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Insatisfação com a imagem corporal em estudantes universitários – Uma revisão integrativa

Body dissatisfaction among university students – An integrative review

RESUMO

Objetivo

Caracterizar a insatisfação corporal entre estudantes universitários.

Métodos

Revisão integrativa da literatura nas bases de dados PubMed, Lilacs, Bireme, portal SciELO e banco de teses com descritores indexados com os critérios de inclusão: população exclusivamente universitária, apresentação de dados referentes à frequência/prevalência da insatisfação corporal e/ou a caracterização de fatores relacionados.

Resultados

Foram selecionados 76 estudos (40 nacionais e 36 internacionais). A amplitude de insatisfação de imagem corporal em ambos os sexos foi de 8,3% a 87% nos estudos nacionais, e de 5,2% a 85,5% nos internacionais, avaliados, principalmente, por meio de escalas de silhuetas e/ou questionários (como o Body Shape Questionnaire, o Eating Disorder Inventory, e o Body-Self Relations Questionnaire Appearance Scales). Os fatores como exposição à mídia e redes sociais, o período menstrual e a baixa autoestima foram relacionados à insatisfação corporal.

Conclusão

A insatisfação corporal é um fenômeno comum entre os universitários, mas apresentando grande amplitude dependendo do sexo, instrumento, método e objetivo do estudo. Padronização na avaliação do construto é necessária para melhor compressão e discussão do problema.

Imagem corporal; estudantes; adulto; revisão

ABSTRACT

Objective

To characterize body dissatisfaction among university students.

Methods

Integrative literature’s review on databases PubMed, Lilacs, Bireme, portal SciELO and thesis data using indexed keywords with inclusion criteria: exclusively college students population, featuring directly data about frequency/prevalence of body dissatisfaction and/or characterization of related factors.

Results

Seventy-six studies were selected (40 national and 36 international). The body dissatisfaction wide range in both sexes was from 8.3% to 87% in national studies, and from 5.2% to 85.5% in international; evaluated, primarily, by silhouettes scale and/or questionnaires (as the Body Shape Questionnaire, Eating Disorder Inventory and Body-Self Relations Questionnaire Appearance Scales). Factors like media and social networking service exposition, menstrual period, and low self esteem were related to body dissatisfaction.

Conclusion

Body dissatisfaction is a common phenomena among college students, but featuring wide range depending on sex, instrument, method and study’s objective. Construct evaluation’s standardization is necessary in order to better comprehend and discuss the problem.

Body image; student; adult; review

INTRODUÇÃO

O corpo está situado em uma dimensão que ultrapassa o fisiológico, por meio de sensações físicas, emoções, pensamentos, sentimentos, crenças e história, e, portanto, expressa a comunicação do indivíduo com o universo que o cerca. A imagem corporal (IC) é definida como a imagem que o indivíduo tem em sua mente sobre o tamanho, a estrutura, a forma e o contorno de seu próprio corpo, bem como dos sentimentos em relação a essas características e às partes que o constituem”11. Slade PD. What is body image? Behav Res Ther. 1994;32(5):497-502.,22. Sato PM, Timerman F, Fabbri AD, Scagliusi FB, Kotait MS. A imagem corporal nos transtornos alimentares: como o terapeuta nutricional pode contribuir para o tratamento. In: Alvarenga M, Scagliusi FB, Philippi ST (orgs.). Nutrição e transtornos alimentares – Avaliação e tratamento. Barueri, SP: Manole; 2011. p. 477-82.. Constituída pela cognição e também por aspectos que envolvem a subjetividade do indivíduo e a interação social, a IC pode ser dividida nas dimensões perceptiva – que define o julgamento do tamanho, forma e peso corporais – e a atitudinal, que envolve os componentes afetivo, cognitivo e comportamental33. Ferreira MEC, Amaral ACS, Fortes LS, Conti MA, Carvalho PHB, Miranda VPN. Imagem corporal: contexto histórico e atual. In: Ferreira MEC, Castro MR, Morgado FFR (orgs). Imagem corporal: reflexões, diretrizes e práticas de pesquisa. Juiz de Fora: Editora UFJF; 2014. p. 15-29..

A insatisfação corporal é um distúrbio do componente atitudinal da IC e inclui as esferas avaliativa, caracterizada pela diferença entre o corpo atual e o considerado ideal; e afetiva, ou seja, o quanto o indivíduo sofre em função dessa diferença22. Sato PM, Timerman F, Fabbri AD, Scagliusi FB, Kotait MS. A imagem corporal nos transtornos alimentares: como o terapeuta nutricional pode contribuir para o tratamento. In: Alvarenga M, Scagliusi FB, Philippi ST (orgs.). Nutrição e transtornos alimentares – Avaliação e tratamento. Barueri, SP: Manole; 2011. p. 477-82.. A insatisfação corporal é multidimensional e pode estar relacionada de forma isolada ou conjunta ao peso, às formas corporais e à aparência44. Campana ANNB, Tavares MCGCF. Avaliação atitudinal da imagem corporal. In: Tavares MCGCF, Campana ANNB (orgs). Avaliação da imagem corporal: instrumentos e diretrizes para a pesquisa. São Paulo: Phorte; 2009. p. 75-126..

No contexto da modernidade dotada de tecnologia em constante evolução, o imediatismo das relações também influencia as atitudes em relação ao corpo, que é tratado como objeto55. Yahia N, El-Ghazale H, Achkar A, Rizk S. Dieting practices and body image perception among Lebanese university students. Asia Pac J Clin Nutr. 2011;20(1):21-8.,66. Bosi MLM, Luis RR, Morgado CMC, Costa MLS, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. 2006;55(2):108-13. de consumo, cujo valor é dado pelo quanto se pode investir77. Trinca TP. O corpo-imagem na “cultura do consumo”: uma análise histórico-social sobre a supremacia da aparência no capitalismo avançado. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista, 2008.. A beleza tornou-se um dever moral88. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenço BH, Sato PM, Scagliusi FB. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010;59(1):44-51., cuja esperança é de que todo esforço despendido seja recompensado com elogios; todavia, esse ideal de beleza é, na maioria das vezes, inatingível e cria um sentimento de frustração, culpa, vergonha e insatisfação99. Pereira VA. Corpo ideal, peso normal: transformações na subjetividade feminina. Curitiba: Juruá Editora, 2012..

As intensas alterações biológicas e a instabilidade psicossocial decorrentes da adolescência e início da juventude associadas às mudanças referentes ao ingresso no meio universitário1010. Ferrari EP, Petroski EL, Silva DA. Associação entre percepção da imagem corporal e estágios de mudança de comportamento em acadêmicos de educação física. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum. 2012;14(5):535-44.

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24. Laus MF. Influência do padrão de beleza veiculado pela mídia na satisfação corporal e escolha alimentar de adultos. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2012.
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A insatisfação corporal pode ter como consequências prejuízos no comportamento e atitudes alimentares, tendência ao desenvolvimento e manutenção de transtornos alimentares (TA), depressão, baixa autoestima, comparação social, ansiedade, aumento de cirurgias plásticas estéticas, diminuição da qualidade de vida88. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenço BH, Sato PM, Scagliusi FB. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010;59(1):44-51.,1717. Carvalho PHB, Filgueiras JF, Neves MC, Coelho FD, Ferreira MEC. Checagem corporal, atitude alimentar inadequada e insatisfação com a imagem corporal de jovens universitários. J Bras Psiquiatr. 2013;62(2):108-14.,1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32.,2323. Hirata E, Pilati R. Desenvolvimento e validação preliminar da Escala Situacional de Satisfação Corporal – ESSC. Psico USF. 2010;15(1):1-11.,2828. Rech CR, Araújo EDS, Vanat JR. Autopercepção da imagem corporal em estudantes do curso de educação física. Rev Bras Educ Fís Esporte. 2010;24(2):285-92.,3030. Silva DAS, Pereira IMM, Oliveira ACC. Impacto da escolaridade materna e paterna na percepção da imagem corporal em acadêmicos de Educação Física Motri. 2012;8(2):22-31.,3838. Silva JD, Silva AB, Oliveira AV, Nemer AS. Influência do estado nutricional no risco para transtornos alimentares em estudantes de nutrição. Cien Saúde Colet. 2012;17(12):3399-406.

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Considerando o contexto dos padrões de beleza atuais e sua repercussão sobre a imagem corporal dos universitários, bem como as consequências dos distúrbios de IC, o objetivo do presente estudo de revisão foi caracterizar a insatisfação corporal entre os estudantes universitários.

MÉTODOS

Trata-se de uma revisão integrativa4949. Souza MT, Silva MD, Carvalho R. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein. 2010;8(1 Pt 1):102-6. da literatura nacional e internacional, realizada nas bases de dados PubMed (US National Library of Medicine), Lilacs (Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde), Bireme, portal SciELO (The Scientific Electronic Library Online), banco de teses da Universidade de São Paulo bem como banco de teses da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Não houve restrição de período ou tipo de estudo para a busca bibliográfica.

Foram utilizados os seguintes descritores indexados e suas combinações em português e inglês: imagem, imagem corporal, image, body image e student – além de outros descritores não indexados, mas específicos ao tema, como universitário, university e dissatisfaction.

A combinação de descritores para cada estratégia de busca em cada base/portal está descrita na Tabela 1. Houve diferença na estratégia de busca na base de dados Lilacs e bancos de teses, nos quais o descritor insatisfação (dissatisfaction) não foi utilizado, pois com este a busca resultou em um número muito restrito de referências. Por outro lado, nas bases de dados PubMed e na Bireme, a inclusão do descritor dissatisfaction resultou em um maior aproveitamento de referências diretamente relacionadas à temática de estudo.

Tabela 1
Número de referências encontradas em cada base de dados segundo a estratégia de busca utilizada para insatisfação corporal entre universitários

Os critérios de inclusão adotados para inclusão nesta revisão foram: estudos que avaliaram (com instrumentos validados) a insatisfação corporal em população exclusivamente universitária e que apresentaram diretamente os dados referentes à frequência/prevalência de insatisfação corporal e/ou a caracterização da insatisfação corporal nessa população (no caso de não haver frequência/prevalência, apontar, por exemplo, em que grupo era maior ou menor).

A análise e a seleção das referências encontradas foram divididas em três etapas: na primeira, a partir da leitura dos títulos excluíram-se as referências listadas que eram incompatíveis ao objetivo da revisão e também as referências repetidas. A segunda etapa consistiu na leitura dos resumos, e nesta fase foram excluídas as referências cujo objetivo era incompatível, a amostra não composta (ou não exclusivamente) por universitários, e quando o estudo avaliou apenas o componente perceptivo da imagem corporal. Prosseguiu- -se para a terceira etapa com a leitura na íntegra dos estudos selecionados, e nesta foram excluídos aqueles que tratavam apenas da validação de escalas (sem apresentar diretamente os dados de insatisfação corporal), os que utilizaram instrumentos não validados ou não descreviam adequadamente os instrumentos utilizados, e os que não caracterizaram diretamente a insatisfação corporal.

A fim de ampliar o universo de estudo, utilizou-se também a estratégia de “repescagem”, a partir da verificação das referências de cada artigo para a inclusão de estudos complementares que não haviam sido encontrados por meio das buscas nas bases de dados, mas que preenchessem os critérios de inclusão adotados no presente estudo. Realizou-se também a “repescagem” por meio da busca de referências no Google Acadêmico.

RESULTADOS

A primeira busca na base de dados PubMed, com estratégias gerais (utilizando-se, por exemplo, diferentes combinações dos descritores no campo “all fields”), originou 2.776 referências. Todavia, pelo fato de as referências encontradas apresentarem conteúdo muito distante do objetivo desta revisão, optou-se apenas por duas estratégias: imagem corporal e especificamente insatisfação corporal, restringindo-se o campo de busca para “title/abstract”, que, somadas aos resultados das outras bases de dados, totalizaram 421 referências. A Tabela 1 apresenta o número de referências encontradas em cada base de dados segundo a estratégia de busca utilizada para a insatisfação corporal entre universitários.

Na primeira etapa da análise e seleção, excluíram-se 219 artigos, sendo 88 de acordo com o título e 131 repetidos. Dos 202 artigos selecionados para a segunda etapa (leitura dos resumos), 54 foram excluídos pelo objetivo, 40 por não incluir uma amostra exclusivamente composta por universitários, quatro por avaliar apenas percepção corporal, e outros quatro pelos instrumentos utilizados (desenvolvidos pelos próprios autores e/ou não validados; ou ainda quando não houve clareza na sua descrição). Para a terceira etapa iniciou-se, portanto, com a leitura na íntegra de 100 estudos; desta se excluíram 40: 20 tratavam de validação de escalas e não apresentaram os dados de insatisfação corporal, 11 não apresentaram diretamente a frequência/prevalência de insatisfação corporal, e outros sete em virtude do instrumento utilizado (não validado); foram excluídos ainda dois artigos em função do idioma (grego e lituano) – pela impossibilidade de compreensão do trabalho e resultados. Assim, ao fim das três etapas, foram selecionadas 60 referências.

A estratégia de “repescagem” realizada no Google Acadêmico resultou na inclusão de mais oito referências, e a checagem das referências dos estudos resultou também em mais oito artigos. Dessa maneira, o total de referências selecionadas para a presente revisão integrativa foi de 76.

As etapas de seleção das referências e da estratégia de “repescagem” podem ser visualizadas na Figura 1.

Figura 1
Etapas de seleção dos artigos incluídos na revisão integrativa sobre insatisfação corporal entre universitários.

Dos artigos selecionados, que avaliaram a insatisfação corporal dentre os universitários, foram destacados a autoria, o ano de publicação, a amostra (de acordo com o sexo), o local, o objetivo central, os cursos (dos quais os universitários eram alunos), os instrumentos utilizados e os resultados encontrados. As Tabelas 2 e 3 apresentam os estudos nacionais e internacionais, respectivamente.

Tabela 2
Estudos nacionais realizados sobre avaliação da insatisfação corporal entre estudantes universitários (N = 40)
Tabela 3
Estudos internacionais realizados sobre avaliação da insatisfação corporal entre estudantes universitários (N = 36)

Observa-se a existência de 40 estudos nacionais, com tamanho amostral de 44 a 2.402 indivíduos (10% destes utilizaram amostra probabilística), realizados em 11 estados, entre os anos de 2006 e 2015 – dentre os quais se destacam sete realizados por autores do Núcleo de Pesquisa em Cineantropometria e Desempenho Humano da Universidade Federal de Santa Catarina1010. Ferrari EP, Petroski EL, Silva DA. Associação entre percepção da imagem corporal e estágios de mudança de comportamento em acadêmicos de educação física. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum. 2012;14(5):535-44.,5151. Coqueiro RS, Petroski EL, Pelegrini A, Barbosa AR. Insatisfação com a imagem corporal: avaliação comparativa da associação com estado nutricional em universitários. Rev Psiquiatr RS. 2008;30(1):31-168.,5757. Quadros TMB, Gordia AP, Martins CR, Silva DAS, Ferrari EP, Petroski EL. Imagem corporal em universitários: associação com estado nutricional e sexo. Motriz Rev Educ Fís. 2010;16(1):78-85.,5858. Claumann GS, Pereira EF, Inácio S, Santos MC, Martins AC, Pelegrini A. Satisfação com a imagem corporal em acadêmicos ingressantes em cursos de educação física. Rev Educ Fís/UEM. 2014;25(4):575-83.,6262. Martins CR, Gordia AP, Silva DAS, Quadros TMB, Ferrari EP, Teixeira DM, et al. Insatisfação com a imagem corporal e fatores associados em universitários. Estud Psicol. 2012;17(2):241-6.,6464. Ferrari EP, Gordia AP, Martins CR, Silva DA, Quadros TM, Petroski EL. Insatisfação com a imagem corporal e relação com o nível de atividade física e estado nutricional em universitários. Motri. 2012;8(3):52-8.,6868. Ferrari EP, Petroski EL, Silva DA. Prevalence of body image dissatisfaction and associated factors among physical education students. Trends Psychiatry Psychother. 2013;35(2):119-27., e quatro por membros do Departamento de Fundamentos da Educação Física da Universidade Federal de Juiz de Fora1717. Carvalho PHB, Filgueiras JF, Neves MC, Coelho FD, Ferreira MEC. Checagem corporal, atitude alimentar inadequada e insatisfação com a imagem corporal de jovens universitários. J Bras Psiquiatr. 2013;62(2):108-14.,1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32.,6060. Fortes LS, Miranda VPN, Carvalho PHB, Ferreira MEC. Influências do nível de atividade física e do estado nutricional na insatisfação corporal de universitários de Educação Física. HU Rev. 2011;37(2):175-80.,6363. Miranda PN, Neves CM, Filgueiras JF, Carvalho PHB, Ferreira MEC. Nível de atividade física e satisfação corporal em estudantes de Educação Física. R Bras Ci e Mov. 2013;21(2):98-105. – nos idiomas português e inglês.

Dentre os estudos que descreveram o curso no qual os universitários eram matriculados, houve maior frequência para os cursos de Educação Física e Nutrição. Dos instrumentos utilizados para avaliação da IC, houve maior frequência para as escalas de silhuetas – como a de Stunkard7272. Stunkard AJ, Sorensen T, Schulsinger F. Use of the Danish adoption register for the study of obesity and thinness. Res Publ Assoc Res Nerv Ment Dis. 1983;60:115-20. e a de Silhuetas Brasileiras7373. Kakeshita IS. Adaptação e validação de escalas de silhuetas para crianças e adultos brasileiros. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2008. – (44,7%), e dentre os questionários, destaca-se o uso do Body Shape Questionnaire5353. Di Pietro M, Silveira DX. Internal validity, dimensionality and performance of the Body Shape Questionnaire in a group of Brazilian college students. Rev Bras Psiquiatr. 2009;31(1):21-4. – BSQ (38,3%), sendo que alguns estudos utilizaram questionários e escala de silhuetas.

Quanto à frequência de universitários brasileiros – de ambos os sexos – insatisfeitos com a IC, encontrou-se uma variação de 8,3% a 87%; já no âmbito populacional (entre os quatro trabalhos com amostragem probabilística), a prevalência de insatisfação foi de 47,3% a 77,9% (sem distinção de avaliação entre sexos).

Nos estudos que apresentaram a distinção da frequência em relação ao sexo, encontrou-se insatisfação de 17,4% a 82,5% para as mulheres, e de 2,25% a 73,41% para homens. A frequência/prevalência de insatisfação variou em função dos instrumentos utilizados: estudos que avaliaram esse construto por meio de escalas de silhuetas mostraram variação de 61,2% a 79,2% – quando houve a separação por sexo, para mulheres a variação foi de 30,6% a 82,5% e para os homens, de 31,1% a 73,41%. Já nos estudos que utilizaram apenas o BSQ a variação foi de 8,3% a 47,3% (dados para amostra geral). Dois estudos utilizaram a escala de silhuetas e o questionário BSQ simultaneamente: um deles em MG encontrou ausência de insatisfação por meio do BSQ, mas pela escala de silhuetas a insatisfação foi de 76,6%1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32.; enquanto outro no RS encontrou insatisfação moderada de 16,7% de acordo com o BSQ, mas, pela escala de silhuetas, a insatisfação foi de 55,4%7070. Nilson G, Pardo ER, Rigo LC, Hallal PC. Espelho, espelho meu: um estudo sobre autoimagem corporal de estudantes universitários. Rev Bras Ativ Fís Saúde. 2013;18(1):112-20..

Houve maior frequência de estudos realizados nas regiões sul (47,5% – destes, 30% realizados em SC), e sudeste do Brasil (35%). Os estudos realizados em SC avaliando esse construto exclusivamente por meio de escalas de silhuetas encontraram elevadas frequências de insatisfação corporal (de 69,5% a 79,2%) para amostra geral5151. Coqueiro RS, Petroski EL, Pelegrini A, Barbosa AR. Insatisfação com a imagem corporal: avaliação comparativa da associação com estado nutricional em universitários. Rev Psiquiatr RS. 2008;30(1):31-168.,5757. Quadros TMB, Gordia AP, Martins CR, Silva DAS, Ferrari EP, Petroski EL. Imagem corporal em universitários: associação com estado nutricional e sexo. Motriz Rev Educ Fís. 2010;16(1):78-85.,5858. Claumann GS, Pereira EF, Inácio S, Santos MC, Martins AC, Pelegrini A. Satisfação com a imagem corporal em acadêmicos ingressantes em cursos de educação física. Rev Educ Fís/UEM. 2014;25(4):575-83.,6262. Martins CR, Gordia AP, Silva DAS, Quadros TMB, Ferrari EP, Teixeira DM, et al. Insatisfação com a imagem corporal e fatores associados em universitários. Estud Psicol. 2012;17(2):241-6.,6868. Ferrari EP, Petroski EL, Silva DA. Prevalence of body image dissatisfaction and associated factors among physical education students. Trends Psychiatry Psychother. 2013;35(2):119-27., enquanto os que utilizaram apenas o BSQ encontraram de 10,1% a 47,7%1111. Costa LCF, Vasconcelos FAG. Influência de fatores socioeconômicos, comportamentais e nutricionais na insatisfação com a imagem corporal de universitárias em Florianópolis, SC. Rev Bras Epidemiol. 2010;13(4):665-76.,6464. Ferrari EP, Gordia AP, Martins CR, Silva DA, Quadros TM, Petroski EL. Insatisfação com a imagem corporal e relação com o nível de atividade física e estado nutricional em universitários. Motri. 2012;8(3):52-8.. Também no sul do Brasil (RS e PR) houve frequência de 61,2% e 79,1% para estudos que utilizaram apenas a escala de silhuetas2828. Rech CR, Araújo EDS, Vanat JR. Autopercepção da imagem corporal em estudantes do curso de educação física. Rev Bras Educ Fís Esporte. 2010;24(2):285-92.,4040. Jaeger MB, Câmara SC. Media and life dissatisfaction as predictors of body dissatisfaction. Paidéia (Ribeirão Preto). 2015;25(61):183-90. e de 8,3% e 47,1% nos estudos que utilizaram apenas o BSQ1313. Damasceno ML, Schubert A, Oliveira AP, Sonoo CN, Vieira JLL, Vieira LF. Associação entre comportamento alimentar, imagem corporal e esquemas de gênero do autoconceito de universitárias praticantes de atividades físicas. Rev. Bras Ativ Fís Saúde. 2011;16(2):138-43.,6161. Legnani RFS, Legnani E, Pereira EF, Gasparotto GS, Vieira LF, Campos W. Transtornos alimentares e imagem corporal em acadêmicos de Educação Física. Motriz Rev Educ Fís. 2012;18(1):84-91.,6666. Souza S, Verrengia EC. Autopercepção da imagem corporal e prevalência de comportamentos sugestivos de anorexia nervosa em universitários. Revista Uningá, Maringá, PR. 2012;34:23-31..

Na região sudeste, para estudos que utilizaram apenas escalas de silhuetas, encontraram-se frequências de 75,8% para amostra geral2727. Gonçalves TD, Barbosa MP, Rosa LCL, Rodrigues AM. Comportamento anoréxico e percepção corporal em universitários. J Bras Psiquiatr. 2008;57(3):166-70., 82,5% e 73,41% para mulheres e homens, respectivamente2424. Laus MF. Influência do padrão de beleza veiculado pela mídia na satisfação corporal e escolha alimentar de adultos. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2012.; e a variação foi de 13,7% a 46%66. Bosi MLM, Luis RR, Morgado CMC, Costa MLS, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. 2006;55(2):108-13.,3838. Silva JD, Silva AB, Oliveira AV, Nemer AS. Influência do estado nutricional no risco para transtornos alimentares em estudantes de nutrição. Cien Saúde Colet. 2012;17(12):3399-406.,5454. Laus MF, Moreira RCM, Costa MB. Diferenças na percepção da imagem corporal, no comportamento alimentar e no estado nutricional de universitárias das áreas de saúde e humanas. Rev Psiquiatr RS. 2009;31(3):192-96. quando apenas o BSQ foi utilizado.

Um dos estudos avaliou a insatisfação corporal em amostra composta por universitários de dois estados do Nordeste (AL e SE), sem distinção nos resultados para insatisfação corporal entre os estados5656. Costa KCBC, Santos NO, Modesto SF, Benute GRG, Lobo RCMM, DeLucia MCS. Insatisfação corporal em estudantes universitários da área de saúde nos Estados de Alagoas e Sergipe. Mudanças – Psicologia da Saúde. 2010;18(1):1-6.. Apenas um estudo avaliou a insatisfação de imagem corporal em amostra composta por universitárias de todas as regiões do Brasil e não encontrou diferença significativa entre elas88. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenço BH, Sato PM, Scagliusi FB. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010;59(1):44-51..

Os resultados dos estudos internacionais estão na Tabela 3.

Foram selecionados 36 estudos internacionais, realizados em 22 países, com amplitude amostral de 55 a 3.127 indivíduos (e ausência de estudos com amostra probabilística), no período entre 1987 a 2015 (destes, apenas dois foram realizados antes do ano de 2001). Os idiomas dessas referências foram inglês e espanhol. Quando houve a descrição dos cursos avaliados, foram mais frequentes o de Psicologia, seguido pelo curso de Medicina.

Quanto aos instrumentos utilizados, podem-se citar as escalas de silhuetas – de Stunkard7272. Stunkard AJ, Sorensen T, Schulsinger F. Use of the Danish adoption register for the study of obesity and thinness. Res Publ Assoc Res Nerv Ment Dis. 1983;60:115-20., a Body Figure Silhouettes7272. Stunkard AJ, Sorensen T, Schulsinger F. Use of the Danish adoption register for the study of obesity and thinness. Res Publ Assoc Res Nerv Ment Dis. 1983;60:115-20. e a Figure Rating Scale7272. Stunkard AJ, Sorensen T, Schulsinger F. Use of the Danish adoption register for the study of obesity and thinness. Res Publ Assoc Res Nerv Ment Dis. 1983;60:115-20. – (26,3%); e questionários como o BSQ1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32. (15,8%), o Eating Disorder Inventory8989. Garner DM, Olmstead MP, Polivy J. Development and validation of a multidimensional eating disorder inventory for anorexia nervosa and bulimia. Int J Eat Disorder. 1983;2:15-49. – EDI (15,8%), e o Body-Self Relations Questionnaire Appearance Scales – MBSRQ (7%).

No cenário internacional, a frequência de universitários com insatisfação da IC foi de 5,2% a 85,5%. Quando houve a distinção da frequência por sexo, a insatisfação variou de 40,4% a 87% para mulheres, e de 32,8% a 70% para homens. Quanto à variação da frequência de insatisfação corporal em função dos instrumentos utilizados – dados para a amostra geral – naqueles que usaram apenas escalas de silhuetas a variação foi de 51,6% a 74,8%. Nos estudos que utilizaram apenas o BSQ, as frequências de insatisfação foram de 36% a 41,1%; e o estudo que utilizou apenas o EDI encontrou 85,5% de insatisfação.

Quanto às frequências de insatisfação corporal por países e continentes (em estudos que apresentaram os resultados por meio de frequências), verificou-se, para a amostra geral (sem divisão entre sexo), 82% nos Estados Unidos da América (EUA)7777. Parker SC, Lyons J, Bonner J. Eating disorders in graduate students: exploring the SCOFF questionnaire as a simple screening tool. J Am Coll Health. 2005;54(2):103-7., 41,1% na Venezuela2020. Atencio PL, Prado JR, Montilla M, Viana ZM, Silva G, Arteaga F. Insatisfacción por la imagen corporal y la baja autoestima por la apariencia física en estudiantes de la facultad de medicina de la Universidad de los Andes del Estado Merida Venezuela. MHSalud. 2008;5(1)., de 5,2% a 74,8% na Ásia Ocidental55. Yahia N, El-Ghazale H, Achkar A, Rizk S. Dieting practices and body image perception among Lebanese university students. Asia Pac J Clin Nutr. 2011;20(1):21-8.,1414. Nergiz-Unal R, Bilgiç P, Yabancı N. High tendency to the substantial concern on body shape and eating disorders risk of the students majoring Nutrition or Sport Sciences. Nutr Res Pract. 2014;8(6):713-8.,4141. Alipour B, Farhangi MA, Dehghan P, Alipour M. Body image perception and its association with body mass index and nutrient intakes among female college students aged 18-35 years from Tabriz, Iran. Eat Weight Disord. 2015.,4848. As-Sa’edi E, Sheerah S, Al-Ayoubi R, Al-Jehani A, Tajaddin W, Habeeb H. Body image dissatisfaction: prevalence and relation to body mass index among female medical students in Taibah University, 2011. J Taibah Univ Med Sci. 2013;8(2):126-33.,8686. Thomas J, Khan S, Abdulrahman AA. Eating attitudes and body image concerns among female university students in the United Arab Emirates. Appetite. 2010;54(3):595-8. e de 73,6% a 85,5% na Europa2121. Hernández N, Alves D, Arroyo M, Basabe N. Del miedo a la obesidad a la obsesión por la delgadez; actitudes y dieta. Nutr Hosp. 2012;27(4):1148-55.,8181. Santos JCNS. Relação entre composição corporal, imagem corporal, atividade física e inteligência emocional em alunos universitários: estudo numa população portuguesa. Tese de Doutorado, Facultad de Ciencias de la Educación, Universidad de Huelva, 2012.. Nos estudos em que houve distinção dos sexos, para mulheres a insatisfação de IC foi de 87% na Europa8282. Zaccagni L, Masotti S, Donati R, Mazzoni G, Gualdi-Russo E. Body image and weight perceptions in relation to actual measurements by means of a new index and level of physical activity in Italian university students. J Transl Med. 2014;11:42., 84,1% nos EUA7474. Hesse-Biber S, Clayton-Matthews A, Downey JA. The differential importance of weight and body image among college men and women. Genet Soc Gen Psychol Monogr. 1987;113(4):509-28., 82% no México8787. Cortes JZ, Saucedo-Molina TJ, Fernández Cortés TL. Odds ratio between sociocultural factors, body dissatisfaction, and body mass index in university students of Hidalgo, Mexico. Arch Latinoam Nutr. 2011;61(1):20-7. e 40,4% no Oriente Médio8484. Taqui AM, Shaikh M, Gowani SA, Shahid F, Khan A, Tayyeb SM, et al. Body dysmorphic disorder: gender differences and prevalence in a Pakistani medical student population. BMC Psychiatry. 2008;8:20.; enquanto para os homens foi de 66,7% na Europa8282. Zaccagni L, Masotti S, Donati R, Mazzoni G, Gualdi-Russo E. Body image and weight perceptions in relation to actual measurements by means of a new index and level of physical activity in Italian university students. J Transl Med. 2014;11:42., 45% nos EUA7474. Hesse-Biber S, Clayton-Matthews A, Downey JA. The differential importance of weight and body image among college men and women. Genet Soc Gen Psychol Monogr. 1987;113(4):509-28., 70% no México8787. Cortes JZ, Saucedo-Molina TJ, Fernández Cortés TL. Odds ratio between sociocultural factors, body dissatisfaction, and body mass index in university students of Hidalgo, Mexico. Arch Latinoam Nutr. 2011;61(1):20-7. e 32,8% no Oriente Médio8484. Taqui AM, Shaikh M, Gowani SA, Shahid F, Khan A, Tayyeb SM, et al. Body dysmorphic disorder: gender differences and prevalence in a Pakistani medical student population. BMC Psychiatry. 2008;8:20. – todavia, a efetiva comparação não pode ser realizada, uma vez que esses estudos não utilizaram amostra probabilística e outros não apresentaram necessariamente os resultados em frequência de indivíduos insatisfeitos.

Apenas três estudos internacionais compararam a insatisfação corporal de universitários de diferentes países: o primeiro encontrou (por meio de escalas de silhuetas) que as universitárias australianas eram mais insatisfeitas (e tinham menor autoestima) do que as paquistanesas2626. Mahmud N, Crittenden N. A comparative study of body image of Australian and Pakistani young females. Br J Psychol. 2007;98:187-97.; o segundo verificou que universitários chineses que viviam em Hong Kong apresentaram maior insatisfação corporal, prática de dietas e depressão do que os universitários chineses que viviam nos EUA7575. Davis C, Katzman MA. Chinese men and women in the United States and Hong Kong: body and self-esteem ratings as a prelude to dieting and exercise. Int J Eat Disord. 1998;23(1):99-102.; e o terceiro encontrou (por meio do BSQ) que as universitárias dos EUA eram mais insatisfeitas do que as da Bósnia7878. Serifović S, Dinnel DL, Sinanović O. Body dissatisfaction: how is it related to stress and one’s perception of individual and cultural ideal body? A comparison of Bosnian and American university students. Bosn J Basic Med Sci. 2005;5:27-33..

Alguns estudos (nacionais e internacionais) não apresentaram exatamente a frequência de universitários insatisfeitos com sua imagem corporal, mas sim analisaram a influência de alguns fatores como estado nutricional, fatores fisiológicos e psicológicos (como idade, período menstrual, depressão, ansiedade), bem como a exposição ao conteúdo de mídias e redes sociais. Embora esse não seja foco desta revisão, esses trabalhos destacaram que a exposição a esse tipo de conteúdo, o período menstrual e a baixa autoestima são fatores que podem aumentar a insatisfação corporal (Tabelas 2 e 3).

O delineamento da maior parte dos estudos foi transversal, com exceção de um estudo de coorte realizado nos EUA, no qual as mulheres de etnia branca, asiática e hispânica aumentaram a avaliação negativa sobre sua aparência e também a preocupação com o peso até o início da década de 19904242. Cash TF, Morrow JA, Hrabosky JI, Perry AA. How has body image changed? A cross-sectional investigation of college women and men from 1983 to 2001. J Consul Clin Psych. 2004;72(6):1081-9.. Embora o desenho tenha sido transversal, outro estudo realizado nos EUA comparou a insatisfação de IC em universitárias em períodos diferentes (em 1983-1984 e 1995-1998) e verificou que houve efeito do sexo (as mulheres continuavam mais insatisfeitas do que os homens), mas não houve efeito do tempo na insatisfação corporal7676. Rozin P, Trachtenberg S, Cohen AB. Stability of body image and body image dissatisfaction in American college students over about the last 15 years. Appetite. 2001;37(3):245-8..

DISCUSSÃO

A presente revisão integrativa teve como objetivo caracterizar a insatisfação corporal entre universitários e encontrou uma ampla frequência dependendo do sexo, instrumento utilizado e local de realização do estudo. A amplitude da insatisfação considerando-se ambos os sexos e em todos os países foi grande, variando de 5% a 87%. Como a metodologia (incluindo tipo do instrumento) e amostragem são muito diversos, a comparação e a interpretação desses resultados não são simples.

De qualquer forma, considerando-se a amostra geral, a variação de frequência/prevalência de insatisfação foi semelhante nos estudos nacionais e internacionais (menos de 10% até mais de 85%), parecendo indicar que o problema se apresenta de maneira semelhante em termos de localidade para jovens universitários e que as variações se devem ao sexo e metodologia de análise do construto. Deve-se considerar, no entanto, que pequena parcela desses estudos usou amostragem probabilística, o que não permite a extrapolação dos resultados para todos estados/países estudados.

Em qualquer localidade, a insatisfação foi maior quando avaliada por meio de escalas de silhuetas do que quando avaliada por meio do BSQ. As escalas de silhuetas avaliam apenas o tamanho e forma corporal, enquanto os questionários avaliam também pensamentos, sentimentos e comportamentos do indivíduo em relação ao seu corpo1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32.; dessa forma, as silhuetas limitam a escolha do indivíduo a apenas uma das figuras, e, quando se escolhe uma figura diferente, já se configura insatisfação – todavia, trata-se de um método válido, fidedigno e usualmente aplicado1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32.,2424. Laus MF. Influência do padrão de beleza veiculado pela mídia na satisfação corporal e escolha alimentar de adultos. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2012.,5050. Kakeshita IS, Almeida SS. Relação entre índice de massa corporal e a percepção da autoimagem em universitários. Rev Saúde Públ. 2006;40(3):497-504..

Quando houve a descrição do curso, verificou-se maior frequência de estudos realizados com universitários da área da saúde (no Brasil: Educação Física e Nutrição; e internacionalmente, Psicologia). Os cursos de Educação Física e Nutrição podem ser mais avaliados por terem uma base fundamentalmente biológica em que, implicitamente, se espera que esses futuros profissionais sejam exemplos de “saúde perfeita” (incluindo questões corporais), mas, na verdade, sabe-se que estudantes desses cursos apresentam maior risco para desenvolvimento e manutenção de transtornos de IC e/ou alimentares66. Bosi MLM, Luis RR, Morgado CMC, Costa MLS, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. 2006;55(2):108-13.,1010. Ferrari EP, Petroski EL, Silva DA. Associação entre percepção da imagem corporal e estágios de mudança de comportamento em acadêmicos de educação física. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum. 2012;14(5):535-44.,3232. Silva TR, Saenger G, Pereira ER. Fatores associados à imagem corporal em estudantes de Educação Física. Motriz Rev Educ Fís. 2011;17(4):630-9.,3737. Quioca T, Lange F, Grigollo LR, Noradi Junior RJ. Percepção da imagem e saúde corporal dos universitários do Curso de Educação Física da Unoesc de Joaçaba, SC. Evid. (Joaçaba, Online). 2010;10(1):43-56.,3838. Silva JD, Silva AB, Oliveira AV, Nemer AS. Influência do estado nutricional no risco para transtornos alimentares em estudantes de nutrição. Cien Saúde Colet. 2012;17(12):3399-406.,6868. Ferrari EP, Petroski EL, Silva DA. Prevalence of body image dissatisfaction and associated factors among physical education students. Trends Psychiatry Psychother. 2013;35(2):119-27.. Ressalta-se também que indivíduos predispostos a esses transtornos podem optar por carreiras na área da saúde, atraídos por conteúdos como alimentação, prática de atividade física, bioquímica e metabolismo5454. Laus MF, Moreira RCM, Costa MB. Diferenças na percepção da imagem corporal, no comportamento alimentar e no estado nutricional de universitárias das áreas de saúde e humanas. Rev Psiquiatr RS. 2009;31(3):192-96.,5959. Garcia CA, Castro TG, Soares RM. Comportamento alimentar e imagem corporal entre estudantes de nutrição de uma universidade pública de Porto Alegre – RS. Rev HCPA. 2010;30(3):219-24.,7070. Nilson G, Pardo ER, Rigo LC, Hallal PC. Espelho, espelho meu: um estudo sobre autoimagem corporal de estudantes universitários. Rev Bras Ativ Fís Saúde. 2013;18(1):112-20..

No Brasil, 80% dos estudos foram realizados nas regiões sul e sudeste. Nas demais regiões do país, a frequência/prevalência da insatisfação aparentemente foi menor1212. Prado MCL. Associação entre transtornos alimentares, fatores orexígenos, anorexígenos, perinatais e neonatais em universitários. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, 2012.,5656. Costa KCBC, Santos NO, Modesto SF, Benute GRG, Lobo RCMM, DeLucia MCS. Insatisfação corporal em estudantes universitários da área de saúde nos Estados de Alagoas e Sergipe. Mudanças – Psicologia da Saúde. 2010;18(1):1-6.,6969. Assis CL, Borine B, Lacerda SR, Costa A. Autoavaliação de peso corporal e classificação do índice de massa corporal de estudantes do ensino superior de Cacoal (RO). Mudanças – Psicologia da Saúde. 2013;21(2):30-9.,7171. Silva DAS, Nunes HEG. Imagem corporal e estágios de mudança de comportamento para atividade física em universitários. Rev Bras Ativ Fis e Saúde. 2014;19(5):597-8.; todavia, em função do objetivo e amostragem não é possível saber se há diferença entre regiões nesta comparação, mas sim que o fenômeno é muito mais estudado em algumas regiões do que outras. Além disso, apenas um estudo comparou as diferentes regiões do Brasil e não encontrou diferença significativa para a insatisfação corporal das universitárias88. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenço BH, Sato PM, Scagliusi FB. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010;59(1):44-51.. Tal achado aponta para a concepção de que, embora o Brasil seja um país com uma ampla diversidade cultural, há um “descontentamento normativo” no que diz respeito ao corpo, no qual as exigências socioculturais de beleza tornam o padrão de corpo ideal muito semelhante, independente do local. Entretanto, como este estudo não utilizou amostragem probabilística88. Alvarenga MS, Philippi ST, Lourenço BH, Sato PM, Scagliusi FB. Insatisfação com a imagem corporal em universitárias brasileiras. J Bras Psiquiatr. 2010;59(1):44-51., não se pode generalizar o resultado encontrado.

No âmbito internacional, observou-se que insatisfação corporal em ambos os sexos apresentou frequências amplamente variadas e relativamente semelhantes nos EUA7777. Parker SC, Lyons J, Bonner J. Eating disorders in graduate students: exploring the SCOFF questionnaire as a simple screening tool. J Am Coll Health. 2005;54(2):103-7., Ásia Ocidental55. Yahia N, El-Ghazale H, Achkar A, Rizk S. Dieting practices and body image perception among Lebanese university students. Asia Pac J Clin Nutr. 2011;20(1):21-8.,1414. Nergiz-Unal R, Bilgiç P, Yabancı N. High tendency to the substantial concern on body shape and eating disorders risk of the students majoring Nutrition or Sport Sciences. Nutr Res Pract. 2014;8(6):713-8.,4141. Alipour B, Farhangi MA, Dehghan P, Alipour M. Body image perception and its association with body mass index and nutrient intakes among female college students aged 18-35 years from Tabriz, Iran. Eat Weight Disord. 2015.,4848. As-Sa’edi E, Sheerah S, Al-Ayoubi R, Al-Jehani A, Tajaddin W, Habeeb H. Body image dissatisfaction: prevalence and relation to body mass index among female medical students in Taibah University, 2011. J Taibah Univ Med Sci. 2013;8(2):126-33.,8686. Thomas J, Khan S, Abdulrahman AA. Eating attitudes and body image concerns among female university students in the United Arab Emirates. Appetite. 2010;54(3):595-8. e Europa2121. Hernández N, Alves D, Arroyo M, Basabe N. Del miedo a la obesidad a la obsesión por la delgadez; actitudes y dieta. Nutr Hosp. 2012;27(4):1148-55.,8181. Santos JCNS. Relação entre composição corporal, imagem corporal, atividade física e inteligência emocional em alunos universitários: estudo numa população portuguesa. Tese de Doutorado, Facultad de Ciencias de la Educación, Universidad de Huelva, 2012.. Nos estudos em que houve a distinção da insatisfação entre os sexos, as mulheres da Europa8282. Zaccagni L, Masotti S, Donati R, Mazzoni G, Gualdi-Russo E. Body image and weight perceptions in relation to actual measurements by means of a new index and level of physical activity in Italian university students. J Transl Med. 2014;11:42., EUA7474. Hesse-Biber S, Clayton-Matthews A, Downey JA. The differential importance of weight and body image among college men and women. Genet Soc Gen Psychol Monogr. 1987;113(4):509-28. e México8787. Cortes JZ, Saucedo-Molina TJ, Fernández Cortés TL. Odds ratio between sociocultural factors, body dissatisfaction, and body mass index in university students of Hidalgo, Mexico. Arch Latinoam Nutr. 2011;61(1):20-7. apresentaram frequências bastante semelhantes e maiores do que as mulheres do Oriente Médio8484. Taqui AM, Shaikh M, Gowani SA, Shahid F, Khan A, Tayyeb SM, et al. Body dysmorphic disorder: gender differences and prevalence in a Pakistani medical student population. BMC Psychiatry. 2008;8:20., enquanto os homens do México8787. Cortes JZ, Saucedo-Molina TJ, Fernández Cortés TL. Odds ratio between sociocultural factors, body dissatisfaction, and body mass index in university students of Hidalgo, Mexico. Arch Latinoam Nutr. 2011;61(1):20-7. eram mais insatisfeitos, seguidos dos europeus8282. Zaccagni L, Masotti S, Donati R, Mazzoni G, Gualdi-Russo E. Body image and weight perceptions in relation to actual measurements by means of a new index and level of physical activity in Italian university students. J Transl Med. 2014;11:42., estadunidenses7474. Hesse-Biber S, Clayton-Matthews A, Downey JA. The differential importance of weight and body image among college men and women. Genet Soc Gen Psychol Monogr. 1987;113(4):509-28. e dos homens do Oriente Médio8484. Taqui AM, Shaikh M, Gowani SA, Shahid F, Khan A, Tayyeb SM, et al. Body dysmorphic disorder: gender differences and prevalence in a Pakistani medical student population. BMC Psychiatry. 2008;8:20.. Tais achados evidenciam a diferença sociocultural no contexto da IC, uma vez que, nos países ocidentais, os ideais de beleza são mais firmemente impostos e amplamente propagados pela mídia e redes sociais, provocando maior insatisfação corporal pela discrepância entre o corpo real e os padrões cada vez mais rígidos e inatingíveis2626. Mahmud N, Crittenden N. A comparative study of body image of Australian and Pakistani young females. Br J Psychol. 2007;98:187-97.,4848. As-Sa’edi E, Sheerah S, Al-Ayoubi R, Al-Jehani A, Tajaddin W, Habeeb H. Body image dissatisfaction: prevalence and relation to body mass index among female medical students in Taibah University, 2011. J Taibah Univ Med Sci. 2013;8(2):126-33.,6060. Fortes LS, Miranda VPN, Carvalho PHB, Ferreira MEC. Influências do nível de atividade física e do estado nutricional na insatisfação corporal de universitários de Educação Física. HU Rev. 2011;37(2):175-80.,7777. Parker SC, Lyons J, Bonner J. 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Quanto aos estudos que avaliaram fatores possivelmente associados à IC, estudo nacional verificou que estudantes com obesidade e sobrepeso apresentaram de cinco a sete vezes mais chances de insatisfação do que as eutróficas – sendo que o maior percentual de gordura corporal e perímetro da cintura elevado também aumentou a insatisfação3838. Silva JD, Silva AB, Oliveira AV, Nemer AS. Influência do estado nutricional no risco para transtornos alimentares em estudantes de nutrição. Cien Saúde Colet. 2012;17(12):3399-406.. Nos EUA, o índice de massa corpórea (IMC) foi o mais forte preditor de insatisfação corporal entre as universitárias (> IMC, > insatisfação)3434. Hausenblas HA, Fallon EA. Relationship among body image, exercise behavior, and exercise dependence symptoms. Int J Eat Disord. 2002;32(2):179-85. – e o mesmo se encontrou para universitárias canadenses2222. Wilson JMB, Tripp DA, Boland FJ. The relative contributions of subjective and objective measures of body shape and size to body image and disordered eating in women. Body Image. 2005;2(3):233-47. e universitários espanhóis2929. Bernárdez MM, Miguélez JDM, Carnero JG, Rodríguez MG. Agreement between the self-perception on the body image and the nutritional status in college students from Orense. Nutr Hosp. 2011;26(3):472-9..

Sabe-se que a prática de dietas está intimamente relacionada aos transtornos alimentares1818. Miranda VPN, Filgueiras JF, Neves CM, Teixeira PC, Ferreira MEC. Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento. J Bras Psiquiatr. 2012;61(1):25-32.,2727. Gonçalves TD, Barbosa MP, Rosa LCL, Rodrigues AM. Comportamento anoréxico e percepção corporal em universitários. J Bras Psiquiatr. 2008;57(3):166-70.,3434. Hausenblas HA, Fallon EA. Relationship among body image, exercise behavior, and exercise dependence symptoms. Int J Eat Disord. 2002;32(2):179-85.,4343. Sides-Moore L, Tochkov K. The thinner the better? Competitiveness, depression and body image among college student women. J Coll Stud. 2011:449-46.,5252. Bosi MLM, Luiz RR, Uchimura KY, Oliveira FP. Comportamento alimentar e imagem corporal entre estudantes de educação física. Bras Psiquiatr. 2008;57(1):28-33.,5454. Laus MF, Moreira RCM, Costa MB. Diferenças na percepção da imagem corporal, no comportamento alimentar e no estado nutricional de universitárias das áreas de saúde e humanas. Rev Psiquiatr RS. 2009;31(3):192-96.,8383. Brytek-Matera A, Donini LM, Krupa M, Poggiogalle E, Hay P. Orthorexia nervosa and self-attitudinal aspects of body image in female and male university students. J Eat Disord. 2015;3:2. e é usualmente avaliada por meio do questionário Eating Attitudes Test (EAT). No Canadá as universitárias mais adeptas às dietas eram também mais insatisfeitas com sua IC7979. Mills JS, Miller JL. Experimental effects of receiving negative weight-related feedback: a weight guessing study. Body Image. 2007;4(3):309-16.; já as universitárias de Trinidad e Tobago, Jamaica e Barbados mais insatisfeitas com a IC apresentaram também maior risco para TA1616. Nichols SD, Dookeran SS, Ragbir KK, Dalrymple N. Body image perception and the risk of unhealthy behaviours among university students. West Indian Med J. 2009;58(5):465-71.. Para universitários do sexo masculino dos EUA, houve correlação positiva entre a pontuação no EAT e a insatisfação com a gordura corporal, e correlação negativa entre a pontuação no EAT e a insatisfação relacionada à muscularidade (indicando um desejo por menor massa muscular)3333. Mayo C, George V. Eating disorder risk and body dissatisfaction based on muscularity and body fat in male university students. J Am Coll Health. 2014;62(6):407-15.. Em universitárias gregas8585. Koskina N, Giovazolias T. The effect of attachment insecurity in the development of eating disturbances across gender: the role of body dissatisfaction. J Psychol. 2010;144(5):449-71., a insatisfação corporal mediou a relação com os TA. No âmbito nacional, a insatisfação corporal moderada e grave foi maior nas universitárias com maior risco para TA5252. Bosi MLM, Luiz RR, Uchimura KY, Oliveira FP. Comportamento alimentar e imagem corporal entre estudantes de educação física. Bras Psiquiatr. 2008;57(1):28-33., bem como aumentou o risco de comportamentos de TA4444. Bosi MLM, Uchimura KY, Luiz RR. Eating behavior and body image among psychology students. J Bras Psiquiatr. 2009;58(3):150-5.,5555. Costa LC, Vasconcelos FA, Peres KG. Influence of biological, social and psychological factors on abnormal eating attitudes among female university students in Brazil. J Health Popul Nutr. 2010;28(2):173-81.,5959. Garcia CA, Castro TG, Soares RM. Comportamento alimentar e imagem corporal entre estudantes de nutrição de uma universidade pública de Porto Alegre – RS. Rev HCPA. 2010;30(3):219-24.,6161. Legnani RFS, Legnani E, Pereira EF, Gasparotto GS, Vieira LF, Campos W. Transtornos alimentares e imagem corporal em acadêmicos de Educação Física. Motriz Rev Educ Fís. 2012;18(1):84-91..

Entre outros fatores, estudo nacional encontrou maior insatisfação durante o período menstrual6767. Teixeira AL, Dias MR, Damasceno VO, Lamounier JA, Gardner RM. Association between different phases of menstrual cycle and body image measures of perceived size, ideal size, and body dissatisfaction. Percept Mot Skills. 2013;117(3):892-902.; e outro nacional verificou que os mais velhos eram mais satisfeitos6363. Miranda PN, Neves CM, Filgueiras JF, Carvalho PHB, Ferreira MEC. Nível de atividade física e satisfação corporal em estudantes de Educação Física. R Bras Ci e Mov. 2013;21(2):98-105.. Em relação à influência da mídia e exposição aos padrões de beleza, observou-se que, para universitárias australianas, o maior tempo gasto no Facebook foi positivamente correlacionado com a insatisfação e comparação corporal8888. Cohen R, Blaszczynski A. Comparative effects of Facebook and conventional media on body image dissatisfaction. J Eat Disorder. 2015;23(3):1-11., e que houve relação positiva entre maior tempo de uso da rede social e preocupações com a IC (frequência de comparação corporal com amigos, familiares e celebridades)3939. Fardouly J, Vartanian LR. Negative comparisons about one’s appearance mediate the relationship between Facebook usage and body image concerns. Body Image. 2015;12:82-8.. Também na Austrália a insatisfação corporal influenciou a percepção que os universitários de ambos os sexos tinham sobre as celebridades, ao julgarem-nas mais magras do que realmente são2525. Willinge A, Touyz S, Charles M. How Do body-dissatisfied and body-satisfied males and females judge the size of thin female celebrities? Int J Eat Disord. 2006;39:576-82.. Nos EUA a insatisfação de IC foi maior para as universitárias expostas às imagens de mulheres magras do que as expostas às imagens de mulheres com maior peso e do que os controles4343. Sides-Moore L, Tochkov K. The thinner the better? Competitiveness, depression and body image among college student women. J Coll Stud. 2011:449-46..

Os resultados encontrados chamam a atenção para a variedade de instrumentos utilizados para avaliar o construto da IC entre universitários. O fato de haver grande variação de tamanho amostral, seleção da amostra (probabilística ou não) e objetivo do estudo torna a comparação ainda mais difícil. De qualquer forma, pode-se observar que, independente do método utilizado, as mulheres são mais insatisfeitas do que os homens, uma vez que a elas é imposto um padrão normativo de beleza (fortemente associado à magreza, autocontrole e juventude) de forma mais rígida do que aos homens – o que as torna também mais suscetíveis a internalização de ideais estéticos impostos pela mídia e pela sociedade66. Bosi MLM, Luis RR, Morgado CMC, Costa MLS, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. 2006;55(2):108-13.,1515. Grossbard JR, Neighbors C, Larimer ME. Perceived norms for thinness and muscularity among college students: what do men and women really want? Eat Behav. 2011;12(3): 192-9.,3636. Neighbors LA, Sobal J. Prevalence and magnitude of body weight and shape dissatisfaction among university students. Eat Behav. 2007;8:429-39.,9191. Alvarenga MS, Dunker KLL, Philippi ST, Scagliusi FB. Influência da mídia em universitárias brasileiras de diferentes regiões. J Bras Psiquiatr. 2010;59(2):111-8.,9292. Alvarenga MS, Dunker KLL. Media influence and body dissatisfaction in Brazilian female undergraduate students. Rev Mex Trastor Aliment. 2014;5:20-8..

A imagem corporal é um construto que abrange diversas esferas e, por esse motivo, são inúmeros os fatores que podem contribuir para a insatisfação, como prática de dietas e os transtornos alimentares1313. Damasceno ML, Schubert A, Oliveira AP, Sonoo CN, Vieira JLL, Vieira LF. Associação entre comportamento alimentar, imagem corporal e esquemas de gênero do autoconceito de universitárias praticantes de atividades físicas. Rev. Bras Ativ Fís Saúde. 2011;16(2):138-43.,1616. Nichols SD, Dookeran SS, Ragbir KK, Dalrymple N. Body image perception and the risk of unhealthy behaviours among university students. West Indian Med J. 2009;58(5):465-71.,3333. Mayo C, George V. Eating disorder risk and body dissatisfaction based on muscularity and body fat in male university students. J Am Coll Health. 2014;62(6):407-15.,4444. Bosi MLM, Uchimura KY, Luiz RR. Eating behavior and body image among psychology students. J Bras Psiquiatr. 2009;58(3):150-5.,5555. Costa LC, Vasconcelos FA, Peres KG. Influence of biological, social and psychological factors on abnormal eating attitudes among female university students in Brazil. J Health Popul Nutr. 2010;28(2):173-81.,5656. Costa KCBC, Santos NO, Modesto SF, Benute GRG, Lobo RCMM, DeLucia MCS. Insatisfação corporal em estudantes universitários da área de saúde nos Estados de Alagoas e Sergipe. Mudanças – Psicologia da Saúde. 2010;18(1):1-6.,6161. Legnani RFS, Legnani E, Pereira EF, Gasparotto GS, Vieira LF, Campos W. Transtornos alimentares e imagem corporal em acadêmicos de Educação Física. Motriz Rev Educ Fís. 2012;18(1):84-91.,7878. Serifović S, Dinnel DL, Sinanović O. Body dissatisfaction: how is it related to stress and one’s perception of individual and cultural ideal body? A comparison of Bosnian and American university students. Bosn J Basic Med Sci. 2005;5:27-33.,7979. Mills JS, Miller JL. Experimental effects of receiving negative weight-related feedback: a weight guessing study. Body Image. 2007;4(3):309-16.,8585. Koskina N, Giovazolias T. The effect of attachment insecurity in the development of eating disturbances across gender: the role of body dissatisfaction. J Psychol. 2010;144(5):449-71., exposição ao conteúdo de mídias e redes sociais66. Bosi MLM, Luis RR, Morgado CMC, Costa MLS, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. 2006;55(2):108-13.,1212. Prado MCL. Associação entre transtornos alimentares, fatores orexígenos, anorexígenos, perinatais e neonatais em universitários. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, 2012.,3939. Fardouly J, Vartanian LR. Negative comparisons about one’s appearance mediate the relationship between Facebook usage and body image concerns. Body Image. 2015;12:82-8.,4040. Jaeger MB, Câmara SC. Media and life dissatisfaction as predictors of body dissatisfaction. Paidéia (Ribeirão Preto). 2015;25(61):183-90.,8888. Cohen R, Blaszczynski A. Comparative effects of Facebook and conventional media on body image dissatisfaction. J Eat Disorder. 2015;23(3):1-11., sexo feminino55. Yahia N, El-Ghazale H, Achkar A, Rizk S. Dieting practices and body image perception among Lebanese university students. Asia Pac J Clin Nutr. 2011;20(1):21-8.,66. Bosi MLM, Luis RR, Morgado CMC, Costa MLS, Carvalho RJ. Autopercepção da imagem corporal entre estudantes de nutrição: um estudo no município do Rio de Janeiro. J Bras Psiquiatr. 2006;55(2):108-13.,99. Pereira VA. Corpo ideal, peso normal: transformações na subjetividade feminina. Curitiba: Juruá Editora, 2012.,2121. Hernández N, Alves D, Arroyo M, Basabe N. Del miedo a la obesidad a la obsesión por la delgadez; actitudes y dieta. Nutr Hosp. 2012;27(4):1148-55.

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Considerando esse contexto multidimensional da imagem corporal, não se pode afirmar com certeza se a insatisfação corporal é maior no Brasil ou em qualquer outro país. Embora cada país tenha suas particularidades culturais, quando o assunto é corpo, existem outros fatores de grande influência que podem predizer a insatisfação corporal com maior efeito do que o país em si. Estudo realizado com cerca de 7.400 indivíduos de 26 países diferentes (não inclui Brasil), encontrou que há diferenças intrarregionais significativas no padrão de corpo considerado ideal, mas o tamanho de efeito do país foi pequeno, comparado a outros preditores de maior efeito como a exposição ao conteúdo midiático ocidental, IMC e idade9090. Swami V, Frederick DA, Aavik T, Alcalay L, Allik J, Anderson D, et al. The Attractive Female Body Weight and Female Body Dissatisfaction in 26 Countries Across 10 World Regions: Results of the International Body Project I. Pers Soc Psychol Bull. 2015;36(3):309-25..

A população universitária é comumente estudada em diversas áreas do conhecimento, uma vez que o ambiente universitário propicia a facilidade de acesso a um número considerável de indivíduos com características relativamente semelhantes, mas que ao mesmo tempo possui experiências e vivências diversas. Pode-se citar como uma limitação metodológica do presente estudo a não comparação da insatisfação corporal com a população em geral, uma vez que os estudos aqui analisados tratam dessa temática exclusivamente em população universitária – de qualquer forma, estudos sobre IC concentram-se muitas vezes em públicos específicos, como adolescentes9393. Ferriani MGC, Dias TS, Silva KZ, Martins CS. Autoimagem corporal de adolescentes atendidos em um programa multidisciplinar de assistência ao adolescente obeso. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2005;5:27-33.

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99. Reel JJ, Petrie TA, SooHoo S, Anderson CM. Weight pressures in sport: examining the factor structure and incremental validity of the weight pressures in sport - females. Eat Behav. 2013;14(2):137-44.
-100100. Kong P, Harris LM. The sporting body: body image and eating disorder symptomatology among female athletes from leanness focused and nonleanness focused sports. J Psychol. 2015;149(1-2):141-60. e não população geral. Dessa maneira, destaca-se a importância dos resultados aqui apresentados no panorama nacional e internacional no que diz respeito às particularidades da insatisfação corporal, e os detalhes de avaliação na população jovem universitária, elucidando a complexidade do fenômeno e chamando atenção para a necessidade de padronização na avaliação do construto, para melhor compreensão do tema.

CONCLUSÕES

Foi encontrada uma ampla variação de frequência/prevalência, e formas como a insatisfação corporal se apresentam entre a população universitária nos estudos incluídos nesta revisão. A insatisfação corporal foi influenciada principalmente por fatores como sexo, instrumento, método e objetivo do estudo. Os cursos da área da saúde são mais frequentemente avaliados; instrumentos diversos são utilizados, mas nacionalmente em especial as escalas de silhuetas e o Questionário de Imagem Corporal BSQ. O fenômeno é mais estudado em países ocidentais; e no âmbito nacional, em estados do sul e sudeste.

Sugere-se que estudos probabilísticos de comparação em todo o território nacional, com padronização de instrumentos, possam ser realizados para esclarecer pontos ainda desconhecidos sobre diferenças e semelhanças regionais, culturais, econômicas e biológicas quanto aos distúrbios de imagem corporal.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Sep 2016

Histórico

  • Recebido
    4 Nov 2015
  • Aceito
    25 Jul 2016
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