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O QUE OS “ARQUIVOS DO IMPERIALISMO” NOS ENSINAM SOBRE O FENÔMENO DA DESERÇÃO DE ATLETAS CUBANOS DURANTE A GUERRA FRIA

WHAT THE “ARCHIVES OF IMPERIALISM” TEACH US ABOUT THE PHENOMENON OF DEFECTION OF CUBAN ATHLETES DURING THE COLD WAR

Resumo

Este estudo buscou realizar uma reconstrução histórica da deserção de atletas cubanos durante a Guerra Fria. A partir da consulta e da análise dos documentos secretos dos serviços de inteligência do governo dos Estados Unidos, recentemente colocados à disposição nos acervos digitais da CIA e dos National Archives, concluímos que esse fenômeno foi induzido de forma sistemática, planejada e intencional por agentes da CIA e grupos cubano-americanos sediados nos Estados Unidos.

Palavras-chaves:
Deserção; Guerra Fria; História do esporte; Revolução Cubana

Abstract

This study proposes a historical reconstruction of the defection of Cuban athletes during the Cold War. By consulting and analyzing secret documents produced by the US intelligence services, recently made available in digital collections of CIA and the National Archives, we conclude that this phenomenon was systematically and intentionally driven by CIA agents and Cuban-american groups living in the United States.

Keywords:
Defection; Cold War; History of Sport; Cuban Revolution

Introdução

Em artigo sobre a história recente do esporte cubano, Chappell (2004CHAPPELL, Robert. 2004. Sport in Cuba: before and after ‘the wall’ came down. The Sport Journal, 3 jan., pp. 1-15., p. 10) afirma que 70 atletas desertaram de Cuba no ano de 1991, em sua maioria jogadores de beisebol (peloteros) e boxeadores atraídos por altos pagamentos nos Estados Unidos. Por sua vez, Carter (2008CARTER, Thomas. 2008. New rules to the old game: Cuban sport and State legitimacy in the post-Soviet Era. Identities, v. 15, n. 2, pp. 194-215., p. 212) diz que, ao longo da década de 1990, a deserção de atletas cubanos aumentou gradualmente tanto em alcance quanto em frequência. De acordo com Salomon (2011SALOMON, Rachel. 2011. Cuban baseball players, the unlucky ones: United States-Cuban professional baseball relationships should be an integral part of the United States-Cuba relationship. The Journal of International Business & Law, v. 10, n. 1, pp. 153-187., p. 153), o primeiro caso de deserção no beisebol cubano ocorreu no dia 10 de julho de 1991, quando o pelotero René Arocha deixou Cuba para jogar profissionalmente nos Estados Unidos; nos vinte anos seguintes, outros 200 peloteros cubanos seguiriam o mesmo caminho de Arocha. Todavia, até o ano de 1995, a deserção era algo “relativamente incomum” (Salomon, 2011SALOMON, Rachel. 2011. Cuban baseball players, the unlucky ones: United States-Cuban professional baseball relationships should be an integral part of the United States-Cuba relationship. The Journal of International Business & Law, v. 10, n. 1, pp. 153-187., p. 161). Mais recentemente, a historiadora Aviva Chomsky (2015CHOMSKY, Aviva. 2015. A history of the Cuban Revolution. 2. ed. Chichester: Willey., p. 101) referiu-se ao Período Especial1 1 O “Período Especial” foi anunciado oficialmente pelo governo cubano no dia 29 de agosto de 1990. O fim dos países socialistas europeus encontra-se na raiz dos problemas enfrentados pelo povo cubano a partir do início desse período, considerando que tais países “[…] forneciam 85% das importações cubanas, 80% dos investimentos e recebiam ao redor de 80% das exportações do país” (García, 2011, p. 29). A crise econômica do socialismo cubano, que se seguiu após o fim do bloco socialista no Leste Europeu, caracterizou-se pela queda do PIB, pelo déficit fiscal e pela queda das importações a preços correntes (García, 2011). Os efeitos negativos gerados pela crise econômica consistiram na deterioração do padrão de vida dos grupos mais vulneráveis, na diminuição do número de matrículas escolares, na deterioração dos serviços de saúde, no crescimento do desemprego e numa distribuição de renda regressiva (García, 2011). como sendo um período durante o qual “os atletas cubanos encararam a tentação da deserção” e, para evidenciar esta afirmação, a autora destacou a deserção de 50 membros da delegação cubana que participou dos Jogos Centro-Americanos de 1993, bem como as “duas dúzias” de peloteros cubanos que foram “recrutados” em troca de “ofertas lucrativas” oferecidas por algum agenciador cubano-americano. Em seguida, a autora citou os depoimentos de dois esportistas cubanos que desertaram durante a década de 1990, nos quais ambos apontam dificuldades econômicas, as carências materiais e até mesmo o igualitarismo cubano como os principais fatores que motivavam a opção pela deserção (Chomsky, 2015CHOMSKY, Aviva. 2015. A history of the Cuban Revolution. 2. ed. Chichester: Willey., p. 102).

De acordo com os autores supracitados, o fenômeno da deserção de atletas cubanos foi algo espontâneo, não planejado, resultante de causas puramente econômicas relacionadas à crise do socialismo cubano na década de 1990. Entretanto, depois de efetuar uma investigação nos documentos secretos dos órgãos de inteligência do governo dos Estados Unidos, disponibilizados em formato digital pelo próprio governo norte-americano, descobrimos que, diferentemente do que consta na literatura consultada, a deserção de atletas cubanos foi um fenômeno induzido, sistematicamente planejado e motivado por razões de ordem política, cujas raízes históricas remontam às décadas de 1960 e 1970, durante a Guerra Fria. A pesquisa histórica que realizamos consistiu na consulta e na análise de documentos outrora secretos do governo norte-americano, que recentemente foram colocados à disposição nos acervos digitais da Central Intelligence Agency (CIA) e dos Arquivos Nacionais (National Archives). Trata-se de uma documentação que permaneceu sob sigilo durante décadas e que ainda não havia sido tomada como objeto de análise por parte dos autores que se dedicaram a pesquisar a história do esporte cubano. Os documentos citados neste artigo foram publicados pelo próprio governo norte-americano, seja devido ao esgotamento do prazo de sigilo de cada um deles, seja por força da Lei nº 102-526, intitulada “President John F. Kennedy Assassination Records Collection Act of 1992”, que determinou a publicação do conteúdo da documentação relacionada ao assassinato do presidente norte-americano John Kennedy (United States, 1992UNITED STATES. 1992. Public Law 102-526, Oct. 26, 1992. To provide for the expeditious disclosure of records relevant to the assassination of President John F. Kennedy. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3XcheuG . Acesso: 7 fev. 2023.
https://bit.ly/3XcheuG...
). Todas as citações de documentos norte-americanos foram traduzidas por este autor e podem ser checadas (em inglês) a partir dos links de acesso que estão na bibliografia ao final do artigo.

Discussão e análise dos documentos

Os primeiros registros documentais da deserção de atletas cubanos durante competições internacionais remontam ao ano de 1962, quando da participação de Cuba nos Jogos Centro-Americanos e do Caribe, realizados na Jamaica. No documento intitulado Efforts to split the regime (“Esforços para dividir o regime”), onde consta um relatório de estudo sobre os loci de poder, grupos políticos e líderes-chave (key-leaders) do governo cubano, há uma referência à deserção de atletas cubanos durante os Jogos Centro-Americanos de 1962. No tópico final do referido documento, há uma lista de dezesseis nomes de membros do governo cubano que a CIA considerava como sendo pessoas que, possivelmente, “não aprovam a direção comunista da Revolução Cubana e podem de fato estar conspirando contra o regime” (United States, 1962UNITED STATES. 1962. Efforts to split the regime. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3XdSrGH . Acesso em: 20 fev. 2020.
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, p. 5). O 13º nome da referida lista é o de José Llanusa, que foi o primeiro diretor-geral do Instituto Nacional de Deportes, Educación Física y Recreación (Inder)2 2 O Inder foi fundado em fevereiro de 1961 e, desde então, possui status ministerial para tratar da gestão do esporte em Cuba. entre 1961 e 1965, identificado no documento como “diretor de esportes em Cuba” e “ex-prefeito de Havana” (United States, 1962UNITED STATES. 1962. Efforts to split the regime. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3XdSrGH . Acesso em: 20 fev. 2020.
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, p. 7, tradução nossa). De acordo com o documento, a CIA falhou nos seus “esforços para recrutar Llanusa em maio de 1962” (United States, 1962UNITED STATES. 1962. Efforts to split the regime. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3XdSrGH . Acesso em: 20 fev. 2020.
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, p. 7, tradução nossa). No mesmo parágrafo, logo após a afirmação de que os esforços para recrutar Llanusa falharam, consta a seguinte ressalva: “entretanto, um total de dez (10) atletas cubanos desertaram durante o mesmo período dos 9º Jogos Centro-Americanos e do Caribe em Kingston, Jamaica” (United States, 1962UNITED STATES. 1962. Efforts to split the regime. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3XdSrGH . Acesso em: 20 fev. 2020.
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, p. 7, tradução nossa). Tendo em vista que a informação sobre a deserção dos atletas cubanos encontra-se no interior de um tópico que faz referência a uma “Força-tarefa esforços para dividir o regime”, pensamos que a mesma “força-tarefa” dedicada a “dividir o regime” estava implicada tanto na tentativa de recrutar Llanusa quanto na deserção dos atletas cubanos nos Jogos Centro-Americanos da Jamaica.

A deserção de atletas cubanos nos Jogos Centro-Americanos de 1962 foi objeto de discurso por parte do próprio Llanusa, que, durante o ato de homenagem aos atletas cubanos que regressaram da Jamaica, referiu-se aos meios empregados pelos agentes “a serviço do imperialismo” no sentido de induzir a deserção dos atletas cubanos durante a referida competição; na ocasião, Llanusa disse que, numa delegação “tão numerosa”, não podia faltar a “traição”, isto é, a “fuga de covardes” que perderam a oportunidade de “trabalhar pela construção do socialismo e da Cuba de amanhã” (Llanusa, 1962LLANUSA, José. 1962. Discurso pronunciado por el diretor del INDER, José Llanusa, en la Ciudad Deportiva de La Habana, en el acto a los atletas que regresaron de Jamaica “vencedores” despues de competir en los Juegos Centroamericanos. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3IlPCPI . Acesso em: 25 ago. 2020.
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, p. 2). Mais adiante, ainda no mesmo discurso, Llanusa procedeu a uma contabilidade dos casos de deserção naquela competição: num total de nove desertores, todos homens, quatro eram atletas e cinco eram membros da delegação cubana que atuavam como “conspiradores” dentro de seu próprio país e que haviam passado “definitivamente para as fileiras do imperialismo” (Llanusa, 1962LLANUSA, José. 1962. Discurso pronunciado por el diretor del INDER, José Llanusa, en la Ciudad Deportiva de La Habana, en el acto a los atletas que regresaron de Jamaica “vencedores” despues de competir en los Juegos Centroamericanos. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3IlPCPI . Acesso em: 25 ago. 2020.
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, p. 2). O total de deserções contabilizado por Llanusa se aproxima das dez deserções contabilizadas no relatório secreto do governo dos Estados Unidos, embora a documentação norte-americana tenha registrado que todos os desertores cubanos eram atletas, enquanto Llanusa distinguia os desertores entre atletas e demais membros da delegação cubana. Ainda segundo o diretor-geral do Inder, os atletas cubanos que desertaram durante a competição na Jamaica representavam “1,7%” do conjunto de atletas que compunham a delegação cubana: “de 227 atletas, o imperialismo só pôde comprar quatro” (Llanusa, 1962LLANUSA, José. 1962. Discurso pronunciado por el diretor del INDER, José Llanusa, en la Ciudad Deportiva de La Habana, en el acto a los atletas que regresaron de Jamaica “vencedores” despues de competir en los Juegos Centroamericanos. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3IlPCPI . Acesso em: 25 ago. 2020.
https://bit.ly/3IlPCPI...
, p. 2).

A tese de que a CIA estava implicada na deserção dos atletas cubanos em agosto de 1962 foi reforçada por outro documento secreto, formulado pelo governo norte-americano para uso interno, onde consta um relatório de estudos sobre as operações da CIA contra Cuba antes do assassinato do presidente John Kennedy, em novembro de 1963. No referido documento, há uma lista de organizações dedicadas à disseminação de “propaganda anti-Castro”, que surgiram a partir da iniciativa de exilados cubanos em Miami, mas que logo “se tornaram largamente dependentes da CIA para a realização de suas atividades” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, p. 3, tradução nossa). Nessa lista, a segunda organização citada foi a Unión Deportiva de Cuba Libre (UDCL), identificada no referido documento como uma organização esportiva “estabelecida pela CIA em outubro de 1962” e liderada por “uma figura dos esportes cubanos muito conhecida” e por “um proeminente cronista esportivo cubano” (United States, 196UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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8, p. 4, tradução nossa). De acordo com o referido documento, os líderes da UDCL estiveram presentes nos Jogos Centro-Americanos em agosto de 1962, distribuíram “propaganda anti-Castro” e “foram em parte responsáveis pela deserção de dez atletas cubanos” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, p. 4, tradução nossa).

Nada consta que os líderes da UDCL tenham sido recrutados (ou não) pela CIA anteriormente ao episódio da deserção de atletas cubanos na Jamaica, embora seja possível que alguns deles tenham sido recrutados dentro de Cuba por agentes da CIA, que desde “a última parte de 1959” dedicava-se à realização de ações “quase que totalmente devotadas ao desenvolvimento da operação paramilitar que culminou na invasão da Baía dos Porcos” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, pp. 1-2, tradução nossa). Mesmo após o fracasso da referida invasão, a CIA “manteve uma Estação em Havana” que, por sua vez, “treinou e recrutou agentes de inteligência”, além de continuar “fornecendo informações sobre Cuba via comunicação de rádio e malotes diplomáticos latino-americanos” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, pp. 1-2, tradução nossa). O mais provável é que os líderes da UDCL tenham sido recrutados e treinados pela “grande Estação” estabelecida pela CIA em Miami em setembro de 1961 (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, pp. 1-2, tradução nossa). Em outubro de 1962, sob a tutela da CIA, a UDCL realizou outra operação semelhante durante os Jogos Ibero-Americanos de Madri, mas com “menos sucesso”: além da distribuição de propaganda, “duas deserções foram induzidas” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, p. 4, tradução nossa). Poucos meses depois, a UDCL distribuiu panfletos durante os Jogos Pan-Americanos de São Paulo, em 1963, mas falhou nas suas tentativas de suscitar deserções por parte da delegação cubana durante a sua estadia no Brasil: “Nenhuma deserção foi induzida” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, p. 4, tradução nossa). Por fim, consta no documento que, durante o ano de 1963, a UDCL foi responsável pela “obtenção de uma suspensão temporária de Cuba das competições olímpicas” e pela “mudança da sede do XVI Campeonato Mundial de Beisebol Amador de Cuba para outro país” (United States, 1968UNITED STATES. 1968. CIA operations against Cuba prior to the assassination of president John F. Kennedy on 23 November 1963. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHONnb . Acesso em: 25 fev. 2020.
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, p. 4, tradução nossa).

A “suspensão temporária” das “competições olímpicas” - creditada à UDCL - foi mesmo algo temporário: no ano seguinte, Cuba participou das Olimpíadas de Tóquio (1964). Por outro lado, não apenas Cuba deixou de ser a sede do Campeonato Mundial de Beisebol Amador de 1965, como também a seleção cubana foi proibida de participar da referida competição por conta de uma medida aprovada pela Federação Internacional de Beisebol Amador (Fiba), que foi denunciada por Llanusa através de um pronunciamento público via rádio que foi gravado, traduzido para o inglês e transcrito pela CIA: em documento datado de 6 de janeiro de 1965, consta que Llanusa teria afirmado que os dirigentes da Fiba agiram “em contato direto com contrarrevolucionários cubanos” e “obedecendo às ordens do mestre imperialista yankee” (United States, 1965aUNITED STATES. Foreign Broadcast Information Service. 1965a. Havana in Spanish to the Americas, 6 jan. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3xnwdqY . Acesso em: 17 abr. 2020
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, p. 1, tradução nossa).

Mais ainda, Llanusa teria declarado que o governo cubano possuía informações sobre o envolvimento do governo norte-americano no referido boicote à seleção cubana de beisebol; nas palavras do diretor-geral do Inder: “já tínhamos ficado sabendo através da imprensa que serve ao Departamento de Estado dos Estados Unidos que Cuba seria eliminada da Federação Internacional de Beisebol Amador” (United States, 1965aUNITED STATES. Foreign Broadcast Information Service. 1965a. Havana in Spanish to the Americas, 6 jan. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3xnwdqY . Acesso em: 17 abr. 2020
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, p. 2, tradução nossa). Prosseguindo, Llanusa teria afirmado que, em novembro de 1964, “uma das publicações financiadas pela CIA” veiculou a notícia de que Cuba “foi eliminada de todos os eventos que esta organização [a Fiba] possa realizar” (United States, 1965aUNITED STATES. Foreign Broadcast Information Service. 1965a. Havana in Spanish to the Americas, 6 jan. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3xnwdqY . Acesso em: 17 abr. 2020
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, p. 2, tradução nossa).

Em outro documento norte-americano, onde consta uma “mensagem secreta” datada de setembro de 1965, há informações relativas à participação dos serviços de inteligência dos Estados Unidos na realização de operações secretas destinadas a provocar a deserção de atletas cubanos em competições internacionais. Nesta mensagem secreta consta que um informante cubano - de codinome Iden e identificado no documento como uma figura dos esportes muito popular em Cuba - encontrou-se com um exilado cubano recém-chegado a Madri dizendo ser irmão de Jorge García Bango3 3 Jorge García Bango foi vice-diretor (1965-1967) e diretor-geral (1967-1980) do INDER, tendo sido o dirigente cubano que permaneceu mais tempo à frente da gestão dos esportes no país. , recém-nomeado vice-diretor do Inder, ao qual teria escrito pedindo que contactasse Iden para solicitar a sua “ajuda” no sentido de “explorar” a “possibilidade” de que a seleção cubana de beisebol fosse para a Espanha e fizesse algumas partidas contra os espanhóis no mês seguinte, em outubro de 1965 (United States, 1965bUNITED STATES. 1965b. Classified message. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3jEO9dG . Acesso em: 19 fev. 2020.
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, p. 1, tradução nossa). Mais adiante, ainda na referida mensagem secreta, consta a informação de que a “Station” previa a realização de “possíveis operações” em função da possível viagem dos peloteros cubanos para a Espanha (United States, 1965bUNITED STATES. 1965b. Classified message. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3jEO9dG . Acesso em: 19 fev. 2020.
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, p. 2, tradução nossa). Pouco depois, o autor da mensagem secreta afirmou que Iden estava “confiante” de que conseguiria “induzir vários jogadores” a “desertar” e que “possivelmente” promoveria um “contato da Station com Jorge [García Bango]” (United States, 1965bUNITED STATES. 1965b. Classified message. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3jEO9dG . Acesso em: 19 fev. 2020.
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, p. 2, tradução nossa).

A deserção de atletas cubanos voltaria a ser objeto de polêmica por ocasião dos Jogos Centro-Americanos e do Caribe de 1966, em Porto Rico, país que havia sido anexado pelos Estados Unidos no final do século XIX sob a influência da Doutrina Monroe, “que conferia ao governo norte-americano um ‘poder de polícia internacional’ sobre o continente americano” (Losurdo, 2018LOSURDO, Domenico. 2018. Um mundo sem guerras: a ideia de paz das promessas do passado às tragédias do presente. São Paulo: Editora Unesp., pp. 262-263). Em um memorando produzido pela CIA no dia 8 de junho de 1966, há uma crítica contundente em relação à recusa, por parte das autoridades norte-americanas, de autorizar a participação dos atletas cubanos na referida competição esportiva. A própria CIA classificou essa recusa no referido memorando como uma “ação mesquinha e infantil por parte de Washington”, realizada “em nome da política dos Estados Unidos de isolar Cuba” (United States, 1966aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966a. New Cuban anti-US campaign likely. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHcWdF . Acesso em: 15 mar. 2020.
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, p. 2, tradução).

Para o autor do memorando da CIA, a ação de Washington estava dando ao “regime de Castro” a oportunidade de explorar, nacional e internacionalmente, a representação dos Estados Unidos como “agressor imperialista”. Dessa forma, além de difundir internamente a imagem dos Estados Unidos como “bicho-papão” (“bogeyman”) na esperança de “distrair o povo cubano de suas dificuldades cotidianas”, Fidel Castro teria também um “bom caso” com o qual poderia causar a impressão para outras “nações subdesenvolvidas” de que “os Estados Unidos falam sobre justiça e democracia, mas de fato violam as regras internacionais sempre que acham conveniente” (United States, 1966aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966a. New Cuban anti-US campaign likely. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHcWdF . Acesso em: 15 mar. 2020.
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, p. 1, tradução nossa). Por meio desse documento a CIA procurou criticar e persuadir o governo norte-americano para que mudasse de estratégia e permitisse a participação dos atletas cubanos nos Jogos Centro-Americanos, evitando assim “maiores dores de cabeça”; caso contrário, na avaliação da CIA, “Fidel Castro terá força moral e uma questão legal contra os Estados Unidos” (United States, 1966aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966a. New Cuban anti-US campaign likely. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHcWdF . Acesso em: 15 mar. 2020.
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, p. 2, tradução nossa). Além do mais, no penúltimo parágrafo do referido documento, nota-se que a CIA julgava “provável” que “alguns atletas cubanos” desertariam depois que chegassem a Porto Rico, “o que os Estados Unidos poderiam ter explorado em suas transmissões de propaganda para Cuba e para o resto do mundo” (United States, 1966aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966a. New Cuban anti-US campaign likely. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHcWdF . Acesso em: 15 mar. 2020.
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, p. 2, tradução nossa).

Ainda sobre os Jogos Centro-Americanos de 1966, encontramos algumas informações em um relatório de contato (contact report) classificado como secreto, datado de abril de 1971, onde consta o relato do chefe da Miami Station para o chefe da “Divisão do Hemisfério Ocidental” da CIA (United States, 1971aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971a. Contact report: report on meeting with Ammug-1 and review of Cuban mugbooks v. 1. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3lfC3rO . Acesso em: 15 jan. 2021.
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, p. 2, tradução nossa). Nesse documento, o chefe da Miami Station relata que entrou em contato com um agente cubano-americano identificado pelo codinome Ammug-1, no intuito de rever o volume 1 dos livros de identificação de cubanos (Cuban mugbooks) (United States, 1971aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971a. Contact report: report on meeting with Ammug-1 and review of Cuban mugbooks v. 1. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3lfC3rO . Acesso em: 15 jan. 2021.
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, pp. 2-3). Segundo consta no documento, Ammug-1 abordou dois cubanos durante os Jogos Centro-Americanos de Porto Rico, atendendo a pedidos da CIA (United States, 1971aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971a. Contact report: report on meeting with Ammug-1 and review of Cuban mugbooks v. 1. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3lfC3rO . Acesso em: 15 jan. 2021.
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, p. 3). Um dos cubanos abordados por Ammug-1 em 1966 foi Arsenio Franco Villanueva, um agente G-2,4 4 Serviço cubano de inteligência e espionagem, adscrito ao Departamento de Segurança do Estado (DSE) do Ministério do Interior (Minint). que “dispensou de imediato” a abordagem do agente da CIA, “afirmando que ele [Arsenio] era um marxista-leninista” (United States, 1971aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971a. Contact report: report on meeting with Ammug-1 and review of Cuban mugbooks v. 1. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3lfC3rO . Acesso em: 15 jan. 2021.
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, p. 3, tradução nossa). O outro cubano abordado (igualmente sem sucesso) pelo referido agente da CIA foi Jorge García Bango (United States, 1971aUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971a. Contact report: report on meeting with Ammug-1 and review of Cuban mugbooks v. 1. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3lfC3rO . Acesso em: 15 jan. 2021.
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, p. 3).

O ponto de vista interno, cubano, a respeito dos fatos anteriormente relatados pôde ser identificado nos relatórios diários de informação da CIA sobre as transmissões de rádio e televisão de vários países do mundo: trata-se de alguns volumes dos relatórios diários produzidos pelo Foreign Broadcast Information Service (Serviço de Informação de Transmissão Estrangeira) durante o mês de junho de 1966. Nessa documentação, há traduções para o inglês de algumas transmissões de rádio e televisão feitas a partir de Havana, onde consta o conteúdo discursivo dos meios de comunicação cubanos que se reportaram à participação da delegação cubana nos Jogos Centro-Americanos de 1966. De toda a massa discursiva encontrada nas transmissões de rádio e televisão veiculadas a partir de Havana durante o mês de junho, mencionamos a seguir somente os dizeres e enunciados que fazem referência às tentativas de provocar e induzir a deserção dos atletas cubanos. A versão contida nas transmissões cubanas registradas pela CIA coincide com os depoimentos de atletas e membros da delegação cubana entrevistados em Porto Rico pelo escritor Jesus Díaz e, após o retorno à Cuba, por uma equipe de jornalistas cubanos (Díaz, 1966DÍAZ, Jesús. 1966. Broncas en San Juan. Revista CUBA, v. 26, n. 13, pp. 44-47. Disponível em: Disponível em: https://dloc.com/AA00068206/00052 . Acesso em: 17 mar. 2020.
https://dloc.com/AA00068206/00052...
, p. 44-47; La gran…, 1966LA GRAN prueba. 1966. Revista Cuba, v. 26, n. 13, pp. 57-65, 8 ago. Disponível em: Disponível em: https://dloc.com/AA00068206/00052 . Acesso em: 17 mar. 2020
https://dloc.com/AA00068206/00052...
, p. 57-65).

No dia 14 de junho de 1966, uma rádio cubana noticiou que, segundo informações do “Movimento Porto-Riquenho Pró-Independência”, a CIA estava “usando todos os meios para impedir os atletas cubanos de participar dos jogos” (United States, 1966bUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966b. Daily report: foreign radio broadcasts, vols. 111-115. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/40CLUIh . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/40CLUIh...
, p. 330). Além disso, na mesma data, a rádio cubana noticiou também as tentativas de induzir as deserções de um jogador de basquetebol e de um boxeador mediante a oferta de dinheiro e de um contrato para atuar profissionalmente no exterior.

Em 15 de junho de 1966, uma rádio cubana noticiou que “contrarrevolucionários e agentes imperialistas” continuavam tentando “assediar”, “agredir” e “subverter” os atletas cubanos; noticiou também que um contrarrevolucionário tentou “subverter Patrícia”, referindo-se à tenista cubana Patrícia La Paz (United States, 1966bUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966b. Daily report: foreign radio broadcasts, vols. 111-115. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/40CLUIh . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/40CLUIh...
, p. 405, tradução nossa). Encontramos também uma menção à malfadada tentativa de provocar a deserção do pelotero Aquino Abreu mediante suborno: de acordo com uma notícia transmitida via rádio a partir da capital cubana no dia 15 de junho de 1966, o referido esportista cubano teria recusado uma oferta de 25 mil dólares para “trair Cuba e aceitar um contrato para jogar nos Estados Unidos como jogador profissional” e, mesmo assim, um comentarista esportivo de San Juan “divulgou a notícia de que Abreu havia sido contratado para jogar por 50.000 dólares” (United States, 1966bUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966b. Daily report: foreign radio broadcasts, vols. 111-115. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/40CLUIh . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/40CLUIh...
, p. 406, tradução nossa). Ainda no mesmo dia 15 de junho, a rádio cubana noticiou que um comentarista esportivo de Porto Rico “lamentou-se de que Napoleon Reyes, um agente dos interesses do beisebol dos Estados Unidos, não tinha tido oportunidade de se aproximar dos jogadores cubanos”, ao que outro comentarista porto-riquenho respondeu dizendo que, muito provavelmente, “era o próprio Reyes que estava com medo de se aproximar dos cubanos depois de sua experiência em Kingston em 1962, quando este traidor correu a sua melhor corrida perseguido por jogadores cubanos indignados” (United States, 1966bUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966b. Daily report: foreign radio broadcasts, vols. 111-115. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/40CLUIh . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/40CLUIh...
, p. 406, tradução nossa).

No dia 22 de junho de 1966, uma rádio cubana noticiou que o ministro cubano da educação e ex-diretor do Inder José Llanusa concedeu uma entrevista em San Juan, durante a qual referiu-se ao mais recente caso de deserção por parte da delegação cubana: “um traidor que abandonou a delegação cubana e que, quando entrevistado, ele disse que tinha saído porque Llanusa era muito duro”; prosseguindo, Llanusa afirmou que: “Numa batalha nunca faltam traidores, mas os heróis se multiplicam. Para cada traidor há 100 Camilos [Cienfuegos]” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 90, tradução nossa).

No dia 23 de junho de 1966, uma rádio cubana noticiou que dois veículos de imprensa dos Estados Unidos haviam publicado pela manhã que a “imigração oficial dos Estados Unidos” havia dito que “12 garotas cubanas tinham desertado do time cubano”; em seguida, outra agência norte-americana de notícias publicou que um “porta-voz” do “serviço metropolitano de ônibus de San Juan” havia anunciado que “10 ou 12 garotas cubanas tinham pulado de um ônibus” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 176, tradução nossa). Entretanto, no mesmo dia, as agências norte-americanas de notícias anunciaram que “o Serviço de Imigração dos Estados Unidos pensava que a notícia não tinha base nos fatos e acreditava que era apenas um rumor” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 176, tradução nossa). Ainda durante a mesma transmissão de rádio, veiculada a partir de Havana no dia 23 de junho, um locutor esportivo cubano teria afirmado que, “numa ocasião anterior” à tentativa de sequestro das jogadoras cubanas de voleibol, outro motorista de ônibus teria “parado em frente a um dos chamados centros de abrigo de San Juan com o objetivo malsucedido de encorajar os cubanos a desertar” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 176, tradução nossa).

No dia 24 de junho de 1966, uma rádio cubana noticiou que, após uma tentativa de sequestro de 12 jogadoras da seleção cubana de voleibol, o matutino porto-riquenho El Imparcial carregava uma manchete “anunciando que 17 meninas tinham desertado da delegação cubana”, o que foi acompanhado de uma “campanha” midiática por parte da rádio San Juan, que “por horas transmitiu uma notícia de que 12 mulheres tinham desertado da delegação cubana” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 176, tradução nossa). Numa conferência de imprensa em Porto Rico, José Llanusa “negou a mentira” noticiada pela rádio porto-riquenha e “desafiou” a rádio a “apresentar as meninas da delegação cubana que, de acordo com os traidores, haviam desertado” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 176, tradução nossa).

Ainda no dia 24 de junho de 1966, uma transmissão de rádio cubana noticiou o primeiro caso de deserção por parte da delegação cubana durante os Jogos Centro-Americanos de Porto Rico. Após uma noite de vitórias da seleção cubana de luta greco-romana, um lutador cubano teria feito uma declaração “interessante” que aparecia no Granma (o jornal do Partido Comunista de Cuba): dirigindo-se “para todos os seus camaradas”, o atleta cubano afirmou que “esta vitória esmagadora da equipe cubana de luta greco-romana foi a melhor resposta para a deserção covarde de um dos seus membros”; ainda referindo-se ao atleta que havia desertado, afirmou que “sua vil traição nos deu ânimo para obter essas vitórias”; por fim, o lutador cubano afirmou ainda que a “equipe retornará a Cuba com medalhas”, mas que o desertor “felizmente não retornará” (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 273, tradução nossa).

A transmissão de rádio citada no parágrafo anterior não mencionou o nome do lutador cubano que desertou durante os Jogos Centro-Americanos de 1966, todavia ele foi mencionado pelo jornal The Miami Herald, em uma reportagem publicada no dia 15 de junho de 1966 intitulada “‘Eu não gostava de Castro’, diz o atleta cubano”: estamos falando de Juan Pablo Vega Romero (Burt, 1966BURT, Al. 1966. “I didn’t like Castro”, Cuban athlete says. The Miami Herald, 15 jun. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3YtwWT3 . Acesso em: 15 abr. 2020.
https://bit.ly/3YtwWT3...
, p. 20, tradução nossa). O lutador cubano é apresentado da seguinte maneira pelo editor responsável pela seção do jornal norte-americano reservada a assuntos latino-americanos: “Juan, um negro, tinha 11 anos de idade quando Fidel chegou ao poder”; “ele aproveitou a onda da juventude privilegiada de Cuba sendo preparada para o comunismo”; recebeu “doutrinação política” por parte de “instrutores soviéticos, tchecos e alemães orientais”; como atleta e como estudante de educação física, “tudo o que Cuba tinha para oferecer era dele”; filho de um membro do Partido Comunista e diretor de uma fábrica de móveis; lutador “peso-leve”; “atraente, cabelo escovinha, 18 anos de idade, que parece falar livremente o que pensa”; enfim, havia desertado “um rapaz que em todos os sentidos deveria ter sido um dos mais fortes apoiadores de Castro”, mas que preferiu “pedir asilo político nos Estados Unidos” (Burt, 1966BURT, Al. 1966. “I didn’t like Castro”, Cuban athlete says. The Miami Herald, 15 jun. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3YtwWT3 . Acesso em: 15 abr. 2020.
https://bit.ly/3YtwWT3...
, p. 20, tradução nossa). Além de apresentá-lo, o The Miami Herald veiculou uma série de dizeres e enunciados formulados pelo próprio atleta, dentre os quais destacamos e citamos os seguintes trechos, que se relacionam mais diretamente com o episódio de deserção que havia protagonizado poucos dias antes:

Eu não gostava de Castro. […] Eu tive a ideia de sair há muitos anos atrás. […] Eu não acreditava no que eles me diziam sobre os Estados Unidos na escola ou no que eu lia nos jornais. Eu não sei muito sobre os Estados Unidos, mas deve ser melhor que Cuba. Eu vejo as pessoas se movimentando por aí livremente, a liberdade de imprensa, as construções e a boa comida. […] Eu falei apenas para a minha namorada antes de partir. Ela me falou para ir e depois ajudá-la a sair. […] Nós só podíamos dar uma volta ao redor da Vila Olímpica. Se eu tivesse dito a Llanusa que eu queria sair, eu não estaria aqui. (Burt, 1966BURT, Al. 1966. “I didn’t like Castro”, Cuban athlete says. The Miami Herald, 15 jun. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3YtwWT3 . Acesso em: 15 abr. 2020.
https://bit.ly/3YtwWT3...
, p. 20, tradução nossa)

As declarações acima foram feitas em primeira pessoa e citadas literalmente (entre aspas) pelo editor do The Miami Herald para assuntos latino-americanos. Além das declarações em primeira pessoa, o referido jornal veiculou também algumas declarações do atleta cubano formuladas em terceira pessoa (sem aspas), que remetem ao episódio de deserção: o lutador cubano teria afirmado que “todos os atletas tinham sido alertados em Cuba que eles seriam tentados com dinheiro e promessas” e que o momento da fuga “veio” de uma “conversa como esta” com um atleta porto-riquenho ao qual “pediu ajuda” e “conseguiu”; após a fuga da Vila Olímpica em Porto Rico, ele “voou para Miami” e planejava ir “em direção à Chicago”, onde pretendia morar com um cunhado e “começar uma vida nova com a carreira de educação física em um país livre”; ainda segundo o jornal, Vega Romero teria dito que “não sabe quantos agentes G2 possam estar na delegação”, mas que “conhecia cerca de 20 homens que eram tipos políticos” (Burt, 1966BURT, Al. 1966. “I didn’t like Castro”, Cuban athlete says. The Miami Herald, 15 jun. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3YtwWT3 . Acesso em: 15 abr. 2020.
https://bit.ly/3YtwWT3...
, p. 20).

No dia 27 de junho de 1966, os serviços de rádio e televisão da CIA em Havana registraram a transmissão ao vivo dos pronunciamentos de Jesus Betancourt, então diretor-geral do Inder, e de Manuel Gonzalez Guerra, então presidente do Comitê Olímpico Cubano (COC), durante a cerimônia de recepção aos membros da delegação cubana em Santiago de Cuba. Logo após o pronunciamento do presidente do COC, o diretor-geral do Inder tomou a palavra e, durante o seu pronunciamento, referiu-se de forma mais contundente às operações da CIA e aos casos de deserção por parte da delegação cubana:

Em Porto Rico reuniram-se todos os vermes, todos os traidores, todas as prostitutas. Em Porto Rico reuniram-se todos os renegados agentes do Departamento de Estado ianque. Eles fizeram planos contra a nossa delegação. Eles fizeram o indizível para tentar rebaixar a nossa moral revolucionária. Nossos atletas, que sabiam que representavam o nosso povo heroico, no meio de todos estes obstáculos criados pelo Departamento de Estado e pela CIA, competiram nos esportes e conquistaram vitórias que ninguém hoje pode negar. […] Os traidores não importam. Não há lugar para eles na terra de Fidel. Não há lugar para eles na terra de Camilo e Che. Não há lugar para eles na terra deste povo heroico (aplausos). Três quartos de um homem para cada 100 bravos revolucionários permaneceram lá na terra dos inimigos. Aqui permaneceu o melhor da nossa pátria. Aqui permaneceram os representantes do nosso povo. Aqui permaneceram os representantes do nosso glorioso batalhão de frente (aplausos). O que os nossos inimigos dizem agora? Os Miro Cardonas, os Prios, os Rays e todos os vermes contrarrevolucionários - o que eles diriam se vissem esta magnífica reunião popular, aquelas flores que foram atiradas dos helicópteros? Que contraste entre isto e os aviões mercenários ianques que faziam voos rasantes sobre nós tentando apavorar a nossa delegação! (United States, 1966cUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1966c. Daily report. foreign radio broadcasts, vols. 121-125. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3JNUtdi . Acesso em: 15 jun. 2020.
https://bit.ly/3JNUtdi...
, p. 444, tradução nossa)

Trata-se de um discurso pronunciado pela autoridade administrativa diretamente responsável pela gestão esportiva no país; logo, o referido discurso do diretor-geral do Inder pode ser tomado como representativo da retórica do governo revolucionário no âmbito do esporte, a qual endossava e animava o ponto de vista sustentado pelos veículos cubanos de rádio e televisão. Os “três quartos de homem para cada 100 bravos revolucionários” representam a proporção entre os três casos de deserção e os pouco mais de 400 atletas cubanos que regressaram ao seu país após os Jogos Centro-Americanos.

Cinco anos após os acontecimentos relativos aos Jogos Centro-Americanos de 1966, o fenômeno da deserção de atletas cubanos voltaria ser objeto de registro documental e de polêmica internacional por ocasião dos Jogos Pan-Americanos de Cali, em agosto de 1971.

Em relatório datado de 15 de outubro de 1971 e formulado para uso interno pelo subcomitê de segurança interna do Senado dos Estados Unidos, encontramos os depoimentos de três membros da delegação cubana que desertaram durante os Jogos Pan-Americanos de Cali (1971): a ginasta Zulema Bregado Gutierrez, o esgrimista José Díaz Hernández e o treinador da equipe de ciclismo Juan Diaz Lopes foram entrevistados em Miami por Edward Gurney, senador republicano da Flórida, auxiliados por um intérprete. De acordo com o senador Gurney, a “audiência de hoje” era parte integrante de uma investigação mais abrangente - intitulada “Ameaça comunista aos Estados Unidos através do Caribe” -, mas tinha por objetivo tratar “especificamente do uso dos esportes pelo regime comunista em Cuba como meio de propaganda e subversão” (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1687, tradução nossa). À semelhança do lutador cubano que desertou durante os Jogos Centro-Americanos de 1966, os três atletas cubanos que prestaram depoimento no Senado norte-americano eram recém-chegados aos Estados Unidos, onde receberiam asilo político e passariam a viver após a deserção - é o que afirmou o senador Gurney antes de iniciar a audiência propriamente dita:

Primeiramente, eu quero elogiá-los, Señorita Bregado, Señor Jose Diaz e Señor Juan Diaz pela coragem de vocês de tomar este caminho de fuga do comunismo para a liberdade. […] Em seguida, eu certamente quero dar-lhes as boas-vindas a esta nação em nome do governo dos Estados Unidos, do presidente dos Estados Unidos, do Senado dos Estados Unidos e de todo o nosso povo. Eu certamente espero que vocês aproveitem ao máximo a liberdade e que a nova vida de vocês aqui seja feliz e totalmente bem-sucedida. (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1688, tradução nossa)

Antes passar para as declarações dos atletas que desertaram durante os Jogos Pan-Americanos de 1971, há que se ter em conta informações reveladas por outro documento do governo norte-americano que faz referência aos mesmos casos de deserção: em meio à documentação da CIA, encontramos uma lista datada de 13 de setembro de 1971 onde constam os nomes de sete atletas cubanos que desertaram durante os Jogos Pan-Americanos de Cali, dentre os quais encontram-se os três que depuseram em Miami perante o subcomitê de segurança interna do Senado norte-americano (United States, 1971bUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971b. Cuban athletes who defected early last month during the Pan American Games. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3DPJfRY . Acesso em: 22 mai. 2020.
https://bit.ly/3DPJfRY...
, p. 1). Anexa à referida lista, há uma mensagem de texto com algumas informações de caráter confidencial que, por sua vez, devem ser levadas em conta quando da análise dos depoimentos prestados pelos três atletas cubanos em outubro de 1971: de acordo com a referida mensagem de texto, Jay Sourwine - identificado como integrante da “equipe do subcomitê de segurança interna do Senado” - acreditava que os atletas listados receberam asilo político no Panamá e que alguns deles poderiam estar na “Zona do Canal”; “especificamente”, prossegue o documento da CIA, “ele [Sourwine] gostaria (1) de saber o presente paradeiro dos indivíduos e (2) de entrevistá-los para possíveis audiências públicas quando e se eles estiverem sob o nosso controle” (United States, 1971bUNITED STATES. Central Intelligence Agency. 1971b. Cuban athletes who defected early last month during the Pan American Games. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3DPJfRY . Acesso em: 22 mai. 2020.
https://bit.ly/3DPJfRY...
, p. 2, tradução nossa).

Diante de tais informações documentadas pela CIA, não há como evitar a suspeição de que as declarações dos atletas cubanos durante audiência no Senado norte-americano sejam declarações de pessoas “sob o nosso controle”, isto é, sob o controle do governo dos Estados Unidos através da CIA. Em todo caso, mesmo que os atletas tenham sido entrevistados em Miami somente quando já estavam “sob o nosso controle”, nem por isso o analista deve ignorar o testemunho de cada um deles; muito pelo contrário, os depoimentos dos atletas cubanos que desertaram durante os Jogos Pan-Americanos de 1971 devem ser levados em consideração como sendo representativos de uma espécie de discurso induzido, tendencioso e, no limite, falacioso sobre a situação de Cuba. Nenhum dos esportistas cubanos fez referência à participação da CIA, de grupos contrarrevolucionários ou de agenciadores privados nos episódios de deserção. Tendo em vista que os atletas cubanos seriam chamados a depor somente “quando e se” eles estivessem “sob o nosso controle”, é de se conjecturar que o silêncio sobre a participação da CIA nos casos de deserção tenha sido previamente acordado entre, de um lado, os atletas cubanos que desertaram e migraram para os Estados Unidos e, de outro lado, a própria CIA.

A primeira a depor foi a ginasta Zulema Bregado, de 20 anos de idade. Dentre as várias declarações pronunciadas durante a audiência, selecionamos aquelas em que a ginasta cubana se referiu ao fenômeno da deserção e, mais especificamente, aos motivos e razões utilizados por ela para justificar a sua própria deserção: quando questionada sobre os porquês de sua deserção, ela afirmou que teria dito ao seu noivo que desejava desertar “porque Cuba estava passando por uma situação muito difícil agora; não é só comida, é a liberdade, não há nenhuma liberdade lá”; além do mais, ela “queria ter uma família”, mas, segundo afirma, as autoridades cubanas “não permitem” que uma boa atleta “fique grávida” mesmo depois que “o governo dá autorização para ela se casar e ela se casa”; mais adiante, a ginasta afirmou que “estava pensando” em desertar “desde 1968”, mas que vinha hesitando “porque essa era uma decisão muito difícil, as questões familiares…”, até que tomou a sua decisão no ano de 1971; por fim, quando perguntada se os demais atletas cubanos também desertariam se tivessem uma oportunidade, ela afirmou acreditar que a “maioria dos atletas” desertaria, embora “entre os atletas” ninguém soubesse ao certo “como o outro pensa” (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
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, p. 1692).

O esgrimista José Diaz, 21 anos incompletos, foi o segundo a depor. Ao final da audiência, quando questionado sobre os motivos que o levaram a desertar, afirmou que “não simpatizava mais com o governo ou com o sistema”; prosseguindo no depoimento sobre os motivos de sua deserção, o atleta afirmou o seguinte:

No começo, como todos os jovens, eu tinha esperanças e isto foi algo como uma explosão em mim mesmo porque, mesmo se eu aprendesse alguma profissão, eu não tinha muito futuro, e como jovem, eu tinha esperanças de me desenvolver na minha área, culturalmente e tenho ambições de me aperfeiçoar. (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1698, tradução nossa)

O treinador e ex-ciclista Juan Diaz, de 28 anos, foi o último a depor. Ao longo do seu testemunho, fez várias afirmações sobre o fenômeno da deserção, relatando que, para escapar durante os Jogos Pan-Americanos de 1971, ele “se aproveitou da confiança” depositada nele “por causa das diferentes viagens” que havia feito com a equipe de ciclismo, que “era considerada uma das equipes mais seguras” porque “em dez anos” não houvera “nenhuma deserção” no ciclismo cubano (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1704-1705, tradução nossa). Disse que o momento da deserção se deu durante a realização de compras “em algumas lojas”, quando se separou “do grupo de atletas, treinadores e agentes de segurança” que o acompanhavam (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1704-1705, tradução nossa). Diaz afirmou também que “o principal objetivo” dos agentes de segurança era “prevenir deserções”, mas que a presença de agentes de segurança nas equipes cubanas não era a “principal razão” que levava “um grande número” de atletas a não desertar, mesmo porque “não seria muito difícil fugir de alguns agentes de segurança”: os “laços familiares” seriam, para ele, a “principal razão” do reduzido número de deserções, ou seja, os atletas cubanos não desertavam, na maior parte dos casos, porque não queriam passar a vida longe dos seus familiares, cuja “grande maioria” estava em Cuba (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1705).

Diante da pergunta “Por que você desertou?”, proferida pelo senador norte-americano, o treinador cubano respondeu: “Principalmente porque o sistema em Cuba não tem nada a oferecer para a juventude cubana, só trabalho. O que os jovens querem é se vestir bem e se divertir nos seus anos de juventude. Isso não pode ser realizado lá; é só trabalho…” (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1705, tradução nossa). Mais adiante, quando questionado sobre o caso do atleta norte-americano agredido por um grupo de atletas cubanos durante os Jogos Pan-Americanos de Cali, o Diaz afirmou que sabia que tais “incidentes” ocorreriam porque seriam “provocados”, tendo sido “um dos principais motivos” que o levaram a “acelerar” a sua “decisão de desertar” (United States, 1971cUNITED STATES. Senate. Committee on the Judiciary. 1971c. Communist threat to the United States through the Caribbean. Washington: U.S. Government Printing Office. v. 25. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/3RHr9av . Acesso em: 10 mar. 2020.
https://bit.ly/3RHr9av...
, p. 1707, tradução nossa).

Tomados comparativamente, os três depoimentos contrastam e divergem entre si em mais de um aspecto. No entanto, há entre eles um ponto de convergência que os aproxima no plano ideológico: quando instados a falar sobre os fatores e motivos de sua própria deserção, os esportistas cubanos alegaram que não havia em Cuba liberdade suficiente para a realização das suas ambições, dos seus desejos e dos seus projetos pessoais. Temos, portanto, um discurso ideologicamente marcado pelo liberalismo: o discurso do self-made man que deseja mais liberdades para si no plano individual.

Para além de 1971, somente o que encontramos foi um documento datado de março de 1974, de autoria do Departamento de Estado, onde constam algumas informações sobre a deserção da tenista Aleida Spek, 23 anos, durante os Jogos Centro-Americanos de Santo Domingo, na República Dominicana. De acordo com o documento, ela conseguiu asilo na embaixada chilena no dia 8 de março de 1974, após o que afirmou à imprensa que “não era comunista” e que “não desejava mais viver sob o regime comunista imposto por Fidel Castro” (United States, 1974UNITED STATES. Department of State. 1974. Cuban athlete granted political asylum by Chilean embassy. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/40G4i31 . Acesso em: 11 abr. 2020.
https://bit.ly/40G4i31...
, p. 1, tradução nossa). O documento destacou também que o governo chileno se moveu “rapidamente” para conceder asilo político à tenista cubana, o que teria dado origem a uma “especulação local” de que aquela deserção “não foi totalmente inesperada”; por fim, consta que, além da tenista, não houve “nenhuma outra deserção” por parte da delegação cubana (United States, 1974UNITED STATES. Department of State. 1974. Cuban athlete granted political asylum by Chilean embassy. Disponível em: Disponível em: https://bit.ly/40G4i31 . Acesso em: 11 abr. 2020.
https://bit.ly/40G4i31...
, p. 1, tradução nossa).

Após o caso da tenista, nada mais encontramos em meio à massa documental norte-americana que fizesse referência à deserção de atletas cubanos. Todavia, não se pode dizer que os atletas cubanos deixaram de ser objeto da ação de contrarrevolucionários treinados e financiados pela CIA: em outubro de 1976, uma bomba explodiu em pleno voo num avião cubano que levava, entre outros passageiros, a seleção juvenil de esgrima. Os responsáveis pela explosão foram presos em Barbados e confessaram que agiam a mando de dois exilados cubanos, ambos conhecidos pela lista de serviços prestados à CIA (Gott, 2006GOTT, Richard. 2006. Cuba: uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar., p. 294; Morais, 2011MORAIS, Fernando. 2011. Os últimos soldados da Guerra Fria: a história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos. São Paulo: Companhia das Letras ., pp. 115-117).

Considerações finais

As descobertas apresentadas ao longo deste artigo revelam as linhas gerais e específicas da ação imperialista contra Cuba no âmbito do esporte entre as décadas de 1960 e 1970. As operações secretas organizadas pela CIA com o objetivo de promover a deserção de atletas cubanos se deram dentro de um arco mais amplo e diversificado de ações de espionagem, propaganda, infiltração e sabotagem empreendidas pelo governo dos Estados Unidos com o objetivo de derrubar o governo revolucionário e recuperar as propriedades cubanas e norte-americanas recém-estatizadas, o que terminaria na restauração em Cuba de uma situação neocolonial pregressa, caracterizada pela dominação indireta de um centro imperial (os Estados Unidos), pela desnacionalização da economia e pela combinação entre, de um lado, formas capitalistas de tecnologia, de organização da produção e de prática comercial e fiscal e, de outro lado, taxas pré-capitalistas de exploração da mais-valia (Fernandes, 2007FERNANDES, Florestan. 2007. Da guerrilha ao socialismo: a revolução cubana. São Paulo: Expressão Popular., pp. 66-67, 79-80).

Nesse sentido, os efeitos da Guerra Fria sobre a história do esporte não se resumiram à organização de boicotes, à disputa entre Estados Unidos e União Soviética pela supremacia nos esportes ou à realização de protestos e atentados durante os Jogos Olímpicos, conforme foi demonstrado por Rubio (2010RUBIO, Kátia. 2010. Jogos Olímpicos na Era Moderna: uma proposta de periodização. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 24, n. 1, pp. 55-68., p. 61-64) e Campos (2016CAMPOS, Flávio. 2016. Política no pódio: episódios de tensão e conflito nos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Revista USP, v. 108, pp. 11-20., p. 17-19) em seus respectivos artigos sobre as tensões e os conflitos de natureza política que atravessaram a história dos Jogos Olímpicos. Os boicotes, as tentativas de sequestro, as agressões, as provocações, os planos de atentado, os esforços da CIA destinados ao recrutamento de dirigentes esportivos (como José Llanusa e Jorge García Bango), a propaganda anticomunista e a oferta de dinheiro e de vantagens materiais foram táticas empregadas no intuito de provocar a deserção dos atletas cubanos e/ou de prejudicar o desempenho da delegação cubana nas competições. No que diz respeito à ação imperialista no campo esportivo durante a Guerra Fria, as nossas análises se aproximam sobremaneira da historiografia do esporte formulada por Ribeiro (2020RIBEIRO, Luiz Carlos. 2020. A (des)politização dos Jogos Olímpicos modernos. História: Questões & Debates, v. 68, n. 37, pp. 208-228., p. 222) que, apoiado nas descobertas de Patrick Clastres, reconheceu que “a CIA e a USIA (United States Information Agency) se tornaram ‘braços armados’ de intervenção nos assuntos políticos esportivos, nacionais e internacionais”.

As descobertas apresentadas ao longo deste artigo colocaram em evidência as práticas empregadas pelo governo dos Estados Unidos com o objetivo de provocar a deserção de atletas cubanos durante as competições internacionais nas décadas de 1960 e 1970. Além de revelar a incompletude e a ingenuidade das análises e interpretações de autores - citados na introdução deste artigo - segundo os quais a deserção dos atletas cubanos seria um fenômeno recente, espontâneo e resultante das complicações internas do socialismo cubano, tais descobertas permitem questionar certa tendência historiográfica - cujo representante mais eminente foi o historiador Eric Hobsbawm - segundo a qual a Guerra Fria seria dividida em dois períodos: o primeiro, marcado pelo confronto ideológico e sem batalhas diretas entre Estados Unidos e União Soviética, que teria início logo após a Segunda Guerra Mundial e se estenderia até o começo da década de 1970; e o segundo, iniciado nessa década, caracterizada pelo acirramento do conflito entre os Estados Unidos e países do Terceiro Mundo, sobretudo na África e na Ásia (Hobsbawm, 1995HOBSBAWM, Eric. 1995. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras., pp. 223, 241).

Nesse sentido, as “guerras sujas indizíveis” - localizadas por Hobsbawm (1995HOBSBAWM, Eric. 1995. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras., p. 433) na década de 1970 - foram uma constante da história cubana durante toda a década de 1960, quando Cuba foi objeto de um esforço sistemático de desestabilização e subversão por parte de grupos contrarrevolucionários treinados, apoiados e coordenados pela CIA. Segundo Gott (2006GOTT, Richard. 2006. Cuba: uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar., p. 238) e Morais (2011MORAIS, Fernando. 2011. Os últimos soldados da Guerra Fria: a história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos. São Paulo: Companhia das Letras ., p. 48), esse esforço incluiu ataques aéreos, atentados terroristas e ações de sabotagem de centrais elétricas, usinas de açúcar e refinarias de petróleo, além das ações especificamente destinadas ao âmbito do esporte, que foram objeto de análise ao longo deste artigo. Levando em conta as descobertas realizadas através da pesquisa junto à documentação norte-americana, cabe questionar algumas afirmações de Hobsbawm a respeito do começo da década de 1960 como sendo o marco inicial de um período de détente da Guerra Fria, marcado pelo afrouxamento da tensão entre as duas superpotências rivais, quando, após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, em 1961, os Estados Unidos “aceitaram uma Cuba comunista em sua soleira” (Hobsbawm, 1995HOBSBAWM, Eric. 1995. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras., p. 239-240). Não aceitaram: o prova o conjunto dos documentos norte-americanos publicados, em sua grande maioria, posteriormente à escrituração de Era dos extremos pela mão de mestre de Eric Hobsbawm.

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  • 1
    O “Período Especial” foi anunciado oficialmente pelo governo cubano no dia 29 de agosto de 1990. O fim dos países socialistas europeus encontra-se na raiz dos problemas enfrentados pelo povo cubano a partir do início desse período, considerando que tais países “[…] forneciam 85% das importações cubanas, 80% dos investimentos e recebiam ao redor de 80% das exportações do país” (García, 2011GARCÍA, José Luis Rodríguez. 2011. A economia cubana: experiências e perspectivas (1989-2010). Estudos Avançados, v. 25, n. 72, pp. 29-44., p. 29). A crise econômica do socialismo cubano, que se seguiu após o fim do bloco socialista no Leste Europeu, caracterizou-se pela queda do PIB, pelo déficit fiscal e pela queda das importações a preços correntes (García, 2011GARCÍA, José Luis Rodríguez. 2011. A economia cubana: experiências e perspectivas (1989-2010). Estudos Avançados, v. 25, n. 72, pp. 29-44.). Os efeitos negativos gerados pela crise econômica consistiram na deterioração do padrão de vida dos grupos mais vulneráveis, na diminuição do número de matrículas escolares, na deterioração dos serviços de saúde, no crescimento do desemprego e numa distribuição de renda regressiva (García, 2011GARCÍA, José Luis Rodríguez. 2011. A economia cubana: experiências e perspectivas (1989-2010). Estudos Avançados, v. 25, n. 72, pp. 29-44.).
  • 2
    O Inder foi fundado em fevereiro de 1961 e, desde então, possui status ministerial para tratar da gestão do esporte em Cuba.
  • 3
    Jorge García Bango foi vice-diretor (1965-1967) e diretor-geral (1967-1980) do INDER, tendo sido o dirigente cubano que permaneceu mais tempo à frente da gestão dos esportes no país.
  • 4
    Serviço cubano de inteligência e espionagem, adscrito ao Departamento de Segurança do Estado (DSE) do Ministério do Interior (Minint).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Maio 2023
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2023

Histórico

  • Recebido
    02 Mar 2021
  • Aceito
    09 Dez 2022
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