Resenha de Machado de Assis: crítica literária e textos diversos

Review of Machado de Assis: crítica literária e textos diversos

RESENHAS

Resenh a de Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, org. de Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo

Review of Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, ed. by Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek and Daniela Mantarro Callipo

Anco Márcio Tenório Vieira

Universidade Federal de Pernambuco Recife, Pernambuco, Brasil

ASSIS, Machado de. Machado de Assis: crítica literária e textos diversos. Organização Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo. São Paulo: Unesp, 2013, 728p.

Nas últimas duas décadas a comunidade acadêmica e os leitores de Machado de Assis vêm, pouco a pouco, sendo presenteados com cuidadosas edições das suas crônicas, correspondências, contos e textos de críticas literária e teatral. O esmero com que esses livros são editados nos lembra, por sua vez, uma triste realidade do nosso mercado editorial: o quanto foram e continuam sendo desleixadas as publicações das chamadas ''obras completas'' do autor, a cargo, no passado, das editoras B. L. Garnier e W. M. Jackson Inc. e, no presente, da Nova Aguilar. Para sanar os inúmeros problemas que, amiúde, foram e são encontrados em todos esses empreendimentos editoriais das ''obras completas'' de Machado, os organizadores dessas novas edições se pautaram por seguir alguns procedimentos metodológicos: 1) foram revisitados os jornais e revistas que guardam os originais dos textos que vinham e vêm sendo publicados nas ''obras completas'' e, por decorrência, se promoveu um novo estabelecimento desses textos, corrigindo os muitos equívocos e as muitas adulterações e descuidos encontrados nas edições da Garnier, Jackson e Aguilar; 2) por meio de pesquisa minuciosa, inúmeros textos inéditos que estavam esquecidos nos jornais e revistas da segunda metade do século XIX e primeira década do XX foram resgatados pelos pesquisadores e organizadores dessas novas obras; 3) todas essas novas edições trazem notas de rodapé (algumas excessivamente generosas e elucidativas) que informam para o leitor contemporâneo quem é quem entre os nomes e os fatos citados por Machado de Assis e, principalmente, em quais contextos aquelas crônicas, correspondências, contos ou críticas literária e teatral foram produzidos; 4) por fim, encontramos nesses livros um predicado bibliográfico que não é muito comum entre as obras publicadas no Brasil: a inserção de índices onomásticos temáticos.

A relevância dessas novas edições é que elas nos mostram como o conjunto dos gêneros literários (romances, contos, novelas, poemas e peças teatrais) e não- literários (críticas literária e teatral, crônicas, missivas, discursos, ensaios e artigos jornalísticos) visitados por Machado (seja como crítico, seja como escritor) formam ''um todo coerentemente organizado''.1 1 SANTIAGO, Retórica da verossimilhança, p. 29-30. Assim, a publicação de Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, organizado por Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo, ajuda-nos a compreender melhor como, passo a passo, ele, o autor de Dom Casmurro, foi superando as limitações culturais do meio em que vivia e, por desdobramento, foi percebendo em verticalidade os meandros da linguagem, das formas e dos gêneros literários que cultivou ao longo de mais de cinco décadas. Não só: nesse longo e árduo processo de aprendizagem, em que o exercício da crítica literária foi urdido ao seu projeto de escritor literário, encontramos um caso raro de quem, buscando exceder os seus próprios limites intelectuais, termina por tomar essa aprendizagem como ferramenta crítica para desatar os nós que prendiam as literaturas de língua portuguesa a uma posição periférica ante as literaturas europeias. Mais: termina por perfazer, em sua própria obra literária, aquilo que apregoara em seus artigos e ensaios de crítica.

Desse modo, a edição de Machado de Assis: crítica literária e textos diversos – encerrando, em um único volume, textos que estavam diluídos tanto nas edições das suas obras completas e nos jornais revistas do século XIX quanto em obras como Dispersos de Machado de Assis (1965) coligidos e anotados por Jean-Michel Massa – oferece-nos uma visão ampla da sua fértil produção ensaística e como, artigo após artigo, podemos perceber as linhas programáticas de Machado se interiorizando na sua obra ficcional.

No entanto, apesar de transcreverem um número significativo de textos que estavam ausentes das obras completas de Machado, as organizadoras da obra aplicaram, na seleção e organização deste volume, uma metodologia que irá promover mais confusão no seu leitor do que clareza. Vejamos.

Na ''Nota Explicativa'', que abre o livro, somos informados que

Os textos de crítica literária de Machado de Assis, organizados nesta edição, foram extraídos de jornais da época, revistas e primeiras edições de livros, pesquisa que tornou possível localizar número significativo de escritos que não tinham sido ainda publicados pela Garnier, Jackson e Aguilar. O trabalho com os impressos em fontes primárias foi pautado pela preservação da maior fidelidade possível ao documento de base e pelo mínimo de intervenções.2 2 AZEVEDO et alii, Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, p. 11.

Ou seja, se ''O trabalho com os impressos em fontes primárias foi pautado pela preservação da maior fidelidade possível ao documento de base e pelo mínimo de intervenções'', o leitor pode deduzir (pois nada foi dito em contrário) que o mesmo procedimento foi levado a cabo em relação aos escritos que tinham sido publicados pela Garnier, Jackson e Aguilar. Não só, as organizadoras assinalam que essas ''intervenções'' são puramente normativas: ''erros tipográficos'', ''atualização ortográfica'', ''erros de concordância'', pontuação truncada, intitular artigos sem nomes, uniformizar os itálicos e os negritos (estrangeirismos, títulos de obras etc.). Em momento algum é dito que os textos reunidos no livro sofreriam, além dessas ''intervenções'' normativas, cortes, ou mesmo teriam determinadas passagens totalmente suprimidas.

Quais critérios, então, foram perseguidos para excluir essa ou aquela passagem desse ou daquele artigo? Nada nos é dito. No entanto, a deduzir pela leitura dos artigos reunidos nessa obra, podemos concluir que as organizadoras só recolheram ao seu volume as passagens em que Machado trata única e exclusivamente de literatura. Quando o mesmo artigo também traz comentários sobre obras dramáticas, ou sobre livros de memórias, de política, de história... todas essas passagens são suprimidas. Como a grande maioria dos textos de Machado aborda sempre várias obras, de gêneros distintos (como uma espécie de balanço da semana ou balanço do mês), terminamos por nos deparar com uma série de artigos completamente mutilados. Pior, sem que o leitor seja informado sobre o que foi excluído do texto, ou se o que foi excluído tem ou não alguma relevância para entendermos melhor porque ele, Machado, resolveu encerrar em um mesmo artigo livros que, aparentemente, pertencem a gêneros tão distintos.

Um exemplo do que acabamos de expor (exemplo este que poderia ser dilatado em vários outros exemplos que se repetem ao correr do livro), temos no ensaio publicado em 22 de fevereiro de 1862, no Diário do Rio de Janeiro. Este texto versa sobre várias publicações, sendo que a primeira a ser abordada é o Compêndio da gramática portuguesa, de Vergueiro e Pertence. Porém, nada obstante os comentários de Machado encerrarem sete parágrafos sobre essa obra, eles foram completamente suprimidos (o texto pode ser lido em sua integridade na edição da Jackson). Assim, se valendo do sinal gráfico do colchete ''[...]'', o artigo de Machado só começa a partir do seu oitavo parágrafo. O leitor, assim, por meio do ''[...]'', sabe que antes daquele ''início de artigo'' havia um outro texto de Machado, mas qual? E versando sobre o quê? Não só: ainda nesse mesmo artigo, Machado faz apreciações sobre a peça Mãe, de José de Alencar, e sobre o seu desgosto com a política, cujas misérias ele compara com a personagem de D. Quixote. Ambas as passagens também foram excluídas.

Assim, cabe ao leitor, tanto neste caso quanto em vários outros que podem ser observados ao longo do livro, dois caminhos: ou se volta para as obras da Garnier, Jackson e Aguilar, isto é, retoma a leitura de um material que, em tese, está cheio de gralhas, ou faz o mesmo percurso das organizadoras de Machado de Assis: crítica literária e textos diversos: retoma os originais que lhe serviram de fontes: revistas, jornais e as primeiras edições dos livros de Machado. Ao proceder dessa maneira, tanto o leitor quanto o especialista da sua obra terminam por ter em mãos um livro que, nada obstante todos os seus méritos editoriais (índice onomástico, notas de rodapé, correções gramaticais, normatizações de fontes etc.), obriga-os a voltarem às mesmas fontes livrescas que eles, os próprios organizadores de Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, condenaram, por resguardarem uma grande quantidade de gralhas tipográficas.

Talvez, quem sabe, uma nova edição das obras completas de Machado de Assis que seja digna desse nome, possa publicar os seus textos não apenas em sua integridade, mas também com todos os predicados editoriais que elencamos no início deste artigo.

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Referências:

ASSIS, Machado de. Machado de Assis: crítica literária e textos diversos. Organização Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo. São Paulo: Unesp, 2013, 728p.

Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo. São Paulo: Unesp, 2013.

____. Dispersos de Machado de Assis. Coligidos e anotados por Jean-Michel Massa. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1965.

SANTIAGO, Silviano. Retórica da verossimilhança. In: ____. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 29-48.

Anco Márcio Tenório Vieira, professor Associado 1, docente do Programa de Pós- Graduação em Letras da UFPE, é autor de Luiz Marinho: o sábado que não entardece (FCCR, 2004), Adultérios, biombos e demônios (ensaios sobre literatura, teatro e cinema) (PPGL, 2009) e Orley Mesquita: poesia e prosa (CEPE, 2012). É coautor de O caminho se faz caminhando: 30 anos do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE (PPGL, 2006) e Hermilo Borba Filho e a Dramaturgia: diálogos pernambucanos (FCCR, 2010). E-mail: <ancovieira@yahoo.com.br>

  • 1
    SANTIAGO, Retórica da verossimilhança, p. 29-30.
  • 2
    AZEVEDO
    et alii,
    Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, p. 11.
    • ASSIS, Machado de. Machado de Assis: crítica literária e textos diversos. Organização Sílvia Maria Azevedo, Adriana Dusilek e Daniela Mantarro Callipo. São Paulo: Unesp, 2013,
    • ____. Dispersos de Machado de Assis. Coligidos e anotados por Jean-Michel Massa. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1965.

    1 SANTIAGO, Retórica da verossimilhança, p. 29-30. 2 AZEVEDO et alii, Machado de Assis: crítica literária e textos diversos, p. 11.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      10 Jul 2014
    • Data do Fascículo
      Jun 2014
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