Apresentação

Maria Waldenez de Oliveira José Ivo Pedrosa

A Educação Popular e Saúde vem se mostrando como um campo fértil de reflexões, trabalhos, pesquisas e propostas seja na e para a área da Saúde seja de Educação. Dentre tantos recortes históricos possíveis, diríamos que a década de 1970 foi uma década especial para a construção do que hoje conhecemos e vimos denominando como Educação Popular e Saúde. Os acontecimentos na área da saúde vivenciados e denunciados pelos grupos populares e acadêmicos apontavam as desigualdades no acesso aos serviços de saúde, a baixa qualidade da atenção a saúde às classes populares, as precárias condições de trabalho dos profissionais e o completo desconhecimento dos determinantes e condicionantes sócios-culturais da saúde por parte das políticas públicas vigentes. Neste cenário foram sendo produzidas práticas, conhecimentos, instrumentos teóricos e metodológicos construídos coletivamente para enfrentar as adversidades que restringiam o pleno viver de homens e mulheres no campo e nas cidades, principalmente nas periferias. Nesse movimento, acadêmicos, profissionais de saúde, estudantes, grupos e movimentos sociais e populares apropriam-se das reflexões da Educação Popular de base freireana, para pensar, criticar, conhecer o campo da Saúde e nele experienciar outras formas de pensar e fazer Saúde, na formação profissional, na atenção à Saúde, na organização dos serviços e na relação entre as pessoas. Nessa construção alguns pontos, poderíamos dizer, pilares, foram sendo consolidados buscando-se colocar à luz uma coerência epistemológica que pudesse sustentar e ao mesmo tempo criticar essa construção, descobrindo e anunciando novas construções. Poderíamos apontar alguns deles, apenas para dar um panorama geral ao leitor, do que sua leitura deste suplemento poderá detalhar: as culturas populares e suas formas de conhecer e construir saúde e o enfrentamento de seus condicionantes e determinantes, a articulação entre teoria e prática na intencionalidade emancipatória do cuidar, as pessoas como sujeitos do conhecimento com capacidade de construir o futuro, a historicidade humana nos processos educativos e a subjetividade e intersubjetividade presentes nos processos de adoecimento e cura

Cabe lembrar que processos anteriores a esta década, como a já mencionada Educação Popular, os movimentos populares pela democracia na América Latina e Caribe, entre outros, abriram caminhos vitais para esses processos de construção. Todos esses caminhares, conhecimentos, experiências foram e estão sendo constitutivos da Educação Popular e Saúde e de sua consistência ontológica, epistemológica e gnosiológica, política, cultural e historicamente localizada que sustenta escolhas teóricas e metodológicas que a expressam ao mesmo tempo em que a ela se voltam criticamente em diálogo e na diversidade que são próprios da Educação Popular.

Nessa consistência e diversidade elaborou-se este Suplemento “A EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE”. Nele o leitor encontrará artigos, relatos de experiências, debates, entrevistas, teses, criações que de forma crítica, rigorosa e esperançosa trazem as várias dimensões e abordagens das interfaces entre a Educação Popular e o Sistema Único de Saúde, seja na rede de serviços, nos territórios e nas unidades de saúde, nas escolas, em cursos, nos conselhos, seja nas Políticas de Saúde nacionais, locais, regionais, seja nos demais espaços sociais onde a luta popular pela Saúde acontece.

Tais características nos fazem olhar os artigos deste Suplemento sob diversas perspectivas que revelam três dimensões nas quais é possível apreender as interfaces entre Educação Popular e Saúde e SUS. A primeira é a dimensão pedagógica na qual a Educação Popular mostra-se como suporte para processos de constituição de sujeitos críticos e reflexivos no campo da saúde e nos modos de ensinar/aprender nos movimentos populares, na extensão universitária e na formação de profissionais. A segunda é a dimensão da praxis em saúde na qual a Educação Popular se expressa na integralidade das ações de saúde e no compartilhamento de saberes e fazeres e, a terceira, a dimensão política na qual a Educação Popular orienta e organiza a formação de sujeitos políticos que se movimentam no cenário das transformações sociais.

A diversidade de artigos e a multiplicidade dos sujeitos/autores convergem e fortalecem algo que é muito caro a Educação Popular: a perspectiva da superação de situações que limitam ou dificultam ações emancipatórias e da construção do inédito viável.

Como exemplo vivo disso, temos a edição deste Suplemento que somente foi possível com o compartilhamento das dificuldades limitantes com a Interface, com a Secretaria de Gestão Estratégia e Participativa do Ministério da Saúde e sua Coordenação Geral de Educação Popular e Mobilização Social, com a Rede de Educação Popular e Saúde, e, com o Grupo de Trabalho de Educação Popular e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Agradecemos aos autores e autoras que submeteram seus artigos, reflexões para debates, entrevistas, criações e aos revisores(as) pelo trabalho cuidadoso de avaliação dos artigos . Esperamos que este Suplemento vá além da contribuição epistêmica da Educação Popular e Saúde para o campo da Saúde Coletiva; ou seja, que as vivências, experiências e reflexões aqui relatadas sejam pilares para a viabilidade do inédito em nossas vidas e na saúde da população brasileira.

Maria Waldenez de Oliveira
José Ivo Pedrosa
Editores Convidados

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan 2014
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