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O Brasil no "bonde da história da asma"

CARTAS AO EDITOR

O Brasil no "bonde da história da asma"

Sra. Editora:

Dos tempos imemoriais aos dias de hoje, a asma vem despertando o interesse de pessoas, sejam cientistas ou não. Provavelmente esse fato se deva à dramaticidade de que se revestem suas crises, ou ao desafio do muito que ainda permanece desconhecido sobre os seus mecanismos.

Apesar dos imensos avanços científicos da segunda metade do século XX, principalmente das décadas de 80 e 90, e da imensa bagagem de novos conhecimentos adquiridos no mesmo período, ainda há muitas questões que sombreiam as últimas três décadas, tanto sobre a definição do mecanismo fisiopatológico, quanto sobre o controle das crises e as razões do aumento, em algumas partes do mundo, de suas prevalência e mortalidade.

A curiosidade despertada por essas questões seduziu e seduz estudiosos do assunto, que, no afã de gerarem descobertas, vêm produzindo uma quantidade exorbitante de artigos científicos. A prova disso está no grande número de publicações que têm sido catalogadas no banco de dados da MEDLINE: somente na segunda metade da década de 80 e primeira metade da de 90, mais de 34 mil artigos sobre asma foram publicados. Portanto, a ocorrência permanente de questões da asma a serem respondidas e a "avalancha" da produção científica geraram uma nova realidade que era preciso ser enfrentada: fazia-se necessário sistematizar tudo isso a fim de que o asmático recebesse um tratamento seguro e eficaz, com base em evidências e nas experiências daqueles que tratavam de asmáticos.

Para isso criaram-se então os grupos de experts em asma, a fim de nortearem esse boom de novas questões e novas realidades. Esses grupos ocuparam-se em gerar os consensos ou guidelines e orientar as pesquisas. Desde então os consensos foram surgindo pelo mundo inteiro. A produção de consensos em geral tem sido muito grande e até 1993 mais de 1.500 foram editados e aproximadamente 10% desses eram sobre asma.

Do mesmo modo das pesquisas e dos consensos, os encontros científicos exclusivos sobre asma tornaram-se freqüentes.

No final da década de 70 e primeira metade da de 80, aqui no Brasil, as organizações de congressos, seminários e cursos das especialidade como Pneumologia, Alergia e Pediatria premiavam os seus participantes com temas sobre asma a serem abordados em conferências magnas, mesas-redondas ou simpósios, para os quais, na maioria das vezes, reservavam-se ambientes amplos, isso porque o ibope da asma era alto. O público acotovelava-se nos auditórios lotados, sedento de respostas para as inúmeras questões que traziam em mente, quase sempre devidas a algumas "frouxas" postulações que permitiam discussão, como era, por exemplo, a própria definição de asma, que somente entre 1959 e 1997 passou por 12 modificações e, ainda assim, segundo Ann Woolcock, carece de ser mais completa.

Qual o pneumologista, alergista ou pediatra, com mais de 30 anos, que não teve a oportunidade de participar desses eventos, que não se lembra do quanto Charles Naspitz lotou auditórios imensos e o quanto foi solicitado para responder a questões sem fim em congressos e cursos de pediatria ou alergia? Já nas jornadas e congressos de alergia e imunopatologia, brilhava Brun Negreiros, de saudosa memória, que investia teatralmente nas suas apresentações, ricas de humor, quando contava os seus "causos" de consultório, enquanto ensinava asma e o público prazerosamente divertia-se enquanto assimilava conhecimentos.

Exatamente nesse contexto, em abril de 1987, que esta que lhe escreve esta missiva, então presidente da Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia (SCPT), filiada da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), teve o insight, com base na percepção dos acontecimentos relatados, de reunir um grupo de especialistas nas áreas de pneumologia, alergia e pediatria para abordar exclusivamente as questões da asma.

Dessa forma inseriu essa abordagem no III Módulo de Pneumologia da SCPT e o denominou de "ASMÃO", numa alusão ao "GASTRÃO", que acontecia por essa época em São Paulo, e também na intenção de querer dizer que se tratava de uma verdadeira imersão, durante mais de três dias, nos temas relativos a definição, mecanismo fisiopatológico e tratamento de asma. Era uma espécie de versão "tupiniquim" do Congresso Mundial de Asma "INTERASMA", que já existia desde 1959.

O sucesso de público e freqüência foi absoluto e contou com mais de 300 participantes. A receita se repetiu em 1989, 1991, 1993, 1995 e, recentemente, em 1999, todos com mais de 400 participantes. Nos dois primeiros eventos, destacaram-se temas como: "Estado de mal asmático", hoje denominado de "Asma fora de controle"; "Asma intratável", hoje correspondendo a "Asma de difícil controle" e que primeiramente foi apresentada, magnificamente por Angelo Rizzo, de saudosa memória. Chamou a atenção de todos a imensa participação do público nos simpósios denominados de "ABC do diagnóstico e ABC do tratamento da asma", que em seu último dia contou com a participação do público leigo para uma sessão de ensinamentos sobre: O que é asma, como e por que aparecem as crises e como evitá-la. Essa reunião com a comunidade leiga repetiu-se em todos os "ASMÕES" que se seguiram, numa demonstração da valorização que se deu à educação para o controle da asma.

A procura de temas básicos parecia traduzir a necessidade dos espectadores de possuírem um roteiro pronto a fim de conduzirem os seus pacientes asmáticos.

Essa necessidade trouxe a idéia de se fazer, junto com o ASMÃO III de 1993, o I Encontro Brasileiro sobre Asma e neste último inserir o I Consenso Brasileiro no Manejo da Asma. Como sempre, as três especialidades afins foram acionadas e Charles Naspitz coordenou o consenso. Um fato novo aconteceu nesse encontro: criou-se uma conferência, seguida de debate, para abordar a asma na população de baixa renda. Durante o debate percebeu-se que aquilo que se havia apresentado nos encontros anteriores, principalmente no que diz respeito ao tratamento de asma, não estava sendo aplicado nos serviços públicos de saúde. Carecia-se, pois, de programas de asma para atender a maior parcela da população brasileira. Muitos ambulatórios de asma existiam nas principais universidades do país, porém ainda não havia um programa com finalidade de controlar a asma dos brasileiros. Paralelamente aos eventos, muitos programas isolados surgiram em muitas capitais brasileiras, o que poderá ser visto em outra oportunidade. Em 1995, durante o ASMÃO IV, realizou-se mais um consenso e desta feita foi o I Consenso Brasileiro sobre Educação em Asma, sob a coordenação de Ana Luíza Godoy, cujo envolvimento em trabalhos dessa natureza já era conhecido de todos.

Desde então, o Encontro Brasileiro sobre Asma vestiu-se a rigor e transformou-se em I Congresso Brasileiro de Asma, que se realizou em Natal em 1997, cuja roupagem adquiriu um toque internacional, tendo tido convidados da estirpe de Platts Mills e Neil Barnes. Embutido nesse congresso houve o II Consenso Brasileiro no Manejo da Asma, desta feita sob a coordenação de Carlos Alberto de Castro Pereira e Charles Naspitz. Deixou de ser "tupiniquim" e passou a ocupar os calendários de eventos das revistas e boletins da SBPT, SBAI, SBP, o que todos já conhecem. Um ponto importante foi mantido como herança dos encontros anteriores: continuou-se a discutir asma em população de baixa renda e o que era uma só conferência com debate passou a formar, praticamente, um módulo inteiro, no II Congresso Brasileiro de Asma realizado no ano passado em Brasília e que resultou naquilo que era um sonho dos que tratam de asma em população de baixa renda, pois no dia 12 de dezembro de 1999 o Exmo. Sr. Ministro de Estado da Saúde José Serra criou o grupo de trabalho para finalizar o Plano Nacional de Controle da Asma no Brasil.

Muito ainda se teria para falar: programas municipais, estaduais, educativos, pesquisas nacionais e internacionais, expoentes da asma no Brasil, Sociedade Brasileira de Asmáticos.

Deixo aqui então o mote para quem quiser pegar.

MÁRCIA ALCÂNTARA HOLANDA

Endereço para correspondência ¾ Márcia Alcântara Holanda, Rua Fiúza de Pontes, 533 ¾ Aldeota ¾ 60140-170 ¾ Fortaleza, CE. Tel. (85) 454 2323; Fax: (85) 254 7910.

Email: pulmocenter@secrel.com.br

REFERÊNCIAS

1. Woolcock AJ. Asthma. In: Wethwral DG, Ledinghan JGG, Warrel DA, eds. Oxford text book of respiratory medicine. 2nd ed. Oxford University Press, 1987;15.75-15.83.

2. Barnes PJ, Woolcock AJ. Overview. In: Asthma. New York: Lippincott-Raven, 1997;1.3-1.8.

3. III Módulo de Pneumologia da Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia e Encontro Norte e Nordeste sobre Asma. "ASMÃO". Fortaleza, CE, 1987 ¾ Hotel Praia Verde.

4. I, II, III, IV Encontros Norte e Nordeste sobre Asma. "ASMÕES" I, II, III, IV. Fortaleza, 1989, 1991, 1993, 1995 ¾ todos em agosto e no Imperial Othon Palace ¾ Fortaleza, CE.

5. Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. I Consenso Brasileiro no Manejo da Asma, 1994, ed. BG Cultura.

6. Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. I Consenso Brasileiro de Educação em Asma. J Pneumol 1996;Supl 1.

7. Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. II Consenso Brasileiro no Manejo da Asma. J Pneumol 1998;24:171-276.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Set 2003
  • Data do Fascículo
    Abr 2000
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Departamento de Patologia, Laboratório de Poluição Atmosférica, Av. Dr. Arnaldo, 455, 01246-903 São Paulo SP Brazil, Tel: +55 11 3060-9281 - São Paulo - SP - Brazil
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