Vai arrumar este cabelo, neguinha! Mapeamento Corporal Narrado por Gabriela, mãe negra

Go fix your hair nigga! A Body-map Story Told by Gabriela, a black mother

¡Arréglate el pelo, negrita! Mapeo Corporal Narrado por Gabriela, madre negra

Sofia Martins Lilian Magalhães Sobre os autores

Resumos

A maternidade invoca extrema complexidade. Este artigo discute a experiência com o racismo internalizado, interpessoal e institucional que configura a vida de mães negras no processo de cuidar de seus filhos negros pelo Mapeamento Corporal Narrado, metodologia visual originada na África do Sul. A história de Gabriela, 31, mãe de duas crianças, revelou dois eixos temáticos: 1. A experiência de ser mulher negra, no cotidiano; e 2. Ser mãe negra, em termos práticos. O mapeamento corporal oportunizou um processo inédito de reflexão sobre a vida e o tornar-se negra para Gabriela. O estudo identificou desafios no exercício cotidiano de educar crianças em um país com práticas racistas, como o Brasil, revelando estratégias que buscam combater o impacto do imaginário social que inferioriza o povo negro.

Palavras-chave
Relação mãe-filho; Racismo; População negra; Mapa corporal narrado


Maternity invokes extreme complexity. This article discusses the experiences of internalized, interpersonal and institutional racism that shape the lives of black mothers in the process of caring for their black children using Body-Map Storytelling, a methodology developed in South Africa. The story told by Gabriela, aged 31, mother of two children, revealed two core themes: 1. The everyday experience of being a black woman; 2. Being a black mother, in practical terms. Body mapping provided Gabriela with an unprecedented opportunity to reflect on life and becoming black. The study identified a number of challenges in the daily exercise of educating children in a country with racist practices like Brazil, revealing strategies that seek to combat the impact of a social imaginary that inferiorizes black people.

Keywords
Mother-child relations; Racism; Black population; Body-map storytelling


La maternidad invoca una complejidad extrema. Este artículo discute la experiencia con el racismo internalizado, interpersonal e institucional que configura la vida de madres negras en el proceso de cuidar de sus hijos negros por medio del Mapeo Corporal Narrado, metodología visual con origen en Sudáfrica. La historia de Gabriela, 31 años, madre de dos niños, reveló dos ejes temáticos: 1. La experiencia de ser mujer negra en el cotidiano; y 2. Ser madre negra en términos prácticos. El mapeo corporal brindó un proceso inédito de reflexión sobre la vida y el convertirse en negra para Gabriela. El estudio identificó desafíos en el ejercicio cotidiano de educar a niños en un país con prácticas racistas, como Brasil, revelando estrategias que buscan combatir el impacto del imaginario social que inferioriza al pueblo negro.

Palabras clave
Relación madre-hijo; Racismo; Población negra; Mapa corporal narrado


Introdução

A voz da minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

(Conceição Evaristo)

A maternidade invoca extrema complexidade para mães às quais a sociedade não concede garantias. Neste estudo compreende-se a maternidade por uma perspectiva feminista, ou seja, como fenômeno complexo, socialmente construído, com múltiplos significados e contradições11 Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25..

O trabalho materno fundamenta-se nas realidades sociopolíticas e é marcado por caminhos singulares de ser e saber da própria mulher. O engajamento neste trabalho é uma experiência que transpõe o desenvolvimento e a proteção da criança, constituindo-se em uma prática de desenvolvimento pessoal, politização e reestruturação da ordem social da mãe11 Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25.. Estudos sobre maternidade englobam diversos temas, abordagens e disciplinas11 Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25.

2 Badinter E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1985.

3 Esdaile SA, Olson JA. Mothering occupations: challenge, agency, and participation. Philadelphia: F. A. Davis; 2004.

4 O’Reilly A. Mothers, mothering and motherhood across cultural differences: a reader. Canada: Demeter Press; 2014. p. 56-74.
-55 Rosseti DMGS, Gutierrez DMD. A maternidade de mulheres em sofrimento psíquico: uma revisão de literatura. Braz J Health Rev. 2020; 3(6):15691-712.. No entanto, trabalhos sobre a maternidade vinculada a questões raciais são escassos66 Cavalleiro E. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto; 2000.

7 Dove N. Afrikan mothers: bearers of culture, makers of social change. Albany: State University of New York Press; 1998.

8 Hordge-Freeman E. A cor do amor: características raciais, estigma e socialização em famílias negras brasileiras. São Carlos: EdUFSCar; 2019.
-99 Schucman LV, Mandelbaum B, Fachim FL. Minha mãe pintou meu pai de branco: afetos e negação da raça em famílias interraciais. Rev Cienc Hum. 2017; 51(2):439-55..

Para investigar a maternidade de mulheres negras utilizamos uma concepção que prioriza a construção política e social da maternidade, fugindo à representação eurocêntrica de mãe, que a vê como essencialmente generosa, presente, autossacrificante e atendendo a todas as necessidades das crianças11 Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25.,22 Badinter E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1985.:

[...] boas mães, conforme retratadas na mídia ou na cultura popular de maneira mais geral, são brancas, heterossexuais, casadas, de classe média a alta, saudáveis, suburbanas, de trinta e poucos anos, apolíticas, vivendo em uma família nuclear com um ou dois filhos pequenos a quem ela é biologicamente aparentada. Idealmente é uma mãe que fica em casa em tempo integral44 O’Reilly A. Mothers, mothering and motherhood across cultural differences: a reader. Canada: Demeter Press; 2014. p. 56-74..

(p. 2, tradução nossa)

Assim, para a superação do mito normalizador da condição das mães, buscamos pensá-las como pessoas reais por uma perspectiva de construção sociossubjetiva11 Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25., rompendo com a ideologia cultural dominante e considerando suas subjetividades e capacidades de reflexão1010 Ruddick S. Thinking mothers/conceiving birth. In: Bassin D, Honey M, Kaplan MM, editors. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 28-45.. Collins1111 Collins PH. Shifting the center: race, class, and feminist theorizing about motherhood. In: Bassin D, Honey M, Kaplan MM, editors. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 56-74. sugere a indissociabilidade da análise das maternidades de seu contexto, como no caso das mães afro-americanas. Na lente feminista, essas mães se constituem em um contexto histórico específico composto por estruturas de gênero, raça e classe, contrastantes com o contexto das mães brancas. O’Reilly44 O’Reilly A. Mothers, mothering and motherhood across cultural differences: a reader. Canada: Demeter Press; 2014. p. 56-74. vê o pensamento de Collins centrado no desenvolvimento de uma nova consciência para as mulheres afro-americanas, possibilitando a superação dos desafios da maternidade negra. No caso das mães brasileiras, essa consciência também pode auxiliar na construção de políticas públicas e estratégias que priorizem a proteção de crianças, adolescentes e jovens negros que têm sido especialmente vitimados pelo que Mbembe1212 Mbembe A. Necropolítica. Art Ens. 2016; (32):122 -210. concebe como necropolítica:

[...] as várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contempora^neo, armas de fogo são implantadas no interesse da destruição máxima de pessoas e da criação de “mundos de morte”, formas novas e únicas da existência social, [...] condições de vida que lhes conferem o status de “mortos-vivos”1212 Mbembe A. Necropolítica. Art Ens. 2016; (32):122 -210.. (p. 146)

Munanga1313 Munanga K. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: Anais do 3o Seminário Nacional Relações Raciais e Educação-PENESB; 2003; Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PENESB; 2003. destaca que biologicamente o conceito de raça não se sustenta, devendo ser compreendido por meio das relações de poder e de dominação, como uma construção sociológica. Esse entendimento expõe a lógica ideológica do racismo, das práticas discriminatórias e estereótipos baseados em falsos argumentos. Schucman1414 Schucman LV. Racismo e antirracismo: a categoria raça em questão. Rev Psicol Polit. 2010; 10(19):41-55. corrobora ao definir que o racismo é

qualquer fenômeno que justifique as diferenças, preferências, privilégios, dominação, hierarquias e desigualdades materiais e simbólicas entre seres humanos, baseado na ideia de raça..., o ato de atribuir, legitimar e perpetuar as desigualdades sociais, culturais, psíquicas e políticas à “raça” significa legitimar diferenças sociais a partir da naturalização e essencialização da ideia falaciosa de diferenças biológicas que, dentro da lógica brasileira, se manifesta pelo fenótipo e aparência dos indivíduos de diferentes grupos sociais1414 Schucman LV. Racismo e antirracismo: a categoria raça em questão. Rev Psicol Polit. 2010; 10(19):41-55.. (p. 44)

Utilizamos o Mapa Corporal Narrado (MCN) para refletir sobre como o racismo atua nos diferentes níveis – internalizado, interpessoal e institucional – da vida de mães negras. Investigamos, também, os processos de cuidar de filhos negros, focalizando experiências cotidianas de prepará-los para a vida na sociedade brasileira contemporânea.

A experiência de ser negra: identidades e diferenças

Para compreender a experiência plural, não homogênea e essencialista, de assumir-se pessoa negra, resgatam-se as noções de identidade e diferença, subsidiadas pelos aportes teóricos dos estudos culturais. A identidade é sinônimo de celebração móvel, constituindo-se de processos dinâmicos, híbridos, múltiplos, contraditórios. Já a diferença – interligada diretamente à identidade – configura-se por sistemas classificatórios que produzem sistemas simbólicos por meio de exclusão. Assim, identidade e diferença são construídas social e historicamente em processos de representação. As relações de poder imbricadas cultural e simbolicamente na expressão de representação marcam, classificam e hierarquizam o mundo em oposições binárias, excluindo tudo o que é diferente1515 Silva TT. A produção social da identidade e da diferença. In: Silva TT, Hall SW, Woodward K, organizadores. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Petrópolis: Vozes; 2014. p. 73-102.,1616 Hall S. Quem precisa de identidade? In: Silva TT, Hall SW, Woodward K, organizadores. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Petrópolis: Vozes; 2014. p. 103-33.. O investimento nessas categorias, resultantes de processos de inclusão e exclusão, é feito a fim de abarcar e “complexificar” a diversidade dos processos de constituição da experiência negra.

Assim, a heterogeneidade da identidade racial demanda resgatar a multiplicidade de narrativas para acessar o tipo de conhecimento produzido por outras gerações. Hall1616 Hall S. Quem precisa de identidade? In: Silva TT, Hall SW, Woodward K, organizadores. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Petrópolis: Vozes; 2014. p. 103-33. destaca a questão da agência e da política, entendendo identidade por uma perspectiva estratégica, situada e historicizada. Portanto, entende-se que o exercício de pensar a experiência das mulheres mães negras à luz das concepções de identidade e diferença favorece reflexões propostas pelo pensamento feminista negro1717 Collins PH. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Soc Estado. 2016; 31(1):99-127., que consiste na produção de ideias por e sobre a experiência de mulheres negras, ilustrando pontos de vista de e para elas, construídos de maneira plural1616 Hall S. Quem precisa de identidade? In: Silva TT, Hall SW, Woodward K, organizadores. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Petrópolis: Vozes; 2014. p. 103-33..

A maternidade das mulheres negras(c (c) O termo negro é utilizado como uma categoria política que agrega pessoas autodeclaradas como pretas ou pardas18. ), em números

Estudar a maternidade das mulheres negras no Brasil tem relevância populacional e política. Vejamos, por exemplo, o cenário brasileiro que, pelos recortes de gênero e racial/étnico – aqui articulados pela classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, desagrega a população entre brancos, negros, indígenas e amarelos1818 Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE; 2014.. Os dados mais recentes mostram que, considerando mulheres na faixa etária de 15 a 49 anos de idade, 55,1% do total da população feminina situa-se em idade reprodutiva1818 Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE; 2014.. Desagregando a idade reprodutiva por grupos etários, nota-se que pretas ou pardas apresentam indicadores de fertilidade superiores aos das brancas. Todavia, embora os dados evidenciem que o número de mães negras é maior, estudos sobre a experiência do racismo vivida por mães negras quase inexistem.

Estudos sobre racismo institucional e saúde da mulher negra1919 Oliveira B, Kubiak F. Racismo institucional e a saúde da mulher negra: uma análise da produção científica brasileira. Saude Debate. 2019; 43(122):939-48., Saúde Mental e racismo contra negros2020 Damasceno M, Zanello V. Saúde mental e racismo contra negros: produção bibliográfica brasileira dos últimos quinze anos. Psicol Cienc Prof. 2018; 38(3):450-64. e estratégias de enfrentamento do racismo na escola2121 Carvalho D, França D. Estratégias de enfrentamento do racismo na escola: uma revisão integrativa. Educ Form. 2019; 4(12):148-68., de modo geral, apontam a insuficiência de dados que contemplem dimensões da categoria raça, da realidade da população negra e do impacto do racismo brasileiro em suas vidas. A compreensão sobre a especificidade da maternidade negra é intelectualmente relevante, porque dados de desigualdade e tratamento inferiorizado de crianças, adolescentes e jovens, assim como respostas sociais às necessidades dessas mulheres, são uma realidade1212 Mbembe A. Necropolítica. Art Ens. 2016; (32):122 -210.,2222 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Violência 2020. Brasília: IPEA; 2020..

Estudos têm evidenciado que questões desencadeadas pelo racismo geram sofrimentos, adoecimentos e traumas históricos intergeracionais2323 Kirmayer LJ, Gone JP, Moses J. Rethinking historical trauma. Transcult Psychiatry. 2014; 51(3):299-319.,2424 Lacerda RS, Hogan V, Araújo EM, Camargo CL. Fatores que interferem nas disparidades raciais em saúde: impacto do trauma histórico, status socioeconômico e racismo sobre a saúde. Rev ABPN. 2012; 4(8):97-113.. Outros mostram o silenciamento do racismo66 Cavalleiro E. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto; 2000.. Pesquisas também mostram famílias negras ensinando práticas e valores chamados de repertórios de rituais raciais. Esse repertório é um conjunto de orientações para combater estereótipos raciais ligados à higiene pessoal, comportamentos e boas maneiras na casa de outras pessoas, além do contexto escolar, consolidando o orgulho e a proteção da honra da família88 Hordge-Freeman E. A cor do amor: características raciais, estigma e socialização em famílias negras brasileiras. São Carlos: EdUFSCar; 2019.. Interessa, portanto, compreender e ampliar esforços teóricos e metodológicos para refletir sobre os condicionantes culturais, sociais e políticos das questões que envolvem a maternidade das mulheres negras.

Considerações metodológicas

A metodologia de MCN2525 Gastaldo D, Rivas-Quarneti N, Magalhães L. Body-map storytelling as a health research methodology: blurred lines creating clear pictures. Forum Qual Soc Res. 2018; 19(2):art.3. Doi: https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858.
https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858...
,2626 Magalhães L, Gastaldo D. Mapas corporales narrados: delineando y contando historias corporales en la búsqueda de un cambio social y económico. In: Zarco J, Ramasco M, Pedraz A, Palmar AM, editores. Investigación cualitativa en salud. Madrid: Centro de Investigaciones Sociólogicas - CIS; 2019. p. 287-301. (Caderno Metodológico 58). foi usada para gerar narrativas e reconhecer a interseccionalidade que implica ser mulher mãe negra. MCNs têm sido definidos como imagens do corpo humano, que usam técnicas baseadas em artes gráficas para representar o mundo no qual as pessoas vivem2727 Gastaldo D, Magalhães L, Carrasco C, Davy C. Body-map storytelling as research: methodological considerations for telling the stories of undocumented workers through body mapping. Toronto: Centre for Support and Social Integration Brazil-Canada - CAIS; 2012.. O método foi desenvolvido por Jane Solomon, em 2002, como estratégia para revelar narrativas de pessoas diagnosticadas com HIV/Aids na África do Sul2828 Solomon J. Living with X: a body mapping journal in the time of HIV and AIDS a facilitator’s guide. Johannesburg: Regional Psychosocial Support Initiative - REPSSI; 2007.. Os MCNs refletem processos sociais, políticos, econômicos, circunstâncias de vida e transformações vividas pelos participantes, e possibilitam a conexão de tempo e espaço na vida das pessoas2525 Gastaldo D, Rivas-Quarneti N, Magalhães L. Body-map storytelling as a health research methodology: blurred lines creating clear pictures. Forum Qual Soc Res. 2018; 19(2):art.3. Doi: https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858.
https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858...
,2828 Solomon J. Living with X: a body mapping journal in the time of HIV and AIDS a facilitator’s guide. Johannesburg: Regional Psychosocial Support Initiative - REPSSI; 2007.

29 Gastaldo D, Magalhães L, Carrasco C. Mapas corporais narrados: um método para documentar saúde, resiliência, adoecimento e sofrimento. In: Fraga AB, Carvalho YM, Gomes IM, organizadores. As práticas corporais no campo da saúde. São Paulo: Hucitec; 2013. p. 83-100.
-3030 Harries J, Solomon J. Body mapping: to explore the embodied experiences of contraceptive methods and family planning with women in South Africa. Cape Town: University of Cape Town; 2018.. Essa concepção, participativa e emancipatória, reconhece a especificidade dos grupos e indivíduos que se sentem marginalizados ou privados de privilégios em uma sociedade2525 Gastaldo D, Rivas-Quarneti N, Magalhães L. Body-map storytelling as a health research methodology: blurred lines creating clear pictures. Forum Qual Soc Res. 2018; 19(2):art.3. Doi: https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858.
https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858...
.

A participante deste estudo colaborou narrando sua história, desde o modo pelo qual se percebe como negra até as reflexões e atitudes que adota pensando na criação de seus filhos. Trata-se, portanto, de um estudo qualitativo, visual, de abordagem narrativa2626 Magalhães L, Gastaldo D. Mapas corporales narrados: delineando y contando historias corporales en la búsqueda de un cambio social y económico. In: Zarco J, Ramasco M, Pedraz A, Palmar AM, editores. Investigación cualitativa en salud. Madrid: Centro de Investigaciones Sociólogicas - CIS; 2019. p. 287-301. (Caderno Metodológico 58).. A corporeidade da mulher negra é central na constituição de sua subjetividade, o que justifica a escolha de uma ferramenta de pesquisa que busca revelar relações sociais e de poder com base em uma perspectiva criativa e crítica2626 Magalhães L, Gastaldo D. Mapas corporales narrados: delineando y contando historias corporales en la búsqueda de un cambio social y económico. In: Zarco J, Ramasco M, Pedraz A, Palmar AM, editores. Investigación cualitativa en salud. Madrid: Centro de Investigaciones Sociólogicas - CIS; 2019. p. 287-301. (Caderno Metodológico 58)..

Este estudo descreve o caso de umas das participantes de um estudo mais amplo que foi conduzido na cidade de Uberaba, Minas Gerais, Brasil, pela primeira autora, e que ouviu2727 Gastaldo D, Magalhães L, Carrasco C, Davy C. Body-map storytelling as research: methodological considerations for telling the stories of undocumented workers through body mapping. Toronto: Centre for Support and Social Integration Brazil-Canada - CAIS; 2012. as experiências das participantes com o racismo e suas percepções de serem mulheres mães negras. Foram incluídas mulheres que se autodeclararam pretas ou pardas, residiam na cidade, tinham mais de 18 anos; que exercem o papel de mãe (biológica e/ou adotiva) e têm filhos com idade entre quatro e dezoito anos.

Dez mulheres participaram do projeto, entre os meses de agosto/2019 e fevereiro/2020. Entrevistas foram transcritas, os dados gráficos foram fotografados e digitalizados em formato PDF.

Aqui descreveremos a história de Gabriela, 31 anos, profissional da área de Comunicação. Gabriela reside na cidade de Uberaba há aproximadamente vinte anos. Para a análise, tanto das imagens do mapa corporal quanto da narrativa que acompanha a produção do mapa, utilizamos procedimentos preconizados pela análise temática3131 Braun V, Clarke V. Using thematic analysis in psychology. Qual Res Psychol. 2006; 3(2):77-101. que gerou dois eixos: 1. A experiência de ser mulher negra no cotidiano; e 2. A prática de ser mãe negra. Os eixos foram concebidos por meio do referencial de Werneck3232 Werneck J. Racismo institucional: uma abordagem conceitual. São Paulo: GELEDÉS; 2013. dos três níveis de experiência com o racismo: pessoal/internalizado, interpessoal e institucional.

O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos pela Plataforma Brasil, aprovado pelo número: 3.523.238. A participação na pesquisa foi formalizada mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A pesquisa seguiu os preceitos previstos na Resolução n. 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde3333 Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Resolucção nº 510, de 7 de Abril de 2016. Diário Oficial da União. 24 Maio 2016; sec. 1, n. 98. p. 44-46..

Resultados

Gabriela autodeclara-se como de cor/raça preta, possui ensino superior completo e trabalha com mídias sociais. Gabriela é heterossexual, casada com um homem que ela classifica como negro e tem dois filhos, um menino com um ano de idade e uma menina com quatro anos. No formulário, Gabriela indicou que viveu situações de racismo em contextos de vaga de emprego.

Na confecção do MCN, Gabriela escolheu uma posição corporal (Figura 1) que representa algo mais natural; segundo ela, o “eu natural”. Para ela, a representação significa a força para aguentar a soma de filhos, casa e profissão. É como se em um braço ela segurasse as crianças e no outro respondesse às outras responsabilidades. Gabriela declarou que seu mapa é seu autorretrato.

Figura 1
Mapa corporal elaborado por Gabriela, 2019.

1. A experiência de ser mulher negra no cotidiano

Para mim foi muito importante esse encontro comigo mesma na [construção do MCN]. Porque eu ia falar uma descoberta, mas nada é descoberta, né? [...], um encontro desde a minha infância. Do que eu venho construindo ao longo do tempo, do que eu venho buscando para mim. [...] acho que tudo que eu enfrento na parte profissional, familiar, com os filhos, é tudo que tá aqui.

(Gabriela, terceiro encontro)

Gabriela relatou que o processo de “tornar-se negra” se desenvolveu pela sua socialização. Segundo ela, os seus traços, fenótipo e aparência negra eram comparados e inferiorizados por colegas, meninos e meninas, no período escolar por meio de um modelo articulado por padrões da branquitude. Na legenda do mapa de Gabriela há a explicação sobre descobrir-se uma mulher negra. Ela expressa que não sabe se existe um day one para ser mulher negra, pois várias coisas se relacionam. Até hoje Gabriela se sente insegura por seu cabelo (Figura 2). Gabriela contou que a marca no ombro esquerdo representa o tratamento diferente que recebeu de colegas da escola devido ao seu tipo de cabelo, que era comparado ao de pessoas brancas. Consequentemente, além de inferiorizar a sua aparência, Gabriela passou a desejar ter cabelos lisos. Isso desencadeou um contínuo sentimento de insegurança, trazendo sensações de estar constantemente malvestida ou descuidada.

Figura 2
Mapa corporal elaborado por Gabriela – parte superior.

Gabriela acredita que ser negra a fez perder oportunidades de trabalho. Ela conta que vivenciou situações nas quais a condição para ser aceita em empregos baseava-se na aparência e na estética brancas. Isso gerou dúvidas em relação a desistir ou “correr atrás de seus sonhos”. No trabalho, ela percebeu que recebia responsabilidades que seus colegas de fenótipo branco não recebiam, inclusive que não faziam parte do seu cargo. Gabriela representou situações que viveu por ser mulher negra com imagens próximas ao seu braço esquerdo (Figura 3), detalhando a convivência com seus avós maternos e paternos e sua extensa família. Ela relatou que responde às situações de racismo com o silenciamento e o choro, geralmente assumindo um lugar de servidão nas relações de trabalho, pois aceita humilhações e adota uma postura que busca agradar aos outros.

Figura 3
Mapa corporal elaborado por Gabriela – parte mediana.

Gabriela relatou que o desenho de uma rocha [na região do crânio do mapa] (Figura 2) representa em quem ela se tornou como mulher negra e mostra que ela está se “lapidando”. A imagem foi colocada na cabeça pois significa onde se dá a mudança. Ela relata que é passiva/calada, mas que precisa formar-se, assumir-se. Gabriela crê que há uma incompreensão dos povos negros sobre os motivos que os levam a serem tratados de forma diferente. Relata que racismo é algo camuflado, percebido nas atitudes e nos olhares, mas sempre dissimulado.

Sua “força pessoal”, representada no braço direito, tem origem no desejo em melhorar como pessoa, evoluir. Gabriela está focada na profissão, nos filhos, na família e na carreira, que é expressa em tom de evolução por meio das cores, indo do tom “mais clarinho ao mais escuro”.

2. A prática de ser mãe negra

É o que eu falei da criação, a gente vai adaptando, vai se completando na criação das crianças. [....] A gente não se abala por essas questões, por situações que a gente vai viver, que eles vão viver, muitas vezes eu não vou estar junto, então o que eu quero moldar para eles, principalmente nessa fase que estão se formando, como caráter, como pessoa, é se defenderem quando eu não estiver perto. [...] é muito do que eu tento mostrar, não só falar para eles, levar o meu exemplo, e tentar ser esse exemplo que eu mostro para eles. [...].

(Gabriela, 31 anos)

Gabriela enfrenta o processo de maternar de modo reflexivo, mas otimista. Ser mãe envolve o planejamento da gravidez, as mudanças devido à chegada dos filhos, identificar situações nas quais age pelo instinto materno, assim como as divergências na criação dos filhos e o desejo por continuar a carreira.

Sobre ser e tornar-se mãe, a legenda “marcas sob/sobre a pele” traz a letra “X” nas cores azul e rosa, na região da cabeça do mapa (Figura 2), referindo-se às divergências entre pai e mãe sobre a criação e a necessidade de juntar esforços para formar os filhos.

[...] a gente tem que juntar isso pra formar um ser humano, né?! Então esse choque de cultura, né?! É bem desafiador porque eu não fiz o filho sozinha, eu ‘tô morando ali, eu ‘tô casada, convivendo com outro tipo de cultura, então, também tem que respeitar a vivência dele, juntar com a minha, né, pra gente formar ali [...] ele foi criado de um jeito [...].

(Gabriela, 31 anos)

A marca na região da barriga (Figura 3) refere-se a uma coisa pequena que foi crescendo: o amor de mãe que se desenvolve aos poucos. O crescimento da barriga significa o aumento do sentimento e do conhecimento das características do filho. Gabriela considera o amor pelos filhos por uma perspectiva de um sentimento construído, mas também das responsabilidades inerentes ao papel de mãe.

Segundo os roteiros preconizados2727 Gastaldo D, Magalhães L, Carrasco C, Davy C. Body-map storytelling as research: methodological considerations for telling the stories of undocumented workers through body mapping. Toronto: Centre for Support and Social Integration Brazil-Canada - CAIS; 2012., a representação do símbolo e do slogan nos mapas corporais cria a possibilidade de expressar, aos que observam os mapas, um resumo dos pontos essenciais que a participante deseja comunicar, tanto em relação às suas características singulares (slogan) quanto aos elementos que orientam as suas ações (símbolos). No caso de Gabriela, ser mãe e negra expõe uma mulher armada como se estivesse indo para uma batalha. O slogan escolhido foi “uma mãe negra não coloca limite na sua força em defender os seus, com unhas e garras”, localizado embaixo dos pés, como se fosse uma base, sustentando-os (Figura 4).

Figura 4
Mapa corporal elaborado por Gabriela – parte inferior.

Ao referir o racismo, Gabriela relata preocupar-se em ensinar, aos seus filhos, independência, boas maneiras, não ser uma criança folgada e não esperar por ninguém para realizar algo. No cotidiano, ela se vê preocupada quando vai com os filhos ao supermercado, receando que eles esbarrem ou peguem algo. No âmbito familiar, Gabriela preocupa-se em superar uma cultura familiar em que há depreciações sobre a condição dos negros, repassadas intergeracionalmente.

Ser mãe negra faz Gabriela buscar livros que auxiliem na construção da identidade negra de seus filhos e na representatividade. Ela demonstra que é preciso ensinar valores de ser negro como: aceitação, orgulho, autoestima, valorização, descontração no assunto e não focar no responder e no reagir. Gabriela representou em seu mapa o desenho de um livro perto da boca (Figura 2), que significa por onde Gabriela fala com seus filhos e os ensina sobre negritude e representatividade. As setas nos braços direito e esquerdo apontando para si representam o ensinamento para os filhos. Ela acredita que é mais valioso mostrar o que fazer, do que falar. As palavras escritas nas pernas direita e esquerda (Figura 5) representam os valores que Gabriela transmite sobre ser negro: orgulho, aceitação, valorização e autoestima.

Figura 5
Mapa corporal elaborado por Gabriela – ensinamentos aos filhos.

Gabriela reitera a necessidade desses valores porque entende a insuficiência das políticas públicas, assim como a associação no imaginário social de que negros sejam sinônimos de receber apoio do governo. Ela detalha que as exigências feitas pelos negros são associadas a um discurso de “mimimi” e reflete que a população, de uma forma geral, “se esqueceu da escravidão e de seus impactos”. Ela enfatiza que é a memória que possibilita a não repetição dos erros do passado, o que ela relata ter tentado mostrar por seu MCN.

Discussão

A narrativa de Gabriela, construída pelo MCN, revela um processo reflexivo inédito. Gabriela diz que a confecção do mapa corporal mostrou o autorretrato de sua história de vida, desde a infância até os dias atuais. Nesse processo ela resgatou eventos de relações interpessoais no âmbito familiar, no contexto escolar e do trabalho que a fizeram refletir sobre como essas situações influenciam a sua própria percepção de si. Gabriela revela uma sensação de desconforto com o seu fenótipo. Ela mostra quanto o desejo de modificar a sua aparência, baseada em estereótipos de pessoas brancas, se manifesta, tornando-a uma pessoa insegura.

A narrativa de Gabriela, descrita aqui por dois eixos principais, enfatizou a condição de negra e mãe, articulando os condicionantes sociais de ambas as experiências. A discussão ontológica do ser negro vem sendo feita na literatura com base no entendimento de que o uso do termo “negro” é uma categoria política, que remete à historicidade dos povos africanos, continuamente voltada a legitimar a exploração, a violência e a colonização sofrida por esse povo. Neusa Sousa3434 Sousa NS. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1983., psiquiatra brasileira, e Frantz Fanon3535 Fanon F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA; 2008., psiquiatra martinicano, explicam que o processo de se tornar negro é assimilado pelo olhar do branco:

O preto é um animal, o preto é ruim, o preto é malvado, o preto é feio; olhe, um preto! Faz frio, o preto treme, o preto treme porque sente frio [...] o menino bonito treme porque pensa que o preto treme de raiva, o menino branco se joga nos braços da mãe: mamãe, o preto vai me comer!3535 Fanon F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA; 2008.. (p. 106-7)

Esse processo de rejeição, inferiorização e consequente exclusão é o que possibilita a operacionalização ideológica do racismo institucional. Gabriela indica que a compreensão de ser negra surge quando ela transita pelos espaços da escola e do trabalho, o que Sousa3434 Sousa NS. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1983. identifica como o impacto da autoridade da estética branca nos corpos negros, em espaços de poder:

É a autoridade da estética branca quem define o belo e sua contraparte, o feio, nesta nossa sociedade classista, onde os lugares de poder e tomada de decisões são ocupados hegemonicamente por brancos. Ela é quem afirma: “o negro é o outro do belo”. É esta mesma autoridade quem conquista, de negros e brancos, o consenso legitimador dos padrões ideológicos que discriminam uns em detrimento de outros3434 Sousa NS. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1983.. (p. 29)

O racismo institucional tem sido responsável pela manutenção e pela reprodução da hierarquia racial nas organizações, instituições e ações do Estado, nas políticas públicas e instituições privadas. É o mecanismo fundamental na perpetuação de barreiras que materializam a hegemonia branca3232 Werneck J. Racismo institucional: uma abordagem conceitual. São Paulo: GELEDÉS; 2013..

A lógica hierárquica do racismo institucional, que ocorre nos espaços de socialização de Gabriela, é concretizada no nível interpessoal por meio de encontros nos quais os comentários sobre o seu cabelo e a cor de pele acontecem inesperadamente. Na literatura, os exemplos de mulheres negras com dificuldades semelhantes de objetificações racializadas devido ao cabelo são abundantes3636 Gomes NL. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica Editora; 2019.,3737 Souza RA. Deixa meu cabelo em paz e outros contos sobre Arqueologia do Racismo à Brasileira. Rev Arqueol. 2020; 33(2):43-65..

O racismo vem sendo abordado como uma questão que gera um trauma histórico, capaz, inclusive, de ser transmitido de modo intergeracional2323 Kirmayer LJ, Gone JP, Moses J. Rethinking historical trauma. Transcult Psychiatry. 2014; 51(3):299-319.. Como aponta Sousa3434 Sousa NS. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1983., a internalização da hierarquia do racismo faz que negros e negras tenham sentimentos e condutas que definem a própria condução de suas vidas, configurando, inclusive, os aspectos que serão ou não compartilhados. Gabriela, por exemplo, mencionou que não fala sobre as situações de racismo com ninguém. Diante dessas situações, ela chora, silencia e tenta se enquadrar nos comportamentos esperados pelas pessoas.

No seu casamento, em virtude da geração e da criação de seus filhos, seus sentimentos, experiências e história de vida tomaram rumos inesperados. No processo de tornar-se mãe, Gabriela vivencia eventos característicos e ambíguos da maternidade, mostrando entendimento do instinto materno, assim como da construção processual da maternidade11 Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25.,22 Badinter E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1985.. Gabriela acredita que precisa criar seus filhos e ensiná-los sobre o fortalecimento da autoestima, da identidade, além de buscar estratégias de reconhecimento3838 Ferreira RF, Camargo AC. As relações cotidianas e a construção da identidade negra. Psicol Cienc Prof. 2011; 31(2):374-89.

39 Guimarães ASA. Combatendo o racismo: Brasil, África do Sul e Estados Unidos. Rev Bras Cienc Soc. 1999; 14(39):103-17.
-4040 Pinto MCC, Ferreira RF. Relações raciais no Brasil e a construção da identidade da pessoa negra. Pesqui Prat Psicossociais. 2014; 9(2):256-66..

Estudos mostram inúmeros desafios para ser uma criança negra na sociedade66 Cavalleiro E. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto; 2000.,4141 Nunes MDF, Corrêa LJL. As crianças negras vistas pela sociologia da infância no Brasil: uma revisão de literatura. Saber Educar. 2016; (21):86-97.,4242 Moreira-Primo US, França DX. Efeitos do racismo na trajetória escolar de crianças: uma revisão sistemática. Debates Educ. 2020; 12(26):176-98., já que situações de discriminação e genocídio de crianças, adolescentes e jovens negros são recorrentes2222 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Violência 2020. Brasília: IPEA; 2020.,4343 Camargo CL, Alves ES, Quirino MD. Violência contra crianças e adolescentes negros: uma abordagem histórica. Texto Contexto Enferm. 2005; 14(4):608-15.. Gabriela refere estratégias para pensar formas de educar seus filhos, para que eles evitem possíveis sofrimentos e saibam lidar com situações difíceis, adotando uma lógica contrária ao uso do termo negro de modo depreciativo, pois almeja criar seus filhos com uma perspectiva positiva do termo, contextualizada pelas raízes africanas. Schucman1414 Schucman LV. Racismo e antirracismo: a categoria raça em questão. Rev Psicol Polit. 2010; 10(19):41-55. e Zamora4444 Zamora MHRN. Desigualdade racial, racismo e seus efeitos. Fractal Rev Psicol. 2012; 24(3):563-78. destacam que o racismo homogeneíza as experiências da população negra, além de anular a história que antecedeu o período da escravização.

A história de Gabriela atesta que o trauma do racismo condiciona a vida das famílias negras. Assim, Gabriela espera que seus valores e estratégias educacionais a auxiliem a romper com o imaginário social que inferioriza a população negra, no caso, seus filhos negros.

Reflexões finais

Neste estudo de caso buscamos revelar como a experiência com o racismo internalizado, interpessoal e institucional configura a construção da identidade de uma mulher negra e mãe por meio do MCN, que é um procedimento de geração de dados crítico, criativo e reflexivo. Os resultados mostram que o racismo como categoria de análise visibiliza processos complexos de subjetivação experimentados ao longo da vida de mulheres mães negras. O estudo identificou os desafios no exercício cotidiano de educar crianças para crescerem em um país com práticas racistas como o Brasil. Gabriela mostra a engenhosidade das estratégias que buscam romper com o imaginário social que inferioriza o povo negro, cotidianamente.

A maternidade negra, em contextos racistas como o caso brasileiro, carece de mais estudos que aprofundem o processo de construção da identidade de ser negro, possibilitando revelar quanto o racismo impacta e modifica várias dimensões da vida da população negra, especialmente intergeracional. Claro, a história de uma única participante pode não representar a totalidade do pensamento do povo negro vivendo no Brasil, mas auxilia a compreensão da complexidade que é pensar sobre experiências de mulheres mães negras. Pesquisas futuras, que busquem compreender a experiência do racismo em famílias negras por meio de metodologias qualitativas, podem contribuir para ampliar e aprofundar os resultados encontrados neste estudo, subsidiando a construção de agendas e políticas públicas que garantam plenos direitos e suporte às mães negras.

  • (c)
    O termo negro é utilizado como uma categoria política que agrega pessoas autodeclaradas como pretas ou pardas1818 Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE; 2014..

Agradecimentos

Às mulheres mães negras, que contaram as suas histórias, e aos espaços da cidade de Uberaba que apoiaram a realização do estudo: Fundação Cultural Professor Antônio Carlos Marques e Coordenadoria de Políticas de Igualdade Racial, Coletivo Afrontar-se, Grupo Abayomi – Apoio à Maternidade e Centro Municipal de Educação Infantil Dirce Miziara.

  • Martins S, Magalhães L. Vai arrumar este cabelo, neguinha! Mapeamento Corporal Narrado por Gabriela, mãe negra. Interface (Botucatu). 2021; 25: e200824 https://doi.org/10.1590/interface.200824
  • Financiamento

    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001.

Referências

  • 1
    Bassin D, Honey M, Kaplan MM. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 1-25.
  • 2
    Badinter E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1985.
  • 3
    Esdaile SA, Olson JA. Mothering occupations: challenge, agency, and participation. Philadelphia: F. A. Davis; 2004.
  • 4
    O’Reilly A. Mothers, mothering and motherhood across cultural differences: a reader. Canada: Demeter Press; 2014. p. 56-74.
  • 5
    Rosseti DMGS, Gutierrez DMD. A maternidade de mulheres em sofrimento psíquico: uma revisão de literatura. Braz J Health Rev. 2020; 3(6):15691-712.
  • 6
    Cavalleiro E. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto; 2000.
  • 7
    Dove N. Afrikan mothers: bearers of culture, makers of social change. Albany: State University of New York Press; 1998.
  • 8
    Hordge-Freeman E. A cor do amor: características raciais, estigma e socialização em famílias negras brasileiras. São Carlos: EdUFSCar; 2019.
  • 9
    Schucman LV, Mandelbaum B, Fachim FL. Minha mãe pintou meu pai de branco: afetos e negação da raça em famílias interraciais. Rev Cienc Hum. 2017; 51(2):439-55.
  • 10
    Ruddick S. Thinking mothers/conceiving birth. In: Bassin D, Honey M, Kaplan MM, editors. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 28-45.
  • 11
    Collins PH. Shifting the center: race, class, and feminist theorizing about motherhood. In: Bassin D, Honey M, Kaplan MM, editors. Representations of motherhood. New Haven, London: Yale University Press; 1994. p. 56-74.
  • 12
    Mbembe A. Necropolítica. Art Ens. 2016; (32):122 -210.
  • 13
    Munanga K. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: Anais do 3o Seminário Nacional Relações Raciais e Educação-PENESB; 2003; Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PENESB; 2003.
  • 14
    Schucman LV. Racismo e antirracismo: a categoria raça em questão. Rev Psicol Polit. 2010; 10(19):41-55.
  • 15
    Silva TT. A produção social da identidade e da diferença. In: Silva TT, Hall SW, Woodward K, organizadores. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Petrópolis: Vozes; 2014. p. 73-102.
  • 16
    Hall S. Quem precisa de identidade? In: Silva TT, Hall SW, Woodward K, organizadores. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. Petrópolis: Vozes; 2014. p. 103-33.
  • 17
    Collins PH. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Soc Estado. 2016; 31(1):99-127.
  • 18
    Brasil. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE; 2014.
  • 19
    Oliveira B, Kubiak F. Racismo institucional e a saúde da mulher negra: uma análise da produção científica brasileira. Saude Debate. 2019; 43(122):939-48.
  • 20
    Damasceno M, Zanello V. Saúde mental e racismo contra negros: produção bibliográfica brasileira dos últimos quinze anos. Psicol Cienc Prof. 2018; 38(3):450-64.
  • 21
    Carvalho D, França D. Estratégias de enfrentamento do racismo na escola: uma revisão integrativa. Educ Form. 2019; 4(12):148-68.
  • 22
    Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Violência 2020. Brasília: IPEA; 2020.
  • 23
    Kirmayer LJ, Gone JP, Moses J. Rethinking historical trauma. Transcult Psychiatry. 2014; 51(3):299-319.
  • 24
    Lacerda RS, Hogan V, Araújo EM, Camargo CL. Fatores que interferem nas disparidades raciais em saúde: impacto do trauma histórico, status socioeconômico e racismo sobre a saúde. Rev ABPN. 2012; 4(8):97-113.
  • 25
    Gastaldo D, Rivas-Quarneti N, Magalhães L. Body-map storytelling as a health research methodology: blurred lines creating clear pictures. Forum Qual Soc Res. 2018; 19(2):art.3. Doi: https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858.
    » https://doi.org/10.17169/fqs-19.2.2858
  • 26
    Magalhães L, Gastaldo D. Mapas corporales narrados: delineando y contando historias corporales en la búsqueda de un cambio social y económico. In: Zarco J, Ramasco M, Pedraz A, Palmar AM, editores. Investigación cualitativa en salud. Madrid: Centro de Investigaciones Sociólogicas - CIS; 2019. p. 287-301. (Caderno Metodológico 58).
  • 27
    Gastaldo D, Magalhães L, Carrasco C, Davy C. Body-map storytelling as research: methodological considerations for telling the stories of undocumented workers through body mapping. Toronto: Centre for Support and Social Integration Brazil-Canada - CAIS; 2012.
  • 28
    Solomon J. Living with X: a body mapping journal in the time of HIV and AIDS a facilitator’s guide. Johannesburg: Regional Psychosocial Support Initiative - REPSSI; 2007.
  • 29
    Gastaldo D, Magalhães L, Carrasco C. Mapas corporais narrados: um método para documentar saúde, resiliência, adoecimento e sofrimento. In: Fraga AB, Carvalho YM, Gomes IM, organizadores. As práticas corporais no campo da saúde. São Paulo: Hucitec; 2013. p. 83-100.
  • 30
    Harries J, Solomon J. Body mapping: to explore the embodied experiences of contraceptive methods and family planning with women in South Africa. Cape Town: University of Cape Town; 2018.
  • 31
    Braun V, Clarke V. Using thematic analysis in psychology. Qual Res Psychol. 2006; 3(2):77-101.
  • 32
    Werneck J. Racismo institucional: uma abordagem conceitual. São Paulo: GELEDÉS; 2013.
  • 33
    Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Resolucção nº 510, de 7 de Abril de 2016. Diário Oficial da União. 24 Maio 2016; sec. 1, n. 98. p. 44-46.
  • 34
    Sousa NS. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal; 1983.
  • 35
    Fanon F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA; 2008.
  • 36
    Gomes NL. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica Editora; 2019.
  • 37
    Souza RA. Deixa meu cabelo em paz e outros contos sobre Arqueologia do Racismo à Brasileira. Rev Arqueol. 2020; 33(2):43-65.
  • 38
    Ferreira RF, Camargo AC. As relações cotidianas e a construção da identidade negra. Psicol Cienc Prof. 2011; 31(2):374-89.
  • 39
    Guimarães ASA. Combatendo o racismo: Brasil, África do Sul e Estados Unidos. Rev Bras Cienc Soc. 1999; 14(39):103-17.
  • 40
    Pinto MCC, Ferreira RF. Relações raciais no Brasil e a construção da identidade da pessoa negra. Pesqui Prat Psicossociais. 2014; 9(2):256-66.
  • 41
    Nunes MDF, Corrêa LJL. As crianças negras vistas pela sociologia da infância no Brasil: uma revisão de literatura. Saber Educar. 2016; (21):86-97.
  • 42
    Moreira-Primo US, França DX. Efeitos do racismo na trajetória escolar de crianças: uma revisão sistemática. Debates Educ. 2020; 12(26):176-98.
  • 43
    Camargo CL, Alves ES, Quirino MD. Violência contra crianças e adolescentes negros: uma abordagem histórica. Texto Contexto Enferm. 2005; 14(4):608-15.
  • 44
    Zamora MHRN. Desigualdade racial, racismo e seus efeitos. Fractal Rev Psicol. 2012; 24(3):563-78.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jul 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    14 Dez 2020
  • Aceito
    18 Maio 2021
UNESP Distrito de Rubião Jr, s/nº, 18618-000 Campus da UNESP- Botucatu - SP - Brasil, Caixa Postal 592, Tel.: (55 14) 3880-1927 - Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br