Catálogo da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina

The catalogue of Queen Carlota Joaquina´s library

Resumo

Este artigo tem por objetivo apresentar a biblioteca da rainha Carlota Joaquina. Para tanto, tomaremos como base o catálogo dessa biblioteca, documento ainda inédito, que foi escrito em 1831 na Biblioteca da Ajuda, onde permanece intocado desde então. Esse catálogo revela a existência de um acervo incomum para a época. Ele contabiliza 2.366 volumes, número bastante diferente das cifras encontradas em livrarias coetâneas, cuja média girava em torno de 25 unidades.

Palavras-chave
Bibliotecas particulares; História da leitura; Catálogo; Biblioteca da Ajuda; D. Carlota Joaquina

Abstract

This article presents the library of the Queen Carlota Joaquina (1775-1830). In order to do so, the catologue of that library has been used as a basis to our work. That document was written in 1831 at the Biblioteca da Ajuda and have remained untouched ever since. This paper show records of an unusual collection. It contains 2,366 books, which is quite a different amount from contemporany libraries, whose averege was close to 25 books.

Keywords
Private libraries; History of reading; Catalogue; The Ajuda Library; D. Carlota Joaquina

O códice manuscrito 51-XIII-7 da Biblioteca da Ajuda, ainda inédito, corresponde ao catálogoCatalogo que foi de S. Mag.de a Imperatriz Rainha e Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon. Lisboa: Biblioteca da Ajuda, 1831. da biblioteca que pertenceu à rainha D. Carlota Joaquina (1775-1830). Intitulado Catálogo da livraria que foi de Sua Majestade a Senhora Dona Carlota Joaquina de Bourbon, esse documento registra um fato quase completamente ignorado pela história até o momento: D. Carlota Joaquina formou uma biblioteca para uso particular1 1 A historiadora Sara Marques Pereira, em D. Carlota Joaquina e os espelhos de Clio, foi talvez a primeira pessoa a chamar atenção para a existência de uma livraria particular em posse da rainha Carlota Joaquina. Ainda assim, fez isso de modo bastante sucinto, destacando na ocasião a necessidade de se realizar um estudo sobre o catálogo dessa biblioteca. Desde a década de 1990, quando essa observação foi feita, até hoje, tal estudo ainda não foi realizado. , ato que pode ser traduzido como manifestação de interesse pelo universo dos livros, e reflexo da formação intelectual privilegiada que recebeu desde os primeiros anos de idade2 2 A posse de livros por princesas, além de certificar a educação que recebiam, podia ter a finalidade de validá-las socialmente, conferindo-lhes prestígio e reconhecimento, bens simbólicos que lhes garantiam ocupar lugares de destaque no seio da corte, especialmente durante uma etapa específica da vida: o casamento, possível via de acesso para atingir o posto de rainha, em geral resultado de acordos que se inscreviam “no quadro mais amplo das relações internacionais pautadas pelas uniões dinásticas” (LOURENÇO, 2012, p. 11). Nesse sentido, a biblioteca (corolário da formação da princesa) poderia, a par de conveniências políticas, influir na celebração de uma aliança entre duas monarquias. Com efeito, esse tipo de acervo caracterizava-se pela reunião de um patrimônio que promovia estudo, e acima de tudo servia como reflexo do valor das princesas. A formação era pensada, nesses termos, como um dote, que agiria como “um atrativo, um autêntico elemento de sedução” (BENNASSAR, 2009, p. 218). , o que sem dúvida contribuiu para que ela se transformasse em uma mulher bastante culta e instruída3 3 D. Carlota Joaquina foi educada até aos 10 anos de idade na corte do seu avô, o rei Carlos III, símbolo da monarquia ilustrada espanhola. Nesse ambiente, onde reinava o fausto de uma das monarquias mais importantes da Europa à época, recebeu uma instrução primorosa. Ela teve como mestre o padre Felipe Scio, destacado intelectual ilustrado da corte de Carlos III, o que “reforça a diretriz de uma instrução ‘ilustrada’” (AZEVEDO, 2008, p 28). Em 1785, ano em que foi enviada para Portugal para se casar com o príncipe D. João, levou consigo o seu preceptor, que continuou a instruí-la na corte portuguesa. Mesmo depois de ter concluído o período de formação, manteve ao longo da vida práticas diárias de estudo e leitura, que, “a par das ocupações políticas, a mantinham longas horas ocupada em seu gabinete” (PEREIRA, 2008, p. 31). .

O Catálogo da livraria que foi de Dona Carlota Joaquina data de 1831. Embora ele não ofereça indicações conclusivas sobre o local e as circunstâncias em que foi redigido, é razoável supor que esse processo tenha se dado na Biblioteca da Ajuda (então Real Biblioteca da Ajuda), instituição que o mantém guardado desde então e para onde foram enviadas as obras referidas nele, fato este ocorrido provavelmente na sequência da morte da rainha, que se deu um ano antes, em 18304 4 A possiblidade de o Catálogo da livraria que foi de Sua Majestade a Imperatriz Rainha a Senhora Dona Carlota Joaquina de Bourbon ter sido produzido na Biblioteca da Ajuda não descarta a hipótese de ele ter sido apenas recolhido por essa instituição numa altura em que já estivesse acabado. Quanto à destinação das obras registradas nele, é possível assegurar que parte delas integra atualmente o acervo da Biblioteca da Ajuda, conforme apurei durante a realização do projeto de pesquisa de pós-doutorado “Os romances que D. Maria Francisca Benedita (1746-1829) e D. Carlota Joaquina (1775-1830) liam”, ocasião em que localizei nesse acervo livros que apresentavam as mesmas características descritas nesse catálogo e com marcas de posse da rainha D. Carlota Joaquina, como ex-libris e super-libris. A parcela de livros que não foi localizada, considerando a hipótese de ela também ter sido integrada aos fundos da Ajuda, pode ter sofrido algum tipo de extravio, ocorrência que verifiquei na edição de El Ingeniozo Hidalgo Don Quixote de la Mancha (1810), obra que consta no catálogo e é descrita como sendo composta por quatro volumes. Entretanto, encontrei apenas dois, o I e o III. Na contracapa do volume III, foi deixada uma anotação a lápis que explica a ausência dos outros dois. Diz a nota: "esta obra faltão-lhe 2 volumes (2º e 4º) que vieram de menos do quarto dos Senhores Médicos (em abril de 1885) para onde tinham sido emprestados 2 annos antes". Ou seja, os volumes II e IV foram emprestados e não retornaram ao acervo, indicativo de que os livros circulavam fora do espaço da biblioteca e não eram de uso estrito da família real, o que explica, nesse caso, o extravio. Como qualquer outro acervo, a Biblioteca da Ajuda era, e é, um organismo em permanente mudança. Ao longo dos anos, tem sido não apenas destino de sucessivas remessas de livros, mas também alvo de inúmeras subtrações, ocorridas pelos mais variados motivos: transferência do acervo de um lugar para outro, empréstimos não restituídos, permutas e vendas, desgaste natural das obras e incendidos. Em 1843, Alexandre Herculano, seu encarregado à época, realizou a troca e venda de um lote de títulos duplicados. “A primeira venda foi feita em 6 de Junho de 1843, à Real Biblioteca de Munique, que pagou 237$480 réis por 278 volumes”. [… ] Dos mesmos duplicados em língua portuguesa, espanhola e latina, ficou a Biblioteca Real de Berlim, em 8-III-1844 com 130 livros no valor de 118$640 réis” (SANTOS, 1965, p. 25-26). Tal ocorrência permite formular mais uma hipótese para a destinação dos livros não encontrados. Em relação às circunstâncias e ao momento em que as obras pertencentes à rainha Carlota Joaquina foram incorporadas à Biblioteca da Ajuda, ainda pairam incertezas. Na condição de biblioteca real, ela poderia servir como local de armazenamento dessas obras antes mesmo da morte de sua proprietária, cabendo-lhe depois desse acontecimento a posse dessa coleção, caso não houvesse outra destinação expressa. Por outro lado, há a hipótese de esses livros terem dado entrada posteriormente, por determinação de D. Miguel, que, além de ser rei nesse período, foi designado testamenteiro de sua mãe, cabendo-lhe a autoridade para decidir sobre o destino dos bens deixados por ela. Vale acrescentar que, nessa mesma época, D. Miguel realizava esforços para recompor a Real Biblioteca da Ajuda, buscando dotá-la novamente de meios para atender às necessidades da família real, já que a maior parte do acervo que antes cumpria essa função ficara no Rio de Janeiro em 1821. Nesse contexto, ele ordenou a incorporação compulsória de diversas bibliotecas particulares à Ajuda e determinou, por alvará de 6 de fevereiro de 1832, que para lá fosse enviado um exemplar de todo escrito impresso em Portugal. Desse modo, parece bastante plausível que ele tenha ordenado a entrada dos livros que pertenceram à sua mãe na Real Biblioteca da Ajuda, atitude inteiramente dentro do seu campo de possibilidades e de acordo com seus interesses. .

Por ser de natureza post-mortem, esse catálogo dirige o olhar para uma representação global e definitiva da biblioteca, pretensão aliás expressa no título, que se afirma como Catálogo da livraria que foi de Sua Majestade, deixando entrever a imagem de um documento que se propõe a condensar a totalidade desse acervo. De fato, ele se credencia como via para se chegar até essa biblioteca, na impossibilidade de acessá-la em sua dimensão física, já que foi desmembrada em outro acervo (de natureza familiar e patrimonial), o que a fez perder seu desenho original e caráter particular.

Sem perder de vista que o catálogo da biblioteca de D. Carlota Joaquina não garante o registro de todas as obras que ela terá possuído em vida - podendo ter sido resultado das escolhas de quem o redigiu e/ou de testamenteiros5 5 João Luís Lisboa e Thiago Miranda (2011) lembram que um inventário de livros pode estar sujeito aos critérios de organização e avaliação de testamenteiros, o que, não raro, resulta na exclusão de obras cujo valor não é considerado digno de registro. Ao cruzar os títulos desse catálogo com listas de livros que D. Carlota Joaquina comprou (disponíveis no Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis - Rio de Janeiro), constatei que nem todas as obras adquiridas foram inventariadas, como é o caso de Les mille et une nuits e Jean Jacques Rousseau de la Jeunesse. -, ainda assim permanece como fonte para se conhecer essa biblioteca, pois disponibiliza informações sobre um conjunto de livros/escritos que, a despeito de corresponder ou não à totalidade do acervo, seguramente compõe a maior parte dele, o que abre caminho para se mapear suas características e reconstituir seu processo de formação. Além disso, oferece subsídios para identificar virtuais preferências de leitura ou a simples posse de livros por parte da rainha, permitindo estabelecer pontos de convergência entre sua biblioteca e os papéis sociais que lhe foram reservados, de maneira a verificar o quanto essa coleção buscou (ou não) responder ao desejo de fornecer à sua proprietária patrimônio simbólico-material para o desempenho desses papéis.

A análise global desse catálogo revela um acervo extenso em quantidade de obras e plural em conteúdos. Ao todo, ele registra 2366 volumes, o que equivale a aproximadamente 1241 entradas. Desse montante, 2298 volumes correspondem a impressos (livros, em sua grande maioria, folhetos, periódicos e um incunábulo), e 68 são manuscritos. A título de ilustração, essas dimensões ultrapassam consideravelmente o tamanho das bibliotecas femininas (conhecidas) das últimas décadas do século XVIII, e as três primeiras do século XIX6 6 Conferir Zília Osório de Castro (2001); Cristina Maria de Castro Correia Cardoso da Costa (2010); João Luís Lisboa (2011); e Vanda Anastácio (2013). , que, mesmo em situações excepcionais, não excediam 600 volumes, levando a pensar que o acervo da rainha Carlota Joaquina pode ter sido um dos maiores, talvez o maior, em posse de uma mulher nesse período, destancando-se inclusive entre coleções que perteceram a mulheres da nobreza e família real.

Nos termos desse extenso volume de entradas, cabe destacar um repertório de obras inequivocamente heterogêneo, assinalado pela diversidade de autores, textos e categorias. A escritora inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797), assumida como precursora do feminismo, aparece aí ao lado da freira portuguesa Sóror Madalena da Glória (1672-1760), autora de textos de edificação; os clássicos Aristóteles e Santo Agostinho coexistem com contemporâneos a D. Carlota Joaquina, como Jane Austen (1775-1817), Chateaubriand (1768-1848) e José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832); obras de cunho iluminista, como Del Contrato Social: o principios del derecho político (1810)7 7 Os títulos e as datas das obras referem-se aqui às edições tais como aparecem no catálogo, e não necessariamente ao título e à data de publicação originais. , de Rousseau, convivem com o pensamento absolutista de José Agostinho de Macedo (1761-1831), Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) e José Acúrsio das Neves (1766-1834); Oeuvres complètes (1795), de Gabriel Mably (1709-1785), conhecido por constestar o poder régio, dividem espaço com Oeuvres (1799), de Maquiavel, e algumas dezenas de panegíricos que enaltecem as casas reais de Bragança e Bourbon; inúmeros textos de devoção (novenas, hagiografias e cartas pastorais) contemporizam com romances e livros de natureza científica.

Ao procedermos à ordenação dessas entradas por áreas temáticas, identificamos estas categorias: romance, religião, política, história, ciências, panegírico, poesia, jurisprudência, teatro, biografia, imprensa periódica, gramática, correspondência, história/crítica literária e música.

Essa variedade de temas constrasta com o que se conhece até o momento sobre as bibliotecas femininas setecencistas, cuja lógica de composição tendia para a orientação canônica, em que a predominância ou mesmo exlusividade de textos ligados à religião parecia corresponder “à realidade da posse de livros pela maioria das mulheres” (ANASTÁCIO, 2013ANASTÁCIO, Vanda. Bibliotecas particulares e problemas concretos. In: ANASTÁCIO, Vanda (org.). Tratar, estudar, disponibilizar: um futuro para as bibliotecas particulares. Lisboa: Banco Espírito Santo, 2013, p. 47-58. , p. 53). A predileção por obras de natureza religiosa era comum a mulheres tanto da elite quanto das camadas inferiores, como salienta Ana Cristina Duarte Pereira (2008PEREIRA, Sara Marques. D. Carlota Joaquina rainha de Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 2008. ). Embora seja recorrente no catálogo da biblioteca da rainha Carlota Joaquina - aparecendo como o tema que concentra o segundo maior número de obras -, esse segmento não consegue ser hegemônico. Ele divide espaço aí com obras sobre política, história, geografia, ciências e filosofia, áreas temáticas que também têm relevância, além de indicarem o alargamento dos conteúdos na direção de uma cultura escrita secularizada e, no caso específico das duas últimas categorias, de uma mentalidade que parece ecoar o pensamento iluminista. Aliás, não deixa de causar surpresa que uma mulher, que ficou guardada no imaginário intelectual como devassa e conspiradora, tenha possuído uma quantidade significativa de textos religiosos.

A categoria que reúne a maior quantidade de títulos/entradas no catálogo é o romance8 8 Por romance entende-se aqui um conjunto de narrativas em prosa ficcional, em geral de grande ou média extensão, nomeadas no século XVIII e até certa altura do século XIX como novela, história, conto, memórias, cartas, anedota, viagens e romance. , gênero que, no contexto dos séculos XVIII e XIX, foi considerado com frequência um antagonista ideológico e editorial da religião, a ponto de protagonizar uma mudança sensível no panorama cultural da época9 9 Sobre essa mudança, conferir João Luís Lisboa (1989). . Mudança essa perceptível na tendência que combinou o decréscimo de edições de textos religiosos e a ascensão do romance na preferência do público em geral, movimento que a biblioteca da rainha Carlota Joaquina parece captar.

O romance responde por aproximadamente 17% desse acervo, proporção que, além de indicar o peso expressivo que esse gênero possui, garante-lhe a possibilidade de marcar presença de variadas formas, englobando romances antológicos, como O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha (1794) e Pamela (1799); best-sellers, como Les aventures de Télémaque (1810) e Aventuras de Gil Blas de Santillana (1805); picarescos, como Vida, e acçoens celebres, e graciosas de Gusmão de Alfarache (1792) e Le diable boiteux (1775); licenciosos, como Le comte de Valmont, ou les Égaremens de la raison (1784): didáticos, como Brados do Desegano contra o Profundo Sono do Esquecimento (1736); góticos - L’Abbaye de Lussington (1807) e Angelo Guicciardini, ou le Bandit des Alpes (1817); pastoris - Estelle Partorale (1812); e contemporâneos - Os martyres (1810) e Le Parc de Mansfield (1816).

Entre esses romances, há dois que ainda são inéditos. Trata-se de dois manuscritos que foram descobertos recentemente no âmbito da pesquisa que desenvolvi no acervo da Biblioteca da Ajuda, com o objetivo de localizar os livros que pertenceram à rainha D. Carlota Joaquina. São eles Deolinda e Deonel, de Maria do Livramento Spencer, e Novela familiar instructiva, de José Joaquim Carneiro de Miranda e Costa, escritos no Brasil entre o final do século XVIII e começo do século XIX, em data anterior aos textos que são considerados precursores do romance no país, o que confere a esses dois inéditos bastante relevância histórica, pois torna possível ampliar o que se sabe atualmente sobre a história desse gênero no Brasil.

A afluência de romances na biblioteca da rainha Carlota Joaquina também pode ser traduzida como uma extrapolação ao perfil especializado da biblioteca principesca, que em tese era voltado à realidade institucional dos príncipes, configurando-se como espaço de promoção da cultura erudita e de exibição de poder, em que o romance, gênero desprovido de capital político e ascedência nobre à época, parecia não ter lugar garantido10 10 Em Portugal, a educação feminina dos grupos privilegiados era composta sistematicamente, segundo Pereira (2008), pelo ensino de princípios religiosos, leitura e escrita, aritmética prática, conhecimentos básicos de farmacopeia e jurisprudência, disciplinas que deveriam ser complementadas por outras matérias de estudo, como literatura, história, latim, geografia, filosofia, música, pintura, dança, a par dos trabalhos de costura. Esse programa foi defendido por Claude Fleury, em Traité sur le choix et la méthode des études, e por Fénelon no seu livro dedicado à educação feminina, De l´éducation des filles (1687). A metodologia desse programa preconizava, em primeiro lugar, ler, escrever, coser, bordar e rezar, e depois o estudo da filosofia, geografia, história, línguas, música, dança e pintura. A aprendizagem da leitura tinha por base obras de espiritualidade, que tinham a função de incutir nas princesas os valores necessários para que se tornassem boas mulheres, e textos clássicos greco-latinos, que eram usados para apresentar exemplos da história e o modelo político romano, habitual fonte das monarquias europeias durante o Antigo Regime. Pereira (2008) sublinha que, no caso específico das princesas, a história era uma disciplina central, ao lado da geografia, dos costumes de outras partes do mundo e do ensino de línguas estrangeiras, conhecimentos fundamentais para que elas pudessem se tornar rainhas em outros reinos. Esse programa é ilustrativo da educação recebida pela princesa D. Maria Bárbara de Bragança (1711-1756) e se reflete na constituição de sua biblioteca, composta por 577 obras, entre as quais Pereira (2008) identificou as seguintes categorias: religião (que possui maior peso), história e geografia (com presença expressiva), literatura (fábulas de La Fontaine e de Esopo), teatro, música, línguas, medicina, matemática, direito, economia, além de desenhos e estampas. Apesar de ter nascido em uma geração diferente, D. Carlota Joaquina foi submetida a currículo muito parecido ao aplicado à formação de D. Maria Bárbara de Bragança, o que nos autoriza a tomá-lo como parâmetro de comparação. A julgar pelas avaliações que D. Carlota Joaquina realizou durante o período de formação registradas pela Gazeta de Lisboa, sabe-se que ela estudou estas disciplinas: religião, história (sagrada e profana), geografia, gramática, línguas (latim, castelhano, português e francês). . Nesse sentido, a coleção supramencionada não se limitou a subsididar a ilustração de alguém que integrava a elite política e intelectual; era também permeável a objetos impressos não especializados, isto é, voltados a um público geral, como parecia ser o caso do romance11 11 A extrapolação ao perfil especializado da biblioteca principesca aqui referida também pode ser efeito direto das dimensões da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina, que era grande o bastante para não se fixar apenas em um conteúdo padronizado. Em geral, acervos grandes tendem a ser menos canônicos, como nota Franco Moretti (2003). . Resta saber se esse gênero também tinha penetração equivalente em outras coleções coetâneas e com características semelhantes, demostrando que sua circulação já era fluida o bastante para estender seu lastro por diversos segmentos, ou se era apenas um dado que diferenciava a biblioteca em questão.

Dos temas que integram a ilustração principesca, a política é um dos que mais se destacam no catálogo dessa biblioteca. Essa constante repercute certamente na atuação da rainha D. Carlota Joaquina no campo do poder, espaço em que ela foi uma das protagonistas mais destacadas, tendo sido a mulher mais poderosa, ou que mais disputou poder político, no mundo luso-brasileiro que vai do final do século XVIII até as três primeiras décadas do século seguinte. Entre os textos relacionados à política, constam inúmeros manifestos - Dictamen proponiendo para regenta del reyno a la serenísima señora D. Carlota Joaquina de Borbón -, circulares - Carta circular del Excmo. Sr. Obispo de Orense -, representações - Representacion de Don Josef Fernandez de Castro al soberano Congreso de las Cortes Nacionales -, discursos - Discurso pronunciado por el Sr. D. Francisco Rodríguez de Ledesma, presidente de las Cortes generales ordinarias , folhetos - Sentinela contra franceses -, tratados - Tratado de amizade, e aliança entre o Príncipe Regente de Portugal, e El-Rey da Gram-Bretanha -, periódicos - Diários das Cortes - e exemplares da Constituição Política da Monarquia Portuguesa (1822) e da Constitución de Cádiz (1812). Esses escritos põem em evidência o trânsito da rainha Carlota Joaquina pelo universo da política, em especial a sua atuação para se tornar regente da Espanha (1808-1812), e a luta antiliberal travada a partir de 1821.

Os textos dessa seção recobrem um amplo espectro ideológio, ecoando desde o pensamento iluminista, como em Esquisse d´un tableau historique des progrès de l´esprit humain, de Condorcet, passando pelas ideias liberais em Observaciones sobre la probable disolución del Estado, de Juan Romero Alpuente, até chegar à reação absolutista, presente em escritos como Mémoires pour servir à l´histoire du Jacobinisme, de Augustin de Barruel, o que, uma vez mais, comprova o caráter plural dessa biblioteca.

As obras que compõem a biblioteca de D. Carlota Joaquina foram editadas em 15 países e/ou territórios, todos eles compreendidos no espaço transatlântico situado entre os continentes europeu e americano. São eles Portugal, França, Espanha, Inglaterra, Bélgica, Itália, Alemanha, Suíça, Malta, Holanda, Áustria, Brasil, Argentina, Colômbia e Cuba. (Gráfico 1 ).

Desses países, Portugal, França, Espanha, Brasil são respectivamente os locais em que se concentram a maior parte das edições. Em primeiro lugar, esses dados mostram Portugal como polo dominante nesse aspecto, proporção que está em consonância com a tendência verificada nas bibliotecas femininas portuguesas do século XVIII. Além disso, mostram um trânsito de livros e impressos entre Portugal e diversas outras praças europeias e americanas, o que, em alguma medida, contribui para afastar a ideia de que o país era fechado ao contato com outras nações, sobretudo com as do Velho Continente. Em segundo lugar, detectam a presença ascendente da França, frequência que se intensificará no século XIX, e da Espanha, não muito comum nas bibliotecas femininas portuguesas do período, mas que pode aqui ser explicada pelo fato de a Espanha ser o país de origem de D. Carlota Joaquina, o qual permaneceu como alvo dos seus interesses mesmo após sua ida para Portugal. Em último lugar, chama atenção o fato de o Brasil surgir em quarto lugar nessa lista, o que parece ser um dado bastante significativo, porque demonstra o quanto essa biblioteca abarca áreas situadas além das fronteiras europeias, atingindo a América, com a presença do Brasil e de outros terrirórios, Argentina, Colômbia e Cuba, o que assegura a interface transatlântica dessa cartografia. Com isso, na biblioteca da rainha Carlota Joaquina detecta-se a circulação/produção dos impressos em uma geografia que já não é mais exclusivamente europeia, mas em deslocamento global, traço que a singulariza.

Gráfico 1.
Distribuição dos locais de edição - Biblioteca Carlota Joaquina

A importância que a presença do Brasil tem nesse cenário não é certamente apenas quantitativa. Acima de tudo, o que está em jogo é o fato de esses livros estarem entre os primeiros impressos publicadas no Brasil pela via legal, consequência da implantação da Impressão Régia do Rio de Janeiro em 1808, por ordem do princípe regente D. João. A implantação da Impressão Régia está intimamente ligada à chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808, evento ao qual D. Carlota Joaquina esteve diretamente ligada. Esse acontecimento inverte a lógica do pacto colonial que prendia Portugal e Brasil até aquela data e, ato contínuo, a direção do fluxo livresco, que, antes compreendido apenas no sentido Lisboa-Rio de Janeiro, passa então a incluir o outro lado do caminho, a rota Rio de Janeiro/Lisboa.

A biblioteca da rainha Carlota Joaquina, nesse sentido, assume a condição de testemunha dos desdobramentos históricos decorrentes da transferência da família real portuguesa para o Brasil, além de repercuti-los em sua formação. Os livros que integram esse acervo e têm o Brasil como local de edição, em especial os romances, fazem parte da história desse gênero no Brasil, espaço em que ajudam a formar uma rede de produção e circulação local, da qual também findam por se alimentar, absorvendo obras como O diabo coxo (1810), Paulo e Virgínia (1806), Cartas de huma peruviana (1812) e Aventuras pasmozas do célebre Barão Munkausen (1814), romances que estão entre as primeiras obras de ficção publicadas no Brasil pela via legal.

Tendo em vista a importância do catálogo da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina como fonte documental para o estudo da história da leitura no Brasil e em Portugal, bem como para lançar luz sobre a trajetória dessa rainha, que ainda tem sua imagem associada a uma série de distorções cristalizadas na historiografia e no imaginário intelectual luso-brasileiro, propomo-nos aqui a disponibilizar uma edição deste documento, sobre o qual cabe referir antes algumas de suas características materiais e os critérios adotados para editá-lo.

Ele é composto por 78 fólios encadernados (figuras 1a, b) e organizados em duas seções, uma contendo obras impressas, e outra manuscritos. Na primeira, as informações estão dispostas em tabelas com seis colunas, nas quais aparecem respectivamente o nome do autor, título das obras, volume (quantidade por cada obra), estante, casinha (subdivisão da estante) e número de obras por fólio (figura 2). Na segunda, além dessas colunas, foi acrescentada uma sétima, reservada para o código de identificação que as obras receberam ao serem catalogadas na Biblioteca da Ajuda (figura 3).

Figura 1a.
Capa do catálogo da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina

Figura 1b.
Folha de rosto do catálogo da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina

Figura 2.
Fólio 2, Seção de impressos do catálogo da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina.

Figura 3.
Fólio 74, Seção de manuscritos da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina.

Nem todas as colunas foram utilizadas por quem elaborou o catálogo, como se pode observar nas imagens a seguir. No caso da seção dos impressos, apenas as destinadas aos autores, títulos e volumes foram preenchidas. Já na seção de manuscritos foram utilizadadas as três primeiras e a última. Por essa razão, preferimos descartar as colunas que não contêm informação.

No catálogo, as entradas/títulos aparecem ordenadas com base em um critério alfabético, que se vale ora dos nomes dos autores, ora dos títulos (figura 3), lógica que foi seguida nesta edição. Ao efetuarmos a transcrição dos dados, buscamos preservar a ortografia dos títulos, dispondo-os tal como aparecem no documento, mesmo quando notamos a existência de termos grafados em desacordo com as normas atualmente em vigor. Em relação aos nomes dos autores, optamos por atualizar a ortografia. Nos casos em que os nomes dos autores não foram registrados no catálogo, preferimos deixar em branco o espaço reservado para essa informação, mesmo quando sabíamos quem era o autor ou autora da obra registrada.

Em caráter de exceção, as alterações realizadas na grafia dos títulos ocorreram nos casos em que havia abreviações, pois em algumas situações poderiam dificultar a identificação da obra por conter dados insuficientes - como o caso da entrada Académie des Jeux, que aparece na transcrição como Académie [Universelle] des Jeux -, ou poderiam confundir a obra registrada com outras edições do mesmo título, como foi o caso da entrada Elogio Historico do Serenissimo Senhor Infante Dom Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, que foi acrescida do seguinte: [Almirante General da Armada Real Portugueza. Composto, e Dedicado ao Principe Nosso Senhor o Senhor Dom João, Principe Regente de Portugal e das Conquistas]. Também efetuamos mudanças nas situações em que ficou claro que a redação do catálogo discrepava em relação à ortografia dos títulos relacionados. Para tanto, fizemos o cotejo do catálogo com as edições correspondentes das obras, que foram consultadas diretamente na biblioteca da Ajuda ou por meio da base de dados da Biblioteca Nacional de Lisboa, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Bibliothèque Nationale de France e Biblioteca Nacional de España.


Catálogo da livraria que foi de Sua Majestade a Imperatriz Rainha a Senhora Dona Carlota Joaquina de Bourbon


Manuscriptos

Referências

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  • SANTOS, Mariana Machado. Alexandre Herculano e a Biblioteca da Ajuda. Coimbra: Coimbra Editora, 1965.

  • 1
    A historiadora Sara Marques Pereira, em D. Carlota Joaquina e os espelhos de Clio, foi talvez a primeira pessoa a chamar atenção para a existência de uma livraria particular em posse da rainha Carlota Joaquina. Ainda assim, fez isso de modo bastante sucinto, destacando na ocasião a necessidade de se realizar um estudo sobre o catálogo dessa biblioteca. Desde a década de 1990, quando essa observação foi feita, até hoje, tal estudo ainda não foi realizado.
  • 2
    A posse de livros por princesas, além de certificar a educação que recebiam, podia ter a finalidade de validá-las socialmente, conferindo-lhes prestígio e reconhecimento, bens simbólicos que lhes garantiam ocupar lugares de destaque no seio da corte, especialmente durante uma etapa específica da vida: o casamento, possível via de acesso para atingir o posto de rainha, em geral resultado de acordos que se inscreviam “no quadro mais amplo das relações internacionais pautadas pelas uniões dinásticas” (LOURENÇO, 2012LOURENÇO, Maria Paula Marçal. Rainhas no Portugal moderno: casa, corte e patrimônio. Lisboa: Edições Colibri, 2012. , p. 11). Nesse sentido, a biblioteca (corolário da formação da princesa) poderia, a par de conveniências políticas, influir na celebração de uma aliança entre duas monarquias. Com efeito, esse tipo de acervo caracterizava-se pela reunião de um patrimônio que promovia estudo, e acima de tudo servia como reflexo do valor das princesas. A formação era pensada, nesses termos, como um dote, que agiria como “um atrativo, um autêntico elemento de sedução” (BENNASSAR, 2009BENASSAR, Bartolomé. A cama, o poder e a morte: rainhas e princesas da Europa do Renascimento ao Iluminismo. Trad. Maria Dias Correia. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009., p. 218).
  • 3
    D. Carlota Joaquina foi educada até aos 10 anos de idade na corte do seu avô, o rei Carlos III, símbolo da monarquia ilustrada espanhola. Nesse ambiente, onde reinava o fausto de uma das monarquias mais importantes da Europa à época, recebeu uma instrução primorosa. Ela teve como mestre o padre Felipe Scio, destacado intelectual ilustrado da corte de Carlos III, o que “reforça a diretriz de uma instrução ‘ilustrada’” (AZEVEDO, 2008AZEVEDO, Francisca L. Nogueira. Carlota Joaquina: cartas inéditas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008. , p 28). Em 1785, ano em que foi enviada para Portugal para se casar com o príncipe D. João, levou consigo o seu preceptor, que continuou a instruí-la na corte portuguesa. Mesmo depois de ter concluído o período de formação, manteve ao longo da vida práticas diárias de estudo e leitura, que, “a par das ocupações políticas, a mantinham longas horas ocupada em seu gabinete” (PEREIRA, 2008PEREIRA, Ana Cristina Duarte Pereira. Princesas e Infantas de Portugal. Lisboa: Edições. Colibri, 2008. , p. 31).
  • 4
    A possiblidade de o Catálogo da livraria que foi de Sua Majestade a Imperatriz Rainha a Senhora Dona Carlota Joaquina de Bourbon ter sido produzido na Biblioteca da Ajuda não descarta a hipótese de ele ter sido apenas recolhido por essa instituição numa altura em que já estivesse acabado. Quanto à destinação das obras registradas nele, é possível assegurar que parte delas integra atualmente o acervo da Biblioteca da Ajuda, conforme apurei durante a realização do projeto de pesquisa de pós-doutorado “Os romances que D. Maria Francisca Benedita (1746-1829) e D. Carlota Joaquina (1775-1830) liam”, ocasião em que localizei nesse acervo livros que apresentavam as mesmas características descritas nesse catálogo e com marcas de posse da rainha D. Carlota Joaquina, como ex-libris e super-libris. A parcela de livros que não foi localizada, considerando a hipótese de ela também ter sido integrada aos fundos da Ajuda, pode ter sofrido algum tipo de extravio, ocorrência que verifiquei na edição de El Ingeniozo Hidalgo Don Quixote de la Mancha (1810), obra que consta no catálogo e é descrita como sendo composta por quatro volumes. Entretanto, encontrei apenas dois, o I e o III. Na contracapa do volume III, foi deixada uma anotação a lápis que explica a ausência dos outros dois. Diz a nota: "esta obra faltão-lhe 2 volumes (2º e 4º) que vieram de menos do quarto dos Senhores Médicos (em abril de 1885) para onde tinham sido emprestados 2 annos antes". Ou seja, os volumes II e IV foram emprestados e não retornaram ao acervo, indicativo de que os livros circulavam fora do espaço da biblioteca e não eram de uso estrito da família real, o que explica, nesse caso, o extravio. Como qualquer outro acervo, a Biblioteca da Ajuda era, e é, um organismo em permanente mudança. Ao longo dos anos, tem sido não apenas destino de sucessivas remessas de livros, mas também alvo de inúmeras subtrações, ocorridas pelos mais variados motivos: transferência do acervo de um lugar para outro, empréstimos não restituídos, permutas e vendas, desgaste natural das obras e incendidos. Em 1843, Alexandre Herculano, seu encarregado à época, realizou a troca e venda de um lote de títulos duplicados. “A primeira venda foi feita em 6 de Junho de 1843, à Real Biblioteca de Munique, que pagou 237$480 réis por 278 volumes”. [… ] Dos mesmos duplicados em língua portuguesa, espanhola e latina, ficou a Biblioteca Real de Berlim, em 8-III-1844 com 130 livros no valor de 118$640 réis” (SANTOS, 1965SANTOS, Mariana Machado. Alexandre Herculano e a Biblioteca da Ajuda. Coimbra: Coimbra Editora, 1965. , p. 25-26). Tal ocorrência permite formular mais uma hipótese para a destinação dos livros não encontrados. Em relação às circunstâncias e ao momento em que as obras pertencentes à rainha Carlota Joaquina foram incorporadas à Biblioteca da Ajuda, ainda pairam incertezas. Na condição de biblioteca real, ela poderia servir como local de armazenamento dessas obras antes mesmo da morte de sua proprietária, cabendo-lhe depois desse acontecimento a posse dessa coleção, caso não houvesse outra destinação expressa. Por outro lado, há a hipótese de esses livros terem dado entrada posteriormente, por determinação de D. Miguel, que, além de ser rei nesse período, foi designado testamenteiro de sua mãe, cabendo-lhe a autoridade para decidir sobre o destino dos bens deixados por ela. Vale acrescentar que, nessa mesma época, D. Miguel realizava esforços para recompor a Real Biblioteca da Ajuda, buscando dotá-la novamente de meios para atender às necessidades da família real, já que a maior parte do acervo que antes cumpria essa função ficara no Rio de Janeiro em 1821. Nesse contexto, ele ordenou a incorporação compulsória de diversas bibliotecas particulares à Ajuda e determinou, por alvará de 6 de fevereiro de 1832, que para lá fosse enviado um exemplar de todo escrito impresso em Portugal. Desse modo, parece bastante plausível que ele tenha ordenado a entrada dos livros que pertenceram à sua mãe na Real Biblioteca da Ajuda, atitude inteiramente dentro do seu campo de possibilidades e de acordo com seus interesses.
  • 5
    João Luís Lisboa e Thiago Miranda (2011LISBOA, Luís João; MIRANDA, Tiago dos Reis. A cultura escrita nos espaços privados. In: MATTOSO, José (Org.). História da Vida Privada em Portugal: A Idade Moderna. Lisboa: Círculo de Leitores , 2011, p. 334-394.) lembram que um inventário de livros pode estar sujeito aos critérios de organização e avaliação de testamenteiros, o que, não raro, resulta na exclusão de obras cujo valor não é considerado digno de registro. Ao cruzar os títulos desse catálogo com listas de livros que D. Carlota Joaquina comprou (disponíveis no Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis - Rio de Janeiro), constatei que nem todas as obras adquiridas foram inventariadas, como é o caso de Les mille et une nuits e Jean Jacques Rousseau de la Jeunesse.
  • 6
    Conferir Zília Osório de Castro (2001CASTRO, Zília Osório de. Bibliotecas femininas (1769-1770) In: A.A.V.V., Congresso O Marquês de Pombal e a sua Época. Atas, Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras, 2001, p. 477-484.); Cristina Maria de Castro Correia Cardoso da Costa (2010COSTA, Cristina Maria de Castro Correia Cardoso da. As bibliotecas particulares femininas nos espaços de educação no século XVIII em Portugal: um contributo para o estudo do género. Dissertação de Mestrado, FLUL, Lisboa, 2010. ); João Luís Lisboa (2011LISBOA, Luís João; MIRANDA, Tiago dos Reis. A cultura escrita nos espaços privados. In: MATTOSO, José (Org.). História da Vida Privada em Portugal: A Idade Moderna. Lisboa: Círculo de Leitores , 2011, p. 334-394.); e Vanda Anastácio (2013ANASTÁCIO, Vanda. Bibliotecas particulares e problemas concretos. In: ANASTÁCIO, Vanda (org.). Tratar, estudar, disponibilizar: um futuro para as bibliotecas particulares. Lisboa: Banco Espírito Santo, 2013, p. 47-58. ).
  • 7
    Os títulos e as datas das obras referem-se aqui às edições tais como aparecem no catálogo, e não necessariamente ao título e à data de publicação originais.
  • 8
    Por romance entende-se aqui um conjunto de narrativas em prosa ficcional, em geral de grande ou média extensão, nomeadas no século XVIII e até certa altura do século XIX como novela, história, conto, memórias, cartas, anedota, viagens e romance.
  • 9
    Sobre essa mudança, conferir João Luís Lisboa (1989LISBOA, Luís João; MIRANDA, Tiago dos Reis. A leitura em Portugal: os finais do Antigo Regime. In: COSTA, Fernando Marques da; DOMINGOS, Francisco Contente; MONTEIRO, Nuno Gonçalo (orgs.). Do Antigo Regime ao Liberalismo 1750-1850. Lisboa: Veja, 1989. ).
  • 10
    Em Portugal, a educação feminina dos grupos privilegiados era composta sistematicamente, segundo Pereira (2008PEREIRA, Sara Marques. D. Carlota Joaquina rainha de Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 2008. ), pelo ensino de princípios religiosos, leitura e escrita, aritmética prática, conhecimentos básicos de farmacopeia e jurisprudência, disciplinas que deveriam ser complementadas por outras matérias de estudo, como literatura, história, latim, geografia, filosofia, música, pintura, dança, a par dos trabalhos de costura. Esse programa foi defendido por Claude Fleury, em Traité sur le choix et la méthode des études, e por Fénelon no seu livro dedicado à educação feminina, De l´éducation des filles (1687). A metodologia desse programa preconizava, em primeiro lugar, ler, escrever, coser, bordar e rezar, e depois o estudo da filosofia, geografia, história, línguas, música, dança e pintura. A aprendizagem da leitura tinha por base obras de espiritualidade, que tinham a função de incutir nas princesas os valores necessários para que se tornassem boas mulheres, e textos clássicos greco-latinos, que eram usados para apresentar exemplos da história e o modelo político romano, habitual fonte das monarquias europeias durante o Antigo Regime. Pereira (2008PEREIRA, Ana Cristina Duarte Pereira. Princesas e Infantas de Portugal. Lisboa: Edições. Colibri, 2008. ) sublinha que, no caso específico das princesas, a história era uma disciplina central, ao lado da geografia, dos costumes de outras partes do mundo e do ensino de línguas estrangeiras, conhecimentos fundamentais para que elas pudessem se tornar rainhas em outros reinos. Esse programa é ilustrativo da educação recebida pela princesa D. Maria Bárbara de Bragança (1711-1756) e se reflete na constituição de sua biblioteca, composta por 577 obras, entre as quais Pereira (2008PEREIRA, Ana Cristina Duarte Pereira. Princesas e Infantas de Portugal. Lisboa: Edições. Colibri, 2008. ) identificou as seguintes categorias: religião (que possui maior peso), história e geografia (com presença expressiva), literatura (fábulas de La Fontaine e de Esopo), teatro, música, línguas, medicina, matemática, direito, economia, além de desenhos e estampas. Apesar de ter nascido em uma geração diferente, D. Carlota Joaquina foi submetida a currículo muito parecido ao aplicado à formação de D. Maria Bárbara de Bragança, o que nos autoriza a tomá-lo como parâmetro de comparação. A julgar pelas avaliações que D. Carlota Joaquina realizou durante o período de formação registradas pela Gazeta de Lisboa, sabe-se que ela estudou estas disciplinas: religião, história (sagrada e profana), geografia, gramática, línguas (latim, castelhano, português e francês).
  • 11
    A extrapolação ao perfil especializado da biblioteca principesca aqui referida também pode ser efeito direto das dimensões da biblioteca da rainha D. Carlota Joaquina, que era grande o bastante para não se fixar apenas em um conteúdo padronizado. Em geral, acervos grandes tendem a ser menos canônicos, como nota Franco Moretti (2003Moretti, Franco. Atlas do romance europeu 1800-1900. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003. ).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jul 2019
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    28 Dez 2017
  • Aceito
    10 Abr 2018
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