Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores: seu papel na ciência e tecnologia

Researchers' virtual libraries: its role in science and techology

F O N T E S

Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores: seu papel na ciência e tecnologia* * Versão modificada de uma comunicação apresentada por ocasião do II Seminário do Prossiga, realizado em novembro de 1999, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro.

Researchers' virtual libraries: its role in science and techology

Fernando A. Pires Alves

Vice-diretor da Casa Oswaldo Cruz/Fiocruz

Av. Brasil 4365 — Manguinhos

O objetivo deste texto é tecer alguns comentários e reflexões sobre o papel das Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores no âmbito da ciência e da tecnologia. Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores é a denominação adotada pelo Programa de Informação e Comunicação para a Pesquisa (CNPq/Prossiga) para indicar endereços na Internet especialmente concebidos como lugar de sistematização e disseminação de documentos e informações relativas a ilustres personagens da ciência e tecnologia brasileiras.

As considerações que se seguem dizem respeito a esta experiência particular: as bibliotecas virtuais de pesquisadores, tal qual se apresentam, como parte do leque de recursos de informação oferecidos por aquele programa.

Isto posto, vejamos como se compõem, regra geral, as bibliotecas virtuais de pesquisadores do CNPq/Prossiga:

1) elas apresentam, em hipertexto, um ensaio biográfico sobre o pesquisador, que se estrutura a partir de um texto ágil, adequado à mídia e capaz de atingir um público ampliado, funcionando como um roteiro de leitura ou visita para o conjunto da biblioteca;

2) as bibliotecas procuram disponibilizar, em texto integral, as obras completas do pesquisador, dando conta não só de sua produção científica stricto sensu, mas também da sua contribuição à política, às artes, à cultura e à administração;

3) como um terceiro componente, assinale-se que elas apresentam, em segmentos distintos ou de forma articulada ao hipertexto biográfico, documentos de arquivo, tais como correspondência, relatórios, fotografias, matérias da imprensa e documentos legislativos;

4) elas buscam arrolar fontes de pesquisa ou informação complementar, indicando, por exemplo, instituições detentoras de arquivos e coleções de interesse e, em várias circunstâncias, endereçam sites, sinalizando direções de navegação para fora da biblioteca;

5) um quinto componente seria aquele voltado para referenciar, selecionar e disponibilizar documentos e informações alusivas ao pesquisador, indicando e fornecendo textos biográficos complementares; depoimentos e estudos sobre a sua contribuição científica. É a sua "fortuna crítica", nos termos adotados para um dos segmentos da Biblioteca Virtual Gilberto Freyre;

6) um sexto elemento, por fim, seriam os próprios recursos de interação com o público, sob a forma de "livros de visita", do envio de e-mails aos responsáveis, ou ainda, por meio de mala direta.

Uma observação da home-page da Biblioteca Virtual Carlos Chagas (Figura 1), tomada como exemplo, ilustra a distribuição destes elementos de composição. O segmento 'Trajetória' remete ao hipertexto biográfico; 'Produção intelectual' dá acesso à obra completa do pesquisador; o segmento 'Sobre o cientista', cuja página de abertura e um dos seus desdobramentos são também apresentados na ilustração, organiza o acesso aos ensaios biográficos, ao material documental de diversos tipos, às fontes complementares disponíveis à pesquisa, assim como para a 'fortuna crítica' do pesquisador. No rodapé encontram-se disponíveis os recursos de interação com visitantes ou usuários.

Figura 1 — Página principal da Biblioteca Virtual Carlos Chagas e um dos desdobramentos possíveis do segmento 'Sobre o cientista'.

Apesar de importantes variações em cada experiência concreta, estes seis elementos me parecem compor o coração da arquitetura que vem sendo adotada até agora na elaboração das bibliotecas virtuais de pesquisadores, definindo um certo modelo de concepção.

Um primeiro comentário a este respeito seria no sentido de considerar estas bibliotecas como uma experiência recente, verificando-se entre o final de 1997 e meados de 2000 os lançamentos das cinco hoje disponíveis (Anísio Teixeira, Carlos Chagas, Gilberto Freyre, José Leite Lopes e Oswaldo Cruz), com acesso comum a partir de http://www.prossiga.cnpq.br (Figura 3).. Tendo em mente o cada vez mais curto intervalo de tempo entre a novidade e a sua superação, que caracteriza o universo das tecnologias da informação, acredito que podemos pensar neste modelo como um formato fundador, em construção permanente, sob o imperativo da atualização renovadora.

Figura 3 — As Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores que integram o CNPq/Prossiga.

Examinemos seus objetivos e sentidos. Há objetivo e sentido evidentes em se procurar reunir e tornar acessível a um público amplo a obra completa de um expoente da ciência. Trata-se mesmo de uma tradição editorial já consagrada, cujo alcance se vê agora ampliado por uma nova tecnologia da informação. A biblioteca virtual permite que novos textos, a descoberta de textos desconhecidos, ou mesmo textos publicados mas não identificados no primeiro momento possam ser rapidamente incorporados ao conjunto, tornando ágil o processo de atualização ou complementação.

As bibliotecas virtuais de pesquisadores tornam-se, desse modo, um valioso instrumento para a acessibilidade da produção de cientistas de importância, um recurso naturalmente relevante no desenvolvimento das atividades de investigação e de formação acadêmica.

A biblioteca virtual facilita o acesso à produção 'extracientífica', seja ela de natureza política, administrativa ou artística. Um projeto de divulgação de obra completa, que poderia ser inviável sob a forma editorial impressa, torna-se aqui uma questão relativa à pertinência. É claro que não deixam de pesar os fatores econômicos e operacionais, mas o que interessa ressaltar é a possibilidade de se perseguir a comple-tude da obra de determinado indivíduo.

Acrescente-se ainda que os materiais que integram a biblioteca muitas vezes são de natureza arquivística, como as correspondências, as fotografias e outros conjuntos que formam o corpo de segmentos específicos ou complementares da biblioteca. Nos arquivos, tais documentos são hoje dificilmente recuperáveis de modo sistêmico, sobretudo à distância. E, nesse sentido, a biblioteca virtual é um interessante recurso de disponibilização integrada, tanto de materiais bibliográficos como arquivísticos. No que concerne à informação arquivística no Brasil, aliás, muito ainda tem que ser feito quanto ao seu simples referenciamento. As bibliotecas virtuais de pesquisadores podem auxiliar na supressão desta lacuna, apontando para uma posterior exibição mais extensiva de documentos completos.

A idéia de completude me permite introduzir alguns comentários sobre os hipertextos de caráter biográfico, que funcionam como um roteiro de visita. Como indiquei, devem ser compostos de forma adequada à tela do computador, à velocidade do acesso e escritos em uma linguagem leve, fluente. Apresentam as trajetórias pessoais dos homens de ciência, seus feitos significativos. Descortinam elementos de sua dimensão humana. Imagens de seu ambiente familiar, escolar, universitário e de trabalho; cartas aos parentes, colaboradores, amigos e mesmo desafetos formam um mosaico que traz à luz as múltiplas facetas do indivíduo. Os links para textos complementares informam sobre os ambientes científicos e históricos, contextualizam o personagem, permitindo uma imagem mais completa a seu respeito.

Com a montagem apresentada na Figura 2, tomando como exemplo uma página do segmento 'Trajetória' da Biblioteca Virtual José Leite Lopes, ilustramos como um mosaico de informações pode ser obtido a partir da leitura do hipertexto biográfico, permitindo ao visitante vários caminhos para a montagem de um perfil ou contexto de atuação.

Estes hipertextos são construídos tendo por alvo um público amplo, como recurso de divulgação científica. A perspectiva da sua utilização pelo público leigo ou escolar é imediata. Destaco, entretanto, que mesmo os públicos especializados, ou em vias de especialização, encontram neste material um meio para o reconhe-cimento de trajetórias profissionais e humanas de grande relevância simbólica nos seus campos de atuação. Se levarmos em conta que as bibliotecas virtuais de pesquisadores reúnem também entrevistas, depoimentos, ensaios biográficos e estudos historiográficos e críticos, este potencial amplia-se de modo importante, exatamente pelo aporte da dimensão crítica.

Nesse sentido é fundamental que as bibliotecas virtuais tenham um vigoroso compromisso com a crítica, permitindo que os textos disponibilizados explicitem debates e conflitos, superando a armadilha do mero culto a personalidades consagradas e a simples sedimentação de valores e ideologias. A fortuna crítica de um pesquisador, ou seja, tudo aquilo que foi escrito sobre sua vida e obra, é, no meu entender, a própria fortuna da biblioteca, perseguindo um encontro genuíno entre tradição, memória e história. Manter a biblioteca atualizada quanto a este aspecto é igualmente fundamental. Nesta direção, ela se afirma também como espaço de encontro da investigação crítica, sobretudo nos campos da história e sociologia da ciência e da cultura.

Assim reunidos, integrados e acessíveis, estes materiais incrementam as possibilidades de interação entre especialidades: físicos e historiadores da física; cientistas biomédicos e sociólogos do conhecimento; entre os que fazem ciência e aqueles que olham como a ciência é socialmente construída. As Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores são um poderoso instrumento de ampliação da compreensão coletiva dos cientistas sobre os próprios processos científicos.

Ao referenciar centros de pesquisa e fontes de informação complementares, estas bibliotecas oferecem caminhos para a localização de massas críticas e de recursos documentais __ um grande facilitador quando da realização de novos estudos e pesquisas. Tais referências expõem uma outra dimensão importante das bibliotecas virtuais. Elas desvendam e potencializam investimentos em pesquisa e formação de competências e em reunião, guarda e processamento de documentos e informações que vêm sendo realizados às vezes por décadas. As bibliotecas de pesquisadores apóiam-se neste acúmulo de investimentos anteriores e ao mesmo tempo ajudam a realizar sua contribuição social.

Pontuamos, pelo menos em dois sentidos, o papel das bibliotecas de pesquisadores como recurso de divulgação em ciência. Existem indícios que apontam para o aprofundamento desta dimensão, através da concepção de novos segmentos, uma evidência do dinamismo deste modelo de biblioteca virtual que estamos comentando. Assinalo aqui, apenas a título de exemplo, e como uma interessante possibilidade, a elaboração para a Biblioteca Carlos Chagas de um segmento especialmente dedicado ao público infanto-juvenil, que se propõe a associar elementos mais tradicionais, como textos, publicações, documentos e imagens do passado, a recursos outros como jogos interativos, exposições virtuais, peças teatrais ou, ainda, a proposição de experiências. Parece-nos um caminho interessante, o de que a trajetória de vida, o trabalho e o contexto social de um pesquisador possam ser explorados de forma lúdica e, se possível, interativa, ampliando o papel da biblioteca como contribuição para a educação em ciência, para o despertar de vocações científicas, para a valorização da vida e da cidadania.

Neste ponto, incluo meus comentários sobre a interação com o público através dos e-mails, do livro de visitas e do cadastro. E aqui ressalto que estou falando apenas da nossa experiência específica com a Biblioteca Virtual Carlos Chagas, lançada em abril de 1999. As idéias que me vêm à cabeça são aquelas de surpresa e cautela.

A resposta do público de fato nos surpreendeu: ao lado dos cumprimentos pela iniciativa, afirmando o seu valor cultural e científico e do interesse demonstrado por estudiosos, um bom número de visitantes nos solicitou informações sobre a doença de Chagas, seu diagnóstico e cura; estudantes nos procuraram para obter folhetos e cartazes para seus trabalhos escolares e, até mesmo, "quem sabe... se possível... um exemplar de O cortiço", de Aluísio Azevedo. Tais solicitações, naturalmente, extravasaram nossa expectativa inicial e nos obrigaram a montar, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma rede de colaboradores, para as recomendações de caráter médico, para o atendimento das demandas escolares.

A idéia de cautela prendeu-se ao sentimento de que tais recursos são ainda subtilizados. Ao mesmo tempo, não estão claras as formas de estabelecer, para a biblioteca, estratégias editoriais mais agressivas, no sentido de comunicar novidades, provocar contribuições, sobretudo incorporando a este processo os diversos tipos de usuários.

Retornando ao ponto de partida, imagino que procurei indicar que as bibliotecas virtuais de pesquisadores possuem uma natureza multifacetada: funcionam como recurso de disseminação da informação científica, disponibilizando a produção do cientista e daqueles que a tem por objeto; proporcionam a públicos amplos o encontro crítico com relevantes passagens da história da ciência e referenciam e difundem importantes registros da sua memória, promovendo sua valorização e seu reconhecimento social; e podem apoiar crescentemente os processos educativos em ciência e tecnologia, assumindo uma dimensão retroalimentadora. São com certeza funções importantes, principalmente porque se realizam de modo integrado, em um só espaço virtual.

Todos nós sabemos que a competitividade científica e tecnológica não se apóia apenas sobre bem estruturados programas de incentivo e sobre eficientes sistemas de informação. É fundamental contar com uma sólida base de conhecimentos apoiada numa cultura de investigação, de permeabilidade à inovação e aprendizado contínuo. São muitas as formas de aprendizado, e reencontrar criticamente o passado, revitali-zando-o, é uma delas, sobretudo se nos queremos autônomos. As Bibliotecas Virtuais de Pesquisadores são auxiliares desta tarefa e encontram assim seu maior sentido.

Figura 2
— A partir de uma página do segmento 'Trajetória' da Biblioteca Virtual Leite Lopes, um exemplo das várias possibilidades de navegação.

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    Versão modificada de uma comunicação apresentada por ocasião do II Seminário do Prossiga, realizado em novembro de 1999, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Maio 2006
  • Data do Fascículo
    Fev 2001
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