Como ficam os cristãos

E AGORA, BRASIL?

Como ficam os cristãos

Frei Betto* * Carlos Alberto Libânio Cristo (frei Betto).

Frade dominicano e assessor da pastoral operária de São Bernardo do Campo (SP)

Nada mais genérico que a condição de cristão. No Brasil, terra de Santa Cruz, pouca gente escapa. De Figueiredo a Dom Paulo, de Maluf a Lula, todos se confessam cristãos, embora nem todos participem com freqüência da vida eclesial. Esta uma característica latino-americana que certa parcela da intelectualidade acadêmica insiste em desconhecer: aqui, a colonização ibérica, trazendo a bordo a Cristandade tardia, fez com que o cristianismo virasse substrato cultural.

Pergunte a um camponês peruano, a um índio guatemalteco ou a um operário brasileiro qual sua visão do mundo. A resposta, com certeza, virá articulada em categorias religiosas. Nem as religiões de origem africana escaparam da hegemonia cristã: cuidaram-se como puderam para escapar da sanha inquisitorial, travestindo de santo seus orixás.

Cristão, nestes lados do Atlântico, virou sinônimo de brasileiro. É claro, o avanço da modernidade estimula o surgimento de focos de ateus, de agnósticos ou de indiferentes — uma minoria, em geral, elites financeiras ou intelectuais europeizadas. Ou que professam o dogma de que só o racional é real. Mesmo assim, não há quem resista ao batizado do filho ou à missa de sétimo dia da mãe falecida. Por via das dúvidas...

Frente a tão vasto leque, fiquemos na análise de setores organizados e representativos da Igreja católica no Brasil, a começar por sua mais alta instância local, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Dirigida pelo setor progressista do episcopado brasileiro (cerca de 310 bispos, um dos mais numerosos do mundo), a CNBB reveste-se de uma honrosa tradição de combatividade em favor das liberdades democráticas. Denunciou as torturas nos períodos mais sombrios do regime militar, defendeu a anistia, deu cobertura às lutas pela terra, assumiu a causa indígena, divulgou documentos sobre a reforma agrária e urbana mais contundentes que os elaborados pelos partidos políticos.

Sobretudo, a CNBB deixou de fazer concessões ao regime, apesar de alguns bispos isolados seguirem professando que toda autoridade vem de Deus (salvo na Nicarágua ou em Cuba)... Essa "opção preferencial pelos pobres" exigiu da CNBB uma considerável cota de sacrifícios: missionários estrangeiros continuam sem obter vistos de permanência no Brasil (a menos que passem pelo crivo dos bispos confiáveis pelo Ministério da Justiça), as finanças da Igreja foram devassadas, padres e bispos, perseguidos.

O caso dos padres franceses, Aristides e Francisco, representou o grande desafio. O governo queria que a CNBB assegurasse a saída deles do país, evitando recair sobre o poder Executivo a acusação de expulsar sacerdotes do Brasil. Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral da CNBB, resistiu: se o governo prendeu os padres por subversão, que assuma pois as conseqüências do processo.

Figueiredo, ao embarcar para Cleveland, a fim de tratar do coração, incumbiu Aureliano de assinar a expulsão de Aristides e Francisco. Assim, ao menos os militares ficariam livres da responsabilidade perante a opinião pública internacional. Aureliano manteve os padres aqui e deu continuidade ao processo (o que lhe custou, desde então, a inimizade do presidente). Resultado: após dois anos de prisão, os padres foram absolvidos pelo STM, beneficiados pela reformulação da Lei de Segurança Nacional.

E frente à sucessão presidencial, como se posicionou a CNBB? Desde sempre, pelas diretas-já, embora mantendo exagerada discrição quando houve, no primeiro semestre de 1984, a mobilização de massas pela bandeira amarela de "presidente quem escolhe é a gente". Eis aqui um fenômeno a ser mais bem analisado por especialistas, como os sociólogos: quando a sociedade civil avança, a Igreja recua — e vice-versa.

Nenhum bispo compareceu aos palanques para respaldar de público a causa suprapartidária, embora diversos, como Dom Angélico Bernardino, da zona Leste de São Paulo, tenham publicado veementes artigos em defesa das diretas-já. Nas paróquias e comunidades, todo apoio às manifestações de rua. Metade do clero paulistano esteve na praça da Sé no comício de 25 de janeiro. E, com certeza, pelo menos um bispo: Dom Tomás Balduíno, de Goiás.

Quando os partidos, com exceção do PT, recuaram da luta direta por diretas-já (adotaram, até na luta, a forma indireta...), a CNBB voltou à cena. Em Mensagem da última semana de agosto, o Conselho Permanente da CNBB afirmava que "mergulhado em todo esse sofrimento, o povo se estarrece diante do encaminhamento deprimente, levianamente festivo e carente de grandeza ética dado ao processo de escolha dos principais mandatários. Frustrada por pequena minoria política, a aspiração nacional, claramente demonstrada nas ruas e praças, tenta-se, agora, prosseguir por caminhos que marginalizam a nação, transformando-a em mera espectadora de seu próprio destino. O povo, em sua sabedoria, percebe claramente o potencial de corrupção e o tráfico de influência inerentes a tal processo". A partir daí, os bispos voltaram a falar em diretas-já, sem esconder que, diante de Maluf, Tancredo seria um mal menor.

Os analistas se enganaram

E as Comunidades Eclesiais de Base (CEB)? Estão todas com a posição do PT, como se supõe por aí? Nas últimas eleições, falava-se que as CEB seriam o grande reduto eleitoral do Partido dos Trabalhadores. O resultado foi decepcionante. Em áreas de forte organização de CEB, como o Estado capixaba, o PT não conseguiu sequer eleger um vereador. Então? Houve uma confusão de dados na análise. Avaliou-se a preferência eleitoral dos membros das 150 mil CEB espalhadas pelo Brasil, reunindo mais de três milhões de pessoas, a partir da preferência partidária dos agentes de pastoral, os padres e as religiosas que assessoram as CEB.

Em todo o país os padres não chegam a 14 mil. Ainda que a parcela dedicada às CEB possa não fazer segredo de suas simpatias para com o PT, isso não significa que os membros das comunidades sigam seus pastores também em questão partidária. Irônico fruto do processo educativo das CEB...

Os fiéis distinguem consenso religioso e consenso político. Em questões eleitorais, aprendem a não seguir a cabeça do "coronel" e... do padre! Assim, funcionou entre eles a tese do voto útil. Como ainda funciona a preferência eleitoral baseada nas relações pessoais, acima dos partidos e de seus programas.

A falta de maturidade política facilita a manutenção do voto como dívida, favor e compromisso pessoais. Isso não significa que os participantes das CEB sejam despolitizados. Em geral, lutam nos movimentos populares e não temem proclamar que a única solução é acabar com o sistema capitalista. Porém, esse universalizante discurso ético, vinculado ao imediatismo das lutas sociais, não chega ainda ao ponto de materializar-se em programa partidário.

Há um vazio nessa articulação que parece preenchido pelos velhos esquemas da simpatia pessoal como critério de preferência eleitoral. Sobretudo quando a simpatia é complementada por um discurso aparentemente progressista e supostamente moralista. Em suma, ainda, trabalhador não vota em trabalhador. É muito entranhada na consciência popular a idéia de que competência política e administrativa exige bom nível de escolaridade.

Não há dúvida de que os membros das CEB são pelas diretas-já. Mas, agora, participam desse generalizado sentimento de que o povo foi, mais uma vez, traído em sua aspiração. Na hora do acerto de contas, as elites fecharam-se nos bastidores para dividirem entre si as fatias do poder. E o PT, que se manteve fiel à mobilização pelas diretas-já, não dispõe de recursos para promover grandes comícios. Pode ser que, nas eleições de 1986, esses eleitores frustrados em suas expectativas vinguem, nas urnas, a facada que levaram pelas costas.

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    Carlos Alberto Libânio Cristo (frei Betto).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Fev 2011
  • Data do Fascículo
    Mar 1985
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