MACHADO DE ASSIS EDITOR E AS SUAS PÁGINAS RECOLHIDAS

MACHADO DE ASSIS AS EDITOR AND HIS PÁGINAS RECOLHIDAS

THIAGO MIO SALLA LARA CAMMAROTA SALGADO Sobre os autores

Resumo

O presente artigo visa a traçar de forma sucinta a história da primeira edição de Páginas recolhidas, de Machado de Assis, bem como conjecturar hipóteses sobre a elaboração de tal obra, com vistas a discutir a faceta de editor cultivada pelo autor de Dom Casmurro. Para tanto, recupera-se, de início, a atuação do escritor no processo de produção editorial de seus livros, mediante a retomada de elementos bibliográficos e, sobretudo, de dados contidos em sua correspondência, para então se tratar do processo de feitura da miscelânea em questão, a primeira realizada pelo escritor. Publicado em 1899, o livro Páginas recolhidas abriga oito contos, seis crônicas, uma peça de teatro, um discurso, uma evocação e uma análise de correspondência.

Palavras-chave:
Machado de Assis; Páginas recolhidas; Garnier; história do livro; história da leitura

Abstract

The aim of this article is to briefly describe the history of the first edition of Machado de Assis’s Páginas recolhidas, as well as suggest hypotheses about its publishing process to discuss the editorial role of Dom Casmurro’s author. To this end, the writer's performance in the editorial production process of his own titles is recovered through bibliographical elements and, especially, the information available in his correspondence to then address the process of the making of the book in question, Machado's first miscelannea - here understood as a variety of genres. The title was published in 1899 and it was made up of eight short stories, six chronicles, one play, one speech, one evocation and one correspondence analysis.

Keywords:
Machado de Assis; Páginas recolhidas; Garnier; book history; reading history

Prolegômenos

Antes de lançar seu primeiro livro e muito antes de alcançar a consagração, Joaquim Maria Machado de Assis iniciou sua vida profissional nas casas tipográficas. Na juventude dos seus dezesseis anos, começou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de Paula Brito, no qual publicou seus versos. A partir de 1856, Machado trabalharia como tipógrafo aprendiz na Imprensa Nacional por dois anos (MASSA, 1971MASSA, Jean-Michel. A juventude de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971., p. 169), tendo exercido também a função de revisor de provas na casa editorial de Paula Brito e no Correio Mercantil (PEREIRA, 1988PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis. 6a ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp , 1988., p. 54 e 60). Voltaria para a Imprensa Nacional, em 1867, como assistente do diretor do Diário Oficial e desempenharia essa atividade por sete anos (Cf. IMPRENSA NACIONALIMPRENSA NACIONAL. Dicionário eletrônico. Disponível em: <Disponível em: http://www.in.gov.br/web/dicionario-eletronico/-/machado-de-assis-patrono-da-imprensa-nacional >. Acesso em: 3 nov. 2019.
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). Ao longo da vida colaborou com diversos periódicos, como O Paraíba, O Espelho, O Diário do Rio, A Semana Ilustrada, O Futuro, O Jornal das Famílias, O Globo, Ilustração Brasileira, O Cruzeiro, A Estação, Revista Brasileira e Gazeta de Notícias. Essa formação profissional junto a tipos e impressos teria oferecido ao escritor instrumentos para pensar a edição de suas obras do ponto de vista material, proporcionando-lhe uma relação direta com a produção de seus livros.

Tendo em vista tal faceta da atuação de Machado de Assis como, em certa medida, editor de sua própria obra e seu interesse e zelo pela função expressiva e “leitura implícita” decorrente da apresentação da matéria tipográfica presente em seus livros (MCKENZIE, 2018MCKENZIE, Donald Francis. Bibliografia e sociologia dos textos. São Paulo: Edusp , 2018., p. 30), ganha destaque a edição lançada pela Garnier em 1899 de sua primeira miscelânea: a obra Páginas recolhidas. Considerando-se as outras coletâneas de contos e a também miscelânea Relíquias de casa velha (1906), o referido volume é o único a contar com um “prefácio”, rótulo empregado pelo próprio autor. Nas demais obras ou não há pré-textuais (Contos fluminenses), ou esta não é nomeada (Várias histórias), ou se têm tão somente “Advertências” (Histórias da meia-noite, Papéis avulsos, Histórias sem data e Relíquias de casa velha) de caráter, em geral, mais circunstancial.1 1 Mostra do caráter mais genérico de tais textos preambulares, em Histórias da meia-noite, o autor registra seu agradecimento à recepção obtida por seu primeiro romance; em Várias histórias, defende o gênero conto; em Histórias sem data e Relíquias de casa velha explica o título dos volumes; em Papéis avulsos, confessa a unidade presente na seleção por ele realizada a qual poderia parecer, à primeira vista, aleatória.

No texto liminar que abre o livro aqui tematizado, percebe-se o esforço machadiano em relatar as origens dos escritos coligidos, bem como em justificar as escolhas por ele realizadas relativas aos diferentes gêneros que o volume em questão abarca: conto, peça teatral, evocação, análise de correspondência, discurso e crônicas. O prefaciador se detém, ainda que rapidamente, na abordagem dos exemplares eleitos de cada uma dessas espécies textuais.

E mais: diferentemente do que se observa em Histórias da meia-noite, na qual menciona que as folhas do volume teriam sido “reunidas por um editor benévolo”, em Páginas recolhidas prevalece a atitude seletora de Machado, responsável por eleger, dentre os muitos textos de sua farta produção estampada em periódicos, alguns contos “que ainda agora possam interessar” e crônicas que “ainda agora” lhe falariam ao espírito. Em ambas as citações, avulta um “agora” distendido, uma vez que o prefácio não é datado, a destacar, em certa medida, o caráter mais perene do todo. Ao mesmo tempo, há o intento deliberado de se explicitar um princípio organizador, algo já observado em Papéis avulsos, capaz de conferir unidade ao disperso. A miscelânea conta uma epígrafe de Montaigne: “Quelque diversité d’herbes qu’il y ayt, tout s’enveloppe sous le nom de salade”. Tal mote sugere que, por mais avulsas que possam parecer as folhas, elas têm algo que lhes permite “formar uma salada”.

Outra motivação para a eleição de Páginas recolhidas a fim de se examinar o trabalho de Machado enquanto editor de seus próprios textos pode ser encontrada na singular trajetória editorial dessa miscelânea. Apenas a título de comparação, enquanto Quincas Borba, “primeiro grande sucesso de crítica e público” do autor (GUIMARÃES, 2012GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis. São Paulo: Edusp; Nankin, 2012., p. 191), teve sua segunda edição em 1896, isto é, cinco anos após seu lançamento, Páginas recolhidas logrou tal êxito em apenas um ano: a edição princeps de tal miscelânea foi lançada em 1899 e esgotou-se em quatro meses, e a segunda veio a lume em 1900. Entretanto, como muitos títulos de antologia da lavra do autor, o livro não obteve uma recepção crítica numerosa nos periódicos.

Machado de Assis, autor-editor

Talvez não seja exagero qualificar os cuidados do escritor com a conformação material de suas obras como resquícios das atividades editoriais que exercera. Apesar de haver relatos de não ter sido um tipógrafo primoroso - ao contrário, segundo Capistrano de Abreu, desempenhara mal tal função2 2 Machado de Assis era aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional e, segundo Luís Viana Filho, não era habilidoso manejando os tipos, escapando do trabalho para ler. A displicência o fez ser levado até o diretor: Manuel Antônio de Almeida, cuja reprimenda foi abrandada quando este descobriu o prazer que o funcionário tinha pelos livros. (VIANA FILHO, 1989, p. 10-11.) -, a formação profissional de Machado nos seus primeiros anos possibilitou-lhe adquirir conhecimentos específicos a respeito do processo de confecção do objeto livro que lhe garantiram propriedade para tratar das diferentes atividades e processos relativos à editoração de um original. O rigor com a correção de provas não era dirigido tão somente ao texto em si, mas também à sua composição tipográfica, ao papel empregado, à divisão de capítulos e à produção de paratextos. Como é sabido, as coletâneas de Machado de Assis, bem como seus romances, são introduzidos por elementos pré-textuais que procuram estabelecer um diálogo efetivo entre a intenção do autor e seu possível leitor. Poderíamos pensar que o escritor buscava estar em contato direto com a produção de suas obras, intervindo no texto, na materialidade, na veiculação e no modo em que se daria a recepção deste. Assim, sua atuação não se restringiria à criação artística, mas revelaria um desejo de participar de todas as etapas de produção de seus livros.

Uma faceta dessa atuação editorial do escritor pode ser percebida na correspondência de Machado com Magalhães de Azeredo. Estando o último fora do país, ficara o primeiro com a incumbência de negociar com a Lombaerts a publicação de um livro do amigo.3 3 Trata-se do livro de poesia chamado Inspirações da infância, o qual acabou não sendo publicado, malgrado o empenho de Machado para tanto. Magalhães fez a discriminação do exemplar - número de páginas, formato, papel, tipo e tiragem (ASSIS, 2009_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo II - 1870-1889, 2009., p. 345). Machado reportou em nova carta as condições do editor, as quais Magalhães aceitou com a ressalva de que “se isso importasse considerável abatimento na despesa, não faria mal que o papel fosse um pouco inferior” (ASSIS, 2009_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo II - 1870-1889, 2009., p. 347). Comentários sobre a execução material de uma nova obra poética de Magalhães de Azeredo ganharam espaço em outra carta, na qual ele tratava do “primor gráfico” de Procelárias,4 4 Livro de poesias com o qual Magalhães de Azeredo estreou em tal gênero textual. A obra foi publicada pela Empreza Litteraria e Typographica do Porto. mas afirmava que custear tal edição no Brasil - com “gravuras, capas de papel pergaminho” - representaria uma despesa três vezes maior do que na França (ASSIS, 2009_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo II - 1870-1889, 2009., p. 347). A mediação de Machado de Assis entre o autor e o editor revela a disposição e a familiaridade do escritor com o assunto.

Na referida tipografia de Lombaerts, o poeta e novelista Rodrigo Otávio testemunhou o cuidado e o prazer com que Machado acompanhava o trabalho de impressão e, em perspectiva mais ampla, as diversas fases da cadeia de produção de um livro. Tal casa editorial publicou, ela mesma, duas obras de Machado: Tu só, tu, puro amor… (1881) e Papéis avulsos (1882), bem como, sob encomenda da Garnier, realizou a impressão da primeira edição de Histórias sem data (1884) e de Quincas Borba (1891). Além disso, destacava-se pela edição de A Estação, periódico no qual o escritor assinou 38 contos, além da primeira versão do romance que conta a história de Rubião. Diante dos prelos da Lombaerts, Machado teria dado conselhos a Rodrigo Otávio, os quais aquele gostaria que fossem transmitidos aos futuros escritores. “Referia-se ao cuidado tipográfico, à escolha do papel, à nitidez da impressão, à beleza do livro, enfim” (OTÁVIO apudGUIMARÃES & LEBENSZTAYN, 2019OTÁVIO, Rodrigo. Minhas memórias dos outros: Machado de Assis. In: GUIMARÃES, Hélio de Seixas; LEBENSZTAYN, Ieda. Escritor por escritor: Machado de Assis segundo seus pares 1908-1939. São Paulo: Imprensa Oficial , 2019., p. 275).

Para além dessa percepção global do fazer editorial, o trabalho empreendido por Machado de revisar suas obras devia ser tarefa rotineira. Em contratos da venda de direitos entre o autor e Hippolyte Garnier, consta uma cláusula que determinava a obrigação não remunerada do escritor de corrigir as provas de suas obras (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 191-194). Segundo Hallewell, “o próprio autor, sendo um tipógrafo experiente, encarou prazerosamente a oportunidade de acompanhar a impressão de suas obras” (2005, p. 206). Seja como for, é certo que o cuidado com o processo de feitura de seus livros indica o desejo de garantir que a edição fosse bem realizada. Exemplo disso encontra-se em missiva de 1903 endereçada a Julien Emmanuel Bernard Lansac, então gerente da livraria Garnier, na qual o autor de Várias histórias, ao tratar da reedição desse título, chamou a atenção de seu destinatário para o fato de que lhe enviou um exemplar com as emendas relativas à próxima edição e ressaltou que os erros “prejudicam uma obra, sobretudo quando a mesma é adotada em escolas”. Relata ainda que havia críticas por conta desses erros de impressão e que nenhum outro tinha tantos quanto esse volume: “[...] vous aurez vu, je crois, qu’elles sont très nombreuses, quelquefois cinq ou six dans une page, et même il y a une ligne répetée dans la même page, c’est-à-dire qu’une de ces lignes occupe la place où l’on devait mettre une autre qui n’a pas été imprimée” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 204).

A carta de Machado sugere que seu círculo de leitores abarcava diferentes idades. Além disso, trata-se de mais um elemento que reforça o valor simbólico de que o autor gozava. Naquela época, a consagração do romancista encontrava respaldo no tratamento recebido por ele de seus pares: “mestre” era o vocativo que muitos empregavam em suas resenhas, e até mesmo Sílvio Romero chegou a escrever que Machado era “um tipo notável por mais de um título”. (ROMERO apudMACHADO, 2003MACHADO, Ubiratan (Org.). Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro: EdUerj, 2003., p. 254). Se não se revelava uma unanimidade, a seleção da recepção da obra machadiana colhida da imprensa contemporânea à sua publicação, e reproduzida em livros por Hélio de Seixas Guimarães (2012GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis. São Paulo: Edusp; Nankin, 2012.) e Ubiratan Machado (2003MACHADO, Ubiratan (Org.). Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro: EdUerj, 2003.), sinaliza que o escritor desfrutava de aceitação disseminada entre jornalistas e artistas. No ano em que a referida missiva foi escrita, Machado já havia publicado seus quatro volumes de poesia, sete de seus romances e seis de suas coletâneas, sendo que, de toda a sua obra, quatro títulos já tinham sido reimpressos pelo menos uma vez. Também já havia sido agraciado com o título da Ordem da Rosa e homenageado com a criação de uma biblioteca que levava o seu nome (PEREIRA, 1988PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis. 6a ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp , 1988., p. 179). Todos esses fatos são importantes para entender o valor que o nome do autor das Memórias póstumas representava no meio intelectual. Assim, ter, em vida, uma obra sua no currículo escolar atestava o caráter de autoridade e prestígio que adquiriu ao longo de sua trajetória profissional.

Outro aspecto que essa carta evidencia é a já mencionada preocupação que o autor tinha para com a feição tipográfica e a circulação de sua obra. Pensando que o livro seria empregado em um ambiente de ensino, em que há formação de leitores, Várias histórias não poderia, em hipótese nenhuma, apresentar erros. Essa observação sustenta a ideia de que o zelo meticuloso de Machado seria estendido a seus leitores.

Retomando a troca de correspondências acerca de Várias histórias, em rascunho de carta datada de 8 de setembro de 1902, Machado expressa a Hippolyte Garnier seu descontentamento com a composição da segunda edição dessa obra, que fora impressa pela primeira vez, em 1896, pela casa Laemmert em uma diagramação que contava com 310 páginas. O volume oferecido pela Garnier diminuíra-lhe o tamanho para 230 páginas, o que o autor considerou desfavorável, pois “o livro terá o aspecto e o valor de um livrinho, o que prejudicará a venda” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 204). Sugere então que sejam comparadas as manchas tipográficas das duas edições e indica mudanças para que o volume novo ganhe corpo:

Comparez une page de la première avec une autre de la votre; la ligne de celle-ci est plus longue, et chaque page compte 38 lignes; les pages de cella-là sont formées avec 34 lignes, et vous pourrez voir la difference de longueur. Outre celà, voyez la première page de chaque nouvelle; dans l’édition Laemmert, elle ne compte que 13 lignes, au lieu que dans l’édition Garnier elle va jusqu’à 20. Voyez déjà les six prémieres feuilles d’épreuves; la matière de 108 pages que je vous envoi occupe dans l’édition Laemmert 132 pages. Pour la verification et la comparaison, vous trouverez ci-joints les deux prémières pages de l’édition Laemmert. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 204)

No caso da edição de Contos fluminenses, uma segunda tiragem foi dada a público sem que Machado tivesse sido avisado. O ocorrido aborreceu o escritor que, em razão disso, não quis mandar um exemplar da obra para Magalhães de Azeredo (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 295). Três meses depois, Machado enviou a Garnier um exemplar da referida tiragem com emendas para a próxima edição (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 200). O episódio reforça a ação do autor em prol da devida execução tipográfica de sua obra, revendo-a e fazendo os ajustes necessários sem desrespeitar nem “o estilo nem a composição” porque, nas palavras do escritor, “cada livro deve conservar as características da época em que foi escrito” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 200). O desejo de manter uma linguagem apurada e correta mostra-se perceptível não só nas emendas feitas nas reimpressões. Em rascunho de carta, Machado pedia a Garnier especial atenção às suas marcas de revisão na prova de Memorial de Aires, que eram muitas devido à reforma ortográfica5 5 A temática da ortografia ocupou as sessões da Academia Brasileira de Letras entre 1906 e 1907. As opiniões se dividiam em duas correntes: os defensores de uma reforma pautada por critérios fonéticos - apoiadores do projeto de Medeiros e Albuquerque - e aqueles afeitos à etimologia das palavras - dentre os quais estava Salvador de Mendonça, que, na sessão de 4 de julho de 1907, fez emendas à proposta do colega. Segundo as atas da ABL, a votação começou em 11 de julho de 1907 (RIBEIRO, “A Reforma Ortográfica da Academia Brasileira de Letras, em 1907”, p. 207). Machado de Assis escreveu a Joaquim Nabuco sobre a discussão da reforma ortográfica (na época o amigo encontrava-se fora do Brasil), dizendo que: “[...] é negócio que tem interessado o público e alguns estudiosos” (ARANHA, Machado de Assis & Joaquim Nabuco: correspondência, p. 147). A votação foi favorável à ortografia de base fônica, estabelecendo entre outras mudanças a grafia “Brazil”. promovida pela Academia (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 206).

De modo sistemático, Machado de Assis também faria outras observações sobre as edições de suas obras. Em novo rascunho de carta para Garnier, o autor recomendava que fosse escrito “Quarta edição” e não apenas “Nova edição” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 205) no frontispício atualizado de Memórias póstumas de Brás Cubas, o que poderia indicar a percepção por parte do autor de que ressaltar o número de reedições causaria um impacto positivo nas vendas, compartilhando do pressuposto de que títulos muito vendidos despertam a atenção do leitor. Já para a edição de Esaú e Jacó, Machado apontava que a divisão dos capítulos não deveria seguir a diagramação de Brás Cubas e de Dom Casmurro, explicava transposições que fizera de uma seção para outra, fazia recomendações sobre o papel, que deveria ser grosso como o usado no romance Dom Casmurro, e descrevia questões relativas à composição da página:

Pour l’épigraphe, j’avais cru d’abord la faire remettre dans une seule page, comme dans le manuscript, qui est à Paris, mais en y pensant, je crois qu’il vaut mieux la conserver dans la place où elle est dans l’épreuve, c’est-à-dire, au-dessus du premier chapitre. Il faut corriger seulement le nom de Dante.

Au chapitre LXXXI […] il y a des vers qui sont composés comme si c’etait de la prose; j’ai fait la remarque en marge, en priant qu’ils soient mis au centre de la ligne, et composés en petits caractères. Un de ces vers est en allemand, qu’un autre vers, répeté, traduit en portugais. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 205)

A partir dessa breve seleção documental, o autor das Páginas recolhidas apresenta-se como uma figura consciente não só da textualidade mas também da materialidade de sua obra. O envolvimento com o processo editorial ultrapassava a revisão ortográfica, o apuro linguístico e estilístico: ele era estendido à composição da página, aos paratextos (epígrafes, advertências, prefácios) e também aos seus leitores. Tais evidências podem parecer de pouca importância, visto que oferecer um exemplar sem erros é desejo de todo escritor. Entretanto, o registro do conhecimento de um artista sobre os processos de edição de um livro, e também de sua atuação direta na consecução tipográfica deste, mostra-se relevante para a análise da história da edição de qualquer uma de suas obras. Em escala mais ampla, os elementos aqui destacados podem indicar as intenções de leitura projetadas pelo autor e pela casa editorial, como também possíveis preferências do público.6 6 Desdobramento do que aqui se discute, mostra-se recorrente em Machado a encenação do universo do livro e da edição no interior de sua própria obra ficcional. Bem conhecida, por exemplo, é sua teoria acerca das “edições humanas”, que ganhou corpo no capítulo 27 das Memórias póstumas de Brás Cubas: “Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” (ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 99). Todavia, por uma questão de espaço e escopo, não se examinará tal questão no presente artigo.

Nesse sentido, assim como Lúcia Granja defende que a atuação jornalística de Machado de Assis contribuiu para sua formação artística, incorporando a seu estilo elementos da poética dos periódicos (GRANJA, 2018GRANJA, Lúcia. Machado de Assis: antes do livro, o jornal. São Paulo: Editora Unesp Digital, 2018. Disponível em: <Disponível em: http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788595462816,machado-de-assis-antes-do-livro-o-jornal >. Acesso em: dez. 2018.
http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788...
, p. 187), supõe-se que o escritor também soube aproveitar sua experiência inicial nas casas tipográficas e o contato ao longo de toda a vida com tais estabelecimentos para desenvolver e aplicar o conhecimento sobre a execução material do livro em suas obras.7 7 Para além disso, a passagem de Machado por diferentes estabelecimentos editoriais, quer como colaborador, quer como autor, estreitou seu contato com grandes editores em atividade no Brasil do século XIX, com destaque para Paula Brito, Baptiste Louis Garnier e Henri Lombaerts, sobre os quais produziu notas e textos encomiásticos. A respeito do primeiro e do segundo destacou, em crônica de 1865, saída no Diário do Rio de Janeiro: “Paula Brito foi o primeiro editor digno desse nome que houve entre nós. Garnier ocupa hoje esse lugar, com as diferenças produzidas pelo tempo e pela vastidão das relações que possui fora do país” (ASSIS, Obra completa em quatro volumes, v. 4, p. 238). Sobre Garnier, escreveu ainda uma crônica-necrológio que fecha a primeira edição de Páginas recolhidas. Quanto a Lombaerts, considerava-o um “editor esclarecido e pontual”, além de “desinteressado, em prejuízo dos negócios a cuja frente esteve até o último dia útil da sua atividade” (ASSIS, 1897, s.p.).

Essa mescla de autor e editor em Machado de Assis foi também abordada por Fabiana Gonçalves em sua análise da edição das Poesias completas (1902): “[...] as supressões integrais e/ou diversas modificações estruturais apontam a dupla função do autor: enquanto editor, visa ao melhor enquadramento gráfico; enquanto poeta objetiva a apuração do estilo e da forma” (GONÇALVES, 2015GONÇALVES, Fabiana. De poeta a editor de poesia: a trajetória de Machado de Assis para a formação de suas Poesias completas. São Paulo: Editora da Unesp, Cultura Acadêmica, 2015. Disponível em: <Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/138589/ISBN9788579836589.pdf?sequence=1&isAllowed=y >. Acesso em: 3 nov. 2019.
https://repositorio.unesp.br/bitstream/h...
, p. 129). Um argumento a favor da imagem de Machado como editor dessa coletânea reside em suas escolhas dos textos que compõem tal volume. Apesar de o nome deste sugerir a reunião da totalidade da obra poética do autor, alguns poemas de Crisálidas, Falenas e Americanas foram suprimidos. Além disso, Machado “promoveu diversas reformulações; retirou palavras, alterou alguns títulos e a disposição dos poemas, suprimiu epígrafes e erratas, refez trechos, retirou […] os prefácio e posfácio” (ASSIS, 2008c_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Org. Sergio Paulo Rouanet. Rio de Janeiro: ABL, tomo i - 1860-1869, 2008c., p. 55-56).

De fato, a gama de preocupações e intervenções realizadas pelo autor, para além da obra submetida à editora, aproxima Machado do ato de editar. Originária do latim, a palavra “editor” sedimenta-se no século XIX e, entre outros significados, descreve aquele que “concebe e planeja o livro […], determina o tamanho, a forma de edição e todos os seus pormenores, dirige a sua execução material” (FARIA; PERICÃO, 2008FARIA, Maria Isabel Ribeiro de; PERICÃO, Maria da Graça. Dicionário do livro: da escrita ao livro eletrônico. São Paulo: Edusp, 2008., p. 271). Não por acaso, tais traços semânticos adequam-se ao que postula Roger Chartier (2014CHARTIER, Roger. A mão do autor e a mente do editor. São Paulo: Editora Unesp, 2014., p. 268, grifo nosso) quando descreve o trabalho de edição de obras clássicas a partir dos princípios estabelecidos pelo acadêmico espanhol Francisco Rico, responsável pela “versão definitiva” de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes: “[...] editar um trabalho não é questão de redescobrir um texto ideal, e sim de mostrar explicitamente a preferência dada a um ou outro de seus estados, junto com as escolhas feitas para sua apresentação de tais assuntos, como divisões, pontuação, formas escritas e grafia”. O exame da realização das Páginas recolhidas permite divisar melhor o papel atuante de Machado quanto à disposição tipográfica e à materialidade, em termos editoriais, de suas obras impressas em letra de forma.

No rastro das Páginas recolhidas

Publicado em 1899, não se sabe ao certo como teria surgido a ideia de se fazer o primeiro livro-miscelânea de Machado de Assis. Pode-se supor, entretanto, a combinação de dois fatores: o desejo do autor de ver em livro alguns de seus textos saídos anteriormente na imprensa (algo já observado nas coletâneas de contos elaboradas por ele anteriormente) e o desejo do editor de lançar um título novo do escritor, que, em tal momento, passara a ostentar a posição de presidente da Academia Brasileira de Letras8 8 Não por acaso, no topo da folha de rosto da primeira edição de Páginas recolhidas, logo depois do nome de Machado, aparece em corpo menor, mas em capitulares, a indicação “DA ACADEMIA BRASILEIRA”. Trata-se de um índice de consagração literária que passará a figurar, a partir de então, nos frontispícios das edições e reedições dos livros do autor. A título de exemplo, em carta de 8 de outubro de 1899, Hippolyte Garnier tranquiliza Machado ao destacar que, na reimpressão de Contos fluminenses, estaria “atento para que as menções da Academia Brasileira e Nova edição” não ficassem ausentes (ASSIS, 2011, p. 419). e cuja última novidade pela Garnier - Quincas Borba - havia sido publicada oito anos antes e lograra mais duas edições até o lançamento das Páginas recolhidas (GUIMARÃES, 2012GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis. São Paulo: Edusp; Nankin, 2012., p. 191-192). A primeira menção à obra encontra-se em carta a Magalhães de Azeredo de 10 de maio de 1898, da qual reproduzimos um trecho:

Eu pela minha parte, além de alguma coisa que tenho em mãos e não sei se acabarei, nem quando, quero ver se colijo certo número de escritos que andam esparsos. Não sei se valerá a pena fazer o mesmo aos versos, dado que sim, poderá sair um tomo pequeno. E será tudo, naturalmente; neste ponto da minha jornada, não se podem fazer muitos nem longos projetos. Vai-se parando onde o cansaço pedir que se pare, e andando até onde consentir que se caminhe. Vê que as próprias cartas já me saem riscadas e emendadas. (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 309, grifo nosso)

A passagem sugere um terceiro motivo para a feitura do livro mencionado: Machado talvez suspeitasse não ter condições de saúde para escrever um novo romance ou qualquer volume inédito, reservando-se a pensar edições a partir do vasto material publicado nos periódicos fluminenses.9 9 Machado ainda publicaria mais cinco livros, todos editados pela casa Garnier, a saber: Dom Casmurro (1899), Poesias completas (1901), Esaú e Jacó (1904), Relíquias de casa velha (1906) e Memorial de Aires (1908). Para além disso, o documento em questão se mostra importante, pois revela que a escolha dos textos de tal volume, de fato, coube ao próprio autor; logo é descartada a possibilidade de se tratar de um livro planejado por Garnier. Quatro meses depois, Machado escreveria sobre a obra em nova carta a Magalhães de Azeredo, dizendo que a segunda edição de Iaiá Garcia estaria à venda, saindo com poucos erros, e que havia sido informado na primeira página desse volume que outro livro seu estaria no prelo, “uma coleção de escritos soltos já dados em várias partes”. Todavia, nesse momento, o livro ainda não se encontrava pronto, e, com o anúncio antecipado, Machado teria de selecionar os textos mais rápido do que esperava. Nessa mesma missiva, contava ao amigo que tinha outra obra por acabar (Dom Casmurro), na qual trabalhava fazia tempos, pois “a fadiga dos anos, e o mal que me acompanha obrigam a interrompê-lo e temo que afinal não responda aos primeiros desejos” (VIRGILLO, 1969VIRGILLO, Carmelo (Org.). Correspondência de Machado de Assis com Magalhães de Azeredo. Instituto Nacional do Livro: Rio de Janeiro, 1969., p. 155). Novamente, atribui-se a seu estado de saúde o empecilho à produção artística e evidencia-se, uma vez mais, que Machado se responsabilizava pela escolha dos elementos que viriam a constituir a miscelânea. A ênfase nessa última informação justifica-se, pois, a partir dela, pode-se pressupor a existência de algum critério por parte do autor que explicasse a reunião dos textos no volume, algo mencionado em seu prefácio:

Saíram [as páginas] primeiro nas folhas volantes do jornalismo, em data diversa, e foram escolhidas dentre muitas, por achar que ainda agora possam interessar […]. Enfim, alguns retalhos de cinco anos de crônica […] que me parecem não destoar do livro, seja porque o objeto não passasse inteiramente, seja porque o aspecto que lhe achei ainda agora me fale ao espírito [...]. (ASSIS, 1899_______. Páginas recolhidas. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Disponível em: <https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4785>. Acesso em: 2 out. 2019.
https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/47...
, p. vii-viii, grifos nossos)

A consciência a respeito da temporalidade relativa a cada escrito desdobra-se em outra carta, na qual Machado avisava Hippolyte Garnier que enviara um exemplar com as emendas para a segunda edição de Contos fluminenses, também publicada em 1899, mas que “não corrigiu o estilo nem a composição, porque cada livro deve conservar as características da época em que foi escrito” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 200). Por caminhos complementares, essa passagem e a citação anterior evidenciam a atenção concedida pelo escritor ao contexto de produção e circulação das obras, bem como sua “mente de editor” ao admitir a hipótese de que um texto assume possibilidades de leitura que são determinadas em parte por sua apresentação e disposição tipográfica ao leitor (CHARTIER, 2009_______. (Org.). Práticas da leitura. 4 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2009., p. 99). Ao pontuar que o objeto das crônicas não “passou”, Machado parece justificar que a seleção feita não se mostrava datada, revelando-se passível de leitura efetiva naquele momento (1899) e possivelmente em um futuro ainda mais distante do período em que elas foram publicadas na Gazeta de Notícias (entre 1892 e 1894).

Também se mostra razoável admitir que, ao dizer que o aspecto das referidas crônicas “ainda agora me fale ao espírito”, o autor talvez quisesse incluir o espírito dos leitores em tal asserção, pois se assim não fosse, qual sentido teria escolher esses textos para compor a miscelânea? O que é dito para as crônicas se estenderia, por sua vez, a outros textos da obra. Mas convém questionar: será que ainda poderiam interessar aos leitores uma análise de correspondências de Ernest Renan com sua irmã Henriqueta, uma peça de comemoração do tricentenário de Camões, uma evocação do Senado dos anos 1860, um discurso proferido na cerimônia da pedra fundamental para a estátua de José de Alencar e um recorte da produção contística do autor representado por oito contos publicados entre 1883 e 1895? Deixemos a pergunta por ora em suspenso.

Em 28 de julho de 1899, menos de um ano após a publicação do anúncio em Iaiá Garcia, Machado de Assis escreve a Magalhães de Azeredo, informando-o de que as Páginas recolhidas logo seriam lançadas, depois de impressas em Paris, onde também seria feito Dom Casmurro: “O primeiro não é propriamente novo, segundo se vê bem do título, mas também não é reimpressão de outro livro” (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 395). Desse modo, depreende-se de tal comentário que, mesmo não sendo o livro em questão composto de textos novos, não deixava de desfrutar do estatuto de obra nova. A sutil diferença reforça a ideia de que a produção do objeto livro seria relevante para a sua leitura, pois, se todos os textos saíram previamente na imprensa e sofreram poucas modificações,10 10 O cotejo entre os textos que compõem a miscelânea e suas versões estampadas nos periódicos revela que foram poucas as alterações substanciosas feitas nessa transposição de um suporte ao outro. As mudanças mais numerosas dizem respeito a questões de ortografia, pontuação, supressão e/ou troca de palavras. No caso das crônicas, apenas duas apresentam cortes de trechos mais extensos: “Vae soli!” e “O sermão do Diabo”. sua reunião em um novo suporte, sua disposição (que não seguia um critério cronológico) e os títulos designados (no caso das crônicas) produziriam um item novo, ou seja, atualizariam os horizontes de leitura que incluem associações interpretativas por parte dos leitores na busca de uma unidade de sentido para o que lhes é apresentado na edição de 1899.11 11 Alguns eixos temáticos permeiam as Páginas recolhidas, dentre eles está a relativização de absolutos; a exploração das relações entre o finito e o infinito, quando a eternidade esbarra nas limitações da vida humana; a realidade como fruto da perspectiva adotada para compreendê-la. Um conto que parece sintetizar isso é “Ideias de canário”, no qual a pequena ave altera sucessivamente suas definições sobre o significado da palavra “mundo” à medida que muda de ambiente. O perspectivismo permeia o livro em diversos textos e apresenta ao leitor a noção de que um objeto supostamente determinado admite mais de uma compreensão acerca de sua natureza, estabelecendo-se uma realidade multifacetada formada a partir da experiência do sujeito e da visão por ele projetada. Se, de um lado, há a constância de fenômenos naturais e a queixa da mesmice da vida - muito presente no discurso do Eclesiastes, tantas vezes referenciado nas crônicas -, há também evidências de que a percepção dos acontecimentos é diferente em cada momento, para cada pessoa. A transitoriedade das definições e a impossibilidade de o ser humano alcançar a eternidade só são superadas pela expressão artística, única forma no livro que não se mostra perecível à ação temporal.

Não se sabe exatamente o dia em que a obra foi lançada. A carta a Magalhães de Azeredo indica que o livro estava no prelo em julho. As notas da imprensa sobre o volume começaram a sair na primeira semana de setembro, mês em que Machado escreveu a Hippolyte Garnier apontando “defeitos de execução material” nas Páginas recolhidas, ao que o editor respondeu que passaria as “justas observações” (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 419) ao empregado. Em dezembro do mesmo ano, Machado escrevia ao editor solicitando que enviasse uma nova remessa de tal título, pois ele “já se esgotou há muito tempo (falo dos volumes em brochura) […]. Há pessoas, como o Sr. sabe, que preferem comprar em brochuras” (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 445). Em 12 de janeiro de 1900, Hippolyte Garnier avisava ao autor que as Páginas recolhidas entravam no prelo (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 452). A partir desses dados objetivos, podemos responder afirmativamente à pergunta deixada em aberto: sim, a miscelânea desses gêneros diversos ainda falava ao espírito do público leitor.

A editora Garnier contava em seu catálogo, até o lançamento das Páginas recolhidas, com oito12 12 Em ordem cronológica das publicações da casa editorial Garnier: Contos fluminenses (1870), Ressurreição (1872), Histórias da meia-noite (1873), Helena (1874), Histórias sem data (1884), Quincas Borba (2ª edição, 1896), Memórias póstumas de Brás Cubas (3ª edição, 1896), Iaiá Garcia (2ª edição, 1897). obras de Machado de Assis, das quais três eram coletâneas: Contos fluminenses (1870), Histórias da meia-noite (1873) e Histórias sem data (1884). O primeiro livro teve uma segunda edição publicada sem o conhecimento do autor em 1899, o que aborreceu Machado, conforme mencionado anteriormente. Considerando outras obras machadianas, podemos ver que não era comum reimprimir um livro meses depois de seu lançamento. Contos fluminenses, cuja tiragem inicial foi de mil exemplares (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 177), só foi reimpresso 29 anos depois; Iaiá Garcia, 19 anos. Casos mais bem-sucedidos foram o de Memórias póstumas de Brás Cubas, que ganhou três edições em um intervalo de 15 anos (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 184), e de Quincas Borba, que vendeu uma tiragem de mil exemplares e cinco anos depois saiu em uma tiragem com cem exemplares a mais que a primeira (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, 1939MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Exposição Machado de Assis. Centenário de nascimento de Machado de Assis (1839-1939). Rio de Janeiro, 1939., p. 185).

Entretanto, depois da publicação das Páginas recolhidas, outra obra obteve grande sucesso: Dom Casmurro. Ela ainda não havia chegado às livrarias, e Garnier já mencionava que uma reimpressão seria feita dois meses depois (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 452). Mas o que tudo isso pode revelar sobre a miscelânea de 1899? A primeira observação a ser feita repousa no fato de que, pela primeira vez, um título machadiano, que não era do gênero romance, alcançava ampla aceitação do público, no sentido de ter encontrado compradores ávidos o bastante para justificar uma nova reimpressão em um curto intervalo de tempo. A partir dessa afirmação é possível conjecturar que a motivação da compra, por parte desses leitores, deveu-se ao apreço que tinham pelo conteúdo, seja por já conhecerem os textos do volume (uma vez que todos eles já haviam sido impressos em periódicos anteriormente, com exceção do conto “Lágrimas de Xerxes”13 13 A pesquisa feita na Hemeroteca Digital não conseguiu localizar “Lágrimas de Xerxes”. Na edição conjunta das Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha, Marta de Senna, citando J. Galante de Sousa, afirma que não foram encontrados registros de uma publicação anterior do conto. (SOUSA, Bibliografia de Machado de Assis apud ASSIS, Páginas recolhidas/ Relíquias de casa velha, p. xi.) ), seja pela certeza da qualidade literária de um novo livro de Machado de Assis, autor de largo prestígio e presidente da Academia, seja pela curiosidade de ser surpreendido por algum texto que pudesse ter escapado à leitura das folhas da imprensa - como comenta Graça Aranha, em carta a Machado, que não tinha lido ainda “O caso da vara”, “Eterno” e “Missa do Galo” (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 427).

É verdade que a venda surpreendeu o próprio autor que, em carta para Magalhães de Azeredo, datada de 7 de novembro de 1899, escrevia que:

[...] ao contrário do que supunha, este livro teve grande saída, mas o editor mandou só a primeira remessa, de maneira que muita gente espera por outros exemplares, que ainda não vieram. Meti aí várias coisas. Algumas delas foram novas para muitos; exemplo, a comédia do centenário de Camões; Tu só, tu, puro amor… (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 433-434)

A comédia Tu só, tu, puro amor… pode ter sido um texto chamariz para a venda do livro, visto que teve boa repercussão à época. Foi encenada no Teatro D. Pedro II e contou com a presença do imperador e da imperatriz. Segundo Ivan Teixeira, “o monarca registraria o evento em carta à condessa de Barral, escrevendo nas páginas de sua intimidade que o ‘pequeno drama de Machado de Assis’ fora ‘escrito com muito talento’” (TEIXEIRA, 2010TEIXEIRA, Ivan. O altar e o trono. Cotia: Ateliê Editorial; Campinas: Editora da Unicamp, 2010., p. 120). Além do elogio do imperador, “Tu só, tu, puro amor… [foi] considerada por Teófilo Braga [um dos organizadores das comemorações camonianas] a melhor composição dramática existente sobre Camões” (MACHADO, 2003MACHADO, Ubiratan (Org.). Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro: EdUerj, 2003., p. 196). Ela foi estampada na Revista Brasileira, em 1880, e saiu em uma edição especial numerada de cem exemplares pela casa Lombaerts, no ano seguinte.

Outra curiosidade sobre a história dessa edição diz respeito ao preço. As Páginas recolhidas eram um dos títulos com valor mais alto entre as obras machadianas - 5$000 o volume encadernado, 4$000 a brochura -, assim como Contos fluminenses, Dom Casmurro e Iaiá Garcia, conforme dados consultados em extrato do catálogo da casa editorial em 1901. Uma hipótese para a determinação desse valor talvez esteja relacionada à data de publicação, os quatro volumes eram as edições mais recentes da produção machadiana até então: Iaiá Garcia tivera uma reedição em 1897; Contos fluminenses, em 1899; Dom Casmurro e Páginas recolhidas, em 1900.

A criação do livro-miscelânea deve ser entendida considerando também o contexto de produção da Garnier no final do século XIX. Após a morte de Baptiste Louis, a gestão da empresa passou para as mãos de seu irmão, Hippolyte Garnier, cuja administração se pautou pelo conservadorismo em termos editoriais. Não se arriscava a publicar novos nomes, e a maioria do catálogo compunha-se por escritores que já eram publicados antes por Baptiste Louis, como Aluísio Azevedo, Alfredo Varela, Nestor Vítor dos Santos, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Afonso Celso, visconde de Taunay, Sílvio Romero, Domício da Gama, Clóvis Beviláqua, Antônio Salles, Maximino Maciel, João do Rio, Graça Aranha, José Verissimo, Alberto de Oliveira e Machado de Assis (HALLEWELL, 2005HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. 2a ed. rev. e ampl. São Paulo: Edusp , 2005., p. 269). Outra medida recorrente era a edição de coleções, “em que a oferta de algum título individual atrairia o leitor, levando-o a adquirir outros volumes da série” (HALLEWELL, 2005HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. 2a ed. rev. e ampl. São Paulo: Edusp , 2005., p. 261). Nesse sentido, talvez Garnier pensasse ser vantajoso o lançamento de um livro que reunia textos de natureza diversa: era um modo de o leitor ter acesso à multiplicidade do escritor Machado de Assis como jornalista, cronista, contista, dramaturgo, orador.

Apesar do relativo sucesso em termos de vendas, a recepção das Páginas recolhidas na imprensa não se revelou muito numerosa, como já mencionado anteriormente, e pouco foi dito sobre a miscelânea. Para Medeiros e Albuquerque, a originalidade perpassava todos os textos e, ao retomar o termo usado pelo próprio Machado para definir seu livro, afirmou que a “salada” demonstrava as “várias faces do seu talento” (SANTOS, 1899SANTOS, J. dos. [Medeiros e Albuquerque]. Chronica litteraria, A Notícia, Rio de Janeiro, n. 213, p. 2, 8 e 9 set. 1899. Disponível em: <Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=830380&pagfis=5759 >. Acesso em: 20 fev. 2019.
http://memoria.bn.br/docreader/DocReader...
, p. 2). José Verissimo foi o único a opinar a respeito da união dessas folhas diversas, sugerindo que poderia ser feito um volume dedicado ao teatro e outro para a crítica. Também expressou não entender a inclusão da comédia Tu só, tu, puro amor… na obra e reforçou, em outro trecho do artigo, seu desejo de ver um livro com as impressões de Machado sobre política, artes, jornalismo, no qual “O velho Senado” entraria como um capítulo (VERISSIMO, 1899VERISSIMO, José. Revista Brasileira, Rio de Janeiro, tomo XIX, n. 19, jul. a set. 1899, p. 372. Disponível em: <Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=139955&pagfis=14269 >. Acesso em: 20 fev. 2019.
http://memoria.bn.br/docreader/DocReader...
, p. 372).

Talvez a diversidade dos textos das Páginas recolhidas, em seus assuntos e gêneros, traduzisse algum sentido implícito partilhado entre autor e público leitor: eles abordam um amplo quadro de acontecimentos dos anos 1890 e seus reflexos políticos e econômicos. A Revolta da Armada, as repressões florianistas, o Encilhamento, a corrupção de políticos, a Bolsa de Valores são elementos que se juntam à aflição de viver no período de transformações retratado nas crônicas. A escravidão é assunto tangenciado nos contos e na evocação “O velho Senado”. A mudança dos grupos políticos no poder, como demonstra principalmente este último texto, retoma as vitórias liberais no cenário nacional. As homenagens trazem um recorte do panorama cultural e celebram o trabalho das personalidades de que tratam, sendo valorizados a imaginação de caráter inventivo de Alencar, os sacrifícios e a inteligência de Henriqueta Renan; o prazer de B.L. Garnier em trabalhar. Assim, torna-se possível identificar nessas Páginas recolhidas registros da sociedade pelos olhos machadianos, que se debruçam sobre aspectos econômicos, políticos, sociais e culturais de sua época, mas que, por sua consciência e habilidade (em termos textuais e editoriais), são passíveis de novas leituras à medida que o leitor se afasta do contexto original de sua produção.

Quelque diversité d’herbes qu’il y ayt…?

O trabalho de rastrear o percurso da edição das Páginas recolhidas revela que a ideia do autor de selecionar diversos de seus textos publicados anteriormente na imprensa resultou em um objeto cultural que encontrou grande aceitação por parte do público leitor da época. Trata-se do primeiro livro machadiano a ganhar reimpressão em um curto intervalo de tempo. Ao mesmo tempo, tal ineditismo amplia-se quando se levam em conta outros dois fatores relativos a esse título: ele se destaca como a primeira miscelânea elaborada pelo autor e o primeiro - e único publicado em vida - a conter um recorte de sua vasta produção cronística.

As hipóteses esboçadas ao longo deste artigo visam a tentar entender os pressupostos relativos à edição do livro, que sofreria alterações em futuras reedições.14 14 Referimo-nos, em específico, à quinta edição do livro, publicada em 1944, momento em que os direitos relativos à obra de Machado passaram da Briguiet-Garnier para a W.M. Jackson, empresa “pioneira na venda de coleções a domicílio pelo sistema de crediário” (HALLEWELL, O livro no Brasil: sua história, 2005, p. 268). Nessa nova casa, Páginas recolhidas perdeu as seguintes partes: “Henriqueta Renan”, “Tu só, tu, puro amor…” e “Entre 1892 e 1894” (que reunia um total de seis crônicas). Ao mesmo tempo, ganhou contos que se achavam esparsos e discursos pronunciados na Academia Brasileira de Letras. Talvez Machado tenha desejado dar ao público um compilado de seus escritos nos diferentes gêneros, apoiado pela política editorial de Garnier e preocupado com os efeitos de sua saúde sobre seu trabalho. Paralelamente, também se mostra possível, e uma hipótese não exclui a outra, pensar que a salada oferecida ao leitor da edição de 1899 foi feita de forma consciente, para que houvesse unidade semântica em meio à diversidade, fato inferido tanto pelas temáticas que perpassam o livro quanto por sua própria materialidade. O objeto em si pressupõe uma unidade projetada pelo escritor desde as primeiras páginas, elemento depreendido a partir das indicações que nos são dadas pela epígrafe do volume e também pelo prefácio. Conforme se disse anteriormente, o engajamento de Machado com o processo de feitura de seus livros demonstra que eles eram muito bem pensados. Assim como o sabor das saladas é o resultado da mistura das folhas com o tempero, também as Páginas recolhidas apresentariam unidade de sentido, e o envolvimento de Machado na escolha dos ingredientes para compor sua obra revelou-se essencial para que ela caísse no gosto do público.

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  • SANTOS, J. dos. [Medeiros e Albuquerque]. Chronica litteraria, A Notícia, Rio de Janeiro, n. 213, p. 2, 8 e 9 set. 1899. Disponível em: <Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=830380&pagfis=5759 >. Acesso em: 20 fev. 2019.
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  • TEIXEIRA, Ivan. O altar e o trono. Cotia: Ateliê Editorial; Campinas: Editora da Unicamp, 2010.
  • VERISSIMO, José. Revista Brasileira, Rio de Janeiro, tomo XIX, n. 19, jul. a set. 1899, p. 372. Disponível em: <Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=139955&pagfis=14269 >. Acesso em: 20 fev. 2019.
    » http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=139955&pagfis=14269
  • VIANA FILHO, Luís. A vida de Machado de Assis. Edição comemorativa do sesquicentenário de nascimento de Machado de Assis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
  • VIRGILLO, Carmelo (Org.). Correspondência de Machado de Assis com Magalhães de Azeredo. Instituto Nacional do Livro: Rio de Janeiro, 1969.

  • 1
    Mostra do caráter mais genérico de tais textos preambulares, em Histórias da meia-noite, o autor registra seu agradecimento à recepção obtida por seu primeiro romance; em Várias histórias, defende o gênero conto; em Histórias sem data e Relíquias de casa velha explica o título dos volumes; em Papéis avulsos, confessa a unidade presente na seleção por ele realizada a qual poderia parecer, à primeira vista, aleatória.
  • 2
    Machado de Assis era aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional e, segundo Luís Viana Filho, não era habilidoso manejando os tipos, escapando do trabalho para ler. A displicência o fez ser levado até o diretor: Manuel Antônio de Almeida, cuja reprimenda foi abrandada quando este descobriu o prazer que o funcionário tinha pelos livros. (VIANA FILHO, 1989VIANA FILHO, Luís. A vida de Machado de Assis. Edição comemorativa do sesquicentenário de nascimento de Machado de Assis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989., p. 10-11.)
  • 3
    Trata-se do livro de poesia chamado Inspirações da infância, o qual acabou não sendo publicado, malgrado o empenho de Machado para tanto.
  • 4
    Livro de poesias com o qual Magalhães de Azeredo estreou em tal gênero textual. A obra foi publicada pela Empreza Litteraria e Typographica do Porto.
  • 5
    A temática da ortografia ocupou as sessões da Academia Brasileira de Letras entre 1906 e 1907. As opiniões se dividiam em duas correntes: os defensores de uma reforma pautada por critérios fonéticos - apoiadores do projeto de Medeiros e Albuquerque - e aqueles afeitos à etimologia das palavras - dentre os quais estava Salvador de Mendonça, que, na sessão de 4 de julho de 1907, fez emendas à proposta do colega. Segundo as atas da ABL, a votação começou em 11 de julho de 1907 (RIBEIRO, “A Reforma Ortográfica da Academia Brasileira de Letras, em 1907”, p. 207). Machado de Assis escreveu a Joaquim Nabuco sobre a discussão da reforma ortográfica (na época o amigo encontrava-se fora do Brasil), dizendo que: “[...] é negócio que tem interessado o público e alguns estudiosos” (ARANHA, Machado de Assis & Joaquim Nabuco: correspondência, p. 147). A votação foi favorável à ortografia de base fônica, estabelecendo entre outras mudanças a grafia “Brazil”.
  • 6
    Desdobramento do que aqui se discute, mostra-se recorrente em Machado a encenação do universo do livro e da edição no interior de sua própria obra ficcional. Bem conhecida, por exemplo, é sua teoria acerca das “edições humanas”, que ganhou corpo no capítulo 27 das Memórias póstumas de Brás Cubas: “Deixa lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” (ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 99). Todavia, por uma questão de espaço e escopo, não se examinará tal questão no presente artigo.
  • 7
    Para além disso, a passagem de Machado por diferentes estabelecimentos editoriais, quer como colaborador, quer como autor, estreitou seu contato com grandes editores em atividade no Brasil do século XIX, com destaque para Paula Brito, Baptiste Louis Garnier e Henri Lombaerts, sobre os quais produziu notas e textos encomiásticos. A respeito do primeiro e do segundo destacou, em crônica de 1865, saída no Diário do Rio de Janeiro: “Paula Brito foi o primeiro editor digno desse nome que houve entre nós. Garnier ocupa hoje esse lugar, com as diferenças produzidas pelo tempo e pela vastidão das relações que possui fora do país” (ASSIS, Obra completa em quatro volumes, v. 4, p. 238). Sobre Garnier, escreveu ainda uma crônica-necrológio que fecha a primeira edição de Páginas recolhidas. Quanto a Lombaerts, considerava-o um “editor esclarecido e pontual”, além de “desinteressado, em prejuízo dos negócios a cuja frente esteve até o último dia útil da sua atividade” (ASSIS, 1897_______. Henrique Lombaerts. A Estação, Rio de Janeiro, ano 26, n. 13, 15 jul. 1897, s.p. [Suplemento Literário]., s.p.).
  • 8
    Não por acaso, no topo da folha de rosto da primeira edição de Páginas recolhidas, logo depois do nome de Machado, aparece em corpo menor, mas em capitulares, a indicação “DA ACADEMIA BRASILEIRA”. Trata-se de um índice de consagração literária que passará a figurar, a partir de então, nos frontispícios das edições e reedições dos livros do autor. A título de exemplo, em carta de 8 de outubro de 1899, Hippolyte Garnier tranquiliza Machado ao destacar que, na reimpressão de Contos fluminenses, estaria “atento para que as menções da Academia Brasileira e Nova edição” não ficassem ausentes (ASSIS, 2011_______. Correspondência de Machado de Assis. 5 tomos. Rio de Janeiro: ABL, tomo III 1890-1900, 2011., p. 419).
  • 9
    Machado ainda publicaria mais cinco livros, todos editados pela casa Garnier, a saber: Dom Casmurro (1899), Poesias completas (1901), Esaú e Jacó (1904), Relíquias de casa velha (1906) e Memorial de Aires (1908).
  • 10
    O cotejo entre os textos que compõem a miscelânea e suas versões estampadas nos periódicos revela que foram poucas as alterações substanciosas feitas nessa transposição de um suporte ao outro. As mudanças mais numerosas dizem respeito a questões de ortografia, pontuação, supressão e/ou troca de palavras. No caso das crônicas, apenas duas apresentam cortes de trechos mais extensos: “Vae soli!” e “O sermão do Diabo”.
  • 11
    Alguns eixos temáticos permeiam as Páginas recolhidas, dentre eles está a relativização de absolutos; a exploração das relações entre o finito e o infinito, quando a eternidade esbarra nas limitações da vida humana; a realidade como fruto da perspectiva adotada para compreendê-la. Um conto que parece sintetizar isso é “Ideias de canário”, no qual a pequena ave altera sucessivamente suas definições sobre o significado da palavra “mundo” à medida que muda de ambiente. O perspectivismo permeia o livro em diversos textos e apresenta ao leitor a noção de que um objeto supostamente determinado admite mais de uma compreensão acerca de sua natureza, estabelecendo-se uma realidade multifacetada formada a partir da experiência do sujeito e da visão por ele projetada. Se, de um lado, há a constância de fenômenos naturais e a queixa da mesmice da vida - muito presente no discurso do Eclesiastes, tantas vezes referenciado nas crônicas -, há também evidências de que a percepção dos acontecimentos é diferente em cada momento, para cada pessoa. A transitoriedade das definições e a impossibilidade de o ser humano alcançar a eternidade só são superadas pela expressão artística, única forma no livro que não se mostra perecível à ação temporal.
  • 12
    Em ordem cronológica das publicações da casa editorial Garnier: Contos fluminenses (1870), Ressurreição (1872), Histórias da meia-noite (1873), Helena (1874), Histórias sem data (1884), Quincas Borba (2ª edição, 1896), Memórias póstumas de Brás Cubas (3ª edição, 1896), Iaiá Garcia (2ª edição, 1897).
  • 13
    A pesquisa feita na Hemeroteca Digital não conseguiu localizar “Lágrimas de Xerxes”. Na edição conjunta das Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha, Marta de Senna, citando J. Galante de Sousa, afirma que não foram encontrados registros de uma publicação anterior do conto. (SOUSA, Bibliografia de Machado de Assis apud ASSIS, Páginas recolhidas/ Relíquias de casa velha, p. xi.)
  • 14
    Referimo-nos, em específico, à quinta edição do livro, publicada em 1944, momento em que os direitos relativos à obra de Machado passaram da Briguiet-Garnier para a W.M. Jackson, empresa “pioneira na venda de coleções a domicílio pelo sistema de crediário” (HALLEWELL, O livro no Brasil: sua história, 2005, p. 268). Nessa nova casa, Páginas recolhidas perdeu as seguintes partes: “Henriqueta Renan”, “Tu só, tu, puro amor…” e “Entre 1892 e 1894” (que reunia um total de seis crônicas). Ao mesmo tempo, ganhou contos que se achavam esparsos e discursos pronunciados na Academia Brasileira de Letras.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2020
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2020

Histórico

  • Recebido
    15 Dez 2019
  • Aceito
    18 Fev 2020
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