Resenha de O Imaginário Trágico De Machado De Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, de Rogério de Almeida

Review of O Imaginário Trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, by Rogério de Almeida

Marcos Namba Beccari Sobre o autor
ALMEIDA, Rogério de. O imaginário trágico de Machado de Assis. : elementos para uma pedagogia da escolha. 2015. Képos, São Paulo: 216 p.

Não é inédita a ideia de que a obra machadiana, em sua configuração literária – portanto no imaginário ali arranjado –, expressa um determinado pensamento filosófico. O problema que acompanha historicamente essa ideia é antecipado por Hélio de Seixas Guimarães1 1 GUIMARÃES, Prefácio: uma leitura radical de Machado de Assis, p. 14. no prefácio de O imaginário trágico de Machado de Assis: as tentativas de explicar filosoficamente o universo machadiano são "invariavelmente acompanhadas da intuição de que talvez não houvesse fundo nem explicação". Por conseguinte, como atesta Alfredo Bosi,2 2 BOSI, Machado de Assis: o enigma do olhar, p. 11. "O que se tem até hoje como consenso é a qualificação da perspectiva de Machado de Assis por meio de epítetos negativos: cética, relativista, irônica, sardônica, sarcástica, pessimista, demoníaca".

Rogério de Almeida3 3 Professor livre-docente na Faculdade de Educação da USP. Trabalha com temas ligados à Antropologia do Imaginário, à Pedagogia da Escolha e à Filosofia Trágica. Escreveu, entre outros, O criador de mitos: imaginário e educação em Fernando Pessoa (São Paulo: Educ, 2011). parte da hipótese de que essa negatividade não reside na obra machadiana, mas na recusa de alguns intérpretes ante a visão trágica de Machado: "não se trata de ignorar o trágico, mas de recusá-lo de partida, contornando-o onde se mostra demasiado evidente".4 4 ALMEIDA, O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, p. 26. Tal recusa se dá pela tentativa de acomodar o pensamento de Machado a uma intenção filosófica "maior", como a renúncia de cunho jansenista ou schopenhaueriana, uma crítica aos processos histórico-sociais ou mero "recalque" de uma vida marcada por sofrimento. Ocorre que

Machado, se disseca a moral, não é para corrigir os costumes; se trata da filosofia, não é para buscar a verdade; se aborda política, não é para se posicionar ideologicamente; se traz à tona as estruturas ósseas da sociedade, não é para indignar ou propor mudanças.5 5 Idem, p. 24.

Sendo assim, ou admitimos que não pode haver filosofia machadiana, ou repensamos a própria noção de filosofia. Não obstante, a filosofia trágica pode ser definida, entre outras coisas, como "antifilosofia", como oposto da intenção metafísica de conhecer e intervir numa suposta ordem ou princípio do que existe.

Ora, Machado de Assis zombava justamente de filosofias que, a pretexto de conhecer o que existe, debruçam-se sobre o que não existe: conceitos e sentidos que não se encontram em lugar algum. De modo análogo, a filosofia trágica começa por reconhecer que o mundo é insignificante, isto é, não possui sentido inerente.6 6 Cf. ALMEIDA, Considerações sobre as bases de uma filosofia trágica; ROSSET, Lógica do pior; HIERRO, El saber trágico: de Nietzsche a Rosset. Se não possui sentido, não é interpretável, o que não impede de ser pensado: não cessamos de atribuir sentido a um mundo que é sem sentido. Essa ausência de sentido não implica que o mundo seja incompleto ou insuficiente; pelo contrário, implica que o mundo é completo em sua falta de sentido, não carece de nada – a exigência de sentido ocorre por "efeito" (humano, imaginário) e não como causa/necessidade.

É assim que o trágico da existência é tratado por autores historicamente tão díspares quanto Lucrécio, Montaigne, Hume, Nietzsche, Clément Rosset... e Machado de Assis. Com efeito, a interpretação inaugurada por Rogério de Almeida salienta o caráter trágico do imaginário machadiano. Expressão não de uma filosofia pessimista, niilista, transformadora ou lamentadora, e sim de uma filosofia trágica, que por sua vez não tem propriamente nada de "novo" a dizer, pois aquilo que mostra é o esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido.

Não se trata de denunciar as ilusões humanas, e sim de tornar visível e exaltar o espetáculo de nossas significações imaginárias. Constatação de que o mundo é privado de sentido, mas também de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. É essa intensidade que Rogério de Almeida enaltece ao pontuar que "a pior realidade por ele [Machado] imaginada vem sempre acompanhada de uma alegria estética arrebatadora".7 7 ALMEIDA, cit., p. 79. Significa que Machado não apenas constata o trágico, mas principalmente que ele não desaprova o que constata – aprovação esta que constitui, de modo geral, o fio condutor do livro em questão.

O imaginário trágico de Machado de Assis é composto por sete capítulos, os quais são dispostos basicamente em três partes: (1) argumentação da filosofia trágica expressa no imaginário machadiano; (2) análises pontuais de elementos filosóficos presentes em peças selecionadas; (3) desdobramentos da literatura machadiana para a educação. Em constante diálogo com intérpretes da literatura machadiana – como Alfredo Bosi, Antonio Candido, Raymundo Faoro, João Adolfo Hansen, Alcides Villaça, entre outros –, Rogério de Almeida ancora-se na perspectiva nietzschiana de Clément Rosset e nos estudos da antropologia do imaginário de Gilbert Durand para explicitar a filosofia trágica que se expressa nas obras de Machado de Assis.

Essa tarefa é levada a cabo mais detidamente na análise cuidadosa (distribuída nos cinco capítulos que sucedem o primeiro) de contos como "Singular ocorrência", "O espelho", "A causa secreta" e "A cartomante", além do capítulo "O delírio" das Memórias póstumas de Brás Cubas. Uma vez delineada a expressão estética machadiana (como conjunção entre uma existência insignificante e a alegria de viver), Rogério de Almeida abre caminho, no último capítulo, a uma pedagogia da escolha, cujos elementos dizem respeito às escolhas possíveis em relação ao dado trágico da existência: sua aprovação incondicional (escolha trágica), sua recusa (suicídio) ou a imposição de condicionantes (ilusão).

Creio que é nesse peculiar direcionamento que reside a principal contribuição desse livro: uma educação machadiana como forma de aprender a desaprender. Se a educação está condicionada à crença em uma ou mais verdades – não é possível educar sem transmitir valores, conhecimentos, visões de mundo etc. –, a suspensão da crença derivada do imaginário machadiano pode ser vista como "antieducativa". No entanto, há algo aí sendo ensinado: "Aprende-se a ver e a considerar o que existe (aparência). Desaprende-se o que, desalojado da existência concreta, vai buscar uma ideia qualquer de totalidade e universalidade para explicar em conjunto o que sempre é singular e plural".8 8 Idem, p. 197. Mais do que isso, esse horizonte trágico convoca à escolha da aprovação, isto é, a uma adesão incondicional da existência em todos os seus aspectos.

Donde a alegria machadiana "não se confunde com uma visão otimista, cândida ou serena de mundo. Pelo contrário, aparece justamente no que há de pior: no caráter insignificante da vida, eivada de dor e sofrimento".9 9 Idem, p. 204. Eis o aspecto formativo que Rogério de Almeida destaca na literatura machadiana: nenhuma intenção pedagógica de transformação, mas de aprovação do momento vivido, das contradições, das mazelas, das convenções, das circunstâncias ao acaso e, enfim, de uma existência sem sentido.

Referências

  • ALMEIDA, Rogério de. Considerações sobre as bases de uma filosofia trágica. Diálogos Interdisciplinares, UBC, Mogi das Cruzes, v. 2, p. 52-63, 2013. Disponível em: http://www3.brazcubas.br/ojs2/index.php/dialogos/article/view/37. Acesso em: 8 set. 2015.
    » http://www3.brazcubas.br/ojs2/index.php/dialogos/article/view/37
  • ALMEIDA, Rogério de. O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha. São Paulo: Képos, 2015.
  • BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Prefácio: Uma leitura radical de Machado de Assis. In: ALMEIDA, Rogério de. O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha. São Paulo: Képos, 2015, p. 13-20.
  • HIERRO, Rafael Del. El saber trágico: de Nietzsche a Rosset. Madrid: Ediciones del Laberinto, 2001.
  • ROSSET, Clément. Lógica do pior Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

  • 1
    GUIMARÃES, Prefácio: uma leitura radical de Machado de Assis, p. 14.
  • 2
    BOSI, Machado de Assis: o enigma do olhar, p. 11.
  • 3
    Professor livre-docente na Faculdade de Educação da USP. Trabalha com temas ligados à Antropologia do Imaginário, à Pedagogia da Escolha e à Filosofia Trágica. Escreveu, entre outros, O criador de mitos: imaginário e educação em Fernando Pessoa (São Paulo: Educ, 2011).
  • 4
    ALMEIDA, O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, p. 26.
  • 5
    Idem, p. 24.
  • 6
    Cf. ALMEIDA, Considerações sobre as bases de uma filosofia trágica; ROSSET, Lógica do pior; HIERRO, El saber trágico: de Nietzsche a Rosset.
  • 7
    ALMEIDA, cit., p. 79.
  • 8
    Idem, p. 197.
  • 9
    Idem, p. 204.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Dez 2015

Histórico

  • Recebido
    09 Set 2015
  • Aceito
    19 Out 2015
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