Resumo
O trabalho analisa a trajetória científica do naturalista brasileiro João Barbosa Rodrigues, enfatizando seus estudos botânicos e abordando os seguintes aspectos: a história natural e a política científica brasileira a partir da segunda metade do século XIX; a transformação de Barbosa Rodrigues de botânico amador em profissional; a decisiva influência do mecenas Guilherme Schüch de Capanema em sua carreira; e a afirmação de Rodrigues como membro do cenário científico nacional e internacional.
mecenato; século XIX; botânica; Barbosa Rodrigues; barão de Capanema
Abstract
This article analyzes the scientific activities of Brazilian naturalist João Barbosa Rodrigues and emphasizes his studies on Botany as far as the following aspects are concerned: natural History and Brazilian scientific policies from the second half of the nineteenth century on, the transformation of Barbosa Rodrigues from an amateur into a professional botanist, the relevant influence of Guilherme Schüch de Capanema as the patron of his career and his role in both national and international scientific scenario.
scientific patronage; nineteenth century; botany; Barbosa Rodrigues; baron of Capanema
O botânico e o mecenas: João Barbosa Rodrigues e a ciência no Brasil na segunda metade do século XIX
The botanist and the maecenas: João Barbosa Rodrigues and science in Brazil in the second half of the nineteenth century
Magali Romero Sá
Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
SÁ, M. R.: 'O botânico e o mecenas: João Barbosa Rodrigues e a ciência no Brasil na segunda metade do século XIX'. História, Ciências, Saúde Manguinhos, vol. VIII (suplemento), 899-924, 2001.
O trabalho analisa a trajetória científica do naturalista brasileiro João Barbosa Rodrigues, enfatizando seus estudos botânicos e abordando os seguintes aspectos: a história natural e a política científica brasileira a partir da segunda metade do século XIX; a transformação de Barbosa Rodrigues de botânico amador em profissional; a decisiva influência do mecenas Guilherme Schüch de Capanema em sua carreira; e a afirmação de Rodrigues como membro do cenário científico nacional e internacional.
PALAVRAS-CHAVE: mecenato, século XIX, botânica, Barbosa Rodrigues, barão de Capanema.
SÁ, M. R.: 'The botanist and the maecenas: João Barbosa Rodrigues and science in Brazil in the second half of the nineteenth century'. História, Ciências, Saúde Manguinhos, vol. VIII (supplement), 899-924, 2001.
This article analyzes the scientific activities of Brazilian naturalist João Barbosa Rodrigues and emphasizes his studies on Botany as far as the following aspects are concerned: natural History and Brazilian scientific policies from the second half of the nineteenth century on, the transformation of Barbosa Rodrigues from an amateur into a professional botanist, the relevant influence of Guilherme Schüch de Capanema as the patron of his career and his role in both national and international scientific scenario.
KEYWORDS: scientific patronage, nineteenth century, botany, Barbosa Rodrigues, baron of Capanema.
Introdução
A segunda metade do século XIX pode ser caracterizada como uma época de mudanças significativas no cenário científico nacional. A afirmação da comunidade científica brasileira começou a se definir a partir de movimentos liderados por alguns doutos cientistas que, pressionando por uma política mais agressiva do governo em relação à reformulação das instituições científicas e ao apoio a cientistas nacionais, criaram um cenário propício ao desenvolvimento de velhas e novas disciplinas ligadas às ciências e à formação de especialistas brasileiros que se tornariam referência mundial.
Durante esse período, disputas e divergências entre os acadêmicos eram tornadas públicas e veiculadas nos principais jornais da Corte. O apoio do imperador a eventos e publicações científicas chancelava os empreendimentos promovidos pelos cientistas. Também à época, a formação acadêmica no exterior e a convivência com cientistas estrangeiros de renome constituíam credenciais para que os cientistas brasileiros se afirmassem entre seus pares. A inserção de João Barbosa Rodrigues no meio científico nacional vai acontecer nesse cenário de afirmação da ciência produzida no Brasil. Sem qualquer expressão no meio científico, Barbosa Rodrigues apresentou, no ano de 1870, uma obra sobre orquídeas brasileiras cientificamente ilustrada por ele , que incluía descrições de inúmeras espécies novas. Para surpresa de uns e incredulidade de outros, esse desconhecido estudioso da flora brasileira vai se tornar, no decorrer dos anos, um dos cientistas de maior expressão no país e no exterior.
Durante sua carreira científica (1871-1909), Barbosa Rodrigues irá se caracterizar essencialmente como um cientista polêmico, ambicioso e astuto. Autodidata, envolveu-se com temas tão diversificados como a etnografia, a lingüística, a arqueologia, o indigenismo, a botânica, a química e a farmácia. Sua neta, Dilke de Barbosa Rodrigues Salgado (1945), publicou um livro em que discute a vida e a obra de Barbosa, usando, além de fontes secundárias, relatos de familiares e documentação concernente em posse da família. Outra descendente de Barbosa Rodrigues, Flora Castaño Ferreira, também possuidora de material inédito de seu bisavô, publicou em parceria com Scott Mori, do Jardim Botânico de Nova York, trabalho com material científico inédito de Barbosa Rodrigues (Mori e Ferreira, 1987). Várias outras biografias do botânico brasileiro surgiram através dos anos (Ihering, 1911; Hoehne, 1941; Pereira, 1942); e sua obra sobre palmeiras amazônicas foi analisada criticamente em 1995 por Henderson, um especialista do Jardim Botânico de Nova York.
Apesar de toda a correspondência e documentos particulares de Barbosa Rodrigues terem permanecido com a família e se extraviado ao longo do tempo (Mori e Ferreira, 1987), é possível refazer sua trajetória científica por meio das inúmeras publicações técnicas e artigos em jornais da época, assim como pela escassa documentação primária depositada em instituições como o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu Imperial em Petrópolis. No presente artigo, pretende-se analisar a trajetória de Barbosa Rodrigues no cenário botânico nacional e mundial por intermédio das fontes já citadas e outras primárias ainda inéditas, como correspondência e diários de viagem de naturalistas contemporâneos. Tal material encontra-se depositado em instituições brasileiras e estrangeiras e está discriminado ao longo do trabalho. Através de uma apreciação crítica baseada em tais fontes, tem-se por objetivo compreender a especificidade de sua trajetória de amador a cientista e o apoio do barão de Capanema a este personagem que, ainda hoje, é aclamado por especialistas como um dos maiores botânicos do Brasil.
1 O botânico brasileiro Francisco Freire Alemão Cysneiros foi um dos primeiros a protestar contra a falta de reconhecimento, pelos naturalistas estrangeiros, dos trabalhos realizados pelos brasileiros. Ele acusava principalmente os botânicos, e em particular Carl von Martius, que estava sempre pedindo que lhe enviassem material do Brasil para que fosse analisado pelos especialistas estrangeiros e incluído em sua obra Flora Brasiliensis, não levando em consideração as descrições feitas pelos brasileiros (Neiva, 1929, p. 26).
2 Estatuto da Sociedade Vellosiana de 6 de setembro de 1850 (Arquivo Histórico-Administrativo do Museu Nacional, pasta 3, doc. 157).
3 Vários naturalistas estrangeiros que trabalhavam no Brasil enviavam periodicamente material científico e o resultado de suas pesquisas para publicação às suas instituições de origem (Mello Leitão, 1937).
A história natural no Brasil na segunda metade do século XIX
É de lastimar que o Brasil, onde se pensa tanta coisa boa e grandiosa, ainda se não tenha cuidado em preparar os elementos para uma exploração científica, de que tanta utilidade tiraríamos, quando mais não fosse, o sermos tratados com consideração, e não com desprezo pelo estrangeiro, a quem até hoje ainda se deve o que a ciência tem descoberto sobre este vasto império (Capanema, 1859).
Com esse desabafo, Guilherme Schüch, barão de Capanema, dirigiu-se aos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em sessão realizada em 1854. Amigo de infância de d. Pedro II e de grande influência na Corte, Capanema engenheiro, geólogo e apaixonado por botânica incluía-se entre os brasileiros que propunham uma nova ordem em relação ao apoio governamental aos estudiosos nacionais.
4 Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II, M. 25, doc. 913.
5 Ver relação dessas publicações em Guimarães (1952); Barbosa Rodrigues (Rodriguesia, 15, no 27, pp. 191-212).
6 Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II, M. 25, doc. 913.
Botânico amador ou profissional? A comunidade científica brasileira surpreendida
(1869) partiu para o centro de Minas o sr. Barbosa a estabelecer-se ali com uma coudelaria provisoriamente, como o disse a todo o mundo, e como creio, pois nesse tempo falava-se muito do C. Jacome e do gosto apurado que aquele inteligente brasileiro soube dar ao estudo da equitação, e o sr. Barbosa, invejoso como sempre, ia tentar pôr-lhe a barra à frente nessa especialidade. A demora que devia ser de três meses elevou-se ao duplo desse prazo. O homem voltou afinal, mas não já com a tendência para cavalos; vinha com alguns espécimens de Orchidaceas mineiras e trazia o projeto de desenho em grande álbum. Procurou-me e consultou-me a respeito e respondi-lhe que para desenhar uma planta era preciso conhecer tecnicamente o vegetal e que, com toda a cordura, lhe aconselhava que tomasse um compêndio elementar qualquer e o estudasse antes de empreender o seu louvável trabalho. O conselho não lhe agradou ao que me pareceu, pois, tendo tomado em seguida quase nova residência, nunca mais me apareceu.
7 Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II Correspondência Barbosa Rodrigues, 1870.
8 Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II, M. 25, doc. 913.
Ladislau Netto era, à época, chefe interino da seção de botânica do Museu Imperial e secretário perpétuo da Sociedade Vellosiana. Barbosa, ao mostrar sua coleção de orquídeas e projeto de ilustração científica a Netto, esperava apoio, e nunca a reação desencorajadora que recebeu. Contudo, Netto, que tinha sérias restrições a ele, especialmente em relação a seu caráter, julgou ser esta mais uma tentativa de Barbosa projetar-se mesmo sem reunir condições científicas para realizar tão ambiciosa obra.
9 Ludwig Riedel, botânico alemão residente no Brasil desde 1820, foi convidado pelo barão de Langsdorff para participar da expedição científica comandada por ele ao interior do Brasil. Ao final da expedição (1825-29), Riedel radicou-se no Rio de Janeiro, ocupando o posto de diretor do Jardim do Passeio Público e, posteriormente, diretor da seção de botânica do Museu Nacional. Faleceu em 1861.
10 Stephan Ladislau Endlicher foi o primeiro colaborador de Martius na Flora Brasiliensis.
O fato de Barbosa Rodrigues ser realmente um amador contribuiu muito para que seu trabalho não fosse reconhecido como realização científica. A institucionalização de disciplinas ligadas à história natural, como a zoologia, a botânica, a geologia e a arqueologia, na época, contribuiu para que animosidades surgissem entre os que se consideravam cientistas profissionais e os amadores, incluindo-se entre os últimos tanto o barão de Capanema, com seu interesse por botânica, como Barbosa Rodrigues, na época apenas um professor de desenho do Colégio Pedro II. A rejeição inicial a Barbosa pode ser comparada à sofrida pelo também ilustrador científico e naturalista amador inglês William Swainson. Igualmente autodidata, Swainson acabou por não obter o reconhecimento almejado por parte da comunidade científica da época, ainda que tenha conseguido reunir uma rica coleção de vários grupos animais e vegetais, com coletas em várias partes da Europa e da América do Sul, e descrito e ilustrado primorosamente não só exemplares por ele coletados como outros existentes em coleções européias (Parkinson, 1984; Knight, 1986).
As divergências de Ladislau Netto com Barbosa Rodrigues e o barão de Capanema foram bem exploradas pela imprensa, com acusações mútuas tornadas públicas em vários jornais e periódicos da época.
Capanema, apesar de engenheiro e atuando como geólogo, tinha na botânica um dos seus hobbies científicos. Trabalhou na seção de geologia do Museu Nacional, tendo participado da 1ª Expedição Científica Brasileira. Foi também um dos fundadores da Sociedade Vellosiana, que acabou por abandonar, em razão de desentendimentos com outros membros, levando-o a fundar outra sociedade, a da Palestra Científica.
11 Eichler faleceu em 1887, tendo sido substituído por Ignacio Urban, botânico de nacionalidade alemã. A Flora foi finalizada em 1906, com cerca de vinte mil espécies descritas. Dos 65 naturalistas participantes, 38 eram alemães, cinco austríacos, cinco ingleses, cinco suíços, quatro franceses, dois belgas, dois dinamarqueses, dois tchecoslovacos, um holandês e um húngaro (Mello Leitão, 1937).
12 Ver documentos depositados nos Arquivos do Museu Nacional (AAHCMN, docs. 35, 1874; 31, 33 e 34, 1876).
Um naturalista no campo: o aprendizado com os caboclos e os indígenas
13 Regnell nasceu em Estocolmo em 1807 e faleceu em Caldas (MG) em 1884. Veio para o Brasil para tratamento pulmonar, aqui completando seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Fixou residência em Caldas, em 1841, dedicando-se à clínica e à coleção botânica. Financiou a vinda de vários botânicos suecos para estudar e coletar material no Brasil. Sua coleção atualmente se encontra na Suécia e leva o seu nome.
Prioridade científica: a eterna luta de Barbosa
Quando se encontrava em Óbidos no ano de 1873, Barbosa foi procurado por três britânicos que participavam de uma expedição de exploração na região amazônica a serviço da companhia de navegação Amazon Steam Navigation Company. Os britânicos um botânico e médico, um engenheiro e um geólogo haviam acabado de chegar à cidade e, ao tomarem conhecimento da presença de um especialista em botânica da capital do Império, prontamente se dirigiram à residência de Barbosa. Sentindo-se lisonjeado, Barbosa recebeu-os de forma fraternal, tendo lhes mostrado com orgulho seus desenhos e coleções. Dessa visita, o botânico britânico James William Helenus Trail registrou (apud Sá, 1998, p. 152):
Barbosa Rodrigues aparenta um pouco mais de trinta anos, e tem postura (óculos) e toda aparência de um cientista alemão. Ele acabou de voltar de uma viagem de exploração ao rio Urubu e encontrou um bom número de palmeiras. Ele nos mostrou um grande número de ilustrações de palmeiras e orquídeas que fez, das quais ele pensa que muitas são espécies novas, mas ele não conhece nenhum trabalho sobre palmeiras americanas, com exceção dos de Martius e Kunth, Enumeratio Palmarum. Ele passou algum tempo em Ererê e nos mostrou fósseis que ele pegou perto de um córrego... Ele lê bem inglês, mas não consegue falar.
Dias mais tarde, Barbosa Rodrigues retribuiu a visita aos ingleses, tendo o botânico Trail registrado na ocasião:
Cerca de meio-dia, B. Rodrigues chegou e sentou conosco por algum tempo. O trabalho de Spruce sobre palmeiras interessou muito a ele, especialmente quando eu chamei a atenção para uma ou duas descrições (feitas por Spruce) que se encaixavam nas espécies coletadas por ele (Barbosa). Logo depois eu o acompanhei até sua casa para ver o restante de seus desenhos sobre palmeiras... Entre os seus livros existiam muitos trabalhos em inglês, especialmente Lindley...
Trail e Barbosa iniciaram então uma relação de camaradagem, trocando informações científicas e participando de coletas conjuntas; homenageavam um ao outro, nomeando espécies novas de plantas (no caso, palmeiras) (Figura 5). Barbosa Rodrigues esforçava-se ao máximo para agradar aos visitantes estrangeiros. Após alguns dias de convivência harmoniosa, contudo, um sentimento de desconfiança surgiu no brasileiro, que passou a achar suspeito o excessivo interesse do botânico europeu pelas mesmas palmeiras que vinha coletando. Tal sentimento fez com que Barbosa não mais fornecesse informações a Trail, e após um mês de pacífica convivência teve início um processo de competição entre eles. As conseqüências do episódio, contudo, só iriam transparecer anos mais tarde.
Ao regressar ao Rio de Janeiro, Barbosa Rodrigues (1875) publicou imediatamente a diagnose das palmeiras que havia coletado durante os três anos e meio que passou na região amazônica, tendo enviado prontamente uma cópia do trabalho para o Jardim Botânico de Kew, em Londres. Os pesquisadores de Kew, sabedores do interesse de Trail por palmeiras e de quem vinham recebendo material coletado na Amazônia, contataram imediatamente o botânico europeu para obter informações sobre o brasileiro e sua coleção de palmeiras. Surpreso com a rapidez com que Barbosa publicou o trabalho sobre as palmeiras da Amazônia, Trail respondeu assim aos pesquisadores de Kew, em carta ao seu diretor, Joseph Hooker:
...Eu fiquei muito surpreso ao saber que ele (Barbosa) tinha publicado suas descrições ... . ele me disse no Pará, antes de eu deixar o Brasil, que ele pretendia vir à Europa para comparar suas descrições com as várias espécies/tipos e consultar os trabalhos publicados a que ele não tinha acesso no Brasil... ele me prometeu cópias das diagnoses de suas espécies novas quando nos encontramos no Pará... Eu atribuo sua pressa em publicar ao medo de que eu pudesse antecipá-lo... Eu dei a ele quatro espécies com os nomes e diagnoses caso sejam novas. Se ele clama essas espécies como dele, ele mostra que é inescrupuloso e procura anexar seu nome às espécies a qualquer meio... (manuscrito D.C. vol. 103, doc. 305-306, Arquivos do Royal Botanic Gardens, Kew).
Um ano após ser lançado o trabalho de Barbosa, Trail publicou um estudo sobre o material de palmeiras coletado por ele na Amazônia, ignorando então algumas das descrições publicadas por Barbosa em 1875. Tinha tomado tal decisão porque considerava ter ele prioridade sobre a descrição dessas espécies, já que, antes de partir do Pará para a Inglaterra, havia deixado com Barbosa amostras desse material com suas respectivas diagnoses (Trail, 1877a; 1877b; 1876). Tomando a atitude de Trail como um insulto, tendo-a considerado mesmo como um desrespeito aos naturalistas brasileiros, já que a prioridade é de quem publicou primeiro, Barbosa Rodrigues (1903; 1888; 1882; 1879) desencadeou uma série de protestos publicados (Figueiredo, 1879).
Apesar das reivindicações de Barbosa contra a pretensa usurpação do botânico europeu em relação às suas espécies novas, foi Trail o escolhido para colaborar na Flora Brasiliensis na parte relativa às palmeiras. É interessante notar que Barbosa, que fora rejeitado pelos botânicos brasileiros, tivera seu trabalho plagiado por um cientista europeu. Trail, médico de formação que cursara botânica na faculdade e havia atuado como monitor desta cadeira, ao conhecer Barbosa, não questionou seus conhecimentos botânicos, tendo mesmo trocado informações e opiniões com o brasileiro sobre estruturas das plantas. A única objeção que fazia a Barbosa era precisamente a mesma que os naturalistas estrangeiros faziam aos brasileiros, ou seja, a escassez de bibliografia técnica para consulta e a falta de coleções de referência para comparação de exemplares. De fato, o trabalho de identificação taxionômica e descrição de novas espécies baseia-se essencialmente em comparações morfológicas, sendo fundamental a existência de material comparativo.
Ao mesmo tempo que Barbosa travava disputa com o botânico europeu, uma outra pendência sobre prioridade científica desenvolvia-se entre ele e naturalistas alemães e belgas. Nesse caso, porém, o objeto de disputa era seu trabalho sobre orquídeas brasileiras.
Após ter-se inviabilizado a publicação de sua obra sobre orquídeas em 1871, Barbosa partiu para a Amazônia e lá procurou conciliar estudos sobre palmeiras com os referentes às orquídeas da região. Nesse meio tempo, o barão de Capanema tomou a iniciativa de enviar um exemplar da obra de Barbosa sobre orquídeas para August Eichler, botânico alemão que à época era o responsável pela continuação da edição da Flora Brasiliensis (arquivo Capanema, manuscrito GScrp 10, depositado no Museu Histórico, RJ). O botânico alemão Heinrich Gustav Reichenbach, considerado o maior especialista em orquidologia da época e convidado por Eichler para escrever a parte dedicada às orquídeas da Flora, teve em mãos o exemplar da obra de Rodrigues e, em carta ao amigo Regnell, escreveu:
O objetivo de minha carta é falar sobre o sr. Barbosa Rodrigues. Devo admitir que suas pesquisas são muito boas, e que nós poderíamos ser úteis um ao outro. Se ele publicar suas orquídeas, acredito que metade já tenha sido descrita, e ele poderia evitar esta duplicação trazendo para a Europa os tipos de suas novas descobertas, e assim ninguém poderia contestá-lo. É sabido ser impossível produzir um trabalho perfeito (de taxionomia) fora da Europa... Por favor, gostaria de chamar a atenção de seu amigo para esses fatos e dizer a ele que eu me ofereço a publicar suas novas descobertas em co-autoria... Por favor, informe-me imediatamente de sua decisão e envie a ele meus respeitos... (Barbosa Rodrigues, 1877).
Informado por Regnell do conteúdo da carta, Barbosa não aceitou a oferta e, em 1877, publicou a diagnose de suas espécies sem contudo ilustrá-las. A justificativa para tal atitude dada por Barbosa foi a de que ele já havia se comprometido com editores brasileiros e estes não aceitaram interromper o processo de impressão da obra. Reichenbach, desiludido por Barbosa ter rejeitado publicar em co-autoria a diagnose das orquídeas brasileiras, retirou sua proposta e acabou desistindo de participar da Flora Brasiliensis. Barbosa (1882), por seu turno, continuou a receber ofertas de outros pesquisadores encarregados de escrever a parte de orquídea da Flora; contudo, não as aceitou por julgá-las desfavoráveis a ele. Após desencontros vários, até mesmo entre os próprios botânicos europeus, o belga Alfred Cogniaux finalmente aceitou assumir a tarefa. Conhecedor do trabalho de Barbosa, Cogniaux igualmente convidou-o a participar da obra de Martius por meio da utilização dos seus desenhos de orquídeas ainda inéditos e das descrições das espécies novas. Em 1892, Barbosa finalmente aceitou o convite.
Desiludido com a indiferença demonstrada para com sua obra por seus conterrâneos, Barbosa enviou seu material iconográfico para a Europa, tendo permitido que todas as suas pranchas fossem copiadas no Jardim Botânico de Kew, Inglaterra, tal foi o sucesso que seus desenhos fizeram. Entre 1894 e 1895, Harriet Thieselton-Dyer, filha de Joseph Hooker e esposa do então diretor de Kew, William Thieselton-Dyer, dedicou-se a copiar as mais de trezentas pranchas de orquídeas brasileiras de Barbosa Rodrigues (Sprunger et alii, 1996) (Figura 6).
14 Amaral (1951), Ofiólogo Lacerda (em João Batista de Lacerda, Comemoração do centenário de nascimento 1846-1946, Publicações Avulsas do Museu Nacional, RJ).
Das 372 pranchas publicadas em preto-e-branco na Flora Brasiliensis, 267 foram copiadas dos originais de Barbosa Rodrigues. Em relação a isso, ele nunca deixou de registrar em seus trabalhos posteriores uma grande frustração em relação à ínfima participação que teve na elaboração da parte de orquídeas da Flora Brasiliensis. A mágoa que ele e outros naturalistas compatriotas tinham referia-se ao fato de que, já que o governo brasileiro subsidiava a monumental obra, deveria incentivar a participação de cientistas nascidos aqui na sua elaboração e não tolerar sua atuação como meros colaboradores dos 'grandes especialistas europeus'.
A iconografia das orquídeas brasileiras de Barbosa permaneceu inédita por mais de um século, só tendo sido finalmente publicada por Sprunger em 1996. Os originais acabaram sendo desmembrados: dos seis volumes produzidos, o quarto (provavelmente após a sua morte) foi levado para os Estados Unidos e hoje encontra-se depositado na Universidade de Harvard, no Oakes Ames Herbarium.
15 Tribo indígena que vivia às margens do rio Jatapu, afluente do rio Uatumã, no Pará.
16 Segundo o botânico do Museu Nacional, prof. Luiz Emygdio de Mello Filho, a pariquina foi comercializada até meados de 1930 (comunicação pessoal).
A afirmação de Barbosa Rodrigues como cientista no cenário nacional e internacional
Em seu artigo 'Mbaé-Kaá', Barbosa Rodrigues (apud Hoehne, 1925) destacou:
Os índios agrupam as espécies em gêneros e conhecem perfeitamente a utilidade do sistema binário, sem contudo o terem aprendido do sábio sueco. Se perguntarmos a um silvícola o que são: merity, assahy, buriti, e outras palmeiras, eles responderão que são pindós, isto é, plantas da família das palmeiras. Na taxionomia os nomes que eles dão às espécies vegetais traduzem muitas vezes bem melhor os caracteres das mesmas, que aqueles escolhidos pelos discípulos de Lineu.
Avesso a empregar medicamentos privilegiados e secretos, cuja ação por esses mesmos motivos considero problemática, não representando a meus olhos senão uma variante dos numerosos meios usados e abusados do mais desenfreado mercantilismo, não trepidei, contudo, em prescrever a pariquina aos doentes que se entregavam aos meus cuidados profissionais... Não me arrependi; muito pelo contrário, é com grande satisfação que o declaro, não só emprego quotidianamente a pariquina como julgo de meu dever aconselhar a divulgação do seu emprego a bem do nosso povo tão flagelado por afecções hepáticas.
17 A Vellosia teve seu primeiro volume impresso em Manaus em 1888. Retirada de circulação por problemas gráficos, teve sua segunda edição impressa no Rio de Janeiro em 1891.
18 Joaquim Campos Porto, ex-secretário do Museu Botânico do Amazonas e genro de Barbosa Rodrigues, publicou na segunda edição da Vellosia (p. 76), as impressões deixadas pelo viajante Frank Vincent em Around and about South América, sobre o Museu Botânico.
Na década de 1880, Barbosa foi convidado por Capanema para trabalhar na fábrica de formicida que este possuía em Rodeio. Não tendo até então conseguido se firmar profissionalmente como botânico, para lá mudou-se Barbosa Rodrigues com a família, permanecendo alguns anos na região. Durante essa temporada, Barbosa aproveitou para dar prosseguimento a seus estudos sobre orquídeas, publicando já em 1881 trabalho com descrição de espécies novas coletadas na região.
Em 1883, novamente graças à influência de Capanema, Barbosa foi chamado pelo governo imperial para dirigir o recém-criado Museu Botânico do Amazonas. Após 13 anos de esforços para ser reconhecido como pesquisador em botânica, Barbosa finalmente foi convidado a atuar como profissional da área e a dirigir uma instituição científica. Essa fase contribuiu decisivamente para consolidar sua posição de destaque entre os estudiosos da flora brasileira.
Responsável pela concepção básica do museu, Barbosa Rodrigues apresentou um plano ambicioso, no qual os estudos de botânica aplicada à medicina e à indústria tinham lugar de destaque. Entre as propostas, foram incluídas a análise química e extração de material para experiências fisiológicas e terapêuticas, "para se conhecer sua ação e seus efeitos sobre o organismo humano", e a análise de substâncias com potencial para utilização na indústria. Além de um herbário, a criação de uma revista especializada também foi programada. Denominada Vellosia, em homenagem ao botânico frei Velloso, o periódico científico teve apenas um número
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes manuscritas
Fontes impressas
Recebido para publicação em junho de 2001.
Aprovado para publicação em agosto de 2001.
Referências bibliográficas
- Arquivos do Royal Botanic Gardens, Kew, manuscrito D.C. vol. 103, doc. 305-306. Museu Histórico, RJ. Arquivo Capanema, manuscrito GScrp 10.
- Arquivo Histórico-Administrativo do Museu Nacional, pasta 3, doc. 157, 1850; pasta 13, doc. 35, 1874; pasta 15, docs. 31, 33 e 34, 1876. Museu Imperial de Petrópolis.
- Arquivo d. Pedro II, Correspondęncia Barbosa Rodrigues, 1870;
- Arquivo d. Pedro II, M. 25, doc. 913.
- Barbosa Rodrigues, J. 1903 Sertum Palmarum Brasiliensium. Relation des palmiers nouveaux du Brésil Bruxelas, Imprimerie Veuve Monnom, 2 vols.
- Barbosa Rodrigues, J. 1888 'Palmae Amazonensis Novae'. Vellosia, vol. 1, pp. 54-5.
- Barbosa Rodrigues, J. 1882 Genera et species orchidearum novarum quas collegit, descripsit et iconibus illustravit. Rio de Janeiro, Typographia Nacional.
- Barbosa Rodrigues, J. 1881 'Orchideae rodeienses et alterae ineditae'. Revista de Engenharia, vol. 3, no 7, pp. 109-10; vol. 3, no 9, pp. 143-4.
- Barbosa Rodrigues, J. 1879 'Discurso sobre o curare'. Annaes Braziliensis de Medicina, vol. XXXI, p. 135.
- Barbosa Rodrigues, J. 1879 Protesto-Appendice ao Enumeratio Palmarum Novarum. Rio de Janeiro, Typographia Nacional.
- Barbosa Rodrigues, J. 1877 Genera et species orchidearum novarum Rio de Janeiro, C. et H. Feiuss.
- Barbosa Rodrigues, J. 1875 Enumeratio Palmarum Novarum quas Valle Fluminis Amazonum inventas et ad Sertum Palmarum Rio de Janeiro, Brown & Evaristo.
- Brown, C. B. e Lidstone, W. 1878 Fifteen thousand miles on the Amazon and its tributaries Londres, E. Stanford.
- Campos Porto, J. 1891 'Histórico do Museu Botânico do Amazonas'. Vellosia, 2a ed., pp. 61-80.
- Capanema, G. S. de 1876 'Estudos botânicos'. Ensaios de Sciencia, vol. 1, pp. 1-11, figs.
- Capanema, G. S. de 1859 'Quais as tradiçőes ou vestígios geológicos que nos levam ŕ certeza de ter havido terremotos no Brasil?'. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 22, pp. 135-59.
- Figueiredo, C. H. 1879 'Ordem do dia'. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 42 (parte II), pp. 283-5.
- Figueirôa, S. 1995 As cięncias geológicas no Brasil: uma história social e institucional, 1875-1934 Săo Paulo, Hucitec.
- Fonseca, M. R. F. da 1996 'As conferęncias populares da Glória: a divulgaçăo do saber científico'. História, Cięncias, Saúde Manguinhos, vol. 2, no 3, pp. 135-66.
- Gazeta de Notícias 23.2.1879 Carta de B. Rodrigues ao redator do jornal criticando artigo de Clemente Jobert sobre o curare publicado na Gazetilha do Jornal do Commercio
- Gazeta de Notícias 9.9.1878 Declaraçăo de Lacerda encerrando a questăo por năo ter Rodrigues provado suas asserçőes.
- Guimarăes, A. Barbosa Rodrigues 1952 Resenha bibliográfica. Rodriguesia, vol. 27, pp. 191-212.
- Henderson, A 1995 The palms of the Amazon Nova York, Oxford University Press.
- Hoehne, F. C. 1941 O Jardim Botânico de Săo Paulo Săo Paulo, Secretaria da Agricultura de Săo Paulo.
- Hoehne, F. C. 1925 Album da secçăo de botânica do Museu Paulista e suas dependencias etc. Săo Paulo, Imprensa Methodista.
- Ihering, H. von 1911 'Joăo Barbosa Rodrigues'. Revista do Museu Paulista, vol. 8, pp. 23-37.
- Jornal do Commercio 10.9.1878 Declaraçăo do dr. Nuno de Andrade de que as conclusőes de Lacerda săo sem fundamento e insustentáveis.
- Jornal do Commercio 30.8.1878 Ata da reuniăo havida para realizaçăo das experięncias de B. Rodrigues sobre o curare.
- Knight, D. 1986 'William Swainson: naturalist, authour and illustrator'. Archives of Natural History, vol. 13, nş 3, pp. 275-290.
- Kury, L. 1998 'Cięncia e naçăo: romantismo e história natural na obra de E. J. da Silva Maia'. História, Cięncias, Saúde Manguinhos, vol. 5, no 2, pp. 267-91.
- Lacerda Filho, J. B. de 24.8.1878 'Sobre o Strychnos triplinervis'. Jornal do Commercio.
- Lopes, M. M. 1997 O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as cięncias naturais no século XIX. Săo Paulo, Hucitec.
- Martius, C. F. P. von; Eichler, A. G. e Urban, I. (orgs.) 1840-1906 Flora Brasiliensis, enumeratio plantarum de Brasilia Monachii, Lipsiae, R. Oldenbourg.
- Martius, C. F. P. von 1823-53 Historia Naturalis Palmarum Leipzig, Weigel.
- Mello Leităo, C. de 1937 A biologia no Brasil Săo Paulo, Companhia Editora Nacional. Coleçăo Brasiliana, vol. 99.
- Mori, S. e Ferreira, F. 1987 'A distinguished Brazilian botanist, Joăo Barbosa Rodrigues (1842-1909)'. Brittonia, Nova York, vol. 39, no 1, pp. 73-85.
- Neiva, A. 1929 Esboço histórico sobre a botânica e zoologia no Brasil Săo Paulo, Sociedade Impressora Paulista.
- O Cruzeiro 2.9.1878 Sr. dr. Barbosa Rodrigues e o urary. Ata da reuniăo havida para realizaçăo das experięncias de Rodrigues sobre o curare.
- Parkinson, P. 1984 'William Swainson 1789-1855: relics in the antipodes'. Em M. E. Hoare e L. G. Bell (orgs.), In Search of New Zealand's Scientific Heritage Boletim 21, Wellington, The Royal Society of New Zealand.
- Pereira, N. 1942 Um naturalista brasileiro na Amazônia Manaus, Imprensa Pública.
- Sá, M. R. 1998 'James William Helenus Trail: a British naturalist in nineteenth-century Amazonia'. Historia Naturalis, vol. 1, pp. 99-254.
- Sá, M. R. e Domingues, H. B. 1996 'O Museu Nacional e o ensino das cięncias naturais no Brasil no século XIX'. Revista da Sociedade Brasileira de História da Cięncia, vol. 15, pp. 79-88.
- Salgado, D. B. R. 1945 Barbosa Rodrigues, uma glória do Brasil Rio de Janeiro, Editora A Noite.
- Sprunger, S.; Cribb, P. J. W. e Toscano de Brito, A. (orgs.) 1996 Joăo Barbosa Rodrigues iconographie des orchidés du Brésil Reinhardt, A. Basle.
- Trail, J. W. H. 1877a 'New palms collected in the valley of the Amazon in North Brazil in 1874'. Journal of Botany, vol. 15, pp. 1-10, 40-9, 75-81.
- Trail, J. W. H. 1877b 'Some remarks on the synonymy of palms of the Amazon valley'. Journal of Botany, vol. 15, pp. 129-32.
- Trail, J. W. H. 1876 'Description of new species and varieties of palms collected in the valley of the Amazon in North Brazil in 1874'. Journal of Botany, vol. 14, pp. 323-33, 353-9.
