Resumo
O presente artigo consiste numa contribuição para o estado de arte das teorias da literatura sobre a recepção de obras literárias, as quais, devido à sua complexidade, proporcionaram grandes contribuições para os estudos históricos. Identificamos que houve uma grande divisão entre tais correntes, durante os anos de 1960 e 1990, entre aquelas que evitavam enfatizar a dimensão social e histórica do ato de ler e aquelas que buscaram seus fundamentos nas ações sociais e históricas para explicar a recepção de obras literárias. Nesse sentido, abordaremos as teorias da recepção alemãs e as correntes dissidentes que exploraram as dimensões sociais e históricas, como o Reader-Response Criticism, de Stanley Fish, e a ciência da literatura empírica e cultural, como no caso do estudo teórico de Gabriele Schwab sobre a teoria da leitura como contato cultural.
Palavras-chave
Recepção; literatura; história
Abstract
This article consists of a contribution to the state of the art of Reader-Response theories, that, due to its complexity, has provided great contributions to historical studies. However, we also identified that there was a great division between such currents, during the 1960s and 1990s: between those that avoided emphasizing the social and historical dimension of the act of reading and the theories that sought their foundations in social and historical actions to explain the reception of literary works. In this sense, we will address the German reception theories and the dissident currents that explored the social, and historical dimensions such as Stanley Fish’s reader-response criticism and the empirical study of literature and cultural dimension as in the case of Gabriele Schwab’s theoretical study on reading as cultural contact.
Keywords
Reception; literature; history
Introdução
Na segunda metade do século XX, surgiu um conjunto de correntes na teoria da literatura que contribuiu para alterações paradigmáticas nesse campo de conhecimento, nas quais a exclusividade das perspectivas textualistas da primeira metade do século XX – tais como New Criticism, estruturalismo, estilística e outras – foi substituída por reflexões sobre o papel da recepção de obras nos estudos literários. Ao longo dos anos 1960, 1970 e 1980, várias vertentes dessa corrente teórica sobre a recepção literária foram criadas, especialmente a partir dos trabalhos realizados pelos teóricos alemães da recepção, e ficaram conhecidas como teorias da recepção. Devemos destacar que tal mudança teórica promoveu novas conexões entre os estudos literários e as outras áreas das ciências humanas e sociais. Isso pode ser entendido pelo aumento da demanda por mais estudos sobre a recepção, quando ocorre vertiginosa expansão planetária dos meios de comunicação, e, por conseguinte, áreas como a história, a sociologia e os estudos culturais escolheram também a leitura como objeto de estudos.
Há um ponto dessa história das teorias da recepção que destacaremos neste artigo: como tais teorias abordaram as dimensões históricas, sociais, políticas e culturais do ato da leitura. Na citada passagem paradigmática dos estudos literários, ocorre o conflito entre a permanência das perspectivas teóricas que defendiam a existência de uma dimensão puramente literária das obras, sem influência da sociedade, e as perspectivas em ascensão a partir dos anos 1960 que destacavam as influências culturais, políticas e sociais tanto da produção quanto da recepção dos textos literários. Da mesma maneira, podemos identificar que tal divisão também ocorreu dentro dos limites das teorias da recepção, pois houve dois grandes movimentos em relação às interações entre a história, a cultura e a sociedade com a recepção das obras literárias. De um lado, nas teorias alemãs de Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, devido à influência de determinados pressupostos teóricos, as dimensões sociais, culturais e históricas da recepção literária não foram profundamente abordadas, tendo sido até evitadas, como no caso das teorias de Iser. Por outro lado, surgiram teorias da recepção que, ao longo dos anos 1970 e 1980, produziram estudos a partir das dimensões sociais, históricas e culturais da leitura e denunciaram os limites das teorias alemãs.
Abordamos no presente artigo o processo de formação das mais destacadas teorias literárias destinadas a compreender a leitura de obras literárias, a partir dos anos 1960. Também identificamos como e por que a dimensão histórica e social dos leitores não foi profundamente considerada nas duas correntes teóricas sobre a recepção mais divulgadas no meio acadêmico ocidental: a teoria do efeito estético e a estética da recepção. Por fim, destacamos casos de investigação sobre a dimensão social e histórica na recepção de textos literários a partir da análise dos pressupostos e conceitos da teoria da leitura como contato cultural, como desenvolvido por Gabriele Schwab, pelas concepções construtivistas do reader-response criticism, de Stanley Fish, e pelo construtivismo radical e sistêmico da Ciência da Literatura Empírica. Simultaneamente, exploramos como essas teorias, voltadas para a cultura, a sociedade, as políticas e outras dimensões extratextuais, são importantes contribuições para a história cultural, especialmente para história da leitura e do livro.
Teorias da recepção alemãs da Escola de Constança e o distanciamento da dimensão social da leitura
A preocupação com a interpretação no plano da teoria literária contemporânea remete ao contexto intelectual das universidades após 1945, quando houve uma forte expansão da educação superior. Em tal movimento de expansão, surgiram novas questões relativas ao papel cultural das instituições universitárias e questionamentos políticos sobre a relevância das disciplinas definidas institucionalmente, especialmente entre os jovens universitários na Europa e nas Américas, tal como nos apresenta Tony Judt no capítulo XII, “O fantasma da revolução”, da obra Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945 (JUDT, 2011, p. 150-164). Os jovens nascidos logo após a guerra, conforme essa obra, lotaram as universidades europeias e se dedicaram a compreender e até a transformar radicalmente o mundo, isso por meio de protestos, da cultura pop, de novos comportamentos e da produção teórica.
No contexto alemão, a criação da estética da recepção e da teoria do efeito estético está diretamente vinculada ao status dos estudos de literatura no final dos anos 1950 e início dos anos 1960 entre os jovens universitários, segundo Wolfgang Iser (ISER, 1999c), criador da teoria do efeito estético. Iser nos apresenta a história do surgimento dessas duas perspectivas teóricas em uma conferência apresentada no Rio de Janeiro em 1999, na qual associa a formação dessas teorias literárias com as reações dos jovens estudantes alemães à antiga tradição dos estudos literários. Assim, o teórico da literatura afirma que tal corrente teórica corresponde a uma resposta ao conflito de interpretações e ao impacto político da rebelião dos estudantes na época (ISER, 1999c, p. 21). Conforme essa retrospectiva, o conflito das interpretações corresponde ao aspecto teórico deste contexto. A herança cultural se tornou um problema, pois não se dispunham mais dos parâmetros unificadores. Assim, o questionamento sobre seu significado faz eclodir um conflito sobre a interpretação. A postura do professor universitário alemão, de ser o detentor do sentido da obra, é questionada a partir do aparecimento de perguntas como: “por que o sentido de uma obra literária haveria de mudar se as palavras e as frases se mantêm as mesmas?” (ISER, 1999c, p. 22). Nesse momento, então, começou a existir a consciência de que os pressupostos que sustentam a interpretação determinavam o significado do texto interpretado, tornando-se, assim, necessário explicitar os pressupostos que moldam as interpretações.
O conflito de interpretações é, portanto, fruto justamente do ato de explicitar os pressupostos das interpretações e, conforme o relato de Iser, essa tarefa assumiu um perfil competitivo, porque, para cada tipo de interpretação, havia a tentativa de negar o outro. A progressiva consciência dos limites das propostas interpretativas fez com que cada modelo de leitura começasse a usar os pressupostos dos outros modelos. O que Iser chama de “conflito de interpretações” é resultado do intenso processo de formação de novas teorias nas áreas das ciências humanas e sociais que ocorreu na história intelectual ocidental entre os meados dos anos 1960 e os anos 1980. Terry Eagleton afirma, na obra Depois da Teoria, que a teoria cultural é fruto de uma década e meia extraordinária, de 1965 a 1980 (EAGLETON, 2003, p. 43).
Foi nesse contexto que a herança cultural foi considerada fundamental, como uma forma de reação conservadora à ascensão das novas teorias, especialmente na crítica literária. Assim, muitas abordagens críticas que estavam em voga buscavam ainda a intenção do autor, o sentido que ele havia planejado dar ao texto, e o valor estético, na forma de reconciliação das partes da obra. Essas características da abordagem dos estudos, existentes no contexto citado, são permanências da concepção de arte do século XIX, na qual o autor era romanticamente considerado criador, quando a arte e a literatura receberam o status de uma espécie de religião secular, representando a ideia clássica de que a reconciliação dos opostos na arte era a única maneira de expressar a verdade (ISER, 1999c, p. 23).
Na perspectiva de Iser, a situação na qual a literatura moderna se mostrou inacessível aos estudos literários, com base nos critérios herdados do século XIX, provou a emergência de um problema hermenêutico, no qual os critérios de interpretação invalidados provocaram o surgimento de novas questões de que as antigas respostas não conseguiam dar conta. Essas novas questões não teriam surgido se não existissem as antigas para serem substituídas. Nesse processo, ficou identificada a frustração de leitores diante de normas tradicionais de interpretação, e a busca pela intenção autoral foi substituída pelo exame do impacto do texto literário ou do processamento do texto por parte de um receptor, ou seja, daquilo que ocorre com o texto no ato da leitura. Essa virada correspondeu ao ponto de partida das teorias da recepção (ISER, 1999c, p. 23).
Por esses motivos, os estudos literários foram influenciados pela rebelião dos estudantes alemães na década de 1960, pois eles passaram a questionar a necessidade de se estudar literatura, por acreditarem que essa forma de expressão artística era apenas uma representante da herança cultural que negavam. Neste sentido, a postura do professor de literatura, como uma espécie de proprietário das interpretações corretas das obras, fez com que aumentasse o distanciamento entre os estudantes e os estudos literários. Por consequência, a teoria do efeito estético e a estética da recepção correspondem a uma reação, no plano da teoria, a esse contexto. Ou seja, Iser encontrou uma forma para “salvar” os estudos literários, a partir de um caminho comum no contexto dos anos de 1960, a criação de teorias, para corresponder às demandas dos jovens intelectuais universitários do período.
Dessa maneira, na teoria do efeito estético, Wolfgang Iser busca compreender o que acontece com o receptor no ato da leitura de um texto literário, como ele descreve com detalhes na obra O ato da leitura, especificamente nos capítulos III, “Fenomenologia da leitura”, e IV, “A interação entre texto e leitor” (ISER, 1999c, p. 9-190). O texto é considerado um evento ou um acontecimento que ultrapassa todos os sistemas de referência pré-estabelecidos. Ao mesmo tempo, essa reflexão tenta responder à questão de como as estruturas do texto prefigurariam o processamento feito pelo leitor. Outro ponto estruturante da teoria do efeito estético consiste na crença de que existe uma transgressão, no texto literário, em relação ao contexto sócio-histórico no qual foi produzido, assim como frente ao contexto dos seus receptores.
Nessa teoria, o intervalo entre o texto e o leitor é fundamental, já que se admite que o texto é processado na leitura. Nesse processo, a leitura transforma o texto num correlato “noemático” na mente do leitor (ISER, 1999c, p. 28-55). Isso ocorre porque os textos são permeados de lacunas e negações que são negociadas no ato da leitura e, consequentemente, permitem que o texto seja transplantado para a consciência do leitor.
Tal compreensão do ato de leitura está ancorada numa perspectiva filosófica fenomenológica. Isso explica por que a teoria do efeito estético se concentra no processamento da leitura, no qual o texto passa a ser um correlato na consciência do leitor; ao mesmo tempo, não é enfatizada qualquer preocupação de ordem histórica, social ou psicológica de tal processo. Conforme dito por Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês (MERLEAU-PONTY, 1999), a fenomenologia consiste em uma filosofia que é, ao mesmo tempo, um relato do espaço e do mundo “vividos”, uma tentativa de descrição direta de nossa experiência tal como ela é, sem nenhuma referência à sua gênese psicológica e às explicações causais que o cientista, o historiador ou o sociólogo dela possam fornecer.
Na fenomenologia da leitura de Iser, o leitor é conduzido a conceber o motivo do questionamento do mundo produzido pelo texto e passa a transcender esse mundo para observá- lo de um ponto de vista exterior a tudo aquilo em que, de outro modo, ele estaria inextricavelmente enredado. Deste modo, a reflexão não se desloca do mundo em direção à consciência, na qualidade de fundamento do mundo, mas toma distância para ver surgirem as transcendências e para estender e apresentar melhor os fios intencionais que nos ligam ao mundo. Nessas condições, a reflexão somente é consciência do mundo, pois o revela como paradoxal e estranho. É justamente esse movimento de transcender o mundo e as nossas intencionalidades que a interação texto e leitor proporciona. Na visão de Iser, a literatura nos capacita a observar de fora os fios que nos entrelaçam com o mundo; tal concepção será desenvolvida posteriormente, nos anos 1990, na obra O fi+kí+io e o imaginário: perspectivas de uma antropologia literária (ISER, 1996).
Em outras palavras, a política, a economia, as identidades e as demais atividades humanas formam uma espécie de amarra responsável por nos prender a determinadas configurações que são transgredidas tanto na criação de textos literários quanto na sua leitura. Por essa razão, qualquer esforço de compreensão da dimensão política da experiência é inviabilizado no plano da teoria do efeito estético. Nessa parte da teoria da recepção, a leitura da literatura serve para nos livrar das limitações que as vidas sociais, culturais e históricas produzem.
Enfim, a obra teórica de Wolfgang Iser, especialmente os desdobramentos posteriores à teoria do efeito estético, pode ser vista como uma tentativa de manter a literatura numa espécie de bolha que detém o poder de, fenomenologicamente, purificar as pessoas das “contaminações” da vida social e da história. Consequentemente, essa teoria fica impossibilitada de contribuir com respostas a indagações sobre as relações entre a leitura, a política, a cultura, a economia e as demais dimensões fundamentais da vida social. Paradoxalmente, Iser afirma que sua teoria é fruto de uma reação histórica, mas, devido à sua escolha pelos fundamentos fenomenológicos, estabelece que a história precisa ser esquecida ou mesmo combatida. Isso tudo se justifica porque, segundo Terry Eagleton, a fenomenologia “[…] promete dar terra firme ao conhecimento humano, mas só pode fazê-lo a um alto custo: o sacrifício da própria história humana” (EAGLETON, 2003, p. 94).
Em simultâneo, podemos destacar a Estética da Recepção, do colega de departamento de Wolfgang Iser, Hans Robert Jauss, inaugurada em 1968 com a publicação da palestra “A história da literatura como provocação à teoria literária” (JAUSS, 1994). Nessa obra formada por sete teses, Jauss defende que a literatura deve ser entendida não apenas como um conjunto de textos isolados, mas como parte de um diálogo contínuo entre o passado e o presente. Dessa maneira, Jauss argumenta que a recepção de um texto literário é fundamental para a sua interpretação e que a história da literatura deve considerar como os leitores, ao longo do tempo, leem as diferentes obras.
Afinal, a qualidade e a categoria de uma obra literária não resultam nem das condições históricas ou biográficas de seu nascimento, nem tão-somente de seu posicionamento no contexto sucessório do desenvolvimento de um gênero, mas sim dos critérios da recepção, do efeito produzido pela obra e de sua fama junto à posteridade, critérios estes de mais difícil apreensão
(JAUSS, 1994, p. 7-8).
Seguindo os pressupostos da hermenêutica de Gadamer, Jauss introduz o conceito de “horizonte de expectativas”, que se refere às expectativas que os leitores têm em relação a uma obra literária com base em seu contexto histórico e cultural. A história literária, assim, deve entender como uma obra é definida e interpretada por diferentes momentos de recepção histórica. Com esse argumento, Jauss critica a ideia de que a literatura é um reflexo direto da realidade social ou histórica, sugerindo, em vez disso, que ela tem sua própria lógica e dinâmica.
No ambiente universitário brasileiro, a obra de Jauss foi muito divulgada, ao ponto de haver a confusão entre a teoria do efeito estético e a estética da recepção, porque muitos denominavam ambas de estética da recepção. Um exemplo na propagação da ideia de que todas as vertentes da Escola de Constança tinham o nome de estética da recepção foi a publicação e o sucesso do livro de Regina Zilberman, Estética da Recepção e história da literatura (ZILBERMAN, 1989). Esse livro contém textos básicos de pesquisadores que faziam parte da Escola de Constança: Hans Robert Jauss, Wolfgang Iser, Stierle e Hans U. Gumbrecht. Além de tais textos, há um capítulo escrito pela própria organizadora, Regina Zilberman, fruto de uma leitura da obra Helena, de Machado de Assis, baseada na teoria literária de Jauss. Apesar da qualidade do trabalho e de ser reconhecido como um ótimo meio de divulgação, a obra apresentou pequeno espaço para a teoria do efeito estético, ajudando a divulgar mais a estética da recepção do que as outras vertentes do movimento teórico. Tal predomínio da estética da recepção está no título do livro. Na contramão desse descuido, os estudos de Luiz Costa Lima apresentam, desde o fim dos anos 1970, reflexões sobre os pressupostos, conceitos e limites de tais teorias, destacando os principais objetivos de cada uma das vertentes. Entretanto, mesmo assim, o subtítulo de uns dos primeiros livros de Costa Lima sobre o tema apresenta a citada confusão: A Literatura e o leitor: textos de estética da recepção (COSTA LIMA, 1979). Após esse período, o termo “Escola de Constança” passou a ser mais usado para se remeter a essas duas teorias e a outras, criadas por pesquisadores ligados a Jauss e Iser.
Em termos dos pressupostos, a partir da influência da hermenêutica de Gadamer (mentor teórico de Jauss), essa corrente teórica aborda a historicidade da tradição ocidental, numa perspectiva eurocêntrica e dentro dos limites da história literária. Terry Eagleton chama a atenção para o fato de que essa perspectiva teórica, a hermenêutica de Gadamer, que Jauss usa na sua estética da recepção, é defensora da tradição em nome da qualidade da experiência estética com as obras.
A tradição dispõe de uma autoridade a que nos devemos submeter: não há muita possiblidade de questionar criticamente essa autoridade, nem de conceber para a sua influência outro resultado que não um resultado positivo. A tradição, argumenta, Gadamer, “tem uma justificativa que foge aos argumentos da razão”
(EAGLETON, 2003, p. 111).
Tal característica da estética da recepção é lida como limitada por determinadas correntes teóricas que passaram a denunciar e criticar a postura eurocêntrica dos estudos literários, tais como os estudos pós-coloniais, os estudos culturais e outras, a partir dos anos 1970. Portanto, conforme o objetivo deste artigo, apresentaremos a partir daqui algumas teorias que foram dissidentes1 das teorias da recepção alemãs e suas respectivas contribuições para a compreensão mais profunda das dimensões sociais, culturais e políticas, entre elas, as teorias construtivistas, sistêmicas e a teoria da leitura como contato cultural.
Formação de correntes teóricas construtivistas a partir da crítica às teorias da recepção
A reflexão sobre o caráter social da construção da literatura, e até da própria realidade, se configurou como um fecundo caminho de formação de teorias a partir de reações a limitações das teorias da recepção da Escola de Constança. Além dos limites das escolhas e ações identitárias e políticas de escritores e leitores, foram identificados também os limites sobre as definições de literatura, ficção e realidade, por consequência, dos fundamentos fenomenológicos e hermenêuticos dessas teorias. Desta maneira, estudos construtivistas de Stanley Fish e dos teóricos da Ciência Empírica da Literatura permitiram grandes contribuições aos esforços de entender a experiência literária de acordo com características das sociedades das últimas décadas do século XX.
Na visão de Stanley Fish, teórico norte-americano do reader-response criticism, os leitores criam os textos e não os interpretam; logo, o sentido atribuído a um texto é criado cognitivamente pelo leitor, pertencente momentaneamente a uma “comunidade interpretativa” (FISH, 1993, p.156- 165). Devemos destacar que Stanley foi uns dois maiores críticos às teorias de Wolfgang Iser, ao ponto de escrever um artigo ironizando o teórico alemão, intitulado “Por que ninguém tem medo de Wolfgang Iser” (Why No One’s Afraid of Wolfgang Iser) (FISH, 1981, p. 1-11). Segundo Fish, leitores pertencentes a determinada “comunidade interpretativa” constroem textos semelhantes, de acordo com as concepções, valores, conceitos, compartilhados por sua comunidade. Ao mesmo tempo, leitores inseridos em “comunidades interpretativas” diferentes construirão outros textos.
A conclusão, portanto, é de que todos os objetos são feitos, e não encontrados, e que são feitos pelas estratégias interpretativas que colocamos em movimento. Isso, porém, não compromete a subjetividade, porque os meios são sociais e convencionais. Ou seja, segundo Fish, o “você” que faz o trabalho interpretativo que coloca poemas, tarefas e listas no mundo é um “você” comunitário, e não um indivíduo isolado. Nenhum de nós acorda de manhã e reinventa a poesia ou pensa um novo sistema educacional ou decide rejeitar a realidade em favor de alguma outra forma de organização totalmente original. Não fazemos essas coisas, porque não podemos fazê-las, porque as operações mentais que podemos realizar são limitadas pelas instituições nas quais já estamos inseridos. Essas instituições nos precedem, e é apenas habitando-as, ou sendo habitados por elas, que temos acesso aos sentidos públicos e convencionais que elas dão. Assim, embora seja verdade dizer que criamos poesia (e atribuições e listas), nós a criamos por meio de estratégias interpretativas que, em última análise, não são nossas, mas têm sua fonte em um sistema de inteligibilidade publicamente disponível. Na medida em que o sistema (neste caso, um sistema literário) nos constrange, ele também nos molda, determinando-nos com categorias de compreensão, com as quais, por nossa vez, moldamos as entidades para as quais podemos então apontar (FISH, 1993, p. 160).
A concepção de “comunidade interpretativa” e a ênfase dada à sua influência em processos cognitivos de leitores consistem num ponto de semelhança entre a teoria de Stanley Fish e os pressupostos teóricos da Ciência da Literatura Empírica. A Ciência da Literatura Empírica é produzida na perspectiva construtivista baseada em pressupostos epistemológicos e metateóricos que, por meio de conceitos como consenso, intersubjetividade e sistemas autopoiéticos, explicam os processos de construção do conhecimento, de teorias e da própria realidade (OLINTO, 1989). Em outras palavras, é a internalização de determinadas formas de percepção que constrói a realidade, e não o contrário. Entretanto, os processos de construção, produzidos por intersubjetividades e consensos momentâneos, não estão limitados à análise de atividades de criação e recepção de textos, como na visão de Stanley Fish, mas estendem-se a todos os campos da vida humana.
Neste sentido, a sociedade é entendida como um sistema de sistemas de ações sociais, como a política, a educação e a economia, organizado de forma autopoiética, ou seja, os próprios elementos do sistema é que o constroem e o observam. A cultura de uma sociedade pode ser entendida como um modo específico de desenvolver, combinar e avaliar processos de produção de modelos de realidade, isto é, culturas diferentes apresentam inúmeros modelos de realidade, valores, experiências e visões de mundo. Como sistema, a sociedade se distingue de outros fenômenos (por exemplo, a natureza) e é estruturada a partir da relação de seus sistemas parciais, tendo uma função não subsumível para seus membros (por exemplo, a sua reprodução e manutenção).
Do ponto de vista epistemológico, sociedades são sistemas geradores e formados por sistemas autogeradores que organizam a conduta individual. A cultura que se desenvolve numa sociedade pode ser entendida como modo específico de desenvolver, combinar e avaliar processos de construção de modelos de realidade. Em outras palavras, culturas distintas não são apenas formas diferentes de processar uma única “realidade objetiva”, mas, em última instância, formas incomensuráveis de modelos de realidade, de experiência e de valores (SCHMIDT, 1989, p. 45).
Em consequência, a literatura é concebida conforme um modelo de ação literária, e não a partir de textos literários. Ações literárias são realizadas somente quando alguém produz ações via um texto, considerado literário, segundo suas convicções poéticas. Os conjuntos de ações literárias referentes aos textos, considerados literários por aqueles que realizam tais ações, formam o que é chamado, nesta perspectiva teórica, de “sistema literário”. A partir desses princípios, Siegfried J. Schmidt, um dos teóricos da Ciência da Literatura Empírica (CLE), propõe uma nova perspectiva para os estudos da literatura, na qual o texto literário não é considerado uma entidade autônoma. O que é enfatizado, através de sua teoria, são as seguintes dimensões do sistema literário: produção, mediação, recepção e processamento de textos literários (SCHIMIDT, 1989, p. 46).
A literatura é concebida a partir de um modelo de ação literária (e não a partir de um modelo de textos literários). Um indivíduo realiza uma ação literária quando realiza uma ação por meio de um texto que considera literário em função de suas convicções poéticas. A hipótese empírica básica em relação à ação literária é a seguinte: temos, em nossa sociedade, um sistema que podemos descrever como sistema de ações literárias. Este sistema de ações literárias é formado pelo conjunto das ações que se referem a textos considerados literários pelos indivíduos que realizam estas ações (SCHMIDT, 1989, p. 45).
Segundo Schmidt, a diferenciação do atual sistema literário em relação aos demais sistemas se dá por exercer funções específicas estabelecidas por duas convenções: a convenção estética e a convenção de polivalência. A convenção estética introduz a regra de ação, segundo a qual os enunciados de textos considerados literários devem ser dirigidos por valores e normas estéticas, ao contrário das convenções vigentes em outros sistemas, que determinam que os elementos linguísticos referenciais devem se referir a enunciados e ao modelo de realidade compartilhado por um grupo social. A convenção de polivalência introduz como norma, nos limites do sistema literário, o direito que os agentes têm de atribuir, ao mesmo texto, resultados recepcionais diferentes e satisfatórios. Sendo assim, os sistemas de literatura têm como função: na esfera cognitiva, criar o esboço de modelos alternativos de realidades, de experiências e de vivências; no aspecto normativo, tematizar publicamente conflitos normativos individuais; no plano emocional, satisfazer as necessidades hedonistas (SCHMIDT, 1989, p. 45).
A CLE é uma teoria sistêmica baseada no conceito de autopoiese, desenvolvido por Humberto Maturana, um neurobiólogo chileno. Essa teoria consiste num diálogo com concepções da ciência contemporânea para compreender os fenômenos sociais. Neste viés, a sociedade moderna é vista como um complexo sistema de comunicação que diferencia a si mesmo numa rede de subsistemas sociais interconectados. Cada um desses sistemas reproduz a si mesmo, conforme as suas próprias observações, porém, qualquer coisa que esteja sendo observada é marcada por sua única perspectiva, por seus processos de seletividade, formados por distinções particulares que usam para as suas observações (SCHMIDT, 1989, p. 55).
O conceito de sistemas sociais usado pela CLE é oriundo da teoria criada pelo sociólogo Niklas Luhmann (LUHMANN, 1998). Trata-se de uma teoria contemporânea à chegada, na Alemanha dos anos 1980, da teoria do caos, da noção de realidades construídas e da biologia da cognição, tendo sido, portanto, alimentada por essa linha de pensamento, que recebeu a denominação de “construtivismo radical”, ainda que tal conjunto de reflexões não estivesse dominado por uma doutrina. Niklas Luhmann usa o conceito de Humberto Maturana (1989) de autopoiese para caracterizar operações de sistemas autorreferenciais. De acordo com Maturana, tais sistemas se formam em redes, cujos componentes geram, recursivamente, através de suas próprias interações, essa rede que os produz e os constitui. Os sistemas autopoiéticos são incapazes de operar além de seus próprios limites, pois são fechados em relação ao seu ambiente. Entretanto, os elementos do sistema não podem criar um mundo material por eles próprios. Um fechamento operacional pede a exterioridade de outros níveis de realidade, que só pode ocorrer em condições ecológicas. O fechamento é redefinido como uma condição da abertura estrutural e vice-versa; assim, a tradicional oposição entre sistema “fechado” e “aberto” é deslocada para a questão: “o fechamento autorreferencial pode criar abertura?”. Desta forma, os sistemas sociais que operam na base da consciência, no que Luhmann chama de “sistema psíquico”, e da comunicação são reproduzidos a partir da construção do sentido.
La teoría de sistemas autorreferenciales sostiene que la diferenciación de los sistemas sólo puede llevarse a cabo mediante autorreferencia, es decir, los sistemas sólo pueden referirse a sí mismos en la constitución de sus elementos y operaciones elementales (lo mismo en el caso de los elementos del sistema, se sus operaciones, de su unidad). Para hacer posible esto, los sistemas tienen que producir y utilizar, al interior del sistema, la diferencia entre sistema y entorno como orientación y principio del procesamiento de información. La cerradura autorreferencial es sólo posible bajo condiciones ecológicas: en elmarco de un entorno. Elentorno es un correlato necesario para las operaciones autorreferenciales, ya que precisamente esa producción no se puede llevar a cabo bajo la premisa del solipsismo. Se podría decir, también, que todo lo realmente importante que acontece en él, incluso la mismidad, tiene que ser introducida por diferenciación entre sistemas “cerrados” y sistemas “abiertos”, que es sustituida por la cuestión de como la clausura autorreferencial puede producir apertura
(LUHMANN, 1998, p. 33).
A concepção do social como um sistema comunicacional de processamento de significados proporciona uma revisão de concepções sociológicas e filosóficas em relação a temas tradicionais dos debates das ciências humanas e sociais, como: o papel da linguagem, o status do sujeito, a possibilidade do conhecimento e outros. Nesta construção teórica, existe uma crítica à concepção fenomenológica de sujeito centrado. Luhmann rejeita a crença de Husserl na existência de um sujeito centrado, incapaz de se harmonizar e interagir com a dimensão social. Isso se justifica porque a fenomenologia husserliana consiste no que Luhmann chama de “uma teoria transcendental” que dá destaque exclusivo à consciência (LUHMANN, 1998, p. 37-77).
Nessa teoria sistêmica, não existe mais um sujeito privilegiado da cognição, e não é possível que o princípio do fechamento autorreferencial seja atribuído ou reduzido à consciência. Nessa perspectiva, a consciência e o social são considerados dois sistemas autopoiéticos separados. Cada qual desenha os seus limites sobre a base de suas próprias operações e condições de estabelecer conexões, demarcando o que é considerado um meio para o outro sistema (LUHMANN, 1998, p. 236-255). Ao simultâneo, a grande contribuição das teorias de base construtivista é a de chamar a atenção para a armadilha de reduzir toda a complexidade das realidades que vivemos a visões dicotômicas. Seguindo esse argumento, devemos destacar a radicalização do exame dos processos de construção do conhecimento que as teorias desempenham, ou seja, para teorias sistêmicas, tais como a Ciência da Literatura Empírica e a teoria dos sistemas sociais de Luhmann, a dimensão epistemológica é fundamental para a interação entre a ação do teórico e os inumeráveis processos de construção de realidades. O teórico não é mais um sujeito que busca a verdade última de seus objetos de estudo, mas um elemento autoconsciente de uma rede de ações intersubjetivas que também têm sua interação com os demais sistemas, como os sistemas político, econômico, artístico e outros (OLINTO, 1989, p. 13-33).
Aproximações entre teorias construtivistas e a história cultural
As concepções de Stanley Fish e das teorias sistêmicas construtivistas, a partir das quais é possível entender que a literatura é um sistema social, configurado por meio de ações intersubjetivas e convenções, podem contribuir de forma mais ampla aos estudos da história cultural contemporânea do que as teorias da Escola de Constança. Roger Chartier, um dos grandes representantes da nova história cultural, em uma entrevista para a revista Acervo, da Biblioteca Nacional, em 1995, nos apresenta uma interessante perspectiva sobre os caminhos da história da leitura e aborda suas conexões com as teorias da recepção (ACERVO, 1995, p. 3-11)2.
Em certo momento da entrevista, foi perguntado ao historiador francês de que forma a história cultural pode se relacionar com a estética da recepção ou com a abordagem filosófica de Paul Ricoeur. Em resposta, Chartier afirma que, tanto na estética da recepção quanto na filosofia de Paul Ricoeur, que se inscreve numa perspectiva fenomenológica e hermenêutica, houve o encontro imediato e direto com a história da leitura. Entretanto, Chartier pontua que há dois elementos de distinção entre a história da leitura e esses dois campos teóricos sobre a leitura: a preocupação com a materialidade dos textos e todas as formas de abstração do leitor (ACERVO, 1995, p. 8-9).
No que se refere à materialidade, Chartier explica que a significação das obras depende também das formas que as transmitem a seus leitores, ouvintes ou espectadores, em detrimento de todas as formas de abstração dos textos lidos, comentados ou estudados. Como exemplo, ele afirma que uma “mesma” comédia de Molière não é a mesma quando assistida numa festa na corte, quando encenada no palco de um teatro ou quando é apenas lida, assim como um romance de Balzac não é o “mesmo” quando é publicado em uma edição para o mercado de livrarias ou quando é editado sob a forma de obras completas ou em capítulos em folhetim.
Ao mesmo tempo, Roger Chartier argumenta na entrevista que é necessário, para historiadores e historiadoras da leitura, deixar de lado a abstração do leitor ou um “etnocentrismo” da leitura que supõe que há sempre práticas de leitura em comum a todos os tipos de leitores, que na verdade são absolutamente específicas e não iguais. Contra isso, o historiador defende que não devemos esquecer que a leitura tem uma história e uma sociologia. Dessa maneira, é preciso reconstruir as competências, as técnicas, as convenções, as práticas, os hábitos de cada comunidade de leitores e leitoras. De tais comunidades também depende a construção de significados atribuídos aos textos.
Esses pontos de diferença entre as perspectivas ligadas à fenomenologia e à hermenêutica, tais como as teorias da recepção e a filosofia de Paul Ricoeur (RICOEUR, 1994), estão em harmonia com as teorias construtivistas que mencionamos anteriormente. A história da leitura que deixa de lado as abstrações dos textos e dos leitores consegue observar as ações de comunidades de leitores, processos de produção, circulação de obras, as ações econômicas ligadas à produção e ao comércio de obras, os valores dados por obras a partir do meio de sua circulação e as recepções. Por tais motivos, podemos considerar que a história da leitura, ao pesquisar as ações de comunidades de leitores, pode ser enriquecida com a teoria de Stanley Fish sobre as comunidades interpretativas. Esse conceito também nos permite entender as convenções que determinam como é categorizada uma certa obra (literatura, poema e outros), o seu valor, o seu gênero e as suas formas de recepção.
Ao mesmo tempo, a história da leitura apresentada por Chartier apresenta muitos caminhos em comum com a proposta dos pesquisadores da Ciência da Literatura Empírica, pois as ações do sistema literário – produção, mediação, recepção e processamento de textos literários – apontam semelhanças entre elementos da pesquisa de história da leitura focados na materialidade dos textos e na não abstração de leitores. Ou seja, a pesquisa sobre a materialidade pode fazer parte do que, na CLE, denomina-se de “ações de produção e mediação”, nas quais observamos em que tipo de suporte o texto se encontra – peça, folhetim, edição de luxo, capa dura, e-book, entre outros –, e de “ações de mediação”, que incluem a divulgação, o controle, o comércio e a censura em determinado momento histórico e sociedade. Isso tudo é pensado em conjunto com as práticas leitoras, “ações de recepção”, e com a leitura crítica das obras, o que essa corrente chama de “processamento de textos literários”.
Leitura de literatura como contato cultural: teorias da recepção e estudos culturais
Outra teoria originária das teorias da recepção de Iser e Jauss, que seguiu outros objetivos e pressupostos, consiste na teoria da leitura como contato cultural, desenvolvida por Gabriele Schwab, professora da University of California – Irvine. Essa teoria aborda as dimensões culturais e políticas do ato da leitura, ligadas às operações de transferência e de contato cultural (SCHWAB, 1996). Tal perspectiva teórica foi criada nos anos 1990, quando as reflexões sobre a alteridade cultural ganham mais espaços nos estudos acadêmicos das ciências humanas em decorrência do desenvolvimento dos movimentos sociais, da formação dos estudos culturais, dos efeitos excludentes das políticas neoliberais dos anos 1970 e 1980 e da consolidação da hegemonia da cultura do audiovisual.
Para Schwab, o ato de ler é considerado uma operação de fronteira que possibilita negociações entre limites marcados por diferenças estéticas, culturais e históricas. Assim, nessa concepção, houve a aproximação entre fundamentos teóricos das teorias da recepção alemãs e os estudos culturais. Para fundamentar tal concepção, Gabriele Schwab procura definir como a alteridade e o contato cultural operam na produção e, especialmente, na recepção literária. O contato cultural é considerado, aqui, não apenas uma forma de contato entre duas ou mais comunidades com culturas diferentes, mas também engloba situações em que o contato ocorre dentro de uma mesma comunidade.
A partir dessa perspectiva, é possível identificar como uma forma de contato cultural a relação que a literatura estabelece entre seus leitores e a cultura na qual um texto literário é produzido e interage. Isso está presente também nos processos de socialização que passamos por meio do ato da leitura. A teoria liga a função cultural da literatura ao seu poder de nos afetar e de mudar práticas culturais ou interferir nelas. A literatura, segundo Schwab, nos afeta mais quando exibe uma alteridade ressonante ou uma ressonância desconhecida, se não misteriosa. Categorias estéticas como “inovação” ou “desfamiliarização” apreendem os aspectos estruturais e estéticos deste fenômeno (SCHWAB, 1996, p. 10).
Como outras formas de contato cultural, a recepção literária afeta as referências culturais de leitores, porque, ao atuarem como agentes de contatos culturais, as obras literárias conseguem interferir nos limites de suas próprias culturas. Por outro lado, os textos também configuram várias formas de socialização numa mesma cultura. Sendo assim, essas alterações de limites são determinadas pela história da leitura, de comunidades culturais e de leitores individuais (SCHWAB, 1996, p. 11).
Dessa forma, é possível entender os padrões culturais de relacionamento com a alteridade como uma forma de educação cultural que pode ser desenvolvida através da mudança de tipos históricos de atos da leitura. Em tal educação, as posturas “etnocêntricas” ou “egocêntricas” são desafiadas a partir da transgressão de seus limites, que a recepção da alteridade do texto literário proporciona. Isso se amplia para a própria questão da construção do conhecimento; o estudo da literatura torna-se um espaço no qual posturas etnocêntricas, sexistas e racistas são confrontadas. Enfim, essa teoria nos leva também para uma reflexão epistemológica e política sobre os estudos literários (SCHWAB, 1996, p. 12).
Schwab, de maneira geral, sustenta que, no cenário atual, altamente tecnológico e globalizado, ocorre uma clara substituição de uma cultura literária por uma cultura visual, resultando na diminuição do espaço público e da atenção dedicada à literatura. No entanto, a literatura tem criado métodos experimentais que influenciam o ato de ler. Portanto, nessas vivências literárias, iniciam-se interações culturais distintas das que são incentivadas na cultura estruturada pela mídia de massa e pela cultura digital. Essas vivências são geradas através da utilização das variadas formas de alteridade literária, histórica e cultural, que se manifestam, por exemplo, desde o alto modernismo até o pós-modernismo (SCHWAB, 1996, p. 12).
A teoria da leitura como contato cultural também enfatiza um aspecto crucial: as relações de poder que resultam em imposições de significados aos textos, nos encontros culturais entre leitores e textos de culturas distintas ou entre leitores e textos de uma mesma comunidade cultural. Gabriele Schwab demonstra claramente a questão das relações de poder na imposição de significados ou na supressão de interpretações ao examinar a experiência de Laura Bohannan, uma antropóloga dos Estados Unidos. Depois de um debate com um acadêmico britânico acerca da universalidade da obra de Shakespeare, ela optou por ler Hamlet para uma tribo do norte da África, conhecida como Tiv (SCHWAB, 1996, p. 1). A interação dos Tiv com a narração de Hamlet realizada pela antropóloga gerou uma circunstância curiosa, na qual códigos culturais e suposições sobre interpretação, poder e hierarquia entre culturas e indivíduos se manifestam através de práticas interpretativas. Para os Tiv, narrar histórias é uma arte sofisticada e crucial para a sua vida social, já que todas as narrativas possuem um sentido autêntico único. Assim, os mais velhos possuem a capacidade de estabelecer o significado autêntico de histórias, narrativas, acontecimentos, circunstâncias, comportamentos e fenômenos naturais (SCHWAB, 1996. p. 2).
Isso explica a reação dos anciãos dos Tiv ao ouvir a versão de Hamlet contada pela antropóloga. Eles chegaram à conclusão de que Hamlet era um vilão, por insultar sua mãe, assassinar Polonius e se rebelar contra seu tio Claudius. Este, como era esperado, casou-se com sua mãe e sucedeu seu pai no trono. Assim, um dos anciãos se dispôs, em nome de todos, a instruir a antropóloga sobre o real significado das histórias que ela narrava (SCHWAB, 1996, p. 2). Em resumo, Gabriele Schwab, por meio deste exemplo, ilustra a conexão entre a repressão de interpretações e os valores e normas sociais, bem como as relações de poder existentes entre culturas e grupos sociais de uma mesma cultura. Simultaneamente, a maneira como narramos e encaramos a alteridade, evidenciada na leitura de outros indivíduos ou culturas, é moldada pelas relações de poder compartilhadas por diversos grupos sociais. As táticas retóricas empregadas pela antropóloga espelham a perspectiva colonizadora dos ocidentais sobre uma tribo africana, uma vez que a maneira como ela relatou a história de Hamlet foi bastante parecida com as versões infantilizadas elaboradas para narrar os clássicos da literatura para o público infantil (SCHWAB, 1996, p. 5). Esse ponto nos remete aos estudos sobre a forma e a mediação dos textos que abordamos a partir da história da leitura e as teorias construtivistas de Stanley Fish e da CLE.
Em comparação com o que já abordamos sobre as teorias da recepção, podemos considerar que Gabriele Schwab, em sua teoria, expandiu alguns conceitos da teoria do efeito estético de Iser, direcionando-se para a análise das dimensões psicológicas, culturais e políticas do ato de ler – aquelas relacionadas às operações de transferência e interação cultural. Contudo, Schwab nos recorda que a metáfora da interação se aplica a ações textuais que orientam a compreensão de leitores que “processam” o texto de maneira ativa. Em outras palavras, a pesquisadora norte- americana revela que, para Iser, a interação entre texto e leitor se refere a um leitor único, ocorrendo a transferência de sentido, que só será bem-sucedida se o texto conseguir estimular determinadas disposições da consciência do leitor. Nesta perspectiva, a sua interpretação da leitura como contato cultural altera esses conceitos de Iser, especialmente ao levar em conta os métodos históricos e psicológicos de interpretar textos concretos, incluindo as formas do inconsciente. Para Schwab, processar o texto vai além de uma simples transferência neutra, é uma interação intensiva entre leitor e texto. Isso pode ser interpretado como um processo no qual a formação psicológica e cultural da alteridade é inserida em cena.
A ideia de transferência também possibilita a compreensão do texto literário como uma ação que estimula uma interação específica ou, mais especificamente, uma projeção controlada. Portanto, os textos são percebidos como ações ativas que geram determinados efeitos subjetivos nos seus leitores, permitindo, assim, um tipo de interação cultural que faz de ambos os envolvidos agentes ativos. Em geral, observamos que a teoria de Schwab representa uma inversão do que Wolfgang Iser pensava sobre o efeito e a criação de textos literários. Em outras palavras, enquanto Iser se concentra em destacar a neutralidade da experiência literária como um ambiente performático onde podemos nos distanciar das restrições culturais e históricas do nosso contexto, Gabriele Schwab defende como nossas heranças culturais e históricas são trabalhadas e negociadas com outras configurações culturais, por meio da leitura e da produção de textos literários.
A conferência de Gabriele Schwab no VII Colóquio da UERJ, “‘Se ao menos eu não precisasse me expressar’: a estética da negatividade de Wolfgang Iser” (SCHWAB, 1999, p. 35- 45), examina as questões centrais das diversas etapas da obra do alemão, desde a teoria do efeito estético até a antropologia literária. Nesta apresentação, Schwab ressalta a importância da obra de Iser para os estudos literários contemporâneos e, sobretudo, evidencia como a teoria da leitura como contato cultural, que ela defende, foi moldada por essa perspectiva teórica.
Considerações finais
É plausível identificar as correntes teóricas dissidentes das teorias da recepção alemãs, que abordamos até aqui, como meios para compreender a articulação entre ideologias, modelos de recepção e construção da própria realidade social. As correntes construtivistas representadas pelas obras de Stanley Fish e dos teóricos da Ciência Empírica da Literatura, simultaneamente, apresentaram os limites das teorias de base fenomenológica, como a de Wolfgang Iser, e de base hermenêutica, como a estética da recepção de Hans Robert Jauss, apontando para o papel de comunidades interpretativas para a construção intersubjetiva da literatura – como no caso de Stanley Fish – e das realidades, das sociedades e seus sistemas sociais – como visto nas demais teorias construtivistas que abordamos.
Tais caminhos traçados entre as teorias da recepção e as teorias construtivistas apresentam grande potencial de conexão com os estudos sobre história da leitura e do livro desenvolvidos por historiadores da história culturalcomo Roger Chartier, Robert Darnton e outros. Com essa aproximação teórica e metodológica, é plausível compreender o papel das convenções, escolha de meios de comunicação, jogos políticos, para determinar os sentidos dos textos, as formas de distribuição, ou seja, as ações de produção, mediação e a importância de grupos sociais e comunidades para a recepção de textos em determinados momentos históricos e sociedades.
Ao mesmo tempo, devemos observar, a partir da contribuição do estudo teórico de Schwab, como a produção e recepção de ficções literárias podem proporcionar contatos culturais diferentes em relação aos processos de produção de realidade de uma determinada cultura. Tal riqueza de experiências culturais por meio da literatura consiste em produtivo campo de estudos na atualidade globalizada e dominada pelo audiovisual e pela cultura digital do século XXI. Por outro lado, estudos que exploram a alteridade na experiência literária são de grande valor para a construção de novas compreensões da história do racismo, misoginia, homofobia e aporofobia, que podemos pesquisar por meio dos processos de produção e recepção de obras literárias, temas muito desenvolvidos pelas pesquisas nos campos da história e dos estudos literários contemporâneos.
No Brasil, os estudos sobre o sistema literário e a experiência literária como contato cultural tem plenas condições de atender às novas demandas contemporâneas sobre as dimensões sociais, econômicas, culturais e políticas da produção e da recepção literária. Um exemplo do mapeamento dessa demanda consiste na obra de Regina Dalcastagnè, Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (DALCASTAGNÈ, 2012), que apresenta a literatura contemporânea brasileira como um sistema social formado por autores, editores, críticos, professores, estudantes e outros agentes, constituindo um território contestado no qual participação e temas populares lutam para conseguir espaço e reconhecimento. Isso se justifica porque há o monopólio, nesse sistema literário, de autores homens, brancos, moradores dos grandes centros urbanos, pertencentes às classes médias e altas, com as mesmas profissões e outras características semelhantes (DALCASTAGNÈ, 2012, p. 8). O reconhecimento de tal dinâmica do sistema literário tem o poder de inspirar novas pesquisas em relação a outros momentos históricos, quando diversas interações entre comunidades interpretativas, consensos, sistemas literários e grupos privilegiados ou excluídos foram estabelecidas.
Os caminhos que essas teorias da recepção estão percorrendo, desde os anos 1960, formaram preciosas contribuições para a formação de novas perspectivas teóricas e metodológicas, tanto nos estudos sobre práticas leitoras no passado, quanto nas investigações sobre a produção historiográfica e teórica nos campos da história e das demais ciências sociais e humanas.
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