Open-access As plantas medicinais, aromáticas e condimentares e a agricultura familiar


Foto: Recorte da obra "Camomilas" de Rose Marie Borgmann. A imagem completa e a biografia da autora estão publicadas na terceira capa impressa deste número.

O Paraná possui uma longa tradição no cultivo de plantas medicinais: a camomila foi introduzida na região metropolitana de Curitiba (RMC) pelos imigrantes europeus há mais de um século e é cultivada comercialmente há quarenta anos, tendo hoje grande expressão pelo valor econômico-social, número de produtores envolvidos e importância como alternativa de renda para o inverno. A camomila é cultivada em sistemas de cooperação entre os agricultores familiares e as empresas de beneficiamento, gerando 600 postos de trabalho, em uma área cultivada de 3.000 ha e produção anual de 1.500 toneladas de flores secas. O Valor Bruto da Produção foi de doze milhões de reais em 2013.

Ao longo dos anos o cultivo de plantas medicinais, aromáticas e condimentares conquistou outras áreas de cultivo no estado e incorporou muitas outras espécies, respondendo à demanda de várias empresas paranaenses, tais como Nutrimental, Boticário e Herbarium. Paralelamente, os atacadistas de outros estados que aqui se abasteciam passaram a solicitar quantidades cada vez maiores. Hoje, o Paraná atende 90% da demanda nacional. Dezenove espécies ocupam 92,5% da área cultivada com plantas medicinais, aromáticas e condimentares, com destaque, além da camomila, para o gengibre, capim-limão, maracujá, menta (hortelã), melissa, calêndula, cebolinha, salsinha, alcachofra, estévia, cavalinha e alecrim. O Paraná é ainda um grande centro de coleta de plantas nativas, tais como espinheira-santa, fáfia (ginseng-brasileiro), guaco, carqueja, chapéu-de-couro, pata-de-vaca, guaçatonga, marcela, cavalinha. Destas, as três primeiras também têm importante cultivo comercial.

Não só o aumento da demanda é responsável pela expansão da atividade do Estado. O estímulo a uma agricultura ecologicamente sustentável por parte do atual Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná (EMATER) fomentou as iniciativas dos agricultores. Com isso, foi desencadeado um movimento de organização dos interessados em obter informações técnicas e de mercado desse novo ramo. Profissionais de instituições de ensino, pesquisa e extensão rural, além da iniciativa privada e dos próprios agricultores familiares, vêm desenvolvendo trabalhos conjuntos no sentido de determinar as espécies mais adaptadas às condições edafoclimáticas do estado. O cultivo diversificado de espécies vai ao encontro das necessidades do mercado e, ao mesmo tempo, está de acordo com o sistema de produção recomendado - sistema orgânico e policultivo. A produção orgânica de medicinais, aromáticas e condimentares no Estado passou de 60 toneladas em 1995 para atualmente 1.800 toneladas.

Cerca de 80% dos produtores deste grupo de plantas trabalham em escala comercial (produtores efetivos). Os demais, tais como prefeituras, pastorais da criança e da saúde, hospitais e vilas rurais, são produtores em escala não comercial. Dos produtores efetivos, 32% estão na atividade há mais de 15 anos, grupo onde se encontram especialmente os produtores de camomila da RMC; 2,8% são empresários rurais, enquanto os demais são agricultores familiares e; destes, 13% são especializados em produção de plantas medicinais, com 87% cultivando estas espécies como uma das atividades dentro do seu sistema produtivo. Atualmente, estima-se que existam 1800 produtores na atividade, com área cultivada de seis mil hectares, movimentando cerca de 78 milhões de reais. Em relação a 2008, isso representa um aumento de 33% na quantidade de produtores e 82% na área cultivada e na produção. Já o aumento no valor dos produtos no mesmo período foi de 159%, demonstrando que há uma valorização crescente da atividade. Considerando os preços médios recebidos pelos produtores em um sistema de produção em policultivo, a receita bruta anual estimada da atividade situa-se entre R$ 3.700,00 e R$ 30.000,00 por ha, sendo a diversidade das espécies cultivadas a responsável pela grande variação na receita.

Nos últimos anos, o uso de novas tecnologias de produção resultou em produtos de melhor qualidade, aumentando a remuneração. Dentre os elementos que caracterizam o grau de tecnificação dos produtores paranaenses está a forma de secagem do produto: 90% da produção é desidratada em secadores com aquecimento de ar. Porém, mesmo tendo evoluído rapidamente nos últimos anos, as tecnologias disponíveis ainda não são plenamente satisfatórias do ponto de vista da eficiência e da relação custo/benefício. Para atender à constante evolução na demanda e nos requisitos de qualidade, o desenvolvimento de pesquisas e a parceria com os serviços de extensão são primordiais.

Além das novas tecnologias, o setor demanda capital. Para realizar os investimentos necessários para implantar o cultivo, 89% dos produtores usam recursos próprios, 10,3% obtém recursos de outras fontes e somente 0,7% obteve financiamento bancário. Estes números evidenciam a carência de linhas de crédito específicas para a área, cujo investimento inicial para a construção da unidade de beneficiamento e secagem é elevado.

Além desses aspectos, a produção de plantas medicinais, aromáticas e condimentares no Estado ainda tem como desafio a redução de impurezas e contaminantes na matéria prima e a elevação dos teores de princípios ativos. Com o intuito de enfrenta-los, várias publicações técnicas foram elaboradas por técnicos do Instituto Emater (PR), universidades e instituições de pesquisa. Dentre elas, cita-se o 'Boas Práticas Agrícolas (BPAs) - Plantas Medicinais, Aromáticas e Condimentares'.

As perspectivas da atividade são boas neste momento em que países tradicionalmente consumidores e exportadores como China e Índia passaram a ser, também, importadores. O Brasil é considerado um potencial centro de produção dessas espécies, desde que faça os investimentos necessários para assegurar um produto com qualidade, nas quantidades demandadas.

Contribuição igualitária

(Cirino Corrêa Júnior, Engenheiro Agrônomo, mencionar a titulação, Coordenador Estadual de Plantas Potenciais, Medicinais e Aromáticas do Instituto Emater PR, plamed@emater.pr.gov; Dra. Marianne Christina Scheffer, Engenheira Agrônoma, pesquisadora autônoma)
As idéias aqui expressas e as informações apresentadas são de responsabilidade dos autores.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Sep 2014
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