Guia de fontes para a história do ensino médico no Rio de Janeiro (1808-1907)

A source guide to the history of medical teaching in Rio de Janeiro (1808-1907)

Maria Rachel Fróes da Fonseca

FONTES

Guia de fontes para a história do ensino médico no Rio de Janeiro (1808-1907)

A source guide to the history of medical teaching in Rio de Janeiro (1808-1907)

Maria Rachel Fróes da Fonseca

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz

O Guia de fontes para a história do ensino médico no Rio de Janeiro (1808-1907) é um desdobramento do projeto sobre Institucionalização da Medicina no Brasil, desenvolvido por uma equipe de pesquisadores do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz. Ao longo do desenvolvimento deste projeto, foram constatadas inúmeras dificuldades quanto ao acesso às fontes arquivísticas e bibliográficas relevantes para a realização de estudos nos mais diversos recortes temáticos da história das ciências biomédicas no Brasil, indicando, então, a necessidade da elaboração de um instrumento de pesquisa que suprisse estas deficiências.

A reunião dos documentos básicos para uma investigação histórica constitui rotineiramente uma tarefa difícil para todo pesquisador, tendo em vista os mais variados entraves, como o acesso à documentação e as condições de preservação da mesma. Verifica-se grande dispersão das fontes, distribuídas, muitas vezes, de forma aleatória, entre diferentes bibliotecas, centros de documentação, arquivos públicos e particulares.

Observa-se ainda que estas fontes encontram-se, em grande parte, desorganizadas e sujeitas a processos de deterioração. Por outro lado, embora parte destes acervos estejam parcialmente organizados, o estão sob diversas formas de classificação e indexação, o que dificulta a recuperação de informação e a localização dos documentos. A ausência de instrumentos de pesquisa específicos reduz o volume de investigações e, conseqüentemente, paralisa a produção de conhecimentos sobre a história da medicina no país. Dessa forma, permanece inédito um número significativo de documentos, como bem assinalou Lycurgo de Castro Santos Filho, em sua História geral da medicina brasileira (São Paulo, Hucitec, 1977, pp. 17-8) :

"até o momento não se publicou e muito menos se interpretou toda a documentação que, sobre o Brasil, existe em arquivos nacionais e estrangeiros. ... Em relação, por exemplo, ao capítulo da fisicatura-mor (1808-1828) há cerca de trinta volumes depositados no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, contendo alvarás, ordens, licenças, cartas, todo um acervo susceptível de ajuntar novos dados aos já conhecidos."

No passado ocorreram algumas tentativas de sistematização do conjunto de obras médicas e cirúrgicas brasileiras, sendo uma das pioneiras a tese de doutoramento de Francisco José do Canto e Melo Castro Mascarenhas, intitulada Ensaio de bibliografia médica do Rio de Janeiro anterior à fundação da Escola de Medicina: resenha das obras médicas e cirúrgicas impressas nesta cidade ou publicadas fora dela, por médicos e cirurgiões seus antes da época mencionada, publicada em 1852. Em 1877, ainda nesta perspectiva, publicou-se o primeiro catálogo da biblioteca da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ), de autoria do bibliotecário dr. José Pinto de Sá. Entretanto, outro catálogo da biblioteca da FMRJ só foi publicado em 1916, incluindo as publicações adquiridas ou recebidas entre 1900 e 1915.

A publicação do Catálogo da exposição médica brasileira, em 1884, organizado pelo dr. Carlos Antonio Paula Costa, representou importante esforço realizado nas próprias dependências da FMRJ, como assim caracterizou o próprio autor (apud Santos Filho, p. 47): "Nesse catálogo ter-se-á ocasião de verificar a marcha que teve a ciência, porém muito há ainda que colher quer nesta cidade, quer em todas as províncias do Império e ainda em arquivos da antiga metrópole. Só então poderá ser escrita a história da medicina brasileira, cuja primeira página apenas tracei."

A atualização da bibliografia médica nacional só foi retomada em 1908, com a obra Comemoração do centenário do ensino médico, editada pela Academia Nacional de Medicina, com a participação dos mais importantes nomes da área médica na elaboração de capítulos sobre patologia, cirurgia, ensino médico, climatologia, anatomia, fisiologia, bacteriologia e demais disciplinas.

Com relação à literatura médica brasileira, ainda podemos destacar o trabalho de Alvaro A. de Souza Reis (História da literatura médica brasileira, 1922), que oferece ao historiador da medicina um quadro das obras de maior relevância publicadas desde o período colonial, com especial destaque para o século XIX. Importa citar, ainda, Índice-catálogo médico paulista, de Jorge de Andrade Maria, editado em 1938, que arrola livros, teses e artigos relativos às ciências biomédicas, produzidos entre 1860 e 1938.

Em 1985, o Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou o Catálogo das teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, abrangendo o período de 1833 a 1985, e representando o último esforço, de que temos conhecimento, no sentido da reunião e sistematização dos acervos da FMRJ.

Apesar da existência destas obras, constatou-se ainda uma série de lacunas quanto à abrangência espaço-temporal e ao universo das produções incluídas. Um esforço de sistematização das fontes relativas à história da medicina no país não deve se restringir ao inventário de livros, tratados, compêndios e teses, na medida em que a cultura médico-científica brasileira no período abrangia também as produções oriundas de outros espaços, institucionais ou não, notadamente através da imprensa, especializada ou não. Inúmeros são os documentos de caráter acadêmico e cultural, de igual relevância para as nossas pesquisas, como as 'Memórias Históricas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro' e as 'Conferências Populares da Glória'.

Definiu-se, então, a necessidade da composição de um instrumento de pesquisa adequado que fornecesse as informações específicas e constitutivas dos diversos acervos potencialmente relevantes e muitas vezes inéditos. Neste propósito buscou-se constituir um Guia de fontes para a história das ciências biomédicas no Brasil. Tendo em vista a dimensão do conjunto de acervos arquivísticos e bibliográficos pertinentes a esta área de conhecimento, e à complexidade dos mesmos, propomos, então, como etapa primordial, a concentração dos esforços dentro de um âmbito geográfico e cronológico mais restrito, ou seja, sobre a história do ensino médico no Rio de Janeiro, desde sua institucionalização (1808) até a criação do Curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz (1907), limiar da institucionalização de um novo modelo de produção e reprodução da medicina.

Objetivou-se a realização de um mapeamento dos acervos arquivísticos e bibliográficos pertinentes ao tema, existentes em instituições na cidade do Rio de Janeiro, reunindo-os de forma sistematizada, de modo a fornecer, aos futuros usuários, as informações referenciais básicas sobre a localização dos acervos, seus conteúdos, as condições de acesso e de utilização. Buscou-se, assim, um maior aperfeiçoamento na coleta e sistematização dos dados e a possibilidade do estabelecimento de subsídios para posteriores desdobramentos temáticos e cronológicos. As instituições mapeadas foram as seguintes:

Arquivos

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, Arquivo da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz, Arquivo do Museu Nacional, Arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Bibliotecas

Biblioteca Nacional, Biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Biblioteca da Academia Nacional de Medicina, Biblioteca da Academia Brasileira de Ciências, Biblioteca do Centro de Ciências da Saúde (UFRJ), Biblioteca da Fundação Casa de Rui Barbosa, Biblioteca do Jardim Botânico, Biblioteca do Museu Nacional, Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura, Biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz, Biblioteca de Manguinhos.

Definido o universo de instituições, como etapa inicial elaborou-se o cadastro de informantes, isto é, das instituições detentoras dos acervos arquivísticos e/ou bibliográficos, contendo as informações referentes às características da instituição e suas condições de funcionamento.

Posteriormente, procedeu-se ao levantamento de fontes propriamente dito, e para tal elegemos alguns indicadores temáticos, que contemplassem o universo do acervo documental arquivístico e bibliográfico significativo para a história do ensino médico no Rio de Janeiro. A documentação inventariada foi sendo organizada segundo estes indicadores temáticos, os quais também serão os referenciais-chave para a recuperação destas informações, quando transformadas em um banco de dados (adotando o software Microisis).

A documentação inventariada encontra-se sistematizada segundo os diversos indicadores, os quais podemos caracterizar da forma que se segue:

Documentos de caráter político administrativo e institucional

Atas, relatórios, ofícios, regulamentos e decretos relativos à criação e à administração das instituições de ensino (incluindo a FMRJ e os demais espaços promotores de ensino, como a Santa Casa de Misericórdia, a Academia Nacional de Medicina, o Museu Nacional, a Policlínica Geral do Rio de Janeiro, a Escola de Humanidades e Ciências Farmacêuticas e o Instituto Oswaldo Cruz) e de pesquisa (como o Instituto Farmacêutico e o Instituto Vacínico Municipal). Alguns destaques documentais: criação dos cursos médico-cirúrgicos no Hospital Real Militar, 5.11.1808; criação da cadeira de matéria médica, 12.4.1809; estatutos da Academia Médico-Cirurgica, dezembro de 1820: criação das faculdades de medicina, 3.10.1832; estatutos da Faculdade de Medicina, 28.4.1854; Reforma Leoncio de Carvalho, 19.4.1879; regulamento dos laboratórios de higiene, 22.12.1883; reorganização das faculdades de medicina, 10.1.1891.

Documentos de caráter didático-pedagógico

Programas dos cursos, pontos para as teses, lições das disciplinas representativos da prática do ensino, revelando a orientação programática e científica adotada. Destaques documentais: 'Guia dos estudantes da FMRJ', 1885; Compêndio de medicina prática, José Maria Bomtempo; Elementos de botânica geral, Joaquim Monteiro Caminhoá; Lições elementares de química orgânica com aplicação à medicina e à farmácia, Domingos José Freire Junior; Clínica cirúrgica do Hospital da Misericórdia ou lições professadas durante os anos de 1873 a 1879, Vicente C. F. de Sabóia; Compêndio para o curso de química, Joaquim Vicente Torres Homem.

Periódicos especializados em ciências biomédicas (destaques)

Gazeta Médica do Rio de Janeiro, Gazeta Médica da Bahia, Revista dos Cursos Práticos e Teóricos da Fac. de Medicina, União Médica, Anais Brasilienses de Medicina, Arquivo Médico Brasileiro, O Brazil-Medico, Imprensa Médica, Semanário de Saúde Pública.

Documentos de caráter 'científico'

Livros e artigos de professores e pesquisadores brasileiros, relatórios de viagem, teses, espelhando a produção científica 'nacional'. Destaques: as obras de Francisco Freire Alemão, Domingos Marinho de Azevedo Americano, Nuno de Andrade, José Maria Bomtempo, Joaquim Monteiro Caminhoá, Domingos José Freire Junior, Joaquim dos Remédios Monteiro, Moncorvo Filho, Miguel Couto, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Afrânio Peixoto, José Pereira Rego, Vicente Sabóia e outros.

Documentos de caráter acadêmico e cultural

Memórias históricas da FMRJ, correspondência entre professores e/ou alunos, conferências e textos acadêmicos, ilustrando os diversos ângulos do cotidiano nas academias e nas escolas médicas. Destaques: as 'Memórias Históricas', criadas desde os estatutos de 1854, narravam os fatos mais importantes ocorridos na instituição, assim como indicavam as doutrinas científicas mais adotadas. As 'Conferências Populares da Glória', criadas em 1873, procuravam promover palestras sobre todas as temáticas científicas, notadamente a questão do ensino médico, com a participação de expoentes como Bento Gonçalves Cruz, Joaquim Monteiro Cami-nhoá, Domingos Freire, Nuno de Andrade, Miranda de Azevedo, Silva Araújo e Andrade Pertence.

Referências teóricas básicas

As principais obras de autores estrangeiros citadas e utilizadas como referências no ensino da medicina nas instituições de ensino, como as obras de Bichat, Broussais, Pasteur, Alibert, Claude Bernard, Bouchardat, Magendie e Virchow.

Bibliografia geral de referência

Obras gerais sobre a história do ensino médico no Brasil, obras biográficas, bibliografias e obras de referência. Destaques: as obras de Lycurgo de Castro Santos Filho, Pedro Sales, Fernando Magalhães, Bruno Lobo, Lourival Ribeiro e Carlos Lacaz.

Os documentos inventariados nas instituições citadas, organizados segundo os indicadores, constituem um conjunto de, aproximadamente, oito mil registros, contendo as seguintes informações: autor, título, edição, ano, instituição que o abriga, referência do catálogo. Os registros estão sendo processados, dando origem a uma base de dados, que utiliza o software Microisis, selecionado por sua amplitude de campos e utilização na informatização de bibliotecas e arquivos, possibilitando, futuramente, sua inserção em rede. Tais registros encontram-se, embora ainda sob a forma manuscrita, à disposição dos pesquisadores interessados.

Maiores informações:

Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz

Av. Brasil, 4036, 4º andar

Rio de Janeiro — RJ CEP 21041-361

Tel.:(021)590-3489

Fax:(021)598-4437

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Jul 2006
  • Data do Fascículo
    Jun 1995
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