ENTREVISTA COM MARTA DE SENNA

INTERVIEW WITH MARTA DE SENNA

Resumo

Nesta entrevista, a professora, pesquisadora e editora Marta de Senna conta o que a motivou a preparar uma edição eletrônica dos romances e contos de Machado de Assis e quais foram os principais dilemas e desafios que enfrentou durante o processo de edição. Comenta, ainda, as especificidades do trabalho editorial com as obras de ficção do escritor e o papel das notas em uma edição.

Palavras-chave:
Machado de Assis; ficção; edição

Abstract

In this interview, professor, researcher and editor Marta de Senna reveals her motivation to prepare an electronic edition of the novels and short stories by Machado de Assis, as well as the main dilemmas and challenges faced during the process. In addition, she comments on the specificity of editing the author's works of fiction, and the role of the notes in an edition.

Keywords:
Machado de Assis; fiction; edition

Marta de Senna é professora aposentada da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora aposentada da Fundação Casa de Rui Barbosa - instituição que presidiu entre 2016 e 2018 - e ex-bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (nível 1). Em seu doutorado (1978), na Universidade de Londres, examinou a poesia de João Cabral de Melo Neto, e em seu pós-doutorado (1994), na Universidade de Oxford, investigou as relações entre a ficção de Laurence Sterne e a epistemologia de David Hume. Deste então, vem-se dedicando quase exclusivamente ao estudo da obra de Machado de Assis, sobre quem publicou dois livros de ensaios: O olhar oblíquo do Bruxo (2. ed., rev. e mod., 2008) e Alusão e zombaria (2. ed., rev. e aum., 2008); e organizou três: Machado de Assis: cinco contos comentados (2008), Machado de Assis e o outro: diálogos possíveis (2012) e Machado de Assis: permanências (2018), os dois últimos em colaboração com Hélio de Seixas Guimarães. Em parceria com esse pesquisador, fundou o Grupo de Pesquisa do CNPq "Relações Intertextuais na Obra de Machado de Assis", ativo entre 2008 e 2018, e a revista eletrônica de estudos machadianos Machado de Assis em linha, em circulação desde 2008, da qual é atualmente editora sênior.

Como editora, além da organização das coletâneas de ensaios sobre Machado de Assis e do periódico acadêmico mencionados acima, foi responsável por importantes publicações em volume de títulos do escritor. Para a coleção Contistas e Cronistas do Brasil, da editora Martins Fontes, preparou as edições de Histórias sem data (2005), Contos fluminenses (2006), Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha (2008); e para o selo Penguin-Companhia, da editora Companhia das Letras, fez o estabelecimento de texto e as notas de Memórias póstumas de Brás Cubas (2014) e preparou a edição de Helena (2018), em colaboração com Marcelo Diego. Comprometida com a divulgação científica e com o compartilhamento do conhecimento acadêmico, Marta de Senna sistematicamente incorpora aos seus trabalhos de edição, principalmente por meio de notas, os resultados dos seus trabalhos de pesquisa, que sempre tiveram como foco privilegiado as citações e referências na ficção de Machado de Assis. Na página final de seu livro de ensaios Alusão e zombaria, ela observa:

Tentar identificar o que [o escritor] leu, desvendá-lo como leitor e, nas leituras que incorpora (e adultera) em seu texto, flagrá-lo na composição da fisionomia moral de uma personagem, ou na tecelagem do enredo, é o que se pretendeu neste livro e na pesquisa que de certo modo o engendrou, a qual culminou com a criação do website www.machadodeassis.net. (SENNA, 2008SENNA, Marta de. Conclusão. In: ______. Alusão e zombaria: citações e referências na ficção de Machado de Assis. 2.ed., rev. e aum. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2008. (Coleção FCRB Estudos), p. 130)

De fato, esse website, "no ar" desde 2008, é o seu projeto de maior envergadura e alcance. Inicialmente, ele abrigava um banco de dados com as citações e alusões histórico-culturais localizadas na ficção machadiana; posteriormente, passou a abrigar também uma edição em hipertexto da ficção completa do autor - os nove romances, os sete livros de contos e mais todos os contos publicados na imprensa e jamais recolhidos em volume, divididos em dez "fases" -, com notas na forma de hiperlinks. Cada obra de Machado de Assis é, aí, precedida de uma "Nota desta edição eletrônica", em que são esclarecidos os objetivos do trabalho e os critérios que orientaram a sua realização; na conclusão dessa nota, a pesquisadora e o bolsista de Iniciação Científica que a assistiu naquele trabalho (foram dez, ao longo de todo o projeto) sintetizam:

Esta não pretende ser uma edição crítica, nela não há notas editoriais. Nosso objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através doshiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o enorme universo de referências de Machado de Assis. (SENNA; DIEGO, 2009______ ; DIEGO, Marcelo. Nota desta edição eletrônica. In: ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 2009, online. Disponível em: http://www.machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/brascubas.htm Acesso em: 10.02.2020.
http://www.machadodeassis.net/hiperTx_ro...
, online)

Os romances e contos em hipertexto foram sendo disponibilizados no website entre 2008 e 2014. Ainda em 2014, o website acolheu uma contribuição de outros pesquisadores: uma variante do romance Quincas Borba - o texto da edição original, publicada em A Estação, preparado por John Gledson e Ana Cláudia Suriani da Silva. Desde os seus primeiros anos submetido a revisões contínuas e a sucessivas atualizações, o website www.machadodeassis.net passa agora por um processo de reformulação completa, e sua nova versão deve estar "no ar" até o fim de 2020.

Na entrevista a seguir, respondida por e-mail, em dezembro de 2019, Marta de Senna comenta as particularidades de uma edição eletrônica, as especificidades do trabalho editorial com obras de ficção e os aspectos mais difíceis, assim como os mais recompensadores, do corpo-a-corpo com o texto machadiano.

1. Por que você optou pela edição eletrônica (e não em papel) da ficção de Machado de Assis?

Vivemos numa época em que, sobretudo para os jovens, quase toda a informação e comunicação se processa digitalmente. Meu objetivo era que a nossa edição alcançasse o maior número possível de leitores, em todo o Brasil e, quem sabe, no mundo inteiro. Só eletronicamente haveria potencial para isso. Ademais, como eu queria preparar uma edição anotada, com esclarecimento em notas hipertextuais das referências machadianas, se recorresse a uma edição em suporte material, engessaria essas notas até uma nova edição, além de produzir livros com assustador número de páginas. Eletronicamente, porém, é possível acrescentar, modificar, suprimir, aperfeiçoar as notas a qualquer momento.

2. Que critérios usou para o estabelecimento do corpus?

Antes de tudo, é preciso declarar que o meu corpus é a ficção machadiana, ou seja, seus romances e contos apenas. Não trato da crítica, da poesia, nem da crônica, nem do teatro. Para editar os romances e contos de Machado, segui fielmente a orientação de José Galante de Sousa, no seu Bibliografia de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1955). O que Galante diz que é de Machado, para mim é de Machado. Quanto aos contos, haverá quem discorde e inclua, por exemplo, "Um cão de lata ao rabo". Mas Galante diz que é uma "fantasia" e não um conto, então para mim é uma "fantasia", e por isso não o incluí na edição dos contos.

3. Qual o seu principal objetivo ao preparar essa edição eletrônica?

Como afirmei na resposta à primeira pergunta, meu objetivo era alcançar o maior número possível de leitores. Meu público-alvo, ou meu leitor ideal, eram os professores e estudantes de ensino médio ou universitários, fornecendo-lhes uma ferramenta de leitura que, com um simples clique do mouse, lhes permitisse saber quem era a cantora lírica Emilia Lagrua, ou o herói de Stendhal que se vê, atônito, em plena batalha de Waterloo, ou ainda o que significava, no tempo do autor uma expressão como "bater a linda plumagem" ou uma palavra como "gesto".

4. Quais os principais dilemas que você, como editora de textos de Machado de Assis, continua a enfrentar? A seu ver, quais os principais desafios que o texto de Machado de Assis apresenta a quem queira editá-lo?

Acho que o principal dilema é: "corrigir" ou não "corrigir" Machado? Procurei não "corrigi-lo" o mínimo possível e, se usava uma sintaxe hoje tida como errada, deixei como está no original (na edição fonte de cada obra, que pode ser a primeira, a segunda ou um jornal ou revista em que foi publicado determinado conto) e esclareci em nota que tal sintaxe não é mais aceita no português em seu registro formal nosso contemporâneo. Somente quando identificava um erro que me parecia inequivocamente erro tipográfico, ousei corrigir. Por exemplo: dizer que Augusto, o imperador romano, era "demente", quando não apenas o contexto do conto ("Médico é remédio", de 1883), mas a história de Roma e a biografia do imperador, segundo Suetônio (autor que Machado de Assis reverenciava) indicam que o adjetivo teria de ser "clemente". Acho também que, como não havia acento nas proparoxítonas no tempo de Machado, é preciso ter cuidado com palavras que vêm grafadas como paroxítonas, mas na verdade são proparoxítonas. É o caso de "florida" e "formula", ambas em Memórias póstumas de Brás Cubas, que na verdade são "flórida" e "fórmula".

5. A pontuação dos textos de Machado infringe regras hoje tomadas como inquestionáveis, como a que condena a separação de sujeito e predicado por vírgula. Como você lida com as diferenças entre os usos de Machado e as regras atuais? A seu ver, quais seriam os limites para a atualização do texto de Machado?

Permito-me transcrever o que anotamos, quanto à pontuação, ao início de cada romance ou livro de contos, que editamos eletronicamente:

Possivelmente o maior problema no estabelecimento de textos escritos no século XIX é o da pontuação. Ao preparar esta edição, optou-se por uma política a meio caminho entre uma atualização radical, de acordo com as normas presentes, e o respeito à pontuação de Machado de Assis, que, de resto, era a geralmente aceita no século XIX no Brasil e em Portugal. Para citar dois exemplos: manteve-se a vírgula antes da aditiva "e" precedendo verbos cujo sujeito é precisamente o mesmo da oração anterior ("Calou esse ponto, e foi mais discreta que ele"), assim como não se introduziu vírgula antes da aditiva "e" precedendo sujeito diferente ("O barão recusou a pés juntos e o desembargador dispunha-se a voltar para a Corte [...]."). Também foram respeitadas idiossincrasias como a alternância do uso e não uso de vírgula antes de oração consecutiva ("[...] a viúva acompanhou o recém-chegado com tal gosto e discrição, que ele acabou pedindo-lhe que tocasse também."; e "[...] contou-me anedotas de seu tempo de menina e moça, com tal desinteresse e calor que me deu vontade de lhe pegar na mão [...]"). Convém assinalar que, nos casos de elipse do verbo, inseriu-se vírgula para indicá-la ("Disse-me que ele é bom senhor, eles, bons escravos[...]"), o que nem sempre é o procedimento do autor. Quando se considerou que a vírgula (ou a ausência dela) comprometia o melhor entendimento do texto, não se hesitou em intervir, como ocorreu no caso de vírgulas precedendo orações adjetivas restritivas (suprimidas) e de falta de vírgulas precedendo orações adjetivas explicativas (inseridas). (SENNA; HERINGER, 2011______ ; HERINGER, Victor. Nota desta edição eletrônica. In: ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. 2011, online. Disponível em: http://machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/memorial.htm Acesso em: 10.02.2020.
http://machadodeassis.net/hiperTx_romanc...
, online)

6. No interior da obra de Machado, e às vezes no interior de um mesmo texto machadiano, há variações, tanto no uso da pontuação como na ortografia (cousa/coisa; devagar/de vagar; etc.) e na acentuação (no uso da crase, por exemplo). Como você lida com isso? Tende a uniformizar ou mantém essas variações?

Mantenho o que está no original e anoto em hipertexto. Aliás, a edição dos contos obrigou nossa equipe (estudantes universitários, com bolsa de Iniciação Científica, coordenados por mim) a incluir notas filológicas, que consideramos indispensáveis. E constatamos que, mesmo nos romances, tais notas, embora em menor número, também eram necessárias.

7. Machado escreveu e publicou textos durante mais de cinquenta anos, período em que ajudou a definir, como escritor e como presidente da Academia, um novo padrão de escrita em língua portuguesa. Você identifica mudanças significativas, por exemplo, entre o padrão da escrita dos primeiros contos e dos últimos romances?

Creio que há um refinamento do meio de expressão machadiano, em sentido bem largo: refinamento do humor, refinamento da sintaxe, refinamento no uso das referências (citações e alusões). Acho que, especialmente no Memorial de Aires, ouve-se certo sotaque lusitano, algo que, na minha modesta opinião contribui para a presença fantasmática de Portugal na obra. A pressa com que tinham de ser escritos e enviados à redação dos periódicos os contos ou os capítulos de contos, muitas vezes, implica certo descuido, como a troca de nomes de personagens, ou de suas profissões. Isso, aliás, ocorre também nos romances iniciais (três dos quais também foram inicialmente publicados em periódicos), mas é mais frequente nos contos.

8. Você editou romances e contos de Machado de Assis. Há diferenças significativas no processo de edição de textos de diferentes gêneros? Quais seriam?

Sim, as diferenças são sensíveis. Com exceção dos cerca de 70 contos que Machado reuniu em coletâneas entre 1869 e 1906, e portanto provavelmente reviu, todos os demais (cerca de 140 contos) foram publicados apenas em periódicos, sujeitos a desde erros tipográficos não corrigidos pelo autor até passagens truncadas, cortes abruptos, que procuramos anotar em nossa edição eletrônica. Nos romances, todos publicados em volume durante a vida do escritor, muitos deles com segundas e às vezes terceiras edições supostamente revistas por Machado, a necessidade de anotações textuais é praticamente nenhuma.

9. Uma das diferenças das suas edições de Machado de Assis está nas anotações. O que você considera um bom ponto de equilíbrio para o uso das notas explicativas? E de que maneira o meio digital modificou a necessidade e a própria natureza das notas explicativas?

Se a edição for em papel, é preciso ser parcimonioso nas notas, sob o risco de se produzir um "tijolão", que o leitor não conseguirá nem segurar para ler. A edição em suporte digital faculta essa amplidão do universo de notas, já que não ocupam qualquer espaço físico. Decidimos não fazer notas sobre o significado de palavras ainda em uso corrente no Brasil, ainda que mais específicas do padrão chamado culto da língua. Isso, um dicionário resolve. Mas dificilmente resolverá dúvidas sobre expressões como "larga o pinto que é das almas", ou alusões veladas a Shakespeare, como quando chama a uma personagem egípcia "Charmion" (a aia de Cleópatra), eternizada pelo dramaturgo em Antônio e Cleópatra; ou ainda quando se refere aos antigos partos, hábeis num método de combate a que hoje chamaríamos de guerrilha. Essas são as referências que, me parece, encurtam a distância entre a enciclopédia de referências do Bruxo do Cosme Velho e o leitor do século XXI.

10. O que o trabalho com a edição de Machado de Assis lhe ensinou, que outras formas de aproximação do texto (as tradicionais do meio acadêmico: leitura, análise e interpretação) talvez não ensinassem?

Por tratar-se de uma edição cujo objetivo inicial era destacar referências na ficção machadiana, a primeira forma de aproximação diferente que se nos apresentou foi a necessidade de decifração cuidadosa dessas mesmas referências. Se algumas são óbvias, outras requerem pesquisa mais demorada e refinada. É fácil flagrar uma referência a Shakespeare ou a Virgílio, mas o que dizer da menção ao fato de que Napoleão Bonaparte gostava da música monótona, repetitiva (e por isso preferia Paesiello a Mozart)? Além desse terreno (para mim, o mais fascinante, porque revelador do repertório de conhecimento de Machado, de sua enciclopédia de leituras - dos periódicos nacionais, ingleses, portugueses, franceses, norte-americanos a Homero, a Dante, a Camões), eu poderia mencionar a aquisição de uma consciência, por assim dizer, ecdótica, filológica, de crítica textual, que antes eu não tinha e que hoje vejo como fundamental no processo de edição de um clássico como Machado de Assis.

Referências:

  • SENNA, Marta de. Conclusão. In: ______. Alusão e zombaria: citações e referências na ficção de Machado de Assis. 2.ed., rev. e aum. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2008. (Coleção FCRB Estudos)
  • ______ ; DIEGO, Marcelo. Nota desta edição eletrônica. In: ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 2009, online. Disponível em: http://www.machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/brascubas.htm Acesso em: 10.02.2020.
    » http://www.machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/brascubas.htm
  • ______ ; HERINGER, Victor. Nota desta edição eletrônica. In: ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. 2011, online. Disponível em: http://machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/memorial.htm Acesso em: 10.02.2020.
    » http://machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/memorial.htm

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2020
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2020

Histórico

  • Recebido
    16 Jan 2020
  • Aceito
    13 Fev 2020
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