A questão da cultura

E AGORA, BRASIL?

A questão da cultura

Roberto Schwarz

Professor de literatura na UNICAMP

Não tenho idéia do que o próximo governo vá fazer no campo da cultura. Será que me engano achando que o tópico não desperta curiosidade? Alguma coisa será feita, possivelmente até coisas boas, mas nada que responda a um debate democrático anterior às eleições. Dada a natureza do Colégio Eleitoral, a questão tem um vago ar de piada.

Contudo, não basta culpar o regime pelo marasmo intelectual reinante, que é também das oposições. Atenuaram-se a censura e o medo, e nem por isso as idéias e as artes entraram em fase brilhante. Inexplicável? Graças à ilusão de ótica criada pela ditadura, a intelligentsia custou a perceber que a sua inserção social e seu pensamento são menos oposicionistas do que pareciam. O Brasil revelado pela abertura é mais conservador do que o esperado.

A julgar por São Paulo, tenho a impressão de que a falta de idéias se acentuou com a ida do PMDB ao poder. Esta criou uma situação objetivamente complicada, desorientou o espírito crítico de uns e arrefeceu o de outros. É uma constatação, em que não vai propósito de antagonizar (ressalva que talvez seja ela mesma um exemplo do que acabei de dizer). Também a participação no Colégio Eleitoral, logo depois da campanha pelas eleições diretas — posição evidentemente defensável em política —, contribuiu para o bloqueio das imaginações.

O momento mais fecundo: 62 a 64

Até onde vejo, o momento cultural mais fecundo vivido no Brasil de algum tempo para cá foram os anos de 1962 a 64, em que o acirramento da luta popular se acompanhou de algo como uma ida ao povo por parte de uma franja de intelectuais e estudantes. Ora, em sociedade de classes, nada é mais emocionante e cheio de potencialidades que a dissolução das barreiras em vigor.

Além de atravessar as balizas da ordem social, aquele movimento representava uma aliança de classes nova, muito convidativa no plano da imaginação. Já no plano político, as suas possibilidades eram limitadas, como logo se viu. Não obstante, esta conjunção liberou energias intelectuais grandes e de toda sorte. Basta lembrar — ficando no campo da cultura — o método Paulo Freire de alfabetização, a invenção de novas formas de teatro e cinema, um clima jornalístico novo, e, de modo mais geral, a utilização artística viva e desfolclorizada da cultura popular. Embora o golpe de 64 tenha impedido na prática o prosseguimento daquela aliança, ela continuou como inspiração e assunto durante um bom tempo, estando no centro da produção cultural entre 64 e 68, que é das mais vivas que temos tido.

A tendência é outra

Não digo isso para propor uma repetição, pois 64 ensina que radicalismo com verba governamental não termina bem. Entretanto, aqueles anos ainda têm algo a dizer a nossos dias, a saber, que a vitalidade cultural num país atroz como o Brasil depende de experiências sociais em grande escala, em que a realidade dos antagonismos e das afinidades de classe aflore amplamente, dissipando o mutismo e a cegueira impostos pela opressão (mutismo e cegueira que, de diferentes modos, afetam todas as classes).

A tendência, contudo, é outra. O setor institucionalizado da cultura — a mídia, a universidade, as fundações, com verbas do governo e do grande capital — progrediu. Seu crescimento e os compromissos práticos que implica são uma das causas de nosso atual marasmo modernizado. A aspiração principal aqui, se não me engano, é quantitativa: mais pessoal, mais dinheiro, melhores salários. A questão democrática não é vista em termos substantivos de classe e nacionais, mas de maior acesso à gestão por parte dos funcionários, dentro de uma linha corporativa, conforme vem assinalando J. A. Giannotti. Não faltando a verba, o mais parece contar pouco. Dado que a expressão destes setores é uma perspectiva real, e que a sua relativa utilidade, as suas chances de aperfeiçoamento e os seus dividendos também são reais, não há como transformá-los por dentro. Aos espíritos críticos resta o exercício da crítica.

Só mesmo a pressão política

De outro lado, mídia, universidade e fundações hoje são realidades socialmente tão naturais, ou quase, quanto o transporte público, a educação primária ou a sinalização do trânsito. Tem sentido ser contra? Para infleti-las segundo o ponto de vista e os interesses dos explorados, só a pressão política deles mesmos — externa por definição — ainda que com aliados internos: as oposições necessitam formular e especificar o interesse dos explorados no campo da cultura, para começar a defendê-lo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Fev 2011
  • Data do Fascículo
    Mar 1985
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