ENTREVISTA COM JOÃO ROBERTO FARIA

INTERVIEW WITH JOÃO ROBERTO FARIA

Resumo

O professor e pesquisador João Roberto Faria trata nesta entrevista do seu trabalho de edição das peças teatrais e dos escritos de Machado de Assis sobre o teatro, indicando especificidades do tratamento dos textos desse gênero praticado pelo escritor desde a juventude até os anos finais de sua vida.

Palavras-chave:
Machado de Assis; teatro; crítica teatral; edição

Abstract

In this interview professor and researcher João Roberto Faria addresses his work editing the plays and writings by Machado de Assis about theater and suggests unique aspects in treating texts of this genre in which the writer engaged from his youth until the final years of his life.

Keywords:
Machado de Assis; theater; theater criticism; editing

João Roberto Faria, professor titular aposentado de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, vem dedicando boa parte do seu trabalho acadêmico à pesquisa sobre o teatro no Brasil. Além de cursos de graduação e pós-graduação e orientação de trabalhos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado sobre o assunto, é autor de algumas obras de referência, entre as quais se destacam a História do Teatro Brasileiro (2012/2013), publicada em dois volumes coordenados por ele, e Ideias Teatrais: o Século XIX no Brasil (2001).

No âmbito da crítica machadiana, publicou vários ensaios importantes, entre eles “Singular ocorrência teatral” e “Dom Casmurro vai ao teatro”, nos quais explora a relação do autor de Brás Cubas com o gênero dramático. Nesses seus escritos, Faria indica a importância e a presença, na obra mais conhecida do escritor, de procedimentos aprendidos na sua intensa atividade teatral, e propõe um verdadeiro programa de estudos: “São visíveis em seus romances e contos da maturidade certos modos teatrais de armar as cenas, de fazer entrar e sair personagens, de organizar os diálogos e de indicar o cenário das ações ficcionais” (FARIA, 1991FARIA, J. R. Singular ocorrência teatral. Revista USP, n. 10, p. 161-166, 30 ago. 1991. Disponível em Disponível em http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/52190/56230 Acesso em 28 jan. 2020.
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).

Desde o início da década de 2000, o pesquisador passou a dedicar-se também ao preparo de edições relativas à produção de Machado de Assis em torno do teatro, sendo o responsável pelas edições modernas e mais fidedignas das peças teatrais do autor, reunidas em Teatro de Machado de Assis (2003), e também pela compilação de praticamente todos os escritos de Machado de Assis sobre o teatro, reunidos no volume Do Teatro: textos críticos e escritos diversos (2008).

Faria também editou as crônicas da série O Espelho, para um volume publicado pela editora da Unicamp em 2009, no qual reúne os textos que Machado publicou nesse periódico no ano de 1859, além do artigo “O conservatório dramático”, publicado em A marmota em março de 1860. Publicou ainda O Naturalismo (2017), coletânea de ensaios feita em parceria com J. Guinsbsurg.

Na entrevista que segue, respondida por escrito em correspondência trocada entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020, João Roberto Faria sistematiza sua experiência com o texto dramático de Machado de Assis. Indica as referências bibliográficas utilizadas no trabalho de edição, trata de alguns dilemas apresentados no embate com os textos de Machado de Assis e explica as decisões que tomou ao editá-los.

1. Como e quando você editou um texto de Machado de Assis pela primeira vez? O que o levou a realizar esse trabalho?

Em 2001, fui convidado pela editora Martins Fontes para coordenar a coleção "Dramaturgos do Brasil". A ideia era recolocar em circulação a dramaturgia brasileira do século XIX e início do século XX, de autores caídos em domínio público. Cada volume teria um estudo crítico, uma cronologia e uma nota sobre a edição. Em 2002, três volumes deram início à coleção. O primeiro, dedicado a Álvares de Azevedo, contou com a colaboração de Antonio Candido, que cedeu o ensaio "A educação pela noite" para preceder a peça Macário. Convidei Orna Messer Levin para organizar o Teatro de João do Rio e eu mesmo organizei o Teatro de Aluísio Azevedo e Emílio Rouède, com duas peças inéditas. Em 2003, Flávio Aguiar organizou uma Antologia de comédia de costumes. E coube a mim organizar o Teatro de Machado de Assis. Foi nesse contexto, pois, que editei textos de Machado pela primeira vez.

2. Entre os primeiros textos que você editou e os mais recentes, quais as principais mudanças que você percebe nas condições materiais do trabalho de edição?

A primeira vantagem, hoje, para editar os textos ficcionais de Machado, é o fácil acesso às primeiras edições, que estão digitalizadas, por exemplo, no site da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Antes, para fazer o cotejo de edições, era preciso ir às seções de obras raras das bibliotecas e contar com a boa vontade dos funcionários. Outra vantagem, hoje, é o acesso aos textos - de ficção ou não - que Machado publicou nos jornais. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro tem uma extraordinária hemeroteca digital, que possibilita fazermos as pesquisas em casa. Não havia essa ferramenta quando organizei o volume Do teatro: textos críticos e escritos diversos. Tive que fazer o pedido de microfilmes e cópias eletrostáticas à Biblioteca Nacional para estabelecer os textos a partir das versões originais publicadas em jornais e revistas. Foi bastante trabalhoso, mas valeu a pena. Nesse livro, espero ter reunido se não tudo - pois algum texto inédito do escritor sempre pode ser encontrado -, algo muito próximo da totalidade dos seus escritos sobre teatro. Quanto ao volume O espelho, não foi difícil fazer o estabelecimento dos textos, pois baseei-me apenas no próprio jornal. Corrigi os erros tipográficos e atualizei o português.

3. Quais os principais dilemas e desafios que você, como editor de textos de Machado de Assis, enfrentou?

Quando publiquei o volume com as peças teatrais de Machado, não tive dificuldades. Não pretendia fazer uma edição crítica, cotejando edições, mas apenas uma edição bem cuidada. Além disso, o antigo Serviço Nacional do Teatro já havia publicado o Teatro completo de Machado, em 1982, com estabelecimento de texto feito por Teresinha Marinho, com a colaboração de Carmem Gadelha e Fátima Saadi. Essa edição e a da Jackson foram o meu ponto de partida, mas para algumas peças consultei outras obras, como a primeira edição de Relíquias de casa velha, Poesias completas (edição preparada pela Comissão Machado de Assis, em 1976) e Contos sem data (organização de Raimundo Magalhães Júnior). Acabei fazendo alguns cotejos para tirar dúvidas. As dificuldades surgiram quando comecei a organizar o material para o volume com os textos críticos de Machado. Percebi que havia muitas falhas nos livros e revistas que consultava para fazer a primeira coleta. Na edição da Jackson, por exemplo, há palavras trocadas, parágrafos truncados, pontuação incorreta, imprecisões de todos os tipos, enfim, que são reproduzidas em outras edições. A única solução que encontrei foi deixar de lado todas as fontes secundárias e fazer o trabalho a partir das versões originais dos textos, que Machado publicou em jornais e revistas ou deixou em manuscritos. Para estabelecer os textos de O espelho, procedi da mesma maneira.

4. A seu ver, quais seriam os limites para a atualização do texto de Machado? Como você lida, por exemplo, com as diferenças entre os usos de Machado e as regras atuais?

A meu ver, a atualização ortográfica é uma regra obrigatória. Uma vez seguido esse critério, não há por que fazer exceções. No caso de uma ocorrência muito singular, a nota de rodapé soluciona o problema. Já a pontuação apresenta mais problemas, pois diz respeito ao ritmo da frase e a usos comuns no século XIX. Por exemplo: Machado, por vezes, separava sujeito e predicado com uma vírgula. Não o corrigi. Sempre preferi manter a pontuação original, embora tenha feito pequenas intervenções, explicadas em notas de rodapé. Não tive receio de corrigir os eventuais erros de concordância que localizei. Afinal, muitos textos, Machado deve ter escrito sem tempo para revisá-los. De qualquer modo, apontei a correção em nota de rodapé. Outra interferência que julgo legítima é substituir pela forma do singular as ocorrências no plural do verbo haver, no sentido de existir. Em relação a palavras estrangeiras, títulos de obras, nomes de personagens, o importante foi uniformizar o uso em todos os textos, pois é preciso levar em conta que Machado atuou na imprensa, em jornais diferentes, por mais de quarenta anos. Nos volumes Do teatro: textos críticos e escritos diversos e O espelho, a uniformização se deu com a grafia em itálico das palavras estrangeiras; os títulos de obras em itálico e iniciais das palavras em maiúsculas (como em A Dama das Camélias, por exemplo); os nomes dos personagens em tipo normal. Como disse acima, o mais importante no trabalho de atualização dos textos é uniformizá-los em sua apresentação, sem adulterar o seu significado e o estilo do escritor.

5. Machado escreveu e publicou textos teatrais (e sobre teatro) durante mais de quatro décadas, período em que ajudou a definir, como escritor e como presidente da Academia, um novo padrão de escrita em língua portuguesa. Você identifica mudanças significativas entre o padrão da escrita das peças iniciais e o dos textos publicados já no século XX?

Machado dedicou-se verdadeiramente ao teatro na década de 1860. Escreveu peças, traduziu, foi crítico teatral e até mesmo censor do Conservatório Dramático Brasileiro. Nas décadas seguintes, apenas esporadicamente voltou a atenção para o teatro. O escritor maduro deu-nos então seus melhores contos e romances. No entanto, entre um livro e outro, escreveu Tu só, tu, puro amor (1880), Não consultes médico (1896) e Lição de botânica (1906). Nessas peças, o que se percebe, comparando-as com as primeiras, é um melhor apuro formal, diálogos mais brilhantes e personagens mais bem caracterizados, sem que tudo isso signifique uma mudança ou uma ruptura com o tipo de comédia que fizera na juventude. Na década de 1860, Machado escolheu o provérbio dramático de Musset e Octave Feuillet como modelo, para fazer um teatro centrado na linguagem elegante e espirituosa. É o que se vê em Desencantos, O caminho da porta ou O protocolo, por exemplo. Trinta ou quarenta anos depois, em suas duas últimas comédias, o modelo ainda é o mesmo, mas o resultado é superior, com destaque para Lição de botânica, uma pequena joia de alta literatura.

6. Você já editou peças teatrais, textos de crítica teatral e crônicas de Machado de Assis. Você identifica diferenças significativas no processo de edição de textos de diferentes gêneros? Quais seriam?

No caso das edições que preparei, pude perceber que os textos de crítica teatral e as crônicas exigem maior aparato crítico. Por terem sido publicados em jornais e muitas vezes aludirem a fatos, autores e obras que eram do conhecimento dos leitores da época, mas que não são dos leitores de hoje, requerem muitas notas de rodapé. Outro problema são os erros tipográficos dos jornais, ou mesmo frases truncadas, que exigem correções e até mesmo interpretações do que o autor realmente escreveu. Para o volume Do teatro: textos críticos e escritos diversos, fiz mais de trezentas notas de rodapé, o que dá uma ideia das dificuldades para o estabelecimento dos textos e esclarecimentos necessários. A edição das peças teatrais não ofereceu problemas e com poucos cotejos entre edições já feitas foi possível organizar o volume.

Não tenho experiência na edição de outros gêneros. Deve haver alguma especificidade para se editar poesia, conto e romance. Mas não creio que seja muito diferente do trabalho que fiz, a menos que estejamos diante de escritores que revisam seus textos a cada edição, introduzindo mudanças, ou de obras com muitas edições, como são os romances de Machado. A meu ver, o que deve prevalecer é a vontade última do escritor, expressa por vezes com pequenas notas introdutórias. Ou a última edição em vida do autor. De qualquer modo, duas atitudes devem dirigir o trabalho de quem edita textos: rigor e bom senso nas decisões de escolher uma forma ou outra, presentes em edições diferentes.

7. Com você lida com as notas explicativas? Para você, o que seria um bom ponto de equilíbrio no uso das notas?

Creio que o uso de notas de rodapé depende muito do texto a ser editado. Um manuscrito talvez exija mais notas do que um romance já publicado. No primeiro caso, vai-se de fato estabelecer um texto; no segundo, pode-se esclarecer o leitor acerca do uso de uma palavra, fazer uma correção evidente de erro tipográfico, acrescentar ou tirar uma vírgula etc. Já a edição de crônicas ou textos críticos, como afirmei acima, pede um número maior de notas explicativas. Dou como exemplo os volumes de crônicas de Machado lançados pela editora da Unicamp nos últimos dez anos. A orientação dos editores responsáveis foi a de não economizar nas notas explicativas, o que tornou esses volumes imprescindíveis para a leitura e compreensão das crônicas de Machado e do contexto histórico, político e social em que foram escritas e publicadas.

8. No caso do teatro de Machado de Assis, o que ainda há a fazer em termos de estabelecimento de texto e edição?

Talvez não haja muito o que fazer em relação às peças teatrais já publicadas. Quem sabe algum pesquisador encontre, por exemplo, o manuscrito da peça O pomo da discórdia, que Machado enviou ao Conservatório Dramático nos anos 1860 e se encontra perdida. É uma peça em três atos, diferente, portanto, das que conhecemos. Trabalho a ser feito é a reedição das peças traduzidas por Machado, com mais rigor do que se viu na edição de Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis (2009), da editora Crisálida.

Referência:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2020
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2020

Histórico

  • Recebido
    22 Jan 2020
  • Aceito
    04 Fev 2020
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