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Existe uma terceira via? uma resposta à "terceira via" de Giddens

Is there a third way?

Resumos

Discute-se o livro em que Anthony Giddens propõe uma "terceira via" como solução política mais adequada para às sociedades contemporâneas. Sustenta-se que as posições de Giddens são menos originais do que ele julga, e em vários pontos retomam propostas já bem estabelecidas da Democracia Cristã européia.


The book by Anthony Giddens proposing a "third way" to be adopted by contemporary societies is discussed, it is hold that Giddens' positions are less original than he supposes, and at several points are similar to well-established proposals of the continental Christian Democracy.


IDÉIAS E DEBATES

Existe uma terceira via? uma resposta à "terceira via" de Giddens*

Is there a third way?

Vicente Navarro

Professor de Ciência Política da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Pompeu Fabra, na Espanha

RESUMO

Discute-se o livro em que Anthony Giddens propõe uma "terceira via" como solução política mais adequada para às sociedades contemporâneas. Sustenta-se que as posições de Giddens são menos originais do que ele julga, e em vários pontos retomam propostas já bem estabelecidas da Democracia Cristã européia.

ABSTRACT

The book by Anthony Giddens proposing a "third way" to be adopted by contemporary societies is discussed, it is hold that Giddens' positions are less original than he supposes, and at several points are similar to well-established proposals of the continental Christian Democracy.

MEU ENCONTRO PESSOAL COM A TERCEIRA VIA: AGORA (NA ESPANHA) E ANTES (NOS EUA)

Permitam-me começar apresentando-me e contando a vocês como eu encontrei a Terceira Via. Como alguns de vocês podem saber, eu divido meu tempo ensinando políticas públicas na Universidade Johns Hopkins em Baltimore, nos EUA; e ensinando ciências sociais e políticas na Universidade Pompeu Fabra em Barcelona, na Espanha. Na Espanha eu também sou conselheiro sênior de Josep Borrell, que foi eleito por uma maioria esmagadora dos associados do Partido Socialista (PSOE) para ser o candidato presidencial do partido. Nestas eleições primárias altamente disputadas, o candidato Joaquima Alemany, indicado por Felipe Gonzalez (que chefiou os governos socialistas de 1982-1994 e foi secretário geral do Partido Socialista), foi completamente derrotado pela crescente inquietação nas bases do partido com a experiência dos governos socialistas de 1982-1994 e com a orientação do Partido Socialista sob Felipe Gonzalez. Os governos socialistas tiveram que enfrentar quatro greves gerais - um número sem precedentes - contra suas políticas em relação ao mercado de trabalho. Quando Borrell decidiu desafiar a liderança de Felipe Gonzalez, o "senso comum" nos círculos políticos espanhóis era que ele não tinha nenhuma chance. Borrell tinha sido ministro de Obras Públicas no governo socialista e a voz mais crítica do partido contra as políticas de Felipe Gonzalez. Apesar do senso comum, Borrell, que de várias formas era o Tony Benn do Partido Socialista Espanhol, venceu de forma esmagadora a eleição primária. E um novo entusiasmo rapidamente espalhou-se para o resto do partido e para o país.

Por um tempo pareceu que Borrell poderia vencer facilmente a próxima eleição, agendada para algum ponto do ano 2000, a ser disputada contra Aznar, presidente do Partido Conservador (o Partido Popular), cujas raízes estão num partido (Alianza Popular) fundado por Manuel Fraja, um ministro do Interior durante o regime de Franco. Aznar nunca dissociou-se do regime de Franco. Ele criticou uma vez a cidade de Guernica - a cidade basca destruída por ataques aéreos nazistas - por ter mudado o nome de sua praça principal de Praça do Caudilho Franco (o nome dado para as praças principais de todas as cidades espanholas) para Praça da Liberdade. Mais recentemente, entretanto, Aznar vem tentando mover-se para o centro, enfatizando seus compromissos democrata-cristãos (a Igreja espanhola que, aliás, tinha a maioria de seus bispos apontada por Franco, está bem à direita no espectro eclesiástico europeu). Ele foi eleito neste ano, 1999, presidente da Internacional Democrata-Cristã. Para este deslocamento para o centro, Aznar contou muito com Tony Blair, que tem se mostrado muito receptivo às aproximações de Aznar. A mídia espanhola (cuja maioria é de centro-direita ou de direita) na verdade promove Blair como o mais importante líder europeu, tendo grande visão, e contrasta o New Labour com o Partido Socialista Espanhol (e particularmente com Borrell) que é descrito como "preso no passado, agarrando-se firmemente a dogmas datados."

Como me deparei com a Terceira Via de Blair? Uma noite recebi um telefonema urgente do escritório de Borrell. Eles descobriram que em poucos dias Aznar e Blair publicariam um artigo em conjunto na imprensa espanhola e européia expondo sua proposta para resolver o problema do desemprego na Europa, enfocando principalmente a necessidade de aumentar a flexibilidade dos mercados de trabalho. A Espanha, a propósito, já tem a maior porcentagem de trabalhadores temporários na OECD (34% de toda a força de trabalho tem empregos temporários) e a maior porcentagem de trabalhadores (depois dos EUA) com medo de perder seus empregos (68% de todos os trabalhadores, incluindo aqueles com contratos fixos). Uma série de ligações para 10 Downing Street em Londres impediu a publicação desse artigo, mas Blair e Aznar subseqüentemente publicaram artigos individuais, separados mas publicados juntos, esboçando uma proposta conjunta de como resolver o problema do desemprego na Europa.

Como não é difícil adivinhar, surgiu uma tensão considerável entre o Partido Socialista Espanhol e o New Labour. Para diminuir essa tensão, Mandelson e Giddens - duas das principais forças intelectuais por trás da Terceira Via - visitaram Borrell na Espanha, e Blair convidou Borrell para ir a Londres para aparar as arestas. Blair pediu a Borrell para escrever uma introdução à tradução espanhola de seu novo livro, The Third Way, e o escritório de Borrell me pediu - como um de seus conselheiros sêniores - para preparar um rascunho para esta introdução. Foi assim que eu acabei lendo The Third Way pela primeira vez. Este livro me lembrou muito um documento escrito vários anos atrás por Eric From, o presidente do Democratic Leadership Council (DLC) nos EUA, quando tive que enfrentar o DLC durante as eleições primárias presidenciais do Partido Democrata em 1988. Eu era então o conselheiro sênior de Jesse Jackson e seu representante pessoal no Comitê do Programa Democrático. Eu pude ver como a liderança do Partido Democrático foi abalada quando Jesse Jackson, bastante inesperadamente, recebeu 40% dos delegados na Convenção do Partido Democrático em Atlanta em 1988. Clinton, Gore e Gephardt fizeram das tripas coração para impedir a perspectiva de uma esquerda representada por Jesse Jackson, e estabeleceram o DLC - no qual Eric From exerceu um papel crucial e de liderança. From falou em estabelecer uma "Terceira Via" entre a tradição orientada para o governo do "antigo" Partido Democrata e o fundamentalismo de mercado do Partido Republicano.

Qualquer um que tenha seguido atentamente as propostas de políticas públicas sugeridas pelo Partido Democrata e seus líderes (Carter em 1980; Móndale em 1984; e Dukakis em 1988) acharia difícil definir o Partido Democrata como um partido de orientação estatista. O presidente Carter (descrito pelo New York Times como o presidente democrata mais conservador da história) reduziu consideravelmente o tamanho do governo federal, e os candidatos Móndale e Dukakis competiram com o presidente Reagan -e o presidente Bush - para ver quem conseguia reduzir mais o estado. Todos eles se tornaram centristas "radicais", abandonando qualquer intenção de usar o estado como um instrumento de redistribuição de riqueza e renda nos EUA. Como Caspar Weinberger, secretário da Defesa sob o presidente Reagan, afirmou ironicamente numa conferência na Universidade de Washington em agosto de 1993: "Os democratas estão tentando esquecer seu passado. Estão numa posição de negação do estado. Nós republicamos não estamos. Nós somos muito mais intervencionistas que os democratas. Temos, por intermédio do nosso departamento de Defesa, a política industrial mais ativa do mundo atual." Descrever o presidente Carter, e os candidatos Móndale e Dukakis, como "New Dealers" ou políticos estatistas requer uma imaginação considerável, o que não faltava a Eric From.

O Partido Trabalhista da Grã-Bretanha, entretanto, estava muito mais à esquerda do Partido Democrata americano. Eu podia ver então, pelo menos intelectualmente, como uma terceira alternativa entre o Partido Trabalhista e o Partido Conservador da senhora Thatcher poderia ser concebida. É por isso que eu comecei a ler The Third Way com interesse, pronto para ver seus méritos. Na verdade, eu esperava encontrar nele algo novo e talvez até valioso para a esquerda ou centro-esquerda. Mas eu me desapontei. Lembrou-me demais o DLC.

É fácil entender porque, depois de ler o livro, recusei o convite para escrever a introdução à versão espanhola de The Third Way. Minha introdução, se o escritório de Borrell tivesse aceitado o rascunho, não teria ajudado a diminuir as tensões entre Blair e Borrell. Poderia até piorá-las. Em vez disso, escolhi escrever a introdução do novo livro de Oskar Lafontaine (escrito com sua colaboradora Christa Mueller) The Challenges of Globalization, cuja relevância para a Europa e para a Espanha (e, devo adicionar, para os EUA) é muito maior do que a de The Third Way de Blair.

Permitam-me agora analisar The Third Way em resposta ao gentil convite que recebi para fazê-lo.

A TERCEIRA VIA, DE GIDDENS

Quero deixar claro desde o começo que, apesar de minha experiência pessoal com a Terceira Via em ambos os lados do Atlântico, tentarei ser justo com a versão britânica. Quero enfatizar agora que não é minha intenção jogá-la no lixo. Longe disso: quero analisá-la com o senso de equilíbrio e a atenção que a Terceira Via merece. Realmente há uma grande necessidade de discussão e debate sobre a direção que a social-democracia deve tomar, para o qual a Terceira Via poderia ter contribuído. E escolhi o livro de Giddens The Third Way: The Renewal of Social Democracy como o principal ponto de referência para minha análise e crítica porque o considero a descrição mais elaborada do que a Terceira Via tenciona ser. O livro recebeu grande aclamação, incluindo de algumas publicações conhecidas por sua animosidade a posições progressistas. Por exemplo, as páginas editoriais do Financial Times apresentaram o livro de Giddens como altamente relevante para a Europa assim como para o Reino Unido. Na verdade, o próprio Giddens não diz que The Third Way é relevante apenas para o Reino Unido. Se fosse esse o caso, eu teria deixado sua avaliação para comentadores britânicos. Mas tanto Giddens quanto Blair (e seus defensores na imprensa européia) dizem que suas propostas são aplicáveis na Europa e até nos EUA. Ambos invocam a Terceira Via em substituição aos antigos partidos social-democratas, que eles consideram "mortos" ou "irrelevantes" -palavras duras que ambos usaram para definir a social-democracia. Mesmo que o livro de Giddens carregue o subtítulo "The Renewal of Social Democracy", ele escreve que o "New Labour representa uma ruptura com o antigo Labour ... um tipo de ruptura similar àquela que foi feita por virtualmente todos os partidos social-democratas continentais" (prefácio, p. viii). Giddens fala de ruptura ao invés de reforma. O nascimento de uma nova social-democracia parece requerer o fim da antiga.

É importante afirmar desde o começo que, para Giddens poder apresentar a Terceira Via como uma posição intermediária entre o que ele define como "social-democracia clássica" e o neoliberalismo, ele tem que estereotipar tanto cada posição que ambas ficam irreconhecíveis. Eu não nego que a Terceira Via poderia realmente ser uma posição intermediária entre o que Giddens e Blair chamam de Labour e o neoliberalismo na Grã-Bretanha, mas é profundamente injusto - ao ponto de ser claramente falso - que o que Giddens chama de social-democracia e neoliberalismo represente essas tradições políticas na Europa. Na verdade, Giddens mostra uma ignorância notável sobre as principais tradições políticas na Europa ocidental: a social-democracia, o conservadorismo e o liberalismo.

Permitam-me ser específico. Já no primeiro capítulo, quando Giddens define as duas alternativas - a tradição social-democrata e a tradição neoliberal - que a Terceira Via deve transcender, ele caracteriza erradamente as duas posições. Por exemplo, ele escreve que "a social-democracia tem se caracterizado por apoiar-se no protecionismo, pela propriedade estatal dos meios de produção, pelo keynesianismo, pelo gerenciamento de procura, por papéis restritos para os mercados e pelo controle estatal da economia." Mas essa definição ignora a enorme diversidade entre as variantes de social-democracia européia. Na verdade, as experiências mais antigas e conhecidas de social-democracia na Europa - nos países social-democratas do norte da Europa - não seguiram políticas keynesianas, não basearam suas políticas econômicas na manipulação da procura, seguiram as políticas mais anti-protecionistas da Europa, e tiveram setores de propriedade estatal que estavam entre os menores da UE. Durante os períodos de governo social-democrata nesses países - Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia - suas economias foram as mais abertas da OECD (com as exportações representando a maior porcentagem de seu PIB), suas políticas econômicas objetivaram principalmente moldar as forças da oferta em vez das da procura, seus déficits públicos foram alguns dos menores da OECD (alcançando superávites em vários anos durante o período de 1960-1990), o setor estatal da produção foi bastante pequeno, e em nenhum deles (exceto na Noruega) este setor expandiu-se durante os anos social-democratas. E estes têm sido os países social-democratas par excellence! Outros partidos social-democratas na Europa governaram por curtos períodos e foram restringidos grandemente por partidos conservadores e liberais fortes com os quais, em várias ocasiões, eles tiveram que governar em coalizão. Mas mesmo na Alemanha, onde o Partido Social-Democrata tradicionalmente seguiu políticas econômicas orientadas pela procura, os partidos conservadores expandiram o setor estatal mais do que os social-democratas. A mesma coisa aconteceu com o Partido Socialista na França. Mesmo durante o período expansionista nos primeiros dois anos do primeiro governo Mitterrand, o domínio estatal da economia aumentou muito pouco. Foi o conservador De Gaulle, em vez de Mitterrand ou Jospin, quem expandiu o setor estatal. E na Espanha, o setor estatal foi reduzido consideravelmente durante os anos socialistas.

Permitam-me esclarecer que não estou considerando essas políticas boas ou más. Estou apenas apresentando de uma forma correta o histórico da social-democracia na Europa. Para uma apresentação soberba da experiência social-democrata do norte, recomendo o artigo de Huber e Stephens, "Internationalization and the Social Democratic Model", publicado em Comparative Political Studies (vol. 13, n. 3, 1998). E para uma crítica excelente da experiência social-democrata, eu sugeriria que vocês lessem a obra enciclopédica de Wolfgang Merkell, infelizmente nunca traduzida para o inglês. Para aqueles entre vocês que lêem alemão, vocês poderiam ler seu original Ende der Sozial Democratic, traduzido para o espanhol como ¿Final de Ia Social Democracia?. Vocês podem também achar algo interessante em minha análise das política econômicas e sociais da social-democracia (e da democracia-cristã e do liberalismo) em minha publicação The Political Economy of the Welfare State in Developed -Capitalist Countries. Todas essas publicações fornecem evidências suficientes de que a representação de Giddens da social-democracia européia é claramente errada.

Uma representação errada similar aparece na caracterização de Giddens da tradição neobliberal. Ele apresenta sob o mesmo rótulo -neoliberalismo - duas posições distintas: a conservadora e a liberal. Esta agregação política explica porque ele conclui que o neoliberalismo está com problemas hoje "devido ao conflito interno entre o conservadorismo, de um lado, e o fundamentalismo de mercado, de outro" (p. 15). Mas na Europa, os partidos conservadores não têm sido fundamentalistas de mercado. A democracia-cristã, por exemplo, não é anti-estàtal. Muito pelo contrário! Os governos conservadores franceses, italianos e alemães têm sido altamente estatizantes. Os fundamentalistas de mercado na Europa têm sido os partidos liberais, que em sua maioria são bastante pequenos, apesar de não insignificantes. Aqui novamente Giddens extrapola a experiência britânica, assumindo que ela é representativa da experiência européia. Não é! Na Europa, as duas alternativas que ele coloca, a social-democracia e o neoliberalismo, não têm as características que ele lhes atribui. A Terceira Via almeja ser algo entre o Partido Conservador e o Partido Trabalhista na Grã-Bretanha, talvez na linha do Partido Liberal. Mas na Europa continental o terreno político é bem mais complicado, bem mais rico, e eu diria bem mais interessante. Na verdade, o que Giddens julga "novo" não é tão novo na Europa. Isto explica a recepção fria que The Third Way recebeu entre vários social-democratas europeus. Há mais do que um toque de democracia-cristã no que The Third Way quer, com um verniz de Partido Liberal.

Permitam-me elaborar o que estou dizendo analisando o entendimento de Giddens da (a) relação entre o estado e a sociedade civil, (b) da família e sua relação com o estado de bem-estar e (c) da exclusão e inclusão em nossas sociedades.

ESTADO DE BEM-ESTAR OU SOCIEDADE DE BEM-ESTAR

Quanto ao primeiro ponto, a posição de Giddens é similar à posição democrata-cristã que estabelece uma relação entre o estado de bem-estar e a sociedade civil, tal que a expansão de um significa a redução da outra. Como evidência adicional deste conflito, Giddens refere-se à experiência da União Soviética, onde o estado asfixiou e matou a sociedade civil. Ele quer, assim como a tradição democrata-cristã, a substituição do estado de bem-estar pela sociedade de bem-estar, com as organizações da sociedade civil desimpedidas por um estado que não interfira na riqueza que apenas a sociedade civil é capaz de desenvolver. Entretanto, não há evidências de que nas democracias ocidentais a expansão do estado de bem-estar necessariamente empobrece a sociedade civil. Muito pelo contrário. Goran Therborn, em seu estudo exaustivo da organização social da Europa, conclui que as social-democracias do norte europeu, com uma sociedade política mais estruturada e maior financiamento estatal para propostas sociais e comunitárias, também tiveram uma sociedade civil mais rica (medida pelo número de organizações nos setores não-estatais).

Giddens também faz comentários gerais sobre a riqueza da vida civil nos EUA, onde o estado de bem-estar é claramente subdesenvolvido. Mas eu não conheço nenhum estudo comparativo que tenha analisado a riqueza das sociedades civis em ambos os lados do Atlântico. O único conhecimento que tenho vem de minha própria experiência. Em Barcelona, na Espanha, eu vivo num bairro da classe trabalhadora (la Sagrera) numa cidade governada por partidos de esquerda (partidos socialista, ex-comunista e verde). Em Baltimore, eu vivo numa comunidade acadêmica, perto de uma comunidade de classe trabalhadora (Hampden) que eu conheço bem. Em Barcelona, existe uma sociedade civil extremamente rica. Durante os fins-de-semana, por exemplo, nas praças e parques principais, os jovens jogam futebol, basquete, e todas as formas de esporte. Os parques do bairro estão cheios de atividades civis, e os idosos jogam bocha. Em Baltimore, em Hampden, o número de atividades é muito menor e a vida da vizinhança é muito mais limitada. Tenho certeza que em Baltimore as pouquíssimas associações civis são legalmente registradas (já que têm vantagens fiscais), enquanto que em Barcelona elas muito provavelmente não o são. Seria impensável para os grupos de idosos de Barcelona registrar o Clube de Bocha de La Sagrera. Eles certamente agiriam como um clube, mas tenho certeza que a necessidade de registro nunca ocorreu a eles. Tenho certeza, entretanto, que a associação dos idosos em Hampden é registrada. Por isso pode haver mais associações registradas nos EUA do que na Catalunha, mas, na prática, minha experiência sugere que há uma sociedade civil mais rica em Barcelona do que em Baltimore. É suficiente olhar para as festividades de feriados importantes em Barcelona e as principais festividades de Baltimore. Não há comparação.

Uma experiência similar foi descrita nas regiões lideradas pelos comunistas do norte da Itália, onde o antigo Partido Comunista Italiano, agora Partido Democrático de Esquerda, estimulou e enriqueceu grandemente a sociedade civil, enquanto expandia as responsabilidades públicas na cidade e nos governos regionais. A dicotomia e o conflito entre o estado de bem-estar e a sociedade de bem-estar que The Third Way de Giddens descreve é falsa: um enriquece, em vez de empobrecer, a outra.

A FAMÍLIA E O ESTADO DE BEM-ESTAR

Uma outra posição democrata-cristã reproduzida por Giddens é sua visão da relação entre a família e o estado de bem-estar. Ele define como uma antiga posição social-democrata o que na verdade é uma antiga posição democrata-cristã. Ele supõe que a antiga social-democracia baseava seu estado de bem-estar nas contribuições feitas pelo trabalhador masculino, que contava com o apoio de uma esposa que ficava em casa. Mas essa forma de fazer o financiamento do estado de bem-estar depender (p. 16) do homem como arrimo de família é tradicional nos países democrata-cristãos, não nas social-democracias. A sustentação do estado de bem-estar em contribuições provenientes do mercado de trabalho caracterizou governos conservadores baseados na tradição cristã desde a época de Bismarck. A social-democracia tradicional, em vez disso, financiou seu estado de bem-estar por meio de fundos gerais, como um direito de todos os cidadãos, e não apenas dos trabalhadores e suas famílias. Apesar de criticar essa tradição democrata-cristã (que ele erradamente define como social-democrata), Giddens não rompe com ela. Na verdade, apesar de criticar o modelo de "família tradicional", ele não acredita nas novas formas de família que estão substituindo a antiga, e defende o princípio da responsabilidade dos pais para com seus filhos e a dos filhos para com seus pais. Apesar de haver um acordo geral sobre a necessidade de enfatizar a responsabilidade recíproca entre pais e filhos, ele estende essa responsabilidade até o financiamento dos serviços para os idosos por seus próprios filhos, em vez do estado ter de fazê-lo - uma posição característica da política social democrata-cristã. Na tradição social-democrata, é o estado que tem a responsabilidade de ajudar as famílias, com serviços de assistência a crianças e serviços domiciliares. Isto permitiu a integração da mulher ao mercado de trabalho. Além do mais, na tradição social-democrata, não se espera que os filhos paguem pelo cuidado institucional de seus pais, como Giddens propõe. Na verdade, é a tradição democrata-cristã que pede o apoio financeiro dos filhos para o cuidado institucional de seus pais. Na tradição social-democrata, a liberação das mulheres e o enriquecimento da família - a célula principal da sociedade civil - requer uma expansão enorme dos serviços sociais do estado de bem-estar. Em vez disso, Giddens fala da dependência insalubre criada pelo estado de bem-estar, e critica como excessivo o estado de bem-estar sueco.

Em sua crítica da Suécia, Giddens apóia-se na obra de Assan Lindbeck, um dos economistas suecos mais liberais, cujo trabalho tem sido amplamente criticado por acadêmicos socialistas como Walter Korpi e outros pela falta de rigor na utilização de dados suecos. Walter Korpi mostrou convincentemente, por exemplo, que as conclusões de Lindbeck sobre a crise do estado de bem-estar sueco e seus supostos excessos estão baseadas em dados deficientes e trabalho negligente. Mas a maior parte da imprensa internacional - e também Giddens - continua a citar o trabalho de Lindbeck sem nunca se referir a Korpi, cuja credibilidade na comunidade científica é muito maior que a de Lindbeck. Vale notar aqui a recente demissão de Lindbeck do comitê do prêmio Nobel encarregado de selecionar os vencedores do prêmio Nobel de economia. Esta demissão foi o resultado indireto de um protesto mundial sobre o contínuo viés em favor da economia neoliberal na entrega do prêmio Nobel.

Na verdade, um toque neoliberal também aparece em alguns dos comentários de Giddens sobre as pensões. Poucos discordariam de sua observação de que pessoas idosas devem ser vistas como um recurso e devem ser encorajadas a participar ativamente da sociedade. Mas suas observações críticas sobre as pensões criarem dependência e a necessidade de que os idosos sejam responsáveis perante a sociedade e façam sua parte oferecem uma imagem um pouco distorcida dos pensionistas. A maioria dos idosos seria pobre (e desempregada) se não tivesse suas pensões. Na Grã-Bretanha, mesmo com as pensões, um em cada quatro idosos são pobres. Deve-se ter muito cuidado quando se chama os idosos para juntar-se ao mercado de trabalho novamente, a não ser que isso seja voluntário, não baseado em necessidades econômicas, e possa ser agradável.

EXCLUSÃO E INCLUSÃO EM THE THIRD WAY

Finalmente, a tradição democrata-cristã aparece no principal objetivo de The Third Way. Podemos perguntar: tendo abandonado o socialismo, qual é o objetivo da Terceira Via? De acordo com Giddens e Blair, o objetivo é evitar a exclusão e facilitar a inclusão. Mas exclusão e inclusão de quem? Giddens fala da exclusão dos ricos (uma exclusão voluntária), que se isolam da sociedade e desenvolvem seus próprios serviços. Sua exclusão empobrece a esfera pública porque eles não precisam de serviços públicos e por isso não pressionam para melhorá-los. A sociedade perde com sua exclusão. Giddens, apesar de definir o problema, não propõe como resolver essa exclusão dos ricos.

A outra exclusão que preocupa Giddens é a exclusão dos não especializados, dos vulneráveis, que estão fora do mercado de trabalho e não podem obter bons empregos. Para integrar este setor da população, The Third Way propõe educação e serviços de comunidade como assistência infantil, serviços de saúde, transporte e educação contínua para ajudar as pessoas a achar bons empregos. Aqui, The Third Way não está propondo nada novo. Os social-democratas do norte da Europa tradicionalmente forneceram enormes programas de treinamento com serviços de apoio, assim como os partidos democrata-cristão e social-democrata da Alemanha. Mesmo o chamado de Giddens por responsabilidade (com o que ele quer dizer que os desempregados devem se esforçar para integrar as forças de trabalho para que não percam seus benefícios) não é novo. Na Suécia e na Dinamarca, por exemplo, os desempregados têm de aceitar um emprego ao final do programa de treinamento, ou arriscam-se a perder a ajuda caso se recusem a aceitá-lo.

Considerando-se todos os pontos levantados, podemos perguntar a Giddens o que é novo na Terceira Via. Ela pode ser nova no Reino Unido, mas é bem antiga na Europa e, eu diria, nos EUA. De acordo com o professor britânico de políticas sociais Robert Walker (num artigo interessante, "The Americanization of British Welfare", publicado em Focus, vol. 19, n. 3, 1998), as propostas do New Labour para o bem-estar são menos avançadas que o programa antipobreza do Wisconsin. Mas, ainda mais importante, precisamos perguntar: o que a Terceira Via tem a oferecer para a maioria da população que não é excluída (que não é constituída nem de ricos nem pobres), esses 80% da população? É aqui que The Third Way fica notavelmente em silêncio, com a exceção de uma demanda genérica de igualdade de oportunidades. O que diferencia essa posição de uma posição liberal com consciência social, ou de uma posição democrata-cristã? Na verdade, muitos democratas cristãos na Europa consideram-se à esquerda de Blair. Isto explica porque os social-democratas na Europa sentiram-se bem desconfortáveis, para não dizer mais, com a Terceira Via. Jospin, que Blair de forma errada e oportunista definiu num artigo recente no New Statement como um adepto da Terceira Via, tem se mostrado bastante crítico dessa alternativa. A ministra do Emprego e vice-presidente do governo socialista francês, Martine Aubry, recentemente referiu-se à Terceira Via como "lamentável". E uma das vozes mais influentes nas social -democracias européias atuais, Oskar Lafontaine, ministro alemão das Finanças e secretário geral do Partido Social-Democrata Alemão

A social-democracia como o principal instrumento do movimento trabalhista na Europa estabeleceu o estado de bem-estar na Europa continental ocidental. O estado de bem-estar do Reino Unido, com a exceção do serviço público de saúde (o National Health Services), é subdesenvolvido. A maior parte das transferências sociais são bastante baixas para os padrões europeus e freqüentemente exigem que os beneficiários se submetam a testes de verificação de meios. O que parece ser necessário não é a social-democracia aprender com a Terceira Via, mas em vez disso a Terceira Via aprender com o que Giddens denomina, de forma derrisória, social-democracia "clássica". Sua "ruptura" com esta última condena a Terceira Via a tornar-se um passo para trás em vez de um passo progressivo na direção certa.

  • * Paper baseado numa apresentação ao Seminário de Política Contemporânea no Centro Internacional para Estudos Internacionais da Universidade Johns Hopkins, Washington, D.C., em 28 de fevereiro de 1999. Tradução de Fábio Ribeiro.
  • 1
    , escreveu um livro que pede a mudança do Pacto de Estabilidade (que condena a Europa a uma política de austeridade); a mudança da independência do Banco Central Europeu; a regulação da mobilidade internacional do capital financeiro, e o estímulo à demanda nacional e internacional - todas políticas às a Terceira Via de Blair se opõe. O governo de Blair está bastante isolado na comunidade social-democrata atual, confiando mais em Aznar do que em Jospin ou Lafontaine. O fato de Blair se voltar para a
    Clintonomics como uma inspiração para suas políticas econômicas e sociais preocupa e alarma seus colegas social-democratas no outro lado do canal.
    A social-democracia precisa de um processo de reforma, mas não na direção da Terceira Via.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      27 Maio 2010
    • Data do Fascículo
      Dez 1999
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