O acervo da família Carneiro: fonte para o estudo do pensamento e da prática filosófica, política e científica brasileira nos séculos XIX e XX

The Carneiro family collection: a source in the study of Brazilian philosophical, political, and scientific thought and practice in the 19th and 20th centuries

Priscila Fraiz

F O N T E S

O acervo da família Carneiro: fonte para o estudo do pensamento e da prática filosófica, política e científica brasileira nos séculos XIX e XX

The Carneiro family collection: a source in the study of Brazilian philosophical, political, and scientific thought and practice in the 19th and 20th centuries

O Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC) recebeu recentemente como doação o fundo da família Carneiro.1 1 O mesmo deverá receber tratamento técnico a partir de 2001, quando, então, será possível sua consulta. Tratando-se de uma família que se projetou ao longo dos séculos XIX e XX nos campos da ciência, da cultura, da política e da administração pública brasileira, este acervo documental é particularmente interessante pelo que traz de informações sobre aspectos da vida privada e pública da sociedade brasileira, pela ótica de seus protagonistas.

O fundo é constituído pelos arquivos pessoais de Mário Barbosa Carneiro, seu irmão, Otávio Barbosa Carneiro, e seus filhos, Trajano Bruno de Berredo Carneiro e Paulo Estevão de Berredo Carneiro. É rara no Brasil a presença de fundos familiares, como na Europa, onde se pode ler toda uma genealogia. Dado esse que ressalta ainda mais a importância do acervo para historiadores, profissionais de documentação e de outros campos disciplinares, que se debruçam sobre a gênese e a evolução das práticas sociais.

Antes de passar às informações sobre ele, sua constituição e conteúdo, daremos breves dados biográficos de dois de seus representantes: Mário Barbosa Carneiro e seu filho, Paulo Carneiro. A escolha justifica-se pela importância de ambos no panorama político e científico nacional e pela maior presença, no fundo, de documentação por eles produzida e acumulada.

Mário Barbosa Carneiro2 2 Os dados biográficos foram obtidos de Mario Barboza Carneiro (17 abril 1872-4 abril 1946): In Memorian, Rio de Janeiro, Boletim da Associação Brasileira dos Amigos de Augusto Comte, abr. 1947, p. 95. nasceu em Niterói (RJ), a 17 de abril de 1872, e faleceu em 4 de abril de 1946, no Rio de Janeiro. Aderiu, desde jovem, aos princípios e às práticas da filosofia positiva de Augusto Comte, ingressando na Igreja e Apostolado Positivista do Brasil, sob a liderança de Miguel Lemos e Teixeira Mendes, em 1897. Casou-se na Igreja Positivista do Brasil em agosto de 1900. Foi o primeiro casamento a se realizar no Templo da Humanidade. Dois anos depois, batizou seu primeiro filho, Paulo Carneiro, na mesma igreja, tendo como um dos padrinhos Cândido Rondon, igualmente positivista. Mário Carneiro era republicano, e participou da Revolta da Armada de 6 de setembro de 1893, ao lado de Floriano Peixoto.


Família Carneiro: em pé, da esq. para a dir.: Otávio (3º), Paulo (4º).
Sentados, da esq. para dir.: Trajano (2º), Mário (último). s. l., década de 20
(Fundo Família Carneiro/COC/DAD/Fiocruz).

Servidor público por mais de quarenta anos, iniciou sua carreira na Secretaria da Inspeção do Arsenal da Marinha em 1890, transferindo-se, em 1909, para o recém-criado Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, assumindo a Direção Geral da Contabilidade até sua aposentadoria, em 1933. Foi ministro interino da Agricultura entre dezembro de 1930 e dezembro de 1932, nos primeiros anos do governo Getúlio Vargas, até passar o cargo a Juarez Távora. Nesse ministério, colaborou na criação do Serviço Republicano de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais, posteriormente Serviço de Proteção aos Índios dirigido por Cândido Rondon. Fundou, em 25 de agosto de 1945, a Associação Brasileira dos Amigos de Augusto Comte, do qual foi o primeiro presidente. Após seu falecimento, no ano seguinte, seu filho Trajano Carneiro assumiu a presidência da associação. Foi sempre reconhecido por seus pares como pessoa cautelosa e metódica, normas inflexíveis de um positivista, e esse recurso ao método e à organização pode-se ver refletido no acervo, como veremos.


Mário e Paulo Carneiro, quando o último era secretário de Agricultura do governo de Pernambuco. s. l., 1935 (Fundo Família Carneiro/COC/DAD/Fiocruz).

Paulo Estevão de Berredo Carneiro3 3 Os dados biográficos foram retirados de documentos do arquivo, particularmente currículos, e de Maio, M. C. e Sá, M. R., ‘Ciência na periferia: a Unesco, a proposta de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica e as origens do Inpa’, à p. 975 desta edição. nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de outubro de 1901, e faleceu na mesma cidade, em 17 de fevereiro de 1982. Desde a infância recebeu sólida educação positivista, que pode ser ilustrada por um caderno de caligrafia existente em seu arquivo, no qual copia ao longo de todas as suas folhas frases e máximas de Augusto Comte, tais como "Viver para outrem: Família, Pátria e Humanidade"; "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim"; e "Os vivos são, e de mais em mais, governados pelos mortos."

Formou-se em química industrial na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, reduto positivista, e iniciou sua atividade profissional como professor, até 1927, quando, então, foi para Paris como bolsista do Instituto Pasteur. Lá, realizou pesquisas científicas sobre o guaraná, que lhe deram o título de doutor da Universidade de Paris. De volta ao Brasil em 1932, reassumiu o magistério e chefiou o laboratório de investigações de química vegetal e animal do Instituto Nacional de Tecnologia, então órgão do Ministério da Agricultura.

Em 1935, Paulo Carneiro foi convidado por Carlos de Lima Cavalcanti para assumir a pasta de secretário de Agricultura de Pernambuco, onde permaneceu durante nove meses, período em que implementou políticas de reforma social no campo e de abrandamento das condições de miséria que atingiam os trabalhadores urbanos e rurais da região. Em virtude de suas ações, tidas como polêmicas, deixou a secretaria e retornou a Paris em 1936 para, no mesmo Instituto Pasteur, desenvolver durante seis anos pesquisas sobre o curare, recebendo, por isso, o prêmio Nativelle da Academia de Medicina de Paris.

Quando da declaração de guerra do Brasil contra as forças do Eixo, Paulo Carneiro foi detido e levado preso para Baden-Baden e posteriormente para Godesberg, junto com o embaixador Souza Dantas. Nessa última ‘residência', onde passou 14 meses, Paulo Carneiro dedicou-se com afinco a estudos sobre o positivismo, como pode ser atestado pelos diários e cadernos de notas encontrados em seu arquivo. Em 1944, com a libertação da França, voltou ao Brasil, e em 1946 representou o país na primeira Assembléia das Nações Unidas e na comissão preparatória de criação da Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (Unesco). A partir daí, permaneceu nesse órgão recém-criado, primeiro como ministro e depois como embaixador, até 1965; e, por último, como delegado do Brasil nas conferências gerais, até 1978. Na Unesco, esteve à frente de grandes projetos de impacto, podendo-se destacar, em função do tema deste número da revista Manguinhos, o da tentativa de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica.4 4 Ver, a esse respeito, artigo de Maio, M. C. e Sá, M. R., à p. 975.

Foi ainda membro e fundador de diversas instituições nacionais e estrangeiras ligadas à ciência, educação e cultura, como a Associação Brasileira de Educação e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. A par da organização de inúmeras conferências versando sobre temas filosóficos, científicos, históricos e literários, publicou: Introdução à história cultural e científica da humanidade; Idéias e problemas de nosso tempo; Augusto Comte, oeuvre et jeunesse e Vers un nouvel humanisme.


Paulo Carneiro e a filha do embaixador João Neves da Fontoura no navio que os conduziu de volta ao Rio de Janeiro após 14 meses em Godesberg. Lisboa, 28 de abril de 1944 (Fundo Família Carneiro/COC/DAD/Fiocruz).

Por fim, como cultor da memória do fundador do positivismo, presidiu a Associação Internacional A Casa de Augusto Comte, em Paris, de 1954 a 1980, instituição responsável pela manutenção do Museu Augusto Comte, criado por Paulo Carneiro naquela cidade com o propósito de reunir o mobiliário e os documentos bibliográficos, arquivísticos e museológicos do filósofo. Deve-se ressaltar que todo esse material foi minuciosamente organizado e classificado por ele, Paulo Carneiro.

Essa sólida formação positivista dos membros da família Carneiro — pode-se não apenas presumir, mas afirmar com razoável certeza — também se reflete na criação, acumulação e manutenção do acervo familiar. O recurso ao método e à organização foi passado de pai para filho(s) e a reunião dos conjuntos documentais de seus membros ficou a cargo de Trajano Carneiro, que o custodiou até seu falecimento, quando, então, foi e ainda vem sendo recolhido pelo Departamento de Arquivo e Documentação da COC.5 O primeiro arquivo pessoal incorporado ao fundo familiar foi o de Otávio Carneiro, falecido prematuramente. Ficou sob os cuidados do pai, Mário Carneiro, que o juntou ao seu próprio arquivo. Com a morte deste último, ambos os arquivos passaram à custódia de Trajano. Parte do arquivo pessoal de Paulo Carneiro foi sendo incorporado ao fundo familiar, ao longo de várias remessas feitas de Paris pelo próprio titular e, após sua morte, pelos seus descendentes. Assim é que Trajano Carneiro custodiou, num único local, seu arquivo, o de seu pai, de seu tio e de seu irmão.

Do ponto de vista de sua disposição interna, nota-se que todos os titulares tinham o cuidado de classificar os documentos de acordo com seus interesses imediatos e futuros. Dois exemplos podem nos ajudar a esclarecer esse fato: o primeiro é o de uma caixa pequena que contém apenas anotações recortadas de envelopes e caixas, com títulos indicativos de classificações antigas, provavelmente estabelecidas por Mário Carneiro para seu arquivo e o de seu irmão Otávio, e posteriormente reclassificadas por Trajano Carneiro, como pode ser exemplificado pelo segundo exemplo, a seguir. Trata-se de outra caixa com a inscrição Do Papae, onde, em seu interior, vários envelopes separam os documentos, onde se lê: correspondência diversa; revolta do Floriano; últimos documentos escritos por papai; correspondência trocada entre papai e o sr. Menhy (?) a propósito da resolução deste de fazer em Paris a propaganda do positivismo; cartas de papai a diversos e vários documentos; Abissínia.


O ‘arquivista’ Paulo Carneiro organizando os arquivos do Museu Augusto Comte. Paris. s. d.
(Fundo Família Carneiro/COC/DAD/Fiocruz).

Diário de Paulo Carneiro durante permanência em Baden-Baden, com estudos sobre positivismo.1942 (Fundo Família Carneiro/COC/DAD/Fiocruz).

José Leite Lopes e Paulo Carneiro em solenidade promovida pela Unesco. s. l., s. d.
(Fundo Família Carneiro/COC/DAD/Fiocruz).

Em relação à prática de arquivamento de Paulo Carneiro, ela não difere em muito da de seus familiares, com exceção do período da Unesco, no qual a organização de parte de seus papéis esteve a cargo de uma sobrinha arquivista.

E o que contém esse vasto acervo, de cerca de trinta metros lineares ou 180 prateleiras de estantes, além de cerca de quinhentos livros? Dezenas e dezenas de milhares de documentos de natureza privada e pública. Quanto aos primeiros, sobressaem a correspondência com amigos e familiares, álbuns e fotos, diários, anotações, cartões-postais e documentos típicos da administração da vida privada: recibos, cadernetas de anotações de gastos, documentos financeiros e médicos etc. Um exemplo: a caixa com o título ‘Documentos importantes a guardar’, onde, nos envelopes cuidadosamente dispostos em seu interior, lê-se: 1) impostos de renda no Brasil e em França; 2) contrato de aluguel do meu apartamento; 3) securité sociale; 4) título de eleitor e carteira de chauffeur; 5) itinerário de minhas viagens (1963-67).

Essa ‘vontade de guardar’ estende-se igualmente à documentação de natureza pública. Pode-se verificar no acervo uma vasta documentação — correspondência oficial e particular, recortes de jornais, relatórios, projetos, trabalhos científicos, discursos e conferências, agendas de trabalho, entre outros —, abrangendo praticamente toda a vida pública de Mário e Paulo Carneiro, com predominância daquela relativa à atuação deste último na Unesco, com destaque para questão da Hiléia Amazônica.

A presença das idéias positivistas na vida da família Carneiro é, contudo, o que dá o tom maior a todo esse acervo, tendo em vista a dedicação e o empenho na materialização dessas idéias, que só podem ser percebidas ao se decifrar a estrutura interna de um arquivo, na busca de revelar as intenções e dinâmicas dos que se dedicam a construí-lo. Daí o feitiço e o fascínio dos arquivos familiares e pessoais.

Priscila Fraiz

Pesquisadora e documentalista do Departamento de

Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e

doutoranda em história social da Universidade de São Paulo (USP)

fraiz@rio.com.br/priscila@fiocruz.br

NOTAS:

  • 1
    O mesmo deverá receber tratamento técnico a partir de 2001, quando, então, será possível sua consulta.
  • 2
    Os dados biográficos foram obtidos de
    Mario Barboza Carneiro (17 abril 1872-4 abril 1946): In Memorian, Rio de Janeiro, Boletim da Associação Brasileira dos Amigos de Augusto Comte, abr. 1947, p. 95.
  • 3
    Os dados biográficos foram retirados de documentos do arquivo, particularmente currículos, e de Maio, M. C. e Sá, M. R., ‘Ciência na periferia: a Unesco, a proposta de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica e as origens do Inpa’, à p. 975 desta edição.
  • 4
    Ver, a esse respeito, artigo de Maio, M. C. e Sá, M. R., à p. 975.
  • 5
    Parte das informações relativas à constituição, organização e custódia do acervo foram obtidas durante conversas informais mantidas com o doador, Mário Augusto de Berredo Carneiro, filho de Paulo Carneiro. Outras foram reveladas pelo exame sumário do arquivo quando de sua chegada ao departamento. São informações preliminares que deverão sofrer ratificações, retificações e acréscimos ao longo do exame mais acurado da documentação, com vistas ao seu tratamento técnico.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Maio 2006
  • Data do Fascículo
    Set 2000
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