Resumo
Este estudo analisou a cultura alimentar da comunidade quilombola da Bocaina (Bahia) a partir da autopercepção de seus habitantes. Com abordagem qualitativa e utilização da metodologia da escrevivência, foram realizadas 14 entrevistas com participantes de diferentes idades. As respostas foram organizadas por faixas etárias e analisadas tematicamente. Os resultados indicam que, para os entrevistados, a alimentação está associada à saúde e que pratos tradicionais estão sendo preservados. Quanto à produção dos alimentos, a cultura de subsistência é marcante, assim como saberes tradicionais que orientam a prática da agricultura na comunidade. A metodologia utilizada valorizou saberes tradicionais e deu visibilidade a conhecimentos ancestrais que fazem parte da cultura afrodiaspórica. O estudo destaca hábitos cotidianos de resistência à colonialidade, bem como a importância de estratégias que promovam a preservação da identidade cultural.
Palavras-chave
Hábito alimentar; Quilombolas; População negra; Direito à alimentação
Abstract
This study analyzed the food culture of the quilombola community of Bocaina (Bahia), based on the self-perception of its inhabitants. Using a qualitative approach and the “escrevivência” (writing-living) methodology, 14 interviews were conducted with participants of different ages. The responses were organized by age group and analyzed thematically. The results indicate that, for the interviewees, food is associated with health and that traditional dishes are being preserved. Regarding food production, the subsistence culture is prominent, as is the traditional knowledge that guides agricultural practices in the community. The methodology used valued traditional knowledge and gave visibility to ancestral knowledge that is part of Afro-diasporic culture. The study highlights daily habits of resistance to coloniality, as well as the importance of strategies that promote the preservation of cultural identity.
Keywords
Eating behaviors; Quilombolas; Black population; Right to Food
Abstract
This study analyzed the food culture of the quilombola community of Bocaina (Bahia), based on the self-perception of its inhabitants. Using a qualitative approach and the “escrevivência” (writing-living) methodology, 14 interviews were conducted with participants of different ages. The responses were organized by age group and analyzed thematically. The results indicate that, for the interviewees, food is associated with health and that traditional dishes are being preserved. Regarding food production, the subsistence culture is prominent, as is the traditional knowledge that guides agricultural practices in the community. The methodology used valued traditional knowledge and gave visibility to ancestral knowledge that is part of Afro-diasporic culture. The study highlights daily habits of resistance to coloniality, as well as the importance of strategies that promote the preservation of cultural identity.
Keywords
Eating behaviors; Quilombolas; Black population; Right to Food
Resumen
Este estudio analizó la cultura alimentaria de la comunidad quilombola de Bocaina (Estado de Bahia), a partir de la autopercepción de sus habitantes. Con un abordaje cualitativo y la utilización de la metodología de la escrivivencia, se realizaron 14 entrevistas con participantes de diferentes edades. Las respuestas se organizaron por rangos etarios y se analizaron temáticamente. Los resultados muestran que, para los entrevistados, la alimentación está vinculada a la salud y que los platos tradicionales se están preservando. En lo que se refiere a la producción de los alimentos, la cultura de subsistencia es algo señalado, así como los saberes tradicionales que orientan la práctica de la agricultura en la comunidad. La metodología utilizada valoró los saberes tradicionales y dio visibilidad a conocimientos ancestrales que forman parte de la cultura de la diáspora africana. El estudio subraya hábitos cotidianos de resistencia a la colonialidad, así como la importancia de estrategias que promuevan la preservación de la identidad cultural.
Palabras clave
Hábito alimentario; Quilombolas; Población negra; Derecho a la alimentación
Introdução
A cultura alimentar pode ser compreendida como um conjunto de representações, crenças, conhecimentos e práticas, herdadas e/ou aprendidas, associadas à alimentação e compartilhadas por indivíduos de uma determinada cultura ou grupo social1. Por meio dela, a alimentação adquire uma função identitária, permitindo inferir aspectos como o local geográfico em que uma pessoa reside, sua classe econômica ou as crenças que professa2.
Em certos grupos sociais, como comunidades quilombolas, a comida carrega significados simbólicos e culturais. Fortemente ligada ao meio rural, a cultura quilombola expressa um profundo pertencimento ao território, empenhando-se em preservar memórias sociais e saberes tradicionais. O sustento vem, em grande parte, da agricultura de subsistência3.
Esses grupos priorizam o cultivo e a colheita dos próprios alimentos, resultando em uma dieta baseada, em sua maioria, em alimentos in natura ou minimamente processados e de origem conhecida, já que acompanham todo o processo produtivo, da semente à mesa. Essa relação direta com a terra confere à comida significados que vão além da nutrição. O alimento, nesses contextos, nutre corpo e alma, influenciando manifestações culturais, como festas tradicionais, e até a arquitetura das moradias4.
A cultura alimentar quilombola, vinculada à população negra e baseada na agricultura de subsistência, no respeito ao território e no uso sustentável dos recursos naturais, é pouco trabalhada no ambiente acadêmico, que tem um viés eurocêntrico de formação3,5,6. Temos avançado com grupos que buscam estudar e dar visibilidade ao tema, como o Culinafro7, na UFRJ-Macaé, porém, ainda é necessário ampliar o debate para as diversas regiões do país. Registrar essa cultura é fundamental para combater o racismo, fortalecer identidades e promover o autoconhecimento. É um ato contracolonial, seguindo a perspectiva do líder quilombola Nego Bispo, sendo também uma forma de resistência e de luta em defesa da história, dos símbolos, das significações e dos modos de vida praticados nos territórios dos povos contracolonizadores8. Além de resistir ao colonialismo, reforçar essas práticas cotidianas vividas nas maneiras de plantar, preparar os alimentos, comer e transmitir seus saberes é uma forma de produzir modos próprios de existir, pensar e viver4.
Trabalhar a cultura alimentar quilombola também contribui para o debate em torno do direito humano à alimentação adequada; da segurança alimentar e nutricional; e da soberania alimentar ao evidenciar iniquidades e desafios enfrentados por esse povo relacionados ao acesso regular e permanente a alimentos seguros, saudáveis e culturalmente adequados, podendo subsidiar a formulação de políticas próprias e sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos9. Nesse contexto, este estudo teve como objetivo analisar, por meio da autopercepção dos sujeitos, a cultura alimentar da comunidade quilombola da Bocaina, na Bahia.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, que adota a escrevivência como metodologia, conforme o conceito da escritora Conceição Evaristo. Essa abordagem valoriza o protagonismo negro, especialmente o feminino, ao registrar narrativas sob a perspectiva negra e fomentar espaços de debate. A escrevivência evidencia que pessoas historicamente marginalizadas também produzem saberes relevantes. Ao reconhecer e divulgar essas informações, torna-se possível alcançar uma compreensão mais ampla da vida, necessária à geração de conhecimento e ao fortalecimento do respeito em uma sociedade diversa10.
Como declara Evaristo11:
Escrevivência, em sua concepção inicial, se realiza como um ato de escrita das mulheres negras, como uma ação que pretende borrar, desfazer uma imagem do passado, em que o corpo-voz de mulheres negras escravizadas tinha sua potência de emissão também sob o controle dos escravocratas, homens, mulheres e até criança11. (p. 30)
As autoras são mulheres negras, e a pesquisadora Érica Lúcia da Silva integra a própria comunidade estudada, unindo vivência pessoal às análises por meio de memórias e relatos comunitários. A escrevivência se realiza nesse espaço como um ato de escrita em um contexto que traz sentido à história de territórios que foram historicamente invisibilizados, fortalece as nossas memórias e ocupa um espaço de resistência.
O estudo foi conduzido na comunidade quilombola da Bocaina, em Piatã (Bahia), a cerca de 547 km de Salvador. A comunidade, composta pelos quilombos Bocaina Carrapicho e Capão, foi reconhecida pela Portaria n. 78/2013 como “remanescente de quilombo”. Com mais de 200 anos de história, abriga cerca de 90 famílias, cuja principal fonte de renda é a agricultura familiar. A produção de alimentos é majoritariamente voltada para a subsistência e o excedente é comercializado localmente12. Como formas complementares de abastecimento alimentar, destacam-se a presença de açougues e mercearias dentro da comunidade, sendo que, nestas últimas, também são comercializados produtos de higiene e de uso cotidiano. Para compras de maior volume, recorre-se principalmente aos supermercados localizados na sede do município, Piatã, localizada a aproximadamente 15 km de distância. Já para a aquisição de alimentos in natura e minimamente processados que não são encontrados dentro do território, recorrem-se às feiras livres de Piatã ou do município vizinho, Abaíra, a aproximadamente 13 km de distância.
A organização sociopolítica da comunidade quilombola da Bocaina ocorre de forma coletiva, com destaque para a atuação da Associação dos Moradores das Comunidades Quilombolas de Bocaina, Carrapicho e Capão, que desempenha papel importante na representação política e na articulação de demandas comunitárias. Essa organização tem sido fundamental diante de desafios que marcam a trajetória da comunidade. Entre os mais recentes, destacam-se os impactos socioambientais associados à atividade de uma mineradora de ferro dentro do território, intensificados a partir de 2019, incluindo invasões de terrenos; assoreamento de nascentes; poluição do ar, solo e água; e redução da atividade agrícola. A organização dos moradores, intermediada pela atuação da associação comunitária, tem exercido uma forte resistência, mobilizando-se por meio de ações judiciais em diferentes esferas. Atualmente, a mina encontra-se com suas atividades interditadas, com retomada condicionada à comprovação do cumprimento de exigências de órgãos ambientais12,13.
A coleta de dados foi realizada entre dezembro de 2024 e março de 2025. A seleção dos participantes foi realizada em três etapas. Primeiramente, o projeto foi apresentado à comunidade durante reunião da Associação Quilombola local. Na ocasião, foram coletados os nomes dos moradores que aceitaram, de forma voluntária, participar da pesquisa. Também foram feitas indicações, por parte dos líderes comunitários, de moradores cuja participação era considerada relevante por atuarem ativamente na associação ou por serem referências em temas importantes para a comunidade, como na cura de doenças e mau-olhado por meio de rezas e no uso de plantas medicinais.
Em seguida, dos nomes indicados e voluntários, foram contatados os que atendiam aos critérios de inclusão: residir na comunidade, participar das práticas alimentares do domicílio (na produção, na compra, no preparo ou na distribuição de alimentos), preferencialmente viver em domicílio multigeracional e pertencer a famílias tradicionais da região. Foram excluídas pessoas com menos de 18 anos ou que apenas frequentassem, mas não residissem na comunidade.
Posteriormente, foi feita uma busca ativa nas residências, com nova apresentação do projeto e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A amostra contou com 14 moradores de diferentes faixas etárias, permitindo uma análise intergeracional da cultura alimentar. Para esta pesquisa, consideraram-se três gerações: de 18 a 30 anos (grupo A), de 30 a 60 anos (grupo B) e acima de 60 anos (grupo C).
A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas. Inicialmente, levantaram-se informações sobre o perfil demográfico dos participantes (nome, idade, sexo, raça/cor, escolaridade, local de trabalho, estado civil, tempo de residência na comunidade e posição de liderança). Em seguida, aplicou-se um roteiro próprio, elaborado pelas pesquisadoras e alinhado aos objetivos do estudo. As entrevistas foram individuais, em locais e horários convenientes aos participantes; exceto um casal, que optou por ser entrevistado junto. As falas foram registradas por meio de gravação de áudio.
Os áudios foram transcritos pela própria pesquisadora, evitando perda de trechos ou troca de palavras e frases. As transcrições foram organizadas por faixa etária, de acordo com as gerações citadas anteriormente. Em seguida, os textos foram lidos integralmente, proporcionando uma visão geral dos principais temas abordados. Releituras sucessivas e detalhadas permitiram a categorização dos dados conforme faixas etárias e objetivos da pesquisa, com base nas ideias centrais identificadas. A partir disso, definiram-se os seguintes eixos temáticos: alimento e saúde; alimentos tradicionais para a comunidade; forma de produção dos alimentos; e escrevivência, memória e cultura alimentar14.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética com Seres Humanos do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos – IMS/CAT – UFBA, sob parecer n. 7.277.277.
Resultados e discussão
Antes de iniciar a apresentação dos resultados e da discussão, a pesquisadora Érica Lúcia da Silva pede licença aos leitores para reforçar o local a partir do qual fala e escrevo neste trabalho. Inspirada na perspectiva da escrevivência, Érica Lúcia da Silva reconhece que memórias, percepções e vivências enquanto moradora desta comunidade quilombola atravessam as análises apresentadas e dialogam com os dados produzidos na pesquisa, fazendo-se presentes, portanto, no decorrer do texto.
Participaram do estudo 14 moradores da comunidade, sendo três entrevistados no grupo A, quatro no grupo B e sete no grupo C. Destaca-se que todos os indivíduos indicados na primeira etapa de seleção participaram da pesquisa. A média de idade foi de 55,9 anos, 57,14% dos participantes eram do sexo masculino, 92,86% se autodeclararam como raça/cor negra e 78,57% residem na comunidade desde que nasceram (quadro 1).
Caracterização dos entrevistados de acordo com idade (geração), sexo, raça/cor e tempo de residência na comunidade
Os resultados foram apresentados em eixos temáticos, que indicam a autopercepção dos moradores sobre a sua cultura alimentar, destacando as formas de produção pela comunidade.
Alimento e saúde
Buscou-se compreender como os entrevistados percebem a comida. Os remanescentes quilombolas da Bocaina atribuem ao alimento significados relacionados à força, manutenção da vida, sustento do corpo e fortalecimento do organismo. Independentemente da faixa etária, houve consenso em associar a alimentação à saúde, seja como fonte de energia, seja como “remédio” capaz de prevenir doenças, a depender da qualidade do que se consome. Também se reconhece que o ato de comer influencia a saúde, assim como o estado de saúde interfere nas escolhas alimentares, sendo o apetite visto como indicador de saúde ou doença.
Em primeiro lugar, acho que pra todo mundo, é o sustento, a energia do corpo humano. (A3)
Ué, comida é o sustento da vida, não? Porque se a gente não comer, a gente não vai conseguir sobreviver. A comida não só sustenta como também serve como remédio, dependendo da qualidade do alimento que você ingere, você também tá ali já fazendo uma prevenção na saúde. (B3)
A importância da comida é porque os que têm apetite para se alimentar tão com saúde e os que não têm, então não tá com saúde. (C3)
De forma semelhante, Marques15, ao estudar práticas alimentares em um quilombo na Amazônia brasileira, observou que os entrevistados viam a alimentação como fonte de energia essencial para fortalecer o corpo e suportar o trabalho rural. Gomes16, em pesquisa sobre percepções de saúde em um quilombo do agreste de Pernambuco, identificou que os participantes associavam saúde a uma alimentação segura e de qualidade, destacando a importância da procedência e da quantidade dos alimentos consumidos.
A relação entre alimentação e saúde na comunidade quilombola da Bocaina é profundamente enraizada. Quando alguém recusa um alimento, a primeira preocupação manifestada costuma ser com o estado de saúde da pessoa. Da mesma forma, em casos de adoecimento, é comum que o arroz vermelho, acompanhado de algum cozido de carne ou frango, preferencialmente caipira, componha a alimentação do doente, por ser considerado um prato nutritivo, reconfortante e de fácil ingestão.
O uso de plantas medicinais ou de itens como limão, alho e cebola para o preparo de chás também é comum dentro da comunidade. Nos quintais de cada casa encontram-se as “farmácias”, com pés de romãs, alecrim, arruda, capim-santo, erva-cidreira e tantos outros. Os conhecimentos tradicionais orientam o preparo, a forma de uso e a função de cada chá. Por exemplo, o gargarejo com a casca da romã trata inflamações de garganta, já a ingestão do chá serve para tratar enjoo e ânsia de vômito. Aquilo que um morador não possui em seu quintal é buscado no quintal do vizinho, que, além do insumo solicitado, também oferece outras ideias de tratamento e a solidária preocupação com a melhora do adoecido. A crença nessas formas de cuidado é muito marcante dentro da comunidade, especialmente porque, durante muito tempo, essas foram algumas das maneiras mais acessíveis de cuidado. Sobre esse tema, apresento a seguir o trecho de um poema intitulado “Desabafo de um Matuto”, escrito por Catarina Silva, quilombola moradora da Bocaina:
Minha farmácia eu bem conheço,
Os remédios têm valor e não têm preço,
Vou correndo os procurar.
E encontro na mãe natureza
Remédios que com presteza
Fazem a cura que é uma beleza
E no outro dia, hum, já vamos é trabalhar.
(Catarina Silva)
Alimentos tradicionais para comunidade
Em relação aos alimentos considerados tradicionais, os grupos citaram feijão com arroz, farinha de mandioca, godó de banana, cortado de palma, cortado de mamão verde, maniçoba, bambó da banana e derivados do milho, como bolo de milho, mingau e pamonha.
O feijão com o arroz forma a base dos almoços e jantares dos quilombolas da Bocaina, sendo uma preparação indispensável nessas refeições. Para torná-la mais completa, acrescenta-se ao feijão a farinha de mandioca, que é majoritariamente produzida dentro da própria comunidade, constituindo uma das práticas mais tradicionais da Bocaina. As famílias plantam a manaíba e, após um período de um ano e meio a dois anos, as raízes da mandioca encontram-se desenvolvidas o suficiente para a produção. O trabalho é artesanal e comunitário, e a voluntariedade dos moradores é natural, não precisa ser cobrada. Na etapa de raspagem das raízes, por exemplo, a casa de farinha fica cheia de mãos que oferecem ajuda e essas mãos não voltam para a casa vazias, levando, na realidade, raspas para uso como ração animal ou massa fresca para fazer beiju e bolos.
Os pés da mandioca são inteiramente aproveitáveis: a raiz é utilizada para fazer a farinha, o caule dá origem às manaíbas usadas no plantio e as folhas podem ser utilizadas no preparo da maniçoba. Para preparar esse prato, as folhas íntegras são escolhidas, limpas e picadas. Posteriormente são cozidas e escorridas para retirar bem a água, sendo depois refogadas com temperos como alho, cebola, cominho, açafrão e sal. Diferentemente de receitas do norte do país17, na comunidade quilombola da Bocaina, a maniçoba não passa por longos períodos de cozimento.
O godó de banana é um prato salgado feito com a banana nanica verde, também conhecida como banana d’água. Os frutos são descascados e submersos na água, para minimizar as manchas causadas pela nódoa, e posteriormente são picados em cubos e cozidos com temperos naturais. Do mesmo cacho de banana se aproveita o bambó, conhecido como o coração da bananeira, que é picado, cozido e refogado.
O cortado de palma é preparado com as folhas mais novas da palma forrageira. Para seu preparo, primeiramente, os espinhos são cuidadosamente retirados; em seguida, a palma é cortada em cubos pequenos; cozida com um pouco de água; e posteriormente escorrida e refogada com os temperos de preferência. Já o preparo do mamão verde requer uma técnica mais apurada no momento do corte do fruto: quanto menores e mais finos os pedaços, melhor o resultado final. Após picado, o mamão verde é refogado e cozido no próprio vapor, sendo o açafrão um tempero indispensável para conferir à preparação final a cor amarela característica.
A culinária africana e afrodiaspórica costuma ter seu potencial de saudabilidade questionado, por ser popularmente associada a “comidas pesadas”, ricas em gordura, açúcar, sal e outros ingredientes18. No entanto, as preparações citadas pelos entrevistados são de consumo cotidiano e compostas, prioritariamente, por alimentos in natura ou minimamente processados, acrescidos apenas de ingredientes culinários como óleo, sal, açúcar e bicarbonato de sódio. Isso contraria estereótipos e está alinhado às recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, que valoriza uma base alimentar formada por alimentos in natura e minimamente processados, culturalmente adequada, saborosa e com potencial de produzir saúde19.
A semelhança das respostas entre participantes de diferentes faixas etárias sugere que esses pratos identitários vêm sendo preservados ao longo do tempo, permitindo que a geração atual de jovens consuma preparações que fazem parte da história da comunidade há décadas. Pratos identitários são entendidos como alimentos que estão intimamente ligados às tradições culturais de um povo. Essas tradições se conectam com o território em que a comunidade vive e ajudam a manterem vivas até a atualidade seus modos de vida, suas relações sociais e suas fontes de renda. Eles estão ligados à identidade cultural de um grupo e os saberes relacionados às formas de preparo de tais pratos são transmitidos ao longo de gerações20.
O reconhecimento, o consumo e a valorização desses pratos pelos jovens representam uma esperança de continuidade de saberes e sabores que envolvem receitas, modos de preparo e estilos de vida locais. Entretanto, nenhuma fala dos entrevistados do grupo A mencionou a prática da culinária tradicional. No Brasil, observa-se que a transmissão de habilidades culinárias entre gerações vem se enfraquecendo, reduzindo a confiança e a autonomia dos jovens no preparo dos alimentos19. Como essas receitas vivem majoritariamente na memória e são transmitidas oralmente, o domínio das técnicas culinárias pelos mais jovens é essencial para preservar as preparações típicas da comunidade. Além disso, o vínculo com a culinária local fortalece o sentimento de pertencimento, os laços intergeracionais e o afeto, já que cozinhar mantém viva a memória dos antepassados, de diferentes culturas e etnias, compartilhada dentro das famílias21.
Forma de produção dos alimentos
A agricultura de subsistência é uma prática enraizada na história da comunidade da Bocaina. O conhecimento ancestral, fundamentado na prática cotidiana e na observação da natureza, orienta o que, quando e como plantar. Os moradores organizam o plantio das roças de acordo com sinais da natureza, o conhecimento do clima e a lógica da rotação de culturas, aproveitando os recursos naturais disponíveis. Também possuem uma maneira própria de entender e dividir as estações do ano, determinada pelas épocas e as características dos períodos de chuva. O inverno refere-se aos períodos que contemplam dias seguidos de chuvas intensas, enquanto o verão corresponde aos períodos de estiagem. Quanto aos tipos de chuvas, também são observadas distinções: as “chuvas das águas” contemplam os meses finais do ano, são mais volumosas e enchem os rios e reservatórios; já as “chuvas das neblinas” são precipitações mais amenas e geralmente acontecem nos primeiros meses do ano.
Nos tempos passados sempre chovia, tinha a chuva das águas e as chuvas das neblinas, então era dois invernos, de seis em seis meses tinha sempre esse inverno, as águas no fim do ano e as neblinas no começo do ano, quando faltava uma, a outra era certa. (C5)
A fase da lua também é um detalhe importante para planejar a plantação conforme o objetivo do agricultor: se deseja menor produção com frutos robustos, planta-se na lua cheia; para o oposto, opta-se pela lua nova. Se a florada do canjoão durar vários dias, é sinal de boa colheita; caso contrário, é melhor não arriscar as sementes. Já formigas apressadas em fila indicam a chegada das chuvas.
Saberes tradicionais que orientam as formas de plantar, indicando as melhores épocas de cultivo e maneiras de praticar a agricultura sem agredir a natureza, são conhecimentos presentes na cultura quilombola. Nego Bispo4 destaca que a forma de praticar a agricultura apresenta particularidades dentro das comunidades quilombolas. Os conhecimentos ancestrais orientam a escolha das sementes, ensinam a analisar os solos, a planejar o cultivo de acordo com os ciclos das plantações e a desenvolver estratégias que dispensam o uso de agrotóxicos e outras substâncias químicas. Segundo o autor, “a terra dá e a terra quer”, sendo necessária uma relação de compartilhamento com a natureza, em que os seres se ajudam e se beneficiam mutuamente.
Algumas práticas e hábitos tradicionais relacionados à produção dos alimentos têm sido preservadas pelos agricultores da Bocaina. O trabalho braçal, o uso de algumas técnicas manuais de trabalho e a adubação com compostagem e esterco, por exemplo, ainda são mais valorizadas pelos moradores quando comparadas à utilização de ferramentas automatizadas, maquinários e fertilizantes químicos. Os trabalhadores também buscam manter as mesmas épocas de plantio para cada variedade de alimento, considerando épocas de chuva e estiagem; e a previsão das colheitas.
[...] para nós aqui o que eu vejo que ainda me mantém, no meu caso, é você plantar de forma orgânica, não usar adubo químico, não usar defensivos químicos, ainda plantar de enxada, fazer a capinagem de enxada, isso aí ainda mantém. (B3)
O que eu vejo que continua sendo igual na pouca produção que ainda tem é a questão da mão de obra ser mais braçal, não tem tanto o uso de maquinário ainda, acho que isso é um dos poucos que ainda continua. (A3)
[...] sempre tem aquela época de plantar, aquela época de colher, para poder ser o tempo certo da chuva e o tempo certo de conseguir durar o ano todo, né, às vezes por conta da chuva não vir no tempo certo tem que mudar a época, mas sempre segue aquele modelo do tempo específico de plantação. (A1)
Nego Bispo4 ensina que a manutenção dessas práticas tradicionais de agricultura constitui uma forma de resistência contracolonial. Processos colonialistas tentam sobrepor seus conhecimentos aos saberes tradicionais, ditando o que se deve plantar, como e onde, desconsiderando toda a lógica de trabalho desenvolvida e transmitida por gerações. Transformam as roças de quilombo em agroecologia, enquanto sementes, folhas, talos e raízes tradicionalmente cultivados e consumidos passam a ser nomeados como “alimentos não convencionais”. Tais atos caracterizam mais uma estratégia de subjugação, marcada pela apropriação de conhecimentos tradicionais e tentativa de apresentá-los como algo dissociado de sua origem.
A agricultura de subsistência na comunidade assume papel relevante ao favorecer a soberania alimentar e a segurança alimentar e nutricional dos agricultores da Bocaina, garantindo alimentos saudáveis, culturalmente adequados e associados à realidade local. Historicamente, também se destaca por desempenhar um papel importante como fonte de geração de renda para as famílias. À medida que se torna mais difícil praticar a agricultura, essas pessoas podem ficar mais suscetíveis à insegurança alimentar e vulneráveis economicamente, sendo forçadas a buscar outras formas de sustento, muitas vezes fora de seu território, favorecendo o êxodo rural.
[...] pra muitas pessoas ocorre da roça ser a maior forma de alimento, então quando isso acaba parando com o tempo, essas pessoas vão ter que recorrer a outros meios. [...] Tem muita gente que vive da venda na feira desses alimentos, então quanto mais isso vai se modificando com o tempo, essas pessoas acabam sofrendo por ter que se modificar para outro lugar para conseguir outro meio de alimentação ou de trabalho. (A2)
Ao estudar os conhecimentos tradicionais em comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, em São Paulo, Américo et al.22 identificaram que, para aquelas comunidades, as roças de subsistência também se configuram como as principais fontes de alimentação e trabalho. De modo semelhante, a prática da agricultura contempla conhecimentos acerca da correção do solo, da rotação de culturas e da época de plantio, entre outras especificidades. Por constituir a base da produção da vida nas comunidades quilombolas, ela garante a segurança alimentar, o trabalho, a renda e a fixação das famílias no território, sendo de extrema importância para a manutenção da cultura, da historicidade e da etnicidade.
Escrevivência, memória e cultura alimentar
Evaristo11 declara que, na escrevivência, ao escrever a si próprio, o gesto se amplia sem sair de si, colhe vidas e histórias do entorno. Isso foi vivenciado pela autora Vivian Carla Honorato dos Santos de Carvalho ao contemplar, nas narrativas dos moradores do quilombo, a cultura alimentar que atravessava seu viver, sua cozinha e suas memórias em uma casa simples do interior da Bahia. Esse encontro aproxima saberes ancestrais que atravessam as cozinhas negras, nas quais se vivenciam práticas como os quintais com produção de alimentos e ervas medicinais; o uso de ervas para tratamento de doenças; e o compartilhamento de receitas e alimentos por meio de trocas e doações entre vizinhos e familiares. Além disso, há também no uso da mandioca, cozida ou como farinha seca; na receita cotidiana do feijão e arroz; e no uso de temperos naturais, picados e amassados nos pequenos pilões memórias que conectam e mostram que a cultura africana e afrodiaspórica está presente no cotidiano alimentar da população negra brasileira23.
Rute Costa24 destaca que:
As memórias amefricanas são elaboradas no fazer da cura, das escolhas e combinações das ervas, na feitura da comida, na organização e trânsito pelos quintais e matas, no cuidado com a saúde, na produção de tecnologias sociais, na gira, na sedução do rodar a saia. Não existe uma memória ou ancestralidade negra em abstrato. Os modos culturais da população negra passam pelo corpo e não estão restritos à razão24.
Que a potência da culinária quilombola seja continuamente reverenciada e que os olhares sejam sensíveis à identificação e valorização do diálogo respeitoso que essa cultura estabelece com a natureza e de sua capacidade de promover saúde em seus territórios.
Considerações finais
Com base nos resultados apresentados neste estudo, verificou-se que, para os quilombolas da Bocaina, a alimentação é relacionada à saúde e que as práticas de atenção à saúde desenvolvidas com alimentos e os saberes tradicionais nelas envolvidos configuram-se como uma das formas mais antigas e acessíveis de cuidado dentro da comunidade.
Os significados atribuídos à alimentação coincidem e se complementam entre as gerações, sendo que pratos tradicionais vêm sendo preservados no cotidiano alimentar. Entretanto, não foram observados relatos que sugerissem que os jovens estejam inseridos na culinária local ou que dominem as técnicas e os saberes associados às preparações, apontando possíveis fragilidades na continuidade desses conhecimentos.
Observou-se ainda que a cultura de subsistência, bem como os modos tradicionais de cultivo, resiste à mecanização do trabalho e à subjugação promovida por discursos hegemônicos de modernização.
Evidencia-se que a comunidade quilombola da Bocaina e seus moradores atuam, na prática, em favor da contracolonialidade, resistindo e insistindo nos seus modos de viver, pensar, existir e reconhecer a potencialidade do seu território, dos seus costumes e dos seus saberes. São contracoloniais, sem precisarem nomear esse termo, mas fazendo-o valer nas ações de quem não troca seu godó de banana e o feijão com arroz por alimentos ultraprocessados, ou de quem reconhece que nenhum agrotóxico ou fertilizante químico possui a mesma qualidade da adubação orgânica.
À luz da escrevivência, entende-se que a manutenção das tradições da cultura alimentar e das formas de produção dos alimentos na comunidade relaciona-se diretamente ao sentimento de pertencimento ao território, historicamente construído e amparado pela transmissão intergeracional de saberes; ao reconhecimento e à valorização dos saberes locais, fortalecidos pela organização coletiva e defesa do território; e ao trabalho comunitário, materializado nas roças, nos quintais produtivos, nas casas de farinha, nas cozinhas e nas relações de cuidado e reciprocidade entre os moradores. Ao mesmo tempo, conflitos socioambientais e fragilidades na transmissão desses conhecimentos para os mais jovensa indicam que essa manutenção ocorre em meio a tensões e riscos.
Este modelo de estudo que considerou a participação direta dos remanescentes quilombolas por meio de seus relatos e autopercepções, entendendo a riqueza de possibilidades presente na oralidade, contribui para a valorização dos saberes tradicionais das comunidades quilombolas, fornecendo subsídios importantes para a formulação de políticas públicas mais sensíveis às especificidades culturais e sociais desses grupos. A metodologia da escrevivência, aplicada neste estudo, foi fundamental para atender ao propósito de dar visibilidade e escuta aos saberes ancestrais, frequentemente negligenciados na sociedade ocidental. Além disso, os resultados ressaltam a importância de estratégias que promovam, a partir do respeito às práticas locais, a preservação da identidade cultural. Espera-se que esta pesquisa fomente discussões e ações em prol da qualidade de vida das comunidades quilombolas e estimule futuros estudos acerca da relação entre alimentação e cultura, principalmente em contextos de comunidades tradicionais, nos quais esses tópicos possuem significados particulares.
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Agradecimentos
À comunidade quilombola da Bocaina e a todos os moradores que gentilmente compartilharam seus saberes, experiências e histórias, tornando este estudo possível. Ao conselho organizativo da Rede Ajeum – rede de nutricionistas e estudantes de nutrição negros e negras –, por apoiarem na construção metodológica deste trabalho.
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Silva EL, Carvalho VCHS. Comida e resistência: a cultura alimentar em uma comunidade quilombola. Interface (Botucatu). 2026; 30: e260338 https://doi.org/10.1590/interface.260338
Disponibilidade de dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação.
Referências
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Editado por
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Editora
Denise Martin Coviello https://orcid.org/0000-0002-6894-2702
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Editora associada
Micheli Dantas Soares https://orcid.org/0000-0002-0733-5319
