Resumo
O artigo reconstrói alguns momentos salientes do desenvolvimento das doutrinas do 'não-si' e das 'duas verdades' na história da filosofia buddhista, desde as formulações originárias do buddhismo de base, às conclusões alcançadas por Nāgārjuna, o fundador da escola mahāyāna do Madhyamaka. Ao longo dessa sintética reconstrução, algumas passagens das Mūlamadhyamikakārikās de Nāgārjuna, cruciais para entender a sua (controversa) concepção epistemológica, mostrar-se-ão semelhantes, no tocante à estruturação e ao desenvolvimento do discurso, à primeira parte das Milinda Pañha, um diálogo para-canônico que escolhe uma abordagem apofática para tratar o tema da 'verdade última'. Tal paralelismo formal entre as passagens dos dois textos sugere a possibilidade de uma correspondência 'substancial' entre a concepção nagarjuniana e aquela das Milinda Pañha no que se refere ao 'ultimamente verdadeiro'.
Não-si; verdade convencional; verdade última; vacuidade; Nāgārjuna; Milinda Pañha
Abstract
The paper reconstructs some prominent stages of the development of the "non-self" and the "two truths" doctrines in Buddhist philosophy, from original formulations of mainstream buddhism, to the conclusions reached by Nāgārjuna, the founder of mahāyāna school of Madhyamaka. During this concise reconstructions, some passages of Nāgārjuna's Mūlamadhyamikakārikās, which are crucial to clarify his (controversial) epistemological conception, will prove themselves similar, regarding the structuring and the development of the discourse, to the first part of Milinda Pañha, a para-canonical dialogue which takes an apofatic approach to deal with the topic of the 'ultimate truth'. This formal parallelism between the passages of the two texts suggests the possibility of a 'substantial' correspondence between the nagarjunian conception and that of Milinda Pañha with regard to the 'ultimately true'.
Non-self; conventional truth; ultimate truth; emptiness; Nāgārjuna; Milinda Pañha
ARTIGOS
Alguns momentos do debate sobre as teorias do 'não-si' e das 'duas verdades' na história da filosofia buddhista
Giuseppe Ferraro
Doutorando em Filosofia pela UFMG. giuseppeferraro2003@yahoo.com.br
RESUMO
O artigo reconstrói alguns momentos salientes do desenvolvimento das doutrinas do 'não-si' e das 'duas verdades' na história da filosofia buddhista, desde as formulações originárias do buddhismo de base, às conclusões alcançadas por Nāgārjuna, o fundador da escola mahāyāna do Madhyamaka. Ao longo dessa sintética reconstrução, algumas passagens das Mūlamadhyamikakārikās de Nāgārjuna, cruciais para entender a sua (controversa) concepção epistemológica, mostrar-se-ão semelhantes, no tocante à estruturação e ao desenvolvimento do discurso, à primeira parte das Milinda Pañha, um diálogo para-canônico que escolhe uma abordagem apofática para tratar o tema da 'verdade última'. Tal paralelismo formal entre as passagens dos dois textos sugere a possibilidade de uma correspondência 'substancial' entre a concepção nagarjuniana e aquela das Milinda Pañha no que se refere ao 'ultimamente verdadeiro'.
Palavras-chave: Não-si, verdade convencional, verdade última, vacuidade, Nāgārjuna, Milinda Pañha.
ABSTRACT
The paper reconstructs some prominent stages of the development of the "non-self" and the "two truths" doctrines in Buddhist philosophy, from original formulations of mainstream buddhism, to the conclusions reached by Nāgārjuna, the founder of mahāyāna school of Madhyamaka. During this concise reconstructions, some passages of Nāgārjuna's Mūlamadhyamikakārikās, which are crucial to clarify his (controversial) epistemological conception, will prove themselves similar, regarding the structuring and the development of the discourse, to the first part of Milinda Pañha, a para-canonical dialogue which takes an apofatic approach to deal with the topic of the 'ultimate truth'. This formal parallelism between the passages of the two texts suggests the possibility of a 'substantial' correspondence between the nagarjunian conception and that of Milinda Pañha with regard to the 'ultimately true'.
Keywords: Non-self, conventional truth, ultimate truth, emptiness, Nāgārjuna, Milinda Pañha.
Introdução
A metafísica da escola buddhista do Madhyamaka1 é centrada na doutrina da 'vacuidade de todos os entes' (sarva-dharma-śūnyatā); tal concepção constitui o desenvolvimento mais avançado e radical de um longo percurso filosófico, cujas raízes afundam em um ensinamento original a teoria do 'não-si' (anātma-vāda) do Buddha2 histórico e que se desenrola ampla e articuladamente em todas as escolas buddhistas3.
Paralela ao desenvolvimento da metafísica buddhista, e a ela indissoluvelmente entrelaçada, desdobra-se uma epistemologia, que possui a finalidade principal de justificar e de defender as conclusões progressivamente alcançadas pela reflexão ontológica. Uma epistemologia, ela também, centrada sobre uma ideia fundamental a teoria das 'duas verdades' dinamicamente capaz de se adaptar às várias concepções sobre o ser propostas pelas diferentes escolas.
A doutrina mādhyamika4 da 'vacuidade de todos os entes', portanto, é acompanhada e corroborada, por sua vez, por uma particular declinação da teoria epistemológica das 'duas verdades'.
O ponto de partida do presente artigo é o fato de que tanto a metafísica, quanto a epistemologia do Madhyamaka não foram entendidas, pelos antigos comentadores, pelos adversários de Nāgārjuna e por seus exegetas contemporâneos, em modo unânime. Pelo contrário, o seu pensamento foi interpretado de forma vária e, frequentemente, discrepante.
Quantas e quais exatamente sejam tais possibilidades interpretativas não é o ponto em questão nessas páginas; tampouco, tentaremos aqui apresentar argumentos definitivos a favor de uma ou de outra entre essas diferentes hipóteses hermenêuticas.
Ao invés disso, os propósitos deste artigo são: 1) na primeira parte, apresentar sinteticamente (com a indicação, nas notas de pé de página, de possíveis direções de aprofundamento) os termos essenciais do debate filosófico que, ao longo da história do pensamento buddhista, se desenvolveu sobre as temáticas do 'não-si' e das 'duas verdades'; 2) na segunda parte, analisar o incipit de um importante texto paracanônico o Milinda Pañha ("Perguntas de Milinda", daqui em diante MP) , cuja estruturação do discurso se assemelha em muito à maneira com a qual Nāgārjuna, no capítulo 24 (ou seja, na parte da sua obra provavelmente mais importante para investigar a sua epistemologia) das Mūlamadhyamakakārikās ("Versos fundamentais do Caminho do Meio", daqui em diante MMK), aborda a questão das 'duas verdades'.
Dessa forma, em primeiro lugar, os discursos de Nāgārjuna serão colocados dentro das coordenadas histórico-filosóficas que mais propriamente lhe pertencem. Em segundo, dando ênfase às semelhanças extrínsecas entre MP e MMK.24, concluir-se-á que, por trás do paralelismo formal, possa existir um paralelismo 'substancial' e que, portanto, as MP sejam um texto fundamental a ser levado em consideração por qualquer abordagem interpretativa da filosofia de Nāgārjuna que pretenda ser escrupulosa.
O formalismo e a fria analiticidade com os quais Nāgārjuna conduz o seu discurso nas MMK acabaram levando alguns de seus exegetas contemporâneos a tentativas de interpretá-lo na base de critérios hermenêuticos puramente lógico-analíticos fora do contexto filosófico em que ele viveu e operou5. Parece, porém, metodologicamente imprescindível reconduzir constantemente Nāgārjuna ao meio filosófico com o qual ele dialoga e, em particular, àqueles textos cuja autoridade ele devia mais respeitar6.
1. Elementos essenciais da Metafísica e da Epistemologia Buddhistas
1.1. Formulação original da doutrina do não-si
Entre as numerosas doutrinas buddhistas filosoficamente relevantes, aquela sobre a 'não-existência do si' (anātma-vāda) é, provavelmente, a mais original e característica. Transmitida pelo Buddha histórico desde o começo da sua predicação7, essa foi aprofundada em discursos sucessivos8 e, em seguida, desenvolvida por vários modos, re-elaborada e aprimorada pelas diferentes escolas buddhistas tardo-antigas e medievais.
Em extrema síntese, o anātma-vāda baseia-se na tese de que o 'si' individual a alma, o ego, a subjetividade singular é uma sensação ilusória, que se engendra em uma dimensão cognitiva baixa e ordinária, e à qual não corresponde nada de objetivo e de ultimamente real.
O Buddha, nos seus discursos sobre o 'não-si', reduz a inteira experiência psícofísica individual ao fluxo de cinco skandha (pāli9 khandha, 'aglomerações' ou 'agregados'): forma física (rūpa), sensação (vedanā), ideação (samñjā, pāli sañña), volições (samskārāh, pāli samkhārā) e consciência (vijñāna, pāli viññāna). Nenhum desses agregados equivale a um si permanente, nem contém algo de parecido com um ego ou com um substrato espiritual10. Pelo contrário, todos eles são destituídos de substancialidade, caracterizando-se como fluxos interconexos de instantes psíquicos e materiais.
A concepção anātma foi interpretada extensivamente por todas as escolas buddhistas, incluindo nela a ausência de qualquer 'forma' (em sentido aristotélico) ou essência individual dentro das coisas. Não somente, portanto, os sujeitos são desprovidos de um si, mas também os objetos não têm nenhuma identidade própria (svabhāva), que os individue e os separe dos outros objetos. As divisões no mundo material são somente conceituais e ilusórias: a elas não corresponde nada de real. Não há um discurso específico do Buddha que sustente essa ideia da ausência do 'si'no mundo das coisas, mas essa conclusão pode ser deduzida por várias passagens da literatura canônica11.
A ideia de que a atividade psicofisíca humana seja produzida, contida e organizada por um sujeito individual, dotado de características próprias e irredutíveis, acrescida da ideia de que os objetos sejam algo de substancial e separado, é considerada pelo Buddha o erro fundamental, a partir do qual se originam a aflição e o sofrimento que definem em primeiro lugar a existência humana. As diferentes 'contaminações' que, literalmente, envenenam12 a nossa vida principalmente o apego (tṛṣṇā pāli tanhā) e a aversão (dveṣa, pāli dosa) surgem e se reproduzem, justamente, a partir da convicção de que exista um 'ego', um 'fruidor', um sujeito contraposto a outros sujeitos e ao mundo dos objetos. Pelo contrário, a remoção do ofuscamento mental (moha) ou da nesciência (avidyā pāli avijjā) que nos conduz a acreditar em um centro ou um substrato da nossa experiência existencial tem o poder de purificar a existência das contaminações, livrando-a do sofrimento13.
1.2. Aparente contraste entre ontologia e ética buddhistas e sua solução epistemológica
Sob o ponto de vista daquela que podemos denominar 'ortodoxia filosófica' buddhista, a doutrina do 'não-si' impõe-se como um ponto firme e indiscutível, frequentemente utilizado como referência 'normativa'para julgar a legitimidade de uma ou de outra teoria (ontológica, em primeiro lugar), ou até de uma inteira escola ou movimento14. No entanto, a circunstância de que a sua plena adoção por parte de todos os buddhistas seja pelo menos programaticamente (os eventuais desvios dela são sempre 'involuntários') inquestionável, não significa que a mesma adoção seja sempre simples e isenta de dificuldades.
Além do problema fundamental de penetrar no sentido profundo (isto é, o sentido 'empírico', além do meramente conceitual) da doutrina do 'não-si' tarefa à qual o adepto buddhista deve dedicar os seus esforços na prática meditativa, que possui a finalidade de 'vivenciar' a não existência do si individual , a sua principal dificuldade reside no fato de que ela parece (pelo menos de um ponto de vista lógico) dificilmente conciliável com outras doutrinas ensinadas pelo Buddha, isto é, com ensinamentos que gozam do mesmo caráter inquestionável da teoria do anātma.
Poder-se-ia perguntar, por exemplo, não existindo a individualidade dos seres humanos e das coisas, para o benefício de quem seriam os próprios ensinamentos do Buddha? Quem é que sofre, quem se deveria livrar do sofrimento? E, sob o ponto de vista ético, quem poderia cumprir ações boas ou más? Ou, enfim, quem descontaria, na existência futura, os resultados 'cármicos' amadurecidos ao fim da vida presente?
Evidentemente, são numerosos os discursos do Buddha que, apesar de nunca afirmado explicitamente, pressupõem a existência de um si, de uma individualidade ou, pelo menos, de uma continuidade pessoal: grande parte da ética e da soteriologia ensinadas pelo Buddha parece fazer sentido somente num contexto em que as pessoas existem como indivíduos.
A maneira pela qual os pensadores buddhistas tentaram resolver o dilema da aparente contradição entre discursos anātma (centrados sobre o 'não-si') e ātma (centrados sobre o 'si pessoal') do Buddha foi aquela de distinguir, dentro do seu ensinamento, dois níveis epistemológicos: um nível 'convencional' (à altura do qual se colocam todos os ensinamentos do Mestre os quais pressupõem existência de individualidade separada) e um nível 'último' (ao qual pertence a doutrina do não-si)15.
A necessidade desses dois níveis de verdade surgiu pelas exigências 'pedagógicas' que o Buddha teve que enfrentar: a sua audiência não era composta por ouvintes do mesmo nível de desenvolvimento intelectual e espiritual; o percurso cognitivo e existencial de cada um deles começava de diferentes pontos de partida portanto, era necessário adaptar o ensinamento a tais diferentes níveis de compreensão16.
No entanto, a própria aplicação da distinção entre 'convencional' e 'último' resultou problemática, entre as várias escolas que surgiram depois do desaparecimento do Buddha. Controvérsias surgiram sobre a correta maneira de entender quais conceitos e teorias mereciam a qualificação de 'verdade definitiva' e quais fossem, ao contrário, as doutrinas só 'provisórias'.
As dificuldades derivavam da circunstância de que a doutrina do 'não-si', na formulação originária do Buddha, embora fosse suficientemente claro o que negava a existência real de um núcleo substancial dentro de nós e dentro das coisas , não deixava, contudo, igualmente claro o que afirmava, posto que afirmasse algo.
O Buddha, nos seus discursos, tinha, genericamente, reduzido a individualidade ao conjunto dos cinco 'agregados' (indicados anteriormente), cada um deles desprovido de um núcleo. Portanto, num primeiro nível de análise, podia-se concluir que o indivíduo (implicitamente pressuposto pelo próprio Buddha em alguns dos seus ensinamentos) seja uma realidade 'convencionalmente verdadeira', enquanto os cinco agregados são 'verdade última'.
Contudo, nos séculos que se seguiram à morte do Buddha, pareceu legítimo perguntar-se se os agregados fossem o limite extremo que um olhar analítico pudesse alcançar ou se, por sua vez, eles pudessem ser ulteriormente dissecados e investigados.
1.3. Interpretação abhidharmika da doutrina das 'duas verdades': a teoria dos dharma
Chegou-se assim na fase 'escolástica' das escolas do Abhidharma à conclusão de que os agregados resultam compostos de entidades atômicas, instantâneas e discretas: os dharma17. Estes são ligados entre eles por meio de relações causais. Uma entidade complexa, como pode ser uma pessoa ou um objeto, é um agregado de inúmeros dharma (físicos e mentais) que, a cada instante, antes de desaparecer, causam o surgimento de novos dharma, da mesma tipologia (por exemplo, um determinado dharma material pode causar um outro dharma idêntico) ou de tipo diferente (por exemplo, um instante dhármico de 'volição' pode produzir um dharma de tipo 'sensação')18.
As numerosas escolas19 que surgiram nos séculos entre o parinirvāna20 do Buddha e o começo da era cristã diferenciavam-se entre elas no que diz respeito ao exato número e ao gênero de tipos de dharma existentes, à duração efetiva de cada um deles, ao exato funcionamento de seus poderes causais. No entanto, apesar dessas diferenças, todas as escolas abhidharmika compartilhavam a mesma ontologia atômico-pluralista.
As inovações no campo ontológico obrigaram a rever a questão epistemológica: o conceito de 'verdade última' foi redefinido, precisando-se agora como a realidade dos dharma, consequentemente relegando os próprios, mais genéricos 'agregados' (a dizer, os cinco skandhas) ensinados pelo Buddha junto com as doutrinas que (por serem destinadas a uma audiência menos dotada) implicavam o conceito de 'si' à 'realidade convencional'.
1.4. Interpretação mādhyamika da doutrina do 'não-si': a teoria da 'vacuidade'
Mas tudo isso, também, não foi considerado satisfatório e definitivo. No decorrer da história do pensamento buddhista, as escolas mahāyāna acharam que o conceito de dharma fosse discutível e incorreto, pois ele implicava um aspecto de substancialidade21; isto é, uma forma de individualidade e de autossuficiência, inconciliável com uma rigorosa aplicação da doutrina do 'não-si'.
Os próprios dharma, submetidos à rigorosa análise, revelam-se, enfim, vazios e inexistentes como realidade 'em si'.
O conceito de 'vacuidade' (śūnyatā), como visão última da realidade, foi adotado tanto pela escola Yogācāra quanto pela Madhyamaka. Sob o olhar analítico das escolas mahāyāna, qualquer entidade (não somente as entidades complexas, mas também as simples e atômicas, não importa se de tamanho mínimo e de duração instantânea) dotada de 'natureza própria' (svabhāva) e separada das outras é, em última análise, inexistente.
1.5. Leitura niilista da teoria da 'vacuidade' e sua inconsistência
Uma posição desse tipo é, evidentemente, arriscada: o perigo é de tornarse uma visão niilista do mundo. Afinal, o Madhyamaka é o desenvolvimento mais teórico e sistemático de uma série de escrituras as que compõem a literatura prajñāpāramitā22 - nas quais o uso de uma linguagem aparentemente niilista é frequente e incisiva23. A questão, porém, é que o niilismo é uma doutrina que o próprio Buddha, junto à doutrina 'eternalista', convida explicitamente a evitar24. Defender uma posição niilista significa pôr-se direta e explicitamente em contraste com a palavra do Buddha.
Das duas escolas mahāyāna, a Yogācāra parece escolher uma visão filosófica que mais claramente consegue escapar do 'perigo' niilista, chegando a uma visão rigorosamente idealista25. O 'nada existe' vale somente no nível material: o que é vazio e não existe em si é o mundo dos objetos externos; da realidade externa pode-se falar apenas no sentido 'convencional'. A 'verdade última' é que existe somente a consciência indiferenciada: absoluta subjetividade, cujas internas diferenciações são, também, 'verdades convencionais'26.
O Madhyamaka, pelo contrário, em nome de uma aplicação da doutrina do 'não-si', a qual pretende ser mais rigorosa, nega também a existência da subjetividade. O niilismo parece, portanto, inevitável27. O percurso filosófico da teoria do 'não-si' levaria, enfim, à negação de tudo. O epílogo desse percurso parece ser que a 'verdade convencional' ou 'provisória' corresponda a todos os discursos que falam de alguma coisa, enquanto a 'verdade última' é que nada existe e que de nada se pode falar.
Entretanto, a conclusão de que o Madhyamaka seja uma escola niilista não seria, segundo a maioria dos seus interpretes, satisfatória: em primeiro lugar porque o niilismo ontológico parece uma posição filosoficamente insustentável28; segundo, porque, como já dito antes, não se pode sustentar o niilismo sem incorrer na flagrante contradição da palavra do Buddha; terceiro, porque os pensadores mādhyamika se recusam de ser rotulados como 'niilistas'29.
É sempre possível, naturalmente, para manter a interpretação niilistica do Madhyamaka, pensar que filósofos como Nāgārjuna ou Candrakīrti fossem, mesmo, heréticos; ou talvez pouco acurados e atentos, ao ponto de tornar-se niilistas 'involuntariamente', talvez por não terem profundamente entendido os ensinamentos do Buddha (porém, contra essa possibilidade, além de muitas outras considerações, há que o único discurso do Buddha citado por Nāgārjuna nas MMK é justamente o Kaccayanagotta sutta, ou seja, o sūtra citado da nota de pé de página 25 desse artigo no qual o Buddha convida explicitamente a evitar o niilismo).
De qualquer forma, a definição do que devemos considerar 'ultimamente' e do que 'convencionalmente' verdadeiro na filosofia mādhyamika é problemático e aberto. Posto que 'a existência do puro nada' não possa ser a verdade última e definitiva ensinada por Nāgārjuna, o que devemos, entretanto, considerar 'verdade última' na sua filosofia?
Não pretendemos, aqui, como já declarado, entrar em tão delicada questão, nem, muito menos, tentar solucioná-la; as possíveis soluções do dilema da definição da verdade na filosofia mādhyamika (uma definição que, possivelmente, evite a conclusão niilista, mas que, ao mesmo tempo, seja compatível com a ideia de 'vacuidade' de todas as coisas) são muitas e variadas.
O ponto desse artigo é que, qualquer solução interpretativa, para ser crível, não pode menosprezar o contexto histórico-filosófico no qual o discurso de Nāgārjuna se desenvolve. Antes de qualquer outra consideração lógico-linguística e, mais geralmente, filosófica indispensável para entender a posição de Nāgārjuna, é fundamental examinar o uso que, dentro da tradição filosófica que o precede e o acompanha, é feito das palavras e dos conceitos dos quais a escola Madhyamaka se serve para expressar seus pontos de vista.
Em específico, a primeira parte das MP apresenta um evidente paralelismo formal (a dizer, uma semelhança na estrutura do discurso) e terminológico com o capítulo 24 das MMK: qualquer séria reflexão sobre o verdadeiro significado das ideias de 'vacuidade' e de 'verdade última' na concepção de Nāgārjuna deve ter, entre os seus pontos de partida, as conclusões que o rei Milinda e o monge Nāgasena alcançam no decorrer do seu diálogo.
2. Milinda Pañha, 25-28 e Mūlamadhyamikakārikās, 24: Semelhanças Formais
2.1. Ontologia e ética em contraste nas MP e em MMK.24
As 'Perguntas do rei Milinda' são uma escritura de enorme relevância na história do pensamento buddhista30. Trata-se de um texto cuja redação (provavelmente compósita) deve se situar na época entre o primeiro século a.C. e o segundo século d.C31 que relata acerca de um diálogo entre o rei indogrego Milinda32 e o monge buddhista Nāgasena. Não é um texto 'canônico', no sentido de que não pertence a nenhum dos tradicionais 5 nikāyas dos quais se compõe o 'cânone' buddhista33. No entanto, é uma escritura cuja autoridade parece transversal a todas as escolas buddhistas, não sendo reconhecida como texto particular de nenhuma tradição em específico.
O diálogo se abre com o rei Milinda que pergunta ao monge pelo seu nome; a resposta, sem muitos preâmbulos, leva-nos imediatamente à questão da ausência de individualidade:
" Sua majestade, sou conhecido como Nāgasena. Meus confrades se dirigem a mim chamando-me de Nāgasena. Qualquer nome que os pais derem aos seus filhos Nāgasena, Sūrasena, Vīrasena, Sīhasena , se trata somente de um apelido, de uma noção comum, de uma designação, de um uso corrente. 'Nāgasena' é somente um nome, porque nenhum indivíduo (puggala) é aqui presente."34
Essas linhas sintéticas correspondem ao que, ao longo dos 27 capítulos das MMK, é apresentado analiticamente: o sujeito individual que temos a sensação de ser, e as entidades objetivas separadas com as quais pensamos nos relacionar, são somente nomes, designações convencionais, às quais não corresponde nada de ultimamente real.
Porém, evidentemente, essa tese presta-se a uma fundamental objeção. O rei Milinda a expressa da seguinte forma:
" Se, venerável Nāgasena, aqui não há pessoa alguma, quem será, então que lhes oferece roupa, comida, alojamento, remédios contra as doenças e ferramentas? Quem utiliza essas coisas? Quem exerce as virtudes morais? Quem se dedica à meditação? Quem realiza o caminho, o fruto e o nibbāna? Quem mata? Quem pega o que não lhe foi dado? Quem tem uma errada conduta sexual? Quem fala mentiras? Quem toma bebidas tóxicas? Quem cumpre as cinco ações de imediata retribuição [cármica]? Enfim, não há nem o que é saudável (kusala) nem o que é não saudável (akusala), não há quem cumpre ações saudáveis ou danosas, não há quem as faz cumprir, nem há resultado, maturação de ações virtuosas e não virtuosas: se, por exemplo, venerável Nāgasena, não existisse quem mate, também a ação de matar não existiria. Além disso, venerável Nāgasena, você não tem mestre, preceptor, ordenação."
O capítulo 24 das MMK, embora de forma mais esquemática, apresenta uma objeção muito semelhante à das MP:
1. Se tudo neste [mundo] é vazio, não há [portanto] nem aparição nem desaparição de nada: [isso] implica a sua [asserção da] inexistência, das Quatro Nobres Verdades;
2. Reto conhecimento, eliminação [dos falsos pontos de vista], meditação e realização, não existindo as Quatro Nobres Verdades, não seriam possíveis;
3. Não existindo esses [quatro momentos], os quatro nobres frutos35 seriam também inexistentes; os frutos não existindo, não existiria nenhum gozador dos frutos, nem os candidatos a gozá-los;
4. Se não existem os oito tipos de pessoas36, também não existe o Saṃgha37; e não existindo as Quatro Nobres Verdades, também o verdadeiro Dharma38 não seria visível.
5.6. E se não há Dharma e , como poderia haver ? dessa forma, afirmando a vacuidade, você rejeita também as três jóias39, e também rejeita a realidade dos frutos, o correto (dharma40) e o errado (adharma) e toda a ordem convencional (saṃvyavahāra) das coisas mundanas41.
Conforme sua atitude tipicamente sistemática, Nāgārjuna apresenta, ordenadamente, (partindo dos alicerces da visão buddhista do mundo ou seja, das Quatro Nobres Verdades e chegando, só no final, à problemática ética) a objeção a qual, na pergunta de Milinda, é apresentada em um estilo mais discursivo e desordenado, e com um enfoque maior nas consequências éticas finais da negação da individualidade: sem um 'si' individual, quem seria o sujeito das ações virtuosas e não virtuosas?
2.2. As duas verdades em MMK.24
A resposta de Nāgārjuna à objeção apresentada nos primeiros seis versos do capítulo 24 é uma passagem crucial das MMK. Ele fala:
7. A esse ponto, nós declaramos que você não entende o sentido da vacuidade, a vacuidade [em si] e seu objetivo. Por isso, você é perturbado [por ela];
8. O ensinamento do Dharma por parte dos buddhas é baseado sobre duas verdades: a verdade da convenção mundana (loka-sajvrti-satyam) e a verdade última (paramārthatah);
9. Os que não entendem a diferença entre tais duas verdades, não entendem a realidade profunda inerente ao ensinamento do Buddha42.
Dado o grande número de soluções (entre elas frequentemente contraditórias ou contrárias) fornecidas à questão do que seria 'verdade convencional' e que 'verdade última' no buddhismo mādhyamika, podese concluir que, pelo menos algum dos intérpretes de Nāgārjuna, de fato, não entendeu essa diferença (a menos que alguém não tente argumentar, contrariamente a qualquer lógica e evidência textual, que cada uma das duas verdades tenha um leque semântico que suporte qualquer tipo de interpretação), nem, portanto, "a profunda realidade ínsita no ensinamento do Buddha".
De qualquer forma, o fato de que a 'vacuidade' está de alguma maneira relacionada à 'realidade última', parece inquestionável. Os pontos a serem esclarecidos são: 1) qual é o exato sentido dessa relação de śūnyatā com paramārtha-satya? 2) Se o conceito de 'vacuidade' é uma qualificação da 'verdade última', esse seria a única qualificação possível de paramārthasatya, ou essa última seria qualificável também por meio de outros conceitos (que, evidentemente, deveriam ser equivalentes conceituais da vacuidade)43? 3) O que exatamente significa 'vacuidade'? Pura ausência de ser ou ausência de um tipo de ser (logo, existência de um modo de ser diferente do aparente)?
Unicamente está certo que a correta compreensão da vacuidade é, segundo Nāgārjuna, uma tarefa fundamental, cujo desatendimento constitui um obstáculo certo no caminho rumo à evolução espiritual:
11. A vacuidade mal-entendida perverte o homem pouco inteligente, como uma cobra mal apanhada ou uma fórmula mágica mal pronunciada44.
2.3. Receios niilistas nas MP
Dando continuidade à nossa hipótese de que a análise das MP possa fornecer indicações para esclarecer pontos obscuros das MMK vemos como prossegue o diálogo entre Milinda e Nāgasena, que interrompemos com a objeção do rei à paradoxal declaração do monge de que a individualidade é algo de somente convencional e nominal.
O rei Milinda, um pouco inesperadamente (com efeito, o mais lógico seria que fosse Nāgasena que sustenta a tese da própria inexistência a fazer as perguntas e alcançar a conclusão que se seguem) começa a perguntar se a individualidade de Nāgasena possa ser identificada com partes e órgãos do corpo:
"Venerável Nāgasena, são, por acaso, os cabelos 'Nāgasena'?
Não, majestade!
'Nāgasena' são, por acaso, os pelos?
Não, majestade!
São, por acaso, as unhas, os dentes, a pele, a carne, os músculos, os ossos, a medula, os rins, o coração, o fígado, as membranas, o baço, os pulmões, os intestinos, o mesentério, o estômago, os excrementos, a bile, o flegma, o pus, o sangue, o suor, a gordura, as lágrimas, o soro, a saliva, o muco, o liquido sinovial, a urina, o cérebro na cabeça, são por acaso digo essas coisas 'Nāgasena'?
Não, majestade!"
O rei, portanto, passa a perguntar se a corporeidade no seu conjunto, ou qualquer dos outros quatro skhanda, permite individuar o 'si' do seu interlocutor:
"Venerável, 'Nāgasena', por acaso, é a forma material (rūpa)?
Não, majestade!
'Nāgasena' são, por acaso, a sensação (vedanā), a ideação (saññā), as atividades volitivas (sankhāra), a consciência (viññāna)?
Não, majestade!
Mas, então, venerável, talvez 'Nāgasena' seja o conjunto de forma material, sensação, ideação, atividades volitivas, consciência?
Não, majestade!
Mas, então, venerável, 'Nāgasena' é outra coisa afora de forma material, sensação, ideação, atividades volitivas, consciência?
Não, majestade!"
A conclusão, enfim, é inevitável: essa perfeitamente coincide com a tese inicial apresentada por Nāgasena a individualidade, não podendo ser identificada, não existe:
" Embora eu, venerável, esteja repetidamente perguntando quem é Nāgasena, não vejo nenhum Nāgasena! Nāgasena, venerável, é somente uma palavra (sadda). Por isso, quem está aqui? Você, venerável, está utilizando uma palavra falsa e mentirosa! Nāgasena não existe".
A evidência lógica do 'não-si', contraposta à convicção instintiva na nossa individualidade, tem um efeito perturbador: o rei Milinda parece confuso, a ponto de esquecer que era o próprio Nāgasena, no começo do diálogo, a afirmar que o próprio nome carecia de denotação.
2.4. Verdade última e convencional nas MP
A vacuidade mal-entendida, como lembrado por Nāgārjuna, é algo de extremamente perigoso; Nāgasena, portanto, está devendo uma explicação para o rei Milinda, para que ele não 'pegue a cobra'de forma errada. E essa explicação, baseada na dicotomia entre significado 'último' e 'convencional', segundo a hipótese aqui apresentada, deve ter peso e influência na maneira com a qual o próprio Nāgārjuna entende essas mesmas duas categorias epistemológicas.
Nāgasena, conforme um estilo plenamente 'maiêutico', quer que seja o mesmo rei, por meio do seu próprio raciocínio, a chegar à visão correta. O monge, portanto, começa perguntando a Milinda se ele chegou naquele lugar a pé ou por um meio de transporte;
" Eu, venerável, não vim a pé, mas de carruagem.
Se você veio de carruagem, me mostre a carruagem. É, por acaso, o timão a carruagem, majestade?
Não venerável!
A carruagem, talvez, seja o eixo?
Não venerável!
A carruagem, talvez, sejam as rodas?
É, por acaso, o chassi [...], a vara da bandeira [...], o jugo [...], as rédeas [...], o aguilhão para empurrar o gado?
Não venerável!
Mas então, majestade, a carruagem talvez seja algo de diferente além de chassi, vara da bandeira, jugo, rédeas, aguilhão para empurrar o gado?
Não venerável!
Embora eu esteja repetidamente perguntando o que é a carruagem, não vejo nenhuma carruagem. A carruagem é somente uma palavra, majestade. Que carruagem há aqui? Você, majestade, está utilizando uma palavra falsa e mentirosa. A carruagem não existe! Você, majestade, é o rei principal do inteiro Jambudipa45: está com medo de quem, por falar uma mentira?"
A desestruturação da visão ordinária do mundo, a essa altura, é completa: não somente a dimensão subjetiva é vazia de um núcleo individual e, portanto, não existe em si, mas também no mundo dos objetos não conseguimos achar nada de substancial, cada coisa podendo ser reduzida às partes que a compõem.
Significa, tudo isso, niilismo? A conclusão de que não existe nenhuma individualidade subjetiva nem objetiva equivale a dizer que não existe definitivamente nada?
É o próprio Milinda que, depois da apertada troca de perguntas e respostas, chega a vislumbrar a realidade:
" Eu, venerável Nāgasena, não digo nenhuma mentira, desde que é em virtude do timão, do eixo, das rodas, do chassi, da vara da bandeira, do jugo, das rédeas, do aguilhão para empurrar o gado que a carruagem existe como apelido, noção comum, designação, uso corrente, nome."
Essa conclusão do rei é uma repetição só aparente das primeiras palavras de Nāgasena, quando o monge negava a sua própria existência como individuo. Nas palavras de Milinda, há algo de diferente: 'carruagem' é algo somente nominal e, podemos dizer, convencional46, mas é algo, que tem sua razão de ser nas partes que o compõem. Até agora, o ponto de partida e a conclusão do diálogo eram que nem Nāgasena, nem a carruagem existiam. Aqui, a perspectiva é outra: a carruagem existe como noção comum, ou seja, é uma 'verdade convencional'.
Nāgasena pode, agora, aplicar o raciocínio do rei à própria pessoa, da qual antes tinha sido declarada a não existência:
" Muito bem, majestade, você sabe o que é uma carruagem! As mesmas considerações valem para mim também. Com efeito, é em virtude dos cabelos, pelos, unhas...e em virtude de forma material, sensação, ideação, atividades volitivas e consciência que Nāgasena existe como apelido, noção comum, designação, uso corrente, nome. Segundo o ponto de vista absoluto (paramattha), aqui não há pessoa. Isso, majestade, foi também falado pela monja Vajirā à presença do Beato:
Como quando, juntando as partes,
Usa-se a palavra 'carruagem',
Assim quando há os agregados (khandha)
É convenção (sammuti) dizer 'ser'47".
A conclusão da primeira parte do diálogo (a essa se seguirão dezenas de outras páginas, em que serão abordados alguns detalhes da doutrina do nãosi, além de outros assuntos) é, portanto, muito clara: 'verdade convencional' é o que aparece ao olhar ordinário: uma realidade de entes, objetivos e subjetivos, individuais e separados; 'verdade última' é que nenhum de tais entes existe como aparece. Não há, nas MP, uma caracterização positiva de um verdadeiro modo de ser das coisas, a dizer, a tentativa de descrição de um nível de realidade que verdadeiramente exista, além das aparências. As partes constitutivas, sobre as quais conceitos e nomes convencionais são fundados, não são definidas 'verdade última'. 'Verdade última', na conclusão das MP, é somente que 'aqui não há pessoa'.
3. Conclusão
Os resultados da análise efetuada até agora podem ser sintetizados como se segue.
A aparente contradição de alguns dos discursos iniciais do Buddha que propõem uma metafísica antissubstancialista e uma ética aparentemente centrada no conceito de substância individual deu lugar, na reflexão buddhista sucessiva ao desaparecimento do Buddha, a uma epistemologia baseada na teoria das duas verdades.
Quanto ao conteúdo da primeira dessas duas verdades, a convencional (saṃvṛti), na tradição filosófica que precede e acompanha o desenvolvimento mahāyāna do pensamento buddhista, não encontramos divergências: 'verdade convencional'é o mundo fenomênico: um mundo plural, de pessoas e de coisas, cada uma delas aparentemente dotada de substancialidade e individualidade.
Com relação à definição da 'verdade última', pelo contrário, as filosofias pré-mahāyāna apresentam duas tendências bem distintas: a primeira é a das escolas abhidharmika, de considerar ultimamente reais os dharma instantes indivisíveis de realidade, discretos, cada um dotado de uma natureza própria (física ou psíquica) específica, componentes últimos de todos os entes complexos de que se compõe a realidade convencional. A segunda tendência, evidente nas MP, é aquela de tratar apofaticamente o plano da 'verdade última': objetivo do monge Nāgasena, ao longo do diálogo com o rei Milinda, é o de demonstrar o que paramārtha satya não é, sem oferecer alguma caracterização positiva dela.
Essas duas maneiras uma catafática, a outra apofática de tratar a temática da 'verdade última' são aquelas que definem os termos e o nível do debate epistemológico da época de Nāgārjuna e que, portanto, devem ser consideradas uma fundamental referência da reflexão dele.
Vários estudiosos contemporâneos, mesmo reconhecendo que o mestre mādhyamika rejeita a caracterização substancialista de 'verdade última' oferecida pelas escolas abhidharmika, no entanto, acreditam que ele compartilhe com aquelas escolas uma abordagem catafática ao conceito de paramārtha satya. Essa seria, portanto, de alguma maneira, definível: como 'absoluto', como 'relatividade universal', como 'Um'48 ou até enfatizando os significados de 'zero' e de 'ausência' presentes na palavra śūnyatā como 'nada', pura 'ausência de ser'49.
Contra tal tendência interpretativa, outros estudiosos de Nāgārjuna50 acreditam que a sua maneira de tratar paramārtha seja somente apofática só pode ser dito o que não é ultimamente verdadeiro: isto é, qualquer visão da realidade que se baseie na percepção ou na concepção de algo de substancial e individual. Os poderosos instrumentos conceituais da 'vacuidade' (śūnyatā) e da 'originação dependente' (pratītyasamutpāda), longe de serem uma descrição da verdade última, só teriam a função de desestruturar e destruir as visões do mundo a ordinária, mas também aquela, mais elaborada, das escolas filosóficas abhidharmika baseadas em qualquer ideia de 'si'.
Entre outros possíveis pontos a favor dessa segunda hipótese interpretativa, este artigo enfatizou o paralelismo entre MMK.24 e a primeira parte das MP um texto evidentemente apofático em relação a paramārtha. a semelhante construção e desenvolvimento do discurso entre os dois textos sugere que as MMK tenham uma maneira parecida de entenderem a dimensão da 'verdade última'.
Essa última, apesar de não poder ser aprendida ou descrita pelo raciocínio filosófico, fundado na convenção linguística e conceitual, pode, porém, de alguma maneira, ser alcançada a partir daquele raciocínio, uma vez que, "sem fundar-se na convenção (vyavahāra), a realização última (paramārtha) não pode ser mostrada"51.
Os discursos rigorosamente lógico-conceptuais feitos por Nāgārjuna, sem a possibilidade de dizer algo a respeito da 'verdade última', visariam levar o adepto da escola Madhyamaka à superação da lógica e da conceptualização e, com isso, à fruição, não discursiva e não conceptual, da própria 'verdade última'.
Referências bibliográficas
Fontes primárias:
Fontes secundárias:
Artigo recebido em 17/03/2010 e aprovado em 20/06/2010.
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