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O que os psiquiatras fazem?

What does the psychiatrists does?

RESENHA DE LIVRO

O que os psiquiatras fazem?

What does the psychiatrists does?

Carol Sonenreich; Giordano Estevão

O livro " O que os psiquiatras fazem? – Ensaios, 2007 – de Carol Sonenreich e Giordano Estevão é dividido em dez longos capítulos, além da introdução, totalizando 367 páginas de extensão. Trata-se de amplo conjunto de reflexões e críticas de assuntos importantes, dos quais se destacam as classificações oficiais, o delírio, as dependências, a depressão e as várias formas de psicoterapia, inclusive a psicanálise.

Os autores, psiquiatras clínicos muito experientes, conhecidos e responsáveis por inúmeros trabalhos de alta qualidade, fazem levantamento bibliográfico comentado e criticado de praticamente todas as correntes que utilizam a psiquiatria, no seu dia-a-dia, na prática médica. Todos os capítulos cuidam um pouco de história, da evolução de conceitos e como se encontram hoje as várias teorias. O viés no sentido fenomenológico existencial é claro e dissertado sempre em muito bom nível, agradável e um tanto sofisticado. O texto " Fazemos psiquiatria para pessoas no seu mundo" , no fim da introdução, é emblemático do que afirmamos na frase anterior.

Depois da introdução, os autores se esforçam e, acreditamos que conseguem, optam pela escolha da psiquiatria científica, a qual necessita ser formulada em termos comunicáveis que possam ser avaliados e criticados pela coletividade profissional.

Comentando as classificações oficiais, acentuam que a fenomenologia recomenda, para fazer descrições das nossas percepções, o " retorno à experiência singular do sujeito" e, põe-se a favor da medicina das alterações psíquicas. A doença mental deveria ser o instrumento para o trabalho dos psiquiatras. Assim, a psiquiatria poderia ser mais adequadamente estudada e tratada, pensando em estruturas, sistemas e configurações.

Fazem e discutem inúmeras críticas ao sistema DSM.

No capítulo do delírio, um dos mais longos do livro, há críticas aos conceitos de esquizofrenia (construto, inconsistente), TOC, fobia (psicastenia) e idéias delirantes. A maior crítica às teorias existentes sobre esquizofrenia é que elas seriam, terapeuticamente, estéreis em relação à " psicastenia" . Os autores fazem forte crítica aos conceitos de fobia e TOC com os quais seria impossível trabalhar da forma como são classificados pela CID-10 e DSM-IV. Fobia e obsessão estariam ali muito indefinidas. O diagnóstico de delírio, em última análise, seria feito nos casos caracterizados pela perda da comunicação lógica.

Em relação às chamadas dependências, poder-se-ia dizer que, resumindo as idéias dos autores, aqui, tudo é difícil. O tratamento é precário. Poucas são as recuperações. A forte rejeição por parte de certos grupos que nega que o alcoolismo não seja uma doença. Não se pode sequer prever quem vai ser dependente. O capítulo é resumido com a seguinte frase (a nosso ver corretíssima): " O tratamento das doenças mentais decorrentes do uso de substâncias psicoativas permanece tarefa psiquiátrica e, neste sentido, temos que agir para ultrapassar os recursos atuais, tão pouco satisfatórios" .

No campo das demências, o pensamento dos autores se resume na introdução, ou seja, os conceitos, as direções e os métodos de investigação estão em contínuo movimento, não havendo posição nenhuma que satisfaça as necessidades dos pensadores e da clínica, nenhuma que constitua plataforma de aceitação geral. Enfim, os pesquisadores não conseguiram, até agora, vencer as dificuldades conceituais manifestas nos resultados variáveis dos estudos empíricos.

Mais uma vez, no capítulo " Depressão" , os autores fazem fortes críticas às classificações oficiais, alegando ser absolutamente necessária a revisão da classificação dos transtornos depressivos, a fim de evitar a atual confusão conceitual. Também é amplamente discutida a questão do modelo dimensional versus modelo do continuum, com suas vantagens e desvantagens. Acabam os autores por conceituar a depressão como a lentificação em campo vivencial estreitado.

Os autores dissertam sobre as várias formas de terapia, inclusive a psicanálise, que não poderia ser avaliada. Fazem revisão das práticas psicanalíticas e de vários autores dessa linha de pensamento, comparando os vários métodos psicoterapêuticos por eles adotados, criticando todos, e reconhecendo o atual baixo nível da discussão existente, ainda hoje, entre inimigos e adeptos da psicanálise.

Em seguida, discutem sobre objetividade versus subjetividade, apontando grupos de autores e várias teorias a respeito, concluindo que " científico" não exclui " subjetivo" , arrematando o assunto com a seguinte declaração: " Enquanto uns excluem do campo das ciências o subjetivo e exigem caráter empírico para validar um diagnóstico, escolher uma terapia, outros rejeitam essa posição, declarando-as desnecessária e impossível" .

Finalizando o trabalho, apresentam sua " opção psicoterapêutica" , afirmando que seu modo de praticar, entender e conceber a psicoterapia se norteia por trabalhos que poderiam ser chamados fenomenológico-existenciais.

Decididamente o livro atenderá aos interesses de psiquiatras das mais variadas formações pela qualidade de seu conteúdo.

Jorge Adelino Rodrigues da Silva

Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina

da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Set 2008
  • Data do Fascículo
    2008
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