Open-access Primeiro registro de Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M. Carvalho & Meneguzzo (Orchidaceae, Orchidoideae) para o Estado de São Paulo, Brasil

First record of Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M.Carvalho & Meneguzzo (Orchidaceae, Orchidoideae) for the São Paulo State, Brazil

RESUMO

Cyclopogon C.Presl, é o maior gênero da subtribo Spiranthinae Lindl. (Cranichideae) com aproximadamente 83 espécies distribuídas desde o sul da Flórida, incluindo as Antilhas, até o sul da Argentina, sendo 37 encontradas no Brasil, das quais 25 são endêmicas. Durante estudos taxonômicos sobre Cyclopogon no Estado de São Paulo, Brasil, C. guayanensis (Lindl.) B.M.Carvalho & Meneguzzo foi registrada como a primeira ocorrência para a flora da referida Unidade Federativa. Tal espécie segue descrita, representada por imagens e comentada quanto a sua distribuição geográfica, preferências ambientais, relações morfológicas e fenologia. Adicionalmente, fornecemos um mapa com sua distribuição geográfica no Estado de São Paulo.

Palavras-chave:
Cranichideae; flora; orquídeas; Spiranthinae; taxonomia

ABSTRACT

Cyclopogon C.Presl, the largest genus of the subtribe Spiranthinae Lindl. (Cranichideae), comprises approximately 83 species distributed from southern Florida, including the Antilles, to southern Argentina, 37 of which are found in Brazil, of which 25 are endemic. During the taxonomic study of Cyclopogon in the São Paulo State, Brazil, C. guayanensis (Lindl.) B.M.Carvalho & Meneguzzo was registered as the first record for the flora of the mentioned Federative Unit. The species is described below, represented by images and commented on its geographic distribution, environmental preferences, morphological relationships and phenology. Additionally, we provide a map with its geographic distribution in the São Paulo State.

Keywords:
Cranichideae; flora; orchids; Spiranthinae; taxonomy

Introdução

Cyclopogon C.Presl, é o maior dos 40 gêneros neotropicais da subtribo Spiranthinae Lindl. (Cranichideae, Orchidoideae) com aproximadamente 83 espécies distribuídas desde o sul da Flórida, incluindo as Antilhas, até o sul da Argentina (Chase et al. 2015), onde se destaca o Brasil com cerca de 37 espécies, 25 das quais, endêmicas (Meneguzzo 2020). O gênero inclui espécies terrícolas, rupícolas, raramente epífitas com rizomas curtos; raízes carnosas; folhas membranáceas dispostas em rosetas basais; flores dispostas em racemos com sépalas externamente pubescentes com diferentes níveis de união, formando um nectário basal; labelo subdividido em hipoquílo, mesoquílo e epiquílo, soldado às laterais da coluna pela margem e com dois apêndices basais; coluna clavada, reta; antera dorsal, séssil; rostelo usualmente oblongo-triangular; polínias fendidas em número de duas e estigma 2-lobado (Burns-Balogh 1982, Garay 1982, Salazar 2003, Dodson & Luer 2005).

No Brasil, de maneira geral, as espécies de Cyclopogon são parcamente conhecidas, sendo menções a elas encontradas, sobretudo, dispersas na literatura clássica sobre Orchidaceae Juss. (e.g., Lindley 1831, Barbosa Rodrigues 1877, 1881, Reichenbach 1881, Cogniaux 1895, Barbosa Rodrigues 1901, Cogniaux 1905, 1906, 1907, Kränzlin 1911, Schlechter 1920, Schlechter & Hohene 1922, Schlechter 1925, Hoehne 1942, 1945, Pabst 1974, Pabst & Dungs 1975). Apesar de espécies do gênero serem comuns nas obras previamente citadas, para o Estado de São Paulo, o gênero tem sido representado em trabalhos florísticos sobre Orchidaceae (e.g., Romanini 2006, Pansarin & Pansarin 2008, Ferreira et al. 2010, Cardoso 2014, Zandoná & Catharino 2015, Rahal et al. 2015) ou direcionados ao estabelecimento de novas espécies (e.g., Pansarin 2013).

Durante o desenvolvimento de estudos taxonômicos sobre Cyclopogon em São Paulo e análise de coleções de Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M. Carvalho & Meneguzzo advindas de diferentes regiões do país, constatamos que tal espécie configura o primeiro registro para a flora de São Paulo, Brasil. Considerando ser ela pouco conhecida, parcamente representada por imagens nos trabalhos onde é citada, fornecemos uma descrição detalhada para a espécie supracitada, acrescida de imagens e comentários sobre suas relações morfológicas, fenologia, distribuição geográfica e preferências ambientais.

Material e métodos

As informações sobre o primeiro registro de Cyclopogon guayanensis para o Estado de São Paulo resultou do estudo de literatura especializada (e.g., Williams 1946, Bellone & Chiron 2003, Meneguzzo et al. 2024) e da análise de coleções do gênero Cyclopogon provenientes de 11 herbários (BM, CNMT, HERBAM, HCF, HUFU, IAN, MBM, RB, UB, UEC e UFG, acrônimos conforme Thiers [2025]), incluindo coleções próprias. Sua descrição segue baseada na variação morfológica dos indivíduos citados como material examinado, sendo a terminologia adotada nela, embasada na literatura usada para sua identificação.

O mapa com a distribuição geográfica da espécie foi feito no “software QGIS versão 2.8.1. (Quantum GIS Development Team)”, contando com os biomas (sensu IBGE 2004), a partir de coordenadas geográficas advindas dos rótulos das exsicatas estudadas ou obtidas no ato da coleta. O material testemunho encontra-se incorporado ao herbário UFG.

Resultados e Discussão

1. Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M.Carvalho & Meneguzzo, Phytotaxa 658(1): 110. 2024.

Figura 1

Figura 1
Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M.Carvalho & Meneguzzo. a. Hábito. b, c. Detalhe das brácteas do escapo. d. Detalhe da inflorescência. e. Brácteas florais. f. Flor em vista frontal. g. Flor em vista lateral. h. Flor em vista dorsal. i. Flor em vista ventral (note os nectários indicados pelas setas). j. Peças florais dissecadas. k. Labelo adnato à coluna (note o polinário no interior da antera). l. Labelo adnato à coluna (após a retirada do polinário do interior da antera). m. Coluna em vista ventral. n. Coluna em vista dorsal. o. Coluna em vista lateral (note a articulação da antera). p. Coluna em vista ventral (note a articulação da antera). q. Antera em vista dorsal e ventral. r. Polinário em vista dorsal e ventral. s. Labelo em vista dorsal. t. Labelo em vista ventral. u. Labelo em vista lateral. v. Cápsula. Fotografias de Igor Soares dos Santos.
Figure 1
Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M.Carvalho & Meneguzzo. a. Habit. b, c. Detail of the scape bracts. d. Detail of the inflorescence. e. Floral bracts. f. Flower, frontal view. g. Flower, lateral view. h. Flower, dorsal view. i. Flower, ventral view (note the nectaries indicated by arrows). j. Dissected floral pieces. k. Lip adnate to the column (note the pollinarium inside the anther). l. Lip adnate to the column (after removal of the pollinarium inside the anther). m. Column, ventral view. n. Column, dorsal view. o. Column, lateral view (note the anther articulation). p. Column, ventral view (note the anther articulation). q. Anther, dorsal and ventral views. r. Pollinarium, dorsal and ventral views. s. Lip, dorsal view. t. Lip, ventral view. u. Lip, lateral view. v. Capsule. Photographs by Igor Soares dos Santos.

Erva terrícola, heliófila, 5,5 52 cm atl. Rizoma 0,4 0,5 cm compr., cilíndrico. Raízes 2,4 7,8 × 0,3 0,7 cm, cilíndricas, não ramificadas, carnosas, glabras ou discretamente pilosas, beges, levemente esbranquiçadas. Folhas 2 11,3 × 0,3 0,9 cm, em aspecto de roseta, ausentes ou pouco desenvolvidas durante a floração, elípticas ou oblongo-elípticas, glabras, margem inteira, hialina, ápice agudo, verdes. Racemos 10,5 49 cm compr., congestos, com 30 120 flores; escapo, 12 22,5 cm compr., glabro, tornando se piloso ou pubescente por tricomas glandulares, unisseriados, multicelulares, às vezes, ramificados, em direção à raque, verde-claro; raque 2,7 26,3 cm compr., verde. Brácteas membranáceas, verdes; as do escapo 0,7 4,2 × 0,4 0,8 cm, ovadas e lanceoladas ou oval-lanceoladas, imbricadas na base, esparsas em direção à porção distal, amplexas, glabras, ápice agudo, margem inteira na basais e ciliada em direção à raque; as da base ao terço mediano, fendidas próximo à base; as florais 3,3 11 × 1,4 3,7 mm, ovadas, 3-nervadas, ápice agudo-caudado, excedendo o comprimento das flores, glabras ou externa e discretamente pilosas, margem ciliada, tricomas glandulares, unisseriados, multicelulares, às vezes, ramificados. Flores 4 5 mm compr., brancas, levemente esverdeadas, ressupinadas; ovário + pedicelo 2,2 4 × 1 1,6 mm, elipsoide, piloso, pubescente em direção ao ápice, verde-claro; sépalas e pétalas 1-nervadas, membranáceas, ápice arredondado; as primeiras, lanceoladas, externamente pubescentes, especialmente na base, margem inteira, verde-esbranquiçadas, ligeiramente amarelas na base; sépala dorsal 3 3,1 × 1,1 1,3 mm; as laterais 2,5 3 × 1 1,3 mm, discretamente subfalcadas, adnatas na base formando um nectário saquiforme, inconspícuo, verde-esbranquiçado; pétalas 2,3 3 × 0,8 1,1 mm, espatuladas, glabras, margem inteira, branco-amareladas, esverdeada na base, adnatas às sépalas pela margem; labelo 2,2 3,3 × 1,9 2,1 mm, inteiro, panduriforme, adnato pelas margens à coluna, na região do hipoquílo, com 5 nervuras verdes, membranáceo, constrito na região do mesoquílo, dorso e ventre papiloso, ápice 2-lobado, truncado e acuminado; apêndices basais, 2, ca. 0,4 0,5 × 0,2 0,3 mm, falcados, carnosos, lisos, ápice arredondado, verde-amarelados, imersos no interior do nectário; hipoquílo 1,8 2 × ca. 1 mm, largo-elíptico, liso ou discretamente papiloso, margem inteira, discretamente carnoso; mesoquílo 0,5 1 × 0,9 1,1 mm, oblongo; epiquílo 1 × 2 mm, largo-elíptico e romboide, ambos densamente papilosos, margem ondulado-papilosa. Coluna 1 1,3 × 1 1,1 mm, largamente obcônica, discretamente achatada, carnosa, glabra, ápice 2-dentado, dentes inconspícuos, verde-clara; superfície estigmática ventral, 2-lobada, discretamente papilosa, verde. Antera ca. 1 × 1 mm, largamente ovada, articulada com a coluna, glabra, ápice obtuso e arredondado, base truncada, dorso carnoso, verde-esbranquiçada, distalmente castanha. Polinário 0,5 0,6 × 0,4 0,5 mm; polínias fendidas longitudinalmente, farinosas, amarelas; viscídio oval-arredondado, achatado, acinzentado. Cápsulas 4 5 × 2 3 mm, elipsoides, distalmente pubescentes, verdes, castanhas quando maduras.

Cyclopogon guayanensis, de acordo com Szlachetko et al. (2005), Baksh-Comeau et al. (2016) e Meneguzzo et al. (2024), distribui-se desde o México à porção sul da Bolívia, incluindo o Brasil (Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Roraima e Distrito Federal). Portanto, tal espécie tem aqui, sua distribuição ampliada para o Estado de São Paulo (figura 2), onde foi encontrada nos municípios de Campinas e Franca. Em São Paulo, C. guayanensis foi observada como terrícola entre 273 e 1.007 m de altitude, em áreas campestres e antropizadas, em porções abertas e ensolaradas de cerrado denso e nas proximidades de veredas e florestas estacionais, vegetando em solos arenosos ou argilosos, bem como nas adjacências de afloramentos calcários. Foi observada com flores e frutos no final de setembro ao início de janeiro, sendo mais frequentes em outubro.

Figura 2
Mapa do Brasil destacando o Estado de São Paulo com os pontos correspondentes às novas ocorrências de Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M. Carvalho & Meneguzzo, incluindo os biomas Cerrado e Mata Atlântica (sensu IBGE 2004).
Figure 2
Map of Brazil highlighting the São Paulo State with the points corresponding to the new occurrences of Cyclopogon guayanensis (Lindl.) B.M. Carvalho & Meneguzzo, including the Cerrado and Atlantic Forest biomes (sensu IBGE 2004).

Dentre as espécies ocorrentes no Brasil, C. guayanensis pode ser facilmente reconhecida pelos seguintes caracteres: raízes glabras ou discretamente pilosas, folhas sésseis, ausentes ou pouco desenvolvidas durante a floração, e pelas flores diminutas (4 5 mm compr.) em comparação às outras espécies do gênero, costumeiramente dispostas em racemos congestos, cujas pétalas laterais são espatuladas e a coluna é largamente obcônica e glabra. Adicionalmente, suas pétalas, sépalas e labelo são similares em comprimento, sendo este último 5-nervado, dorsal e ventralmente papiloso, especialmente na região do mesoquílo e epiquílo, cuja margem é ondulado-papilosa.

Material examinado: BRASIL. São Paulo: Campinas, proximidades do Shopping Dom Pedro, 25-X-2004, fl., R.B. Singer 2004/20 (UEC); Franca, próximo ao Parque São Jorge, 1.007 m, 18-X-2023, fl., I.S. Santos 1240 (UFG).

Agradecimentos

À Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e à Universidade Federal de Goiás, incluindo o Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal e os Institutos de Biociências e de Ciências Biológicas, pela disponibilidade de transportes, instalações e apoio; ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pela concessão da Bolsa de Doutorado ao primeiro autor (Processo n° 140386/2023-8) e de Produtividade em pesquisa ao segundo (Processo n° 307747/2019-0). Os autores deixam seus agradecimentos aos revisores pelas contribuições dadas à qualidade do manuscrito.

Declaração de disponibilidade de dados

O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse de Hoehnea, no link: https://doi.org/10.1590/2236-8906e802024.

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Editado por

  • Editor Associado:
    Otávio Luis Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Ago 2024
  • Aceito
    10 Fev 2025
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