Expressão das proteínas BCL-2 e BAX em tumores astrocíticos humanos

Expression of BCL-2 and BAX proteins in human astrocytic tumors

Mário Henrique Girão Faria Régia Maria do Socorro Vidal do Patrocínio Manoel Odorico de Moraes Filho Silvia Helena Barem Rabenhorst Sobre os autores

Resumos

INTRODUÇÃO: Os astrocitomas constituem os mais freqüentes tumores primários do sistema nervoso central (SNC). Admite-se que parte do crescimento tumoral seja resultante da inibição da morte celular programada: a apoptose. Tal fenômeno é basicamente regulado pelo equilíbrio entre moléculas antiapoptóticas (ex.: B-cell lymphoma protein 2 [BCL-2]) e pró-apoptóticas (ex.: BCL-2 associated protein X [BAX]). OBJETIVO: O presente estudo objetivou avaliar a expressão de BCL-2 e BAX em tumores astrocíticos humanos. MATERIAL E MÉTODOS: Procedeu-se ao estudo imuno-histoquímico dessas proteínas utilizando-se o método da avidina-biotina-peroxidase em 55 astrocitomas (13 do grau I, 14 do II, sete do III e 21 do grau IV) e cinco amostras de tecido cerebral não-tumoral (grupo controle). RESULTADOS: Os índices de positividade para BCL-2 e BAX demonstraram propensão ao acréscimo, de acordo com a gradação tumoral, com positividade geral de 43,26% e 24,67%, respectivamente. Essas proteínas não foram detectadas entre os espécimes não-tumorais. Os escores de marcação para BCL-2 apresentaram tendência ao aumento conforme a progressão histológica, enquanto os para BAX mostraram-se semelhantes nas diversas graduações. A análise conjunta dessas proteínas demonstrou significativa correlação com a gradação tumoral (p < 0,05; teste H), sendo mais evidente nos glioblastomas (grau IV) em comparação com os astrocitomas de baixo grau (I e II) (p < 0,05; teste U). A relação BCL-2/BAX indicou o aumento da orientação à sobrevida celular dos tumores astrocíticos de acordo com a progressão maligna. CONCLUSÕES: Tais resultados indicam as alterações na expressão das proteínas BCL-2 e BAX como resultantes do processo tumorigênico nos astrocitomas, com o crescente predomínio do perfil antiapoptótico de acordo com a transformação maligna. Nesse sentido, sugere-se que a superexpressão de BCL-2 nos tumores astrocíticos possa ser indicativa de fenótipos mais agressivos, configurando ainda um potencial alvo terapêutico.

Astrocitomas; BCL-2; BAX; Apoptose; Imuno-histoquímica


BACKGROUND: Astrocytomas represent the most frequent primary tumors of the central nervous system. Admittedly, part of tumor growth is due to inhibition of programmed cell death: the apoptosis. This phenomenon is basically regulated by the balance between anti-apoptotic (e.g.: B-cell lymphoma protein 2 [BCL-2]) and pro-apoptotic (e.g.: BCL-2 associated protein X [BAX]) molecules. OBJECTIVE: The present study aimed to evaluate the expression of BCL-2 and BAX in human astrocytic tumors of different histopathological grades. MATERIAL AND METHOD: An immunohistochemical study of those proteins using the avidin-biotin-peroxidase method was performed in 55 astrocytomas (13 grade I, 14 grade II, seven grade III and 21 grade IV) and five samples of non-tumor brain tissue (control group). RESULTS: The BCL-2 and BAX positive indices tended to increase according to astrocytomas graduation, with general positivity of 43.26% and 24.67%, respectively. These proteins were not detected among non-tumor specimens. BCL-2 labeling scores demonstrated a tendency to increase in accordance with histopathological advancing, while BAX values were similar in all graduations. The combined analyses of these proteins expression presents a significant correlation with tumor grade (p < 0.05; H test), witch is more evident among glioblastomas (grade IV) in comparison with low-grade astrocytomas (I and II) (p < 0.05; U test). BCL-2/BAX ratio denoted increasing of cellular survival orientation of the astrocytic tumors according to malignant progression. CONCLUSIONS: The results indicate alterations in BCL-2 and BAX proteins expression as resultant of the tumorigenic process in astrocytomas, with increasing predominance of the anti-apoptotic profile in consonance of malignant transformation. In this way, we propose that BCL-2 overexpression in astrocytic tumors may be indicative of more aggressive phenotypes, furthermore configuring a potential therapeutic target.

Astrocytomas; BCL-2; BAX; Apoptosis; Immunohistochemistry


ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL PAPER

Expressão das proteínas BCL-2 e BAX em tumores astrocíticos humanos

Expression of BCL-2 and BAX proteins in human astrocytic tumors

Mário Henrique Girão FariaI; Régia Maria do Socorro Vidal do PatrocínioII; Manoel Odorico de Moraes FilhoIII; Silvia Helena Barem RabenhorstIV

IMédico; mestre em Farmacologia; pesquisador do Laboratório de Genética Molecular (LABGEM) da Universidade Federal do Ceará (UFC)

IIMédica patologista pelo Departamento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina (DPML/FM) da UFC; patologista do Laboratório Biomédica, Pesquisas e Serviços Ltda. (BIOPSE®) (Fortaleza-CE); membro da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP)

IIIMédico oncologista; doutor em Farmacologia; professor-adjunto do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da FMUFC; coordenador do Laboratório de Oncologia Experimental (LOE) da UFC

IVBióloga; doutora em Genética; professora-adjunta do DPML da Faculdade de Medicina da UFC; coordenadora do LABGEM/UFC

Endereço para correspondência

RESUMO

INTRODUÇÃO: Os astrocitomas constituem os mais freqüentes tumores primários do sistema nervoso central (SNC). Admite-se que parte do crescimento tumoral seja resultante da inibição da morte celular programada: a apoptose. Tal fenômeno é basicamente regulado pelo equilíbrio entre moléculas antiapoptóticas (ex.: B-cell lymphoma protein 2 [BCL-2]) e pró-apoptóticas (ex.: BCL-2 associated protein X [BAX]).

OBJETIVO: O presente estudo objetivou avaliar a expressão de BCL-2 e BAX em tumores astrocíticos humanos.

MATERIAL E MÉTODOS: Procedeu-se ao estudo imuno-histoquímico dessas proteínas utilizando-se o método da avidina-biotina-peroxidase em 55 astrocitomas (13 do grau I, 14 do II, sete do III e 21 do grau IV) e cinco amostras de tecido cerebral não-tumoral (grupo controle).

RESULTADOS: Os índices de positividade para BCL-2 e BAX demonstraram propensão ao acréscimo, de acordo com a gradação tumoral, com positividade geral de 43,26% e 24,67%, respectivamente. Essas proteínas não foram detectadas entre os espécimes não-tumorais. Os escores de marcação para BCL-2 apresentaram tendência ao aumento conforme a progressão histológica, enquanto os para BAX mostraram-se semelhantes nas diversas graduações. A análise conjunta dessas proteínas demonstrou significativa correlação com a gradação tumoral (p < 0,05; teste H), sendo mais evidente nos glioblastomas (grau IV) em comparação com os astrocitomas de baixo grau (I e II) (p < 0,05; teste U). A relação BCL-2/BAX indicou o aumento da orientação à sobrevida celular dos tumores astrocíticos de acordo com a progressão maligna.

CONCLUSÕES: Tais resultados indicam as alterações na expressão das proteínas BCL-2 e BAX como resultantes do processo tumorigênico nos astrocitomas, com o crescente predomínio do perfil antiapoptótico de acordo com a transformação maligna. Nesse sentido, sugere-se que a superexpressão de BCL-2 nos tumores astrocíticos possa ser indicativa de fenótipos mais agressivos, configurando ainda um potencial alvo terapêutico.

Unitermos: Astrocitomas, BCL-2, BAX, Apoptose, Imuno-histoquímica

ABSTRACT

BACKGROUND: Astrocytomas represent the most frequent primary tumors of the central nervous system. Admittedly, part of tumor growth is due to inhibition of programmed cell death: the apoptosis. This phenomenon is basically regulated by the balance between anti-apoptotic (e.g.: B-cell lymphoma protein 2 [BCL-2]) and pro-apoptotic (e.g.: BCL-2 associated protein X [BAX]) molecules.

OBJECTIVE: The present study aimed to evaluate the expression of BCL-2 and BAX in human astrocytic tumors of different histopathological grades.

MATERIAL AND METHOD: An immunohistochemical study of those proteins using the avidin-biotin-peroxidase method was performed in 55 astrocytomas (13 grade I, 14 grade II, seven grade III and 21 grade IV) and five samples of non-tumor brain tissue (control group).

RESULTS: The BCL-2 and BAX positive indices tended to increase according to astrocytomas graduation, with general positivity of 43.26% and 24.67%, respectively. These proteins were not detected among non-tumor specimens. BCL-2 labeling scores demonstrated a tendency to increase in accordance with histopathological advancing, while BAX values were similar in all graduations. The combined analyses of these proteins expression presents a significant correlation with tumor grade (p < 0.05; H test), witch is more evident among glioblastomas (grade IV) in comparison with low-grade astrocytomas (I and II) (p < 0.05; U test). BCL-2/BAX ratio denoted increasing of cellular survival orientation of the astrocytic tumors according to malignant progression.

CONCLUSIONS: The results indicate alterations in BCL-2 and BAX proteins expression as resultant of the tumorigenic process in astrocytomas, with increasing predominance of the anti-apoptotic profile in consonance of malignant transformation. In this way, we propose that BCL-2 overexpression in astrocytic tumors may be indicative of more aggressive phenotypes, furthermore configuring a potential therapeutic target.

key words: Astrocytomas, BCL-2, BAX, Apoptosis, Immunohistochemistry

Introdução

Os astrocitomas constituem o principal tipo histológico entre os tumores primários do sistema nervoso central (SNC). Na classificação histopatológica da Organização Mundial da Saúde (OMS) para os tumores próprios do SNC, admite-se que as diversas apresentações histológicas dos astrocitomas possam ser divididas em diferentes graus de malignidade, variando de I a IV(13). Em grande parte, essa graduação resulta do reconhecimento de indicadores de anaplasia (atipia nuclear, pleomorfismo, atividade mitótica, hiperplasia endotelial e necrose) típicos de cada variante tumoral através da análise histológica rotineira por microscopia ótica. Como regra geral, o grau tumoral é baseado nas áreas de maior atipia, admitindo-se que essa população de células é a que determina o curso da doença. Além de manifestar o comportamento biológico tumoral, permitindo inferências prognósticas, o acúmulo de achados anaplásicos parece refletir a progressão das alterações moleculares adquiridas durante o processo de transformação neoplásica(17).

A despeito da complexidade de tais desordens moleculares, elas parecem convergir para a promoção do crescimento tumoral através do estímulo à proliferação celular e/ou da inibição da morte celular, notadamente do mecanismo programado: a apoptose. O fato de os tumores astrocíticos humanos apresentarem, via de regra, baixos índices proliferativos em relação às outras neoplasias desperta o interesse pela determinação do status apoptótico nesses tumores(7). Dessa forma, admite-se que o estudo dos reguladores da apoptose possa desvendar alguns aspectos enigmáticos acerca do processo de tumoração e da progressão dos astrocitomas, revelando ainda novas possibilidades terapêuticas.

Os eventos bioquímicos responsáveis pela apoptose dependem de uma família de proteases denominadas caspases, as quais são sintetizadas a partir de seus precursores inativos, ou procaspases. Uma vez ativadas, as caspases clivam (e assim ativam) outras procaspases, resultando na amplificação da cascata proteolítica. Esse mecanismo, além de destrutivo e autopropagado, é também irreversível(1).

A ativação das caspases pode ser deflagrada através de estímulos intra e/ou extracelulares. Células normais, como os linfócitos T killer, podem induzir a apoptose de células tumorais pela produção de FAS (também conhecido por APO-1, de apoptosis inducing protein 1), um ligante específico dos receptores CD95. A ligação FAS-CD95 ativa o receptor, que se acopla à proteína FAS-associated death domain (FADD), uma carreadora da procaspase iniciadora tipo 8. Essa interação permite a liberação das procaspases, que, após sofrerem auto-ativação, desencadeiam a liberação de caspases executoras(20).

A caspase-8 também pode ativar proteínas pró-apoptóticas que promovem a formação de poros na membrana externa mitocondrial, denominada fenômeno mitochondrial-outer-membrane permeabilization (MOMP). Isso ativa a liberação do citocromo C no citoplasma, o qual, associado ao apoptotic protease-activating factor 1 (APAF1) e à procaspase-9, forma o chamado apoptossomo. Na presença de trifosfato de adenosina (ATP), a procaspase-9 é ativada, levando à liberação em cadeia de caspases executoras, incluindo a caspase-3(2).

As proteínas intracelulares que regulam diretamente o processo de ativação das caspases constituem a denominada família BCL-2(5, 6). Os membros dessa família podem ser divididos em moléculas pró-apoptóticas (BAX, BAK, BCL-xS, BAD, BID, BIK, HRK, BIM e BOK) e antiapoptóticas (BCL-2, BCL-xL, BCL-w, BFL-1, BRSAG-1, MCL-1, A1, E1B19K, LMW5-HL e EBV BHRF1). O equilibro relativo entre as diferentes proteínas, refletindo a formação de homodímeros e heterodímeros (neutralização), define a via de atuação sobre o mecanismo de morte celular programada(25).

A BCL-2 associated protein X (BAX), codificada pelo gene localizado na região cromossômica 19q13.3-q13.4, representa o protótipo das proteínas pró-apoptóticas. Na presença de um sinal apoptótico, a BAX é translocada do citoplasma para as proximidades das mitocôndrias, onde sofre ativação e modificação conformacional, aderindo à membrana mitocondrial externa. Pequenas unidades de proteínas BAX ativadas tendem ao agrupamento, formando oligômeros que acabam por penetrar a membrana mitocondrial externa. Essa integração possibilita a rápida liberação do citocromo c(3).

Por outro lado, a B-cell lymphoma protein 2 (BCL-2), codificada pelo gene localizado no cromossomo 18q21, favorece a sobrevida celular. Ela impede o escape do citocromo c, possivelmente pela formação de heterodímeros com moléculas pró-apoptóticas como a proteína BAX(2).

Nesse contexto, a presente investigação objetivou avaliar a expressão de genes reguladores da apoptose (BCL-2 e BAX) em tumores astrocíticos humanos de diferentes graduações histopatológicas (segundo a OMS).

Material e métodos

Casuística

Realizou-se levantamento dos tumores astrocíticos humanos fixados em formalina e incluídos em parafina provenientes do arquivo do Laboratório Biomédica, Pesquisas e Serviços Ltda. (BIOPSE®), em Fortaleza, Ceará, referentes aos exames histopatológicos rotineiros realizados no período entre 1999 e 2003. Admitiram-se como critérios de inclusão a existência de mais de uma amostra (bloco) para cada caso, o bom estado de conservação dos blocos e a adequação da graduação histológica utilizada quando do diagnóstico em relação à padronizada pela OMS(13). Dessa forma, 55 astrocitomas foram selecionados: 13 do grau I, 14 do II, sete do III e 21 do grau IV, configurando uma amostragem não-probabilística.

Como parâmetro de normalidade, cinco amostras de tecido cerebral não-tumoral fixadas em formalina e incluídas em parafina foram obtidas do material de rotina do Setor de Necropsia do Departamento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (FMUFC). Foram selecionados casos em que a causa imediata da morte e a doença de base em nada remetessem à presença de neoplasia intra ou extracerebral.

A coleta das amostras foi autorizada pelos responsáveis de cada instituição, sendo o projeto de pesquisa aprovado pelo comitê de ética em pesquisa do complexo hospitalar da UFC sob protocolo 32/04, dentro das normas que regulamentam a pesquisas em seres humanos segundo as Resoluções nos 196/96 e 251/97 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde (CNS/MS).

Preparo das lâminas e dos cortes histológicos

Procedeu-se à manufatura de cortes histológicos a 5µm em lâminas tratadas com silano a 4%. Uma lâmina de cada bloco foi destinada à coloração por hematoxilina e eosina para reavaliação histopatológica e as restantes, para o estudo proteômico in situ (imuno-histoquímica).

Reação imuno-histoquímica

No presente ensaio foram estudadas as proteínas BCL-2 e BAX através dos anticorpos primários BCL2 (clone 124 – DakoCytomation®, EUA; diluição 1:80) e BAX (policlonal – DakoCytomation®, EUA; diluição 1:400). Utilizou-se o método imuno-histoquímico da estreptoavidina-biotina-peroxidase (SABP) modificado(11), constando de: a) passagem das lâminas em estufa pré-aquecida a 60ºC por 120 minutos; b) desparafinização e hidratação em gradiente xileno/álcool/água; c) bloqueio da peroxidase endógena com peróxido de hidrogênio (H2O2) a 3%; d) recuperação antigênica em forno de microondas utilizando tampão citrato 10mM pH = 6 (± 99ºC) por 15 minutos; e) incubação das lâminas com o anticorpo primário (± 4ºC) por 16 horas; f) detecção pelo sistema LSAB+ (DakoCytomation®, EUA); g) revelação pelo sistema DAB+ (DakoCytomation®, EUA), conforme orientações do fabricante; h) contracoloração com hematoxilina de Harrys a 40%; i) desidratação em gradiente água/álcool/xileno, montagem com lamínula e bálsamo do Canadá.

Análise imuno-histoquímica

A avaliação imuno-histoquímica, bem como a revisão histopatológica, foi realizada por três analistas experientes de forma independente. Os eventuais resultados conflitantes foram discutidos pelos mesmos em conjunto para definição consensual da análise.

Considerou-se marcação a coloração distinta em marrom (castanho) no citoplasma celular em contraposição ao azul/violeta da contracoloração (hematoxilina). A expressão dos marcadores foi quantificada através da contagem manual por microscopia ótica de pelo menos mil células astrocíticas, em diferentes campos representativos, utilizando magnificação de 400x. Procedeu-se então ao cálculo do labelling index (LI)(16), segundo a fórmula:

LI (%) = (número de células imunopositivas)/(número total de células contadas) x 100

Admitiu-se como critério de positividade a presença dos antígenos pesquisados em no mínimo 5% das células analisadas (LI > 5). Realizou-se também contagem semiquantitativa da mesma amostragem celular, levando-se em consideração a intensidade de marcação. Foram atribuídos os valores 0 (ausente), 1+ (fraca), 2+ (moderada) e 3+ (intensa), de acordo com a intensidade observada. Tais valores configuram índices aos quais foram multiplicados os valores percentuais (%) da fração de células que representam a respectiva categoria de intensidade, sendo calculado o H-score(19):

H-score = (% 0) x 0 + (% 1+) x 1 + (% 2+) x 2 + (% 3+) x 3.

Análise estatística

Os escores referentes à análise imuno-histoquímica foram tabulados utilizando-se o programa SPSS® 13.0. Os dados foram comparados através de abordagens não-paramétricas (teste de Shapiro-Wilk, teste H de Kruskal-Wallis e teste U de Mann-Whitney), sendo os resultados expressos como média ± 2 desvios padrão da média (DPM). Foram considerados significativas valores de p < 0,05.

Resultados

Exemplos de reações imuno-histoquímicas para BCL-2 e BAX estão ilustrados na Figura 1 e a Tabela apresenta detalhadamente os resultados obtidos. O percentual de casos que demonstraram imunoexpressão da proteína BCL-2 aumentou conforme a malignidade dos tumores astrocíticos (23,07% no grau I; 35,71% no II; 42,86% no III; 71,43% no IV). A expressão da proteína BAX mostrou semelhante tendência (15,38%; 7,14%; 28,57%; 47,62%), apesar da menor positividade verificada entre os astrocitomas de grau II. A positividade para BCL-2 e BAX na totalidade dos tumores astrocíticos investigados foi de 43,26% e 24,67%, respectivamente, sendo a porcentagem de casos imunopositivos para BCL-2 superior à dos imunopositivos para BAX em todas as graduações tumorais. Tais proteínas não foram evidenciadas entre as amostras não-tumorais pesquisadas (Figura 2).



Observou-se propensão ao acréscimo dos índices de marcação para BCL-2 (LI [4,3; 6,57; 8,71; 16,85] e H [10,84; 14,42; 18,85; 27,85]), de acordo com a graduação histopatológica dos tumores astrocíticos, enquanto os valores para BAX (LI [5; 0,57; 9,28; 9,38] e H [11,53; 0,57; 17,14; 11,66]) demonstraram escores semelhantes nas diferentes gradações, exceto pelos menores índices novamente verificados para os tumores de grau II (Figura 3).


As marcações para BCL-2 (LI) e BAX (LI) manifestaram correlação significativa com a graduação dos astrocitomas (p < 0,05; teste H de Kruskal-Wallis), sendo mais freqüente a detecção dessas moléculas nos tumores de grau IV em comparação com os de baixo grau (I e II) (p < 0,05; teste U de Mann-Whitney). O balanço qualiquantitativo entre os escores de marcação verificados para BCL-2 (estímulo antiapoptótico) e BAX (estímulo pró-apoptótico) revelou tendência crescente à sobrevida celular, de acordo com a progressão maligna dos tumores astrocíticos (Figura 4).


Discussão

No presente estudo, tanto a porcentagem de casos positivos quanto os escores médios de marcação (LI e H) para a proteína antiapoptótica BCL-2 demonstraram tendência de aumento, segundo a graduação dos tumores astrocíticos (Figuras 2 e 3), indicando a superexpressão dessa proteína como um evento freqüente nos astrocitomas e diretamente proporcional ao grau de malignidade tumoral. Fels et al.(9) haviam detectado propensão similar quanto à positividade para BCL-2 nos tumores astrocíticos de alto grau (48% no grau III; 51% no IV), ao passo que Ellison et al.(8) descreveram inclinação oposta (44% no grau II; 42% no III; 28% no IV). Recentemente, Strik et al.(22) e Kraus et al.(15) confirmaram a tendência de maior positividade entre os astrocitomas grau IV (94,6% e 60,25%, respectivamente), reforçando o perfil aqui reportado. Possíveis comparações semiquantitativas acerca da expressão de BCL-2 em tumores astrocíticos foram impossibilitadas pela inexistência de estudos anteriores que apresentassem escores de marcação compatíveis com os aqui realizados, reafirmando o ineditismo da corrente investigação.

Com relação à expressão da proteína pró-apoptótica BAX, demonstraram-se propensão ao acréscimo na positividade e relativa constância entre as médias de marcação (LI e H), conforme a graduação dos tumores astrocíticos, excetuando-se a relativa redução verificada em todos os valores referentes aos astrocitomas grau II (Figuras 2 e 3). Tais resultados confirmam a superexpressão de BAX como decorrente do processo de tumoração nos astrocitomas, sendo tal fenômeno cada vez mais freqüente conforme a malignidade desses tumores. Quanto à intrigante redução da marcação para BAX nos tumores de grau II, admite-se que particularidades referentes à histogênese dessa classe tumoral possam provocar variações na expressão de moléculas relacionadas à apoptose(10), consolidando as diferenças entre os tumores do grau I estudados (astrocitomas pilocíticos) e os astrocitomas grau II, esses últimos sabidamente propensos à progressão para fenótipos mais malignos(13). Todavia essas variações podem ser mais bem compreendidas quando avaliadas ante o equilíbrio entre as tendências pró e antiapoptótica(25). Os escassos estudos até então publicados acerca da expressão imuno-histoquímica de BAX nos tumores astrocíticos relatam apenas a alta freqüência da detecção de BAX nos glioblastomas (78%(22), 94%(4), 98%(14)), diferentemente da moderada positividade reportada no presente estudo (47,62%).

A despeito da ausência de significância estatística verificada entre os índices de marcação (LI e H) para BCL-2 e BAX na análise seqüencial (teste U) das diferentes gradações dos astrocitomas, o exame do conjunto dos valores (teste H) relativos à fração de células positivas (LI) para essas proteínas demonstrou correlação significativa com o grau histopatológico. Tal distinção foi reforçada pela expressiva superioridade dos escores para BCL-2 e BAX nos tumores de grau IV (glioblastomas) em relação aos de baixo grau (I e II) (teste U). Diante do exposto, notabilizou-se o aumento paralelo na detecção das proteínas BAX e BCL-2, conforme a gradação dos astrocitomas (notadamente entre os de baixo e alto graus), sugerindo mecanismos de co-regulação entre a expressão dessas proteínas durante a progressão maligna dos tumores astrocíticos(18).

Além disso, através da comparação quantitativa entre os índices de marcação (LI) das proteínas BCL-2 e BAX, foi demonstrada crescente orientação à sobrevida celular consoante a progressão dos tumores astrocíticos (Figura 4). Acredita-se que essa diminuição gradual do estímulo apoptótico, associada ao pressuposto aumento progressivo do incentivo proliferativo, resulte na promoção cada vez maior das células mais anaplásicas (mais alteradas geneticamente), contribuindo para a evolução do fenótipo maligno dos astrocitomas(23). Apesar disso, nenhuma correlação prognóstica categórica foi detectada a partir da expressão das proteínas BCL-2 e BAX nos tumores astrocíticos até este momento(9, 10, 21, 22).

Por fim, a constatação do aumento na expressão da proteína antiapoptótica BCL-2 conforme a progressão dos tumores astrocíticos, resultando em crescente tendência à sobrevida celular, abre espaço para abordagens que promovam o bloqueio transcricional dessa proteína e, assim, estimulem o mecanismo apoptótico. Neste sentido, Zhu et al.(24) reportaram considerável inibição do crescimento tumoral, completa perda do potencial tumoral e significativo incremento da sensibilidade à cisplatina em culturas de astrocitomas malignos humanos tratados com oligonucleotídeos antisense para BCL-2. Jiang et al.(12) obtiveram semelhantes resultados com o uso de oligonucleotídeos antisense para BCL-2/BCL-xL (biespecíficos) nas linhagens de glioblastomas U87 e NS008.

  • Endereço para correspondência:
    Mário Henrique Girão Faria
    LABGEM/DPML/UFC
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    CEP 60712-000 – Fortaleza-CE
    Tel.: (85) 3467-0457, Fax: (85) 3267-3840
    e-mail:
  • Primeira submissão em 08/12/05

    Última submissão em 04/04/06

    Aceito para publicação em 22/05/06

    Publicado em 20/08/06

    Artigo baseado na dissertação de mestrado Estudo imuno-histoquímico das alterações moleculares nos tumores astrocíticos: vias tumorigênicas e indicadores de resistência apresentada na Faculdade de Medicina da UFC, em 2005. Trabalho selecionado para apresentação oral/premiação no XXV Congresso Brasileiro de Patologia, Natal-RN, 12 a 15 de outubro de 2005.

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    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      22 Set 2006
    • Data do Fascículo
      Ago 2006

    Histórico

    • Recebido
      08 Dez 2005
    • Revisado
      04 Abr 2006
    • Aceito
      22 Maio 2006
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