Sir Thomas Browne, Lamb e Machado de Assis

Sir Thomas Browne, Lamb, and Machado de Assis

Resumos

O artigo revela uma alusão a Sir Thomas Browne nas Memórias póstumas de Brás Cubas, propondo conexões entre o texto machadiano e os Ensaios de Elia, de Charles Lamb.

Machado de Assis; citações e alusões; Charles Lamb


The article reveals an allusion to Sir Thomas Browne in The Posthumous Memoirs of Bras Cubas, proposing connections between the Machadian text and the Essays of Elia, by Charles Lamb.

Machado de Assis; citations and allusions; Charles Lamb


DA TRADIÇÃO CRÍTICA

Sir Thomas Browne, Lamb e Machado de Assis* * Este artigo foi publicado em Modern Language Notes, em março de 1954. Woodbridge, Jr., Benjamin M. "Sir Thomas Browne, Lamb, and Machado De Assis." MLN69:3 (1954), 188-189. © 1954 by The Johns Hopkins University Press. Translated and reprinted with permission of Johns Hopkins University Press.

Sir Thomas Browne, Lamb, and Machado de Assis

Benjamin Woodbridge, Jr.

University of California, Berkeley, Califórnia, Estados Unidos

RESUMO

O artigo revela uma alusão a Sir Thomas Browne nas Memórias póstumas de Brás Cubas, propondo conexões entre o texto machadiano e os Ensaios de Elia, de Charles Lamb.

Palavras-chave: Machado de Assis; citações e alusões; Charles Lamb.

ABSTRACT

The article reveals an allusion to Sir Thomas Browne in The Posthumous Memoirs of Bras Cubas, proposing connections between the Machadian text and the Essays of Elia, by Charles Lamb.

Keywords: Machado de Assis; citations and allusions; Charles Lamb.

A Machado de Assis em linha homenageia neste número, que marca o início da publicação de artigos em inglês, o professor e crítico norte-americano Benjamin Mather Woodbridge Jr. (1915-2007), um dos pioneiros dos estudos machadianos nos Estados Unidos. Woodbridge foi o autor da primeira tese em inglês sobre Machado de Assis, Pessimism in the writings of Machado de Assis: a study in the development of an attitude and its expression [Pessimismo nos escritos de Machado de Assis: um estudo sobre o desenvolvimento de uma atitude e sua expressão], defendida na Universidade de Harvard, em 1949.

A tese abriu caminho para sua longa atuação como professor de língua e literatura na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Nascido em 1915 em Austin, Texas, Woodbridge foi criado numa família bilíngue em Portland, estado de Oregon, tendo sido educado em inglês e francês. Seu pai lecionou línguas estrangeiras no Reed College, onde Benjamin graduou-se em línguas românicas em 1936. O talento e o conhecimento de várias línguas o habilitaram a entrar ainda muito jovem no mestrado e, logo em seguida, no doutorado em Harvard.

Em 1939, foi para a Université Libre de Bruxelles, na Bélgica, para dar continuidade aos estudos, interrompidos com a invasão alemã em 1940, o que obrigouWoodbridge a retornar aos Estados Unidos.

De 1940 a 1942, lecionou línguas estrangeiras na Universidade da Geórgia, função que deixou para aceitar um convite para lecionar na União Cultural Brasil- Estados Unidos, em São Paulo. No Brasil, onde ficou de 1943 a 1945, conheceu e se casou com Maria de Lourdes Prestes d'Albuquerque, com quem teve dois filhos, Michael e Maria Lúcia.

No retorno aos Estados Unidos, em 1945, atuou como instrutor de línguas românicas na Universidade do Texas e em 1946 pôde retornar ao programa de doutorado de Harvard, obtendo o título de doutor em 1949, com a tese sobre Machado de Assis.

Com o aumento do interesse pelo Brasil no pós-guerra, foi convidado a lecionar no Departamento de Português e Espanhol em Berkeley, onde fez uma carreira de 33 anos, passando pelas funções de instrutor, professor assistente, professor associado e professor titular, este último posto obtido em 1982. Na Universidade da Califórnia, em Berkeley, formou diversos professores de língua e literatura.

Ao longo de toda a carreira, contribuiu para publicações acadêmicas importantes, como a revista Romance Philology (1951-1982) e o Handbook of Latin

American Studies (1965-1982).

O interesse por Machado de Assis também se manteve ao longo de toda a carreira, juntamente com sua inclinação para Sá de Miranda, o outro escritor favorito em língua portuguesa.

Além do curto e esclarecedor artigo que reproduzimos aqui, publicou também o artigo "Machado de Assis – O encontro do artista com o homem", na Província de São Pedro, de Porto Alegre, em 1953.

Woodbridge aposentou-se em 1982 e morreu em Oakland, Califórnia, em 2007.

***

No capítulo CXXXV, "Oblivion", de suas Memórias póstumas de Brás Cubas (1880), Machado de Assis apresenta Brás a refletir sobre os seus cinquenta anos:

Venham mais dez [anos], e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que "cousa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio Esquecimento".

Vai em versaletes esse nome. Oblivion!1 1 ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 358.

Até onde sei, não se reparou que o inglês é Sir Thomas Browne. O texto, de Christian Morals, III, xxii, é o seguinte:

Ele [um homem de setenta ou oitenta anos] pode facilmente perceber o que é ser esquecido, tendo já vivido o suficiente para não encontrar quem consiga lembrar-se de seu Pai, ou mesmo dos amigos de sua juventude, e pode razoavelmente prever com que cara, em breve tempo, o há de encarar o esquecimento.2 2 BROWNE, Works, p. 149.

Parece improvável que Machado tenha colhido o texto diretamente de Browne; acho mais plausível que o tenha encontrado no ensaio de Lamb, "My Relations". Reduzindo os "setenta ou oitenta anos" de Browne a "sessenta ou setenta", Lamb fornece uma leve variante do texto, possivelmente citado de memória:

"Em tal lapso de tempo", diz ele [Browne], "um homem pode facilmente perceber o que é ser esquecido, tendo já vivido o suficiente para não encontrar quem consiga lembrar-se de seu pai, ou mesmo dos amigos de sua juventude, e pode razoavelmente prever com que cara, em breve tempo, o há de encarar o Esquecimento."3 3 LAMB, The Essays of Elia, p. 114.

As Memórias póstumas foram inicialmente publicadas em forma seriada, na Revista Brasileira em 1880. No ano seguinte, apareceram em livro, introduzidas por uma nota na qual Machado reconhecia Sterne, Xavier de Maistre e Lamb como modelos para a "forma livre" do seu romance.4 4 GOMES, Espelho contra espelho: estudos e ensaios, p. 58. Em edições posteriores, Machado omitiu o nome de Lamb; mas o testemunho de 1881 sugere que Elia estava fresco em sua mente na época em que compunha o livro. A redução feita por Lamb da idade de Browne é provavelmente responsável pela escolha de Machado de sessenta como ponto de partida para a observação. Um pormenor tipográfico também sustenta a minha hipótese: em nenhuma das edições de Christian Morals que tive oportunidade de consultar, a palavra "oblivion" está escrita em maiúsculas. Foi Lamb quem transliterou "oblivion" para "Oblivion", e presumivelmente é dele que Machado apropriou o truque.

Se eu estiver certo, esta é outra prova de que Machado era leitor de Lamb, para adicionar ao único exemplo citado por Eugênio Gomes: "a história 'O lapso' (de Histórias sem data, 1884), que não apenas inclui uma citação de 'The Two Races of Men', mas também exemplifica o tema desse ensaio". Gomes manifesta surpresa de que Machado tenha tomado tão pouco de um autor com quem tinha afinidades espirituais específicas.5 5 GOMES, loc. cit.; também suas Influências inglesas em Machado de Assis, p. 14. Uma leitura atenta dos Essays of Elia e de Machado de Assis bem pode revelar outras ressonâncias.

Apresentação de Hélio de Seixas Guimarães

Tradução de Marta de Senna

  • *
    Este artigo foi publicado em
    Modern Language Notes, em março de 1954. Woodbridge, Jr., Benjamin M. "Sir Thomas Browne, Lamb, and Machado De Assis."
    MLN69:3 (1954), 188-189. © 1954 by The Johns Hopkins University Press. Translated and reprinted with permission of Johns Hopkins University Press.
  • 1
    ASSIS,
    Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 358.
  • 2
    BROWNE,
    Works, p. 149.
  • 3
    LAMB,
    The Essays of Elia, p. 114.
  • 4
    GOMES,
    Espelho contra espelho: estudos e ensaios, p. 58.
  • 5
    GOMES,
    loc. cit.; também suas
    Influências inglesas em Machado de Assis, p. 14.
    • ASSIS,
    • BROWNE, Thomas. Works Ed. Geoffrey Keynes, I. Londres: Faber and Gwyer Limited, 1928.
    • GOMES, Eugenio. Espelho contra espelho: estudos
    • ____. Influências inglesas em Machado de Assis Bahia: [Imp. Regina], 1939. LAMB, Charles. The Essays of Elia Londres: Macdonald, [1952]

    * Este artigo foi publicado em Modern Language Notes, em março de 1954. Woodbridge, Jr., Benjamin M. "Sir Thomas Browne, Lamb, and Machado De Assis." MLN69:3 (1954), 188-189. © 1954 by The Johns Hopkins University Press. Translated and reprinted with permission of Johns Hopkins University Press. 1 ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 358. 2 BROWNE, Works, p. 149. 3 LAMB, The Essays of Elia, p. 114. 4 GOMES, Espelho contra espelho: estudos e ensaios, p. 58. 5 GOMES, loc. cit.; também suas Influências inglesas em Machado de Assis, p. 14.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      10 Jul 2014
    • Data do Fascículo
      Jun 2014
    Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 sl 38, 05508-900 São Paulo, SP Brasil - São Paulo - SP - Brazil
    E-mail: machadodeassis.emlinha@usp.br