Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes

RESENHAS

Ruben George Oliven

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

DAMO, Arlei Sander. Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. 159 páginas.1 1 Esta resenha foi publicada como prefácio do livro resenhado, com o título A Paixão pelo Futebol.

Quando um deputado brasileiro troca de partido, raramente se fala de traição. O mesmo não ocorre com o torcedor que troca de time de futebol. Este é, em geral, chamado de vira-casaca, termo que designa alguém que trocou de lado e que, portanto, não é muito confiável. O torcedor deve continuar fiel a seu time, mesmo quando este fica anos sem vencer um campeonato, como aconteceu com o Corinthians, cujos torcedores são chamados significativamente de fiéis.

Por que a troca de lado é aceita na política, esfera que decide a vida de milhares de pessoas, mas é mal vista num esporte, que, afinal, segundo muitos, não passa de um jogo? Por que esse esporte mobiliza tantos ou mais sentimentos que a política? É essa e outras questões que Futebol e Identidade Social procura discutir.

Nesse livro fascinante, Arlei Damo mostra como o futebol funciona através de um sistema de lealdades. Torcer significa pertencer, e pertencer a um clube significa ser leal a ele. Vibrar quando ele ganha, sofrer resignadamente quando ele perde. Participar do mundo do futebol significa escolher um clube do coração. Uma vez feita a opção, ela não deve ser alterada, pois o torcedor passa a pertencer ao clube. E o time desse clube está sempre competindo com os outros, definidos como adversários.

Em sua introdução, o autor lança a idéia de que, para os homens, o futebol desempenha o mesmo papel que a roupa. Desprezá-lo significa estar despido. Nesse sentido, o futebol pode ser visto como uma linguagem. De certa forma, ele é um código que todos devem ser minimamente capazes de utilizar. Em países como o Brasil, em que o futebol é um esporte extremamente popular, parte-se do pressuposto que todos estão interessados nele e, por conseguinte, são capazes de falar sobre ele, e até gostam disso. Assim, falar sobre o futebol, passa a ser uma forma de falar sobre o país e sobre a identidade nacional.

O livro trata justamente da relação do futebol com essa identidade. Ele começa analisando o surgimento desse esporte no contexto da Europa pós-Revolução Industrial; a seguir, discute a sua introdução e popularizacão no Brasil, indo desde a fundação dos primeiros clubes até a criação do Grupo dos 13. Depois se concentra em dois desses clubes, o Grêmio e o Internacional, examinando sua rivalidade e as características associadas a cada um deles, e procurando explicar porque ainda hoje, freqüentemente, o primeiro é visto como "branco e elitista" e o segundo como "negro e popular". No último capítulo, o autor aborda uma questão cada vez mais discutida no Brasil: em relação ao futebol jogado no restante do país, o futebol gaúcho é diferente e mais violento? Existe um estilo gaúcho de jogar? O regionalismo se reflete também no esporte?

Para escrever este livro, Arlei Damo realizou uma sólida pesquisa. Além de freqüentar o dia-a-dia de estádios de futebol, ele viajou com os torcedores, assistiu partidas com eles, participou de suas comemorações e derrotas, entrevistou vários deles, falou com dirigentes, pesquisou documentos e atas, etc. Ele conseguiu, assim, produzir uma obra que combina um esmerado estudo sobre a evolução do futebol no exterior, no Brasil e no Rio Grande do Sul com uma pesquisa de campo antropológica. Através desta, conseguiu compreender o que significa a paixão futebolística para aqueles que a vivem.

Sabemos que, atualmente, o futebol está passando por profundas mudanças no Brasil: a Lei Pelé modificou a relação dos jogadores com os clubes, e vários deles estão se transformando em empresas que movimentam somas astronômicas. Esta não é a primeira mudança pela qual o futebol passa e certamente não será a última. As circunstâncias mudam, mas a paixão dos torcedores permanece inalterada. Ao contrário de outras paixões, a do futebol é eterna.

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    Esta resenha foi publicada como prefácio do livro resenhado, com o título
    A Paixão pelo Futebol.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Ago 2005
  • Data do Fascículo
    Jun 2002
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