Accessibility / Report Error

A etnologia, ciência ou literatura?

Jacques Gutwirth Sobre o autor

Resumos

Neste artigo o autor confronta o problema do valor científico da disciplina etnológica. Tomando como ponto de partida as reflexões epistemológicas de Jean Piaget, e passando pelo fato social total de Mauss, o autor considera os "trunfos" do método etnográfico (observação participante e entrevista aberta) ao mesmo tempo que sublinha a necessidade de rigor e sistematismo, para mostrar sua grande utilidade atual, inclusive para o estudo de sociedades complexas. Enfim, o vai-e-vem entre as direções da pesquisa, os materiais encontrados em maior ou menor relação com estas direções, e as hipóteses de pesquisa depreendidas do sistema de pensamento do pesquisador devem permitir, por interações equilibradoras e estruturantes, por antecipação e feed-back, chegar a resultados científicos, sob a condição de haver um bom funcionamento do pesquisador que, descobrindo as conexões, ordena os processos complexos que estuda.

epistemologia; etnografia; métodos e técnicas de pesquisa


Dans cet article, l'auteur s'adresse au problème de la valeur scientifique de la discipline ethnologique. Prenant comme point de départ les réflexions epistemologiques de Jean Piaget, et passant par le fait social total de Mauss, l'auteur considère les "atouts" de la méthode ethnographique (observation participante et l'entretien ouvert), tout en soulignant la nécessité de rigueur et de systematicité, pour montrer sa grande utilité actuelle, y compris pour l'étude des sociétés complexes. Enfim, le va-et-vient entre les directions d'enquête, les matériaux trouvés plus ou moins en rapport avec ces directions, les hypothèses de recherche relevant du système de pensée du chercheur, doivent permettre, par des interactions équilibrantes et strucutrantes, par anticipation et feed-back, d'atteindre des résultats scientifiques, à condition que fonctionne l'intelligence du chercheur, qui en découvrant les connexitiés, ordonne les processus complexes qu'il étudie.

epistémologie; ethnographie; méthodes et téchniques de recherche


ESPAÇO ABERTO

A etnologia, ciência ou literatura?

Jacques Gutwirth

Laboratório de Antropologia Urbana/CNRS - França

RESUMO

Neste artigo o autor confronta o problema do valor científico da disciplina etnológica. Tomando como ponto de partida as reflexões epistemológicas de Jean Piaget, e passando pelo fato social total de Mauss, o autor considera os "trunfos" do método etnográfico (observação participante e entrevista aberta) ao mesmo tempo que sublinha a necessidade de rigor e sistematismo, para mostrar sua grande utilidade atual, inclusive para o estudo de sociedades complexas. Enfim, o vai-e-vem entre as direções da pesquisa, os materiais encontrados em maior ou menor relação com estas direções, e as hipóteses de pesquisa depreendidas do sistema de pensamento do pesquisador devem permitir, por interações equilibradoras e estruturantes, por antecipação e feed-back, chegar a resultados científicos, sob a condição de haver um bom funcionamento do pesquisador que, descobrindo as conexões, ordena os processos complexos que estuda.

Palavras-chave: epistemologia, etnografia, métodos e técnicas de pesquisa.

RÉSUMÉ

Dans cet article, l'auteur s'adresse au problème de la valeur scientifique de la discipline ethnologique. Prenant comme point de départ les réflexions epistemologiques de Jean Piaget, et passant par le fait social total de Mauss, l'auteur considère les "atouts" de la méthode ethnographique (observation participante et l'entretien ouvert), tout en soulignant la nécessité de rigueur et de systematicité, pour montrer sa grande utilité actuelle, y compris pour l'étude des sociétés complexes. Enfim, le va-et-vient entre les directions d'enquête, les matériaux trouvés plus ou moins en rapport avec ces directions, les hypothèses de recherche relevant du système de pensée du chercheur, doivent permettre, par des interactions équilibrantes et strucutrantes, par anticipation et feed-back, d'atteindre des résultats scientifiques, à condition que fonctionne l'intelligence du chercheur, qui en découvrant les connexitiés, ordonne les processus complexes qu'il étudie.

Mots-clés: epistémologie, ethnographie, méthodes et téchniques de recherche.

Em uma contribuição anterior (Gutwirth, 1973), eu tinha adiantado que o método etnológico responde a bons critérios epistemológicos para destrinchar a complexidade das realidades socioculturais, e me apoiava notadamente nas reflexões de Jean Piaget, ilustre psicólogo da infância, mas igualmente grande epistemólogo. Hoje, quero retomar esta questão, ampliando-a ao problema mais global do valor científico da disciplina etnológica. Porque, apesar das críticas radicais mais ou menos recentemente emitidas contra a "pseudo-cientificidade" da etnologia, inclusive por muitos de seus profissionais, esta não deixou de conhecer um notável desenvolvimento e hoje ela diz respeito a muitos campos e problemas bem distantes do estudo de grupos étnicos "sem escrita" ou "primitivos", vale dizer, das fontes originais da disciplina. Por este motivo, aliás, é que eu não hesitarei em utilizar também o termo "antropologia", às visões mais universais, ainda que seja preciso sempre agregar tacitamente os adjetivos "cultural e/ou social".

Uma avaliação da cientificidade da antropologia me parece necessária por razões diversas e até mesmo contraditórias. Por um lado, sua revitalização é muito freqüentemente acompanhada de procedimentos de pesquisa que não dão conta do fato de que esta disciplina subentende, pelo menos, algumas bases teóricas e um método - fundado principalmente, mas não apenas, nas técnicas da observação participante e da entrevista de tipo aberto. Por outro lado, o valor científico do trabalho do etnólogo é recusado pelos partidários do "textualismo", para quem as publicações dos antropólogos devem ser consideradas como exercícios de escrita fortemente marcados pela personalidade de seu autor, portanto, no fundo, pouco diferentes dos textos ficcionais1 1 É preciso ler sobre este assunto um texto de Gérard Toffin, "O grau zero da etnologia" (Toffin, 1990) que de maneira notável analisa e critica este tipo de teoria, da qual um dos porta-vozes mais conhecidos é Clifford Geertz em Works and Lives. The Anthropologist as Author (1988). Entre outros célebres campeões do descontrutivismo, há James Clifford e George Marcus. . "Para os partidários desta escola, sabemos, a verdade não passa de uma multidão móvel de metáforas e de antropomorfismos. Todo o discurso ordenado ou que pretende sê-lo é suspeito, todo discurso consciente é visto como mero sintoma, incapaz de penetrar no coração das coisas. A ciência? Uma ficção entre outras." (Toffin, 1990, p. 145-146) Para estes etnólogos, no mínimo masoquistas, quando não suicidas, "a etnologia nunca poderá pretender ter o status das autênticas ciências. Não há, no método etnológico, uma separação total entre o homem e o sábio, o sujeito que vive e o sujeito que conhece." (Toffin, 1990, p. 144).

Contudo, se entre as ciências sociais existe uma disciplina particularmente sensível às questões de subjetividade, é exatamente a etnologia, pois suas técnicas de base visam penetrar as mentalidades dos "outros"; e como se pode querer compreender algo de outrem, sem se pôr em relação e em comparação com uma experiência de si, de seu próprio modo de ser?

O objeto de estudo em etnologia: um fato social total

No Entanto, de que servem todas as precauções metodológicas se a pesquisa não dispõe de um fundamento teórico? Evidente que o tempo das grandes teorias - funcionalismo, marxismo, estruturalismo - que davam respostas a tudo, ou as chaves de uma sociedade e de seu funcionamento, já parece ultrapassado. Entretanto, todo etnólogo ou sociólogo observará em campo a existência de correlações entre os níveis de uma realidade social. Assim Malinowski, que lançava as bases de uma intensa prática etnológica fundada na observação participante de longa duração, mostrava em sua admirável obra, Les Argonautes du Pacifique Occidental, "... que não se pode compreender o funcionamento das trocas inter-tribais independentemente da instituição da chefia, do modo de organização do trabalho, da tecnologia mobilizada, das representações ligadas às crenças e à mitologia." (Jeudy-Ballini, 1991, p. 439).

Malinowski tinha, com certeza, uma ótica excessivamente funcionalista - cada elemento de uma sociedade se constituindo numa parte indispensável desta (Lenclud,1991, p. 287). No entanto, Marcel Mauss, notadamente em seu célebre "Ensaio sobre a Dádiva", de 1924, evoca um princípio heurístico que marcou época, segundo o qual, o dom, em particular o potlach, constitui um todo em níveis múltiplos - jurídico, econômico, religioso, estético, etc., cujo funcionamento os etnólogos (particularmente Malinowski, amplamente citado por Mauss) devem tentar descrever (1950, p. 274-275).

O texto riquíssimo de Mauss deu vazão a interpretações divergentes, mas não deixou de postular uma hipótese muito abrangente, não apriorística, não dogmática, que conduz o pesquisador no campo a estudar a realidade sócio-cultural como um fenômeno de múltiplos níveis - social, cultural, econômico, religioso, etc. No início de seu Manual de Etnografia (1967)2 2 É preciso lembrar que este manual foi redigido por estudantes de Mauss, a partir de notas tomadas por ocasião de seus cursos. , Mauss oferece um plano de estudo muito exaustivo e em múltiplos níveis de uma sociedade, que ilustra esta vocação da etnologia de privilegiar a ótica da "totalidade concreta" (Jamin, 1991, p. 457).

Com a hipótese de base do fato social total, nos distanciamos seguramente de uma etnologia funcionalista, mas também das teorias "estrutural-funcionalistas", para as quais certos níveis sociais desempenham um papel determinante, praticamente previsto de antemão - aquele das relações de produção entre os marxistas, dos sistemas de parentesco entre alguns estruturalistas ao mesmo tempo em que nos encontramos a milhas de distância de uma visão "artística" dos fenômenos "observados" (ou talvez imaginados!), tal como a concebem etnólogos ultra-críticos já mencionados. Não é o próprio Mauss quem diz: "A ciência tem os seus modos que mudam, mas que permitem compreender os fatos. A teoria oferece um valor "heurístico", um valor de descoberta. Os a priori falsos da Escola de Viena nos proporcionaram uma bela colheita de fatos" (Mauss, 1967, p. 8). Não coloca aqui o dedo sobre tudo o que a etnologia clássica trouxe como riqueza de informações e reflexões sobre mundos diversos, e isto para além das perspectivas teóricas ou dos pré-juízos de seus autores? "Desconstruir" os procedimentos dos etnólogos não é inútil, mas isto não quer dizer que os seus aportes sejam cientificamente nulos.

Graças a seu caráter não dogmático, precisamente, é que a perspectiva do "fato social total" guarda até hoje todo o seu valor heurístico. Citemos o exemplo de uma pesquisa notável sobre a concepção do belo entre indígenas da região noroeste nos Estados Unidos. O autor escreve:

A beleza de um objeto não reside unicamente... nas propriedades formais reveladas pelo olho; ela está ancorada na sua função, determinada por critérios sociais e culturais, e se manifesta totalmente no momento em que este objeto transborda a expectativa do usuário ou do público. A análise não pode separar, com efeito, um certo número de elementos que revelam a montagem das cerimônias por ocasião das quais a performance dos atores (dançarinos, cantores), o ritmo dos cantos e a manipulação dos objetos têm um lugar singular enquanto participam num movimento único da eficácia ritual, como aconteceria em um espetáculo total. (Mauzé, 1999, p. 94).

Não haveria melhor maneira de apontar que uma pesquisa etnológica sobre a estética em um dado grupo deve dar conta dos múltiplos níveis de uma realidade sociocultural.

A hipótese do fato social total me parece particularmente frutífera para as pesquisas antropológicas nas sociedades modernas urbanas e pós-urbanas, pois aí certos níveis de um fenômeno sócio-cultural, não são tão facilmente observáveis quanto em um grupo tradicional de moradores de um vilarejo. Por exemplo, em minha pesquisa sobre os "judeus messiânicos" entre judeus-católicos americanos, minhas perguntas, suscitadas por certas informações recolhidas em campo - sobre uma correlação entre seu modo combinatório de ser religioso, de um lado (com práticas litúrgicas judaicas e também uma teologia e crenças cristãs), e sua identidade social (trata-se freqüentemente de pessoas de origem "mista", cristã e judaica) ou ainda seu tipo de práticas profissionais (globalmente atividades terciárias e/ou pertencentes à classe média) - se mostraram frutíferas (Gutwirth, 1987). Entretanto, enquanto a vida religiosa era um dado facilmente abordável em várias ocasiões, as informações tocantes à identidade social (origem dos pais, tipo de casamento, etc.) precisavam realmente ser pesquisadas, necessitando questionar os interessados para descobri-las; de outro lado, era muito mais difícil observar as atividades profissionais de um funcionário de banco ou de um quadro comercial do que, antigamente, observar as de um ferreiro ou de um agricultor de aldeia. Evidentemente que os desconstrucionistas diriam ter sido minha pesquisa neste sentido pré-concebida... mas será que o pesquisador deve se deixar levar inteiramente pela visão dos inquiridos ou por aquilo que o campo permite abordar com maior tranqüilidade? Certamente que não!

O rumo da etnologia

Hoje numerosos antropólogos operam em meio urbano, e não em lugares ermos. É fácil imaginar, portanto, que entre os citadinos, costumados à modernidade da época do audiovisual, do computador pessoal, da Internet, do telefone celular, etc., apenas as técnicas de investigação "modernas" -, sondagens de opinião, questionários muito sofisticados, testes, etc. - seriam adequadas para estruturar os conhecimentos. A etnologia, portanto, com suas práticas artesanais de um outro tempo e aplicadas a um outro universo, seria um método ultrapassado, "arcaico". No entanto, a etnologia encontra muitos usos em nossas sociedades. Para citar apenas alguns, há pesquisas consagradas a grupos religiosos pertencentes às grandes religiões universais, bem como a grupos ditos "sectários", e isto nos centros urbanos como nas periferias. Há pesquisas sobre vilas e seus problemas, por exemplo, a adoção, tal qual é praticada nas favelas, tanto nos Estados Unidos como no Brasil (Fonseca, 1993, 1995); aliás, neste último país, a etnologia na cidade sempre conviveu com a dos povos indígenas das regiões interioranas. Na França os etnólogos se atrasaram um pouco neste âmbito, mas de lá para cá eles se recompuseram: a etnologia dos empreendimentos e das práticas em torno do esporte (notadamente o futebol), etc. já são especialidades reconhecidas. Poderia, também, lembrar os trabalhos de Yves Delaporte sobre os entomologistas parisienses (Delaporte, 1987, p. 229-245), mas haveria ainda várias outras temáticas a mencionar.

De um ponto de vista epistemológico, será que essa evolução da etnologia é tão surpreendente? Na verdade, as técnicas de base da etnologia - observação participante e entrevista qualitativa - não são aproximações "artísticas e subjetivistas", como querem os desconstrucionistas. Praticadas rigorosa e conscientemente, elas me parecem responder a critérios epistemológicos válidos - e me refiro aqui sobretudo aos trabalhos de Jean Piaget.

A pesquisa etnológica de campo é essencialmente fundada na ação do sujeito-pesquisador. Ora, uma boa pesquisa é plenamente fiel à lógica operatória do sujeito no domínio do conhecimento, com processos de equilíbrio cognitivo "... por compensações ativas do sujeito em resposta às transformações perturbadoras" (Piaget, 1967, p. 1141). Com efeito, na pesquisa artesanal da etnologia, trata-se precisamente de reagir àquilo que o terreno permite descobrir.

Os trunfos do método

Os comportamentos dos meios e grupos humanos se referem às crenças, aos valores, às regras sociais, às opiniões, com utilização de sinais e símbolos complexos; por outro lado, estes comportamentos são fundados em estruturas biológicas e marcadas por condições ecológicas, tecno-econômicas, sempre em interações e também em interferências de grande complexidade. Como desembaraçar, ao menos em parte, tais fenômenos, sem um contato direto e mais ou menos prolongado com os investigados em sua vida real, que permite justamente o surgimento das questões e dos problemas de pesquisa, além daqueles que o pesquisador se coloca de início? O método de investigação etnológico bem praticado, que não se descola do campo, é certamente apropriado a esta tarefa; além do que, ele permite numerosas descobertas não previstas no início de uma pesquisa.

Claro que tal abordagem também implica em inconvenientes (aqueles que tanto encantam aos desconstrucionistas). Assim a experiência de campo, quer dizer, a relação entre o pesquisador e seu objeto de estudo, coloca enormes problemas de subjetividade, já que ela o põe em relação direta e imediata com outros homens, outras mentalidades; não é necessário ser diplomado em psicologia para se dar conta de que existe aí uma importante dificuldade. Além disso, a objetividade científica, meta estabelecida do pesquisador, é difícil de alcançar: o pesquisador tem o seu próprio sistema lógico, e ainda seus valores e sua sensibilidade, e ele encontra maneiras de pensar e de agir mais ou menos diferentes, que nem sempre ficam explicitamente formuladas, não sendo, portanto, fáceis de apreender; por outro lado o pesquisador tem também reações afetivas, estéticas, por vezes ideológicas, positivas ou negativas frente ao que ele descobre e vive em campo. No entanto, toda apreensão de tipo cognitivo, científica ou não, põe em relação uma experiência "subjetiva" tirada da ação, da praxis, e um outro tanto de análise ou abstração lógica, isto conforme um proceder recíproco. "A ciência se alimenta de fatos observados. Mas não existem fatos brutos; mesmo o eclipse, o trovão, a precipitação no tubo de ensaio, revestem-se de uma teoria, mais ou menos ingênua, mais ou menos elaborada, nunca ausente. Não há nada que possamos sentir ou perceber sem projetar algo nosso, de nossa bagagem. O pensamento nunca se deixa eliminar. Isto, que é elementar na física, se demonstra igualmente em toda atividade científica", escreve Jean Ullmo, um especialista da física (1967, p. 657). Constata-se que as "ciências duras" não estão isentas dos inconvenientes que a antropologia conhece!

A relação dialética entre a experiência e a ação do sujeito, de um lado, e a análise científica de outro, coloca ao método etnológico problemas complexos. Assim, a técnica da "observação participante" - que caracteriza precisamente o método etnológico - abrange uma tradição específica : a observação constitui uma relação distanciada entre o objeto e o sujeito, enquanto a participação implica numa imersão mais ou menos forte e ativa - ela pode variar conforme as diversas fases de uma investigação - no grupo ou meio estudado, e portanto, numa identificação com este, o que tende a eliminar a relação distanciada. No entanto, esta técnica permite precisamente a penetração, mais ou menos profunda, das maneiras de pensar, as estruturas dos grupos ou meios estudados, pela etnologia, seja nas sociedades ditas primitivas, seja em nossas próprias sociedades. A leitura subjetiva e objetiva que ela permite, será tanto mais útil na medida em que houver no sujeito pesquisador consciência e vontade de objetivação científica. Em outras palavras, será útil na medida em que este sujeito, apesar das perturbações psicológicas e outras que esta técnica de pesquisa supõe, não esquecer de seu objetivo de investigação e procurar, à tarde ou à noite, na intimidade de sua residência, registrar, de forma tão sistemática quanto possível, as informações adquiridas. Este sistematismo, na minha opinião, seja ele realizado através de notas tomadas por escrito ou por outras técnicas (gravador, computador), permite precisamente dominar melhor as dificuldades inerentes à observação participante, em particular durante as fases de forte imersão. Agindo assim, o pesquisador também pode praticar a regulação de sua pesquisa, justamente pelas questões que ele se coloca graças às descobertas feitas em campo, portanto por retroalimentação (feed-back). Enfim, em uma fase posterior de seu trabalho, a da descrição, da análise e da interpretação, os materiais, as informações já então "esfriadas", graças ao tempo transcorrido, podem ser separadas de sua crosta subjetiva por novas operações lógicas.

Quanto à outra técnica principal da etnologia, a entrevista, multiforme, sem regras rígidas, ela também permite seguir os entrevistados e suas preocupações de perto, e não apenas conforme nosso próprio caminho; a entrevista aberta nos traz, portanto, elementos para relançar a investigação. Este tipo de entrevista é particularmente adequado a para permitir esta retroalimentação, que é um dos grandes recursos da prática de campo na etnologia. Não obstante, a entrevista comporta dimensões complexas: as modalidades "diplomáticas" da abordagem, a qualidade do interlocutor quanto a suas possibilidades de resposta, seu saber, suas preocupações particulares, sua situação no meio estudado, a seletividade consciente ou inconsciente dos ditos, etc. Há também, enfim, a seleção que provém das formas de registro: notas imediatas ou a posteriori, ou mesmo feitas com gravador ou câmara; há a dinâmica psicológica das relações interpessoais. Mas ainda aí o pesquisador, à luz de outras entrevistas e observações diversas, deve julgar o valor das informações obtidas numa ou noutra entrevista.

Também está claro que um quadro sociológico, cultural, e portanto, lógico de um certo tipo, marca a abordagem do etnólogo, como aliás, de todo especialista em ciências sociais. A própria noção de pesquisa em ciências sociais, e especialmente em etnologia, é tributária de determinados quadros socioculturais e ideológicos - já recriminamos o suficiente a etnologia pelo contexto colonial no qual ela se desenvolveu. Num nível unicamente descritivo, portanto, uma simples avaliação do julgamento de distância ou de superfície está inscrita em nosso sistema lógico-matemático de caráter métrico, mesmo se o etnólogo se propõe como tarefa apresentar igualmente o sistema de medida reinante no grupo ou meio que ele estuda. Claro que o encontro de outros modos de ver e de pensar coloca problemas muito mais difíceis, por exemplo, quando se trata de valores, de normas, regras, crenças, status, papéis e comportamentos por eles aferidos, pois estes vêm de encontro às nossas próprias valorizações, regras, etc., mais ou menos conscientes. Contudo, a etnologia, ao menos em seus objetivos, postula o exame objetivo e descentrado das valorizações dos pesquisados. Mesmo que a etnologia queira desembocar em explicações, a compreensão de sistemas dos contextos estudados, postura que é por vezes chamada de "êmica", lhe é essencial.

Lógica científica e pesquisa

Apesar dos problemas colocados pelo método etnológico, sua abordagem ainda é fundada numa relação empírica e, tanto quanto possível, imediata, com a atividade dos homens vivendo em sociedade. Esta relação direta deve permitir a percepção, a múltiplos níveis do estudo, de informações pertinentes e significantes. Estas são numerosas, pois tudo o que constitui a vivência do grupo ou do meio, do habitat à vida religiosa, passando pela vestimenta, etc. é mais ou menos conscientemente ordenado em sistemas significativos e simbólicos, que operam por oposições e contrastes, o que a pesquisa permite precisamente, no mais das vezes pouco a pouco, captar3 3 Ver a este respeito as sugestivas páginas de André Leroi-Gourhan. . As oposições e contrastes pertinentes podem ser de tipo externo, pois o pesquisador os importa de seu próprio modo de existência. Assim, por ocasião de minha pesquisa entre os hassidim nos anos sessenta, eu imediatamente constatei entre eles o porte permanente e obrigatório de coberturas de cabeça - freqüentemente duplos com solidéu e chapéu - enquanto que em meu meio judaico de origem isto não ocorria em nenhum caso. Mas outros contrastes são mais de ordem interna e não são tão imediatamente percebidos; apenas a pesquisa e a análise de dados múltiplos permitem sua apreensão. Assim, eu descobri na comunidade hassídica estudada, que os homens usavam, quase todos, na vida diária, grandes chapéus de feltro preto, mas modelados diferentemente - chapéu "mole" com fenda longitudinal ou com cova arredondada4 4 Ver Gutwirth (1970, p. 144-146). No Sabbat e em dias de festa, a questão se coloca de outro modo pois os fiéis colocam outras coberturas-de-chefes (notatamente o shtramel, uma toca de forro). ; e somente depois de ter recolhido outros dados, que eu percebi que estas formas manifestam costumes vindos, respectivamente da Polônia e da Hungria. Conscientemente ou não, havia ali entre os fiéis, uma distinção significativa e pertinente.

Em todos os casos a percepção dos contrastes pertinentes se faz apenas se o pesquisador se esforça para vê-los; ou seja, se ele diferencia, classifica, ordena os fatos observados: "... a relação ordenada é sempre relativa à ação de ordenar; mesmo no caso onde uma ordem é dada objetivamente na realidade (como em uma distribuição espacial ou em uma seqüência temporal A,B,C...)" (Piaget, 1967, p. 386).

Esta organização dos materiais também é constituída, a partir da pesquisa de campo, de comparações e tentativas de generalização relativas ao passado, portanto, de ordem histórica, ou de ordem contemporânea. Esta colocação em contexto "diacrônico" e "sincrônico" é muito importante, pois sem ela a pesquisa empreendida pode parecer um simples inventário, recriminação eventualmente merecida pela má monografia etnológica.

Para poder proceder a estas comparações e generalizações, é preciso consciente ou inconscientemente - tanto quanto possível conscientemente - proceder às relações organizadoras entre os conhecimentos acumulados e ordenados por outros (pesquisas de terceiros, bibliografias, etc.) e as informações obtidas pela pesquisa de campo. Se o método etnológico busca flexibilidade e atenta à ordem do(s) outro(s), sua própria existência (incluindo aqui minhas próprias reflexões epistemológicas) resulta de uma construção cumulativa e organizadora que é inerente a toda abordagem científica, seja da física nuclear ou das ciências sociais, já que sabemos que a ordem revelada em um objeto de pesquisa pode existir, por vezes, desde a aurora dos tempos, externamente a todas as etapas de um processo cognitivo ou de constatações científicas (a Terra girava ao redor do Sol bem antes de Galileu ousar dizê-lo!).

A investigação etnológica se caracteriza também pela apreensão voluntária de uma quantidade de materiais na primeira abordagem, não diretamente pertinentes à análise científica em andamento, o que pode dar a impressão de um registro um pouco passivo e às cegas. Falamos a este propósito do trabalho de indução da etnologia que, de uma quantidade de fatos particulares, induz sistemas gerais (Cresswel, 1967, p. 79). Uma tal abordagem pode abrir flanco a duas críticas correlativas: uma massa de materiais é difícil de ordenar cientificamente e sua organização fica arbitrária.

Entretanto a apreensão muito ampla de fatos pelo etnólogo se pretende sempre ordenadora (posta em fichas, estejam elas em papel ou em suporte eletrônico) e construtiva. Os manuais de etnografia, detalhando numerosas trilhas de pesquisa, explicitam a necessidade deste procedimento simultaneamente indutivo e dedutivo, que deve permitir a percepção dos fenômenos e suas correlações, graças à estocagem de informações que presumivelmente possam, a curto ou longo prazo, ser úteis na pesquisa. Quantas vezes os elementos recolhidos, que, num primeiro momento, pareciam sem utilidade direta, se revelaram com o tempo de uma grande riqueza e pertinência! Contrariamente, mesmo a mais rica coleta de informações não pode ser senão incompleta, parcial e seletiva, pela própria natureza de nossos meios, por mais que disponhamos hoje de técnicas de registro audiovisuais cada vez mais performáticas. Como, por exemplo, dar conta de um ritual religioso, em todos os níveis - individual e coletivo - e sob todos os ângulos - num tal ou qual ponto do local onde ele transcorre?

De fato, o vai-e-vem entre as direções da pesquisa, os materiais encontrados em maior ou menor relação com estas direções, e as hipóteses de pesquisa depreendidas do sistema de pensamento do pesquisador devem permitir, por interações equilibradoras e estruturantes, por antecipação e feed-back, chegar a resultados científicos, com a condição de funcionar a inteligência do pesquisador ("a imaginação antropológica", para parafrasear Wright Mills e sua "imaginação sociológica"5 5 Ver Wright Mills (1977, p. 7-12). Citemos algumas frases deste grande sociólogo, pois o que ele disse é amplamente aplicável em etnologia: "aqueles [os sociólogos] cuja imaginação formulou as promessas de sua tarefa sempre formularam as três seguintes séries de perguntas: 1. Qual é a estrutura de conjunto da sociedade estudada? Quais são seus componentes e como se organizam suas relações? No seio desta sociedade, quais aspectos contribuem à sua sobrevivência, às suas transformações? 2. Onde se situa esta sociedade na história humana? Qual é o seu próprio modo particular de fazer história? 3. Quais homens, quais mulheres encontramos essencialmente na sociedade e no período estudados?" (p. 9) ) que, descobrindo as conexões, ordena os processos complexos que ele estuda.

Um recurso particular: a descrição etnográfica

É bem verdade que não existem fatos nus; quando damos conta de fatos socioculturais através de uma descrição, praticamos inevitavelmente uma seleção analítica, um exame ou ordenamento já construído e elaborado. Contudo, permitimos ao leitor que ele capte os fenômenos observados num nível suficientemente imediato para que ele possa, em sua própria consciência, julgar a validade das análises, interpretações ou modelos gerais que o pesquisador terá aplicado aos fatos. Na perspectiva da etnologia clássica, um grande lugar era dado à etnografia, à descrição. Isto devido, em grande parte os trabalhos dizerem respeito geralmente a fatos desconhecidos. A descrição, porém, oferece vantagens igualmente importantes para o exame de nossas próprias sociedades. De fato, as questões observadas pelo pesquisador são freqüentemente tão mal conhecidas ou mesmo desconhecidas quanto aquelas examinadas em etnologia clássica. Darei um exemplo que também coloca em jogo a influência das mídias sobre o conhecimento do grande público. Realizei um trabalho sobre os "tele-evangelistas", os pregadores evangélicos na televisão americana (Gutwirth, 1998). Um dos mais célebres, Jimmy Swaggart, gozava de uma grande popularidade, ao menos até que um escândalo sexual em 1988 ofuscasse a reputação deste arauto de uma moralidade rígida. Ora, Swaggart, depois do desencadeamento deste caso, por ocasião de um culto dominical em seu centro, em Bâton Rouge, na Louisiana, pediu perdão por seus erros; nesta ocasião, uma foto, que suscitou galhofas generalizadas, rodou o mundo: nela, via-se Swaggart chorando copiosamente. Ora, os jornalistas que comentaram a fotografia "esqueceram" todos de explicar que as lágrimas, e também as risadas, eram habituais por ocasião dos sermões e discursos dramáticos e emocionais deste pregador de tradição pentecostal, o que em minha pesquisa eu havia, evidentemente, constatado. Para as mídias, o efeito desta fotografia espetacular não devia ser atenuado por uma relativização das lágrimas do tele-evangelista. Eu próprio, pela descrição do modo de agir e do estilo do pregador, tentei trazer, em contrapartida, um esclarecimento equilibrado sobre as suas práticas, seu estilo, e sobre este famoso mea culpa6 6 Certamente face às grandes mídias, o etnólogo não pesa tanto na comunicação com o grande público, mas ele pode sempre esperar, nunca sem algum ceticismo, que as suas constatações influenciem a informação dada por estas mídias. Entretanto quando as suas contribuições rompem, por fim, o cerco, elas chegam freqüentemente tarde demais, portanto, sem nenhuma influência sobre numerosos eventos, por vezes importantes, e algumas vezes catastróficos, que tocam os grupos ou movimentos estudados. .

O princípio da descrição oferece ainda outras vantagens, precisamente no nível epistemológico. Com efeito, a intenção de descrever obriga o pesquisador a recolher uma informação suficientemente rica para que ele possa realizar uma descrição. Para isto, é preciso observar e ver, o que definitivamente conduz à descentralização do sujeito face a seu objeto: a descrição é, portanto, fonte de objetividade. A apresentação da descrição em trabalhos publicados, enfim, assegura a possibilidade de diversas operações científicas ulteriores; efetivamente, outros pesquisadores, podem, por exemplo, confrontar as descrições e as análises de seu colega com suas próprias descobertas e reflexões obtidas sobre temáticas próximas, o que pode lhes permitir o enriquecimento de suas análises e, mesmo, visar a uma percepção mais geral sobre tal ou qual fenômeno.

Estão realmente, para além das análises - não raro notáveis -, as descrições etnográficas de um Malinowski (1960), de um Evans-Pritchard (1972), ou, na antropologia urbana, as das obras de Colette Pétonnet (1968, 1979), que constituem os tesouros talvez mais perenes da disciplina.

Quantitativo e qualitativo: rigor epistemológico

Bem freqüentemente, a observação participante e a entrevista não permitem recolher dados quantificáveis, ainda que, mesmo na ausência de dados estatísticos prévios (de tipo administrativo, por exemplo), o pesquisador possa sempre, graças à observação e às questões, obter numerosas medidas, topográficas, cronológicas, ecológicas, tecnológicas, fundiárias e até mesmo demográficas. Os dados quantificados importantes são preciosos pois eles impõem certas constatações. Quando se trabalha a partir de materiais estatisticamente pouco pertinentes, é preciso, evidentemente, um grande rigor na investigação, com uma avaliação contínua quanto à validade das informações recolhidas. Dizemos, às vezes sem pensar muito, que a pesquisa etnológica é de tipo "qualitativo", o que só dá conta intuitivamente do procedimento epistemológico exercido, o dos recortes e cruzamentos dedutivos das informações e das fontes, com avaliação, por certo, qualitativa das informações obtidas, notadamente nas entrevistas. Esta atitude praticada com rigor é perfeitamente pertinente.

O método comporta, contudo, certas limitações por não poder exercer um rigor epistemológico suficiente. Este pode ser exatamente o caso quando o objetivo da investigação é vasto: com efeito, diversos parâmetros necessários ao exame crítico de certas entrevistas e comportamentos observados mais ou menos esporadicamente e de maneira dispersa se descortinam. Assim, quando o grupo estudado não forma um certo continuum ou uma comunidade, ao menos por intermitência (em cultos religiosos, ou, por exemplo, em reuniões de uma sociedade de entomologistas!), pode ser difícil estabelecer um juízo válido sobre os dados obtidos aqui e acolá.

O investigador, entretanto, e particularmente nas pesquisas a respeito do mundo moderno, dispõe de fontes de informações preciosas além das resultantes do contato direto com os pesquisados: Notadamente arquivos, censos, registros de estado civil, etc. Ele pode também, enfim, contar com todo o tipo de impressos, freqüentemente encontráveis somente no campo de pesquisa (e muitas vezes obtidas junto aos pesquisados) e que são, aliás, na maioria das vezes, produzidos pelos grupos ou instituições estudados: boletins internos, folhetos de propaganda e outros documentos que, integrados no conjunto de informações, e analisados com rigor, permitem recortes interessantes, o que autoriza a constituição de objetos de pesquisa relativamente amplos, com pontos focais por vezes dispersos. Assim, durante uma pesquisa sobre judeu-cristãos, os judeus messiânicos nos Estados Unidos, pude investigar encontros anuais deste movimento, com até mil participantes; durante oito dias, num campus universitário, pude encontrar uma continuidade entre bom número de grupos, fazendo assim um bom recorte de informações dispersas e de fontes diversas.

Objetivos científicos

Queiram ou não os desconstrucionistas e outros céticos, os cientistas, aí incluídos aqueles, das ciências sociais, querem chegar, se não por revoluções copérnicas, ao menos por análises, interpretações, conclusões, a modelos generalizantes. Quando o etnólogo, a partir de suas pesquisas de campo ou daquelas de seus colegas, procede a estas operações intelectuais, ele segue reflexões de tipo epistemológico que já praticou (assim se espera!) desde o início, mas todos os processos de análise se tornam cada vez mais e mais complexos; por abstração, de degrau em degrau, ele se esforça na realização de elaborações mais amplas, mais aprofundadas, mais gerais. No entanto, é importante que o pesquisador domine este formidável esforço combinatório, que ele se assegure, portanto, que a abstração reflexiva (nos dois sentidos do termo) que ele exerce corresponda ainda às observações vindas do campo de pesquisa. Pois em bom método etnológico, trata-se justamente de praticar um retorno constante à informação obtida em campo, para confrontá-la com os desenvolvimentos analíticos, lógicos e teóricos concebidos, estes, diante de uma escrivaninha. É então que se torna vantajoso dispor, conforme o método "indutivo", de numerosas informações, por vezes inúteis numa primeira abordagem, mas que permitem, através de novos recortes e cruzamentos, o melhor controle da validade das operações generalizantes.

Em etnologia, deve portanto haver uma interação permanente entre as operações de investigação de campo, a descrição, e a reflexão generalizante ou teórica. Este vai-e-vem entre os níveis de uma pesquisa científica é, sem dúvida, o modo próprio de uma epistemologia sadia.

Acrescentarei por fim que atualmente e provavelmente como preço devido ao sucesso da etnologia, numerosos pesquisadores se utilizam dela sem observar seus fundamentos que comportam, ao meu parecer, uma perspectiva teórica geral - para mim, a do "fato social total" - e uma base metodológica, constituída pela observação participante e a entrevista aberta. Para mim, apenas o apego a estas bases teóricas (muito amplas e não dogmáticas), e metodológicas (elas também sem intransigências), assegurarão a qualidade dos trabalhos de tipo etnológico, ou, se preferirem este termo, antropológico.

Traduzido do francês por Ethon S. A. Fonseca.

  • 1
    É preciso ler sobre este assunto um texto de Gérard Toffin, "O grau zero da etnologia" (Toffin, 1990) que de maneira notável analisa e critica este tipo de teoria, da qual um dos porta-vozes mais conhecidos é Clifford Geertz em
    Works and Lives. The Anthropologist as Author (1988). Entre outros célebres campeões do descontrutivismo, há James Clifford e George Marcus.
  • 2
    É preciso lembrar que este manual foi redigido por estudantes de Mauss, a partir de notas tomadas por ocasião de seus cursos.
  • 3
    Ver a este respeito as sugestivas páginas de André Leroi-Gourhan.
  • 4
    Ver Gutwirth (1970, p. 144-146). No Sabbat e em dias de festa, a questão se coloca de outro modo pois os fiéis colocam outras coberturas-de-chefes (notatamente o
    shtramel, uma toca de forro).
  • 5
    Ver Wright Mills (1977, p. 7-12). Citemos algumas frases deste grande sociólogo, pois o que ele disse é amplamente aplicável em etnologia: "aqueles [os sociólogos] cuja imaginação formulou as promessas de sua tarefa sempre formularam as três seguintes séries de perguntas:
    1. Qual é a estrutura de conjunto da sociedade estudada? Quais são seus componentes e como se organizam suas relações? No seio desta sociedade, quais aspectos contribuem à sua sobrevivência, às suas transformações?
    2. Onde se situa esta sociedade na história humana? Qual é o seu próprio modo particular de fazer história?
    3. Quais homens, quais mulheres encontramos essencialmente na sociedade e no período estudados?" (p. 9)
  • 6
    Certamente face às grandes mídias, o etnólogo não pesa tanto na comunicação com o grande público, mas ele pode sempre esperar, nunca sem algum ceticismo, que as suas constatações influenciem a informação dada por estas mídias. Entretanto quando as suas contribuições rompem, por fim, o cerco, elas chegam freqüentemente tarde demais, portanto, sem nenhuma influência sobre numerosos eventos, por vezes importantes, e algumas vezes catastróficos, que tocam os grupos ou movimentos estudados.
    • CLIFFORD, James; MARCUS, George (Ed.). Writing culture: the poetics and politics of ethnography. Berkeley: University of California Press, 1986.
    • CRESSWELL, Robert. Ethnologie et sociologie. L'Homme, n. 7, p. 1-79, 1967.
    • DELAPORTE, Yves. De la distance à la distanciation. Enquête dans un milieu scientifique. In: GUTWIRTH, Jacques; PETONNET, Colette (Dir.). Chemins de la ville: enquêtes ethnologiques. Paris: CTHS, 1987. p. 229-245.
    • EVANS-Pritchard, E. E. Sorcellerie, oracles et magie, chez les Azandé. Paris: Gallimard, 1972.
    • FONSECA, Claudia. Crime, corps, drame et humour: familles et quotidien dans les couches populaires brésiliennes. Tese (Doutorado de Estado)-Université Paris-X, Nanterre, 1993.
    • ______. Caminhos da adoção. São Paulo: Cortez Editora, 1995.
    • GEERTZ, Clifford. Works and lives: the anthropologist as author. Oxford: Polity Press, 1988.
    • GUTWIRTH, Jacques. Pour la méthode ethnologique. In: L'HOMME hier et aujourd'hui. Recueil d'études en hommage à André Leroi-Gouhan. Paris: Ed. Cujas, 1973. p. 775-783.
    • ______. Vie juive traditionnelle. Paris: Ed. De Minuit, 1973.
    • ______. Les judéo-chrétiens d'aujourd'hui. Paris: Ed. Du Cerf, 1987.
    • ______. L'Eglise électronique. La saga des télévangélistes américains. Paris: Ed. Bayard, 1998.
    • JAMIN, Jean. Mauss, Marcel. In: BONTE, Pierre; IZARD, Michel (Org.). Dictionnaire de l'ethnologie et de l'anthropologie. Paris: PUF, 1973. p. 457.
    • JEUDY-BALLINI, M. Malinowski Bronislaw Kaspar. In: BONTE, Pierre; IZARD, Michel (Org.). Dictionnaire de l'ethnologie et de l'anthropologie. Paris: PUF, 1973.
    • LENCLUD, Gérard. O funcionalismo. In: BONTE, Pierre; IZARD, Michel (Org.). Dictionnaire de l'ethnologie et de l'anthropologie. Paris: PUF, 1973. p. 287.
    • LEROI-GOURHAN, André. Le geste et la parole. Paris: Albin Michel, 1965.
    • MALINOWSKI, Bronislaw K. Les argonautes du Pacifique Occidental. Paris: Gallimard, 1960.
    • MAUSS, Marcel. Essai sur le don. In: SOCIOLOGIE et Anthropologie. Paris: PUF, 1950.
    • ______. Manuel d'Ethnographie. Paris: Payot, 1967.
    • MAUZÉ, Marie. L'eclat de l'haliotide. De la conception du beau dans les societés du Nord-Ouest. Terrain, p. 32-94, 1999.
    • PIAGET, Jean. Les deux problèmes principaux de l'épistémologie des sciences de l'homme. In: PIAGET, Jean. (Ed.). Logique et connaissance scientifique. Paris: Gallimard, 1967. (Encyclopédie de la Pléiade, v. XXII).
    • ______. Epistémologie de la logique. In: PIAGET, Jean. (Ed.). Logique et connaissance scientifique. Paris: Gallimard, 1967. (Encyclopédie de la Pléiade, v. XXII).
    • PÉTONNET, Colette. Ces gens-lá. Paris: Maspéro, 1968.
    • ______. On est tous dans le brouillard: ethnologie des banlieues. Paris: Galilée, 1979.
    • TOFFIN, Gérard. O grau zero da etnologia. L'Homme, n. 113, p. 138-150, 1990.
    • ULLMO, Jean. Les concepts physiques. In: PIAGET, Jean. (Ed.). Logique et connaissance scientifique. Paris: Gallimard, 1967. p. 657. (Encyclopédie de la Pléiade, v. XXII).
    • WRIGHT MILLS, C. L'imagination sociologique. Paris: Maspéro, 1977.

    1 É preciso ler sobre este assunto um texto de Gérard Toffin, "O grau zero da etnologia" (Toffin, 1990) que de maneira notável analisa e critica este tipo de teoria, da qual um dos porta-vozes mais conhecidos é Clifford Geertz em Works and Lives. The Anthropologist as Author (1988). Entre outros célebres campeões do descontrutivismo, há James Clifford e George Marcus. 2 É preciso lembrar que este manual foi redigido por estudantes de Mauss, a partir de notas tomadas por ocasião de seus cursos. 3 Ver a este respeito as sugestivas páginas de André Leroi-Gourhan. 4 Ver Gutwirth (1970, p. 144-146). No Sabbat e em dias de festa, a questão se coloca de outro modo pois os fiéis colocam outras coberturas-de-chefes (notatamente o shtramel, uma toca de forro). 5 Ver Wright Mills (1977, p. 7-12). Citemos algumas frases deste grande sociólogo, pois o que ele disse é amplamente aplicável em etnologia: "aqueles [os sociólogos] cuja imaginação formulou as promessas de sua tarefa sempre formularam as três seguintes séries de perguntas: 1. Qual é a estrutura de conjunto da sociedade estudada? Quais são seus componentes e como se organizam suas relações? No seio desta sociedade, quais aspectos contribuem à sua sobrevivência, às suas transformações? 2. Onde se situa esta sociedade na história humana? Qual é o seu próprio modo particular de fazer história? 3. Quais homens, quais mulheres encontramos essencialmente na sociedade e no período estudados?" (p. 9) 6 Certamente face às grandes mídias, o etnólogo não pesa tanto na comunicação com o grande público, mas ele pode sempre esperar, nunca sem algum ceticismo, que as suas constatações influenciem a informação dada por estas mídias. Entretanto quando as suas contribuições rompem, por fim, o cerco, elas chegam freqüentemente tarde demais, portanto, sem nenhuma influência sobre numerosos eventos, por vezes importantes, e algumas vezes catastróficos, que tocam os grupos ou movimentos estudados.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      20 Set 2005
    • Data do Fascículo
      Dez 2001
    Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - IFCH-UFRGS UFRGS - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Av. Bento Gonçalves, 9500 - Prédio 43321, sala 205-B, 91509-900 - Porto Alegre - RS - Brasil, Telefone (51) 3308-7165, Fax: +55 51 3308-6638 - Porto Alegre - RS - Brazil
    E-mail: horizontes@ufrgs.br