Os fantasmas

Os fantasmas

Renato Castelo Branco

Escritor e publicitário

Resolvi ir à praia. Mas não consegui me desfazer de meus fantasmas. Levantara-me com eles. Sentaram-se comigo à mesa do café. E agora me acompanhavam à praia, disputando minha atenção. Se olhava para o sol, lá vinha a velha Ana, arrastando a perna, com seus provérbios, me contar histórias do troncoso. Se contemplava as ondas, delas emergia, como uma Vênus de Boticelli, o vulto de Aldenora a dos olhos de guajuru.

A maré estava baixa, a praia larga e úmida. Havia pelo chão lindas conchas róseas e negros grãos de petróleo. Pisava com atenção para não esmagá-los. E sentia, nessa manhã, tão presentes os meus fantasmas que, por um momento, pensara em observar se eles também não os pisavam.

Ah!, os meus fantasmas. Alguns são velhos e bons amigos que revejo com prazer. Outros, ao contrário: Não é fácil encará-los com ódio no coração. Muitos já morreram e falam-me esmaecidos, do fundo do passado. Outros são fantasmas de pessoas vivas, que se materializam em minhas memórias. Você vê aquela velhinha brejeira, de passos rápidos e olhos azuis? É minha avó Tônica. E aquele moço de grandes olheiras, andar claudicante, com uma bondade infinita no rosto? É meu irmão. Mas deixe agora que lhe mostre um fantasma de vivo. Ali está ele me espreitando, com seus olhos — como descrever seus olhos líquidos, cheios de cupidez e luxúria? Aquele é Bob.

Às vezes tenho sérios problemas com meus fantasmas. É quando eles surgem nas horas mais inesperadas e impróprias. O fantasma da velha Ana surgiu-me uma vez quando eu me entregava ao ato do amor. Como? Por que estranhos e insondáveis ela me apareceu, com sua carapinha branca, repetindo:

— "Entrou pelo bico do pato, saiu pelo bico do canivete, e o senhor rei mandou dizer que me conte mais sete."

De outra feita tive problemas angustiantes com o fantasma de José de Souza a me contar anedotas safadas durante a missa do sétimo dia de uma pessoa venerada.

Mas isso, pelo menos, fora no ambiente confinado de uma alcova ou da nave de uma Igreja. Mas ali, na praia, ampla, livre, tocada de vento do mar, deveria supor que se fossem, que me deixassem a sós. Mas não. Ali estavam, onipresentes, em volta de mim. A velha Ana, querendo me contar histórias... minha avó Tonica, de olhos azuis, contemplando o mar... José Condor, autor de uma infâmia cruel... o bom Mário dos Santos, o galante filósofo... lembranças de bondade e de mágoa.

Olhei em volta. Tomei tio José pelo braço e seguimos juntos, evitando pisar as róseas conchas e os negros grãos de petróleo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2011
  • Data do Fascículo
    Mar 1986
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