Memórias póstumas da loucura mulata: as apropriações de Machado de Assis sob o corte patológico

Posthumous memoirs of mulatto insanity: a pathological interpretation of Machado de Assis’s appropriations

Alexandre de Carvalho Castro Sobre o autor

Resumo

Estudos para identificar eventuais relações entre a criação artística e a psicopatologia – desde o século XIX, na Europa – influenciaram o pensamento brasileiro acerca desse tema. O objetivo deste artigo, sob a óptica da história das ciências da saúde, consistiu em analisar as perspectivas, ao longo do século XX, segundo as quais as doenças neurológicas e psiquiátricas de Machado de Assis foram determinantes na criação e no conteúdo de suas produções literárias. A partir de um referencial teórico e metodológico baseado em Bakhtin, verificou-se que muitos autores consideraram a epilepsia de Machado de Assis o principal elemento responsável por seu ato criador, o que permitiu revisar a apropriação de diferentes teorias psiquiátricas no Brasil, assim como diversos conceitos teóricos.

história da psiquiatria; história da psicologia; Mikhail Bakhtin (1895-1975; Machado de Assis (1839-1908; literatura

Abstract

Studies to identify possible relations between artistic creation and psychopathology (starting in nineteenth-century Europe) have influenced Brazilian thought on this topic. The objective of this article, from the perspective of the history of health sciences, is to analyze viewpoints throughout the twentieth century which considered the neurological and psychiatric diseases of Machado de Assis as fundamental to the development and content of his literary work. A theoretical and methodological reading based on Bakhtin found that many authors considered Machado de Assis’s epilepsy to be the main reason behind his creativity, which allowed a review of the appropriation of different psychiatric theories in Brazil, as well as various theoretical concepts.

history of psychiatry; history of psychology; Mikhail Bakhtin (1895-1975; Machado de Assis (1839-1908; literature

A história das ciências da saúde é pródiga em mostrar o quanto saberes inicialmente vinculados ao horizonte da psiquiatria atravessaram fronteiras disciplinares e desenvolveram influências variadas. Segundo o foco de interesse deste artigo, no entanto, convém ressaltar que isso é particularmente verdadeiro no que diz respeito à construção de premissas para dar base de sustentação às interpretações literárias e culturais, mormente aquelas interessadas em identificar eventuais relações entre a criação artística e a psicopatologia (Lima, 2009LIMA, Elizabeth Maria F. de A. Machado de Assis e a psiquiatria: um capítulo das relações entre arte e clínica no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.16, n.3, p.641-654. 2009.).

Na virada dos séculos XIX e XX, por exemplo, já era prática corrente na Europa considerar que autores como Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) e Gustave Flaubert (1821-1880) deviam sua criatividade à epilepsia ou histeria (Scotti, 2003SCOTTI, Sérgio. Culpa e gozo, psicanálise e literatura. Psicologia: Reflexão e Crítica, v.16, n.1, p. 217-221. 2003.), supostamente porque tais doenças desempenhariam um papel crucial na criação e no conteúdo de suas produções literárias (Fari, 2003FARI, Franci. Epilepsy and literary creativeness: Fyodor M. Dostoevsky. Friulian Journal of Science, n.3, p.51-67. 2003.). Uma revisão bibliográfica muito ampla das relações entre diferentes literatos e a psicopatologia, apresentando a diversidade das linhas teóricas sobre os quadros nosológicos, no entanto, fugiria ao enquadramento aqui pretendido, uma vez que o horizonte dessa pesquisa é bem mais estrito.

Mesmo considerando-se apenas o contexto brasileiro, tais relações entre literatura e saberes médico-psicológicos mantêm extensa produção historiográfica. Alguns estudos, com foco mais amplo, investigaram até mesmo o quanto aspectos do discurso médico constituíram matrizes de interpretações cientificistas sobre o povo brasileiro e sua raça (Rago, 1997RAGO, Margareth. Sexualidade e identidade na historiografia brasileira. Resgate: Revista Interdisciplinar de Cultura, v.6, n.1, p.59-74. 1997., p.65), sobretudo a partir dos anos 1920 e 1930, ainda que muitas vezes esses saberes não tenham sido citados de modo formal e objetivo, mas apenas genericamente referidos. Para além, então, desse cenário de multifacetadas análises voltadas para demonstrar vínculos dos saberes e representações médico-psiquiátricas na literatura sobre o país, este artigo tem como cerne principal a questão fulcral de Machado de Assis.

Esse recorte se justifica porque, em função da disseminação, no Brasil, de obras acerca de doenças psiquiátricas e criação literária, o caso de Machado de Assis pode ser compreendido, bakhtinianamente, como expressão dos dialogismos mantidos no âmbito de práticas socioculturais bastante difundidas desde finais do século XIX, nas quais o discurso das ciências médicas foi dialogicamente incorporado em análises literárias.

De modo efetivo, o fato de que muitos biógrafos machadianos desenvolveram explicações de sua obra em função de uma leitura supostamente marcada pelas experiências individuais de Machado se deve sobretudo a dois fatores. O primeiro deles é que, ao escreverem suas críticas literárias, alguns autores – tais como Alfredo Pujol (advogado e jornalista), Luiz Ribeiro do Valle (médico), Américo Valério (médico), Lucia Miguel Pereira (escritora), Augusto Meyer (jornalista), Peregrino Júnior (jornalista e médico), Afrânio Coutinho (escritor), José Leme Lopes (médico) e Maria Luiza Seminerio (psicanalista), entre outros – desenvolveram dialogismos com o saber psiquiátrico da época. Entendendo-se, nesse sentido, o conceito de “dialogismo” como um elemento constitutivo do próprio discurso pela dinâmica da incorporação do discurso do outro (Bakhtin, 2004BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec. 2004.), pois a noção de que a expressão literária exterior dava conta de um comprometimento psicopatológico interior foi construída como verdade científica em diferentes momentos dessa história pregressa.

O segundo fator a ser destacado, entretanto, é que a vida desse romancista brasileiro tinha peculiaridades que possibilitaram usá-lo para ilustrar um enfoque literário das teorias psiquiátricas (Passos, 2002PASSOS, Cleusa R.P. Crítica literária e psicanálise: contribuições e limites. Literatura e Sociedade, v.5, p.167-185. 2002.). De fato, não só no início, mas ao longo de todo o século XX, a obra de Machado de Assis foi recorrentemente lida e relida sob critérios que sobrelevaram dinâmicas psíquicas. Tais leituras são de especial interesse para a história das ciências e da saúde, pois mostram como as teorias psiquiátricas ensejaram dado tipo de apropriação sociocultural. Principalmente a partir do contexto da belle époque brasileira, cujo verniz de erudição francesa como referência cultural primava por comparar Flaubert e Machado, tendência, aliás, que se mantém até hoje (Galíndez-Jorge, 2013GALÍNDEZ-JORGE, Verónica. Machado de Assis e Gustave Flaubert: do comparatismo possível a um comparatismo desejado. Ponto-e-Vírgula: Revista de Ciências Sociais, n.13, p.78-90. 2013.).

Ao que parece, além do quadro neurológico da epilepsia, a história de vida de Machado também se mostrou especificamente adequada a essas leituras psicologizantes. Por desconsideração do fato de que a ascensão social de mulatos foi um fenômeno social característico dos incipientes centros urbanos do Brasil oitocentista (Freyre, 2004FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. São Paulo: Global. 2004.),1 1 Em que pese a atual problemática quanto ao uso do termo “mulato”, com etimologia supostamente oriunda de “mula” (do latim mulus), e as restrições por conta de seu teor qualificado como pejorativo, a alusão feita neste artigo reproduz o uso da terminologia dos autores referidos, sem assumir caráter essencialista nem tampouco reificar e validar o processo político de branqueamento promovido pela elite brasileira (Munanga, 2007), cujas teses racistas, aliás, foram objeto de críticas irônicas desferidas pelo próprio Machado de Assis (Silva, 2014; Castro, 2015). Fato é que, em função de noções vinculadas à degeneração racial, alguns comentadores machadianos atribuíram à condição racial algumas de suas fraquezas: “[tendo] progenitores rebentos da raça preta [… tinha doença…] causada pela herança mista … assestada em terreno predisposto … descendente de negros, tudo isso concorreu para o retraimento e submissão” (Valério, 1930, p.12). intérpretes machadianos em geral o consideram dono de uma biografia incomum. Mestiço e pobre, filho de uma lavadeira portuguesa e de um pintor de paredes, saiu do morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e se transformou em trabalhador manual, tipógrafo, jornalista, poeta, dramaturgo, crítico literário, romancista e, já em idade mais avançada, presidente da Academia Brasileira de Letras.

Diante dessa trajetória pessoal, muitos escritores advogaram a opinião de que seus contos e romances seriam mais bem compreendidos à luz da superação que Machado experimentou em relação à vida de pobreza e às marcas da negritude (Candido, 1971CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. v.2. São Paulo: Martins. 1971.), ou ainda que os temas recorrentes nos textos machadianos se devem a aspectos também recorrentes de sua existência pessoal (Piza, 2005PIZA, Daniel. Machado de Assis: um gênio brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial. 2005.).

Vale lembrar, todavia, que não só pela biografia, mas pela bibliografia acerca de Machado de Assis, foi-se criando paulatinamente um lastro teórico marcado pelo forte estereótipo de que o autor de Memórias póstumas era um absenteísta, ou seja, alguém ausente e distante da realidade sociopolítica circundante. Essa tese do absenteísmo de Machado de Assis, muito forte, por exemplo, em órgãos culturais do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que davam suporte ao Estado Novo de Getúlio Vargas (Salla, 2012SALLA, Thiago Mio. O Estado Novo e as críticas a Machado de Assis na primeira metade dos anos 1940. Machado Assis Linha, v.5, n.10, p.83-101. 2012.), foi primeiramente defendida por Sílvio Romero que, em 1897, escreveu um livro criticando-o, entre outras coisas, por não se ter engajado nas principais lutas de finais do século XIX: os embates abolicionistas e republicanos.2 2 Alguns comentaristas avaliam a crítica de Sílvio Romero como uma mera reação passional (Rego, 1989, p.12; Chagas, 1994, p.96), por causa das ponderações de Machado anteriormente apresentadas em seu ensaio “A nova geração”, originalmente publicado em dezembro de 1879: “No livro do Sr. Romero achamos essa luta entre o pensamento que busca romper do cérebro, e a forma que não lhe acode ou só lhe acode reversa e obscura: o que dá a impressão de um estrangeiro que apenas balbucia a língua nacional” (Assis, 1973, p.835). Para uma ampla análise de toda a celeuma, conferir Magalhães Júnior (1981). De acordo com esse escritor sergipano, numa crítica ácida, Machado de Assis até foi representante do espírito brasileiro, “mas num momento mórbido, indeciso, anuviado, e por um modo incompleto, indireto, e como que a medo” (Romero, 2002ROMERO, Sílvio. Estudos de literatura contemporânea (Edição Comemorativa). Rio de Janeiro: Imago. 2002., p.205).

Assim, o que se constata é que essa tônica – a ideia era que Machado experimentara uma vivência estritamente individual, desligado das condições sociais brasileiras – com o tempo foi criando raízes. Muitos machadianos, então, empreenderam viagens ao centro do psiquismo do bruxo do Cosme Velho, imaginando que na fonte da subjetividade interior existiria a causa da expressão exterior. Numa eventual busca, segundo alguns, pelas camadas mais profundas do que seria a formação do pensamento individual.

O objetivo deste artigo, em face do cenário apresentado, é analisar as leituras, interpretações e apropriações sobre a obra machadiana que se basearam em premissas nas quais doenças neurológicas e psiquiátricas de Machado de Assis desempenharam importante papel na criação e conteúdo de suas produções literárias. Nesse sentido, representa importante contribuição porque amplia resultados de estudos anteriores – um deles com recorte mais reduzido, baseado em apenas “três estudos produzidos nos anos 1920 e 1930” (Lima, 2009LIMA, Elizabeth Maria F. de A. Machado de Assis e a psiquiatria: um capítulo das relações entre arte e clínica no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.16, n.3, p.641-654. 2009., p.642) – e também pelo motivo de apresentar enfoque diferenciado, com abordagem pautada nas proposições bakhtinianas (Castro, Portugal, Jacó-Vilela, 2011). Tal ampliação do escopo de análise, portanto, implica tanto a incorporação de um número maior de estudos machadianos quanto a exploração de novas possibilidades analíticas, conquanto com convergências e aproximações com outras investigações, mormente a de Lima (2009)LIMA, Elizabeth Maria F. de A. Machado de Assis e a psiquiatria: um capítulo das relações entre arte e clínica no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.16, n.3, p.641-654. 2009..

Destarte, a base teórico-metodológica de tal análise alude diretamente à perspectiva de Mikhail Bakhtin, sobretudo porque, para esse autor russo, um grave equívoco acontece quando a investigação textual sucumbe ao psicologismo, ou seja, quando se estabelece o pressuposto de que aspectos individuais dão conta da produção do discurso. Pois, em suas palavras, “a consciência individual não é o arquiteto dessa superestrutura ideológica, mas apenas um inquilino do edifício social dos signos ideológicos” (Bakhtin, 2004, p.36).

O dialogismo bakhtiniano, por conseguinte, implica forte inflexão nessa tendência da “fortuna crítica” (Chagas, 1994CHAGAS, Wilson. A fortuna crítica de Machado de Assis. Porto Alegre: Movimento. 1994.) de Machado de Assis, que interpreta sua produção textual como ato puramente individual, como expressão de sua consciência, como fruto de seus desejos, gostos, intenções e impulsos criadores. Basicamente porque, de acordo com Bakhtin (2004)BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec. 2004., essa linha de análise, que concebe um dado autor como arquiteto, planejador e planificador da expressão total das relações culturais e simbólicas contidas em sua obra, é inadequada por dois motivos básicos.

O primeiro deles é que, dentro dessa perspectiva, a enunciação ganha um caráter meramente monológico e passa a ser entendida como se todo o conteúdo temático tivesse se formado no interior do psiquismo, ganhando uma expressão objetiva apenas em função de algum código de signos exteriores. O outro motivo é que desse modo se supõe, no âmbito da consciência do indivíduo, certo dualismo entre o que é interior e o que é exterior, com evidente primazia dos conteúdos interiores.

Ora, o enfoque bakhtiniano demanda basicamente a eliminação dessa distinção qualitativa entre um suposto conteúdo interior e a expressão exterior. Isso porque o conteúdo a exprimir e sua objetivação externa são criados a partir de um único e mesmo material – o contexto social.

Leituras e interpretações da obra de Machado de Assis

A pesquisa realizada levou a termo um levantamento bibliográfico criterioso de críticos e analistas da obra de Machado de Assis. De toda forma, não é possível, neste artigo, fazer um tratamento bibliográfico muito exaustivo, a ponto de incluir autores e escritores de menor expressão. Há limitações de espaço e, em todo caso, seria improdutivo, pois o estudo analítico das diferentes etapas de recepção, apropriação e interpretação da obra de Machado de Assis já foi feito – com muito rigor – por Antonio Candido, no ensaio “Esquema de Machado de Assis”, originalmente produzido em 1969, e incluído no livro Vários escritos (Candido, 1970CANDIDO, Antonio. Esquema de Machado de Assis. In: Candido, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades. p.13-32. 1970.). O mesmo pode ser dito do levantamento da extensa bibliografia dispersa em jornais, livros e revistas; igualmente já elaborada e publicada numa relação com mais de três mil registros (Machado, 2005MACHADO, Ubiratan. Bibliografia machadiana, 1959-2003. São Paulo: Edusp. 2005.). De fato, as referências a obras e autores aqui apresentadas visam apenas apontar tendências gerais nas leituras psiquiátricas feitas por comentadores machadianos que relacionaram sua obra com quadros nosológicos da psiquiatria.

Dessa forma, verificou-se que os intérpretes adeptos da orientação do psicologismo, numerosos, reproduziram basicamente a seguinte argumentação: a epilepsia de Machado de Assis, entendida em termos de uma doença psíquica, foi a força criadora que exteriorizou objetivamente os conteúdos subjetivos encontrados em sua obra.3 3 A etimologia da palavra epilepsia é de origem grega (epi,“sobre”, lepsem,“abater”), no sentido de algo que leva o indivíduo a ser abatido. A caracterização dessa doença, mesmo segundo a orientação científica que se desenvolveu a partir do século XIX, permaneceu durante muito tempo envolta num quadro nosológico pouco definido. Do ponto de vista histórico, alguns estudiosos são tidos como precursores nesses estudos: Jean-Étienne Dominique Esquirol (1772-1840), Auguste Morel (1809-1879) e Cesare Lombroso (1836-1909). Esquirol destacou as manifestações psíquicas da epilepsia sob a forma de delírios, os quais considerava estados de alienação associados à doença. Morel, por sua vez, assinalou que a irritabilidade constituía um traço dominante dos epilépticos. Cesare Lombroso, que defendeu uma hierarquia social representada, no ápice, pela raça ariana e na parte inferior por negros e mestiços, usou esses conceitos de Morel, na quarta edição de L’uomo delinqeente para relacionar a epilepsia à degeneração e adicioná-la ao atavismo na concepção de uma etiologia do “criminoso nato” (Yacubian, Caboclo, 2011, p.469). No início do século XX, ocorreram poucos desenvolvimentos. Pensava-se que a epilepsia fosse uma doença incurável, que evoluiria para um estado de demência. Além disso, costumava-se fazer generalizações a partir das formas severas para todos os casos, ora classificados como neurose, ora concebidos numa evolução marcada por episódios psicóticos. A indicação de um substrato neurofisiológico da atividade epiléptica por meio do eletroencefalograma começou somente em meados do século XX (Soares, 2004). Dessa forma, já que alguns historiadores da psiquiatria assinalam que o conceito de epilepsia se desenvolveu também em função das mudanças históricas na conjuntura social, cultural e política (Moreira, 2004), pode-se aludir que as classificações e diagnósticos atribuídos a Machado de Assis exemplificam alguns desses desenvolvimentos.

Em apoio a esse pensamento, tais comentadores aludiram e exploraram alguns aspectos biográficos (Barbosa, 1957BARBOSA, Francisco de A. Machado de Assis em miniatura. São Paulo: Melhoramentos. 1957.), tendo por base depoimentos pessoais, principalmente em torno das crises de epilepsia.4 4 Pereira (1988, p.34) afirma ter ouvido relatos de ataques epilépticos de Machado de “pessoas que conviveram intimamente com o casal”, dona Fanny de Araújo e as irmãs Pinto da Costa, amigas pessoais de dona Carolina. Um dos mais citados, de sua esposa, dona Carolina, é o que permite vincular as mudanças de estilo dos primeiros romances para a produção posterior. Os historiadores presumem que, dois anos depois de casado, Machado teve a primeira crise da fase adulta (Coutinho, 1959COUTINHO, Afrânio. A filosofia de Machado de Assis e outros ensaios. Rio de Janeiro: Livraria São José. 1959.), pois, segundo o relato da esposa, ele declarara, voltando à consciência ainda meio atordoado, ter sofrido em pequeno umas coisas esquisitas que cessaram posteriormente. Outra opinião compartilhada é que o mal orgânico se intensificou pouco antes de escrever Iaiá Garcia, o último livro do seu período romântico (Pujol, 1917PUJOL, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Tipografia Brasil. 1917., p.108). O período de finais de 1878 e início de 1879, quando passou alguns meses em Nova Friburgo se recuperando da doença, também é tido como responsável pela grande transformação qualitativa na sua obra, visto que, na perspectiva de alguns críticos literários, ao se recuperar da moléstia interna robusteceu também o seu talento de romancista (Pereira, 1988PEREIRA, Lucia M. Machado de Assis. Belo Horizonte: Itatiaia. 1988., p.168).

Em suma, da perspectiva dos referenciais bibliográficos, pode se considerar que as linhas mestras dessa interpretação foram definidas pelas conferências promovidas pela Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, no Clube Germânia, de novembro de 1915 a março de 1917. Proferidas por Alfredo Pujol, essas sete conferências, acolhidas inicialmente num ambiente de saraus, poesias e declamações, acabaram sendo reunidas em um livro – Machado de Assis – considerado a primeira biografia machadiana (Werneck, 1996WERNECK, Maria Helena. O homem encadernado. Machado de Assis na escrita das biografias. Rio de Janeiro: Eduerj. 1996.). Nessa obra, sempre referida como clássica (Chagas, 1994CHAGAS, Wilson. A fortuna crítica de Machado de Assis. Porto Alegre: Movimento. 1994.), o conferencista Alfredo Pujol desenvolveu um viés de interpretação que, em certo sentido, influenciou muitos outros machadianos. Referindo-se de maneira mais específica ao romantismo, afirmou que, por conta de sua extrema originalidade, Machado não sofreu a ação do ambiente de sua época e, tendo sido superior ao seu tempo, viveu a vida interior do pensamento.

A análise de Pujol, que traçou um paralelo entre o ilustre romancista brasileiro e Flaubert (autor de Madame Bovary), também epiléptico, lançou mão de um sugestivo dado documental para mostrar o pudor e horror de Machado à sua “nevrose”: na primeira edição das Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado havia escrito a palavra “epilética”, e, a partir da segunda edição, preferiu substituí-la por “convulsa”.5 5 Esse aspecto curioso da crítica textual machadiana foi claramente destacado por Pujol: “... descrevendo o padecimento de Virgilia ao ver morrer o antigo amante, tinha Machado de Assis escrito esta frase: ‘Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica ...’ Nas edições ulteriores do livro, a palavra ‘epiléptica’, palavra terrível e repugnante, foi substituída: “Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa” (Pujol, 1917, p.109). Citado por Meyer (1935) e Peregrino Júnior (1938), esse argumento de Alfredo Pujol foi contestado por Valle (1918) e, depois deste, por Costa (1938) e Abreu (1939). Realmente, para Luiz Ribeiro do Valle, cuja tese procurou mostrar o quanto Machado de Assis se apropriou com precisão e erudição de certos conceitos científicos, “esta substituição era devida, não ao horror de Machado pela palavra epiléptica, mas sim à sua honestidade nos seus processos de escrever certo e traçar com o máximo rigor científico o caráter de seus personagens; assim ele corrigiu um descuido da primeira edição, pois Virgilia, caso rolasse, não rolaria nas convulsões da epilepsia mas sim nas convulsões de histeria” (Valle, 1918, p.121). Costa (1938) chegou até a conjecturar que tal mudança de “epiléptica” por “convulsa” – “para maior precisão científica” (p.7) – poderia ter ocorrido por observação de Miguel Couto, seu médico particular. Em que pese o caráter frágil de algumas dessas argumentações, elas servem, no entanto, para exemplificar o campo teórico que constituía as interpretações dos comentadores e biógrafos de Machado de Assis naquele período.

Essa primeira biografia de Machado de Assis é bastante exemplar da linha que Bakhtin (2004)BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec. 2004. denominou “subjetivismo individualista”. Ou seja, para o biógrafo, a par das causas sociais que determinaram aspectos do pessimismo (supostamente) encontrado nos textos de Machado de Assis, maior destaque devia ser dado ao seu mal incurável, às “condições fisiológicas, criadas pelo veneno da nevrose que atormentou a sua existência” (Pujol, 1917PUJOL, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Tipografia Brasil. 1917., p.107).

Luiz Ribeiro do Valle, em Psicologia Mórbida na Obra de Machado de Assis, tese à cadeira de psiquiatria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, publicada originalmente em 1917, e em segunda edição no ano seguinte, se baseou em Pujol para igualmente concordar que “Machado de Assis quis que o seu estado mental patológico de epiléptico não se refletisse nas suas obras, mas neste intento foi tão infeliz como o seu glorioso companheiro de arte e sofrimento: Flaubert” (Valle, 1918VALLE, Luiz R. do. Psicologia mórbida na obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Tip. Lit. Pimenta de Mello. 1918., p.167).6 6 Em 1921, Ribeiro do Valle escreveu outra obra – Certos escritores brasileiros psicopatologistas – na qual analisou pela perspectiva psiquiátrica os personagens de escritores como Coelho Netto, Renato Vianna e Monteiro Lobato (Lima, 2009), revisitando brevemente Machado (Passos, 2002).

Nos anos 1930, particularmente, desenvolveu-se de modo ainda mais intenso a tendência – compartilhada por vários machadianos que lançaram livros no período – de se buscar na vida do autor apoio para o que se encontrava na obra. Dentro desse enfoque, um estudioso que precisa ser considerado é Américo Valério. Sua obra, Machado de Assis e a psicanálise, publicada em 1930, desenvolveu relações entre o estilo machadiano e sua doença, alegando que ela era marcada pela hereditariedade e “colateralidade de taras neuropsicopáticas”, em que representavam preponderante papel “a sífilis e a diátese neoplástica”, o que lhe dava “o aspecto de paroxismos psíquicos e convulsivos” (Valério, 1930VALÉRIO, Américo. Machado de Assis e a psicanálise. Rio de Janeiro: Tip. Aurora H. Santiago. 1930., p.59). Discordando explicitamente de Pujol, procurou esclarecer que, no caso machadiano, a denominação geralmente dada – de “neurose/nevrose” – à epilepsia era equivocada. Segundo sua avaliação, tratava-se antes de uma “psicose”, onde o psiquismo assumia um caráter mais importante que os ataques convulsivos.

Essa investigação autorreferida como psicanalítica, a pretexto de incorporar os estudos freudianos, então ainda pouco conhecidos no país, alegou que a vivência machadiana foi uma explosão de latente psicose epiléptica causada pela herança mista: “Machado de Assis bem comprova os fatos da degeneração humana, quando se afirma que entre dois degenerados, um aberra no crime, outro, no gênio. Um, é Febronio, outro, é Machado de Assis” (Valério, 1930VALÉRIO, Américo. Machado de Assis e a psicanálise. Rio de Janeiro: Tip. Aurora H. Santiago. 1930., p.63).

A genialidade do prosador que escreveu Memórias póstumas, aliás, fez com que ele fosse, ao longo de toda a obra, considerado o “avô do freudismo”, sob a constatação de que, assim como a relatividade já existia antes de Einstein, também antes de Freud o freudismo já estava presente nos livros de Machado de Assis. Para Américo Valério (1930VALÉRIO, Américo. Machado de Assis e a psicanálise. Rio de Janeiro: Tip. Aurora H. Santiago. 1930., p.140), “como os especialistas fazem, hoje, a inspeção direta da bexiga urinária ou da traqueia, Machado de Assis fez também a inspeção das almas … como um verdadeiro antepassado de Freud”.

Essa linha de análise de Machado de Assis e a psicanálise, associada ao fato de o ciclo de conferências de Alfredo Pujol ter sido republicado pela Editora José Olympio em segunda edição em 1934, contribuiu ainda mais para a influência de tais teses. Fato que ficou evidente tanto pelas resenhas em linhas gerais elogiosas a Pujol, divulgadas junto ao público em jornais da época,7 7 Dentre essas resenhas que celebravam a nova edição de Alfredo Pujol, destacaram-se a de Lúcia Miguel Pereira, na Gazeta de Notícias (Werneck, 1996), e a de Peregrino Júnior (1938) em O Jornal. quanto pela obra lançada em 1935 por Augusto Meyer.

Com efeito, Meyer (1935)MEYER, Augusto. Machado de Assis. Porto Alegre: Globo. 1935. também seguiu a trilha aberta pela hermenêutica da nevrose. Muito embora afirmasse que a epilepsia não tinha como explicar as características literárias machadianas, não considerava indiferente para a análise de sua obra saber que o autor foi um epiléptico: “Um Machado normal não seria mais, quem sabe, Machado de Assis” (p.111).8 8 Abreu (1939) criticou duramente Meyer por conta de algumas contradições: “Depois de haver afirmado que a epilepsia, a seu ver, não podia explicar Machado de Assis, afirma, duas páginas adiante, que o ponto de partida do grande pessimista é a doença” (p.157). O próprio Meyer (1952) parece ter admitido tais contradições, pois no prefácio da segunda edição desse livro de 1935, feita nos anos 1950, escusou-se por não ter tido ânimo para emendar o que pareceu contraditório, esclarecendo que agora lhe ocorria que seu texto dos anos 1930 era mais contra do que sobre Machado.

Em setembro de 1936, uma das mais consagradas biógrafas machadianas, Lúcia Miguel Pereira, publicou, pela Companhia Editora Nacional, o livro Machado de Assis (Estudo crítico e biográfico), defendendo a ideia da ascensão social da condição de mulato e o consequente afastamento em relação ao morro como elementos básicos na formação de Machado, com reflexos claros na produção de seus romances. Há quem considere a interpretação apresentada nessa biografia (ampliada e revisada em 1938, e depois em sucessivas edições no decorrer dos anos), sobretudo a apropriação da análise científica relativa à epilepsia, como influenciada pelo pai da autora, o médico Miguel Pereira, presidente da Academia Nacional de Medicina (em 1911-1912), instituição que, juntamente com a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, editava a publicação Brasil Médico (Werneck, 1996WERNECK, Maria Helena. O homem encadernado. Machado de Assis na escrita das biografias. Rio de Janeiro: Eduerj. 1996.). De fato, Lúcia Miguel Pereira citou Mme. Minkowska,9 9 De origem polonesa, mas radicada na França, Françoise (Franziska) Minkowska (1882-1950), sob a perspectiva da tipologia constitucional, ou seja, a ideia de que um dado tipo de constituição predispõe a pessoa para uma dada doença mental, caracterizou, em um estudo de 1923 sobre epilepsia, a constituição epileptoide ou gliscroide (de “gliscros”, viscoso), descrevendo o epiléptico como uma personalidade viscosa: ora era marcada por explosões de cólera e atos impulsivos, ora era afetiva, lenta e contida (Yahn, 1952). Lúcia Miguel Pereira, todavia, citou Mme. Minkowska apenas a partir da obra La schizophrenia, de seu esposo, Eugène Minkowski (1885-1972), publicada em 1927. psiquiatra responsável pelo conceito de “gliscroidia”, para apontar a constituição gliscroide de Machado de Assis, assim como suas “inequívocas tendências esquizoides” (Pereira, 1988PEREIRA, Lucia M. Machado de Assis. Belo Horizonte: Itatiaia. 1988., p.82).

Em 1938, o livreto Machado de Assis, epiléptico trouxe o texto de um discurso proferido por ocasião da passagem do 96o aniversário de nascimento de Machado, ocorrido três anos antes, no qual Othon Costa criticara Sílvio Romero, para quem o aspecto mórbido na obra de Machado seria mero artifício. De acordo com Costa (1938), Machado era realmente epiléptico, citando, para sustentar sua opinião, alguns depoimentos e, prova cabal, um precioso flagrante fotográfico, datado de 1º de agosto de 1907, em que Machado, acometido de uma crise, estava caído sobre um banco e cercado de populares. Preocupado em fazer uma apologia, Costa (1938)COSTA, Othon. Machado de Assis, epiléptico. Rio de Janeiro: [s.n.]. 1938. ponderou que a doença de Machado proporcionou efeitos positivos aos textos, assim como a doença de certos moluscos produzia pérolas – “A exemplo de Machado de Assis e de todos os outros que Lombroso incluiu na ‘psicose dos gênios’, a mesma cousa se verifica: vingam-se de seu mau destino enobrecendo a humanidade” (p.16).

Naquele que talvez tenha sido o livro mais emblemático dessa época, Doença e constituição de Machado de Assis, Peregrino Júnior (1938) seguiu mais ou menos na mesma direção – para mostrar a “imagem torturada e complexa, difícil e obscura do glicroide que foi também um esquizoide” (p.158) – diagnosticando Machado como um leptosômico de Kretschmer ou um longilíneo astênico de Pende, com certo grau bem nítido de displasia.10 10 Ernst Kretschmer, psiquiatra alemão (1888-1964), relacionou aspectos psicológicos aos morfológicos para estabelecer três tipos classificatórios principais: pícnicos (corpos rechonchudos, feição arredondada e tendência a ser maníaco-depressivos), leptosômicos (magros e com tendência a desenvolver esquizofrenia) e atléticos (robustos e também com tendência à esquizofrenia). Numa perspectiva análoga, Nicola Pende (1880-1970), médico italiano, cunhou o termo “biotipologia” para caracterizar a ciência dos biotipos humanos somáticos e psíquicos: longilíneos ou brevilíneos; estênicos ou astênicos. Respectivamente autores de “A constituição dos corpos e o caráter” (Physique and character, publicado em 1921) e “As fraquezas da constituição: introdução à patologia constitucional” (Le debolezze di costituzione: introduzione alla patologia costituzionale, publicado em 1922), esses teóricos fundamentaram concepções científicas no Brasil, principalmente na década de 1930 (Gomes, 2012), influenciando estudos focados na “constituição”, ou seja, nas particularidades biológicas de cada pessoa, a fim de definir a caracterização das doenças. O próprio termo “constituição” no título da obra de Peregrino Júnior reflete tal terminologia técnica. A clareza de Machado ao escrever seus textos foi interpretada em termos de “tendência explicativa”, e tida como sintoma epileptoide. A eventual referência a animais foi considerada “zoopsia”, sendo esse zoomorfismo sinal de antecedentes alcoólicos na família.11 11 Analisando a zoopsia, Peregrino Júnior (1938, p.119) afirmou: “... tal tendência, comum nos alcoólatras e seus descendentes, pode autorizar a suposição de antecedentes alcoólicos na família do escritor”. Discordando de Peregrino Júnior, Abreu (1939, p.164) ironizou: “Assim, até Cristo era alcoólatra porque empregava imagens de animais nas suas parábolas”.

Peregrino Júnior (1938) usou como método inclusive exames grafopsicológicos dos lapsos e correções nos originais dos romances. Inusitada também foi a relação que viu entre o ritmo ternário – na disposição dos vocábulos, na acentuação e nos períodos lógicos dos últimos romances – e as fases também ternárias da epilepsia, sendo um dos críticos para quem a doença de Machado era a causa não só do conteúdo dos temas abordados, mas do estilo adotado pelo escritor.

Os anos 1930 de fato constituíram uma época muito marcada por essa tendência que delineou Machado de Assis com traços psiquiátricos. Tal abordagem não era, contudo, plenamente consensual, tanto que, ao final dessa década, em 1939, Modesto de Abreu (1939ABREU, Modesto de. Biógrafos e críticos de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Alba Oficina Gráfica. 1939., p.158) fez um levantamento dos Biógrafos e críticos de Machado de Assis, desenvolvendo uma postura crítica em relação a Américo Valério, Meyer e, principalmente, Peregrino Júnior.

É um dado evidente, entretanto, que o livro Doença e constituição de Machado de Assis causou forte influência à época. Hélcio Pereira da Silva publicou, em 1949, A megalomania literária de Machado de Assis (relançado em 1957, em edição revisada como Machado de Assis: a megalomania), ensaio em que fez alusão ao “temperamento tão bem estudado clinicamente pelo Sr. Peregrino Júnior” (Silva, 1949SILVA, Hélcio P. da. A megalomania literária de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Aurora. 1949., p.117), numa abordagem em que também admitiu que na obra machadiana havia um desdobramento de sua personalidade. A megalomania machadiana “era uma forma de libertar recalques ou transferi-los das grades mentais para as da tinta sobre o papel” (p.126), e implicaria uma obra constituída como “compensação psicológica” (p.17) de sentimentos recalcados, por meio de rememoração “enterrada não no esquecimento, mas alojada no subconsciente” (p.46).

Na década de 1950, a segunda edição da obra de Meyer (1952)MEYER, Augusto. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Edição da Organização Simões. 1952. e outro livro ampliado com outros ensaios (Meyer, 1958MEYER, Augusto. Machado de Assis: 1935-1958. Rio de Janeiro: Livraria São José. 1958.) colocaram mais uma vez em evidência essa tendência interpretativa. Brandão (1958)BRANDÃO, Octavio. O niilista Machado de Assis. Rio de Janeiro: Simões. 1958., num ensaio em que acusa Machado de niilista, reitera a ideia de que ele se perdeu em personagens mórbidos e decadentes porque foi um caso patológico. Entrementes, tal ponto de vista aos poucos passou a enfrentar algumas novas resistências. Mota Filho, em palestra proferida na Universidade da Bahia por ocasião do cinquentenário da morte de Machado de Assis, criticou explicitamente Augusto Meyer e os que não se cansavam em ver os textos machadianos como recalques e complexos associados à psicologia mórbida de seu autor (Mota Filho et al., 1958). Seu argumento, contudo, também incorria no psicologismo, pois não estava preocupado em negar a produção do texto como ato puramente individual, mas em afirmar que, conquanto a obra machadiana fosse expressão do psiquismo individual, na consciência de Machado não prevaleciam os aspectos mórbidos.

Para Coutinho (1959)COUTINHO, Afrânio. A filosofia de Machado de Assis e outros ensaios. Rio de Janeiro: Livraria São José. 1959., autor que também pode ser incluído nesse elenco, o fator psiquiátrico era um elemento importante na origem das concepções de Machado. Elemento esse entendido como conflito íntimo resultante de uma consciência de inferioridade advinda tanto da condição social (pela origem humilde e mestiçamento) quanto de sua doença. Para esse autor, que chegou a se referir a uma “constituição psicológica semianormal” (p.34), o mal físico teve uma enorme e deprimente influência nas mudanças de rumo da produção machadiana na fase situada mais ou menos em 1879. Em sua interpretação da obra de Machado de Assis,12 12 A exemplo do que aconteceu com outros estudiosos, em certos momentos Coutinho (1959) oscilou entre atribuir ou não à doença caráter determinante: “Não se pode aceitar que a doença tenha sido a fonte de sua feição de encarar a vida, e muito menos aceitável é a teoria de que a epilepsia é a causa da genialidade ... mas não é possível desconhecer a psicologia diferenciada dos doentes, sobretudo os incuráveis” (p.38). Coutinho (1959)COUTINHO, Afrânio. A filosofia de Machado de Assis e outros ensaios. Rio de Janeiro: Livraria São José. 1959. entendeu que o escritor recalcou essas experiências ruins para, por meio do inconsciente, vingar-se, demonstrando um “ódio sistematizado da vida” (p.40).

Depois de algum tempo, essa metodologia da análise literária psicopatológica, especialmente representativa dos anos 1930 e 1950, emergiu mais uma vez em 1974 com A psiquiatria de Machado de Assis, de José Leme Lopes, e sobretudo em 1981, quando da edição ampliada com o acréscimo do capítulo “A doença de Machado de Assis”. Escrito por aquele que foi um dos responsáveis pela introdução do teste de Rorschach no Brasil na década de 1930, o livro mostra que a loucura machadiana ganhou novo fôlego nos anos 1970 e 1980. Nesse texto, Lopes (1981)LOPES, José Leme. A psiquiatria de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Agir. 1981. diagnosticou o mal de Machado como “epilepsia temporal” e defendeu a ideia de que o fascínio pela doença mental era um deslocamento, feito pelo escritor, “de seu problema vital – a convulsão epilética – para o mais impessoal da loucura” (p.216).

Os artigos da psicanalista Maria Luiza Teixeira de Assumpção Lo Presti Seminério, publicados a partir dos anos 1990 na revista Arquivos Brasileiros de Psicologia – “O projeto inconsciente de Machado de Assis” (1991); “Machado de Assis: história e pré-história” (1993); “O dito e o não dito no discurso geral dos romances de Machado de Assis” (1995); “A mobilização libidinal criativa nos romances de Machado de Assis” (1998); “Ato criador na narrativa dos romances de Machado de Assis” (1999); e “A atualidade de Machado de Assis vista através de uma apreciação transdisciplinar” (2001) – também repercutem tal viés psicologizante. Para a autora, “na organização da libido pelo suposto não dito ... rejeita as mulheres, os pais, e acaba por rejeitar os filhos, como se lê em Memorial de Aires. Acaba por se rejeitar enquanto filho de pais simbolizados: Joaquim-Maria, para se aceitar enquanto filho de Machado e Assis. Mas, todavia, não podemos deixar de reconhecer que toda a produção literária, romances, é fruto da luta por uma maior organização da estrutura psíquica” (Seminério, 1993SEMINÉRIO, Maria Luiza T. de A.L.P. Machado de Assis. História e pré-história. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.45, n.3/4, p.158-197. 1993., p.184).

Outros estudos poderiam ser citados para mostrar essa preocupação com “uma gênese psicossomática” (Bosi, 2002BOSI, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Publifolha. 2002.) dos textos machadianos,13 13 A ênfase na loucura levou os comentadores citados a atribuír o interesse de Machado pelo tema a alguma suposta patologia pessoal. Raimundo Magalhães Júnior, por sua vez, argumentou que tal temática psicológica não derivava da doença do escritor, mas da loucura de Faustino Xavier de Novais, seu cunhado. Em sua opinião, a crônica escrita para a Imprensa Acadêmica em 25 de julho de 1869 era muito sugestiva por abordar o tema da loucura numa época em que o próprio Machado lidava com um louco, cujo estado de saúde estava se agravando. Escrita sob o pseudônimo de Sileno, a crônica afirmava: “Há doidos inofensivos e há doidos diabólicos. Em uma noite desta semana apareceu na rua de Guanabara um da última espécie, que fez tropelias de sérias consequências. Feriu gravemente um homem ... Disseram-me que fugiu de uma casa de orates. Há doidos que fogem e doidos de quem se foge” (citado em Magalhães Júnior, 1981, v.2, p.42). Esse argumento, contudo, independentemente da pessoa a quem a doença é atribuída, ainda permanece suscetível às críticas bakhtinianas (Castro, Portugal, Jacó-Vilela, 2011). alguns, aliás, bem mais recentes.14 14 Há estudos que apontam, por conta da epilepsia, que o próprio Machado se comparou a Flaubert (Chapman, Chapman-Santana, 2000) e os que, na esteira da comemoração dos cem anos de sua morte, reificaram seu estatuto de mulato e epiléptico para enfatizar que ele escreveu sobre “una franja muy notoria de orates e locos” (Cobo Borda, 2008, p.40). Com base na documentação de epilepsia em textos e cartas de Machado de Assis, e da sua condição de mulato, Yacubian e Caboclo (2011) afirmaram que Machado oferece um enigma insolúvel para psicólogos e ensaístas por causa da luta contra a mácula da epilepsia. Este levantamento, entretanto, já é suficiente para constatar que a análise feita por esses autores girou em torno da mesma ideia fundamental: há uma experiência de vida – vinculada à condição de mulato, mas fundamentalmente marcada por uma doença psiquiátrica15 15 Mesmo estudos focados estritamente na análise etiológica e neuropsiquiátrica de sua epilepsia a partir do registro de pessoas que testemunharam suas crises dão ênfase a seu estereótipo de “mulato” (Guerreiro, 1992). – que dá conta de explicar a singularidade individual de Machado de Assis como escritor.

Vale lembrar, no entanto, a título de ressalva, que há uma outra linha de interpretação da obra machadiana, diametralmente oposta a essa aqui apresentada, que tende a avaliar seus textos a partir de aspectos que sobrelevam a dinâmica cultural (Schwarz, 2012SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades. 2012.; Jobim, 2015JOBIM, José Luís. Literary and cultural circulation: Machado de Assis and Théodule Armand Ribot. European Review, v.23, p.406-420. 2015.). Tal perspectiva mais crítica, no entanto, não fez parte do recorte do presente objeto de estudo.

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi o de analisar, a partir de Bakhtin, as interpretações acerca da obra de Machado de Assis que se pautaram no pressuposto de dada suposta constituição psiquiátrica ter implicado aspectos de suas produções literárias.

Em linhas gerais, o que se verificou foi que os autores investigados consideraram características individuais da vida do escritor – sobretudo sua epilepsia, mas eventualmente também a superação social de sua condição de mulato – como responsáveis pelo seu ato criador. Tal tendência, identificada praticamente ao longo de todo o século XX, mas principalmente nas décadas de 1930 e 1950, acompanhou a apropriação de diversas teorias psiquiátricas no Brasil, permitindo passar em revista a recepção de conceitos teóricos tais como: degeneração, nevrose, psichose, gliscroidia, leptosomia, zoopsia, subconsciente e megalomania.

Esses conceitos psiquiátricos, contudo, foram em geral utilizados sob uma perspectiva superficial, eclética e fora do enquadramento teórico de onde inicialmente emergiram, o que fica particularmente evidente quando se analisa a apropriação que Américo Valério fez da obra de Freud (1856-1939), e que Peregrino Júnior fez dos conceitos de Ernst Kretschmer (1888-1964) e Nicola Pende (1880-1970).

A bibliografia levantada, em particular a linha que se estende de Alfredo Pujol (1917)PUJOL, Alfredo. Machado de Assis. São Paulo: Tipografia Brasil. 1917. até Maria Luiza Seminério (2001)SEMINÉRIO, Maria Luiza T. de A.L.P. A atualidade de Machado de Assis vista através de uma apreciação transdisciplinar. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.53, n.4, p.3-29. 2001., analisou as narrativas de Machado de Assis a partir da premissa de que a sua atividade mental, com a peculiaridade de ser mórbida e doentia, é que organizava a temática expressa nos textos. Essas leituras, enviesadas por uma perspectiva biográfica psicologizante e pela interpretação dos elementos condicionantes individuais do autor, permitem tanto evidenciar que o discurso das ciências da saúde marcou a cena cultural brasileira nesse período quanto ressaltar a contribuição dos aportes bakhtinianos.

Isso porque, numa perspectiva bakhtiniana, o lugar social de eventuais interlocutores também é parte constitutiva do processo de atribuição do sentido de um texto. Há relações de força, interesses coletivos e disputas pessoais nos componentes que o constituem, cujo significado, em última instância, pode ser determinado pelo poder social e pela posição que ocupam aqueles que o produzem. Desse modo, a análise dos comentadores machadianos não pode ser feita à parte das relações de poder no interior da sociedade brasileira.

No Brasil do final do século XIX e início do XX, as práticas discursivas estavam longe de um alinhamento consensual e unívoco. Ocorriam embates históricos. A libertação dos escravos teve forte impacto em todos os domínios da vida nacional, e o advento da República trouxe em seu bojo o discurso da transformação social, do surgimento de uma nova sociedade (Carvalho, 1990CARVALHO, José Murilo. A formação das almas. São Paulo: Companhia das Letras. 1990.). E esse projeto de mudança andou lado a lado com as aspirações da ciência, principalmente em função da emergência, mesmo que a princípio cambaleante, do higienismo social (Patto, 2000PATTO, Maria Helena S. Teoremas e cataplasmas no Brasil monárquico: o caso da medicina social. In: Patto, Maria Helena Souza. Mutações do cativeiro. São Paulo: Hacker Editores; Edusp. p.95-117. 2000.).

Todos esses elementos precisam ser contemplados, pois para muitos estudiosos machadianos a incorporação do discurso médico-psiquiátrico trazia em seu bojo o poder de designar a verdade dos fatos sociais. O que, numa sociedade em que individualizações eram subjacentemente naturalizadas, significava atribuir à experiência do indivíduo uma categoria quase que inata em quaisquer investigações socioculturais. Numa visão bakhtiniana, entretanto, a dinâmica se inverte por completo, pois a situação social mais imediata – ou seja, a condição real da enunciação – é que orienta a expressão discursiva. Assim sendo, a necessidade de expressão e suas contingências é que determinam a orientação da consciência, e não o contrário.

Ora, a orientação discursiva de Machado de Assis não decorria de uma circunstancial condição psíquica individual, mas das demandas presentes no meio social de finais do século XIX, com a emergência do saber psiquiátrico – do alienismo – no país. O próprio Machado criticava a suposta determinação enunciativa de uma psyché interior, posto que estava profundamente preocupado em problematizar o campo social que conduziu, no Brasil de então, à construção do indivíduo moderno, como pode ser verificado em alguns de seus contos (Castro, 2012CASTRO, Alexandre de C. Tensões da identidade pessoal no espelho de Machado de Assis. Psicologia & Sociedade, v.24, n.3, p.619-627. 2012.). Do mesmo modo, pode-se dizer que os biógrafos de Machado aqui estudados igualmente se orientavam discursivamente pelos ditames do meio social, em função de conjunturas culturais que prestigiavam os saberes e representações médico-psiquiátricas como estatuto de verdade em diversas esferas da vida humana, incluindo a análise da expressão literária.

Portanto, a investigação dessa assimilação, muitas vezes acrítica, de conceitos psiquiátricos por comentadores machadianos, mais do que assinalar a superficialidade de alguns escritores, indica a importância de se retirarem as noções de “indivíduo” do estado de naturalização em que se encontram nas apropriações discursivas feitas diante de categorias das ciências da saúde. Ou, quem sabe, pôr em questão a própria afirmação do “sujeito individual” como referência básica de análise da historicidade das ideias e experiências humanas.

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  • SEMINÉRIO, Maria Luiza T. de A.L.P. A mobilização libidinal criativa nos romances de Machado de Assis. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.49, n.4, p.49-58. 1998.
  • SEMINÉRIO, Maria Luiza T. de A.L.P. O dito e o não dito no discurso geral dos romances de Machado de Assis. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.47, n.1, p.59-64. 1995.
  • SEMINÉRIO, Maria Luiza T. de A.L.P. Machado de Assis. História e pré-história. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.45, n.3/4, p.158-197. 1993.
  • SEMINÉRIO, Maria Luiza T. de A.L.P. O projeto inconsciente de Machado de Assis. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.43, n.3/4, p.75-109. 1991.
  • SILVA, Hélcio P. da. A megalomania literária de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Aurora. 1949.
  • SILVA, Terezinha V.Z. da. Machado de Assis e o mulato de “alma grega”. Machado Assis Linha, v.7, n.14, p.229-239. 2014.
  • SOARES, Paulo José da R. Aspectos psiquiátricos das epilepsias. Psychiatry On-line, v.9, n.11. Disponível em <http://www.polbr.med.br/ano04/art1104ab.php Acesso em: 14 jul. 2017. 2004.
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  • VALÉRIO, Américo. Machado de Assis e a psicanálise. Rio de Janeiro: Tip. Aurora H. Santiago. 1930.
  • VALLE, Luiz R. do. Psicologia mórbida na obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Tip. Lit. Pimenta de Mello. 1918.
  • WERNECK, Maria Helena. O homem encadernado. Machado de Assis na escrita das biografias. Rio de Janeiro: Eduerj. 1996.
  • YACUBIAN, Elza Márcia T.; CABOCLO, Luis Otávio S.F. Epilepsy and stigma: An approach to understanding through the life and works of the Brazilian writer Machado de Assis (1839-1908). Epilepsy & Behavior, v.20, p.465-470. 2011.
  • YAHN, Mario. Dra. Françoise Minkowska. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.10, n.1, p.93-94. 1952.

NOTAS

  • 1
    Em que pese a atual problemática quanto ao uso do termo “mulato”, com etimologia supostamente oriunda de “mula” (do latim mulus), e as restrições por conta de seu teor qualificado como pejorativo, a alusão feita neste artigo reproduz o uso da terminologia dos autores referidos, sem assumir caráter essencialista nem tampouco reificar e validar o processo político de branqueamento promovido pela elite brasileira (Munanga, 2007MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica. 2007.), cujas teses racistas, aliás, foram objeto de críticas irônicas desferidas pelo próprio Machado de Assis (Silva, 2014SILVA, Terezinha V.Z. da. Machado de Assis e o mulato de “alma grega”. Machado Assis Linha, v.7, n.14, p.229-239. 2014.; Castro, 2015CASTRO, Alexandre de C. De narizes extraídos por Machado: eugenias raciais, traços faciais e teorias psiquiátricas no Brasil oitocentista. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v.18, n.2, p.339-357. 2015.). Fato é que, em função de noções vinculadas à degeneração racial, alguns comentadores machadianos atribuíram à condição racial algumas de suas fraquezas: “[tendo] progenitores rebentos da raça preta [… tinha doença…] causada pela herança mista … assestada em terreno predisposto … descendente de negros, tudo isso concorreu para o retraimento e submissão” (Valério, 1930VALÉRIO, Américo. Machado de Assis e a psicanálise. Rio de Janeiro: Tip. Aurora H. Santiago. 1930., p.12).
  • 2
    Alguns comentaristas avaliam a crítica de Sílvio Romero como uma mera reação passional (Rego, 1989REGO, Enylton de S. O calundu e a panaceia: Machado de Assis, a sátira menipeia e a tradição luciânica. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1989., p.12; Chagas, 1994CHAGAS, Wilson. A fortuna crítica de Machado de Assis. Porto Alegre: Movimento. 1994., p.96), por causa das ponderações de Machado anteriormente apresentadas em seu ensaio “A nova geração”, originalmente publicado em dezembro de 1879: “No livro do Sr. Romero achamos essa luta entre o pensamento que busca romper do cérebro, e a forma que não lhe acode ou só lhe acode reversa e obscura: o que dá a impressão de um estrangeiro que apenas balbucia a língua nacional” (Assis, 1973ASSIS, Machado de. A nova geração. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. p.820-841. 1973., p.835). Para uma ampla análise de toda a celeuma, conferir Magalhães Júnior (1981).
  • 3
    A etimologia da palavra epilepsia é de origem grega (epi,“sobre”, lepsem,“abater”), no sentido de algo que leva o indivíduo a ser abatido. A caracterização dessa doença, mesmo segundo a orientação científica que se desenvolveu a partir do século XIX, permaneceu durante muito tempo envolta num quadro nosológico pouco definido. Do ponto de vista histórico, alguns estudiosos são tidos como precursores nesses estudos: Jean-Étienne Dominique Esquirol (1772-1840), Auguste Morel (1809-1879) e Cesare Lombroso (1836-1909). Esquirol destacou as manifestações psíquicas da epilepsia sob a forma de delírios, os quais considerava estados de alienação associados à doença. Morel, por sua vez, assinalou que a irritabilidade constituía um traço dominante dos epilépticos. Cesare Lombroso, que defendeu uma hierarquia social representada, no ápice, pela raça ariana e na parte inferior por negros e mestiços, usou esses conceitos de Morel, na quarta edição de L’uomo delinqeente para relacionar a epilepsia à degeneração e adicioná-la ao atavismo na concepção de uma etiologia do “criminoso nato” (Yacubian, Caboclo, 2011, p.469). No início do século XX, ocorreram poucos desenvolvimentos. Pensava-se que a epilepsia fosse uma doença incurável, que evoluiria para um estado de demência. Além disso, costumava-se fazer generalizações a partir das formas severas para todos os casos, ora classificados como neurose, ora concebidos numa evolução marcada por episódios psicóticos. A indicação de um substrato neurofisiológico da atividade epiléptica por meio do eletroencefalograma começou somente em meados do século XX (Soares, 2004SOARES, Paulo José da R. Aspectos psiquiátricos das epilepsias. Psychiatry On-line, v.9, n.11. Disponível em <http://www.polbr.med.br/ano04/art1104ab.php. Acesso em: 14 jul. 2017. 2004.
    http://www.polbr.med.br/ano04/art1104ab....
    ). Dessa forma, já que alguns historiadores da psiquiatria assinalam que o conceito de epilepsia se desenvolveu também em função das mudanças históricas na conjuntura social, cultural e política (Moreira, 2004MOREIRA, Sebastião Rogério G. Epilepsia: concepção histórica, aspectos conceituais, diagnóstico e tratamento. Mental [online], v.2, n.3, p.107-122. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-44272004000200009&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 17 jul. 2017. 2004.
    http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?scr...
    ), pode-se aludir que as classificações e diagnósticos atribuídos a Machado de Assis exemplificam alguns desses desenvolvimentos.
  • 4
    Pereira (1988PEREIRA, Lucia M. Machado de Assis. Belo Horizonte: Itatiaia. 1988., p.34) afirma ter ouvido relatos de ataques epilépticos de Machado de “pessoas que conviveram intimamente com o casal”, dona Fanny de Araújo e as irmãs Pinto da Costa, amigas pessoais de dona Carolina.
  • 5
    Esse aspecto curioso da crítica textual machadiana foi claramente destacado por Pujol: “... descrevendo o padecimento de Virgilia ao ver morrer o antigo amante, tinha Machado de Assis escrito esta frase: ‘Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica ...’ Nas edições ulteriores do livro, a palavra ‘epiléptica’, palavra terrível e repugnante, foi substituída: “Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa” (Pujol, 1917, p.109). Citado por Meyer (1935)MEYER, Augusto. Machado de Assis. Porto Alegre: Globo. 1935. e Peregrino Júnior (1938), esse argumento de Alfredo Pujol foi contestado por Valle (1918)VALLE, Luiz R. do. Psicologia mórbida na obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Tip. Lit. Pimenta de Mello. 1918. e, depois deste, por Costa (1938)COSTA, Othon. Machado de Assis, epiléptico. Rio de Janeiro: [s.n.]. 1938. e Abreu (1939)ABREU, Modesto de. Biógrafos e críticos de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Alba Oficina Gráfica. 1939.. Realmente, para Luiz Ribeiro do Valle, cuja tese procurou mostrar o quanto Machado de Assis se apropriou com precisão e erudição de certos conceitos científicos, “esta substituição era devida, não ao horror de Machado pela palavra epiléptica, mas sim à sua honestidade nos seus processos de escrever certo e traçar com o máximo rigor científico o caráter de seus personagens; assim ele corrigiu um descuido da primeira edição, pois Virgilia, caso rolasse, não rolaria nas convulsões da epilepsia mas sim nas convulsões de histeria” (Valle, 1918, p.121). Costa (1938)COSTA, Othon. Machado de Assis, epiléptico. Rio de Janeiro: [s.n.]. 1938. chegou até a conjecturar que tal mudança de “epiléptica” por “convulsa” – “para maior precisão científica” (p.7) – poderia ter ocorrido por observação de Miguel Couto, seu médico particular. Em que pese o caráter frágil de algumas dessas argumentações, elas servem, no entanto, para exemplificar o campo teórico que constituía as interpretações dos comentadores e biógrafos de Machado de Assis naquele período.
  • 6
    Em 1921, Ribeiro do Valle escreveu outra obra – Certos escritores brasileiros psicopatologistas – na qual analisou pela perspectiva psiquiátrica os personagens de escritores como Coelho Netto, Renato Vianna e Monteiro Lobato (Lima, 2009LIMA, Elizabeth Maria F. de A. Machado de Assis e a psiquiatria: um capítulo das relações entre arte e clínica no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.16, n.3, p.641-654. 2009.), revisitando brevemente Machado (Passos, 2002PASSOS, Cleusa R.P. Crítica literária e psicanálise: contribuições e limites. Literatura e Sociedade, v.5, p.167-185. 2002.).
  • 7
    Dentre essas resenhas que celebravam a nova edição de Alfredo Pujol, destacaram-se a de Lúcia Miguel Pereira, na Gazeta de Notícias (Werneck, 1996WERNECK, Maria Helena. O homem encadernado. Machado de Assis na escrita das biografias. Rio de Janeiro: Eduerj. 1996.), e a de Peregrino Júnior (1938) em O Jornal.
  • 8
    Abreu (1939)ABREU, Modesto de. Biógrafos e críticos de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Alba Oficina Gráfica. 1939. criticou duramente Meyer por conta de algumas contradições: “Depois de haver afirmado que a epilepsia, a seu ver, não podia explicar Machado de Assis, afirma, duas páginas adiante, que o ponto de partida do grande pessimista é a doença” (p.157). O próprio Meyer (1952) parece ter admitido tais contradições, pois no prefácio da segunda edição desse livro de 1935, feita nos anos 1950, escusou-se por não ter tido ânimo para emendar o que pareceu contraditório, esclarecendo que agora lhe ocorria que seu texto dos anos 1930 era mais contra do que sobre Machado.
  • 9
    De origem polonesa, mas radicada na França, Françoise (Franziska) Minkowska (1882-1950), sob a perspectiva da tipologia constitucional, ou seja, a ideia de que um dado tipo de constituição predispõe a pessoa para uma dada doença mental, caracterizou, em um estudo de 1923 sobre epilepsia, a constituição epileptoide ou gliscroide (de “gliscros”, viscoso), descrevendo o epiléptico como uma personalidade viscosa: ora era marcada por explosões de cólera e atos impulsivos, ora era afetiva, lenta e contida (Yahn, 1952YAHN, Mario. Dra. Françoise Minkowska. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.10, n.1, p.93-94. 1952.). Lúcia Miguel Pereira, todavia, citou Mme. Minkowska apenas a partir da obra La schizophrenia, de seu esposo, Eugène Minkowski (1885-1972), publicada em 1927.
  • 10
    Ernst Kretschmer, psiquiatra alemão (1888-1964), relacionou aspectos psicológicos aos morfológicos para estabelecer três tipos classificatórios principais: pícnicos (corpos rechonchudos, feição arredondada e tendência a ser maníaco-depressivos), leptosômicos (magros e com tendência a desenvolver esquizofrenia) e atléticos (robustos e também com tendência à esquizofrenia). Numa perspectiva análoga, Nicola Pende (1880-1970), médico italiano, cunhou o termo “biotipologia” para caracterizar a ciência dos biotipos humanos somáticos e psíquicos: longilíneos ou brevilíneos; estênicos ou astênicos. Respectivamente autores de “A constituição dos corpos e o caráter” (Physique and character, publicado em 1921) e “As fraquezas da constituição: introdução à patologia constitucional” (Le debolezze di costituzione: introduzione alla patologia costituzionale, publicado em 1922), esses teóricos fundamentaram concepções científicas no Brasil, principalmente na década de 1930 (Gomes, 2012GOMES, Ana Carolina V. A emergência da biotipologia no Brasil: medir e classificar a morfologia, a fisiologia e o temperamento do brasileiro na década de 1930. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v.7, n.3, p.705-719. 2012.), influenciando estudos focados na “constituição”, ou seja, nas particularidades biológicas de cada pessoa, a fim de definir a caracterização das doenças. O próprio termo “constituição” no título da obra de Peregrino Júnior reflete tal terminologia técnica.
  • 11
    Analisando a zoopsia, Peregrino Júnior (1938, p.119) afirmou: “... tal tendência, comum nos alcoólatras e seus descendentes, pode autorizar a suposição de antecedentes alcoólicos na família do escritor”. Discordando de Peregrino Júnior, Abreu (1939ABREU, Modesto de. Biógrafos e críticos de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Alba Oficina Gráfica. 1939., p.164) ironizou: “Assim, até Cristo era alcoólatra porque empregava imagens de animais nas suas parábolas”.
  • 12
    A exemplo do que aconteceu com outros estudiosos, em certos momentos Coutinho (1959)COUTINHO, Afrânio. A filosofia de Machado de Assis e outros ensaios. Rio de Janeiro: Livraria São José. 1959. oscilou entre atribuir ou não à doença caráter determinante: “Não se pode aceitar que a doença tenha sido a fonte de sua feição de encarar a vida, e muito menos aceitável é a teoria de que a epilepsia é a causa da genialidade ... mas não é possível desconhecer a psicologia diferenciada dos doentes, sobretudo os incuráveis” (p.38).
  • 13
    A ênfase na loucura levou os comentadores citados a atribuír o interesse de Machado pelo tema a alguma suposta patologia pessoal. Raimundo Magalhães Júnior, por sua vez, argumentou que tal temática psicológica não derivava da doença do escritor, mas da loucura de Faustino Xavier de Novais, seu cunhado. Em sua opinião, a crônica escrita para a Imprensa Acadêmica em 25 de julho de 1869 era muito sugestiva por abordar o tema da loucura numa época em que o próprio Machado lidava com um louco, cujo estado de saúde estava se agravando. Escrita sob o pseudônimo de Sileno, a crônica afirmava: “Há doidos inofensivos e há doidos diabólicos. Em uma noite desta semana apareceu na rua de Guanabara um da última espécie, que fez tropelias de sérias consequências. Feriu gravemente um homem ... Disseram-me que fugiu de uma casa de orates. Há doidos que fogem e doidos de quem se foge” (citado em Magalhães Júnior, 1981, v.2, p.42). Esse argumento, contudo, independentemente da pessoa a quem a doença é atribuída, ainda permanece suscetível às críticas bakhtinianas (Castro, Portugal, Jacó-Vilela, 2011).
  • 14
    Há estudos que apontam, por conta da epilepsia, que o próprio Machado se comparou a Flaubert (Chapman, Chapman-Santana, 2000) e os que, na esteira da comemoração dos cem anos de sua morte, reificaram seu estatuto de mulato e epiléptico para enfatizar que ele escreveu sobre “una franja muy notoria de orates e locos” (Cobo Borda, 2008COBO BORDA, Juan Gustavo. Machado de Assis. Cuadernos Hispanoamericanos, v.695, p.39-43. 2008., p.40). Com base na documentação de epilepsia em textos e cartas de Machado de Assis, e da sua condição de mulato, Yacubian e Caboclo (2011)YACUBIAN, Elza Márcia T.; CABOCLO, Luis Otávio S.F. Epilepsy and stigma: An approach to understanding through the life and works of the Brazilian writer Machado de Assis (1839-1908). Epilepsy & Behavior, v.20, p.465-470. 2011. afirmaram que Machado oferece um enigma insolúvel para psicólogos e ensaístas por causa da luta contra a mácula da epilepsia.
  • 15
    Mesmo estudos focados estritamente na análise etiológica e neuropsiquiátrica de sua epilepsia a partir do registro de pessoas que testemunharam suas crises dão ênfase a seu estereótipo de “mulato” (Guerreiro, 1992GUERREIRO, Carlos Alberto M. Machado de Assis’s epilepsy. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.50, n.3, p.378-382. 1992.).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Set 2019
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2019

Histórico

  • Recebido
    4 Out 2017
  • Aceito
    27 Set 2018
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