Prevalência e fatores associados à doença renal crônica em pacientes internados em um hospital universitário na cidade de São Paulo, SP, Brasil

Natalia Alencar de Pinho Giovänio Vieira da Silva Angela Maria Geraldo Pierin Sobre os autores

Resumos

Introdução:

A doença renal crônica (DRC) constitui importante problema de saúde pública mundial. Contudo, dados sobre prevalência e comorbidades são escassos no Brasil.

Objetivo:

Identificar a prevalência e fatores associados à DRC em pacientes internados em um hospital universitário.

Métodos:

Foram selecionados, aleatoriamente, 826 prontuários de pacientes internados em clínica médica. A DRC foi baseada no diagnóstico médico descrito no prontuário. Foram coletadas informações clínico-demográficas e feitas comparações entre pacientes com e sem DRC.

Resultados:

A prevalência de DRC foi 12,7%. Os pacientes com DRC se distinguiram daqueles sem a doença (p < 0,05) por terem companheiro (59,8% vs. 47,3%); idade mais elevada (65,8 ± 15,6 vs. 55,3 ± 18,9 anos); mais comorbidades como hipertensão arterial (75,2% vs. 46,3%), diabetes (49,5% vs. 22,4%), dislipidemia (23,8% vs. 14,9%), infarto do miocárdio (14,3% vs. 6,0%) e insuficiência cardíaca congestiva (18,1% vs. 4,3%); maior período de internação (11 (8-18) vs. 9 (6-12) dias) e; mais óbitos (12,4% vs. 1,4%). A análise de regressão logística indicou associação independente (OR, odds ratio; IC, intervalo de confiança de 95%) da DRC com idade (OR 1,019, IC 1,003-1,036), hipertensão arterial (OR 2,032, IC 1,128-3,660), diabetes (OR 2,097, IC 1,232-3,570) e insuficiência cardíaca congestiva (OR 2,665, IC 1,173-6,056).

Conclusão:

A prevalência de DRC em pacientes internados em clínica médica foi alta, sendo estes pacientes clinicamente mais complexos, visto apresentarem idade mais elevada e maior número de comorbidades, refletindo em maior risco de óbito durante internação hospitalar.

fatores de risco; hipertensão; insuficiência renal crônica


Introduction:

Chronic kidney disease (CKD) is a major public health problem worldwide. Nonetheless, little is known about its features in Brazil.

Objective:

To identify prevalence and factors associated with CKD among hospitalized patients in a university hospital.

Methods:

We randomly selected 826 medical records of patients admitted in 2009 in the medical inpatient unit. We defined CKD as the presence of medical diagnosis or personal history. We collected a number of clinical and demographic information and these variables were compared between patients with and without CKD.

Results:

CKD prevalence was 12.7%. Patients with CKD differed from patients without (p < 0.05) regarding to: living with a partner (59.8% vs. 47.3%), older age (65.8 ± 15.6 vs. 55.3 ± 18.9 years-old), more comorbidities as hypertension (75.2% vs. 46.3%), diabetes (49.5% vs. 22.4%), dyslipidemia (23.8% vs. 14.9%), acute myocardial infarction (14.3% vs. 6.0%) and congestive heart failure (18.1% vs. 4.3%); length of hospitalization (11 (8-18) vs. 9 (6-12) days); and death occurrence (12.4% vs. 1.4%). The logistic regression analysis showed an independent association (OR, odds ratio, CI, confidence interval 95%) of CKD with age (OR 1.019, CI 1.003 to 1.036), hypertension (OR 2.032, CI 1.128 to 3.660), diabetes (OR 2.097, CI 1.232 to 3.570) and congestive heart failure (OR 2.665, CI 1.173 to 6.056).

Conclusion:

CKD prevalence among patients in a medical inpatient unit was high and CKD patients were more complex, as they were older and had a great number of co-morbidities, reflecting a greater risk of death during hospitalization.

hypertension; kidney failure, chronic; risk factors


Introdução

A doença renal crônica (DRC) assumiu, nos últimos anos, o status de problema de saúde pública devido à elevação de sua prevalência entre a população mundial e ao seu impacto na morbimortalidade dos indivíduos acometidos. Resultado, sobretudo, da crescente epidemia dos fatores de risco cardiovasculares, a doença renal crônica implica em hospitalizações frequentes e em elevado custo socioeconômico.1Lessa I. Doenças crônicas não-transmissíveis no Brasil: um desafio para a complexa tarefa da vigilância. Ciênc Saude Colet 2004;9:931-43. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232004000400014
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Bastos MG, Carmo WB, Abrita RR, Almeida EC, Mafra D, Costa DMN, et al. Doença renal crônica: problemas e soluções. J Bras Nefrol 2004;26:202-15.

Bastos MG, Bregman R, Kirsztajn GM. Doença renal crônica: frequente e grave, mas também prevenível e tratável. Rev Assoc Med Bras 2010;56:248-53. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302010000200028
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-4Jaar BG, Khatib R, Plantinga L, Boulware LE, Powe NR. Principles of screening for chronic kidney disease. Clin J Am Soc Nephrol 2008;3:601-9. DOI: http://dx.doi.org/10.2215/CJN.02540607
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Em 2011, existiam 91.314 indivíduos em tratamento dialítico no Brasil, o correspondente à prevalência de 475 pmp.5Sesso Rde C, Lopes AA, Thomé FS, Lugon JR, Watanabe Y, Santos DR. Chronic dialysis in Brazil: report of the Brazilian dialysis census, 2011. J Bras Nefrol 2012;34:272-7. DOI: http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20120009
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Observa-se, portanto, um número de pacientes em terapia renal substitutiva muito inferior ao de países desenvolvidos.6United States Renal Data System. 2012 Annual Data Report. Atlas of Chronic Kidney Disease & End-Stage Renal Disease in the United States. Précis: An introduction to end-stage renal disease in the U.S. Am J Kidney Dis 2013;61:e165-e92.

Jacquelinet C, Lange C, Briançon S; registre REIN. The prevalence of ESRD in 2011. Nephrol Ther 2013;9:S39-64. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S1769-7255(13)70039-7
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-8Akizawa T. Current satus of dialysistherapy and related clinical guidelines in Japan. JMAJ 2010;53:185-7. Uma explicação para tal discrepância pode ser a baixa participação dos centros de diálise no censo, porém, a hipótese mais alarmante repousa sobre o precário acesso aos serviços de saúde: acredita-se que 50 a 70% dos brasileiros que têm doença renal crônica terminal morrem sem usufruir de qualquer modalidade de tratamento.2Bastos MG, Carmo WB, Abrita RR, Almeida EC, Mafra D, Costa DMN, et al. Doença renal crônica: problemas e soluções. J Bras Nefrol 2004;26:202-15.,9Salgado Filho N, Brito DJA. Doença renal crônica: a grande epidemia deste milênio. J Bras Nefrol 2006;28:1-5.

Os dados sobre morbimortalidade de doentes renais crônicos no Brasil são ainda muito restritos à população em diálise. De fato, a falência renal tratada com diálise ou transplante é o desfecho da doença renal crônica com maior visibilidade. Entretanto, as doenças cardiovasculares estão frequentemente associadas à doença renal crônica, o que é de grande relevância quando se assume que os doentes renais crônicos são mais propensos a morrer de doença cardiovascular que a evoluir para a falência renal.1010 Sarnak MJ, Levey AS, Schoolwerth AC, Coresh J, Culleton B, Hamm LL, et al.; American Heart Association Councils on Kidney in Cardiovascular Disease, High Blood Pressure Research, Clinical Cardiology, and Epidemiology and Prevention. Kidney disease as a risk factor for development of cardiovascular disease: a statement from the American Heart Association Councils on Kidney in Cardiovascular Disease, High Blood Pressure Research, Clinical Cardiology, and Epidemiology and Prevention. Circulation 2003;108:2154-69. DOI: http://dx.doi.org/10.1161/01.CIR.0000095676.90936.80
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Desta forma, pouco se sabe sobre a prevalência, a morbidade e a mortalidade da doença renal crônica em estágios mais iniciais no Brasil.

Frente a esta problemática, se propôs, com o presente estudo, identificar a prevalência e os fatores associados à doença renal crônica em indivíduos que passaram por processo de hospitalização em um hospital universitário.

Método

Tratou-se de um estudo exploratório, transversal e de abordagem quantitativa conduzido entre dezembro de 2010 e junho de 2013.

A amostra foi constituída por pacientes adultos (idade ≥ 18 anos) admitidos na enfermaria de clínica médica geral de um hospital universitário na cidade de São Paulo, Brasil, durante o ano de 2009.

A coleta de dados foi realizada retrospectivamente a partir do prontuário de cada paciente e mediante instrumento elaborado para este fim. Foram coletadas informações sociodemográficas e antropométricas, antecedentes de saúde, hábitos de vida, diagnósticos médicos e desfechos da internação.

Foram excluídos da análise gestantes, pacientes com tempo de internação na enfermaria de clínica médica inferior a 24 horas, ausência de dosagem da creatinina sérica em pelo menos duas ocasiões durante o período de internação e pacientes que evoluíram durante a internação hospitalar com lesão renal aguda segundo os critérios de AKIN1111 Mehta RL, Kellum JA, Shah SV, Molitoris BA, Ronco C, Warnock DG, et al.; Acute Kidney Injury Network. Acute Kidney Injury Network: report of an initiative to improve outcomes in acute kidney injury. Crit Care 2007;11:R31. DOI: http://dx.doi.org/10.1186/cc5713
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(elevação da creatinina sérica igual ou superior a 0,3 mg/dL em pacientes sem o diagnóstico médico de DRC) ou diagnóstico médico de insuficiência renal aguda.

A DRC foi definida como a presença de diagnóstico médico de DRC relatado em ao menos uma ocasião no prontuário médico.

Análise estatística

O cálculo amostral considerou a estimativa da prevalência de DRC de 13%, conforme valor descrito por Coresh et al.1212 Coresh J, Selvin E, Stevens LA, Manzi J, Kusek JW, Eggers P, et al. Prevalence of chronic kidney disease in the United States. JAMA 2007;298:2038-47. PMID: 17986697 DOI: http://dx.doi.org/10.1001/jama.298.17.2038
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para amostra representativa da população norte-americana, variação de 5%, 5% de erro tipo I e 80% de poder do teste. Sob estes parâmetros, o tamanho da amostra representativa da população de pacientes internados na enfermaria de clínica médica seria de 386 indivíduos. O valor de prevalência de DRC sugerido para o cálculo amostral é superior àqueles descritos em estudos conduzidos em populações brasileiras.1313 Lessa I. Níveis séricos de creatinina: hipercreatinemia em segmento da população adulta de Salvador, Brasil. Rev Bras Epidemiol 2004;7:176-86. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2004000200007
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,1414 Passos VM, Barreto SM, Lima-Costa MF; Bambuí Health and Ageing Study (BHAS) Group. Detection of renal dysfunction based on serum creatinine levels in a Brazilian community: the Bambuí Health and Ageing Study. Braz J Med Biol Res 2003;36:393-401. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0100-879X2003000300015
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Entretanto, acreditou-se que a amostra do presente estudo apresentaria maior frequência de DRC por se tratar de uma população mais idosa e com comorbidades, ainda que o critério de DRC tenha sido baseado exclusivamente na presença de diagnóstico médico em prontuário. O sorteio dos prontuários a serem analisados foi realizado por meio de ferramenta de aleatorização disponível no programa Microsoft Excel.

A associação entre as variáveis classificatórias e o grupo com DRC foi avaliada com os testes Qui-quadrado, teste da razão de verossimilhança ou teste exato de Fisher. Para as variáveis quantitativas, foram utilizados o teste t-Student para comparação das médias de variáveis de distribuição normal ou o teste de Mann-Whitney para comparar as distribuições interquartílicas. As variáveis que apresentaram significância estatística na análise univariada e relatadas pela literatura como potencial fator de risco para doença renal crônica foram utilizadas no ajuste do modelo de regressão logística múltipla. Os valores de p < 0,05 foram considerados estatisticamente significantes.

Resultados

Segundo o registro de internações do hospital, 1.422 pacientes foram admitidos na enfermaria da clínica médica no período avaliado.

Após a adoção dos critérios de exclusão, foram identificados 105 indivíduos com DRC, perfazendo uma prevalência de 12,7% em relação aos 826 prontuários analisados (Figura 1). Dos pacientes com DRC, 27 (25,7%) apresentavam DRC estágio 5 com necessidade de tratamento dialítico. Ao final, 386 pacientes compuseram a amostra final, 105 com DRC e 281 sem DRC.

Figura 1
Fluxograma de constituição amostral.

Segundo as características biossociais apresentados na Tabela 1, os pacientes com DRC se distinguiram daqueles sem DRC por apresentar idade mais elevada e por possuir companheiro fixo (p < 0,05). Já os pacientes sem DRC se destacaram por apresentarem uma prevalência maior de tabagismo (p < 0,05).

Tabela 1
Características biossociais dos pacientes internados em enfermaria de clínica médica de acordo com A presença ou não de doença renal crônica. São Paulo, 2014

Com relação aos antecedentes de saúde, maioria expressiva (89,5%) e pouco mais da metade (55,2%) dos pacientes com e sem DRC, respectivamente, apresentavam pelo menos uma comorbidade. Dos 105 pacientes identificados como doentes renais crônicos, 53,3% já apresentavam antecedente pessoal da doença registrado em prontuário. Houve diferença significativa (p < 0,05) entre os grupos com e sem DRC quanto à presença de hipertensão arterial (75,2% vs. 46,3%), diabetes (49,5% vs. 22,4%) e insuficiência cardíaca congestiva (18,1% vs. 4,3%) - Figura 2.

Figura 2
Principais diagnósticos médicos dos pacientes internados em uma clínica médica, com e sem doença renal crônica. São Paulo, 2013.

Dois terços dos pacientes avaliados faziam acompanhamento prévio em serviço de saúde, fato mais frequente entre aqueles com DRC (87,8% vs. 58,0%, p < 0,001). Destaca-se que mais de 10% dos pacientes com DRC não faziam qualquer acompanhamento, ainda que 36,4% destes tivessem antecedente pessoal da doença.

Os pacientes com DRC tiveram (p < 0,05) maior tempo de internação em relação àqueles sem a doença, assim como maior proporção de óbitos (Tabela 2). Dos pacientes com diagnóstico de DRC estágio 5, 65,4% iniciaram terapia renal substitutiva durante a internação, sendo que 58,8% não tinham antecedente de DRC. Com exceção de um paciente que foi a óbito, estes pacientes foram encaminhados a clínicas de diálise após a alta hospitalar.

Tabela 2
Desfechos da hospitalização dos pacientes internados em uma clínica médica, com e sem doença renal crônica. São Paulo, 2014

O modelo de regressão logística múltipla (Tabela 3) incluiu as seguintes variáveis: estado civil, tabagismo, idade e antecedentes pessoais significativamente associados à DRC na análise univariada. Observou-se que, a cada ano adicional na idade, a chance de DRC foi de 1,9% maior. Ter hipertensão arterial ou diabetes elevou em cerca de duas vezes, e insuficiência cardíaca, 2,6 vezes, a chance de possuir DRC.

Tabela 3
Preditores de doença renal crônica em pacientes internados em uma clínica médica segundo análise multivariada. São Paulo, 2014

Discussão

O principal achado do presente estudo revelou que a DRC em pacientes internados em uma clínica médica se associou aos principais fatores de risco cardiovascular passíveis de intervenção: hipertensão arterial e diabetes. Tais fatores de risco, além da idade, são reconhecidos mundialmente pelo seu grande impacto no perfil de morbimortalidade.

Os indivíduos com DRC apresentaram idade mais elevada que aqueles sem DRC. Este dado é compatível com os diversos estudos que demonstraram a associação desta com a idade. A prevalência de DRC entre indivíduos com idade superior a 65 anos variou de 5,8 a 51% em diferentes estudos internacionais. Embora os valores sejam discrepantes, eles foram todos muito maiores que os das faixas etárias inferiores nos respectivos estudos, indicando aumento quase exponencial da prevalência de doença renal crônica com a idade.1515 Zhang QL, Rothenbacher D. Prevalence of chronic kidney disease in population-based studies: systematic review. BMC Public Health 2008;8:117. PMID: 18405348 DOI: http://dx.doi.org/10.1186/1471-2458-8-117
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,1616 Lamb EJ, O'Riordan SE, Delaney MP. Kidney function in older people: pathology, assessment and management. Clin Chim Acta 2003;334:25-40. PMID: 12867274 DOI: http://dx.doi.org/10.1016/S0009-8981(03)00246-8
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Enquanto a prevalência de hipertensão arterial em estudos brasileiros se mostrou em torno de 30%1717 Passos VMA, Assis TD, Barreto SM. Hipertensão arterial no Brasil: estimativa de prevalência a partir de estudos de base populacional. Epidemiol Serv Saúde 2006;15:35-45.,1818 Picon RV, Fuchs FD, Moreira LB, Riegel G, Fuchs SC. Trends in prevalence of hypertension in Brazil: a systematic review with meta-analysis. PLoS One 2012;7:e48255. DOI: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0048255
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na população geral, os pacientes com DRC identificados nesta amostragem se distinguiram por apresentar maior prevalência de hipertensão arterial (81,0% vs. 50,5%) em relação aos sem DRC.

Em realidade, a hipertensão arterial tem sido considerada uma afecção onipresente na DRC. Isto ocorre porque, além de constituir uma das causas mais importantes para a instalação e o desenvolvimento da doença, a hipertensão arterial é uma consequência da DRC.1919 Andersen MJ, Agarwal R. Etiology and management of hypertension in chronic kidney disease. Med Clin North Am 2005;89:525-47. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.mcna.2004.12.001
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Dados norte-americanos, provenientes do Kidney Early Evaluation Program (KEEP), identificaram prevalências crescentes de hipertensão arterial em uma população em risco de DRC, segundo estimativa da taxa de filtração glomerular (TFGe), no período de 1994 a 2004: 56,6% para eTFG > 100 ml/min/1,73 m2; 72,4% para eTFG 60-70 ml/min/1,73 m2; e 95,6% para eTFG < 30 ml/min/1,73 m2. A mesma tendência foi observada em amostra populacional do National Health and Nutrition Examinatiion Survey (NHANES), segundo mesmos critérios e período de estudo, embora as frequências de hipertensão tenham sido menores.2020 Rao MV, Qiu Y, Wang C, Bakris G. Hypertension and CKD: Kidney Early Evaluation Program (KEEP) and National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), 1999-2004. Am J Kidney Dis 2008;51:S30-7. DOI: http://dx.doi.org/10.1053/j.ajkd.2007.12.012
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A prevalência de diabetes melito identificada neste estudo (32,1%) foi maior do que as prevalências relatadas por inquérito telefônico para a população adulta (5,2%) e idosa (18,8% para idade entre 65 e 74 anos; e 17,6% para idade igual ou superior a 75 anos) no Brasil.2121 Schmidt MI, Duncan BB, Hoffmann JF, Moura L, Malta DC, Carvalho MRSC. Prevalência de diabetes e hipertensão no Brasil baseada em inquérito de morbidade auto-referida, Brasil, 2006. Rev Saúde Pública 2009;43:74-82. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102009000900010
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A presença de diabetes melito também foi significativamente superior entre pacientes com DRC: 50,5% vs. 25,3%. De fato, a prevalência de diabetes entre doentes renais crônicos tem se mostrado superior à dos indivíduos sem DRC.2222 NKF KDOQI Guidelines [Internet]. KDOQI Clinical Practice Guidelines for Chronic Kidney Disease: Evaluation C, and Stratification. Part 7. Stratification of risk for progression of kidney disease and developement of cardiovascular disease [Citado 2011 Jan 10]. Disponível em: http://www.kidney.org/professionals/KDOQI/guidelines_ckd/p7_risk_g15.htm
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,2323 Parikh NI, Hwang SJ, Larson MG, Meigs JB, Levy D, Fox CS. Cardiovascular disease risk factors in chronic kidney disease: overall burden and rates of treatment and control. Arch Intern Med 2006;166:1884-91. PMID: 17000946 DOI: http://dx.doi.org/10.1001/archinte.166.17.1884
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A prevalência de diabetes em doentes renais crônicos encontrada no presente estudo foi mais elevada do que a relatada em diversos trabalhos com esta população2222 NKF KDOQI Guidelines [Internet]. KDOQI Clinical Practice Guidelines for Chronic Kidney Disease: Evaluation C, and Stratification. Part 7. Stratification of risk for progression of kidney disease and developement of cardiovascular disease [Citado 2011 Jan 10]. Disponível em: http://www.kidney.org/professionals/KDOQI/guidelines_ckd/p7_risk_g15.htm
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23 Parikh NI, Hwang SJ, Larson MG, Meigs JB, Levy D, Fox CS. Cardiovascular disease risk factors in chronic kidney disease: overall burden and rates of treatment and control. Arch Intern Med 2006;166:1884-91. PMID: 17000946 DOI: http://dx.doi.org/10.1001/archinte.166.17.1884
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-2424 Fox CS, Muntner P. Trends in diabetes, high cholesterol, and hypertension in chronic kidney disease among U.S. adults: 1988-1994 to 1999-2004. Diabetes Care 2008;31:1337-42. ou, ainda, do que a prevalência relatada em amostra de indivíduos em terapia renal substitutiva no Brasil (30,6%),2525 Biavo BM, Tzanno-Martins C, Cunha LM, Araujo ML, Ribeiro MM, Sachs A, et al. Nutritional and epidemiological aspects of patients with chronic renal failure undergoing hemodialysis from Brazil, 2010. J Bras Nefrol 2012;34:206-15. DOI: http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20120001
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sugerindo maior morbidade hospitalar desses indivíduos. Há ainda a possibilidade de que o diabetes melito venha a adquirir no futuro próximo maior importância na etiologia e na comorbidade da DRC no Brasil.2626 Burmeister JE, Mosmann CB, Bau R, Rosito GA. Prevalence of diabetes mellitus in chronic renal failure patients under haemodialysis in Porto Alegre, Brazil. J Bras Nefrol 2012;34:117-21.

A DRC também mostrou importante associação com insuficiência cardíaca em nosso meio, sendo quase três vezes mais frequente nos indivíduos acometidos. Ainda que a diminuição do débito cardíaco motivado pela cardiopatia em si ou seu tratamento possa colaborar na gênese de lesões renais progressivas,2727 Silverberg D, Wexler D, Blum M, Schwartz D, Iaina A. The association between congestive heart failure and chronic renal disease. Curr Opin Nephrol Hypertens 2004;13:163-70. DOI: http://dx.doi.org/10.1097/00041552-200403000-00004
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cabe ressaltar que as principais etiologias da insuficiência cardíaca congestiva são a hipertensiva e a isquêmica, ambas estritamente ligadas à hipertensão arterial.2828 Bocchi EA, Marcondes-Braga FG, Bacal F, Ferraz AS, Albuquerque D, Rodrigues D, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica-2012. Arq Bras Cardiol 2012;98:1-33. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012001000001
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Outro achado de relevância epidemiológica, embora secundário ao processo de constituição amostral, foi a prevalência de DRC. Considerando-se as etapas de exclusão dos indivíduos, na qual os critérios se aplicaram ao total da população, se identificou prevalência de doença renal crônica de 12,7%.

O valor encontrado está compreendido entre as prevalências relatadas em estudos internacionais (0,6-43,3%)2929 McCullough K, Sharma P, Ali T, Khan I, Smith WC, MacLeod A, et al. Measuring the population burden of chronic kidney disease: a systematic literature review of the estimated prevalence of impaired kidney function. Nephrol Dial Transplant 2012;27:1812-21. DOI: http://dx.doi.org/10.1093/ndt/gfr547
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,3030 Zhang QL, Rothenbacher D. Prevalence of chronic kidney disease in population-based studies: systematic review. BMC Public Health 2008;8:117. PMID: 18405348 DOI: http://dx.doi.org/10.1186/1471-2458-8-117
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e aproxima-se daquelas identificadas em idosos (12,9%, IC 95%, 4,3-20,3)1313 Lessa I. Níveis séricos de creatinina: hipercreatinemia em segmento da população adulta de Salvador, Brasil. Rev Bras Epidemiol 2004;7:176-86. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2004000200007
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e em município de pequeno porte (12,8% de doentes renais crônicos moderados a graves)3131 Yokota RTC, Iser BPM, Andrade RLM, Meiners MMMA, Assis DM, Bernal RTI, et al. Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças e agravos não transmissíveis em município de pequeno porte, Brasil, 2010. Epidemiol Serv Saúde 2012;21:55-68. DOI: http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742012000100006
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no Brasil. Ela é, porém, superior àquela identificada em screening populacional brasileiro (7,3%).3232 de Lima AO, Kesrouani S, Gomes RA, Cruz J, Mastroianni-Kirsztajn G. Population screening for chronic kidney disease: a survey involving 38,721 Brazilians. Nephrol Dial Transplant 2012;27:iii135-8. Embora a comparação da prevalência de DRC seja comprometida pela especificidade da população do presente estudo e pelos critérios de definição de doença, chama atenção que a DRC seja tão frequente em indivíduos hospitalizados em uma enfermaria geral. Os dados brasileiros sobre a morbidade hospitalar, além de corresponder ao diagnóstico principal da internação, se referem aos capítulos e às listas de morbidade da Classificação Internacional de Doenças (CID -10), nos quais as diferentes etiologias da DRC estão diluídas. Se considerada a morbidade "insuficiência renal" (não especificada se aguda ou crônica), se verifica que esta representou somente 0,7% dos diagnósticos principais de internação em 2009,3333 Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS. DATASUS: informações de saúde [Internet]. Brasília, 2008 [Citado 2013 Abr 19]. Disponivel em: www.datasus.gov.br/tabnet/tabnet.htm
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enquanto 4,1% dos indivíduos internados em clínica médica no presente estudo apresentavam insuficiência renal crônica terminal. Desta maneira, se evidencia, de forma inédita, a importância da DRC na morbidade hospitalar em uma unidade geral de internação no Brasil.

Quase metade dos indivíduos com DRC não tinha antecedente pessoal da doença registrado em prontuário, embora a maioria tenha referido acompanhamento em saúde prévio à hospitalização. A frequência de pacientes que iniciaram terapia renal substitutiva e que não tinham antecedente pessoal de DRC sugere que uma parcela importante de brasileiros doentes renais crônicos é referida tardiamente ao serviço nefrológico,3434 Bastos MG, Kirsztajn GM. Doença renal crônica: importância do diagnóstico precoce, encaminhamento imediato e abordagem interdisciplinar estruturada para melhora do desfecho em pacientes ainda não submetidos à diálise. J Bras Nefrol 2011;33:93-108. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0101-28002011000100013
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fato que pode contribuir para a piora de seus desfechos.3535 Jungers P, Joly D, Nguyen-Khoa T, Mothu N, Bassilios N, Grünfeld JP. Continued late referral of patients with chronic kidney disease. Causes, consequences, and approaches to improvement. Presse Med 2006;35:17-22. PMID: 16462659,3636 Chan MR, Dall AT, Fletcher KE, Lu N, Trivedi H. Outcomes in patients with chronic kidney disease referred late to nephrologists: a meta-analysis. Am J Med 2007;120:1063-70. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.amjmed.2007.04.024
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Quanto às associações observadas em relação aos desfechos da internação, o maior tempo de internação dos pacientes com DRC foi congruente com a maior morbidade deste grupo. A elevada ocorrência de óbitos entre pacientes com DRC em relação aos sem a DRC ilustrou, em nosso meio, a importante relação da DRC com mortalidade, apontada por inúmeros estudos internacionais.3737 Chronic Kidney Disease Prognosis Consortium; Matsushita K, van der Velde M, Astor BC, Woodward M, Levey AS, de Jong PE, et al. Association of estimated glomerular filtration rate and albuminuria with all-cause and cardiovascular mortality in general population cohorts: a collaborative meta-analysis. Lancet 2010;375:2073-81. PMID: 20483451

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39 Nitsch D, Grams M, Sang Y, Black C, Cirillo M, Djurdjev O, et al.; Chronic Kidney Disease Prognosis Consortium. Associations of estimated glomerular filtration rate and albuminuria with mortality and renal failure by sex: a meta-analysis. BMJ 2013;346:f324. PMID: 23360717 DOI: http://dx.doi.org/10.1136/bmj.f324
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Conclusão

Apesar das limitações do presente estudo, ligadas ao seu caráter retrospectivo, à frequente ausência de dados em prontuários e ao diagnóstico de DRC ser creditado a uma informação no prontuário médico não necessariamente confirmada, observou-se que a doença renal crônica esteve associada aos principais fatores de risco cardiovasculares modificáveis. Frente a isto, reitera-se a necessidade de aprimorar o seguimento na atenção básica de hipertensos e diabéticos. Enquanto o processo de hospitalização continua a ser a "porta de entrada" no sistema de saúde brasileiro para uma importante parcela da população, o reconhecimento dos fatores associados à DRC pode ser determinante para a devida continuidade do tratamento dos doentes renais crônicos em longo prazo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2015

Histórico

  • Recebido
    30 Maio 2014
  • Aceito
    08 Set 2014
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