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HERSCHMANN, MicaeI (Org.). Abalando os anos 90: funk e hip-hop, globalização, violência e estilo cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. 218 p. VIANNA, Hermano (Org.). Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros cuiturais. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997. 280 p.

Maria Ignez C. Mello Acácio Tadeu de C. Piedade Sobre os autores

Os estudos sobre cultura jovem brasileira urbana têm agora a contribuição de dois novos livros contendo artigos de antropólogos, sociólogos e analistas culturais: a coletânea Galeras Cariocas, organizada por Hermano Vianna, que centra a análise na juventude da cidade do Rio de Janeiro sob várias perspectivas, e o volume Abalando os Anos 90, organizado por Micael Herschmann, que enfoca os fenômenos dos movimentos musicais funk e hip-hop e seus diversos nexos sócio-culturais, principalmente, mas não apenas no Rio. Vale assinalar que este último inclui também traduções de textos importantes sobre o tema, publicados em inglês, que agora se tornam disponíveis para o público brasileiro.

Galeras Cariocas contém dez artigos, além de uma apresentação de seu organizador. A idéia geral do livro é de aprofundar o estudo da diversidade cultural criada pela juventude1 1 Abordar a “juventude” aqui não significa agrupar determinada faixa etária e tratá-la de forma homogênea, mas sim ressaltar as experiências comuns vividas por um determinado grupo de pessoas com uma formação pedagógica específica, dentro de um ambiente econômico, social e político próprio. urbana contemporânea carioca. Nesta direção, o livro também trata do passado, como o texto de Celso Castro, que enfoca a “juventude militar” do final da primeira metade deste século, analisando a preocupação das Forças Armadas em impedir a que os jovens formassem grupos dentro de seus quadros. Já Alzira A. de Abreu aborda a geração que freqüentou o colégio de Aplicação da UFRJ entre 1964 e 1971, onde se formou um grande número de militantes das organizações revolucionárias do período. O artigo de Maria Claudia Coelho também parte de um universo pedagógico específico – urna escola de teatro da zona sul do Rio no final dos anos 80 – para analisar como os jovens estudantes chegaram à carreira teatral, quais eram suas motivações e principalmente, sua visão de mundo, na qual, segundo a autora, estão refletidas as tensões geradas durante o processo de aprendizado profissional. O artigo de Alba Zaluar busca retomar diferentes teorias sobre exclusão social desenvolvidas neste século nos EUA e na Europa, com o objetivo de compreender melhor como a violência chegou a níveis tão alarmantes no Rio de Janeiro atual, principalmente entre os “jovens negros, mulatos, pardos e quase brancos das classes mais pobres”. É do encontro entre esta juventude “do morro” com aquela “do asfalto”, ou da zona sul, que trata o texto de Regina R. Novaes. Esta autora chama a atenção para as ações e projetos, desenvolvidos por estes grupos, que põem em circulação idéias de cidadania e solidariedade, e que buscam criar canais de integração entre “morro” e “asfalto”. São ações que se contrapõem à generalização e à banalização daquilo que se chamou de “cultura do medo”. Já no artigo de Patrícia Birman, o universo é o candomblé, e a autora analisa o percurso de dois jovens adés2 2 “Jovens bichas que possuem um certo tipo de comportamento nas casas de culto” (p. 225). que se deparam com novas identidades associadas ao homossexualismo masculino e feminino. Birman detecta uma virtualidade do feminino nos cultos de possessão, onde a feminilidade pode ter mais de uma face. Hermano Vianna pesquisa os encontros amorosos na Internet e considera que saber circular em diferentes grupos sociais é uma questão de sobrevivência para os indivíduos “típicos” das sociedades complexas. O espaço criado pela Internet representaria um novo “território” podendo servir como “laboratório social”, como campo de testes para esses indivíduos, membros de grupos tão heterogêneos. Dois artigos dão conta de um outro espaço de socialização que é o funk carioca. Jane Souto aponta mudanças ocorridas nos últimos anos com a invenção de um mercado funk nacional. Neste novo mercado, tanto os jovens de baixa renda quanto os de classe média passam de consumidores a produtores, e este processo fortalece a auto-estima dos jovens de ambas as classes e promove uma maior integração. Já Fátima Cecchetto volta-se para o confronto violento entre galeras nos bailes funk e aponta para a negociação permanente que existe entre estas galeras no que diz respeito à recriação de códigos onde o lúdico e o violento se expressam.

Mas para se falar sobre funk carioca, como bem lembra o organizador de Abalando os Anos 90, é necessário de início referenciar o livro pioneiro de Hermano Vianna, O mundo funk carioca, de 1988, que é um marco a partir do qual a cultura funk e também o movimento hip-hop têm sido valorizado como objeto de estudo acadêmico no Brasil.3 3 O funk carioca surge nos anos 70 na zona sul do Rio, mas os bailes logo migram para a zona norte da cidade, o funk sendo associado à pobreza e violência urbana. Nos anos 90, “retorna” à zona sul como uma nova moda. Já a estética hip-hop, que envolve o campo da música (rap), artes visuais (grafitti) e dança (break), mais ligada a São Paulo, tem como característica a apologia da “atitude”, uma ética própria que trabalha pela “conscientização” da condição racial e social da juventude pobre dos subúrbios. Como lembra Herschmann, há hostilidade dos rappers da linha hip-hop em relação aos funkeiros, que afirmam que fazem rap. Enquanto a cultura funk foi apropriada pela juventude das classes mais altas, ganhando novos contornos sócio-políticos, o movimento hip-hop procura firmar as bases éticas de uma “atitude consciente”, tendo se mantido mais como manifestação cultural essencialmente “negra”. O livro Abalando os Anos 90 resulta deste esforço de sistematizar uma antropologia da música popular brasileira. Contém uma apresentação do organizador e oito artigos, separados por páginas ilustradas contendo letras de música e fragmentos de entrevistas, além de um ensaio fotográfico de Antônio Fatorelli. O projeto gráfico do livro, de Barbara Szaniecki, evoca uma revista direcionada à juventude, sendo portanto bastante pertinente com os temas abordados nos textos.

O primeiro texto é um breve artigo de Hermano Vianna onde ele revê o fenômeno funk a partir das mudanças ocorridas no início dos anos 90. George Yúdice mostra como a cultura funk foi associada à criminalidade a partir dos arrastões de 1993, e como, depois disso, esta mesma cultura foi reapropriada pela juventude da zona sul carioca, fenômeno que chamou de “funkificação do Rio”. O artigo de Micael Herschmann é um estudo sobre os desenvolvimentos recentes do funk e do hip-hop, tomados como instrumentos para se pensar o Brasil contemporâneo. Neste sentido, a questão da pobreza e da violência tornam-se temáticas centrais nesta obra. Enquanto Olivia M. Gomes da Cunha mostra como a mídia imprime nos funkeiros a marca da criminalidade, apresentando-os como postulantes a uma “carreira criminosa”, Glória Diógenes trata do mesmo tema com relação às gangues de Fortaleza. Já Lívio Sansone apresenta o mundo funk de Salvador em contraponto com uma favela carioca, discutindo como o “global” é interpretado pelo “local”, e como este último acaba fortalecido por um contexto e uma história cultural específica. Comparando-o com movimentos sociais de grupos jovens do México e dos EUA, José M. Valenzuela Arce analisa o funk carioca tratando estes movimentos como expressões de identidades “proscritas”. Por fim, Tricia Rose faz um histórico do hip-hop norte-americano, mostrando como ele representa um terreno sólido para a juventude afro-americana e hispânica desenvolverem seus estilos expressivos e discursos de reivindicação.

Grupos juvenis têm sido analisados, sob a perspectiva das Ciências Sociais, como entidades tipicamente marcadas por agitação, turbulência, inquietude, flexibilidade, transitoriedade. Para Hermano Vianna, na verdade estas características devem ser atribuídas à totalidade da vida social, o que mostra como a juventude reflete o seu tempo. Poderíamos arriscar que, para além de um reflexo, a juventude pode estar profetizando o futuro do seu tempo, a sociedade sendo também um reflexo das conquistas dos jovens. Neste sentido, as galeras cariocas, juntamente com outras galeras brasileiras, não estão simplesmente abalando os anos 90, mas apontando questões chave do século XXI.

Acompanhando a crescente importância dos estudos dos movimentos musicais jovens na literatura internacional, começa-se a produzir também no Brasil teses acadêmicas, livros e artigos nesta linha. Estes dois livros em português são bem vindas contribuições para estudantes e pesquisadores da música popular e da cultura jovem brasileiras.

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    Abordar a “juventude” aqui não significa agrupar determinada faixa etária e tratá-la de forma homogênea, mas sim ressaltar as experiências comuns vividas por um determinado grupo de pessoas com uma formação pedagógica específica, dentro de um ambiente econômico, social e político próprio.
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    “Jovens bichas que possuem um certo tipo de comportamento nas casas de culto” (p. 225).
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    O funk carioca surge nos anos 70 na zona sul do Rio, mas os bailes logo migram para a zona norte da cidade, o funk sendo associado à pobreza e violência urbana. Nos anos 90, “retorna” à zona sul como uma nova moda. Já a estética hip-hop, que envolve o campo da música (rap), artes visuais (grafitti) e dança (break), mais ligada a São Paulo, tem como característica a apologia da “atitude”, uma ética própria que trabalha pela “conscientização” da condição racial e social da juventude pobre dos subúrbios. Como lembra Herschmann, há hostilidade dos rappers da linha hip-hop em relação aos funkeiros, que afirmam que fazem rap. Enquanto a cultura funk foi apropriada pela juventude das classes mais altas, ganhando novos contornos sócio-políticos, o movimento hip-hop procura firmar as bases éticas de uma “atitude consciente”, tendo se mantido mais como manifestação cultural essencialmente “negra”.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Out 1999
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