Resumo
O lipedema é uma condição crônica, caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura subcutânea, especialmente em pernas e braços. Apesar de ser frequentemente confundido com obesidade, celulite ou linfedema, o lipedema possui características próprias e pode não responder facilmente a dietas ou exercícios convencionais. Sendo assim, este estudo teve como objetivo avaliar as percepções gerais sobre saúde e alimentação de mulheres com lipedema, verificando possíveis associações com sintomas relacionados à essa condição. Trata-se de uma pesquisa transversal com mulheres diagnosticadas com lipedema, que responderam a um questionário on-line sobre características de saúde e alimentação. Também foi aplicado o Questionário de Avaliação Sintomática do Lipedema para avaliação de sintomas e severidade. Foram incluídas 75 mulheres, com idade média de 28,6 ± 9,3 anos e índice de massa corporal médio de 30,9 ± 5,6 kg/m2 (50,7% obesas). Entre as mulheres, 80% se disseram insatisfeitas com o corpo desde o diagnóstico de lipedema, sendo 29,3% muito insatisfeitas. Foi observada uma alta prevalência de dor, inchaço, insatisfação corporal e relato de dificuldade de emagrecimento, e 94,7% percebem que a redução de medidas é mais difícil nas áreas acometidas. Observaram-se predomínio de consumo de alimentos não saudáveis antes do diagnóstico e baixa taxa de acompanhamento nutricional e psicológico após o diagnóstico, embora 89,3% tenham relatado necessidade de maior suporte profissional. Sendo assim, os resultados da presente pesquisa indicam que mulheres com lipedema relatam dificuldades no emagrecimento e impactos emocionais, além de reforçar a importância de abordagens multidisciplinares individualizadas como estratégia para a redução de sintomas e melhora da qualidade de vida.
Palavras-chave:
lipedema; emagrecimento; dieta; qualidade de vida
Abstract
Lipedema is a chronic condition characterized by abnormal accumulation of subcutaneous fat, especially in the legs and arms. Although frequently confused with obesity, cellulitis, or lymphedema, lipedema has its own characteristics and may not respond well to conventional diets or exercise. Therefore, this study aimed to evaluate the general perceptions regarding health and diet of women with lipedema, verifying possible associations with symptoms related to lipedema. This was a cross-sectional study with women diagnosed with lipedema, who answered an online questionnaire about health and diet. They also answered the Lipedema Symptom Assessment Questionnaire (LSAQ) to assess symptoms and severity. Seventy-five women were included, with mean age of 28.6 ± 9.3 years and mean BMI of 30.9 ± 5.6 kg/m2 (50.7% obese). Eighty percent of these women reported being dissatisfied with their bodies since their lipedema diagnosis and 29.3% were very dissatisfied. There were high prevalence rates of pain, swelling, body dissatisfaction, and difficulty losing weight and 94.7% perceived that it was more difficult to reduce the size of affected areas of the body. Before diagnosis, unhealthy food consumption predominated and there was a low rate of nutritional and psychological follow-up after diagnosis, although 89.3% reported a need for greater professional support. As such, the results of this research show that women with lipedema report difficulty with weight loss and emotional impacts and highlight the importance of an individualized multidisciplinary approach as a strategy for reducing symptoms and improving quality of life.
Keywords:
lipedema; weight loss; diet; quality of life
INTRODUÇÃO
O lipedema é uma condição clínica complexa que afeta, sobretudo, a saúde da mulher, sendo caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura subcutânea, embora não possa ser restrita ou definida apenas como uma doença do tecido adiposo. A doença interage com vários sistemas corporais, influenciando a saúde mental, a funcionalidade física e a qualidade de vida dos pacientes1 . Ela ocorre principalmente em membros inferiores, embora também possa acometer membros superiores. O acúmulo de tecido adiposo é desproporcional ao restante do corpo, causando dor, edema e sensibilidade ao toque na região afetada. Apesar de ser frequentemente confundido com obesidade, celulite ou linfedema, o lipedema possui características próprias e pode não responder a dietas ou exercícios convencionais para diminuição da gordura. Em 2025, foi publicado o Consenso Brasileiro de Lipedema, promovido pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, contribuindo para um melhor entendimento e definições para essa condição clínica1,2 . O Consenso destaca que sua classificação técnica, mecanismos fisiopatológicos e tratamento requerem mais estudos1 .
Em meados do século XX, os médicos Edgar Van Nuys Allen e Edgar Alphonso Hines Junior descreveram essa condição pela primeira vez, em um momento da história clínica em que exploravam as pesquisas sobre o sistema vascular e doenças relacionadas ao metabolismo3 . Esses pesquisadores e médicos perceberam que, em algumas mulheres, ocorria um acúmulo de gordura diferenciado, que não reduzia consideravelmente com mudanças na alimentação ou com a prática regular de atividades físicas. Além disso, as regiões afetadas, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços, apresentavam dor, sensibilidade aumentada e tendência a formar hematomas com facilidade, o que as diferenciava da obesidade. Posteriormente, esse padrão específico de deposição de gordura foi classificado como lipedema3 . Desde a sua identificação, diversas pesquisas foram conduzidas para compreender melhor a fisiopatologia dessa condição. Atualmente, acredita-se que o lipedema esteja fortemente relacionado a alterações hormonais e disfunções no sistema vascular e tenha uma influência genética significativa, embora mais estudos sejam necessários1,2 .
A prevalência do lipedema é relevante e justifica a necessidade de atenção clínica e científica. Estima-se que aproximadamente 12,3% das mulheres adultas no Brasil sejam afetadas pela condição, um dado que reforça a importância do reconhecimento e diagnóstico precoce para evitar o agravamento dos sintomas e impactos psicossociais1 . No cenário internacional, estudos apontam que entre 8 e 18% das mulheres podem apresentar lipedema, embora a doença ainda seja frequentemente subdiagnosticada devido à sua semelhança clínica com obesidade, linfedema e outras doenças venosas. A ausência de critérios diagnósticos padronizados e a falta de conhecimento sobre a doença por alguns profissionais de saúde contribuem para essa subnotificação, dificultando o acesso das pacientes a intervenções eficazes1,4,5 .
O diagnóstico do lipedema é predominantemente clínico, baseado em uma avaliação física detalhada, anamnese e exclusão de outras doenças. Os principais critérios incluem aumento simétrico de tecido adiposo nas extremidades, dor à palpação, presença de hematomas espontâneos e ausência de sinal de Godet (edema de cacifo)1 . Embora não haja exames laboratoriais específicos, métodos de imagem como ultrassonografia, ecodoppler e ressonância magnética podem ser utilizados para descartar doenças venosas e linfáticas concomitantes. Segundo o consenso, a experiência do profissional avaliador é essencial, e recomenda-se que o diagnóstico seja realizado por uma equipe multiprofissional treinada1,4,5 .
Outro aspecto importante do lipedema é o seu impacto na qualidade de vida das pacientes. Além das dores persistentes e da dificuldade de mobilidade em estágios mais avançados, a condição pode afetar a autoestima e o bem-estar emocional devido às mudanças na aparência corporal. Apesar dos avanços no reconhecimento do lipedema como uma doença distinta da obesidade, muitas mulheres ainda enfrentam desafios no diagnóstico correto e no acesso a tratamentos adequados6 .
Embora diversas abordagens terapêuticas tenham sido propostas no lipedema, como mudanças no estilo de vida (dieta e exercício físico), fisioterapia, drenagem linfática e o uso de meias de compressão, ainda não há uma cura definitiva. Procedimentos cirúrgicos, como a lipoaspiração, têm mostrado bons resultados na redução dos sintomas e na melhora da qualidade de vida das pacientes1,2 .
A alimentação pode representar uma área importante no controle e tratamento do lipedema. Muitas mulheres diagnosticadas se sentem frustradas na busca por emagrecimento por meio de dietas hipocalóricas e exercícios físicos. Isso ocorre porque o acúmulo de gordura causado pelo lipedema não responde da mesma forma que a gordura comum: enquanto a restrição calórica e a atividade física podem reduzir o peso corporal total, o lipedema tende a permanecer inalterado7 . Pesquisas em nutrição no lipedema começaram a aumentar nos últimos anos, e padrões alimentares como a dieta do Mediterrâneo, dieta cetogênica ou dietas com teores reduzidos de carboidratos começaram a ser testados e estudados nessa condição clínica7,8 .
Pacientes com hábitos alimentares inadequados relataram maior severidade da dor e menor qualidade de vida. Além disso, a inflamação crônica de baixo grau, frequentemente presente no lipedema, pode ser modulada positivamente pela alimentação, sugerindo que nutrientes com propriedades anti-inflamatórias podem exercer papel adjuvante no tratamento, o que precisa ser amplamente estudado9 .
Ainda que uma alimentação saudável e balanceada seja essencial para o bem-estar geral e possa ajudar a reduzir processos inflamatórios associados ao lipedema, a dieta isolada não é capaz de eliminar a gordura acumulada. Por isso, muitas mulheres sentem-se presas em um ciclo de tentativas frustradas de emagrecimento, o que pode levar a problemas emocionais, como ansiedade e depressão, além da sensação de desamparo diante da falta de soluções eficazes1 .
Mais pesquisas são necessárias para aprofundar a compreensão sobre as causas do lipedema e sobre possíveis tratamentos mais eficazes e acessíveis para essa condição, entre os quais, encontra-se a alimentação. Sendo assim, a presente pesquisa buscou avaliar as percepções gerais e características da alimentação de mulheres com lipedema diagnosticado, a fim de verificar aspectos da alimentação antes e depois do diagnóstico, bem como a busca dessas mulheres por tratamentos para essa condição clínica.
MÉTODOS
Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo descritivo, observacional, de caráter transversal, com inclusão de mulheres adultas com lipedema e realizado através de entrevistas on-line nos meses de julho a setembro de 2025.
Aspectos éticos
O presente projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Faminas Belo Horizonte (CAAE: 88647725.4.0000.5105; parecer no 7.678.944). Todas as participantes que aceitaram participar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) após receberem as devidas explicações sobre a pesquisa.
Cálculo amostral
O tamanho amostral foi estimado considerando a análise de proporções em estudos transversais descritivos. Adotou-se nível de confiança de 95% (Z = 1,96) e proporção esperada de 50%, valor utilizado quando não há estimativa prévia para maximizar o tamanho amostral. A adequação do tamanho da amostra foi avaliada considerando a precisão das estimativas obtidas. Para uma amostra de 75 mulheres com diagnóstico de lipedema, assumindo proporção conservadora de 50% e nível de confiança de 95%, a margem de erro estimada foi de aproximadamente 11%.
População do estudo
Para este estudo, a amostra foi de conveniência, e foram consideradas elegíveis todas as mulheres adultas com idade entre 18 e 60 anos, residentes em território brasileiro e com diagnóstico de lipedema realizado por um médico (autorrelatado). O diagnóstico confirmado de lipedema foi um critério obrigatório de inclusão. Mulheres que apresentavam suspeita de lipedema, mas que ainda não tinham diagnóstico confirmado, não foram incluídas nesta pesquisa. Na etapa de análises, 77 mulheres foram consideradas elegíveis para o estudo, porém duas foram excluídas por se tratar de questionários preenchidos em duplicidade, resultando em 75 mulheres com lipedema nas análises finais.
O questionário foi compartilhado de forma individualizada. O recrutamento dessas voluntárias aconteceu pessoalmente pelos pesquisadores ou através de convites por telefone, e-mail ou aplicativos de conversa como WhatsApp® (Meta, EUA) ou redes sociais. Essas voluntárias não foram selecionadas em um ambiente hospitalar ou ambulatório específico. Médicos que atendem pacientes com a doença, conforme áreas citadas no Consenso Brasileiro de Lipedema1 , também foram contatados para indicar voluntárias para o estudo.
Procedimentos
Para a coleta de dados, foi utilizado um formulário on-line, criado na plataforma Google Forms (Google, EUA), contendo perguntas específicas sobre os hábitos alimentares das participantes antes do diagnóstico, as tentativas de emagrecimento com dietas convencionais e as intervenções que trouxeram algum benefício. O objetivo foi entender características do padrão alimentar anterior ao diagnóstico e identificar os tratamentos que se mostraram mais eficazes para o manejo dos sintomas do lipedema, segundo as percepções dessas mulheres. As voluntárias foram questionadas sobre tentativas de emagrecimento, métodos mais utilizados e suas percepções sobre os resultados, bem como percepções de impactos emocionais que a doença pode causar.
Como indicador do estado nutricional, as voluntárias foram questionadas sobre peso e estatura, os quais foram autorrelatados. A partir dessas medidas, foi calculado o índice de massa corporal (IMC), seguindo o padrão proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Neste estudo, as mulheres foram categorizadas em baixo peso, eutrofia, sobrepeso e obesidade, considerando os graus de obesidade juntos em uma mesma categoria10,11 .
Para avaliar os sintomas relacionados ao lipedema, foi aplicado também o Questionário de Avaliação Sintomática do Lipedema (QuASiL), que é um questionário internacional, já traduzido e validado para o português, para avaliar a intensidade dos sintomas relacionados ao lipedema. Ele avalia 15 critérios (sintomas) autoavaliados por uma escala de 0 a 10, de acordo com a intensidade do sintoma apresentado. Assim, no somatório final, o questionário pode variar de 0 a 150, sendo que 0 significa nenhuma queixa sintomática e 150 significa sintomas com o maior impacto em qualidade de vida. Para a maioria das perguntas do questionário, a prevalência de valores mais altos indica maior severidade e o quanto esses sintomas incomodam as mulheres com lipedema. Esse questionário pode ser aplicado mais de uma vez para o acompanhamento da melhora dos sintomas12,13 .
Análise estatística
O banco de dados foi criado utilizando o programa Microsoft Excel (Office 2013®, Microsoft, EUA) e analisado com o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS®), versão 19.0 para Windows (SPSS Inc., EUA). O teste de Kolmogorov-Smirnov foi utilizado para avaliar a normalidade e indicar o teste estatístico a ser utilizado. Variáveis qualitativas (categóricas) foram descritas através de frequência absoluta e relativa (porcentagem). As variáveis quantitativas que tiveram distribuição normal foram apresentadas como média e desvio-padrão. As variáveis quantitativas que não tiveram distribuição normal foram apresentadas como mediana e valores mínimo e máximo (mín-máx). Testes de correlação foram realizados para verificar a associação entre as variáveis da pesquisa. Foram considerados como associações estatisticamente significativas os resultados que apresentaram um nível de significância de 95% (valor de P ≤ 0,05).
RESULTADOS
Na presente pesquisa, 75 mulheres diagnosticadas com lipedema foram incluídas nas análises. Quanto ao tempo do diagnóstico de lipedema: 22 (29,3%) disseram ter recebido o diagnóstico há menos de 6 meses, 22 (29,3%) entre 6 meses e 1 ano, 19 (25,3%) entre 1 e 2 anos, e 12 (16,1%) receberam o diagnóstico há mais de 2 anos. Quando questionadas sobre como cada participante considerava sua saúde de forma geral, 4 (5,3%) disserem ter uma saúde ruim ou péssima, 48 (64,0%) disseram regular e 23 (30,7%) disseram excelente. A Tabela 1 apresenta as características gerais dessas participantes.
Uma das dificuldades associadas ao lipedema é o processo de emagrecimento. A Tabela 2 apresenta as percepções das mulheres com lipedema quanto às suas experiências no processo de emagrecer.
Quando questionadas se já procuraram ou estão em acompanhamento psicológico devido ao impacto emocional do lipedema, apenas 11 (14,7%) disseram que sim, enquanto 64 (85,3%) disseram não ter procurado acompanhamento psicológico. Entre as participantes, 24 (32,0%) disseram que ainda não fizeram acompanhamento psicológico, porém pensam em procurar ajuda. A Figura 1 apresenta a satisfação pessoal dessas mulheres com o seu corpo após o diagnóstico de lipedema. Quando questionadas se o lipedema impactava sua autoestima, 100% disseram que sim (66,7% de forma significativa e 33,3% de forma moderada).
Com relação às percepções sobre apoio e orientação profissional desde o diagnóstico de lipedema, 18 mulheres (24,0%) disseram se sentir bem-informadas sobre o lipedema e suas opções de tratamento, 40 (53,3%) disseram se sentir parcialmente informadas, tendo recebido algumas orientações úteis, e 17 (22,7%) disseram não se sentir bem-informadas, pois não receberam orientação adequada. Quando questionadas se receberam orientações adequadas de profissionais de saúde sobre como emagrecer com lipedema, apenas 15 (20,0%) disseram que sim e que receberam orientação clara e útil; por outro lado, 39 (52,0%) disseram estar parcialmente informadas, tendo recebido algumas orientações úteis, e 21 (28,0%) disseram não se sentir bem-informadas, pois não receberam orientação adequada. E quando questionadas se gostariam de receber mais apoio ou acompanhamento de profissionais de saúde em relação ao emagrecimento com lipedema, 67 (89,3%) disseram que definitivamente sim, e 8 (10,7%) disseram que sim, mas apenas em algumas áreas. Nenhuma mulher respondeu que não precisava de mais apoio por estar satisfeita com o acompanhamento atual.
A Tabela 3 apresenta as percepções das mulheres com lipedema sobre alimentação e hábitos alimentares. Observa-se que a maioria das mulheres com lipedema (> 50%) apresentava um padrão alimentar não saudável antes do diagnóstico de lipedema e tentativas de emagrecer, caracterizado pelo consumo de alimentos processados e fast food.
Na avaliação dos sintomas do lipedema através do questionário validado QuASiL, o somatório médio das mulheres com lipedema foi de 87,1±36,9 pontos (IC95% 78,8–95,5), variando de 5 a 144, e valores mais altos indicaram maior severidade ou maior incômodo relatado pelas participantes. A Tabela 4 apresenta as prevalências de respostas de cada pergunta do questionário.
Na análise de correlação, o somatório total no questionário QuASiL não apresentou associação com idade (r = 0,110; P = 0,349), peso (r = 0,065; P = 0,581) e IMC (r = 0,070; P = 0,550). A idade também não teve associação com peso (r = 0,108; P = 0,357) e IMC (r = 0,103; P = 0,382). Apenas o peso teve associação positiva com o IMC (r = 0,931; P < 0,001), o que é esperado.
DISCUSSÃO
Diante de todos os resultados apresentados, é possível perceber o diagnóstico recente da doença nas participantes, reforçando o reconhecimento ainda recente da doença e refletindo possíveis dificuldades de acesso a informações claras sobre seu manejo. A prevalência do excesso de peso nas participantes é uma observação também relevante, assim como o relato frequente de sintomas como dor, inchaço e desconforto, que impactam diretamente a rotina e o bem-estar dessas participantes. Além disso, muitas mulheres relataram insatisfação com a aparência e queda na autoestima, demonstrando a importância do suporte psicológico. A ausência de acompanhamento nutricional e multidisciplinar adequado também se destacou, indicando a necessidade de maior atenção a estratégias alimentares e terapêuticas individualizadas. Estudos futuros podem investigar como a atuação integrada entre profissionais de saúde e a ampliação do conhecimento sobre o lipedema podem melhorar a qualidade de vida dessas mulheres, conforme também sugerido no Consenso Brasileiro de Lipedema1 .
Na presente pesquisa, observou-se uma idade média de 28,6 anos, peso médio de 81,7 kg e IMC médio de 30,9 kg/m2, indicando predominância de obesidade entre as participantes. Quando comparadas aos dados do estudo de Amato et al. (2020)12 , que demonstrou média de idade de 38,7 anos, peso de 79,46 kg e IMC de 30,10 kg/m2, nota-se que as participantes da presente amostra apresentam perfil antropométrico semelhante, porém com idade inferior. Essa semelhança antropométrica e diferença de idade também foram observadas no estudo de Amato et al. (2022)2 . Analisando a proximidade nos valores médios de peso e IMC entre os estudos, é importante destacar que o IMC, isoladamente, pode não refletir adequadamente a composição corporal em mulheres com lipedema, uma vez que o aumento de peso se deve principalmente à deposição anormal de gordura nos membros e não à obesidade generalizada1,12,14,15 . Entretanto, apesar de o sobrepeso e a obesidade não serem critérios para apresentar lipedema, o acúmulo de gordura nesses casos pode ser maior e, consequentemente, podem ser apresentados mais sinais e sintomas, promovendo a maior procura desse público para o diagnóstico e tratamento. Dessa forma, os achados reforçam a necessidade de abordagens diagnósticas mais específicas e multidimensionais, que considerem a distribuição de gordura e a sintomatologia clínica, evitando interpretações equivocadas sobre o estado nutricional dessas pacientes14,15 .
O presente estudo demonstrou uma prevalência de dificuldade de emagrecimento, usualmente considerada uma das principais barreiras enfrentadas por mulheres com lipedema, e possivelmente associada também a fatores emocionais e à falta de suporte profissional adequado, o que precisa ser avaliado por estudos futuros. Aproximadamente 80% das participantes relataram insatisfação com o corpo desde o diagnóstico, e a maioria expressou desejo de receber mais apoio profissional, incluindo orientação nutricional e acompanhamento psicológico. Esses achados estão em consonância com o estudo de Jeziorek et al.16 , que investigou os efeitos de dietas com baixo carboidrato e alto teor de gordura versus dietas com carboidratos moderados em mulheres com lipedema. Os resultados indicaram que, embora as dietas possam ajudar na redução de gordura corporal total, a redução de gordura nas áreas afetadas pelo lipedema é extremamente difícil, com 95% das pacientes não conseguindo perder gordura nessas regiões específicas. O emagrecimento em mulheres com lipedema pode ser desafiador não apenas por fatores comportamentais, mas também por barreiras fisiológicas inerentes à condição. A elevada insatisfação corporal e a carência de acompanhamento psicológico observadas na amostra do presente estudo reforçam a necessidade de estratégias multidisciplinares que integrem orientação nutricional personalizada, suporte psicológico e, quando indicadas, terapias complementares para manejo do lipedema. Essa abordagem conjunta poderia potencialmente melhorar não apenas os resultados de emagrecimento, mas também a autoestima e a qualidade de vida dessas pacientes.
Os achados do presente estudo demonstraram também que a maioria das mulheres com lipedema apresentava padrões alimentares não saudáveis antes do diagnóstico e das tentativas de emagrecimento, caracterizados pelo consumo frequente de alimentos ultraprocessados, fast food, excesso de carboidratos simples, doces e bebidas açucaradas. Esses hábitos podem contribuir para o aumento de peso e agravar os sintomas do lipedema, além de impactar negativamente a saúde metabólica e a qualidade de vida. Em comparação, o estudo de Di Renzo et al.17 demonstrou que a adesão a uma dieta mediterrânea modificada, rica em frutas, vegetais, proteínas magras e gorduras saudáveis, promoveu melhoria na composição corporal e redução de medidas corporais em mulheres com lipedema. Enquanto o presente estudo evidencia padrões alimentares pouco saudáveis antes do diagnóstico, o estudo de Di Renzo et al.17 reforça que intervenções nutricionais estruturadas podem modificar hábitos alimentares e melhorar os resultados clínicos e a qualidade de vida. Essas evidências reforçam a importância de intervenções multidisciplinares que incluam orientação nutricional personalizada e educação alimentar, considerando não apenas a perda de peso, mas também a melhoria da qualidade da dieta e do bem-estar físico e emocional das pacientes9,14,18-21 .
O estudo de Amato et al.2 estimou uma prevalência de 12,3% de mulheres com lipedema na população brasileira em seu estudo realizado com 253 mulheres, no qual os autores aplicaram também um questionário on-line. Para essa prevalência, os autores usaram a nota de corte de 12 pontos no questionário, o que geraria uma probabilidade de diagnóstico de lipedema de 77,8% (IC95% 64,2–87,3%). Embora informações autorrelatadas possam representar uma limitação em estudos, questionários de sintomas relacionados ao lipedema são comumente aplicados de forma on-line, assim como no presente estudo.
Este estudo não é livre de limitações, que devem ser consideradas. Uma dessas limitações é a amostra de conveniência, composta por todas as mulheres que aceitaram participar, sem a inclusão de um grupo-controle. A amostra foi relativamente pequena, o que pode reduzir a generalização dos resultados para toda a população com lipedema. Também se trata de um estudo descritivo, o que exige cautela na extrapolação de resultados e interpretações. Além disso, os dados foram majoritariamente coletados por autorrelato, incluindo o diagnóstico da doença, o que pode incluir vieses de memória e percepção pessoal, limitando a precisão de informações sobre hábitos alimentares e sintomas. Também não houve avaliação longitudinal, impossibilitando a análise de como intervenções nutricionais ou acompanhamento psicológico poderiam impactar os resultados clínicos e emocionais. Porém, mesmo com essas limitações, o estudo é importante para a prática assistencial, pois fornece informações essenciais sobre a experiência emocional e nutricional das mulheres com lipedema, permitindo que profissionais de saúde compreendam melhor a complexidade da condição e planejem intervenções multidisciplinares que considerem tanto o manejo físico quanto o bem-estar emocional dessa população14,18 .
CONCLUSÃO
Esta pesquisa permitiu descrever aspectos importantes da experiência de mulheres com lipedema, destacando a frequência de sintomas como dor, edema e desconforto, bem como a elevada insatisfação corporal e percepções de impactos da doença na autoestima. Observou-se que, além das questões físicas, o aspecto emocional também gera incômodos nessas mulheres. Os resultados também revelaram padrões alimentares pouco saudáveis antes do diagnóstico, além de dificuldades significativas no processo de emagrecimento. Tais achados corroboram a literatura existente e indicam que estratégias individualizadas e o suporte contínuo podem melhorar não apenas os resultados clínicos, mas também o bem-estar emocional e a autoestima das mulheres com lipedema.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados que sustentam este estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente, MLRS, com exceção de informações pessoais que permitam a identificação das participantes do estudo.
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Aprovação do comitê de ética:
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