentos conceptuais disponíveis nas duas línguas. Essa perspectiva encontra eco tanto em descrições baseadas no produto quanto em abordagens processuais, que se baseiam no confronto entre realizações linguísticas para inferir níveis de compatibilidade conceptual (Al-Hasnawi, 2007).

No plano inferencial, o processo orienta-se progressivamente para a identificação e a seleção das inferências primárias, isto é, aquelas que se revelam funcionalmente decisivas para a manutenção da coerência discursiva e da orientação argumentativa do texto. Essas inferências podem ser sustentadas por domínios-fonte semanticamente coincidentes ou por domínios análogos, em níveis progressivamente mais elevados de generalização, desde que preservem as linhas inferenciais relevantes para o funcionamento textual.

Embora esse processo possa ser hipoteticamente descrito como uma sequência de testes de controle, nos quais alternativas conceptuais são avaliadas, ajustadas ou descartadas em função do seu efeito interpretativo, estudos de orientação processual indicam que a experiência tradutória exerce um papel decisivo na redução do esforço associado a essas operações. Como mostra Massey (2016), tradutores mais experientes tendem a gerir de forma mais eficiente o espaço de alternativas simultaneamente ativadas, atenuando o custo cognitivo do processo sem eliminar, contudo, a complexidade inerente à negociação conceptual em contextos de não-congruência.

A título ilustrativo, apresentam-se alguns exemplos que permitem observar a aplicação dos parâmetros propostos.

(1)
Leone XIV [...] Ha richiamato alla necessità di disarmare le parole.
Raccogliamo questo invito.

Leo XIV [...] called for the need to disarm words.
Let us heed this call. [tradução institucional]

Leão XIV [...] Chamou à necessidade de desarmar as palavras.
Acolhemos esse convite.
(Mensagem de fim de ano do Presidente da República Italiana Sergio Mattarella, 31/12/2025, tradução da autora).1

Em (1), o verbo raccogliere ativa um enquadramento que combina adesão relacional com traços de um gesto público culturalmente marcado, historicamente associado à resposta a um desafio (raccogliere il guanto / la sfida). Essa estratificação sustenta inferências primárias (aceitação, compromisso coletivo) e secundárias (resposta performativa, lógica de desafio). As traduções ‒ acolhemos esse convite e heed this call - privilegiam as inferências primárias, atenuando as secundárias associadas ao enquadramento de resposta performativa. Embora se afastem de raccogliere, permanecem alinhadas com o valor diretivo de richiamare. No caso do inglês, observa-se, ainda, uma reconfiguração do domínio-fonte (de invito a call), que desloca o enquadramento para uma lógica de convocação, reforçada pela seleção de heed, que ativa um domínio de atenção e escuta. Neste caso, observa-se uma compatibilidade conceptual parcial (potencialmente mais ampla do que a realizada), acompanhada por uma redução seletiva do potencial inferencial com atenuação das inferências secundárias, enquanto a função discursiva se mantém estável.

Nos excertos em (2), extraídos de páginas oficiais da Comissão Europeia, observa-se convergência conceptual com divergência inferencial:

(2)
[...] gravações áudio ou vídeos manipulados, concebidos para apelar às nossas emoções e perturbar o nosso discernimento.2

[...] audio o video alterati, progettati per innescare le nostre emozioni e annebbiare la nostra capacità di giudizio.

[...] manipulated audio or videos designed to appeal to our emotions and cloud our judgement.

Inglês e português mobilizam o mesmo domínio relacional (appeal/apelar), enquanto o italiano opta por innescare, que ativa um domínio causal associado à ativação súbita e à metáfora da detonação. A compatibilidade conceptual está disponível (fare appello a), mas a escolha implica uma reconfiguração do potencial inferencial, tornando mais saliente a ativação de um processo de difícil reversibilidade, com implicações de risco e perda de controle. Observa-se ainda, no segmento final, uma divergência no domínio-fonte: enquanto inglês e italiano mantêm uma metáfora visual (cloud / annebbiare), o português recorre a um enquadramento mais abstrato (perturbar). Nesses exemplos, a compatibilidade conceptual é globalmente elevada, embora não integralmente realizada, e verifica-se uma reconfiguração do potencial inferencial, com ampliação de inferências ligadas à causalidade e ao risco, ao serviço de uma função discursiva de intensificação que permanece globalmente alinhada.

(3)
A autoridade desta Organização está em xeque.

L’autorità di questa organizzazione è tenuta in ostaggio.
(Discurso do Presidente Lula da Silva na 80a Assembleia Geral da ONU).3

Em (3), verifica-se uma não convergência de domínios-fonte (JOGO vs CONFLITO/VIOLÊNCIA): o texto original conceptualiza a situação como ameaça estratégica em quadro regulado, enquanto a tradução introduz coerção assimétrica. Aqui, a compatibilidade conceptual é baixa (com divergência entre o potencial disponível e a realização efetiva), implicando uma forte reconfiguração do potencial inferencial, que se traduz em ampliação de inferências de urgência e coerção, com correspondente deslocamento da função discursiva em sentido mais avaliativo.

Por fim, nos excertos de (4) a (6), de Ailton Krenak,4 observa-se uma reconfiguração mais ampla dos enquadramentos conceptuais mobilizados pela tradução inglesa:

(4)
Quando despersonalizamos o rio, a montanha, [...] nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista.

When we depersonalize the river, the mountain, [...] we relegate these places to the level of mere resources for industry and extractivism.

(5)
Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade

For some people, to dream is to step outside of reality

(6)
[...] a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho [...]

[...] solutions to practical problems that befuddle and elude us in the daytime, but which are laid out [...] in the realm of dream.

Liberamos ativa uma ambivalência (libertação vs desocupação/esvaziamento) não preservada em relegate, ancorado em um domínio hierárquico de desvalorização. Essa neutralização pode ser interpretada como uma estratégia de evitar leituras potencialmente positivas associadas à libertação, tornando mais explícita e interpretativamente estável a relação de hierarquia. De modo análogo, abdicar é substituído por uma formulação espacial (step outside), enquanto a introdução de the realm of dream reforça essa reorganização, estruturando um cenário em que as relações entre sonho e realidade se tornam mais claramente assimétricas e inferencialmente acessíveis. Nesse caso, a compatibilidade conceptual é reduzida e vem acompanhada por uma redistribuição do potencial inferencial, com perda de ambivalência e explicitação de relações hierárquicas, ao serviço de uma função discursiva parcialmente reorientada para maior transparência interpretativa.

Conclusões

À luz do percurso desenvolvido ao longo do artigo, a tradução da metáfora conceptual pode ser caracterizada como um campo heurístico privilegiado para a LC, na medida em que expõe de forma particularmente nítida a variação conceptual em contextos de uso interlinguístico. Sob a pressão de reconstruir sentido em outro sistema linguístico-discursivo, a tradução coloca em funcionamento operações de conceptualização que, em contextos monolíngues, tendem a permanecer estabilizadas ou pouco visíveis. Nesse sentido, traduzir metáforas consiste em negociar domínios, inferências e funções discursivas em condições de concorrência entre sistemas.

A discussão apresentada permitiu sustentar que a variação interlinguística dos domínios-fonte não corresponde a um desvio ocasional, mas integra o funcionamento regular da conceptualização metafórica em uso. Divergências na seleção e na saliência de domínios, bem como na organização do potencial inferencial associado, criam situações em que a reconstrução do sentido exige avaliação contínua de alternativas conceptuais, com efeitos diretos sobre a progressão textual, a orientação argumentativa e a coerência discursiva do texto de chegada.

Os três parâmetros propostos - grau de compatibilidade conceptual dos mapeamentos, potencial inferencial e função discursiva - devem ser entendidos, nesse quadro, como dimensões descritivas interdependentes, destinadas a organizar a observação dos processos decisórios envolvidos na tradução da metáfora. Essas dimensões interagem de forma dinâmica, na medida em que reconfigurações conceptuais, inferenciais e discursivas se condicionam mutuamente. A proposta visa oferecer um princípio organizador capaz de tornar inteligíveis regularidades no modo como a variação conceptual se atualiza em decisões situadas.

Do ponto de vista teórico, esse enquadramento permite reposicionar a relação entre Linguística Cognitiva e Estudos da Tradução. Em oposição a abordagens contrastivas clássicas, que tendem a descrever diferenças metafóricas entre línguas como inventários ou correspondências mais ou menos regulares, a perspectiva aqui adotada trata a variação conceptual em termos de alternativas em competição no interior de um mesmo problema de reconstrução do sentido. A tradução, nesse sentido, densifica a comparação interlinguística, ao tornar visível a articulação entre domínios-fonte, carga inferencial local e função discursiva.

Por fim, os desdobramentos desta proposta apontam para dois eixos principais de investigação futura: (i) aprofundar a descrição da variação conceptual interlinguística em relação a gêneros e regimes discursivos específicos, nos quais domínios e inferências se estabilizam de modo diferenciado; (ii) articular de forma mais sistemática a análise conceptual com evidências processuais, sem reduzir estas últimas a reflexos diretos de operações mentais. Nessa direção, a tradução da metáfora não é concebida como mera aplicação da teoria, mas como um domínio empírico no qual a teoria é tensionada, testada e refinada pela própria exigência de reconstruir conceptualizações sob variação.

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1

Disponível em: https://sl1nk.com/95ZnQ. Acesso em: 18 mar. 2026.

2

Disponível em: https://sl1nk.com/MgCMu. Acesso em: 20 mar. 2026.

3

Texto original disponível em: https://acesse.one/lmVzE. Acesso em: 18 mar. 2026. Texto em italiano: tradução não oficial de C. Alessandro Mauceri, publicada em Lo Spessore (25 set. 2025). Disponível em: https://l1nq.com/twrd2. Acesso em: 18 mar. 2026.

4

Texto em português: Ideias para adiar o fim do mundo (2020, Companhia das Letras). Texto em inglês: Ideas to Postpone the End of the World (2020, trad. Anthony Doyle).

Disponibilidade de dados e material:

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editora-chefe dos Estudos de Linguagem

Bethânia Mariani

Editores convidados

Augusto Soares da Silva
Jussara Abraçado

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Out 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    03 Fev 2026
  • Aceito
    30 Mar 2026
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