Remaking Israeli Judaism: the challenge of Shas

RESENHAS

Marta F. Topel

Universidade de São Paulo – Brasil

LEHMANN, David; SIEBZEHNER, Batia. Remaking Israeli Judaism: the challenge of Shas. London: Hurst Company, 2006. 295 p.

Nas eleições israelenses de 1997, o partido ortodoxo Shas (acrônimo hebraico que significa Vigiantes Sefaraditas1 1 Do hebraico sepharadi (pl. sepharadim): judeus cuja origem remonta à península Ibérica. da Torá2 2 Em hebraico: Pentateuco; por extensão, todos os livros canônicos do judaísmo. ) ganhou 17 cadeiras no parlamento, transformando-se na terceira força política do país. Tamanha proeza, num Estado cujo cenário político até esse momento esteve dominado por dois partidos seculares (o partido trabalhista de centro esquerda, Mapai, e o partido revisionista de centro-direita, Likud), despertou, além de surpresa, os mais variados questionamentos entre diferentes setores da sociedade israelense. Analistas políticos, cientistas sociais e a população como um todo não deixaram de se interrogar acerca da vitória esmagadora do Shas, e seus significados na vida sociocultural e religiosa da sociedade israelense. De fato, a façanha do Shas constituiu um claro indicador das mudanças estruturais e ideológicas acontecidas em Israel desde a criação do Estado em 1948, cujo objetivo era o estabelecimento de um Estado judeu sobre bases socialistas.

Em Remaking Israeli Judaism: the Challenge of Shas, David Lehmann e Batia Siebzehner descrevem e analisam em profundidade o fenômeno Shas, alertando, já na introdução, que o livro versa sobre três tópicos: Israel, judaísmo e religião contemporânea. Ao longo do texto são desenvolvidas comparações com outros contextos nacionais, principalmente no que diz respeito à reformulação das religiões como o pentecostalismo, o catolicismo e o islã no mundo globalizado. Isso deve ser considerado um dos pontos inovadores do livro, uma vez que a grande maioria de pesquisas sobre a sociedade israelense se restringe a esse "case-study", ao partir do pressuposto (do tabu?) de que suas singularidades fazem impossível quaisquer tipos de estudos comparativos.

Como em outras pesquisas sobre o Shas, uma das questões salientadas é o fato de tratar-se de um fenômeno social que desafia definições existentes, por constituir um movimento que transita pelas fronteiras étnica e religiosa, mostrando a porosidade e a superposição dessas fronteiras e a falta de contornos claros entre elas. Do ponto de vista teórico, em Remaking Israeli Judaism: the Challenge of Shas, Shas é abordado através de instrumentos conceituais utilizados para a compreensão de movimentos sociais. Além do mais, os autores afirmam existir uma lacuna – ou um certo paradoxo – na literatura. Mais precisamente, apesar de os arranjos religiosos contemporâneos serem denominados movimentos sociais, não é utilizado para sua análise o arcabouço teórico sobre movimentos sociais, ao mesmo tempo em que as pesquisas sobre movimentos sociais não levam em consideração os movimentos religiosos. No intuito de justificar sua escolha, Lehmann e Siebzehner afirmam

[...] o caso do Shas é particularmente apropriado para esta abordagem em razão de sua explícita menção a conflitos sociais, especialmente étnicos, à injustiça e, também, pela manifesta dimensão política existente desde seu nascimento. O social e o religioso estão intimamente relacionados na narrativa histórica e na linguagem associadas ao Shas e a seus mais fiéis seguidores [...] (p. 29-30, tradução minha).

Não menos relevante é o fato do Shas almejar uma transformação da sociedade israelense: mais justa em relação aos judeus orientais, e mais religiosa para seus cidadãos judeus como um todo.

No trabalho de campo desenvolvido ao longo de três anos, os autores entrevistaram lideranças do primeiro e segundo escalão do Shas, bem como seguidores do movimento. A observação participante esteve concentrada na visita às múltiplas instituições que compõem o complexo conglomerado "burocrático" do Shas: sinagogas, escolas, academias rabínicas, grupos de estudos para neófitos, entidades de assistência social e as várias rádios pertencentes ao movimento. O resultado é uma etnografia riquíssima na qual o Shas pareceria ter ocupado um papel similar ao da famosa briga de galos estudada por Geertz em Bali. Ou seja, nesse livro, o Shas constitui uma janela privilegiada através da qual é possível enxergar a sociedade israelense contemporânea, servindo como meio para compreender como lideranças e adeptos se vêem a si mesmos vis-à-vis à sociedade israelense e ao judaísmo, quais as mensagens implícitas na difusão de sua doutrina e quais os valores morais e os símbolos recriados no movimento.

Chegados nesse ponto, duas questões se impõem: afinal de contas, como surgiu o Shas? E qual seria a força que lhe rendeu tamanha vitória nas eleições de 1997 e um crescimento constante que perdura até a atualidade? O livro responde a ambas as interrogações, ainda que em relação à segunda delas seja possível encontrar algumas lacunas. Fundado na década de 1980 pela figura carismática do rabino Ovadia Yossef (por duas vezes consecutivas rabino-chefe da comunidade sefaradita em Israel), o Shas nasceu com o objetivo de "restaurar o orgulho da antiga tradição sefaradita", estigmatizada pela elite asquenazita3 3 Do hebraico ashkenazi (pl. ashkenazim): judeus cuja origem remonta à Europa central e oriental. forjadora do Estado de Israel, e pela população de origem asquenazita como um todo, isto é, pelos seus segmentos seculares e ortodoxos. Cooptados e discriminados pelas instituições que ao longo de quatro décadas estiveram dirigidas pela elite política, cultural e econômica asquenazita, os imigrantes dos países islâmicos e árabes que chegaram ao país após 1948 sofreram pressões para "modernizar-se", obrigados a adotar o sistema de valores e estilo de vida ocidentais.

Indignado com o papel marginal que coube aos imigrantes orientais no processo de construção da nação israelense, e decidido a recuperar o repertório cultural sefaradita (por longas décadas rotulado de "primitivo") e oferecer a seus seguidores possibilidades de ascensão social, o rabino Ovadia Yossef articulou uma vasta gama de instituições que congregam a seu redor milhares de judeus orientais, em sua grande maioria relegados à periferia geográfica e social da sociedade israelense. As estratégias desenvolvidas pelo fundador do Shas foram múltiplas: a criação de uma rede educacional independente financiada pelo movimento (caracterizada pela prioridade do ensino religioso e por serem escolas de período integral), a fundação da yeshivá4 4 Academia de estudos rabínicos. Or Ha'Chaim, destinada a reaproximar judeus orientais à versão ortodoxa sefaradita do judaísmo, o estabelecimento de uma vasta rede de assistência social e a difusão da mensagem proselitista do Shas através da fitas magnetofônicas (repartidas em locais públicos) e de dezenas de rádios piratas que funcionam ao longo do país. Assim, em 1984, nas primeiras eleições nas quais o Shas participou, o partido conseguiu quatro cadeiras no Parlamento, mostrando a eficácia das estratégias implementadas pela sua liderança, nas quais os apelos étnico, religioso e social se conjugam de modo sui generis. Lehmann e Siebzehner prestam especial atenção a esse tópico quando assinalam:

O fracasso de uma abordagem mais socialista ou orientada pelo componente de classe para a mobilização dos sefaraditas – a exemplo do movimento dos Panteras Negras na década de 1960 ou do moderado apelo religioso do partido Tami no início da década de 1980 – revelou que a ênfase no bem-estar social tem uma chance limitada de sucesso em um movimento de base étnica. (p. 76, tradução minha).

Todavia, um paradoxo não é discutido no texto: como conseguirá o Shas implementar a mobilidade ascendente de seus seguidores se nas escolas criadas pelo movimento, o currículo, basicamente religioso, não prepara os alunos para concorrer no competitivo mercado de trabalho israelense? (Kimmerling, 2001).

A leitura do livro exige uma atenção redobrada do leitor brasileiro, já que são muitos os tópicos analisados sobre uma realidade que, além de distante, é muito diferente da nossa. Todavia, o estilo em que foi escrito o livro facilita a compreensão, estimulando a curiosidade em conhecer os desdobramentos da pesquisa. Há, entretanto, três questões pouco discutidas pelos seus autores. A primeira delas é a superficialidade no tratamento do processo de absorção dos imigrantes orientais que chegaram a Israel, lacuna que faz difícil para o leitor alheio aos fatos compreender em todas as dimensões o êxito do Shas entre esse segmento da população, cuja longa história de discriminação é apenas mencionada ao longo do texto. Outra questão pouco clara é a reticência dos autores em definir o Shas como um tipo de fundamentalismo – definição escolhida por outros estudiosos da religião em Israel (Sivan, 1995) – sem justificar o porquê desse receio. Finalmente, uma questão que diz respeito ao uso incorreto da categoria sefaradita para designar os seguidores do Shas: assim, sefaradita designa os judeus cujas origens se remontam à península Ibérica, contexto no qual foi criada uma cultura singular, resultado da interação com a cultura da sociedade hospedeira. Todavia, a massa de adeptos do Shas não é sefaradita, e em Israel são conhecidos como orientais, categoria problemática, cunhada pela elite asquenazita imbuída de preconceitos em relação aos judeus provenientes dos países árabes e muçulmanos. E se bem existem semelhanças culturais e sociais entre sefaraditas e orientais, e na retórica do Shas o termo sefaradita seja uma constante, a falta de clareza na escolha de uma categoria central para a compreensão do tema escolhido é, segundo minha opinião, uma falha dos pesquisadores.

Mas se existem algumas omissões no texto, não há espaço para dúvidas de que através da "descrição densa" do fenômeno Shas – que se detém na sua ideologia e as contradições e paradoxos inerentes a ela, nas características de suas instituições e liderança, e nas relações com os diferentes setores da sociedade israelense – o leitor encontrará em Remaking Israeli Judaism: the Challenge of Shas um estudo compreensivo e sistemático sobre um dos fenômenos mais interessantes e complexos da sociedade israelense contemporânea. Tópicos como "reinvenção de uma tradição", conjugação de valores religiosos e valores seculares, criação de uma nova forma de ortodoxia, mecanismos para ganhar adeptos através de um proselitismo agressivo, e complexas e bem sucedidas táticas de barganha com as instituições estatais seculares para a alocação de fundos no movimento são descritos e analisados em detalhe nesse fascinante livro, permitindo uma imersão numa realidade multifacética, que, por sua vez, traz insights para melhor compreender fenômenos similares.

Referências

KIMMERLING, B. Ketz Shilton Ha'Achussalim. Jerusalém: Keter Publishing House, 2001. Em hebraico.

SIVAN, E. The enclave culture. In: MARY, M.; APPLEBY, R. S. (Ed.). Fundamentalism comprehended. Chicago: Chicago University Press, 1995. p. 11-68.

  • 1
    Do hebraico
    sepharadi (pl.
    sepharadim): judeus cuja origem remonta à península Ibérica.
  • 2
    Em hebraico: Pentateuco; por extensão, todos os livros canônicos do judaísmo.
  • 3
    Do hebraico
    ashkenazi (pl.
    ashkenazim): judeus cuja origem remonta à Europa central e oriental.
  • 4
    Academia de estudos rabínicos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Nov 2007
  • Data do Fascículo
    Dez 2007
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