“ERA COMPETITIVO, ERA MUITO COMPETITIVO!”: MEMÓRIAS DO ESPORTE ESCOLAR DE RENDIMENTO EM ESCOLAS PARTICULARES DE CURITIBA (1980-1990)

Pauline Iglesias Vargas André Mendes Capraro Sobre os autores

ABSTRACT

The present study investigated performance school sports practiced in private schools of Curitiba-PR, between 1980 and 1990, through interviews with coaches, athletes and sports managers who experienced the phenomenon in that period. The research is qualitative, and the investigation method used was pure Thematic Oral History. The analyses allowed observing that a good portion of Curitiba's schools back then had performance sports teams; the context of Curitiba's school sports was a sort of metaphor for professional sports; there was a hegemony of team sports; the women's sport sedimented on the interviewees' memory was gymnastics; teams were highly valued in schools; school teams participated in national and international championships; despite the performance character, there was already a difference from the sports played at clubs; some education institutions partnered with sports clubs.

Keywords:
History; Memory; Sports; Schools

RESUMO

O presente estudo investigou a prática do esporte escolar de rendimento em escolas particulares de Curitiba-PR, entre os anos de 1980 e 1990, por meio de entrevistas com técnicos, atletas e gestores esportivos que vivenciaram o fenômeno no período. A pesquisa é de caráter qualitativo e o método de investigação utilizado foi a História Oral temática pura. A partir das análises percebeu-se que boa parte das escolas curitibanas da época mantinham equipes esportivas de rendimento; o contexto do esporte escolar curitibano era uma espécie de metáfora do esporte profissional; havia uma hegemonia dos esportes coletivos; o esporte feminino sedimentado na memória dos entrevistados foi a ginástica; as equipes eram muito valorizadas dentro dos colégios; os times escolares participavam de campeonatos nacionais e internacionais; apesar do caráter de rendimento, já existia diferença do esporte praticado em clubes; algumas instituições de ensino faziam parcerias com clubes esportivos.

Palavras-chave:
História; Memória; Esportes; Escolas

Introdução

É recorrente quando o assunto é a história da educação física: as décadas de 1980 e 1990 foram palco de muitas discussões a respeito da presença do esporte nas instituições de ensino. No entanto, o esporte foi e ainda é praticado em escolas, obviamente seu formato e objetivos também passaram por transformações ao longo dos anos, sendo ele praticado como conteúdo da educação física curricular ou em contraturnos escolares11 Bassani JJ, Torri D, Vaz AFF. Sobre a presença do esporte na escola: paradoxos e ambiguidades. Movimento 2003;9(2):89-112. DOI: 10.22456/1982-8918.2811
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. Contudo, o objeto de estudo deste trabalho é a segunda alternativa, ou seja, fora das aulas de educação física curriculares.

O esporte escolar era oferecido pela maioria das escolas particulares, especialmente as de Curitiba, nas décadas de 1980 e 1990, de forma gratuita com objetivo de rendimento. Afinal, os colégios da época organizavam times de modalidades diferentes para representar as instituições de ensino em competições escolares, estaduais, nacionais e, algumas vezes, internacionais. Isto posto, o objetivo principal desta pesquisa foi investigar, por meio das memórias de quem vivenciou, o esporte escolar de rendimento das instituições particulares de ensino curitibanas, dentre as décadas de 1980 e 1990. Sendo assim, não se trata de averiguar a veracidade dos fatos ocorridos, mas sim as formas com que foram aprendidos e interpretados por quem protagonizou22 Alberti V. Manual de História Oral. 3.ed. Rio de Janeiro: Editora FGV; 2013..

Métodos

A escolha metodológica a fim de responder ao questionamento supracitado é a História Oral temática pura. O método utiliza de entrevistas que contemplem a versão do participante33 Schmitt BD, Bertoldi R, Mazo JZ. Grupos de pesquisa em ciências da saúde e o uso da história oral. Arq Ciênc Saúde 2017;(24):9-13. DOI: 10.17696/2318-3691.24.2.2017.547
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. Neste caso, técnicos, gestores e ex-atletas do esporte escolar curitibano das décadas de 1980 e 1990.

Considerando um silêncio por parte da comunidade científica da área acerca do fenômeno esportivo escolar de rendimento (sobretudo após o processo de redemocratização), a História Oral passa a ser a metodologia apropriada para o tema desta pesquisa, justamente por trazer a luz a perspectiva dos que o vivenciaram44 Alberti V. O fascínio do vivido, ou o que atrai na história oral. Rio de Janeiro: CPDOC; 2003..

A seleção dos participantes foi determinada a partir dos seguintes critérios de inclusão: 1) cada entrevistado(a) teria que ter vivenciado o esporte de rendimento em pelo menos uma escola particular curitibana entre as décadas de 1980 e 1990; 2) ter sido técnico(a), gestor(a) ou atleta; 3) ter atuado em alguma das escolas citadas na primeira entrevista; 4) ter vivência em esporte ou escola diferente dos demais entrevistados. Dentre os possíveis colaboradores foram escolhidos aqueles realmente dispostos a narrar suas memórias e a fornecer informações significativas, conforme indicado por Alberti2:43, “o bom entrevistado”.

Consequentemente, ao todo, foram selecionados seis entrevistados para compor o grupo de colaboradores deste estudo, sendo eles:

Mauro Marturelli Júnior - iniciou sua carreira como treinador de futebol numa escola pública no início dos anos 1980 e devido aos bons resultados foi contratado como técnico pelo Colégio Positivo, onde permaneceu até o início dos anos 2000. Atualmente é gerente de carreiras de atletas brasileiros do futebol.

Marcos Mathias Lamers - atuou por cerca de quinze anos no esporte do Colégio Marista Santa Maria. Na ocasião da entrevista gerenciava o futebol da base do Paraná Clube.

Nádia Dalla Barba -vivenciou o esporte extracurricular no final da década de 1980 como atleta do handebol e, posteriormente, atuou com técnica da mesma modalidade no Colégio Barddal. Não de forma intencional, Nádia representou a visão feminina do objeto seguindo uma proporcionalidade de um a cada seis, ou seja, a única mulher dentre seis entrevistados. Possivelmente essa proporcionalidade, mesmo que não intencional, reflita o contexto daquela época. Afinal, nos relatos, evidenciou-se uma supremacia de lembranças da participação de técnicos e gestores do sexo masculino.

Roberley Leonaldo - mais conhecido no âmbito do esporte por “Rubinho”, praticou voleibol desde o ensino fundamental. Em 2016, quando entrevistado, tinha recém retornado dos Jogos Olímpicos Rio-2016, no qual atuou como assistente técnico da seleção que conquistou o ouro no voleibol masculino. Seus relatos são perpassados pelo envolvimento no esporte e pelo seu protagonismo no campo esportivo atual.

Newton Zanon - o futebol foi praticado por Zanon ainda na infância, sendo estimulado inicialmente na escola e, posteriormente, no clube. Buscou a formação acadêmica em educação física e em poucos anos passou de técnico para coordenador de esporte em instituição extracurricular até o ano de 1996. No momento da entrevista ocupava o cargo de diretor da Secretária Municipal de Esportes e Juventude de Curitiba.

Nelson Rodrigues - conhecido por “Nelsinho”, ele, assim como os demais entrevistados, teve seu primeiro contato com o esporte na escola. O ex-atleta teve sua história de vida ligada ao esporte, passou de atleta a técnico esportivo, e se envolveu com a política pública para o esporte. Narrou orgulhoso que durante o período em que esteve na direção do Colégio Positivo, o técnico de handebol do colégio era o Edgar Hubner. No momento da entrevista Nelson administrava a carreira esportiva do atleta olímpico da natação brasileira - Henrique Rodrigues (seu filho).

Vale ressaltar que o esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília - CEP/IH, mediante o parecer consubstanciado número 1.469.110. Número de registro no CONEP: 51225615.5.0000.5540. Ainda neste sentido, todos os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido e permitiram a divulgação de suas identidades.

As fontes orais foram analisadas com autonomia documental. Portanto, as entrevistas transformaram-se em fontes da pesquisa, sobretudo considerando a importância de analisá-las a partir dos conceitos de memória, tendo em vista que o colaborador, ao ser entrevistado, organiza suas narrativas em virtude da evocação da própria memória, não menosprezando o fato de ser uma recordação de um acontecimento do passado num momento do presente55 Thompson P. História oral e contemporaneidade. História Oral 2002;(5):9-28..

Por fim, optou-se em utilizar dos procedimentos de transcrição indicados por Alberti22 Alberti V. Manual de História Oral. 3.ed. Rio de Janeiro: Editora FGV; 2013. para a elaboração do documento escrito. Sendo assim, inicialmente a entrevista foi transcrita na íntegra de forma literal. Após a primeira etapa, foram realizadas algumas adaptações no texto a fim de tornar a entrevista legível22 Alberti V. Manual de História Oral. 3.ed. Rio de Janeiro: Editora FGV; 2013.. Ainda assim, o documento transcrito final foi devolvido ao entrevistado para que o mesmo pudesse avaliá-lo e retonar aos autores.

Resultados e discussão

Tendo em vista o esporte de rendimento (ainda que em fase embrionária) praticado em escolas, a pesquisa propositalmente direcionou os holofotes para algumas escolas particulares que protagonizaram a cena esportiva curitibana. Sendo assim, o esporte escolar, na perspectiva de rendimento, esteve presente, segundo os relatos, nas seguintes instituições: Colégio Positivo, o Colégio Santa Maria, Colégio Marista Paranaense, Colégio Expoente, Colégio Dom Bosco, Colégio Medianeira, além de nos extintos Colégio Camões e Colégio Barddal. Não obstante, nem todos os entrevistados rememoraram exatamente os mesmo colégios participantes deste fenômeno, porém, explicitou-se uma memória coletiva66 Silva LHR, Pereira EL, Mazo JZ. O uso das fontes orais nas pesquisas em história do esporte: Memórias da "Corrida do fogo simbólico". Cinergis 2013;14(3):166-171. DOI: 10.17058/cinergis.v14i3.4027
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relacionada ao protagonismo do Colégio Positivo e dos Colégios Maristas Paranaense e Santa Maria.

Certamente outras instituições de ensino curitibanas incentivaram o esporte nesse período, porém as que assentaram na memória dos entrevistados foram as citadas anteriormente. O professor Mauro relativizou ao recordar:

[...] Acontecia também, de uma ou outra escola particular de repente naquele ano ou naquele momento resolver investir em determinada modalidade [...]. Havia o investimento porque o professor que estava naquele colégio era um profissional forte na modalidade, evidentemente que fortalecia essa modalidade no colégio. (MAURO MARTURELLI JR.).

Neste sentido, Pollak77 Pollak M. Memória e identidade social. Est Hist 1992;10(5):200-212., no que versa a respeito da possibilidade de entender a memória como uma construção coletiva, esclarece que existem marcos na vida pessoal e coletiva que são repetidos e solidificados na memória. No caso, as memórias individuais convergem ao determinar as principais escolas, podendo ser compreendidas como uma memória solidificada.

O professor Nelson Rodrigues foi além das fronteiras da capital paranaense e fez questão de enfatizar a presença de escolas do interior do estado no esporte de rendimento da época. Tendo em vista o referencial teórico da História Oral, compreende-se este fato, mesmo que, a priori, fora do escopo da pesquisa, como algo relevante ao tratar os dados, baseando-se na afirmativa de Costa8:57.

Assim, posso perceber que, no relato, as informações que escapam ao tema pesquisado não devem ser vistas pelo pesquisador como ornamentos, como um simples acessório, mas como o próprio mundo, o contexto, o quadro da vida, onde as narrativas foram geradas.

Ora, o fato do professor Rodrigues se recordar de escolas do interior quando questionada a realidade da capital pode estar relacionado à identidade do professor, afinal, o interlocutor é nascido em Nova Esperança, cidade do interior do estado do Paraná, justamente onde começou a sua carreira esportiva. A identidade e a memória são, portanto, inseparáveis. Pollak7:204 explica: “[...] a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletiva”.

Apesar de tratar-se de uma pesquisa regional, focalizada na cidade de Curitiba, percebeu-se a possibilidade deste formato de esporte escolar em pesquisas realizadas em outros estados. Ao registrar as memórias das primeiras professoras de ginástica rítmica do estado do Rio Grande do Sul, Muhlen, Natividade e Goellner também relataram a prática de equipes de treinamento no Colégio Anchieta, nas palavras delas:

[...] com o início da modalidade dentro das escolinhas do Colégio, sentiu a necessidade de realizar um treinamento mais específico para as alunas que possuíam maior interesse e habilidade dentro do esporte. Foi desta maneira que surgiu uma equipe competitiva vinculada ao Colégio Anchieta [...]9: 109.

De qualquer forma, sabe-se que naquele período a presença do esporte era quase que hegemônica nas instituições de ensino, em Curitiba, no Paraná, e no Brasil, em grande parte com o objetivo de rendimento. Afinal, os colégios participavam de competições e formavam times a partir de critérios técnicos. O professor Lamers relembrou que o Colégio Marista Santa Maria oferecia as então chamadas de “escolinhas esportivas” para atender os alunos que tinham menos condições técnicas e as equipes esportivas para os alunos mais habilidosos. Os próprios professores de educação física indicavam os alunos/atletas para formar os times, os treinos ocorriam no contraturno escolar com carga horária equivalente à dos times de clubes, conforme Marturelli Júnior contou:

Por exemplo, a aula (curricular) começava em março, em janeiro eu já estava [...] treinando a equipe, porque eu recebia hora extra para isso. Eu recebia condições, os alunos estavam motivados. Voltavam de férias antes de entrarem as aulas porque queríamos nos preparar para poder enfrentar as equipes que jogávamos, como a da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), Círculo Militar do Paraná, Clube Curitibano, e Paraná Clube. Nós tínhamos o intuito de superar esses clubes que não seguiam o calendário escolar. [...]. (MAURO MARTURELLI JR.).

O desempenho das equipes, ou seja, os resultados em competições era o balizador do profissional esportivo, assim, a carga horária dos treinos era adequada à realidade das modalidades. O entrevistado era responsável pelas equipes de futsal e explicou que, dependendo da categoria, os treinos variavam de duas a cinco vezes por semana. Mais uma vez apontando para o perfil de rendimento do esporte praticado nas escolas naquele período.

Isso possibilita o entendimento de que o tom saudosista da narrativa do professor pode também ter relação com as condições favoráveis reunidas nas relações de poder estabelecidas no período, além de financeiras, é lógico. Como ponto para reflexão: será que esse mesmo tom saudosista seria encontrado em narrativas de profissionais que atuavam em escolas públicas ou privadas de menor porte (ao menos no cenário esportivo)? Diz-se isso porque, provavelmente, as facilidades para treinamento e acesso às competições eram mais raras em outros locais e, possivelmente, os louros pelas vitórias seriam mais escassos em outras narrativas.

A presença de um departamento de esportes dentro da escola, com coordenação distinta da educação física, também simbolizava a diferenciação que se dava ao esporte praticado fora do currículo. Tal segregação foi relembrada com entusiasmo pelo professor Zanon:

[...] O Colégio Positivo, inclusive, nessa época esportiva, eu acho que era um exemplo de gestão no esporte escolar. O Colégio Positivo separava bem as coisas. Oferecia as aulas curriculares, normalmente, dentro da grade horária, com uma coordenação independente, mais ligada à parte pedagógica da escola. E havia o departamento de esportes, no qual trabalhavam todas as modalidades esportivas no contraturno, com iniciação esportivas, com equipes, pré-equipes e com participação em competições esportivas. [...] (NEWTON ZANON).

No entanto, o esporte não se apresentava da mesma forma nas instituições de ensino pesquisadas. Ao ouvir os entrevistados, percebeu-se que cada instituição adotou um modelo de organização de acordo com as possibilidades de espaço e recursos humanos disponíveis. O Colégio Marista Santa Maria, por exemplo, adotava um modelo em que os professores atuavam na educação física curricular no período matutino, e no período vespertino como treinadores esportivos. Isso ocorria para que não houvesse conflitos de horário de jogos com as aulas curriculares, visto que os jogos ocorriam no período da tarde (MATHIAS LAMERS). Já no Colégio Barddal a maioria dos professores de educação física eram também treinadores dos times escolares, “[...] poucos eram só técnicos” (NÁDIA DALLA BARBA).

A formação dos times também, de certa forma, dependia da quantidade de alunos da escola. As instituições maiores acabavam por ter um maior número de praticantes das diferentes modalidades, e, com isso, acabavam tendo maiores chances na detecção de talentos. Nas palavras de Zanon:

[...] como a procura (por esportes) era muito grande e no colégio não se cobrava taxa adicional pela iniciação esportiva, evidente que todos os alunos queriam fazer. [...] Dessa massificação que tínhamos todas as turmas cheias nessa época, é que a gente conseguia captar os atletas, os talentos e aí então fazer um trabalho mais direcionado para eles, com pré-equipe, até chegarem a equipe [...]. (NEWTON ZANON).

No Colégio Barddal havia cerca de três turmas de cada ano (nível) escolar, porém era grande a oferta de modalidades diferentes. Com isso, a professora Nádia Dalla Barba comentou que havia certa dificuldade em formar times por categorias, pois dividia as alunas da escola com outras modalidades.

Quanto à diversidade de esportes oferecidos pelos colégios no período, claramente havia uma supremacia dos esportes coletivos. O futebol e o futsal foram rememorados por todos os entrevistados. No entanto, nem todos eram praticados por mulheres, conforme comenta o professor Lamers:

[...] lembro muito bem, as modalidades com bola eram basquetebol masculino e feminino, voleibol masculino e feminino, basquetebol, handebol. Todos esses! O futsal que era só masculino e depois começou com o futsal feminino. O atletismo era muito forte, a ginástica olímpica, o xadrez. Todas as vezes que surgiram novas modalidades oferecidas em nível de competição, principalmente competições oficiais, eram implantadas na escola. Logo depois começou a dança, a capoeira, mas lembro que na época eram mais modalidades tradicionais. (MATHIAS LAMERS).

A prática de esportes por mulheres, em especial no Brasil, é historicamente assinalada por resistências e impedimentos, inclusive por imposição legal. A proibição de mulheres participarem de esportes que pudessem comprometer a sua condição feminina natural durou até o ano de 19791010 Begossi TD, Mazo JZ. O percurso esportivo de mulheres pioneiras no cenário paralímpico sul-rio-grandense. Rev Bras Ciênc Mov 2016;(24):4:155. DOI: 10.18511/rbcm.v24i4.6815
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. Com isso, evidentemente, os esportes, nos inícios da década de 1980, oferecidos às meninas nos colégios eram apenas aqueles permitidos, ou seja, de pouco contato físico, sendo o futebol e futsal feminino, assim como o judô, incluídos paulatinamente no seguir dos anos.

Por outro lado, a ginástica foi lembrada como pertencente aos esportes praticados nas escolas, quase que exclusivamente por mulheres. Porém, sua presença não era hegemônica nos colégios. Os Colégios Maristas e o Colégio Positivo ofereciam a então chamada ginástica olímpica (atual ginástica artística) e mantinham em suas sedes uma área de ginástica fixa com equipamentos modernos à época. Já a ginástica rítmica era oferecida no Colégio Positivo e Colégio Expoente (MATHIAS LAMERS; NEWTON ZANON).

Outro esporte citado nas entrevistas foi o atletismo. O caráter de rendimento do atletismo escolar da época foi elucidado nas palavras de Mathias Lamers: “[...] Lembro-me muito bem que o atletismo era muito forte! Alguns atletas do atletismo do Colégio Marista Santa Maria foram até mesmo atletas olímpicos! Realmente o esporte colegial era um esporte muito forte! [...]”.

No que tange às relações dentro e fora do campo, a memória individual dos entrevistados anunciava certa tensão. Mesmo alguns professores pontuando a amizade que tinham fora de campo, não deixaram de lembrar a competitividade e a busca de resultados dentro de quadra, na memória do técnico de futsal do Colégio Marista:

[...] Havia uma competição entre os professores para tentar se superar [...] porque as equipes eram muito próximas tecnicamente. O que diferenciava realmente, às vezes, era a parte tática mesmo, porque todas as escolas investiam forte, tinham bolsistas, participavam de Federação. (MATHIAS LAMERS).

A Secretaria de Esportes de Curitiba convocava o técnico da equipe melhor ranqueada dentro do município para compor a delegação técnica nos Jogos da Juventude do Paraná. Este fato foi comentado pelos entrevistados como sendo um dos motivos de rivalidade, pois os técnicos dos colégios almejavam representar a cidade de Curitiba nesta competição (NEWTON ZANON).

A vaidade dos técnicos foi relatada. A professora Nádia Dalla Barba comentou que fazia questão de formar bons atletas no Colégio Barddal, pois sabia que trabalhava em condições estruturais inferiores às dos outros colégios. “[...] porque não tinha tanto recurso quanto as outras escolas, você queria provar que era melhor que o outro mesmo sem ter tanto recurso, então, a gente se matava de trabalhar para formar bons atletas [...]”.

Neste ponto da narrativa da professora, pode-se analisar o uso dos pronomes pessoais. Ao falar da necessidade de provar o bom trabalho de formação de atleta, Nádia utiliza o pronome “você”, dando sentindo de distanciamento. No entanto, quando comunica os esforços dos técnicos ela utiliza o pronome “eu”, enfatizando a sua participação neste grupo77 Pollak M. Memória e identidade social. Est Hist 1992;10(5):200-212.. Porém, quase que paradoxalmente, no que tange à concessão de bolsas de estudos para alunos, ela completou: “[...] No Colégio Barddal, eu lembro que quando eu fui ser técnica, realmente tínhamos um poder de bolsas, de negociação bem bacana! [...]”.

As bolsas de estudos ofertadas por alguns colégios para os atletas mais habilidosos era motivo de tensões entre as equipes, pois os técnicos tinham liberdade de ofertar descontos em mensalidades para alunos oriundos de outras instituições, o que significava, de certa forma, que havia uma “compra de passes”. Inclusive para aqueles alunos de escolas públicas que passavam a ter a oportunidade de estudar em escola de melhor qualidade, com mais chances de passar no vestibular, conforme anunciou o professor Lamers:

[...] Para você ter uma ideia de como era forte o esporte, aqueles meninos que se destacavam nessas escolas públicas, muitas vezes eram convidados a entrar nos colégios particulares até mesmo como forma de bolsa de estudo. Provando como as escolas investiam no esporte naquela época, coisa que é completamente diferente dos dias de hoje. (MATHIAS LAMERS).

Na mesma direção, “Rubinho” comentou: “Então existia uma briga muito forte para conseguir atletas, oferecíamos bolsas de incentivos e tal. [...] Foi um movimento muito forte naquela época [...]” (ROBERLEY LEONALDO). O ex-técnico do Colégio Santa Maria detalhou ao rememorar: “[...] Existiam aquelas situações de escolas que procuravam fazer um time forte e ainda tirar um ou dois jogadores de outras escolas para poder não ter riscos! Era muito competitivo, era bastante competitivo!” e mais adiante relatou: “[...] era uma competição bastante grande entre os alunos, mas também entre os próprios treinadores.” (MATHIAS LAMERS).

A professora Nádia Dalla Barba comentou zangada o assunto, pois, segundo ela, as escolas menores acabavam formando atletas para serem levados para outras escolas. Ou seja, a professora de uma escola menor não comenta o caso das bolsas de estudos com o mesmo tom saudosista que os professores que detinham o poder econômico na época. Aqui percebe-se que o mesmo fato pode ser contado de forma diferente, de acordo com a posição do narrador na ocasião, a mesma história com significados diferentes1111 Oliveira Souza MT, Mendes Capraro A. Atletas mulheres relembrando do futebol na infância - a transposição de fronteiras de gênero. J Phys Educ 2019;28(1):e-2856. DOI: 10.4025/jphyseduc.v28i1.2856
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,1212 Thompson P. A voz do passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1992..

A memória a respeito da rivalidade também resplandeceu no que se refere aos comparativos entre modalidades dentro da mesma instituição. Não obstante, alguns entrevistados tomaram o cuidado de destacar a amizade fora de competições entre os técnicos, a citar o professor Mauro Marturelli Júnior, que rememorou: “[...] havia uma rivalidade dentro de quadra. Mas uma amizade que perdura até hoje entre os professores, um respeito muito grande entre nós [...].”.

Ao tratar de fontes orais a mutabilidade da memória se destaca. Como poderia dentro de um clima de rivalidade, no qual técnicos ofereciam benefícios para que o atleta passasse a compor o outro time, haver amizade e respeito entre os técnicos? Portelli13:72 esclarece:

Isso deriva, sobretudo, do fato de que a memória não é um ato imediato e binário de retirada de informações já formadas, mas um processo múltiplo de produção gradual de significados, influenciado pelo desenvolvimento do sujeito, pelo interlocutor, pelas condições do ambiente.

Tendo em vista o panorama até aqui apresentado facilmente se observa o grande investimento financeiro para o fenômeno. Ao ser indagado se o esporte da época trazia algum retorno financeiro para as instituições de ensino, o professor Newton Zanon respondeu exaltado: “[...] bem pelo contrário. Na época que eu estava lá, no auge do esporte do Colégio Positivo, nós tínhamos um gasto com o departamento de esportes de mais de 1 milhão de reais por ano.”.

Os investimentos em equipe técnica, equipamentos para os treinamentos, bolsas de estudos, taxas de federação e confederação, despesas em eventos esportivos, uniformes, etc. foram marcantes deste momento, conforme lembrou Marturelli Júnior “[...] Não havia uma preocupação na época em relação a essa questão (financeira). Eles (os responsáveis pelo Colégio) avaliavam muito o desempenho do professor, da equipe, e o desempenho é lógico que está relacionado a resultados [...]”. A professora Nadia Dalla Barba completou: “[...] Tínhamos o ônibus, a inscrição, a alimentação dos atletas, a escola bancava tudo. Eles (os alunos) não desembolsavam nada [...]”.

Ao ouvir os entrevistados percebe-se a participação de atletas escolares, sobretudo em campeonatos organizados pelas federações e confederações. Isso ajuda a indicar, mais uma vez, o caráter de rendimento dos esportes escolares das décadas de 1980 e 1990, como segue nessa série de passagens:

[...] a equipe da escola, por exemplo, no handebol [...] participamos de duas “Taça Brasil”. [...] uma delas foi em Santa Maria (RS), a outra foi lá em Caxias do Sul (RS). Brigando com os clubes do estado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, aquelas potências de investimento! [...]. (NELSON RODRIGUES).

[...] Nós fomos duas vezes para Poços de Caldas jogar a Olimpíada Nacional da Juventude. [...] Era necessário ganhar o regional, depois a fase final. O time melhor classificado, como prêmio, ganhava uma viagem bancada pela Secretaria de Esportes para representar o estado naquela competição escolar. [...] Era o máximo que podia acontecer na vida esportiva do colégio! [...]. (MATHIAS LAMERS).

[...] Na época nós tínhamos a Copa Internacional de Handebol [...], o “Handebol Cup”. Era o sonho de todo mundo participar e jogar. Era um intercâmbio, porque vinham equipes de fora, não ficava restrito só em Curitiba. Então, tinham atletas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro e vinham equipes mais velhas da Alemanha [...]. (NÁDIA DALLA BARBA).

[...] Aquelas modalidades que tinham federações fortes, com campeonatos fortes, participavam, tanto de escolares, como de federações. Até porque, chegou um determinado momento, em algumas modalidades específicas, de que o nível dos Jogos Escolares era baixo para o nível da equipe do colégio. Então, tínhamos que procurar competições mais fortes, e aí vieram as federações e confederações [...]. (NEWTON ZANON).

[...] O Colégio Positivo participava de competições em nível nacional e internacional. O basquete viajava para os Estados Unidos da América. A Ginástica Olímpica tinha atletas da seleção brasileira. [...] Na época, o atletismo também sempre participava de competições em nível estadual e nacional, com bons resultados. [...]. (MAURO MARTURELLI JR.).

Apesar dos grandes investimentos no esporte escolar do período, já existia uma diferença entre esporte praticado em escolas e esporte de clubes. Simon et al.1414 Simon HS, Grunennvaldt ECM, Surdi AC, Grunennvaldt JT. Educação Física Escolar e esporte na escola: Narrativas de professores da década de 1980. Em Aberto 2013;(26):69-81. DOI: 10.24109/2176-6673.emaberto.26i89.2384
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esclarece que o esporte escolar não alcançou o mesmo patamar do esporte praticado em clubes, os quais de fato trabalham com o esporte de alto rendimento. No entanto, a pesquisa citada não refere-se ao contexto curitibano, podendo ser interpretada como uma pista para um modelo esportivo escolar nacional, obviamente com suas particularidades.

O próprio “Rubinho” declarou ter optado por não receber bolsa de estudos no Colégio Barddal para não ser forçado a representar a instituição de ensino em que estudava nos campeonatos da Federação, pois optou em jogar pelo Clube Duque de Caxias no período de sua formação, dando a entender que a formação esportiva do clube era superior à escolar.

Este fato sinaliza para um modelo de formação de atleta piramidal, quer dizer, ao aluno eram apresentados os esportes na educação física curricular, e aqueles que demonstravam mais habilidades para determinados esportes eram designados para as equipes escolares e, posteriormente, para clubes1515 Betti M. Copa do mundo e jogos olímpicos: Inversionalidade e transversalidades na cultura esportiva e na Educação Física escolar. Motri 2009;(32-33):16-27. DOI: 10.5007/2175-8042.2009n32-33p16
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.

A partir da participação em competições escolares, os que se destacavam passavam a representar um clube esportivo ou, posteriormente, universidades e, em alguns casos, estes atletas viriam a compor as seleções nacionais da modalidade. Este foi o caso do colaborador “Rubinho”.

Os clubes em alguns momentos faziam parcerias com as instituições de ensino. Neste sentindo, o time de futsal do Colégio Santa Maria representou a Sociedade Thalia, Clube Atlético Paranaense e o Coritiba Foot Ball Club. Outras parcerias citadas nas entrevistas foram as realizadas com a Associação Atlética do Banco do Brasil e Círculo Militar do Paraná. Tais parcerias, segundo os entrevistados, eram benéficas para as duas entidades envolvidas. Para o Clube, pois era bem representando naquele determinado esporte; por outro lado, para o Colégio, era uma forma de proporcionar aos atletas a participação em campeonatos maiores sem custos.

Conclusões

A partir dos dados levantados nas entrevistas com as fontes foi possível investigar outras histórias a respeito do esporte escolar curitibano, abrindo o diálogo para a amplitude do esporte. Nesse sentido, vale destacar alguns resultados desta pesquisa: boa parte das escolas particulares curitibanas da época mantinham equipes esportivas de rendimento; o contexto do esporte escolar curitibano daquela época era uma espécie de metáfora do esporte profissional; havia uma hegemonia dos esportes coletivos; o esporte feminino sedimentado na memória dos entrevistados foi a ginástica; as equipes eram muito valorizadas dentro dos colégios e existiam, em alguns casos, profissionais contratados exclusivamente para o treinamento dos atletas; os times escolares participavam de campeonatos nacionais e internacionais; apesar do caráter de rendimento, já existia diferença do esporte praticado em clubes; algumas instituições de ensino faziam parcerias com clubes esportivos.

Tratar das fontes orais partindo das memórias de quem as vivenciou trouxe à tona novas versões de um fenômeno altamente criticado na época, especialmente na década de 1990, e aparentemente esquecido pelos pesquisadores da área. De certa forma aproximando-se do que Pollak77 Pollak M. Memória e identidade social. Est Hist 1992;10(5):200-212. chama de “períodos calmos”, quando memória e identidade caminham juntas.

Com isso, na medida em que a interlocutora se mostrou concordante às críticas, inicialmente sutis à negação do esporte escolar, e ao mesmo tempo demonstrou compartilhar de uma identidade esportiva escolar, os entrevistados foram rompendo com a barreira, esfumaçando-a, o que propiciou narrativas carregadas de emoção e saudosismo.

Referências bibliográficas

  • 1
    Bassani JJ, Torri D, Vaz AFF. Sobre a presença do esporte na escola: paradoxos e ambiguidades. Movimento 2003;9(2):89-112. DOI: 10.22456/1982-8918.2811
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    04 Set 2018
  • Revisado
    10 Jun 2019
  • Aceito
    09 Set 2019
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