Revisão do gênero Satipoella (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae)

Revision of the genus Satipoella (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae)

Carlos Eduardo de Alvarenga Julio Sobre o autor

Resumo

The genus Satipoella Lane, 1964 is revised and a new synonym is proposed, Icarai Galileo & Martins, 1998, with Satipoella. A new species, S. ochroma, is described from Amazonas, Brazil. New combination: Satipoella bufo (Thomson, 1864) from Icarai. The three species of Satipoella are illustrated and keyed.

Cerambycidae; Anisocerini; Satipoella; Neotropical; taxonomy


Cerambycidae; Anisocerini; Satipoella; Neotropical; taxonomy

Revisão do gênero Satipoella (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae)

Revision of the genus Satipoella (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae)

Carlos Eduardo de Alvarenga JulioI,II

IDepartamento de Entomologia, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio Janeiro, Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, 20940-040, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. (ceajulio@ig.com.br)

IIDoutorando em Ciências Biológicas, Área Zoologia, Instituto de Biociências, UNESP, Botucatu, SP.

ABSTRACT

The genus Satipoella Lane, 1964 is revised and a new synonym is proposed, Icarai Galileo & Martins, 1998, with Satipoella. A new species, S. ochroma, is described from Amazonas, Brazil. New combination: Satipoella bufo (Thomson, 1864) from Icarai. The three species of Satipoella are illustrated and keyed.

Keywords: Cerambycidae, Anisocerini, Satipoella, Neotropical, taxonomy.

INTRODUÇÃO

LANE (1964) estabeleceu o gênero Satipoella para S. heilipoides, proveniente do Peru, comentando que "considerando o processo mesosternal vertical na frente e o quarto artículo das antenas lamelado, Satipoella sairia nas chaves de Lacordaire perto de Xylotribus Serville" e diferenciando deste "pelo pequeno alargamento nas genas da , pelo terceiro artículo das antenas apenas nodoso no ápice, não lamelado, e pelas tíbias anteriores curvas na linha dorsal, além de outros caracteres".

O estudo do material depositado nas coleções do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro (MNRJ) e Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo (MZSP) permitiu propor a sinonímia entre Satipoella e Icarai Galileo & Martins, 1998, gênero estabelecido para Acanthotritus bufo Thomson, 1868. Uma nova espécie do Brasil (Amazonas) é descrita. Chave e ilustrações das três espécies que passam a representar o gênero são incluídas.

Satipoella Lane, 1964

Satipoella LANE, 1964:195; MONNÉ, 1994:7 (cat.). Espécie-tipo, Satipoella heilipoides Lane, 1964 (monotipia e designação original).

Icarai GALILEO & MARTINS, 1998:24. Espécie-tipo, Acanthotritus bufo Thomson, 1868 (monotipia e designação original).Syn. nov.

Fronte plana, com lados divergentes para a região inferior e borda inferior reta nas e bissinuosa com pequeno entalhe central nos . Tubérculos anteníferos separados, não projetados nas e pouco nos . Lobos oculares superiores tão distantes entre si quanto o dobro da largura de um lobo. Antenas, nas , mais curtas que o corpo e nos ultrapassam o ápice elitral com pelo menos dois antenômeros; escapo fortemente clavado e afilado na base, tão longo quanto o antenômero III, este intumescido ou não no lado interno do ápice e IV com intumescimento mais ou menos desenvolvido; antenômeros V-X, nas , gradualmente decrescentes em comprimento e XI com metade do comprimento do X e afilado no ápice; nos , V-X subiguais em comprimento e XI mais longo que o precedente e curvo na metade distal.

Protórax mais largo que longo, com espinhos laterais pós-medianos discretos; pronoto com pequena elevação longitudinal e estrias transversais centro-basais e dois tubérculos látero-anteriores pouco manifestos. Processo mesosternal bituberculado. Élitros planos no dorso; úmeros granulados; disco com gibosidade centro-basal pouco elevada, provida de grânulos e quarto apical com elevação discreta; ápices arredondados. Protíbias dilatadas externamente para o ápice; protarsos franjados nos .

Urosternitos I-IV com pequena mancha de pubescência circular lateral; V não intumescido nas fêmeas.

Comentários. A fronte com os lados divergentes para a região inferior; os tubérculos anteníferos distantes entre si e não projetados nas fêmeas; as antenas das fêmeas mais curtas que o corpo; o escapo clavado e, aproximadamente, tão longo quanto o antenômero III; os espinhos laterais do protórax discretos; as elevações pronotais pouco manifestas; o processo mesosternal bituberculado; os élitros planos no dorso, com gibosidade centro-basal pouco elevada e provida de grânulos; as protíbias aplanadas e dilatadas no lado externo; e o urosternito V não intumescido nas fêmeas, permitem propor a sinonímia entre Icarai e Satipoella.

Satipoella assemelha-se a Acanthotritus, proposto por WHITE (1855), pela fronte com lados divergentes para a região inferior; pelos tubérculos anteníferos separados entre si; pelo escapo clavado; pelo antenômero IV intumescido no lado interno do ápice; pelo quarto apical dos élitros com elevação e pelas protíbias dilatadas externamente para o ápice. Distingue-se pelas antenas mais curtas das fêmeas, que não atingem o ápice elitral; pelo escapo mais delgado na base; pelo antenômero III com ou sem intumescimento no lado interno do ápice; pelos tubérculos e espinhos laterais no pronoto e protórax discretos; pelo processo mesosternal bituberculado e pela ausência de gibosidade centro-basal desenvolvida nos élitros. Em Acanthotritus: as antenas das atingem o ápice elitral; escapo mais robusto na base; antenômero III com espinho protuberante no lado interno do ápice; tubérculos pronotais e espinhos laterais do protórax desenvolvidos; processo mesosternal sem tubérculos e élitros com gibosidade centro-basal elevada.

Assemelha-se a Caciomorpha Thomson, 1864 pelos tubérculos pronotais e espinhos laterais do protórax discretos; pelos élitros aplanados no dorso e ausência de gibosidade centro-basal desenvolvida. Distingue-se pelos tubérculos anteníferos afastados entre si; pelo escapo clavado e afilado na base; pelo antenômero III com ou sem intumescimento e o IV intumescido no lado interno do ápice; pelo processo mesosternal bituberculado; pelo quarto apical dos élitros com elevação e pelas protíbias dilatadas externamente para o ápice. Em Caciomorpha: tubérculos anteníferos próximos entre si; escapo robusto e piriforme; antenômero III com intumescimento manifesto no lado interno do ápice e IV não-intumescido; processo mesosternal desarmado; quarto apical dos élitros liso; tíbias retas.

Chave para as espécies de Satipoella.

1. Pubescência branco-amarelada distribuída pelo corpo e no terço apical dos élitros, em máculas; escapo delgado na metade basal; antenômero III com forte intumescimento no lado interno do ápice; protíbias bruscamente dilatadas para o lado externo na metade apical. Guiana Francesa (Rio Mana) e Brasil (Amazonas) (fig.2) ......................................................................................... . S. bufo (Thomson, 1868)

Pubescência ocre ou branca distribuída pelo corpo e no terço apical dos élitros com desenho de contornos irregulares; escapo mais robusto na base; antenômero III sem modificação, apenas um pouco espessado no ápice; protíbias gradualmente dilatadas a partir do terço basal .................................................................................... 2

2. Pubescência branca distribuída pelo corpo; antenas nos ultrapassam o ápice elitral por apenas dois antenômeros e nas fêmeas atingem o meio dos élitros; espinhos laterais do protórax pouco manifestos; protíbias com dilatação pronunciada. Peru (Junin) (fig.1).......................................................................... S. heilipoides Lane, 1964

Pubescência ocre distribuída pelo corpo; antenas nos machos ultrapassam o ápice elitral a partir do antenômero VI e nas fêmeas alcançam o quarto apical dos élitros; espinhos laterais do protórax discretos; protíbias discretamente aplanadas e dilatadas. Brasil (Amazonas) (fig.3)................................................ S. ochroma sp. nov.



Satipoella heilipoides Lane, 1964

(Fig. 1)

Satipoella heilipoides LANE, 1964:197; MONNÉ, 1994:7 (cat.).

. Tegumento negro. Pubescência branca compacta reveste: parte posterior dos lobos oculares superiores; os lados do pronoto em duas faixas largas; os lados dos dois terços basais dos élitros, em uma área curva de contornos irregulares, inicia entre o escutelo e o úmero estende-se entre este e a gibosidade centro-basal, até os lados do disco e curva-se em direção à sutura sem alcançá-la; e todo o terço apical dos élitros com desenho de contornos irregulares (fig. 1).

Fronte com pequena depressão entre os lobos oculares inferiores e duas máculas de pubescência ocre próximas à borda inferior, de cada lado da sutura frontal; genas salpicadas de máculas de pubescência ocre. Antenas ultrapassam o ápice elitral por apenas dois antenômeros; escapo robusto, bastante clavado; antenômero III apenas espessado no ápice, com pubescência branca nos 2/3 basais; antenômeros IV–XI com pubescência branca na metade basal; IV com intumescimento desenvolvido no ápice; XI mais longo que o precedente e curvo na metade apical.

Protórax subplano, espinhos laterais e tubérculos pronotais látero-anteriores pouco manifestos; região centro-basal do pronoto com estrias transversais. Élitros com gibosidades centro-basais pouco elevadas, granuladas; quarto apical com elevação discreta. Protíbias aplanadas e dilatadas gradualmente a partir do terço basal.

Urosternitos I-IV com pequena mancha circular lateral de pubescência ocre.

. Fronte plana entre os lobos oculares inferiores; antenas atingem o meio dos élitros; escapo mais esbelto com a clava menos robusta. Pronoto com elevação longitudinal centro-basal discreta.

Dimensões (mm), respectivamente e . Comprimento total 13,3 e 16,0-16,2; protórax, comprimento 2,4 e 3,0-3,2, maior largura 4,5 e 5,4-5,6; comprimento do élitro 9,4 e 11,0-11,3; largura umeral 6,4 e 8,1-8,4.

Material examinado. PERU, Junin: Satipo, Holótipo , III.1941, A. Maller col. (MZSP); alótipo e parátipo , mesma localidade do holótipo, IX.1941 (MNRJ).

Satipoella bufo (Thomson, 1868) comb. nov.

(Fig. 2)

Acanthotritus bufo THOMSON, 1868:149; 1878:15 (tipo).

Phacellocera bufo; GEMMINGER & HAROLD, 1873:3136 (cat.); MONNÉ, 1994:2 (cat.); TAVAKILIAN in HEQUET, 1996: est.16, fig.2.

Icarai bufo; GALILEO & MARTINS, 1998:24, figs. 9, 19.

. Tegumento negro; pubescência compacta branco-amarelada com distribuição similar à da espécie anterior, difere pelo terço apical dos élitros, salpicado de máculas branco-amareladas (fig 2).

Antenas, mais curtas que o corpo, atingem o quarto apical dos élitros; escapo delgado na metade basal; antenômeros III e IV com intumescimento no lado interno do ápice.

Espinhos laterais do protórax discretos; pronoto com tubérculos látero-anteriores e elevação centro-basal pouco manifestos. Élitros com gibosidade centro-basal um pouco elevada; quarto apical com elevação manifesta.

Protíbias bruscamente dilatadas para o lado externo na metade basal.

Urosternitos I-IV com mancha circular lateral de pubescência branco-amarelada.

Dimensões (mm). Comprimento total, 13,1; protórax, comprimento 3,0, maior largura, 5,1; comprimento do élitro 9,3; largura umeral 6,6.

Material examinado. GUIANA FRANCESA, Rio Mana, , V.1917 (MZSP).

Satipoella ochroma sp. nov.

(Fig. 3)

Etimologia. Grego, ochros = ocre, amarelo-pálido. Alusivo à coloração da pubescência que reveste parte da superfície corporal.

. Tegumento castanho-avermelhado. Pubescência compacta de coloração ocre distribui-se por trás dos lobos oculares superiores, forma duas faixas largas nos lados do pronoto, nos lados dos 2/3 basais dos élitros em uma área curva, inicia entre o escutelo e o úmero, segue ao lado da gibosidade centro-basal, toca os lados do disco e curva-se em direção à sutura sem alcançá-la, e em quase toda a área distal dos élitros forma uma grande mancha de contorno irregular. Toda essa pubescência é margeada por pontos de pubescência branca. Fronte e gena salpicados de máculas de pubescência ocre (fig. 3).

Fronte plana entre os lobos oculares inferiores; tubérculos anteníferos pouco projetados. Antenas, longas, ultrapassam o ápice elitral a partir do antenômero VI; escapo robusto, clavado; antenômero III apenas pouco mais longo que o escapo e subigual em comprimento ao IV, espessado no ápice; IV com pequena intumescência no lado interno do ápice; antenômeros V-X subiguais em comprimento; XI mais longo que o precedente e curvo na metade apical.

Protórax com espinhos laterais discretos; pronoto com tubérculos látero-anteriores pouco manifestos e região centro-basal com estrias transversais. Élitros subplanos, gibosidades centro-basais e elevação no quarto apical pouco manifestas; área das gibosidades granulada. Protíbias discreta e gradualmente aplanadas e dilatadas a partir do terço basal.

. Tubérculos anteníferos não projetados; antenas atingem o quarto apical dos élitros; escapo esbelto; região centro-basal do pronoto com elevação pouco manifesta.

Dimensões (mm), respectivamente e . Comprimento total: 13,0-14,5 e 12,5-14,6; protórax, comprimento 2,7-3,1 e 2,5-3,1, maior largura 4,7-5,1 e 4,3-5,2; comprimento do élitro 8,9-9,5 e 8,2-9,7; largura umeral 5,9-6,4 e 5,6-6,5.

Material-tipo. Holótipo , BRASIL, Amazonas: Tabatinga, III.1978, L.G. Pereira col. (MNRJ). Parátipos: e , mesmos dados do holótipo; 2 , mesma procedência do holótipo, X.1977, B. Silva col.; e , IX.1977, e , XII.1977 e , IV.1978, mesma procedência e coletor do holótipo. Todos depositados no MNRJ.

Comentários. Satipoella ochroma assemelha-se a S. heilipoides pelo padrão de distribuição da pubescência pelo corpo; pelo aspecto do antenômero III, apenas um pouco espessado no ápice e do IV intumescido no lado interno do ápice; pela gibosidade centro-basal dos élitros discreta e pelas protíbias dilatadas gradualmente a partir do terço basal. Distingue-se pela coloração ocre da pubescência corporal; pelo comprimento das antenas nos , que ultrapassam o ápice elitral a partir do antenômero VI e nas , que alcançam o quarto apical dos élitros; pelos espinhos laterais do protórax discretos e pelas protíbias discretamente aplanadas e dilatadas. Em S. heilipoides: pubescência corporal branca; as antenas, nos , ultrapassam o ápice elitral por apenas dois antenômeros e nas atingem o meio dos élitros; protórax subplano, espinhos laterais pouco manifestos; protíbias com dilatação pronunciada.

Agradecimentos. Ao Dr. Miguel A. Monné (MNRJ) pelas sugestões e revisão do manuscrito; ao Dr. Ubirajara R. Martins (MZSP) pelo empréstimo de material; a Sérgio Barbosa Gonçalves pela execução das fotografias e à FAPESP (Proc. no 98/10692-5) pela bolsa de Doutorado concedida.

Recebido em 15.04.2002

aceito em 12.12.2002

  • GALILEO, M. H. M. & MARTINS, U. R. 1998. Divisão do gênero Phacellocera (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae, Anisocerini). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, (85):11-25.
  • GEMMINGER, M. & HAROLD, E. 1873. Catalogus Coleopterorum hucusque descriptorum synonimicus et systematicus Monachii, Gummi, v.10, p.2989-3232.
  • LANE, F. 1964. Novos gêneros e espécies de Anisocerini (Coleoptera, Lamiidae). Studia Ent., Petrópolis, 7:179-200.
  • MONNÉ, M. A. 1994. Catalogue of the Cerambycidae (Coleoptera) of the Western Hemisphere. Part XVII São Paulo, Sociedade Brasileira de Entomologia. 110p.
  • TAVAKILIAN, G. In: Hequet, V. 1996. Longicornes de Guyane Cayenne, Silvolab. 36p. 19est.
  • THOMSON, J. 1868. Matériaux pour servir a une révision des lamites (Cérambycides, Coléoptères). Physis rec. Hist. nat., Paris, 2(6):146-200.
  • __. 1878. Typi cerambycidarum Musei Thomsoniani Paris, E. Deyrolle. 21p.
  • WHITE, A. 1855. Catalogue of the coleopterous insects in the collection of the British Museum Longicornia 2. London, 8:175-412, est.5-10.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2003
  • Data do Fascículo
    Jun 2003

Histórico

  • Aceito
    12 Dez 2002
  • Recebido
    15 Abr 2002
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